20 de maio de 2026

DANIEL COMBONI: UM AMIGO DO POVO OROMO

 


É sabido que o padre Daniel Comboni fez uma viagem a Adem, no Iémen, no início de 1861, e resgatou sete jovens Gallas da escravatura. No entanto, demorou muito tempo até que eu (pelo menos!) compreendesse que aqueles jovens Gallas eram, na verdade, membros da etnia Oromo, originários do que hoje é o sul da Etiópia, parentes do povo Guji, com quem trabalho há mais de doze anos.

«Galla» era o nome originalmente dado ao povo Oromo. O bispo Gilherme Massaia era o leader do Vicariato dos Gallas, enquanto o bispo Justino de Iacobis era cabeça do Vicariato da Abissínia, o nome oficial da Etiópia no século XIX.

A origem da denominação «galla» é controversa. Pode derivar de «Galla’aa» — «Vamos entrar» em oromo —, um grito de vitória no final de uma batalha; ou de «Galana» — uma palavra oromo que significa rio. Outra etimologia possível é «ghaliz», um termo amárico e árabe que significa «selvagem» ou «áspero». «Galla» é um nome depreciativo dado pelos amaras aos oromos, significando «pagão, selvagem, incivilizado, inculto, inimigo, escravo ou alguém que é inerentemente inferior». O povo Oromo, evidentemente, nunca se autodenominou «galla».

 

A VIAGEM A ADEM

Comboni chegou a Adem a 12 de janeiro de 1861. Foi enviado pelo padre Nicolau Mazza para resgatar vários jovens, homens e mulheres, da Abissínia, que a marinha inglesa havia resgatado de um navio negreiro no Mar Vermelho. Foram levados para Adem, onde dezasseis desses homens e mulheres foram colocados sob o cuidado da Igreja Católica (Escritos 561).

Numa carta ao padre Francisco Bricolo, Reitor do Instituto Mazza em Verona, enviada de Alexandria, no Egito, a 2 de janeiro de 1861, Comboni explica que a sua viagem deve ser entendida em consonância com o Plano do padre Mazza de fevereiro de 1849, que previa trazer africanos para a Europa, educá-los e instruí-los na fé e, em seguida, enviá-los de volta para evangelizar o seu próprio povo de acordo com as respetivas vocações (E 498).

No mesmo dia, Comboni escreve ao padre Mazza, informando que, enquanto estava em Alexandria, tinha ouvido dizer que «é absolutamente impossível levar negros para a Europa» (E 542).

Navegando do Cairo para Adem, Comboni investigou a possibilidade de alargar a sua missão de resgate ao Madagáscar (E 563-564). Informou-se sobre a possibilidade de enviar outros escravos libertos para Verona via Ilha da Reunião e sobre como aprender a sua língua (E 565).

Uma vez em Adem, Comboni selecionou cinco jovens. Informou o seu Superior de que já estava a estudar «a língua dos Gallas» (E 598) da melhor forma possível, para poder ensinar o Catecismo na sua própria língua. Escreveu também que os jovens Gallas eram aptos para as estações missionárias do Nilo Branco, no Sudão (E 601).

Comboni não teve, contudo, sucesso no recrutamento de jovens mulheres. Um comerciante português queria confiar-lhe uma criada, mas esta recusou-se a deixar a sua casa.

No final de uma carta ao padre Mazza, escrita em Adem a 24 de janeiro de 1861, Comboni acrescenta em nota de rodapé: «Esquecia-me de lhe dizer que tanto os cinco jovens que tenho comigo como os dois que estão em Verona são Gallas e não Abissínios» (E 605). Ele repete a distinção numa carta muito longa ao padre Goffredo Noecker, ao recordar a provação em Alexandria: «os Gallas não são Abissínios» (E 892).

 

AS DIFICULDADES

Comboni partiu de Adem a 2 de fevereiro de 1861, com sete jovens Gallas (E 623), embora noutras duas cartas escreva que eram oito (E 744 e 874). Como tinha ouvido dizer que era proibido embarcar africanos em Alexandria para a viagem para a Europa, conseguiu obter para os jovens resgatados passaportes indianos emitidos pelo governador inglês em Adem, declarando-os súbditos de Sua Majestade (E 874). 

Embora a relação entre o governador e o chefe da Missão Católica em Adem fosse muito tensa, Comboni conseguiu que os jovens fossem declarados súbditos da Coroa Inglesa. Enquanto preparava a viagem para Adem, obteve em Roma uma carta de recomendação de Lorde John Pope-Hennessy dirigida ao Cônsul Geral Inglês no Egito (E 623-624). Talvez tenha ajudado!

Informou o seu Superior por carta que «tenho comigo sete bons jovens que, na opinião deste prefeito apostólico são muitíssimo dóceis» (E 608). Aliás, noutra carta, escreveu que a docilidade era o principal critério para selecionar os jovens a levar para a Europa para receberem educação (E 562). Os sete foram escolhidos de um grupo de dezasseis candidatos (E 623).

A viagem de Adem para Alexandria, no Egito, decorreu sem problemas. Comboni foi ao Cairo para trazer uma jovem de Santa Cruz – a sua primeira missão entre o povo Dinca, no Sudão –, chamada Zenab, para a levar para Verona como professora de dinca e árabe.

Os problemas começaram quando o grupo se preparava para embarcar em Alexandria com destino a Génova, na Itália. Uma proibição das autoridades impedia o embarque de africanos para a Europa. Embora os sete jovens viajassem com passaportes indianos como súbditos ingleses, o oficial responsável considerou-os demasiado escuros para serem indianos, rejeitou os passaportes e colocou-os, juntamente com Comboni, na prisão, declarando que os jovens eram Abissínios (E 625-626).

Comboni, porém, não desistiu da luta. A um funcionário que visitou a prisão para verificar a identidade dos prisioneiros, e que afirmou que os indianos eram de pele clara enquanto os viajantes eram negros, Comboni inventou uma série de nomes de lugares supostamente do interior do subcontinente indiano e disse que os seus habitantes eram, de facto, de pele escura. O funcionário admitiu que Comboni poderia estar certo, uma vez que ele próprio nunca tinha visitado esses lugares.

Outra estratégia consistiu em dizer aos jovens para não falarem oromo ou árabe entre si. Alguns deles sabiam um pouco de «Indostânico» – como diz Comboni – e conseguiram passar na entrevista para verificar a sua suposta origem indiana (E 626 e 892).

No final, Comboni e os seus companheiros de viagem foram libertados da prisão e puderam embarcar para Génova. O grupo chegou a Verona a 18 de março de 1861.

 

COMBONI FALAVA OROMO

Quando Comboni selecionou os sete jovens, começou a aprender oromo para lhes ensinar o Catecismo. Entretanto, em Verona, foi nomeado vice-reitor do Instituto Mazza, responsável pela educação dos africanos. Ensinou-lhes também árabe e italiano. 

Ao presidente da Sociedade de Colónia, na Alemanha, Comboni relata, a 4 de outubro de 1863, que o seu Instituto conta com onze jovens africanos: oito Oromos, dois Baris e outro do Nilo Branco, no Sudão. Publica a lista dos estudantes Oromos:

1. João Farajallah, de Malamoh;

2. Salvador Badassa, de Oromoh;

3. Pedro Bulloh, de Goraghi;

4. Batista Olbmbar, de Kafa;

5. António Dobale, de Marago;

6. Caetano Baratola, de Maggia;

7. Francisco Amano, de Kafa;

8. José Ejamza, de Maggia (E 743).

Farajallah foi o melhor aluno da sua turma no ano letivo de 1862-1863.

A fim de melhorar o seu «pouco conhecimento» do oromo, Comboni pediu ao cardeal Alexandre Barnabò, prefeito da Sagrada Congregação da Propaganda Fide, que lhe enviasse uma gramática e um dicionário inglês-galla impressos pela Congregação (E 628).

Comboni deve ter-se tornado bastante fluente em oromo – era um linguista dotado –, pois escreveu que entrevistou Petronilla Zednab «na sua língua materna» (E 1823) enquanto navegavam juntos para o Egito. Escreveu também que tinha ajudado o cardeal Guilherme Massaia a publicar o seu Catecismo e Gramática Galla durante a estada de quatro meses com o cardeal capuchinho em Paris (E 1030).

Comboni tinha uma relação muito forte com o cardeal Massaia, a quem admirava muito. Descreve-se a si próprio como «companheiro inseparável de mons. Massaia» (E 1001) e ao cardeal como «um dos mais corajosos e fervorosos bispos missionários do nosso século» (E 2106).

Comboni pediu a Massaia que escrevesse uma carta em oromo com as suas bênçãos aos quatro estudantes que permaneceram em Verona porque – como ele diz – o cardeal capuchinho é «o pai dos Gallas» (E 1026).

Ele também «adquiriu» do missionário oromo um par de sandálias gastas que este usou durante três anos quando foi ordenar o padre Justino de Iacobis como bispo da Abissínia. «Roubei-lhas e agora guardo-as como uma relíquia» (E 1030).

 

DOIS SEGUIDORES OROMOS

Daniel Comboni depositava grandes esperanças no povo Oromo para a concretização do seu plano estratégico de «salvar a África através dos africanos». Escreve: «Parece-me que se poderia reunir uma grande falange nas vastas tribos dos Gallas, onde o clima é melhor do que em Nápoles e, em pouco tempo, seria possível passar à África interior pela parte oriental». (E 1062).

Dos oito jovens Oromos recrutados por Comboni, apenas António Dobale se tornou missionário no Sudão. O nativo de Marago, que Comboni tinha libertado em Adem em 1861, ingressou no Colégio Urbano da Propaganda Fide, em Roma, após concluir os seus estudos no Instituto Mazza, em Verona.

Comboni pediu ao cardeal João Simioni, o novo leader da Sagrada Congregação da Propaganda Fide, que ordenasse Dobale sacerdote. Ele define-o como «aluno do Colégio Urbano, que me pertence por ter sido resgatado e levado por mim de Adem para Verona em 1860» (E 5086). Ele chegou a Verona com os outros seis jovens Oromos em 1861 e não em 1860, como Comboni escreveu ao cardeal.

Comboni pediu que Dobale fosse ordenado «o mais rapidamente possível», para que pudesse ser enviado ao Vicariato da África Central numa expedição que se preparava para liderar cinco meses mais tarde: «No meu Vicariato há milhares de Gallas e os lugares onde atualmente temos as nossas estações contam com muitos Abissínios e Gallas; portanto, a obra de Dobale ser-me-ia utilíssima», explica ele ao Prefeito da Propaganda Fide (E 5086).

O padre Dobale, o primeiro missionário etíope de Comboni, era o pároco de Malbes, uma colónia agrícola que Comboni define como «uma pequena comunidade cristã», não muito longe de El Obeid, destinada a jovens casais convertidos ao catolicismo (E 6674).

Numa longa carta ao cardeal Simeoni, escrita a 24 de setembro de 1881, quase duas semanas antes da sua morte, Dom Comboni informou que o padre Dubale tinha falecido de uma febre tifoide virulenta em El Obeid no dia anterior. Outros confrades afirmaram que ele morreu de «tristeza» após ter sido transferido de Malbes para El Obeid.

Outra Oromo que seguiu Comboni para África foi Petronilla Zenab, uma rapariga de Kafa, que foi resgatada pelo Conselheiro Geral da Sardenha e levada para a Europa. Foi educada pelas Irmãs Beneditinas em Salzburgo, na Alemanha (E 1823-1828).

«Petronilla pertence a uma das melhores tribos de África», escreveu Comboni nas notas biográficas que preparara para a Associação de Colónia sobre os missionários e professores africanos que o acompanharam ao Egito em 1867 para a fundação de duas escolas que planeava criar para a educação dos africanos no Cairo (E 1828).

Petronilla era para Comboni «um instrumento especial nas mãos de Deus para o apostolado da Nigrícia» (E 1882), acrescentando: «Tenho a absoluta confiança de que vai ser muito adequada para levar a África à regeneração por meio da própria África» (E 1828). Ela sabia árabe e estava a preparar duas meninas para o batismo quando foi chamada à Casa do Pai a 31 de janeiro de 1869, no Cairo.

 

CONCLUSÃO

Daniel Comboni, através dos sete Gallas que resgatou em Adem, tornou-se um grande amigo do povo Oromo. Aprendeu a sua língua, teve sempre o cuidado de os designar como Oromos e não como Abissínios, e depositou neles uma grande esperança para o seu «Plano para a Regeneração de África». Contou com a colaboração de dois missionários Oromo: uma leiga e um sacerdote.

A relação entre Oromos e Abissínios – os povos Amara, Tigrinha e Gurague, de origem semítica, do norte do país – continua a ser bastante delicada. Um dia, eu caminhava pelas ruas empoeiradas de Me’ee Bokko com um professor católico. As crianças começaram a gritar «Farenji, Farenji» (Estrangeiro, Estrangeiro), ao que eu respondi «Habesha, Habesha» (como os etíopes se autodenominam). O professor repreendeu-me, porque, explicou ele, «Habesha» não é a palavra correta para descrever adequadamente o povo Guji, que é de origem cuchita.

Comboni descreveu o povo Oromo – que constitui mais de um terço da população atual da Etiópia e que também se encontra no norte do Quénia e na Somália – como «uma das melhores tribos de África».

Por fim, Comboni descreve o vasto território da tribo Oromo «que desde o reino de Shoa se estende até ao equador e constitui com a Abissínia o grande planalto etíope» (E 6266).

Tem também um comentário interessante sobre Kaffa (que hoje não faz parte de Oromia). Descreve a região como «país originário do mais precioso café do mundo, até ao ponto de derivar de Kaffa o nome desse produto» (E 6266). Outro étimo para café pode ser «qahwah», uma palavra árabe para vinho que chegou à Europa através da sua derivada turca.

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