29 de abril de 2026

POR CAUSA DO REINO



A Etiópia vive há muito um problema grave de distribuição de combustíveis que a guerra contra o Irão veio agudizar. Os vendedores punham no mercado negro uma boa parte do produto para obterem lucros maiores. O Governo pôs alguns na prisão, mas foi uma operação cosmética.

Agora, com a falta de gasóleo – temos dois veículos parados na cidade à espera de abastecimento – recorremos aos transportes públicos, sobretudo aos tuque-tuques, para as deslocações. O mercado negro está bem abastecido de gasolina, mas o litro pode chegar ao equivalente a quatro euros. Uma exorbitância!

O tuque-tuque – que localmente chamam de Bajaj, a marca de um dos fabricantes indianos – é o táxi comum nas cidades, mas também faz grades distâncias e trabalha por contrato. Um meio de transporte alternativo, embora muito frio, sem portas nem janelas. A polícia proibiu o uso de cortinas, porque desconfiava que os veículos eram usados para abastecer os rebeldes oromos que operam nas terras baixas e quentes. 

Os veículos foram desenhados para levar o condutor no pequeno banco da frente mais três passageiros no de trás. Contudo, já viajei com mais nove passageiros – cada um acomodando-se como pôde – mais o motorista. Com boa vontade há sempre lugar para mais um!

A sobrelotação traz problemas de segurança: o veículo, pesado de mais, fica difícil de manobrar pelo condutor espremido entre dois passageiros. Os acidentes são geralmente graves com mortos e feridos.

Na semana passada fui a Adola. Era a minha vez de celebrar a missa para as Missionárias da Caridade e para os católicos da cidade e visitar a prisão. Vamos na sexta à tarde e regressamos a Qillenso, a nossa base, na terça para o almoço.

Não havia carrinhas de transporte em circulação, pelo que apanhei um Bajaj: 35 quilómetros em menos de uma hora. A corrida custou 400 birr, pouco mais de dois euros.

Como é meu hábito, meti conversa com os outros passageiros: uma mãe com o seu bebé, mais dois homens. O uso de transportes públicos possibilita uma relação mais próxima e diferente com as pessoas.

Como não me conheciam, ficaram admirados por falar a língua deles.

Na brincadeira expliquei que sou guji, mas, quando nasci, lavaram-me com lixivia e estragaram-me a pele! Uma boa gargalhada é prenúncio de cavaqueira amena.

Conversamos sobre o frio que apanhávamos, sobre a falta de combustíveis, sobre o custo da vida que não para de subir. 

Perguntaram pelo meu carro. 

– Nafta hin jiru! Não há gasóleo! – respondi. 

Entretanto, em Anfarara, no começo das terras baixas, a uma dezena de quilómetros de Adola, entrou um muçulmano mais uma comerciante. Devia sê-lo pelo molho de notas que tirou do bolso quando pagou a corrida.

Cumprimentei-os. O muçulmano, contorcido no banco da frente, perguntou se eu tinha família. Expliquei que sou padre missionário católico e, por isso, solteiro. 

– Os padres ortodoxos e os pastores protestantes podem casar. Se eu casar, tenho de deixar o meu ministério e gosto muito do que faço! – expliquei-lhe. 

Ele respondeu que a tradição católica era muito dura, que um homem precisa de uma mulher.

Um dos outros passageiros interveio:

– É como o apóstolo São Paulo: por causa do Reino não se casou... 

A conversa à volta do Reino continuou animada entre os dois.

Eu voltei a minha atenção para o bebé que, entretanto, tinha agarrado o meu polegar e não o largava. Também queria atenção! Fiz-lhe umas festinhas.

A mãe sorria!

Sem comentários: