23 de maio de 2026

RESISTIR COM BELEZA E ESPERANÇA

As mulheres beduínas palestinianas das três aldeias que visitámos hoje na zona de Khan al-Ahmar, no deserto da Cisjordânia, vivem numa dolorosa incerteza. Sobre as suas casas paira a ameaça real da expulsão em massa. 

Algumas já ensacaram os poucos pertences que podem levar consigo caso, a qualquer momento, sejam obrigadas a abandonar a terra onde viveram toda a sua vida. 

«Não sabemos o que pode acontecer esta noite ou nos próximos dias...», dizem-nos com uma mistura de medo, cansaço e dignidade.

Vivem ao relento, expostas, vulneráveis, sob tendas e estruturas frágeis que mal conseguem protegê-las do calor, do frio e da ameaça constante que as rodeia. 

Contudo, no meio desta realidade cada vez mais pesada, continuam a encontrar forças para rir, partilhar chá, aprender algo novo, para se sentarem juntas diante de uma máquina de costura.

Receberam com imensa alegria cinco novas máquinas de costura, imediatamente postas a funcionar. 

Com mãos firmes a bordar ramos de oliveira — símbolo de paz, resistência e raízes profundas — estas mulheres continuam a apostar na vida. 

Cada pequena bolsa bordada representa muito mais do que um trabalho artesanal: é o desejo profundo de sustentar as suas famílias, de proteger a dignidade dos seus filhos e de transformar o sofrimento em algo que possa dar vida também a quem adquirir estes produtos.

É comovente ver como, mesmo sob o peso do medo e das ameaças, estas mulheres continuam a criar beleza, a partilhar esperança e a resistir com uma força silenciosa que nasce do amor pela sua terra, pelas suas famílias e pela própria vida.

Ir. Cecília Sierra

Missionária Comboniana na Cisjordânia

20 de maio de 2026

DANIEL COMBONI: UM AMIGO DO POVO OROMO

 


É sabido que o padre Daniel Comboni fez uma viagem a Adem, no Iémen, no início de 1861, e resgatou sete jovens Gallas da escravatura. No entanto, demorou muito tempo até que eu (pelo menos!) compreendesse que aqueles jovens Gallas eram, na verdade, membros da etnia Oromo, originários do que hoje é o sul da Etiópia, parentes do povo Guji, com quem trabalho há mais de doze anos.

«Galla» era o nome originalmente dado ao povo Oromo. O bispo Gilherme Massaia era o leader do Vicariato dos Gallas, enquanto o bispo Justino de Iacobis era cabeça do Vicariato da Abissínia, o nome oficial da Etiópia no século XIX.

A origem da denominação «galla» é controversa. Pode derivar de «Galla’aa» — «Vamos entrar» em oromo —, um grito de vitória no final de uma batalha; ou de «Galana» — uma palavra oromo que significa rio. Outra etimologia possível é «ghaliz», um termo amárico e árabe que significa «selvagem» ou «áspero». «Galla» é um nome depreciativo dado pelos amaras aos oromos, significando «pagão, selvagem, incivilizado, inculto, inimigo, escravo ou alguém que é inerentemente inferior». O povo Oromo, evidentemente, nunca se autodenominou «galla».

 

A VIAGEM A ADEM

Comboni chegou a Adem a 12 de janeiro de 1861. Foi enviado pelo padre Nicolau Mazza para resgatar vários jovens, homens e mulheres, da Abissínia, que a marinha inglesa havia resgatado de um navio negreiro no Mar Vermelho. Foram levados para Adem, onde dezasseis desses homens e mulheres foram colocados sob o cuidado da Igreja Católica (Escritos 561).

Numa carta ao padre Francisco Bricolo, Reitor do Instituto Mazza em Verona, enviada de Alexandria, no Egito, a 2 de janeiro de 1861, Comboni explica que a sua viagem deve ser entendida em consonância com o Plano do padre Mazza de fevereiro de 1849, que previa trazer africanos para a Europa, educá-los e instruí-los na fé e, em seguida, enviá-los de volta para evangelizar o seu próprio povo de acordo com as respetivas vocações (E 498).

No mesmo dia, Comboni escreve ao padre Mazza, informando que, enquanto estava em Alexandria, tinha ouvido dizer que «é absolutamente impossível levar negros para a Europa» (E 542).

Navegando do Cairo para Adem, Comboni investigou a possibilidade de alargar a sua missão de resgate ao Madagáscar (E 563-564). Informou-se sobre a possibilidade de enviar outros escravos libertos para Verona via Ilha da Reunião e sobre como aprender a sua língua (E 565).

Uma vez em Adem, Comboni selecionou cinco jovens. Informou o seu Superior de que já estava a estudar «a língua dos Gallas» (E 598) da melhor forma possível, para poder ensinar o Catecismo na sua própria língua. Escreveu também que os jovens Gallas eram aptos para as estações missionárias do Nilo Branco, no Sudão (E 601).

Comboni não teve, contudo, sucesso no recrutamento de jovens mulheres. Um comerciante português queria confiar-lhe uma criada, mas esta recusou-se a deixar a sua casa.

No final de uma carta ao padre Mazza, escrita em Adem a 24 de janeiro de 1861, Comboni acrescenta em nota de rodapé: «Esquecia-me de lhe dizer que tanto os cinco jovens que tenho comigo como os dois que estão em Verona são Gallas e não Abissínios» (E 605). Ele repete a distinção numa carta muito longa ao padre Goffredo Noecker, ao recordar a provação em Alexandria: «os Gallas não são Abissínios» (E 892).

 

AS DIFICULDADES

Comboni partiu de Adem a 2 de fevereiro de 1861, com sete jovens Gallas (E 623), embora noutras duas cartas escreva que eram oito (E 744 e 874). Como tinha ouvido dizer que era proibido embarcar africanos em Alexandria para a viagem para a Europa, conseguiu obter para os jovens resgatados passaportes indianos emitidos pelo governador inglês em Adem, declarando-os súbditos de Sua Majestade (E 874). 

Embora a relação entre o governador e o chefe da Missão Católica em Adem fosse muito tensa, Comboni conseguiu que os jovens fossem declarados súbditos da Coroa Inglesa. Enquanto preparava a viagem para Adem, obteve em Roma uma carta de recomendação de Lorde John Pope-Hennessy dirigida ao Cônsul Geral Inglês no Egito (E 623-624). Talvez tenha ajudado!

Informou o seu Superior por carta que «tenho comigo sete bons jovens que, na opinião deste prefeito apostólico são muitíssimo dóceis» (E 608). Aliás, noutra carta, escreveu que a docilidade era o principal critério para selecionar os jovens a levar para a Europa para receberem educação (E 562). Os sete foram escolhidos de um grupo de dezasseis candidatos (E 623).

A viagem de Adem para Alexandria, no Egito, decorreu sem problemas. Comboni foi ao Cairo para trazer uma jovem de Santa Cruz – a sua primeira missão entre o povo Dinca, no Sudão –, chamada Zenab, para a levar para Verona como professora de dinca e árabe.

Os problemas começaram quando o grupo se preparava para embarcar em Alexandria com destino a Génova, na Itália. Uma proibição das autoridades impedia o embarque de africanos para a Europa. Embora os sete jovens viajassem com passaportes indianos como súbditos ingleses, o oficial responsável considerou-os demasiado escuros para serem indianos, rejeitou os passaportes e colocou-os, juntamente com Comboni, na prisão, declarando que os jovens eram Abissínios (E 625-626).

Comboni, porém, não desistiu da luta. A um funcionário que visitou a prisão para verificar a identidade dos prisioneiros, e que afirmou que os indianos eram de pele clara enquanto os viajantes eram negros, Comboni inventou uma série de nomes de lugares supostamente do interior do subcontinente indiano e disse que os seus habitantes eram, de facto, de pele escura. O funcionário admitiu que Comboni poderia estar certo, uma vez que ele próprio nunca tinha visitado esses lugares.

Outra estratégia consistiu em dizer aos jovens para não falarem oromo ou árabe entre si. Alguns deles sabiam um pouco de «Indostânico» – como diz Comboni – e conseguiram passar na entrevista para verificar a sua suposta origem indiana (E 626 e 892).

No final, Comboni e os seus companheiros de viagem foram libertados da prisão e puderam embarcar para Génova. O grupo chegou a Verona a 18 de março de 1861.

 

COMBONI FALAVA OROMO

Quando Comboni selecionou os sete jovens, começou a aprender oromo para lhes ensinar o Catecismo. Entretanto, em Verona, foi nomeado vice-reitor do Instituto Mazza, responsável pela educação dos africanos. Ensinou-lhes também árabe e italiano. 

Ao presidente da Sociedade de Colónia, na Alemanha, Comboni relata, a 4 de outubro de 1863, que o seu Instituto conta com onze jovens africanos: oito Oromos, dois Baris e outro do Nilo Branco, no Sudão. Publica a lista dos estudantes Oromos:

1. João Farajallah, de Malamoh;

2. Salvador Badassa, de Oromoh;

3. Pedro Bulloh, de Goraghi;

4. Batista Olbmbar, de Kafa;

5. António Dobale, de Marago;

6. Caetano Baratola, de Maggia;

7. Francisco Amano, de Kafa;

8. José Ejamza, de Maggia (E 743).

Farajallah foi o melhor aluno da sua turma no ano letivo de 1862-1863.

A fim de melhorar o seu «pouco conhecimento» do oromo, Comboni pediu ao cardeal Alexandre Barnabò, prefeito da Sagrada Congregação da Propaganda Fide, que lhe enviasse uma gramática e um dicionário inglês-galla impressos pela Congregação (E 628).

Comboni deve ter-se tornado bastante fluente em oromo – era um linguista dotado –, pois escreveu que entrevistou Petronilla Zednab «na sua língua materna» (E 1823) enquanto navegavam juntos para o Egito. Escreveu também que tinha ajudado o cardeal Guilherme Massaia a publicar o seu Catecismo e Gramática Galla durante a estada de quatro meses com o cardeal capuchinho em Paris (E 1030).

Comboni tinha uma relação muito forte com o cardeal Massaia, a quem admirava muito. Descreve-se a si próprio como «companheiro inseparável de mons. Massaia» (E 1001) e ao cardeal como «um dos mais corajosos e fervorosos bispos missionários do nosso século» (E 2106).

Comboni pediu a Massaia que escrevesse uma carta em oromo com as suas bênçãos aos quatro estudantes que permaneceram em Verona porque – como ele diz – o cardeal capuchinho é «o pai dos Gallas» (E 1026).

Ele também «adquiriu» do missionário oromo um par de sandálias gastas que este usou durante três anos quando foi ordenar o padre Justino de Iacobis como bispo da Abissínia. «Roubei-lhas e agora guardo-as como uma relíquia» (E 1030).

 

DOIS SEGUIDORES OROMOS

Daniel Comboni depositava grandes esperanças no povo Oromo para a concretização do seu plano estratégico de «salvar a África através dos africanos». Escreve: «Parece-me que se poderia reunir uma grande falange nas vastas tribos dos Gallas, onde o clima é melhor do que em Nápoles e, em pouco tempo, seria possível passar à África interior pela parte oriental». (E 1062).

Dos oito jovens Oromos recrutados por Comboni, apenas António Dobale se tornou missionário no Sudão. O nativo de Marago, que Comboni tinha libertado em Adem em 1861, ingressou no Colégio Urbano da Propaganda Fide, em Roma, após concluir os seus estudos no Instituto Mazza, em Verona.

Comboni pediu ao cardeal João Simioni, o novo leader da Sagrada Congregação da Propaganda Fide, que ordenasse Dobale sacerdote. Ele define-o como «aluno do Colégio Urbano, que me pertence por ter sido resgatado e levado por mim de Adem para Verona em 1860» (E 5086). Ele chegou a Verona com os outros seis jovens Oromos em 1861 e não em 1860, como Comboni escreveu ao cardeal.

Comboni pediu que Dobale fosse ordenado «o mais rapidamente possível», para que pudesse ser enviado ao Vicariato da África Central numa expedição que se preparava para liderar cinco meses mais tarde: «No meu Vicariato há milhares de Gallas e os lugares onde atualmente temos as nossas estações contam com muitos Abissínios e Gallas; portanto, a obra de Dobale ser-me-ia utilíssima», explica ele ao Prefeito da Propaganda Fide (E 5086).

O padre Dobale, o primeiro missionário etíope de Comboni, era o pároco de Malbes, uma colónia agrícola que Comboni define como «uma pequena comunidade cristã», não muito longe de El Obeid, destinada a jovens casais convertidos ao catolicismo (E 6674).

Numa longa carta ao cardeal Simeoni, escrita a 24 de setembro de 1881, quase duas semanas antes da sua morte, Dom Comboni informou que o padre Dubale tinha falecido de uma febre tifoide virulenta em El Obeid no dia anterior. Outros confrades afirmaram que ele morreu de «tristeza» após ter sido transferido de Malbes para El Obeid.

Outra Oromo que seguiu Comboni para África foi Petronilla Zenab, uma rapariga de Kafa, que foi resgatada pelo Conselheiro Geral da Sardenha e levada para a Europa. Foi educada pelas Irmãs Beneditinas em Salzburgo, na Alemanha (E 1823-1828).

«Petronilla pertence a uma das melhores tribos de África», escreveu Comboni nas notas biográficas que preparara para a Associação de Colónia sobre os missionários e professores africanos que o acompanharam ao Egito em 1867 para a fundação de duas escolas que planeava criar para a educação dos africanos no Cairo (E 1828).

Petronilla era para Comboni «um instrumento especial nas mãos de Deus para o apostolado da Nigrícia» (E 1882), acrescentando: «Tenho a absoluta confiança de que vai ser muito adequada para levar a África à regeneração por meio da própria África» (E 1828). Ela sabia árabe e estava a preparar duas meninas para o batismo quando foi chamada à Casa do Pai a 31 de janeiro de 1869, no Cairo.

 

CONCLUSÃO

Daniel Comboni, através dos sete Gallas que resgatou em Adem, tornou-se um grande amigo do povo Oromo. Aprendeu a sua língua, teve sempre o cuidado de os designar como Oromos e não como Abissínios, e depositou neles uma grande esperança para o seu «Plano para a Regeneração de África». Contou com a colaboração de dois missionários Oromo: uma leiga e um sacerdote.

A relação entre Oromos e Abissínios – os povos Amara, Tigrinha e Gurague, de origem semítica, do norte do país – continua a ser bastante delicada. Um dia, eu caminhava pelas ruas empoeiradas de Me’ee Bokko com um professor católico. As crianças começaram a gritar «Farenji, Farenji» (Estrangeiro, Estrangeiro), ao que eu respondi «Habesha, Habesha» (como os etíopes se autodenominam). O professor repreendeu-me, porque, explicou ele, «Habesha» não é a palavra correta para descrever adequadamente o povo Guji, que é de origem cuchita.

Comboni descreveu o povo Oromo – que constitui mais de um terço da população atual da Etiópia e que também se encontra no norte do Quénia e na Somália – como «uma das melhores tribos de África».

Por fim, Comboni descreve o vasto território da tribo Oromo «que desde o reino de Shoa se estende até ao equador e constitui com a Abissínia o grande planalto etíope» (E 6266).

Tem também um comentário interessante sobre Kaffa (que hoje não faz parte de Oromia). Descreve a região como «país originário do mais precioso café do mundo, até ao ponto de derivar de Kaffa o nome desse produto» (E 6266). Outro étimo para café pode ser «qahwah», uma palavra árabe para vinho que chegou à Europa através da sua derivada turca.

15 de maio de 2026

DOS ADEUSES AO OLÁ










A sabedoria popular reconhece – com redobrada razão – que o homem põe e Deus dispõe. Demorei 21 anos a regressar à Etiópia, com estações e apeadeiros no México, em Portugal e no Sudão do Sul. 

Quando regressei no final de outubro de 2021, pensei ficar uns dez anos com os meus irmãos gujis. Entretanto, a dezena de anos foi encurtada para menos de cinco. Os superiores propuseram-me ir para a comunidade da Cúria dos Combonianos, em Roma, Itália, para trabalhar na comunicação.

A proposição apanhou-me completamente em falso numa sexta-feira de março de 2025 no final da viagem com dois colegas de Qillenso para Haro Wato, a outra comunidade comboniana entre os gujis, para um sábado de recoleção zonal da quaresma.

Coloquei as minhas objeções – a maior? Ter de aprender a escrever em italiano aos 65 – e pedi tempo para reflexão. Consultei algumas pessoas – combonianos e leigos – que me recomendaram assumir o novo desafio.

Continuei as conversações com irmãos maiores. Entretanto, nas férias, diagnosticaram-me um cancro e o programa ficou suspenso até ter um quadro de saúde mais claro. Quando o urologista me disse em fevereiro que, depois da cirurgia estava livre do tumor, passei a novidade a Roma e fizemos o plano de rotação.

Eu queria voltar a Qillenso para celebrar a páscoa com as pessoas, despedir-me delas e viajar para Roma. Se possível, gostaria de partir quando o meu substituto, um missionário do Togo, voltasse a Qillenso. Preferiram manter o plano original.

As despedidas começaram no domingo de Páscoa nas comunidades de Gosa e Chirra. Expliquei que me destinaram a um novo serviço missionário em Roma. Em Chirra, o almoço festivo no fim da missa da ressurreição – leite e cocho – transformou-se em almoço de despedida.

No dia seguinte fui a Adola para dizer adeus às Missionárias da Caridade – de quem fui capelão – e aos seus utentes, aos anciãos da igreja e aos detidos na prisão regional com quem rezamos às terças-feiras.

De volta a Qillenso – a viagem serviu para me despedir dos tuque-tuques – expliquei à Werqé, a nova cozinheira que o meu tempo com eles foi encurtado. Ela convidou-me para ir à casa da sua família por detrás da colina onde está a missão. Fi-lo no sábado. Vi a irmã que casou e que estava de visita à família com o marido e conheci Kenna (Nosso), o primeiro filho do casal. A caminho da missão passamos pela casa dos tios da Werqé – uma família com quem tenho uma relação de grande amizade. 

No domingo, no fim da Eucaristia e antes da bênção, sentei-me ao lado do altar. Informei a assembleia que aquele foi a última missa nos tempos mais próximos. Que me querem em Roma para um novo serviço. Que os gujis são a minha segunda família. Que fiz o voto de obediência e por isso tive de obedecer. Houve funga-funga.

No final da eucaristia, depois de alguma discussão, decidiram fazer uma coleta para comprar o necessário para a festa da despedida ao fim do dia no salão paroquial.

A despedida tive várias partes. Mi’essa, o catequista da comunidade, fez um pequeno discurso laudatório e eu outro.

Depois, um grupo de homens levou-me ao escritório paroquial para trocar as minhas roupas pelo traje de cerimónia guji: calções, camisete e manto brancos debruados a azul e um cachecol na cabeça. E o bastão de chefe na mão.

Regressei ao salão entre palmas. Seguiu-se a secção fotográfica. Depois abençoei e cortei dois grandes pães para serem comidos por todos.

Algumas famílias trouxeram leite e iogurte para a festa. Tive de benzer os oferentes e beber quatro tragos de cada recipiente. 

Seguiu-se a refeição propriamente dita: injera, o pão daqui em forma de uma panqueca gigante, com carne cozida com alguns vegetais acompanhados por refrigerantes oferecidos por algumas pessoas – que também tive de abençoar.

Durante o repasto a luz falhou algumas vezes, mas com velas e as lâmpadas dos telemóveis ninguém meteu a comida por engano na boca do vizinho. Só na boca das pessoas que serviam às mesas. É um costume guji interessante e uma maneira de agradecer o serviço.

No final, pedi desculpa se a alguém ofendi e agradeci os quatro anos e meio que vivemos juntos na paróquia de Qillenso. Dei a bênção e fui abençoado. Houve tempo para trocar abraços, frases lindas e lágrimas.

Na segunda-feira de manhã, viajamos para Hawassa para a assembleia provincial. A falta de gasóleo obrigou-nos a contratar um carro privado a gasolina de Adola. 

A assembleia provincial serviu também para dizer adeus a Hawassa, uma cidade verde e temperada de que gosto muito. Despedi-me do lago e da cidade com uma longa caminhada. E do Monte Tabor, a colina junto ao lago. Tem uma escadaria com quase 600 degraus. Notei como a cidade cresceu e se alindou nos últimos 26 anos. E ganhei uma valente dor de pernas e uma broncopneumonia.

Adis-Abeba, a capital da Terra das Origens a quem os oromos chamam de Finfinne, foi o último palco das despedidas. Curei a infeção pulmonar. Fiz o cartão de identidade digital – quando foi lançado há dois anos disseram-me que era só para nacionais, mas quando fui renovar a carta de condução exigiram-mo. Renovei a carta de condução. Despedi-me das missionárias e dos postulantes combonianos. Almocei com o embaixador de Portugal na Etiópia e com a embaixatriz. Fechei o meu processo com o Governo, depois de dia e meio nos Serviços de Emigração e Cidadania. E recebi o visto de saída do país.

Nesta caravana de tempestades emocionais – que as despedidas sempre me provocam – tenho o sentimento vincado que hei de voltar. Quando e como, não faço ideia! E estou pronto dizer olá à nova fase da minha vida missionária em Roma, num posto que Deus me deu como mais uma das suas muitas surpresas carinhosas. Apesar dos meus medos! 

Viajo para a semana.

2 de maio de 2026

CRIME MAIOR CONTRA A HUMANIDADE


A Assembleia Geral das Nações Unidas classificou o tráfico de africanos e a sua escravidão racializada como o crime mais grave contra a Humanidade.

A resolução foi aprovada durante a 80.a sessão da Assembleia Geral, a 25 de Março de 2026, Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravatura. Teve votos a favor de 123 Estados-membros, incluindo do Brasil e países africanos de expressão portuguesa, votos contra dos Estados Unidos, Israel e Argentina e 52 abstenções, entre as quais Portugal, Espanha, França, Reino Unido e Holanda, potências coloniais envolvidas no tráfico transatlântico de africanos escravizados.

A resolução foi apresentada pelo presidente do Gana, país muito afetado pelo comércio de escravos. O Castelo de Elmina, construído pelos Portugueses na então Costa do Ouro em 1482 como entreposto para o comércio de ouro, marfim e especiarias, tornou-se um dos centros principais do tráfico transatlântico de escravos, e é um monumento a essa página escura da História da Humanidade. O presidente John Mahama declarou que «a aprovação desta resolução serve como uma garantia contra o esquecimento. Além disso, enfrenta as cicatrizes duradouras da escravatura».

O tráfico transatlântico de escravos constitui a maior migração forçada na História da Humanidade e o sistema mais longo de exploração de pessoas em massa. Entre 12 e 15 milhões de africanos foram escravizados e transportados em condições inumanas para as Américas. O comércio transatlântico durou mais de 400 anos, entre os séculos XV e XIX. Segundo a resolução, «marcou uma rutura profunda na história humana cujas consequências se estenderam através dos séculos e dos continentes e que o século XV marcou o início crítico da história excecional e negra da captura, transporte forçado e escravidão racializada do Povo da África».

A resolução faz referência a um número de documentos que legalizaram e legislaram o comércio transatlântico de escravos, bem como legislação internacional que pôs termo ao tráfico. Contudo, não refere o envolvimento de líderes africanos na captura e venda de escravos.

A migração forçada de dezenas de milhões de pessoas marcou significativamente as sociedades africanas através da depopulação, que desintegrou o tecido social e do racismo. 

A resolução reconhece que o tráfico de escravos africanos continua a informar o racismo estrutural, desigualdades raciais, subdesenvolvimento, marginalização e disparidades socioeconómicas entre africanos e milhões de afrodescendentes.

A resolução exorta os Estados-membros «a iniciar um diálogo inclusivo e de boa-fé em matéria de justiça reparadora, que inclua uma desculpa plena e formal, medidas de restituição, indemnização, reabilitação, satisfação, garantias de não repetição e modificação de leis, programas e serviços para combater o racismo e a discriminação sistemática».

A União Africana declarou os anos 2026-2036 Década de Ação sobre Reparações e Herança Africana