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A mostrar mensagens de 2024

BORDAR EM PONTO DE ESPERANÇA

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Chegou radiante, com a sua pequena almofada bordada e cosida à mão. Mostrou-ma com orgulho:  – Não é linda? Diz-me que está bonita! Peguei na almofada bordada e examinei-a com atenção.  Ao reparar na minha expressão de dúvida, acrescentou rapidamente: – Bem, eu estou a aprender... Mas diz-me que estou a ir bem. Ela é uma mulher beduína muito bonita.  A sua filha acaba de casar com o filho da irmã. É um costume beduíno comum de casamento entre parentes próximos. – A almofadita está bem feita. Porém, não a podemos enviar para outro país com o enchimento que puseste! – expliquei-lhe.  Ela não desanimou. Na aula seguinte, trouxe-a de volta, sem o enchimento.   – Achas que a vão comprar? – pergunta com esperança no olhar. – Vamos ver! – respondi-lhe, confiante de que alguém vá apreciar o seu esforço. A almofadita é o seu primeiro trabalho no curso de bordado beduíno que iniciámos há três meses.  É muito mais do que um objeto: é um símbolo de esperança no me...

NATAL DE MISSIONÁRIOS PORTUGUESES EM ÁFRICA

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  “Temos de viver no essencial, e o essencial é Jesus” No Sudão do Sul, maioritariamente cristão, ou na Etiópia, onde os católicos são apenas 1% da população, a quadra natalícia é vivida com grande devoção e alegria, apesar das dificuldades e do aumento da insegurança. É o testemunho deixado à Renascença por uma religiosa e um padre, ambos missionários combonianos. O Natal cristão é celebrado em todos os cantos do mundo, e mesmo nos mais longínquos e improváveis encontramos missionários portugueses. É o caso do Sudão do Sul, o país mais jovem do mundo. “Estou aqui há cinco anos”, conta à   Renascença   a irmã Beta Almendra. Esta missionária comboniana diz que “a maioria dos sudaneses são cristãos”, mas que enfrentam graves problemas de sobrevivência. “As maiores dificuldades deste país são básicas: educação, saúde, água, luz, estradas. São coisas que ainda estamos a sonhar tê-las com qualidade”, diz a missionária. A   irmã Beta Almendra   dá como exemplo a situa...

DEUS, MINHA MÃE

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Por defeito profissional, quando leio um romance, procuro notar qual é a relação do autor com Deus. Valter Hugo Mãe, no seu  Deus na escuridão  – uma ficção que tem a Medeira como cenário – fala de Deus como mãe. Porque, como escreve Afonso Cruz em  Flores , «Deus não é macho». No décimo capítulo, que leva o título do livro, o autor escreve no primeiro parágrafo, que «Deus é certamente como as mães. Liberta Seus filhos e haverá de buscá-los eternamente. Passará todo o tempo de coração pequeno à espera, espiando todos os sinais que Lhe anunciam a presença, o regresso dos filhos».  E prossegue: «Deus é exatamente como são as mães, que criam e depois vão ficando para trás, à distância, numa distância que parece significar que não são mais precisas, e Ele, como elas, só sabe amar acima de qualquer defeito e qualquer falha, com cada vez maior saudade. [...]. Deus, como as mães, corre os dias inteiros à janela e escuta. [...] A casa de Deus tem a chave do lado de fora, deb...

CELEBRAR A PADROEIRA

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Qillenso – a missão entre o povo guji da Etiópia onde sirvo – foi estabelecida oficialmente em 1981, dedicada à Senhora das Dores. Entretanto, a festa da padroeira passou a ser comemorada a 8 de dezembro, Senhora da Imaculada Conceição.  Oficialmente a paróquia continua dedicada à Senhora das Dores. Porém, a data da solenidade foi mudada por duas razões.  Primeiro, setembro e outubro são, aqui, o ponto alto da estação das chuvas. Quando chove, chove mesmo e estorva a organização e as deslocações. Depois, em setembro os produtos agrícolas – milho, café, repolho, cereais – estão a crescer. Em dezembro, em plena estação seca o tempo das colheitas dá muito mais de comer e dinheiro para comprar. A festa deste ano celebrou-se no domingo, dia 8, mas os preparativos começaram nos dias anteriores. Os jovens ensaiaram a dramatização da parábola do filho pródigo e os coros deram lustro às atuações. Na sexta, um grupo de mulheres lavou o chão e as cortinas da igreja.  No sábado, as a...

AZUL DO CÉU

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Hoje o pintor encheu de anil o céu por cima de mim. Sem fiapo de nuvem nem grão de poeira. Um azul que envolve  e devolve, e enche o olhar de paz e o coração! Um céu que leva para além dele, atrás do horizonte: cor de infinito  sobre tela breve. Este azul celeste, da mana-saudade, que também é dele, fundo, altaneiro, regressa-me ao dia primeiro  quando a Voz criadora anelou: "Faça-se luz!" A luz?  Azul anilado, índigo!

HAWASSA TEM NOVO BISPO

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O Vicariato Apostólico de Hawassa, no Sul da Etiópia, já tem bispo nomeado depois de uma longa espera de quatro anos.  A notícia apareceu hoje no Boletim da Sala de Imprensa do Vaticano e foi tornada pública na casa episcopal de Hawassa pelo Encarregado de Negócios da Nunciatura Apostólica de Adis-Abeba, Monsenhor Massimo Catterin. Dom Gobezayehu Getachew Yilma é o Vigário Apostólico nomeado para Hawassa. O novo prelado fará 46 anos a 4 de dezembro e pertence ao clero do Vicariato Apostólico de Meki.  Nasceu em Dodola, na Zona de Bale, Estado Regional da Oromia, a 4 de dezembro de 1978. Antes de ingressar no seminário estudou agronomia. Foi ordenado padre em 2005. É doutorado em Teologia na vertente da Doutrina Social da Igreja. Até agora, desempenhava as funções de Vigário Delegado do Vicariato Apostólico de Meki e Diretor Executivo da Cáritas Diocesana. A sua nomeação foi recebida com grande regozijo. Há cerca de quatro anos que o Vicariato de Hawassa era administrado pelo P...

O SÍNODO TERMINOU E VAI COMEÇAR

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A XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos «Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação, missão» chegou ao fim depois de três anos de trabalhos intensos. O caminho sinodal começou a 9 de outubro de 2021 e cortou a meta a 27 de outubro de 2024. Agora começa a sua execução. Foi um sínodo novel a muitos títulos. Sublinho alguns: começou com uma auscultação mundial sem precedentes; teve assembleias nacionais e continentais; decorreu não no anfiteatro do costume, mas no espaço raso da Sala Paulo VI; utilizou o método de trabalho de conversação no Espírito através de pequenos grupos; teve mulheres e homens não bispos a votarem; e Francisco anunciou que não vai escrever uma Exortação Apostólica pós-sinodal, atribuindo ao  Documento Final  autoridade própria. O trecho conclusivo insere uma pequena citação da narrativa das aparições de Jesus Ressuscitado do Evangelho segundo São João (capítulos 20 e 21) na introdução, em cada uma suas das cinco partes e na conclusão. O r...

GERAL COMBONIANO NOMEADO BISPO

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O Superior Geral dos Missionários Combonianos foi nomeado bispo auxiliar da arquieparquia de Adis-Abeba, na Etiópia. A notícia foi dada na quarta-feira, 6 de novembro de 2024, no Vaticano e em Adis-Abeba. A sua nomeação foi saudada pela Igreja da capital etíope e pela família comboniana. Dom Tesfaye Tadesse Gebresilasie tem 55 anos. Foi ordenado padre em 1995 e serviu como missionário no Egito (onde estudou o árabe), no Sudão (encontrei-o na missão de Omdurman em 1998), na Etiópia e na Direção Geral dos Missionários Combonianos. É licenciado em Teologia e diplomado em Estudos Islâmicos. Foi Superior Provincial na Etiópia de 2005 a 2009 e presidente da Conferência de Superiores Maiores.  No Capítulo Geral de 2009 foi eleito Conselheiro Geral e em 2015 Superior Geral, sendo reeleito em 2022.  O bispo-nomeado participou nas duas sessões do Sínodo sobre a Sinodalidade. «Recebemos esta notícia com emoções e sentimentos mistos, entre os quais prevalece a gratidão a Deus pelo dom que...

BORDAR PARA VIVER

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Vemo-la chegar sorridente e orgulhosa. Após apenas quatro lições, esta senhora beduína apresenta-nos uma saquinha bordada e cosida à mão com fecho de correr.  «Onde é que arranjou o fecho?», perguntamos.  Ela sorri e explica: «Tirei-o de um vestido!».  Outra mulher acrescenta: «Eu tirei o meu de um par de calças.».  A verdade é que todas elas se superaram. Nunca tinham estudado costura ou bordado, e agora conseguem pregar um fecho de correr à mão e bordar uma saquinha. «Vocês saltaram do jardim de infância para o ensino secundário!», dizemos-lhes entusiasmadas. Existem vários grupos de mulheres em várias aldeias beduínas no deserto da Judeia. Fizemos planos para que 160 mulheres beduínas recebessem formação em bordados palestinianos e criassem produtos para abrir portas de solidariedade.  Cada uma delas mostra o máximo empenho na aprendizagem e o entusiasmo é contagiante. É um verdadeiro prazer observá-las enquanto se dedicam apaixonadamente a esta nova forma de...

O SENHOR DAS PULSEIRAS

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Os patriarcas do Antigo Testamento tinham o costume simpático de construir altares com pedras ou madeira no sítio onde tiveram experiências significativas e encontros especiais com o Senhor Deus. A Terra a que hoje chamamos de Santa estava cheia destes memoriais da ação de Deus na vida de Abraão, Isaque e Jacob. E de outras pessoas. Os meus altares, os memoriais do meu passado e presente, são feitos de pulseiras. Uso quatro: uma de missangas azuis e transparentes, uma dezena do terço feito de contas de vidro e missangas, uma de contas verdes, amarelas e encarnadas e uma de couro. A pulseira de missangas azuis e transparentes , em espinha, foi feita no Lady Lomin, um centro de artesanato que os combonianos tinham na missão de Lomin, Condado de Kajo Keji, no sul do Sudão do Sul. O centro empregava mulheres que através de produtos que fabricavam obtinham algum dinheiro extra para sustentar as suas famílias. O centro produzia artigos em algodão, tecido pelas funcionárias do Lady Lomin, inc...

CORAÇÃO MISSIONÁRIO DE JESUS

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  O papa Francisco publicou no dia 24 de outubro a sua quarta carta encíclica, o documento papal mais relevante, sobre o amor humano e divino do Coração de Jesus. Chamou-lhe  Dilexit nos ,  Amou-nos  (em latim). O título é tirado da  Carta aos Romanos  (8, 37). O documento está dividido em cinco capítulos: 1) A importância do coração; 2) Gestos e palavras de amor; 3) Este é o coração que tanto amou; 4) Amor que dá de beber; 5) Amor por amor. A encíclica abre com uma pequena introdução e tem a respetiva conclusão.  A encíclica é formada por 220 parágrafos e 227 notas. Entre os autores citados encontra-se São Daniel Comboni (o fundador das Missionárias e Missionários Combonianos) e a  Regra de Vida  dos Missionários Combonianos. O património espiritual comboniano de alguma forma pertence também ao Magistério da Igreja. «Dizia um santo missionário, que “este Coração divino, que suportou ser trespassado por uma lança inimiga para poder ...

NA MESA DOS BEDUÍNOS

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Quando chegamos à aldeia beduína para o encontro com as mulheres, os filhos de Om Ebrahim estavam a degolar os cabritos.  Os seus sete filhos e as suas esposas estavam todos ocupados: uns cortavam e lavavam a carne, outros levavam-na para a cozinha e cozinhavam-na.  Tínhamos combinado começar o primeiro curso de costura com a nova máquina depois de um ano de bordados.  As mulheres acolheram-nos apesar de estarem à espera de visitas.  É costume que familiares e amigos se reúnam no quadragésimo dia depois de um funeral para partilharem e comerem juntos.  Apesar dos muitos afazeres, arranjaram tempo para nos prepararem um prato delicioso: cebolada de fígado de cabrito. Dividiram connosco o melhor! Nos meus 34 anos como Irmã Missionária Comboniana em Itália, Estados Unidos, Egito, Sudão, Sudão do Sul, Guatemala e Terra Santa partilhei de muitas mesas, em línguas diferentes, comendo as suas comidas e escutando o que lhes dá sentido, alegria, medo e sonhos.  Fui ...

TODOS AO BANQUETE

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  Este ano, o Papa Francisco escolheu o tema «Ide e convidai todos para o banquete (cf.  Mt  22, 9)» para o Dia Mundial das Missões de 2024. A citação é tirada da parábola do banquete nupcial para o filho do rei ( Mateus  22, 1-14). O Papa escreve no final do primeiro parágrafo:  Refletindo sobre esta frase-chave, no contexto da parábola e da vida de Jesus, podemos ilustrar alguns aspetos importantes da evangelização. Tais aspetos revelam-se particularmente atuais para todos nós, discípulos-missionários de Cristo, nesta fase final do percurso sinodal que, de acordo com o lema « Comunhão, participação, missão », deverá relançar na Igreja o seu empenho prioritário, isto é, o anúncio do Evangelho no mundo contemporâneo.  Podemos entender a Igreja como assembleia para louvar o nosso Deus através de liturgias elaboradas e edificantes, cheias de cânticos e palavras – em latim ainda melhor, como querem alguns – e muito incenso. No entanto, somos, pri...

ADEUS, HIENA

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O dia acordou cheio de sol, lindo mesmo. A cozinheira deu-me os bons dias com cara de caso. «Buchi morreu!», disse, triste. Bichi era como ela tratava o nosso rafeiro. Eu chamava-lhe Halala, Hiena em guji, por causa das suas cores quando era cachorrito. Hiena apanhou o portão da missão aberto à noite, foi para a estrada e foi apanhado por um tuque-tuque, os táxis daqui. Fiquei triste, porque estava afeiçoado ao cachorro. Veio para a missão de Qillenso há menos de meio ano. Tinham-nos matado o Bobi. Fui à aldeia vizinha comprar carne com a cozinheira e ela meteu-o na caixa do todo-o-terreno. Vi-o quando chegamos a casa. Tremia como varas verdes – nunca tinha andado de carro – e estava cheio de pulgas. Guyyate pegou no spray para mosquitos e resolveu o problema. Hiena – ou Halala – detestava a água. Quando lhe dava banho chorava como uma criança. Era difícil apanhá-lo perto de casa. Até para lhe tirar as carraças, que eram mais que muitas. Gostava de dormir num monte de palha seca. Entre...