31 de dezembro de 2013

FRATERNIDADE, FUNDAMENTO E CAMINHO PARA A PAZ

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
PARA A CELEBRAÇÃO DO  XLVII DIA MUNDIAL DA PAZ
1º DE JANEIRO DE 2014


1. Nesta minha primeira Mensagem para o Dia Mundial da Paz, desejo formular a todos, indivíduos e povos, votos duma vida repleta de alegria e esperança. Com efeito, no coração de cada homem e mulher, habita o anseio duma vida plena que contém uma aspiração irreprimível de fraternidade, impelindo à comunhão com os outros, em quem não encontramos inimigos ou concorrentes, mas irmãos que devemos acolher e abraçar.

Na realidade, a fraternidade é uma dimensão essencial do homem, sendo ele um ser relacional. A consciência viva desta dimensão relacional leva-nos a ver e tratar cada pessoa como uma verdadeira irmã e um verdadeiro irmão; sem tal consciência, torna-se impossível a construção duma sociedade justa, duma paz firme e duradoura. E convém desde já lembrar que a fraternidade se começa a aprender habitualmente no seio da família, graças sobretudo às funções responsáveis e complementares de todos os seus membros, mormente do pai e da mãe. A família é a fonte de toda a fraternidade, sendo por isso mesmo também o fundamento e o caminho primário para a paz, já que, por vocação, deveria contagiar o mundo com o seu amor.

O número sempre crescente de ligações e comunicações que envolvem o nosso planeta torna mais palpável a consciência da unidade e partilha dum destino comum entre as nações da terra. Assim, nos dinamismos da história – independentemente da diversidade das etnias, das sociedades e das culturas –, vemos semeada a vocação a formar uma comunidade feita de irmãos que se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros. Contudo, ainda hoje, esta vocação é muitas vezes contrastada e negada nos factos, num mundo caracterizado pela «globalização da indiferença» que lentamente nos faz «habituar» ao sofrimento alheio, fechando-nos em nós mesmos.

Em muitas partes do mundo, parece não conhecer tréguas a grave lesão dos direitos humanos fundamentais, sobretudo dos direitos à vida e à liberdade de religião. Exemplo preocupante disso mesmo é o dramático fenómeno do tráfico de seres humanos, sobre cuja vida e desespero especulam pessoas sem escrúpulos. Às guerras feitas de confrontos armados juntam-se guerras menos visíveis, mas não menos cruéis, que se combatem nos campos económico e financeiro com meios igualmente demolidores de vidas, de famílias, de empresas.

A globalização, como afirmou Bento XVI, torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos.[1] As inúmeras situações de desigualdade, pobreza e injustiça indicam não só uma profunda carência de fraternidade, mas também a ausência duma cultura de solidariedade. As novas ideologias, caracterizadas por generalizado individualismo, egocentrismo e consumismo materialista, debilitam os laços sociais, alimentando aquela mentalidade do «descartável» que induz ao desprezo e abandono dos mais fracos, daqueles que são considerados «inúteis». Assim, a convivência humana assemelha-se sempre mais a um mero do ut des pragmático e egoísta.

Ao mesmo tempo, resulta claramente que as próprias éticas contemporâneas se mostram incapazes de produzir autênticos vínculos de fraternidade, porque uma fraternidade privada da referência a um Pai comum como seu fundamento último não consegue subsistir.[2] Uma verdadeira fraternidade entre os homens supõe e exige uma paternidade transcendente. A partir do reconhecimento desta paternidade, consolida-se a fraternidade entre os homens, ou seja, aquele fazer-se «próximo» para cuidar do outro.


«Onde está o teu irmão?» (Gn 4, 9)
2. Para compreender melhor esta vocação do homem à fraternidade e para reconhecer de forma mais adequada os obstáculos que se interpõem à sua realização e identificar as vias para a superação dos mesmos, é fundamental deixar-se guiar pelo conhecimento do desígnio de Deus, tal como se apresenta de forma egrégia na Sagrada Escritura.
Segundo a narração das origens, todos os homens provêm dos mesmos pais, de Adão e Eva, casal criado por Deus à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1, 26), do qual nascem Caim e Abel. Na história desta família primigénia, lemos a origem da sociedade, a evolução das relações entre as pessoas e os povos.

Abel é pastor, Caim agricultor. A sua identidade profunda e, conjuntamente, a sua vocação é ser irmãos, embora na diversidade da sua actividade e cultura, da sua maneira de se relacionarem com Deus e com a criação. Mas o assassinato de Abel por Caim atesta, tragicamente, a rejeição radical da vocação a ser irmãos. A sua história (cf. Gn4, 1-16) põe em evidência o difícil dever, a que todos os homens são chamados, de viver juntos, cuidando uns dos outros. Caim, não aceitando a predilecção de Deus por Abel, que Lhe oferecia o melhor do seu rebanho – «o Senhor olhou com agrado para Abel e para a sua oferta, mas não olhou com agrado para Caim nem para a sua oferta» (Gn4, 4-5) –, mata Abel por inveja. Desta forma, recusa reconhecer-se irmão, relacionar-se positivamente com ele, viver diante de Deus, assumindo as suas responsabilidades de cuidar e proteger o outro. À pergunta com que Deus interpela Caim – «onde está o teu irmão?» –, pedindo-lhe contas da sua acção, responde: «Não sei dele. Sou, porventura, guarda do meu irmão?» (Gn 4, 9). Depois – diz-nos o livro do Génesis –, «Caim afastou-se da presença do Senhor» (4, 16).

É preciso interrogar-se sobre os motivos profundos que induziram Caim a ignorar o vínculo de fraternidade e, simultaneamente, o vínculo de reciprocidade e comunhão que o ligavam ao seu irmão Abel. O próprio Deus denuncia e censura a Caim a sua contiguidade com o mal: «o pecado deitar-se-á à tua porta» (Gn 4, 7). Mas Caim recusa opor-se ao mal, e decide igualmente «lançar-se sobre o irmão» (Gn 4, 8), desprezando o projecto de Deus. Deste modo, frustra a sua vocação original para ser filho de Deus e viver a fraternidade.

A narração de Caim e Abel ensina que a humanidade traz inscrita em si mesma uma vocação à fraternidade, mas também a possibilidade dramática da sua traição. Disso mesmo dá testemunho o egoísmo diário, que está na base de muitas guerras e injustiças: na realidade, muitos homens e mulheres morrem pela mão de irmãos e irmãs que não sabem reconhecer-se como tais, isto é, como seres feitos para a reciprocidade, a comunhão e a doação.

«E vós sois todos irmãos» (Mt 23, 8)
3. Surge espontaneamente a pergunta: poderão um dia os homens e as mulheres deste mundo corresponder plenamente ao anseio de fraternidade, gravado neles por Deus Pai? Conseguirão, meramente com as suas forças, vencer a indiferença, o egoísmo e o ódio, aceitar as legítimas diferenças que caracterizam os irmãos e as irmãs?

Parafraseando as palavras do Senhor Jesus, poderemos sintetizar assim a resposta que Ele nos dá: dado que há um só Pai, que é Deus, vós sois todos irmãos (cf. Mt 23, 8-9). A raiz da fraternidade está contida na paternidade de Deus. Não se trata de uma paternidade genérica, indistinta e historicamente ineficaz, mas do amor pessoal, solícito e extraordinariamente concreto de Deus por cada um dos homens (cf. Mt 6, 25-30). Trata-se, por conseguinte, de uma paternidade eficazmente geradora de fraternidade, porque o amor de Deus, quando é acolhido, torna-se no mais admirável agente de transformação da vida e das relações com o outro, abrindo os seres humanos à solidariedade e à partilha activa.

Em particular, a fraternidade humana foi regenerada em e por Jesus Cristo, com a sua morte e ressurreição. A cruz é o «lugar» definitivo de fundação da fraternidade que os homens, por si sós, não são capazes de gerar. Jesus Cristo, que assumiu a natureza humana para a redimir, amando o Pai até à morte e morte de cruz (cf. Fl 2, 8), por meio da sua ressurreição constitui-nos como humanidade nova, em plena comunhão com a vontade de Deus, com o seu projecto, que inclui a realização plena da vocação à fraternidade.

Jesus retoma o projecto inicial do Pai, reconhecendo-Lhe a primazia sobre todas as coisas. Mas Cristo, com o seu abandono até à morte por amor do Pai, torna-Se princípio novo e definitivo de todos nós, chamados a reconhecer-nos n’Ele como irmãos, porque filhos do mesmo Pai. Ele é a própria Aliança, o espaço pessoal da reconciliação do homem com Deus e dos irmãos entre si. Na morte de Jesus na cruz, ficou superada também a separação entre os povos, entre o povo da Aliança e o povo dos Gentios, privado de esperança porque permanecera até então alheio aos pactos da Promessa. Como se lê na Carta aos Efésios, Jesus Cristo é Aquele que reconcilia em Si todos os homens. Ele é a paz, porque, dos dois povos, fez um só, derrubando o muro de separação que os dividia, ou seja, a inimizade. Criou em Si mesmo um só povo, um só homem novo, uma só humanidade nova (cf. 2,14-16).

Quem aceita a vida de Cristo e vive n’Ele, reconhece Deus como Pai e a Ele Se entrega totalmente, amando-O acima de todas as coisas. O homem reconciliado vê, em Deus, o Pai de todos e, consequentemente, é solicitado a viver uma fraternidade aberta a todos. Em Cristo, o outro é acolhido e amado como filho ou filha de Deus, como irmão ou irmã, e não como um estranho, menos ainda como um antagonista ou até um inimigo. Na família de Deus, onde todos são filhos dum mesmo Pai e, porque enxertados em Cristo, filhos no Filho, não há «vidas descartáveis». Todos gozam de igual e inviolável dignidade; todos são amados por Deus, todos foram resgatados pelo sangue de Cristo, que morreu na cruz e ressuscitou por cada um. Esta é a razão pela qual não se pode ficar indiferente perante a sorte dos irmãos.

A fraternidade, fundamento e caminho para a paz
4. Suposto isto, é fácil compreender que a fraternidade é fundamento e caminho para a paz. As Encíclicas sociais dos meus Predecessores oferecem uma ajuda valiosa neste sentido. Basta ver as definições de paz da Populorum progressio, de Paulo VI, ou da Sollicitudo rei socialis, de João Paulo II. Da primeira, apreendemos que o desenvolvimento integral dos povos é o novo nome da paz[3] e, da segunda, que a paz é opus solidaritatis, fruto da solidariedade.[4]

Paulo VI afirma que tanto as pessoas como as nações se devem encontrar num espírito de fraternidade. E explica: «Nesta compreensão e amizade mútuas, nesta comunhão sagrada, devemos (...) trabalhar juntos para construir o futuro comum da humanidade».[5] Este dever recai primariamente sobre os mais favorecidos. As suas obrigações radicam-se na fraternidade humana e sobrenatural, apresentando-se sob um tríplice aspecto: o dever de solidariedade, que exige que as nações ricas ajudem as menos avançadas; o dever de justiça social, que requer a reformulação em termos mais correctos das relações defeituosas entre povos fortes e povos fracos; o dever de caridade universal, que implica a promoção de um mundo mais humano para todos, um mundo onde todos tenham qualquer coisa a dar e a receber, sem que o progresso de uns seja obstáculo ao desenvolvimento dos outros.[6]

Ora, da mesma forma que se considera a paz como opus solidarietatis, é impossível não pensar que o seu fundamento principal seja a fraternidade. A paz, afirma João Paulo II, é um bem indivisível: ou é bem de todos, ou não o é de ninguém. Na realidade, a paz só pode ser conquistada e usufruída como melhor qualidade de vida e como desenvolvimento mais humano e sustentável, se estiver viva, em todos, «a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum».[7] Isto implica não deixar-se guiar pela «avidez do lucro» e pela «sede do poder». É preciso estar pronto a «“perder-se” em benefício do próximo em vez de o explorar, e a “servi-lo” em vez de o oprimir para proveito próprio (...). O “outro” – pessoa, povo ou nação – [não deve ser visto] como um instrumento qualquer, de que se explora, a baixo preço, a capacidade de trabalhar e a resistência física, para o abandonar quando já não serve; mas sim como um nosso “semelhante”, um “auxílio”».[8]

A solidariedade cristã pressupõe que o próximo seja amado não só como «um ser humano com os seus direitos e a sua igualdade fundamental em relação a todos os demais, mas [como] a imagem viva de Deus Pai, resgatada pelo sangue de Jesus Cristo e tornada objecto da acção permanente do Espírito Santo»,[9] como um irmão. «Então a consciência da paternidade comum de Deus, da fraternidade de todos os homens em Cristo, “filhos no Filho”, e da presença e da acção vivificante do Espírito Santo conferirá – lembra João Paulo II – ao nosso olhar sobre o mundo como que um novo critério para o interpretar»,[10] para o transformar.

A fraternidade, premissa para vencer a pobreza
5. Na Caritas in veritate, o meu Predecessor lembrava ao mundo que uma causa importante da pobreza é a falta defraternidade entre os povos e entre os homens.[11] Em muitas sociedades, sentimos uma profunda pobreza relacional, devido à carência de sólidas relações familiares e comunitárias; assistimos, preocupados, ao crescimento de diferentes tipos de carências, marginalização, solidão e de várias formas de dependência patológica. Uma tal pobreza só pode ser superada através da redescoberta e valorização de relações fraternas no seio das famílias e das comunidades, através da partilha das alegrias e tristezas, das dificuldades e sucessos presentes na vida das pessoas.

Além disso, se por um lado se verifica uma redução da pobreza absoluta, por outro não podemos deixar de reconhecer um grave aumento da pobreza relativa, isto é, de desigualdades entre pessoas e grupos que convivem numa região específica ou num determinado contexto histórico-cultural. Neste sentido, servem políticas eficazes que promovam o princípio da fraternidade, garantindo às pessoas – iguais na sua dignidade e nos seus direitos fundamentais – acesso aos «capitais», aos serviços, aos recursos educativos, sanitários e tecnológicos, para que cada uma delas tenha oportunidade de exprimir e realizar o seu projecto de vida e possa desenvolver-se plenamente como pessoa.

Reconhece-se haver necessidade também de políticas que sirvam para atenuar a excessiva desigualdade de rendimento. Não devemos esquecer o ensinamento da Igreja sobre a chamada hipoteca social, segundo a qual, se é lícito – como diz São Tomás de Aquino – e mesmo necessário que «o homem tenha a propriedade dos bens»,[12]quanto ao uso, porém, «não deve considerar as coisas exteriores que legitimamente possui só como próprias, mas também como comuns, no sentido de que possam beneficiar não só a si mas também aos outros».[13]

Por último, há uma forma de promover a fraternidade – e, assim, vencer a pobreza – que deve estar na base de todas as outras. É o desapego vivido por quem escolhe estilos de vida sóbrios e essenciais, por quem, partilhando as suas riquezas, consegue assim experimentar a comunhão fraterna com os outros. Isto é fundamental, para seguir Jesus Cristo e ser verdadeiramente cristão. É o caso não só das pessoas consagradas que professam voto de pobreza, mas também de muitas famílias e tantos cidadãos responsáveis que acreditam firmemente que a relação fraterna com o próximo constitua o bem mais precioso.

A redescoberta da fraternidade na economia
6. As graves crises financeiras e económicas dos nossos dias – que têm a sua origem no progressivo afastamento do homem de Deus e do próximo, com a ambição desmedida de bens materiais, por um lado, e o empobrecimento das relações interpessoais e comunitárias, por outro – impeliram muitas pessoas a buscar o bem-estar, a felicidade e a segurança no consumo e no lucro fora de toda a lógica duma economia saudável. Já, em 1979, o Papa João Paulo IIalertava para a existência de «um real e perceptível perigo de que, enquanto progride enormemente o domínio do homem sobre o mundo das coisas, ele perca os fios essenciais deste seu domínio e, de diversas maneiras, submeta a elas a sua humanidade, e ele próprio se torne objecto de multiforme manipulação, se bem que muitas vezes não directamente perceptível; manipulação através de toda a organização da vida comunitária, mediante o sistema de produção e por meio de pressões dos meios de comunicação social».[14]

As sucessivas crises económicas devem levar a repensar adequadamente os modelos de desenvolvimento económico e a mudar os estilos de vida. A crise actual, com pesadas consequências na vida das pessoas, pode ser também uma ocasião propícia para recuperar as virtudes da prudência, temperança, justiça e fortaleza. Elas podem ajudar-nos a superar os momentos difíceis e a redescobrir os laços fraternos que nos unem uns aos outros, com a confiança profunda de que o homem tem necessidade e é capaz de algo mais do que a maximização do próprio lucro individual. As referidas virtudes são necessárias sobretudo para construir e manter uma sociedade à medida da dignidade humana.

A fraternidade extingue a guerra
7. Ao longo do ano que termina, muitos irmãos e irmãs nossos continuaram a viver a experiência dilacerante da guerra, que constitui uma grave e profunda ferida infligida à fraternidade.

Há muitos conflitos que se consumam na indiferença geral. A todos aqueles que vivem em terras onde as armas impõem terror e destruição, asseguro a minha solidariedade pessoal e a de toda a Igreja. Esta última tem por missão levar o amor de Cristo também às vítimas indefesas das guerras esquecidas, através da oração pela paz, do serviço aos feridos, aos famintos, aos refugiados, aos deslocados e a quantos vivem no terror. De igual modo a Igreja levanta a sua voz para fazer chegar aos responsáveis o grito de dor desta humanidade atribulada e fazer cessar, juntamente com as hostilidades, todo o abuso e violação dos direitos fundamentais do homem.[15]

Por este motivo, desejo dirigir um forte apelo a quantos semeiam violência e morte, com as armas: naquele que hoje considerais apenas um inimigo a abater, redescobri o vosso irmão e detende a vossa mão! Renunciai à via das armas e ide ao encontro do outro com o diálogo, o perdão e a reconciliação para reconstruir a justiça, a confiança e esperança ao vosso redor! «Nesta óptica, torna-se claro que, na vida dos povos, os conflitos armados constituem sempre a deliberada negação de qualquer concórdia internacional possível, originando divisões profundas e dilacerantes feridas que necessitam de muitos anos para se curarem. As guerras constituem a rejeição prática de se comprometer para alcançar aquelas grandes metas económicas e sociais que a comunidade internacional estabeleceu».[16]

Mas, enquanto houver em circulação uma quantidade tão grande como a actual de armamentos, poder-se-á sempre encontrar novos pretextos para iniciar as hostilidades. Por isso, faço meu o apelo lançado pelos meus Predecessores a favor da não-proliferação das armas e do desarmamento por parte de todos, a começar pelo desarmamento nuclear e químico.

Não podemos, porém, deixar de constatar que os acordos internacionais e as leis nacionais, embora sendo necessários e altamente desejáveis, por si sós não bastam para preservar a humanidade do risco de conflitos armados. É precisa uma conversão do coração que permita a cada um reconhecer no outro um irmão do qual cuidar e com o qual trabalhar para, juntos, construírem uma vida em plenitude para todos. Este é o espírito que anima muitas das iniciativas da sociedade civil, incluindo as organizações religiosas, a favor da paz. Espero que o compromisso diário de todos continue a dar fruto e que se possa chegar também à efectiva aplicação, no direito internacional, do direito à paz como direito humano fundamental, pressuposto necessário para o exercício de todos os outros direitos.

A corrupção e o crime organizado contrastam a fraternidade
8. O horizonte da fraternidade apela ao crescimento em plenitude de todo o homem e mulher. As justas ambições duma pessoa, sobretudo se jovem, não devem ser frustradas nem lesadas; não se lhe deve roubar a esperança de podê-las realizar. A ambição, porém, não deve ser confundida com prevaricação; pelo contrário, é necessário competir na mútua estima (cf. Rm 12, 10). Mesmo nas disputas, que constituem um aspecto inevitável da vida, é preciso recordar-se sempre de que somos irmãos; por isso, é necessário educar e educar-se para não considerar o próximo como um inimigo nem um adversário a eliminar.

A fraternidade gera paz social, porque cria um equilíbrio entre liberdade e justiça, entre responsabilidade pessoal e solidariedade, entre bem dos indivíduos e bem comum. Uma comunidade política deve, portanto, agir de forma transparente e responsável para favorecer tudo isto. Os cidadãos devem sentir-se representados pelos poderes públicos, no respeito da sua liberdade. Em vez disso, muitas vezes, entre cidadão e instituições, interpõem-se interesses partidários que deformam essa relação, favorecendo a criação dum clima perene de conflito.

Um autêntico espírito de fraternidade vence o egoísmo individual, que contrasta a possibilidade das pessoas viverem em liberdade e harmonia entre si. Tal egoísmo desenvolve-se, socialmente, quer nas muitas formas de corrupção que hoje se difunde de maneira capilar, quer na formação de organizações criminosas – desde os pequenos grupos até àqueles organizados à escala global – que, minando profundamente a legalidade e a justiça, ferem no coração a dignidade da pessoa. Estas organizações ofendem gravemente a Deus, prejudicam os irmãos e lesam a criação, revestindo-se duma gravidade ainda maior se têm conotações religiosas.

Penso no drama dilacerante da droga com a qual se lucra desafiando leis morais e civis, na devastação dos recursos naturais e na poluição em curso, na tragédia da exploração do trabalho; penso nos tráficos ilícitos de dinheiro como também na especulação financeira que, muitas vezes, assume caracteres predadores e nocivos para inteiros sistemas económicos e sociais, lançando na pobreza milhões de homens e mulheres; penso na prostituição que diariamente ceifa vítimas inocentes, sobretudo entre os mais jovens, roubando-lhes o futuro; penso no abomínio do tráfico de seres humanos, nos crimes e abusos contra menores, na escravidão que ainda espalha o seu horror em muitas partes do mundo, na tragédia frequentemente ignorada dos emigrantes sobre quem se especula indignamente na ilegalidade. A este respeito escreveu João XXIII: «Uma convivência baseada unicamente em relações de força nada tem de humano: nela vêem as pessoas coarctada a própria liberdade, quando, pelo contrário, deveriam ser postas em condição tal que se sentissem estimuladas a procurar o próprio desenvolvimento e aperfeiçoamento».[17]Mas o homem pode converter-se, e não se deve jamais desesperar da possibilidade de mudar de vida. Gostaria que isto fosse uma mensagem de confiança para todos, mesmo para aqueles que cometeram crimes hediondos, porque Deus não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (cf. Ez 18, 23).

No contexto alargado da sociabilidade humana, considerando o delito e a pena, penso também nas condições desumanas de muitos estabelecimentos prisionais, onde frequentemente o preso acaba reduzido a um estado sub-humano, violado na sua dignidade de homem e sufocado também em toda a vontade e expressão de resgate. A Igreja faz muito em todas estas áreas, a maior parte das vezes sem rumor. Exorto e encorajo a fazer ainda mais, na esperança de que tais acções desencadeadas por tantos homens e mulheres corajosos possam cada vez mais ser sustentadas, leal e honestamente, também pelos poderes civis.

A fraternidade ajuda a guardar e cultivar a natureza
9. A família humana recebeu, do Criador, um dom em comum: a natureza. A visão cristã da criação apresenta um juízo positivo sobre a licitude das intervenções na natureza para dela tirar benefício, contanto que se actue responsavelmente, isto é, reconhecendo aquela «gramática» que está inscrita nela e utilizando, com sabedoria, os recursos para proveito de todos, respeitando a beleza, a finalidade e a utilidade dos diferentes seres vivos e a sua função no ecossistema. Em suma, a natureza está à nossa disposição, mas somos chamados a administrá-la responsavelmente. Em vez disso, muitas vezes deixamo-nos guiar pela ganância, pela soberba de dominar, possuir, manipular, desfrutar; não guardamos a natureza, não a respeitamos, nem a consideramos como um dom gratuito de que devemos cuidar e colocar ao serviço dos irmãos, incluindo as gerações futuras.

De modo particular o sector produtivo primário, o sector agrícola, tem a vocação vital de cultivar e guardar os recursos naturais para alimentar a humanidade. A propósito, a persistente vergonha da fome no mundo leva-me a partilhar convosco esta pergunta: De que modo usamos os recursos da terra? As sociedades actuais devem reflectir sobre a hierarquia das prioridades no destino da produção. De facto, é um dever impelente que se utilizem de tal modo os recursos da terra, que todos se vejam livres da fome. As iniciativas e as soluções possíveis são muitas, e não se limitam ao aumento da produção. É mais que sabido que a produção actual é suficiente, e todavia há milhões de pessoas que sofrem e morrem de fome, o que constitui um verdadeiro escândalo. Por isso, é necessário encontrar o modo para que todos possam beneficiar dos frutos da terra, não só para evitar que se alargue o fosso entre aqueles que têm mais e os que devem contentar-se com as migalhas, mas também e sobretudo por uma exigência de justiça e equidade e de respeito por cada ser humano. Neste sentido, gostaria de lembrar a todos o necessáriodestino universal dos bens, que é um dos princípios fulcrais da doutrina social da Igreja. O respeito deste princípio é a condição essencial para permitir um acesso real e equitativo aos bens essenciais e primários de que todo o homem precisa e tem direito.

Conclusão
10. Há necessidade que a fraternidade seja descoberta, amada, experimentada, anunciada e testemunhada; mas só o amor dado por Deus é que nos permite acolher e viver plenamente a fraternidade.

O necessário realismo da política e da economia não pode reduzir-se a um tecnicismo sem ideal, que ignora a dimensão transcendente do homem. Quando falta esta abertura a Deus, toda a actividade humana se torna mais pobre, e as pessoas são reduzidas a objecto passível de exploração. Somente se a política e a economia aceitarem mover-se no amplo espaço assegurado por esta abertura Àquele que ama todo o homem e mulher, é que conseguirão estruturar-se com base num verdadeiro espírito de caridade fraterna e poderão ser instrumento eficaz de desenvolvimento humano integral e de paz.

Nós, cristãos, acreditamos que, na Igreja, somos membros uns dos outros e todos mutuamente necessários, porque a cada um de nós foi dada uma graça, segundo a medida do dom de Cristo, para utilidade comum (cf. Ef 4, 7.25; 1 Cor 12, 7). Cristo veio ao mundo para nos trazer a graça divina, isto é, a possibilidade de participar na sua vida. Isto implica tecer um relacionamento fraterno, caracterizado pela reciprocidade, o perdão, o dom total de si mesmo, segundo a grandeza e a profundidade do amor de Deus, oferecido à humanidade por Aquele que, crucificado e ressuscitado, atrai todos a Si: «Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei. Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 34-35). Esta é a boa nova que requer, de cada um, um passo mais, um exercício perene de empatia, de escuta do sofrimento e da esperança do outro, mesmo do que está mais distante de mim, encaminhando-se pela estrada exigente daquele amor que sabe doar-se e gastar-se gratuitamente pelo bem de cada irmão e irmã.

Cristo abraça todo o ser humano e deseja que ninguém se perca. «Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele» (Jo 3, 17). Fá-lo sem oprimir, sem forçar ninguém a abrir-Lhe as portas do coração e da mente. «O que for maior entre vós seja como o menor, e aquele que mandar, como aquele que serve – diz Jesus Cristo –. Eu estou no meio de vós como aquele que serve» (Lc 22, 26-27). Deste modo, cada actividade deve ser caracterizada por uma atitude de serviço às pessoas, incluindo as mais distantes e desconhecidas. O serviço é a alma da fraternidade que edifica a paz.

Que Maria, a Mãe de Jesus, nos ajude a compreender e a viver todos os dias a fraternidade que jorra do coração do seu Filho, para levar a paz a todo o homem que vive nesta nossa amada terra.

Vaticano, 8 de Dezembro de 2013.
FRANCISCUS


[1]Cf. Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 19: AAS 101 (2009), 654-655.
[2]Cf. Francisco, Carta enc. Lumen fidei (29 de Junho de 2013), 54: AAS 105 (2013), 591-592.
[3]Cf. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Março de 1967), 87: AAS 59 (1967), 299.
[4]Cf. João Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 39: AAS 80 (1988), 566-568.
[5]Carta enc. Populorum progressio (26 de Março de 1967), 43: AAS 59 (1967), 278-279.
[6]Cf. ibid., 44: o. c., 279.
[7]Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 38: AAS 80 (1988), 566.
[8] Ibid., 38-39: o. c., 566-567.
[9] Ibid., 40: o. c., 569.
[10] Ibid., 40: o. c., 569.
[11]Cf. Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 19: AAS 101 (2009), 654-655.
[12] Summa theologiae, II-II, q. 66, a. 2.
[13] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 69; cf. Leão XIII, Carta enc. Rerum novarum (15 de Maio de 1891), 19: ASS 23 (1890-1891), 651; João Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 42: AAS 80 (1988), 573-574; Pont. Conselho «Justiça e Paz», Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 178.
[14] Carta enc. Redemptor hominis (4 de Março de 1979), 16: AAS 61 (1979), 290.
[15]Cf. Pont. Conselho «Justiça e Paz», Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 159.
[16] Francisco, Carta ao Presidente Vladimir Putin (4 de Setembro de 2013): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 8/IX/2013), 5.
[17] Carta enc. Pacem in terris (11 de Abril de 1963), 17: AAS 55 (1963), 265.


16 de dezembro de 2013

GOLPE FALHADO

A noite foi tensa em Juba com disparos de armas pesadas e ligeiras especialmente nas zonas militares de Bilpam (onde se encontra o quartel-general), Hai Jalaba e Geyada.

As primeiras informações no Facebook diziam tratar-se de uma escaramuça entre elementos nuer e dinka da guarda republicana, os famosos Tigers!

O presidente Salva Kiir Mayardit deu uma conferência de imprensa esta manhã e acusou forças leais ao ex-Vice Presidente Riek Machar de estarem por detrás do golpe de estado falhado que ele classificou de «acto criminal.»

Kiir disse que o exército estava em controle total da segurança em Juba.

Ele impôs o recolher obrigatório entre as 6h00 da noite e da manhã.

Kiir estava abalado e vestido de militar. Era acompanhado pelo Vice-presidente James Wani Igga, o ministro dos negócios estrangeiros Barnaba Marial Benjamin, a ministra do género Awut Deng Aciul e outros dignitários.

O Aeroporto Internacional de Juba foi fechado ao tráfico aéreo.

Fontes locais disseram-me que tanques vigiavam o aeroporto e a área dos ministérios, as ruas estavam vazias e não havia geradores a funcionar.

Mais de 400 pessoas, sobretudo mulheres e crianças, procuraram refúgio na base da Missão das Nações Unidos no Sudão do Sul (UNMISS na sigla em inglês) e seis pessoas foram tratadas a ferimentos de balas.

O Arcebispo Daniel Deng Bul, que chefia a Igreja anglicana e o processo nacional de reconciliação, apelou à calma entre os beligerantes porque na época santa do natal as pessoas precisam de paz para celebrar.

Hilde Johnson, a chefe da UNMISS, pediu às partes envolvidas no conflito para cessarem hostilidades.
A embaixada americana em Juba encontra-se fechada e aconselhou os cidadãos norte-americanos a permanecerem em casa.

Um jornalista local postou no Twitter que algumas personalidades importantes tinham sido presas.
Uma fonte segura disse-me que o Dr Machar se encontrava seguro em lugar secreto.

O tiroteio começou por volta das 10 da noite depois do encerramento do National Liberation Council, o segundo órgão decisório mais importante do partido no poder, o SPLM.

Um número de altos dirigentes do partido, incluindo o Dr Machar e o ex-secretário-geral Pagan Amum, criticaram Kiir por estar a conduzir o país e o partido para uma ditadura.


Kiir disse que os primeiros tiros foram disparados por um indivíduo não identificado junto ao Centro Cultural de Nyakuron onde decorreu a reunião do partido que devia ter aprovado e nova constituição e os estatutos do SPLM.

4 de dezembro de 2013

CORRUPÇÃO

O Sudão do Sul encontra-se no topo da tabela classificativa do campeonato mundial da corrupção.

A TransparencyInternational publicou na terça-feira o CORRUPTION PERCEPTIONS INDEX 2013, o Índice das Percepções da Corrupção, analisando 177 países.

Somália, Coreia do Norte, Afeganistão, Sudão e Sudão do Sul encontram-se no topo do índice dos estados altamente corruptos.

No outro extremo da tabela estão a Dinamarca, Nova Zelândia, Finlândia, Suécia e Noruega.

Portugal ocupa a posição número 33, sete lugares acima da Espanha (40).

Quase 70 por cento dos países aparecem como tendo problemas sérios de corrupção. Por regiões, no Oeste Europeu a corrupção séria afecta 23 por cento dos países, na Ásia-Pacífico a 64 por cento, nas Américas 66 por cento, no Médio Oriente e Norte de África 84 por cento, na África subsariana 90 por cento e na Europa Oriental e Ásia Central 95 por cento.

O Presidente do Sudão do Sul, Salva Kiir Mayardit, em 2012 escreveu uma carta a 75 actuais e ex-ministros e outros altos funcionários para devolverem cerca de quatro mil milhões de dólares que desapareceram durante os últimos seis anos dos cofres do estado.

Apesar de produzir quase 200 mil barris de petróleo por dia, quase 20 milhões de Euros, o Sudão do Sul continua na cauda dos índices de desenvolvimento humano e estrutural.

Três ministros da economia e um número de altos quadros foram saneados por corrupção mas até agora Ninguém foi julgado por crimes de corrupção.

2 de dezembro de 2013

CRIANÇAS-MÃES


Quase 14 menores dão à luz por minuto – muitas são africanas – e cerca de 200 morrem por dia devido à gravidez ou parto.

O Fundo de População das Nações Unidas publicou no final de Outubro um relatório sobre o Estado da População Mundial 2013 com o título «Maternidade na Infância: Enfrentando os Desafios da Gravidez na Adolescência.»
O relatório apresenta uma realidade cruel: 7,3 milhões de raparigas com menos de 18 anos dão à luz por ano nos países em desenvolvimento e mais de um terço, dois milhões delas, têm 14 anos ou menos. Se as tendências actuais persistirem, em 2030 o número de partos de meninas com menos de 15 pode chegar aos 3 milhões.
A gravidez precoce traz problemas psicológicos e físicos terríveis, incluindo a morte. No Sudão do Sul, onde eu vivo, mais de duas mil mulheres-meninas morreram por ano durante o parto ou de complicações pós-parto por cada cem mil nascimentos porque o casamento de crianças é culturalmente praticado e os corpos das meninas-mães ainda não estão prontos para o trabalho de parto. A fístula obstétrica é outra consequência comum da maternidade precoce.
O relatório revela dados preocupantes sobre a gravidez de adolescentes em África:
• 51 por cento das meninas do Níger engravidam antes dos 18 anos, 48 por cento no Chade e 46 por cento no Mali;
• 28 por cento das meninas da África Ocidental e Central concebem antes dos 18 anos;
• Dez por cento das meninas no Chade, Guiné, Mali, Moçambique e Níger têm um bebé antes dos 15 anos;
• Seis por cento das meninas da África Ocidental e Central engravidam antes dos 15 anos;
• Um terço das meninas no Chade e Níger é obrigado a casar antes dos 15 anos;
• Na Etiópia, Malauí, Níger e Nigéria, um terço dos casos de fístula são em adolescentes;
• 1,4 milhões de adolescentes africanas entre os 15 e os 19 anos submetem-se a abortos de risco anualmente e 36 mil mulheres e adolescentes morrem;
• 35 por cento de raparigas na Guiné com idades entre os 15 e os 19 anos sofrem de doenças sexualmente transmitidas, 29 por cento no Gana e no Congo;
• 1,2 milhões de menores africanos sofrem de sida, representando mais de metade dos casos da população mundial nessa faixa etária (dois milhões).
O relatório aponta algumas razões para a gravidez precoce, destacando a pobreza, tradição que encoraja o casamento de meninas logo na puberdade, falta de escolaridade e puberdade mais cedo. E indica caminhos para resolver o fenómeno que incluem desmantelar as barreiras que não permitem às adolescentes realizar os seus potenciais e desfrutar dos seus direitos; manter as meninas na escola; não permitir o casamento antes dos 18 anos; pôr termo a coerção e violência sexuais; e permitir o acesso das adolescentes a contraceptivos. Da minha experiência de uma dúzia de anos em África, a escolarização é o instrumento mais importante para proteger as meninas e adolescentes e prepará-las para encararem o futuro e a maternidade com mais calma.
Neste Natal, juntamente com a maternidade gloriosa de Maria de Nazaré, recordemos as maternidades problemáticas de 20 mil menores que vão dar à luz nesse dia e as cerca de 200 que vão morrer de complicações da gravidez ou do parto em países em desenvolvimento. Um Natal diferente…

19 de novembro de 2013

CENTENÁRIO REJAF


A paróquia de Rejaf, arquidiocese de Juba, começou a 1 de Novembro cinco anos de preparação para a celebração para o centenário da fé.

Os Missionários Combonianos chegaram a Rejaf, na margem direita do Nilo Branco, a uma dúzia de quilómetros de Juba, a 16 de Julho de 1919 depois de abandonarem a missão de Gondokoro que tinham aberto em 1913.

Dom Paolino Lukudu Loro, arcebispo de Juba, presidiu à celebração de Todos-os-Santos, os patronos de Rejaf, que abriu oficialmente a preparação para o centenário da paróquia.

O centenário de Rejaf marca também 100 anos da fé na arquidiocese de Juba, embora os primeiros missionários tivessem chegado à terra dos Baris a 18 de Janeiro de 1850 quando o esloveno Inácio Knoblecher e o Italiano Angelo Vinco fizeram uma viagem de exploração à área vindos de barco de Cartum.

Padre Vinco regressou a 24 de Fevereiro de 1851 para iniciar a evangelização do povo Bari estabelecendo-se em Libo onde veio a falecer a 23 de Janeiro de 1853. Os missionários entretanto estabeleceram a base em Gondokoro, meia hora a pé a sul de Libo.

Dom Paolino convidou “o clero, religiosos, missionários e fiéis para se envolverem completamente em cada maneira indicada para o sucesso do centenário.”

“Os cem anos da missão e da Igreja de Rejaf são a história da salvação de todos nós. Devemos a nossa fé a esta igreja”, o arcebispo comboniano acrescentou.

E rezou para que todos os santos e os missionários que começaram Rejaf com o sacrifício das suas vidas apoiem os planos para o melhor crescimento da fé que eles trouxeram há cem anos.

O arcebispo empossou duas comissões para coordenarem as celebrações a nível da paróquia e da arquidiocese.

Voltando à história de Rejaf, a missão foi fundada pelos padres Silvestri e Medici e irmão Egidio Romano.
O primeiro grupo de catecúmenos foi batizado em 1919 e em 1920 a escola primária começou a funcionar. A escola média foi aberta sete anos depois.

O Seminário Menor abriu em 1928 com sete seminaristas.

A igreja, uma construção imponente em tijolo burro, foi benzida a 15 de Agosto de 1936 para servir mais tarde como catedral da diocese. 

Nessa altura, a administração colonial tinha dividido o Sudão do Sul em áreas de evangelização: a margem direita do rio foi entregue à Igreja Católica e a esquerda, onde está Juba, era dos anglicanos. Nos anos 60 do século passado os católicos foram autorizados a construir a catedral de Kator, à altura fora de Juba.

17 de novembro de 2013

PRIMEIRA PEDRA



A Universidade Católica do Sudão do Sul lançou a primeira pedra para a construção do pólo de Juba no sábado depois de uma longa batalha para tomar posse do terreno cedido pelo governo de Equatória Central.

O tijolo da primeira pedra foi trazido da missão de Rejaf, a uma dúzia de quilómetros de Juba na margem direita do Nilo Branco que em 2019 faz cem anos.

Dom Paolino Lukudu Loro, arcebispo de Juba, presidiu à cerimónia do lançamento, que contou com a presença de quase todos os bispos do Sudão do Sul, além de membros do governo nacional e estadual, convidados e universitários.

Dom Paolino disse que a Igreja católica leva a educação a sério porque é parte da sua vocação.

Ele disse que os bispos estão comprometidos no apoio à Católica.

Dom Eduardo Hiiboro Kussala, bispo de Tombura-Yambio e presidente da comissão episcopal para a educação, disse que “a primeira pedra da Universidade Católica do Sudão do Sul cimenta uma grande esperança para o futuro da instituição.”

Ele adiantou que a Católica vai continuar a contribuir para o desenvolvimento académico do país.

O vice ministro da educação Bol Makueng reconheceu o trabalho pioneiro da Igreja na educação e agradeceu-lhe por ter aberto as primeiras escolas na região.

O cantor Emmanuel Kembe pôs toda a gente a dançar, bispos incluídos!

A Católica foi iniciada em 2008 pelo jesuíta americano Michael Schultheis, que também esteve na origem das homónimas do Gana e Moçambique.

A universidade começou por funcionar na Escola Secundária Daniel Comboni. Mais tarde passou para o antigo postulantado dos Combonianos.


A Católica tem em Juba mais de 750 alunos nos cursos de economia e administração e ciências da educação. No pólo de Wau funcionam as faculdades de agricultura e ciências do ambiente com 300 estudantes.

No princípio de Novembro, o padre Mathew Pagan da diocese de Malakal substituiu o padre Schultheis no posto de vice-chanceler. 

15 de novembro de 2013

SUCESSO

Dom Erkulano Lodu Tombe, bispo de Yei, e Dom Paolino Lukudu Loro, arcebispo de Juba

Os bispos católicos do Sudão do Sul escreveram numa carta pastoral que crêem no sucesso do país mais jovem do mundo apesar dos seus problemas.

Sete bispos e dois administradores apostólicos concluíram sexta-feira uma reunião de quatro dias com a apresentação de uma mensagem pastoral de esperança e encorajamento à Igreja e à nação.

Dom Paolino Lukudu Loro, Arcebispo de Juba e Metropolita do Sudão do Sul, apresentou a mensagem aos jornalistas.

Ele disse que os dirigentes católicos tinham muita esperança e eram muito positivos sobre o bem-estar do país apesar das dificuldades de governação.

Ele aconselhou os cidadãos para não acentuarem de mais as fraquezas do país e que acreditassem no seu sucesso.

Dom Paolino disse que os bispos estavam preocupados com a situação do estado de Jonglei e que apoiavam as iniciativas de paz para resolver a revolta armada de David Yau Yau.

Ele reconheceu que a situação em Jonglei era muito complexa porque envolve muitos actores.

O arcebispo comboniano salientam que os habitantes de Jonglei deviam ser parte activa das negociações .

Salientou que chegou a hora do Sudão do Sul passar de uma situação de emergência ao desenvolvimento sustentado.

Dom Paolino saudou em nome dos colegas o melhoramento nas relações bilaterais entre os dois Sudãos.

Disse que os bispos também tinham uma palavra para os habitantes de Abyei que querem exercer o direito a escolher permanecer no Sudão ou ser parte do Sudão do Sul. No final de Outubro os Dinkas Ngok que vivem na região administrada por Cartum fizeram um referendo unilateral e votaram quase 100 por cento pela pertença ao Sudão do Sul de onde são originários.

Os bispos manifestaram o apoio ao processo nacional de cura e reconciliação e prometeram fazer o máximo que puderem para trazer a reconciliação ao país.

Apesar de fazerem uma conferência episcopal única com o Sudão, os bispos do Sudão do Sul reúnem-se frequentemente para tratarem dos assuntos que lhes dizem respeito.

14 de novembro de 2013

MUDANÇAS

Irmã Paola Moggi e Enrica Valentini 

Desde 1 de Novembro que a direção da Rede de Rádios Católica (CRN na sigla em inglês) mudou de mãos: Enrica Valentini substituiu Paola Moggi.

Com a mudança, a família comboniana passa a CRN para a responsabilidade da conferência episcopal dos dois Sudãos. Duas irmãs combonianas continuam a dirigir as rádios de Malakal e dos Montes Nuba. Os provinciais dos dois institutos combonianos continuam a fazer parte da Assembleia de Governadores da rede. 

Enrica, 32, é uma voluntária italiana que veio trabalhar para a diocese de Wau há quatro anos através da Caritas. Começou e dirigiu a Rádio Voz da Esperança até assumir a direção da CRN.

Disse que quer dar continuidade à administração da Irmã Paola, mas reforçando o uso das línguas locais.
A Irmã Paola, missionária comboniana italiana, dirigia a CRN desde finais de 2007.

Em Maio, o Padre José Vieira passou a direção da redação central da CRN para Alfredo Soka, um jornalista sul-sudanês que trabalha com ele desde 2011.

A CRN foi estabelecida pela família comboniana para marcar a canonização de Daniel Comboni, o fundador da Igreja no Sudão, a 5 de Outubro de 2003.

Rádio Bakhita foi a primeira estação a entrar no ar a 8 de Fevereiro de 2007 em Juba. Hoje é a segunda rádio mais ouvida na capital do Sudão do Sul atrás de Miraya, a rádio das Nações Unidas, e à frente da estação do governo e das rádios comerciais locais.


A CRN tem nove estações de rádio, oito no Sudão do Sul e uma nos Montes Nuba em território sudanês controlado pelos rebeldes do SPLA/M-North. As estações pertencem às despectivas dioceses e a rede em si à conferência episcopal.

13 de novembro de 2013

CÂMBIO


O mercado cambial entrou em ebulição no Sudão do Sul: o Governador do Banco Central Kornelio Koriom Mayien na segunda à noite introduziu uma reforma para unificar o câmbio oficial com o paralelo e assim controlar o mercado negro das divisas estrangeiras e incentivar o investimento internacional.

Em termos práticos um dólar americano passou a valer 4.50 libras sul-sudanesas em vez das 2:96. A mudança cambial provocou uma desvalorização de cerca de 40 por cento da libra. Um Euro passou de cinco para seis libras.

As reações não se fizeram esperar. Os postos de combustíveis fecharam logo na expectativa de que o novo câmbio tornasse a gasolina e o gasóleo mais caros.

Sem combustíveis, os transportes públicos quase pararam e a maioria dos funcionários teve que voltar para casa e hoje de manhã para o trabalho a pé… No mercado negro, um litro de gasolina saltou de 10 para 20 libras.

Os deputados não gostaram nada da reforma do sistema cambial e exigiram que na quarta-feira o governador e o ministro da economia viessem ao parlamento explicar a bondade de uma reforma contestada por aumentar a inflação além de afetar os lucros daqueles que conseguem comprar dólares a 3,16 libras no Banco Central e vendê-los no mercado negro a 4,50 ou mais.

Depois de uma sessão ruidosa no parlamento, o Governador Koriom teve de dar o dito pelo não dito e inverter as medidas de segunda-feira.


Claro que noutro país o Dr Koriom só tinha uma saída para um fiasco tão grande: a demissão. Mas o Sudão do Sul é um país de brandos costumes e tudo continua como dantes.

4 de novembro de 2013

MORTOS-VIVOS

Juba: Cemitério de Malakia
O culto dos antepassados é um dado cultual e social transversal em África. Os Africanos acreditam que os mortos fazem parte da vida de cada dia.

Na África, é comum que os antepassados sejam percebidos como intermediários entre a(s) divindade(s) e os vivos, muito próximo da doutrina católica da comunhão dos santos, uma visão que deu origem também a uma cristologia africana que apresenta Jesus como o antepassado comum.

Os antepassados são recordados e respeitados na maioria das culturas africanas como fonte de bênção e para evitar maldições. Um provérbio africano diz que negligenciar os antepassados traz má sorte. Por isso, é normal que as culturas africanas desenvolvam ritos para propiciar os mortos e evitar catástrofes pessoais e colectivas. O escritor nigeriano Chinua Abache descreve, na sua primeira novela, Things Fall Apart, o choque cultural provocado pela chegada dos administradores ingleses e missionários na cultura igbo. Okonkwo, o herói do livro, queima uma igreja para apaziguar os antepassados e proteger a cultura e as tradições das influências externas.

No meu serviço missionário, experimentei duas maneiras diferentes de tratar os antepassados em contextos culturais rural e urbano.

Os Gujis, do Sul da Etiópia, entendem a morte como um acto de violência que é preciso propiciar com o sacrifício de um animal – normalmente um touro – sobre a campa do defunto depois de um período de luto que pode ir de dias a um ano ou mais, dependendo da importância social do falecido. A celebração da nagefatiisa (fazer as pazes) no final do luto culmina com uma refeição do animal sacrificado cujo sangue restabelece a harmonia que a morte violou. Depois de a nagefatiisa terminar, os antepassados são deixados em paz, excepto se alguma filha do falecido for estéril: nesse caso, a família reúne-se à volta da sepultura, que normalmente fica junto à casa da família, e pede ao antepassado que levante a maldição e permita que a mulher conceba.

Os mortos são colocados no túmulo com muito cuidado e as sepulturas são marcadas com uma estaca de uma árvore local que ganha raízes com facilidade. Quando nos ofereceram o terreno para construir a missão de Haro Wato, exigiram que não perturbássemos dois conjuntos de sepulturas dentro da propriedade. Concordámos que a igreja fosse construída sobre um dos grupos e o outro, um pequeno bosque de árvores e trepadeiras, encontra-se intocável no meio do cafeal.

A memória dos antepassados também é importante para determinar linhagens e casamentos. Os miúdos gujis tinham muito orgulho em enunciar os nomes dos descendentes até pelo menos à décima geração e não entendiam porque é que eu só sabia o nome do meu pai e do meu avô. Depois, quando um rapaz escolhe a noiva, os anciãos investigam se as duas linhagens não se cruzavam para sancionar a união.

Em Juba, no Sudão do Sul, fui confrontado com uma atitude totalmente oposta à dos Gujis. O cemitério de Malakia, um dos maiores da cidade, transformou-se num bosque onde as pessoas fazem as necessidades antes de o dia despontar e parte do campo santo foi ocupada por armazéns, uma fábrica de engarrafamento de água e pelas barracas provisórias dos sem-casa, afectados pela urbanização de Juba.


Não é que os mortos não sejam celebrados condignamente: o sepultamento é feito entre orações, cânticos e danças de pesar e o luto termina com a teskar muito semelhante à nagefatiisa dos Gujis, uma celebração pública imponente e longa que inclui orações, cânticos, a evocação do defunto e uma refeição.

29 de outubro de 2013

OURO NEGRO

O Sudão do Sul fez mais de mil milhões de dólares, quase 847 milhões de euros, com a venda de petróleo desde Junho até Outubro.
Os números fornecidos pelo Ministério do Petróleo, Minas e Indústria são impressionantes: entre Junho e Outubro, os poços de crude do Sudão do Sul produziram 13,6 milhões de barris com o valor bruto de 1.342.195.073,77 dólares.
Entretanto o Sudão do Sul pagou 329.380.000,00 dólares ao Sudão de tarifas de exportação e outros encaros mais 232.371.887,76 dólares de empréstimos externos. Nos cofres do estado entraram 780.443.186,01 dólares, cerca de 566 milhões de euros.
Em termos de região, Upper Nile produziu 11,8 milhões de barris de crude Dar enquanto que Unity pôs no mercado 1,8 milhões de barris da variedade Nile.
Em termos de produção, em Junho o Sudão do Sul vendeu mil milhões de barris, em Julho 2,2 milhões, em Agosto 3,8 milhões, em Setembro 2,8 milhões e Outubro 3,8 milhões outra vez. A quebra de Setembro deveu-se à ameaça de Cartum de fechar as exportações do petróleo acusando o Governo de Juba de apoiar a oposição armada ao regime de Omar Al Bashir.
Resta esperar se os milhões feitos com o crude vão fazer alguma diferença num país paralisado pela falta de dinheiro e pela corrupção. 

4 de setembro de 2013

PRIMAVERA EGÍPCIA: PARTE SEGUNDA


Os Egípcios voltaram às ruas para reclamar a revolução sequestrada pelos salafitas radicais da Irmandade Muçulmana. Sopram ventos de guerra civil.

Os egípcios moderados, religiosos e seculares, aproveitaram a celebração do primeiro ano do consulado do presidente Mohamed Morsi para protestar contra a direcção imposta pelos islamitas da Irmandade Muçulmana e reclamar a democratização do país.
Morsi foi eleito presidente a 30 de Junho de 2012, depois do derrube de Hosni Mubarak em Fevereiro de 2011. Prometeu democracia, crescimento económico e justiça social. Num ano, os cerca de 84 milhões de egípcios experimentaram o agravar da crise económica com falta de combustíveis e pão e a intolerância política e religiosa imposta pelos sunitas radicais. Milhares de pessoas reocuparam a mítica praça cairota de Tahrir e outras cidades do país a exigir mudanças. Os adeptos de Morsi acamparam na Praça de Raba’a, no bairro de Nasr City, para apoiar o regime salafita. O país entrou numa escalada política perigosa e os militares deram 48 horas ao presidente para restaurar a ordem. Morsi foi deposto a 3 de Julho e o seu governo substituído pela Frente de Salvação Nacional, uma aliança de partidos liberais e de esquerda, da Igreja e muçulmanos moderados, um governo de transição encarregado de rever a Constituição aprovada pelo partido de Morsi e preparar eleições parlamentares e presidenciais.
Os adeptos de Morsi não aceitaram o que consideram um golpe de Estado militar e até meados de Agosto cerca de mil pessoas tinham sido mortas em confrontos violentos entre adeptos e opositores de Morsi e forças da ordem. Este número inclui as cerca de 700 pessoas mortas durante a avançada do exército contra os acampamentos pró-Morsi. O presidente deposto encontra-se detido com uma dúzia de membros do seu governo em local secreto.
Nestes dois meses, o Egipto tem vivido momentos de instabilidade e uma transição dolorosa e perigosa marcada pelo medo, ansiedade e incerteza na análise de Paul Anis, o dirigente dos Combonianos no país. Ele disse-me que a sublevação de uma parte da população muçulmana marca claramente a rejeição do radicalismo islâmico imposto pela Irmandade Muçulmana, que quer estabelecer uma «Umma», ou comunidade islâmica unindo todos os países árabes.
Os Estados Unidos e Israel também sofreram um revés na sua política geoestratégica porque queriam utilizar os sunitas radicais do Egipto para isolar ainda mais o regime xiita de Teerão, que já perdeu o apoio da Líbia e corre o risco de perder o da Síria. Aliás, parece que Morsi tinha negociado um plano para mover os palestinos de Gaza para uma parte da península do Sinai e deixar a faixa para Israel.
O Hamas foi outro perdedor porque estava a ser fortemente apoiado pelos aliados da Irmandade com combustíveis, materiais de construção e outros bens a baixo preço. Recentemente foram descobertos oito túneis entre o Sinai e Gaza que seriam usados para passar os bens para a Faixa de Gaza.
Agora, os egípcios moderados recuperaram o controlo da sua revolução e as igrejas também assumiram um papel mais activo e visível. O novo papa copta, Tawadros II, integrou a coligação de elementos civis e religiosos que apresentou o itinerário para o futuro político do país, ao contrário do Papa Chenuda, que esteve sempre do lado de Mubarak durante a primeira primavera egípcia em 2011. O Papa Tawadros também estabeleceu uma plataforma para discutir a situação do país aberta a todos os actores políticos, religiosos e sociais.
Entretanto, a sociedade egípcia está cada vez mais dividida. Tanto os Estados Unidos como a União Europeia, cujos enviados especiais se encontraram recentemente com o presidente deposto, pediram aos apoiantes de Morsi que «engulam a realidade» do seu destronamento, mas os protestos continuaram por Agosto adentro.

O que o Egipto precisa é de estabilidade política e segurança para atrair turistas e investimento e relançar a economia. Os milhares de milhões de dólares que a Arábia Saudita, Qatar e outros países árabes injectaram na economia em Julho não duram muito. E os muçulmanos radicais e moderados têm de voltar à mesa do diálogo para exorcizarem os demónios da guerra civil e retomar a coexistência pacífica milenar.

4 de agosto de 2013

FÉRIAS MISSIONÁRIAS

©EValentini
Vinte e quarto jovens egípcios estão empenhados num campo de férias missionárias na diocese de Wau, Sudão do Sul.

Os jovens, com idades entre os vinte e os trinta, aterraram em Juba há duas semanas acompanhados por uma religiosa e três padres, incluindo o superior dos comboniaos no Egipto, e chegaram a Wau depois de dois dias num autocarro a pedir reforma.

Jeannette Fawzy explicou-me que os jovens foram enviados pela Igreja Católica do Egipto para partilhar a vida dos pobres, evangelizar as crianças e os jovens, ensinar árabe e administração, a área profissional em que a maior parte dos participantes  trabalha. Alguns são ortodoxos.

Ela explicou que o campo de férias de vinte dias foi preparado durante um ano com encontros cada dois meses e uma experiência de imersão nos bairros pobres do Cairo onde trabalharam com jovens marginalizados para se prepararem para as actividades em Wau.

Jeannette disse-me que estava muito emocionada sobre a participação no campo de férias missionário em Wau. Explicou que se preparou afincadamente para o campo missionário e queria partilhar a vida das pessoas com quem ia trabalhar.

18 de julho de 2013

CARTA ABERTA

Missionário Comboniano P. Fernando Zolli com ministra Cècile Kyenge

Membros da administração geral dos Missionários Combonianos escreveram uma carta aberta à Conferência Episcopal Italiana a pedirem uma tomada de posição sobre afirmações racistas de um alto dirigente político contra uma ministra italiana de origem africana.

Esta semana, o vice-presidente do senado italiano,  Roberto Calderoli, comparou a ministra da integração Cècile Kyenge a um orangotango. A ministra Kyenge é uma cidadã italiana de origem congolesa.

Os padres Mariano Tibaldo, Jorge Garcia, Arlindo Ferreira Pinto, John Baptist Opargiw, Arnaldo Baritussio e Enrico Redaelli escreveram uma Carta Aberta ao Presidente da Conferência Episcopal Italiana Cardeal  Angelo Bagnasco a pedir que a Igreja italiana chame à responsabilidade os políticos que usam frases racistas para conseguirem baixos dividendos eleitorais.

Os seis Missionários Combonianos dizem-se feridos com os «epítetos ofensivos» do político da Lega Nord, um partido de extrema-direita.

«Queremos que a Igreja italiana fale a uma voz contra este clima de ódio e de suspeita que está a tomar conta da vida política italiana e da convivência civil», escrevem.

Os signatários pedem que a “regeneração” moral e cultural da Itália encontre nos bispos «liderança segura, clara e forte.»

O comentário racista do senador teve grandes repercussões internacionais e causou uma onda de indignação na Itália. Circula na internet uma petição para a demissão do senador Calderoli que entretanto aprestou desculpas à ministra Kyenge.

16 de julho de 2013

DARFUR SEM FIM

Que se ouçam disparos aqui e além, de noite ou de dia, intermitentes e passageiros como muitas outras vezes os temos ouvido é banal e comum nestas terras. Porém, naquela noite de quarta para quinta-feira o tiroteio foi demasiado longo e não se esperava e muito menos se desejava que se transformasse numa tão assanhada batalha de vários dias. A parte central da cidade e o bairro de Malaja sofreram maiormente. Mas quase não houve lugar em Nyala que tenha escapado à violência militar naquela semana, de forma muito especial nos dias 4 e 5 de Julho de 2013.

Já tinha chegado a maioria dos alunos do curso de língua inglesa que funciona nas instalações da paróquia católica. Não houve tempo para sugestões nem anúncios mas também não foi necessário, pois num abrir e fechar de olhos o recinto ficou literalmente vazio. A mesma coisa aconteceu nas outras escolas da cidade, estabelecimentos ou instituições onde diariamente se juntam pessoas em grande número. As lojas, como também os muitíssimos e grandes mercados ao ar livre, seguiram o mesmo rumo: salve-se quem puder. Os cidadãos retiraram-se para dentro de casa, dando campo livre aos dois grupos rivais que tentavam eliminar-se mutualmente como crianças no jogo do esconde-esconde. Com a diferença fatal de que este era um jogo bélico verdadeiro em que as armas eram de fogo real. Além disso, acrescente-se que um grande número de pessoas também não foi poupado à despiedada crueldade dos soldados que destruiram e fizeram pilhagem das suas lojas e armazéns a seu bel-prazer.

Para nós os três missionários da comunidade comboniana a situação não foi diferente da do comum cidadão em Nyala. Optámos por não arriscar sair de casa, à espera que passasse a tormenta do tiroteio que se ouvia ora de mais longe, ora de mais perto ou mesmo a poucos metros de distância da missão, por vezes distinguindo-se também o som de armas pesadas.

Dois dias depois, quando o perigo pareceu ter diminuido consideravelmente, saí à rua, muito cautelosamente e com algum temor. Havia pouca gente e o mercado quase não tinha vida. Tinha apenas acabado de pagar o quilo das lentilhas à vendedeira quando esta se levantou de um salto e nos encontrámos com toda a outra gente correndo na direcção oposta donde viera o som da rajada de metralhadora.

Passados que foram cinco dias o som ameaçador da guerra tinha praticamente deixado de se ouvir. No entanto, o recolher obrigatório continuava em vigor desde as sete e meia da tarde até às sete horas da manhã. Tive ocasião de observar alguns dos sinais devastadores e profundamente tristes do pós-combate nas ruas de Nyala.  Paredes baleadas, vidraças estilhaçadas, mercados arrasados. Ambos os hospitais, o civil e o militar, ainda continuam a cuidar dos feridos mais graves, entre eles um grande número de civis inocentes. Ouve-se o lamento das mais de trinta famílias enlutadas. Já sem lágrimas para chorar, grita enraivecida a mãe duma criança atingida por fogo cruzado: “Não foi suficiente a miserável situação das doenças, da pobreza e da fome em que nos deixaram os janjauides e o seu ‘patrão’ de Cartum para, além disso, termos também agora de chorar os nossos mortos caídos em mais uma batalha sem sentido!”

O combate foi entre o exército das fronteiras – cujos membros foram sempre conhecidos por janjauides – e o exército da segurança nacional. Duas instituições governamentais sudanesas. O líder máximo dos janjauides, Ali Kusheib, um dos quatro criminais sudaneses indigitados pelo Concelho de Segurança da ONU foi atingido gravemente, permanecendo até hoje entre a vida e a morte.

No segundo dia do referido combate o vice-presidente do Sudão, Ali Osman Taha, chegou de Cartum a Nyala. Depois de várias horas entre discursos e reuniões de mesa redonda não conseguira produzir o desejado cessar-fogo. O governo sudanês continua a não poder ou a não querer (?) solucionar o colossal problema da região do Darfur que muita tinta e muito sangue fez correr. Quando se verá a solução deste velho conflito? Quem poderá trazer a paz? No profundo do meu ser ouço ecos da simplicidade e inocência de uma criança que, segura de si mesma, responde: Deus, porque Deus tudo pode. Porém, no diálogo com a mesma criança ouço também o próprio Deus que, carinhosamente, acrescenta: eu dei esse poder aos homens mas eles não têm tido vontade de o utilizar devidamente.

Engajada seriamente no diálogo com o Todo-poderoso, a criança comprometeu-se rezar para que os homens venham a ser pessoas de boa vontade e queiram trazer a paz ao Darfur. Deus apreciou a solidariedade humana daquele pequeno coração de ouro. Mas, por fim, despediu a criança com estas palavras: o teu modo de rezar faz-me muito prazer. Todavia, deixa que te ajude a completar o que falta à tua oração. E o pequeno coração de ouro escutou as palavras de Deus que disse: vai por toda a terra e fala aos responsáveis e políticos de todo o mundo. Ergue a tua voz e diz-lhes que me reservem um lugar nas suas conferências e reuniões de mesa redonda. Então sim, a paz irá chegar!
Padre Feliz da Costa Martins
Missionário Comboniano em Nyala – Darfur - Sudão

3 de julho de 2013

VIDA SELVAGEM

África continua a vender bem como destino turístico exótico e erótico para quem pretende uma experiência de vida selvagem.

Recentemente, uma agência de viagens mandou-me uma publicidade para participar numa expedição fotográfica de uma semana em tenda entre os Mundaris – onde os Combonianos têm uma missão – com o valor acrescentado de que aquele povo vive isolado e mantém as tradições, língua e roupas – ou a falta delas. Preço: 2230 euros.

O anúncio caracteriza de certa forma a oferta do turismo africano: experiências únicas e radicais entre povos e paisagens quase em estado puro, por um preço a condizer. Os turistas querem ver os grandes animais nas savanas, desfrutar das praias, monumentos, fazer experiências de imersão cultural e… sexo. O turismo sexual é mais forte nas praias da África Oriental, onde os europeus maduros, sobretudo italianos e ingleses, mulheres e homens, «alugam» um parceiro jovem local para passarem umas férias eróticas.

A África continua a atrair como destino turístico – em 2009 recebeu 58 milhões de visitantes – e os cinco países mais visitados são Egipto, África do Sul, Marrocos, Tunísia e Maurícias. Os visitantes vêm sobretudo da Europa e dos Estados Unidos, mas os chineses também começam a explorar as maravilhas africanas. Voos diretos entre Joanesburgo e Pequim ou Hong Kong ajudam.

A Organização Mundial do Turismo, uma agência das Nações Unidas, diz que a África foi uma das regiões turísticas que cresceram mais rapidamente na última década. Em 2012, o turismo africano cresceu cinco por cento, acima dos quatro por cento da média mundial.

A indústria turística e de viagens é um dos sectores vitais da economia africana. Emprega cerca de 7,7 milhões de trabalhadores – e, em 2011, gerou 36 mil milhões de euros. Metade do produto interno bruto das ilhas Seicheles e cerca de um terço do de Cabo Verde é gerada por fontes relacionadas com o turismo. O Ruanda, Uganda e RD do Congo fizeram mais de 173 milhões de euros com as excursões aos gorilas-das-montanhas.

A indústria turística africana enfrenta alguns desafios concretos: a Primavera Árabe – que também é africana, em 2011, gerou uma quebra de 12 por cento de visitantes no Norte de África. O continente necessita de investir na segurança, saúde, higiene, educação, infraestruturas, estradas e aeroportos para atrair mais visitas e tornar os aviões e o espaço aéreo mais seguros.

Especialistas dizem que a indústria tem de diversificar para atrair mais visitas ao continente, passando da oferta de safaris – uma das grandes atracções da África, de norte a sul, para um turismo de natureza e de cultura. A África é rica em paisagens únicas e diversificadas, em ecossistemas espectaculares que podem ser desfrutados através do ecoturismo. Na cultura, os festivais de cinema africanos estão a atrair mais e mais participantes. Os festivais podiam ser alargados a outras áreas culturas como a música, literatura, artes tradicionais e gastronomia, para mencionar apenas alguns sectores promissores.


O turismo interno é outro sector a explorar. A África é uma das economias mundiais em maior expansão e está a gerar uma classe média com bastante poder económico. Os operadores turísticos deviam aproveitar a maré para criar roteiros que favoreçam a africanidade.

1 de julho de 2013

BOA NOVA

© JVieira
A Rádio Good News – Boa Nova – está de novo no ar em Rumbek, a capital do Estado de Lakes, depois de três dias de «silêncio forçado.»

Na sexta-feira de manhã o Ministro da Informação do Estado de Lakes ordenou o seu encerramento alegando «falta de documentos para estar no ar.»

Fernando Colombo, o administrador da diocese de Rumbek, a proprietária da estação, disse que as razões eram diferentes: o Governo mandou encerrar a estação porque esta estava a ser «politizada.»

O Governo não gostou de uma notícia sobre a morte de um civil em circunstâncias estranhas detido numa prisão militar. Segundo testemunhas contactadas pela Good News o detido foi espancado até à morte enquanto que na versão do governo foi morto a tiro enquanto tentava fugir pela quarta vez.

Em causa também parece ter estado o tratamento a um membro do Governo entrevistado pela rádio a explicar a situação dos direitos humanos no Estado. A entrevista foi feita no seguimento de um relatório do Human Rights Watch que acusava o Governo do estado de ter mais de 100 civis detido sem culpa formada por longo tempo em prisões militares. O governante não gostou nem do teor nem das questões…

Lakes State vive uma situação complicada desde que em Janeiro o Presidente Salva Kiir demitiu o governador eleito Eng Chol Tong Mayay e nomeou para seu lugar Matur Chut Dhuol, um general à moda antiga que quer impor a ordem social à força da bala ou como alguém comentou «com a paz do cemitério.»

Para já decretou a «lei seca» e quem quiser uma cerveja tem que se dirigir a um dos três hotéis de Rumbek ou arriscar o «mercado negro.»

Também prometeu «crucificar» os jornalistas que falem mal da sua governação.

O mais interessante é que segundo a Constituição Interina o governador de transição tem 60 dias para organizar eleições, mas o General Chut está de pedra e cal. A desculpa do ministro da justiça John Luk Jok é que não há dinheiro para a Comissão Nacional de Eleições organizar o voto intercalar.

ÁRVORES

© JVieira
Os católicos da arquidiocese de Juba, no Sudão do Sul, foram convidados a plantar árvores em Julho e Agosto para celebrar a fé.

A iniciativa verde insere-se no calendário de atividades para a vivência do Ano da Fé que inclui encontros de formação e de oração.

Nicholas Kiri, pároco de Rejaf, explicou que a plantação de árvores evoca os anos de luta pela independência e as lutas pessoais para crescer.

Ele disse que também simboliza o renovamento da fé.

O padre Kiri convidou especialmente os pais das crianças que vão receber o batismo nestes dois meses que plantem uma árvore para marcar o evento.

Ele disse que no futuro vai ser interessante dizer aos filhos: vocês foram batizados no Ano da Fé e esta árvore marca o vosso batismo.

O padre Kiri convidou os sul-sudaneses a juntarem-se aos católicos de Juba e plantarem também uma árvore para simbolizar a esperança e a vontade de seguir em frente.

GUARDADORAS DA ESPERANÇA

— Eu não consigo… não consigo! – repetia sempre Reem, uma jovem beduína palestiniana de 16 anos, sempre que a convidávamos para aprender a u...