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A mostrar mensagens de abril, 2026

POR CAUSA DO REINO

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A Etiópia vive há muito um problema grave de distribuição de combustíveis que a guerra contra o Irão veio agudizar. Os vendedores punham no mercado negro uma boa parte do produto para obterem lucros maiores. O Governo pôs alguns na prisão, mas foi uma operação cosmética. Agora, com a falta de gasóleo – temos dois veículos parados na cidade à espera de abastecimento – recorremos aos transportes públicos, sobretudo aos tuque-tuques, para as deslocações. O mercado negro está bem abastecido de gasolina, mas o litro pode chegar ao equivalente a quatro euros. Uma exorbitância! O tuque-tuque – que localmente chamam de Bajaj, a marca de um dos fabricantes indianos – é o táxi comum nas cidades, mas também faz grades distâncias e trabalha por contrato. Um meio de transporte alternativo, embora muito frio, sem portas nem janelas. A polícia proibiu o uso de cortinas, porque desconfiava que os veículos eram usados para abastecer os rebeldes oromos que operam nas terras baixas e quentes.  Os veí...

COMPANHEIRAS DE EMAÚS

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  Caminhamos juntas, com perguntas e cansaço a palpitar no coração. Entre os trilhos do deserto, inesperadamente florido, avançamos como quem percebe um sussurro de esperança.  Mulheres beduínas cujas histórias se entrelaçam: um marido sem trabalho; uma mãe que chora o filho recém-falecido; outra que cuida da filha de dezassete anos, debilitada pela doença; outra família obrigada a abandonar a sua casa em busca de pastagens onde ainda lhes seja permitido viver.  Pelo caminho, colhemos pequenas flores e trançamo-las em pulseiras, como se abraçássemos a vida. Param, contemplam, seguram a beleza frágil nas mãos e entrelaçam-na com ternura. Passo a passo, entre palavras partilhadas e silêncios habitados, emergem preocupações profundas: o medo de serem expulsadas, memórias guardadas, feridas sem nome.  O caminho quotidiano — aquele que conduz ao coração da aldeia, onde a vida se encontra, aprende e resiste — torna-se um espaço de escuta e revelação.  Avançamos juntas...

Etiópia: MISSIONÁRIOS COMBONIANOS CELEBRAM ASSEMBLEIA ANUAL

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Os Missionários Combonianos que trabalham na Etiópia estão reunidos para a sua assembleia provincial. O evento anual decorre na Casa Comboni de Hawassa, de 21 a 24 de abril.  Vinte e um missionários vieram das oito comunidades que compõem a Província: Gilgel Beles e Gublak (entre os Gumuz), Adis-Abeba (Casa Provincial e Postulantado), Hawassa (animação missionária e vocacional), Daye (entre os Sidamas) e Qillenso e Haro Wato (no território dos Gujis). Apenas dois permaneceram nas próprias comunidades. A Assembleia Provincial conta também com a presença de dois convidados especiais: o Ir. Alberto Lamana, Conselheiro Geral que acompanha as províncias de língua inglesa e Moçambique, e o P. Franck Mandozi, da comunidade de Kosti, no Sudão, em representação da Província Comboniana do Egito-Sudão. Dom Merhakristos Gabezayehu, bispo do Vicariato de Hawassa, e a Ir. Weynshet Tadesse, conselheira que representa as Irmãs Missionárias Combonianas na Etiópia, também falarão à assembleia. O ord...

UM SÓ BATISMO, DUAS PÁSCOAS

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  Ortodoxos e Católicos reconhecem os batismos mútuos, mas não conseguem concertar uma data comum para a celebração da Páscoa, o evento fundante da fé cristã. Se um ortodoxo quiser entrar para a comunhão católica não precisa de ser batizado de novo. O mesmo vale para um católico que ingresse na comunhão ortodoxa. Apesar das diferenças teológicas que as separam, as duas tradições cristãs reconhecem um só batismo. Contudo, quase todos os anos ortodoxos e católicos celebram o mistério pascal do Senhor em datas distintas – que pode ir de uma semana a mais de um mês de diferença. A data da celebração da Páscoa do Senhor foi assunto controverso desde o início do cristianismo. Houve quem quisesse unir a celebração da Páscoa cristã à Páscoa judaica. Porém, prevaleceu o entendimento de que a Páscoa é para se celebrar no domingo, porque foi na manhã do primeiro dia da semana que Madalena encontrou o sepulcro vazio. O domingo, como a própria etimologia diz, é o dia do Senhor. Há 1701 anos, o ...

MERCENÁRIOS À FORÇA

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Alguns milhares de africanos estão a combater do lado da Rússia na Ucrânia, uma guerra que entrou no seu quinto ano em Fevereiro passado e cujas reverberações chegam ao coração do Continente Negro. As fontes são distintas e os números diferentes. O coletivo de investigação All Eyes on Wagner compilou uma lista de 1417 africanos de 35 países recrutados entre 2023 e 2025, incluindo 316 mortos, cerca de um quinto dos mercenários africanos. Os contingentes mais numerosos são do Egipto (361 combatentes), Camarões (335) e Gana (324). Andrii Sybiha, ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, tuitou que 1436 cidadãos de 36 países africanos estavam a lutar com os Russos contra o seu país. O Instituto Francês de Relações Internacionais, por seu turno, calcula que haja de 3000 a 4000 africanos entre os 18 000 a 20 000 estrangeiros a combater nas fileiras invasoras na Ucrânia. Recentemente o Parlamento do Quénia foi informado de que mais de 1000 quenianos se encontravam entre as forças russas, ...

CAMELOS DE LÃ

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Basma carrega um mundo de preocupações… Mesmo assim, recebe-nos sempre com um sorriso. Serena, bela, atenciosa, digna. No meio de tantas dificuldades e tristezas, esta mulher beduína mantém-se de cabeça erguida. Aproveitou cada oportunidade: aprendeu a fazer camelos com lã, estuda inglês com assiduidade, borda arte palestiniana e costura à máquina. Não desiste. Depois da festa do fim do Ramadão, as filhas visitam os pais.  Ela irá ver a sua família. Há meses que não os vê: um conflito entre famílias terminou com a casa paterna incendiada. O cerco dos colonos continua; o seu irmão e outros parentes foram espancados e hospitalizados. O seu pai vive agora numa tenda, também sob ordem de evacuação. O futuro é incerto. Basma, viúva e na casa dos quarenta, tem oito filhos. Vive junto com a primeira esposa — a sua prima: duas mulheres, treze filhos, a apoiarem-se mutuamente.  As crianças não vão à escola: o sistema educativo está a desmoronar-se.  A sua aldeia está em risco. Tod...

PÁSCOA NO SUDÃO: FEZ-SE LUZ

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  Quando Maria Madalena foi ao sepulcro, ainda estava escuro. Estava escuro para Maria porque estava consumida pela dor; porque não conseguia compreender a morte daquele que tanto amava.  Estava escuro porque se sentia sozinha e perdida. No Sudão, a guerra, que começou a 15 de Abril de 2023, lançou uma sombra de escuridão sobre todo o país. Mais de 11 milhões de pessoas tiveram de fugir das suas casas para outras partes do país, e cerca de quatro milhões procuraram refúgio noutros países.  Para todos eles, o céu está coberto por um pesado e denso véu de escuridão. Milhões de pessoas no Irão, Líbano, Ucrânia… sentem a mesma escuridão.  Apesar da escuridão, Maria Madalena partiu cedo. A recordação e o amor que sentia por Jesus impeliram-na a ir ao seu túmulo. Então, ela descobriu algo inesperado. A pedra tinha sido removida.  Maria não compreendeu o que tinha acontecido e chamou Pedro e João. Quando João entrou no túmulo vazio, «viu e acreditou».  A escuridão...

VOLUNTÁRIOS PRECISAM-SE!

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Chama-se Vera. Veste no olhar vivo e alegre a frescura dos verdes anos. Apareceu em Qillenso, a aldeia onde vivo no sul da Etiópia, com uma espanhola, um espanhol e um etíope.  Iam a Dare Qidame, o local da (provável) nova missão dos combonianos entre os gujis, explorar a presença da água. Os locais já construíram uma grande igreja com a colaboração de vizinhos de outras igrejas e inclusive muçulmanos.  O espanhol, voluntário há muitos anos na Etiópia, também é vedor. O etíope é engenheiro. Marcaram três pontos para um furo artesiano. Tinham pernoitado em Hawassa. Pararam em Qillenso para me saudar. Ofereci-lhes um café da nossa safra. Da Vera retive o nome, que é de Cascais, que terminou o curso de enfermagem e que antes de iniciar a atividade profissional quis oferecer algum tempo ao voluntariado. Chegou à Etiópia por via das Missionárias da Caridade, as freiras da Santa Madre Teresa de Calcutá, que conhece de Setúbal e Lisboa. Atirou-me uma pergunta:  – Porquê há tanto...

SEXTA-FEIRA SANTA EM JERUSALÉM

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  Todos os anos, na Sexta-Feira Santa, Jerusalém fica lotada. As ruas enchem-se de passos, de línguas diferentes, de orações que se entrelaçam, enquanto toda a cidade parece palpitar ao ritmo da Via-Sacra.  A par da Via-Sacra oficial, organizada pelos franciscanos, inúmeros grupos percorrem a Via Dolorosa, parando em cada uma das catorze estações. São rostos vindos de longe, corações inflamados pela fé, peregrinos que desejam tocar, ainda que por um instante, o mistério do amor levado ao extremo. Seguem Jesus nos seus últimos passos, ali onde a dor se transforma em oferta e a entrega se consuma em silêncio. Cada pedra guarda a memória. Cada recanto sussurra o Seu Nome. Mas este ano… tudo é diferente. As ruas perderam a agitação. O eco dos cânticos silenciou-se. A cidade, ferida, respira entre o peso da incerteza e do medo. A terra que um dia foi testemunha da Redenção volta a conhecer a amargura da dor e da morte. Demasiado sangue derramado. Demasiadas lágrimas sem consolo....