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A mostrar mensagens de 2023

TODOS OS NOMES

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Não, esta crónica não é sobre o romance de José Saramago que mais me custou a ler. É sobre os muitos nomes que ganhei com a minha estada na Etiópia. Abba Yooseefi. Abba significa pai e por extensão padre, embora na nova tradução do Pai-nosso em vez de Abba rezemos Abbo . Yooseefi é a forma guji de José. O nome vem do hebraico Yowceph (com a tradução grega de Iosef ) e significa «Ele [Deus] acrescenta» ou «Deus multiplica». E Deus não pára de acrescentar na minha vida a sua ternura, misericórdia e graça. Herdei o nome do meu padrinho José, o marido da falecida tia Arnalda, a irmã mais nova do meu pai e minha madrinha. Era assim naquele tempo. Os gujis nomeiam os filhos de acordo com as circunstâncias da sua gestação e nascimento. A nossa cozinheira chama-se Guyyate porque nasceu à uma da tarde quando a manhã ( bari ) passa a ser dia ( guyya ). A irmã mais pequena chama-se Bontu, porque nasceu gordinha. Abba Joe. Este é o nome porque sou conhecido em inglês. Joe é a forma abreviada...

NOVO DIÁCONO COMBONIANO ETÍOPE

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Melaku Wolde Tekle fez a profissão perpétua no Instituto dos Missionários Combonianos e foi ordenado diácono em vista ao presbiterado missionário. Melaku — Anjo, em amárico, uma das muitas dezenas de línguas faladas na Etiópia — nasceu há 30 anos em Tanaka, eparquia de Emdibir. Depois de concluir o postulantado em Adis-Abeba em 2015, foi para o noviciado em Lusaka, Zâmbia. Fez a primeira profissão como missionário comboniano em 2017 e completou o curso de teologia em Casavatore, Itália, em 2022. Em 2023 regressou à Etiópia para o serviço missionário, um período de pastoral de dois anos antes da ordenação, integrando a comunidade comboniana de Gublak, entre o povo Gumuz. A consagração perpétua para a missão no Instituto Comboniano teve lugar na tarde de 16 de novembro de 2023 no Postulantado de São Daniel Comboni em Asko, um bairro de Adis-Abeba, a capital etíope. O comboniano ganês P. Joseph Anane, superior do postulantado, nas boas-vindas apresentou a celebração como um acontecimento ...

FINALMENTE, A CAPELA VERDE

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A comunidade católica de Hirbora fica nos arredores da cidadezinha de Zambaba, a quase três dezenas de quilómetros de Adola, o segundo centro da missão comboniana de Qillenso, na estrada que dá para a Somália. Os rebeldes do Exército de Libertação da Oromia (OLA na sigla em inglês) — a quem o Governo apoda pejorativamente de Chané — estão particularmente ativos na área. Devido à insegurança, nos últimos dois anos visitamos a capela apenas quatro vezes. Conheci Hirbora no primeiro domingo de novembro, depois de dois anos em Qillenso. Tínhamos agendado os batismos para o domingo de Pascoela, mas um ataque do OLA a Zambaba — com o saque do posto de saúde local — levou ao adiamento para 5 de novembro. Saí de Adola com o todo-o-terreno lotado: duas Missionárias da Caridade (as Irmãs de Santa Teresa de Calcutá), o senhor Sholango (o professor reformado sempre pronto a acompanhar os missionários nas visitas às comunidades), Gammachu (um adolescente que está a ser tratado da tuberculose no hos...

PARTIU UM HOMEM DE DEUS

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Dom Paride Taban, bispo emérito de Torit, no Sudão do Sul, regressou à Casa do Pai no dia 1 de novembro de 2023 de um hospital de Nairobi, Quénia, onde havia sido internado. Um santo que vive a comunhão plena com Deus e com os irmãos e irmãs no Dia de Todos os Santos. Contava 87 anos. «Paride Taban era um humilde guerreiro para a paz», declarou Dom Eduardo Hiiboro Kussala, bispo sul-sudanês de Tombura-Yambio, ao programa Newsday da Rádio BBC. Paride nasceu em 1936 em Opari, na Província de Equatória de Leste, no sudeste do Sudão. Foi ordenado padre em 1964 e bispo auxiliar de Juba, a capital do país, em 1980. Em 1983 tomou posse da nova diocese de Torit que governou até 2004, altura em que resignou. Dom Paride fez parte da geração de jovens padres sul-sudaneses que, sem preparação alguma, tiveram de tomar em mãos a Igreja local quando, em 1964, o regime islamista de Cartum decretou a expulsão de todos os missionários — católicos e protestantes — do sul do país. Fizeram-no com muita de...

ETIÓPIA: PROVÍNCIA COMBONIANA TEM NOVO PADRE

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A província comboniana da Etiópia tem um novo presbítero: Abba Tamirat Tagegn, ordenado no sábado, 28 de outubro de 2023. A paróquia católica de São Miguel de Hembecho, dirigida pelos Frades Capuchinhos no Vicariato Apostólico de Sodo, Sul da Etiópia, vestiu-se de festa para acolher a ordenação sacerdotal de um dos seus filhos. A chuva matinal não impediu que os fiéis, vestidos com os trajes festivos e tradicionais, se pusessem a caminho e enchessem o grande templo quadrado construído à volta de um enorme altar sustentado por doze colunas. Mais tarde, o sol agraciou o evento com a sua luz radiante. Dois coros emprestaram  cor, alegria e energia à celebração solene. Dom Tsegaye Keneni, Vigário Apostólico de Sodo, presidiu à Eucaristia e conferiu a ordenação. Cerca de quarenta sacerdotes — padres locais dos Vicariatos Apostólicos de Sodo e Hawassa e missionários de vários Institutos, algumas religiosas e dois diáconos — também testemunharam a ordenação de Abba Tamirat. A liturgia, ...

A BENÇÃO DA MISSÃO

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Lucas conta no Evangelho que os setenta e dois regressaram da sua jornada missionária com incontida alegria. «Senhor, até os demónios se nos submetem em teu nome» — reportaram, jubilosos, a Jesus ( Lucas 10, 17). O Mestre acolheu o seu entusiasmo com alguns ditos. A minha atenção fixou-se na sua última afirmação. Jesus congratula os discípulos com uma bênção: «Felizes os olhos que veem o que estais a ver. Porque — digo-vos — muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes e não o viram, ouvir o que ouvis e não ouviram» ( Lucas 10, 23-24). A missão é, de facto, uma bênção, uma felicidade. Ao aceitar sair para as periferias do mundo, o missionário entra numa jornada inédita de redescoberta de Deus e do humano viver. Quando vim pela primeira vez viver com o povo guji do Sul da Etiópia — já lá vão trinta anos — aprendi a entender Deus de uma maneira diferente. Os gujis começam a oração tradicional invocando Deus como Pai e Mãe, Avô e Avó, Bisavô, que nos deu à luz. Esta invocação ilumin...

OS DESAFIOS DA EDUCAÇÃO

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O novo ano escolar de 2016 (segundo o calendário local) está a dar os primeiros passos. Na escola da missão de Qillenso, 180 alunos já se matricularam da quinta à oitava classe: 72 raparigas e 108 rapazes. A turma maior é a do oitavo ano: 68 estudantes (40 rapazes e 28 raparigas). Para os ensinar o Governo destacou sete professores: duas mulheres e cinco homens. A missão contratou mais dois em regime parcial: um bibliotecário que também dá aulas de recuperação algumas tardes por semana e um professor de moral e estudos de paz. A escola, neste ano letivo, tem de comprar três computadores para os alunos praticarem o que aprendem nas aulas de informática. A escola de Gosa — uma antiga missão que agora é capela da missão de Qillenso — tem quase 1300 alunos matriculados do infantário até à oitava classe. O vicariato de Hawassa, a nossa diocese, controla a escola. O infantário de Adola, das Missionárias da Caridade, tem 200 inscritos: lotação máxima. No total, a missão de Qillenso serve quas...

SÃO DANIEL COMBONI: APÓSTOLO DE ÁFRICA E DA MISSÃO

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No caminho de catequeses sobre a paixão evangelizadora, ou seja, o zelo apostólico, meditemos hoje sobre o testemunho de São Daniel Comboni. Ele foi um apóstolo cheio de zelo pela África. Sobre aqueles povos, escreveu: «Apoderaram-se do meu coração, que só vive para eles» ( Escritos , 941), «morrerei com a África nos meus lábios» ( Escritos, 1441). É bonito... E a eles dirigia-se assim: «O mais feliz dos meus dias será quando eu puder dar a vida por vós» ( Escritos , 3159). Trata-se da expressão de uma pessoa apaixonada por Deus e pelos irmãos que servia em missão, a propósito dos quais não se cansava de recordar que «Jesus Cristo sofreu e morreu também por eles» ( Escritos , 2499; 4801). Afirmava-o num contexto caraterizado pelo horror da escravatura, de que foi testemunha. A escravatura “coisifica” o homem, cujo valor se reduz a ser útil a alguém ou a algo. Mas Jesus, Deus que se fez homem, elevou a dignidade de cada ser humano, desmascarando a falsidade de qualquer escravatura. À l...

BABEL: A TENTAÇÃO DO UM

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O Génesis , o livro que abre as Escrituras, conta uma estória intrigante: um grupo de pessoas, unidas pela mesma língua, emigraram do Oriente e, ao chagarem a uma planície em Chinear, deitaram mãos ao barro para construirem uma cidade e uma torre que teria o céu por limite. Deus, na sua infinita curiosidade, desceu para ver a cidade e a torre que estavam a ser edificadas com tijolos e betume, evocando os zigurate da Babilónia, torres de menagem muito altas dedicadas aos deuses. E o Senhor disse: «Eles constituem apenas um povo e falam uma única língua. Se principiaram desta maneira, coisa nenhuma os impedirá, de futuro, de realizarem todos os seus projetos. Vamos, pois, descer e confundir de tal modo a linguagem deles que não consigam compreender-se uns aos outros» (Génesis 11: 6-7). A narração tem um final inesperado: O Senhor dispersou-os por toda a Terra e eles pararam com a construção da cidade que foi batizada de Babel. Esta narrativa primordial pode ser lida como um ato de sa...

VALSA DA VIDA

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  O meu coração é um salão de dança, espaço mega, luminoso, acolhedor, onde recebo e trago quem amo! Por direito próprio. Uma multidão transcontinental, que me energiza, humaniza, revitaliza. Com cada querida e querido no meu coração danço a valsa da vida! São dom do Deus que dança, com quem aprendo os passos simples e complicados da valsa do humano viver, amar. A melodia da valsa? O amor da amizade, música profunda e harmoniosa que (pre)enche o palco da vida. A orquestra? O palpitar ritmado de centenas de corações em harmonia, sintonia, simpatia, sinfonia; que se querem,  porque se amam. Danças comigo?

ETIÓPIA: CRENTES VIVEM DIAS COMPLICADOS

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Comunidades ortodoxas, muçulmanas e católicas vivem tempos difíceis devido a conflitos e reformas administrativas na Etiópia. Não têm sido fáceis os últimos tempos na Etiópia. O país mais antigo de África tem vivido uma espiral de conflitos com raízes em tensões etnocêntricas, derivadas da sua federalização depois de 1991. Estas tensões afectam as diferentes comunidades de fé. Igreja Ortodoxa entre cismas A Igreja Ortodoxa Etíope, uma Igreja com quase 1700 anos e que conta com cerca de 46 milhões de fiéis – 40 por cento dos 115 milhões de etíopes –, está ameaçada por cisões desde Maio de 2021, altura em que os cinco arcebispos do Tigré anunciaram o corte de relações com a Igreja-mãe – o Santo Sínodo Ortodoxo Etíope – criando a Igreja Ortodoxa Tigrínia. A cisão vem da guerra que opôs o Estado Regional Tigrinío ao Governo Federal entre Novembro de 2020 e Novembro de 2022, e que extravasou aos Estados vizinhos de Amara e Afar. O conflito envolveu tropas federais, milícias locais e so...

AS CONTAS DO TEMPO

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Para ti que me lês hoje é dia 12 de Setembro de 2023. Um dia de fim de verão, a retoma da vida corrente depois das férias estivais, o regresso à escola. Para os etíopes — e para mim que com eles partilho o diário viver — hoje é o primeiro dia do mês de Meskerem do ano de 2016, o Ano novo etíope, que a liturgia nacional dedica à solenidade de João o Precursor, São João Batista no santoral católico. A inkutatash é o símbolo do ano novo. Uma flor silvestre amarela que pinta de alegria a paisagem da Etiópia nesta altura do ano. Nas montanhas, onde vivo, a flor desponta mais tarde. A celebração do ano novo começa na véspera com uma grande fogueira à volta da qual se canta e dança a alegria do tempo novo prestes a chegar. Desejam-se mutuamente « Melkam addis amet », Feliz ano novo em amárico. Ou o equivalente nas línguas vernaculares. Para celebrar o ano novo, as pessoas alindam-se com as roupas tradicionais das respetivas culturas. As meninas prendem inkutatash de plástico nos cabelos ou ...

A ALEGRIA DA PEQUENADA

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Todos os anos as Missionárias da Caridade, as Irmãs fundadas por Santa Teresa de Calcutá, organizam um campo de férias para os mais novos durante as férias grandes com a colaboração de alguns voluntários. Este ano tiveram a ajuda valiosa de cinco jovens vindos de Adis-Abeba, a capital da Etiópia, mais cinco rapazes e duas raparigas da cidade de Adola, no Sul do país, onde as Missionárias têm uma comunidade que cuida de mais de 150 doentes, alguns incapacitados, outros em tratamento da tuberculose e outras doenças. O campo deste ano teve três edições: Adola, Soddu Abala e Qillenso. Meninas e meninos entre os cinco e os quinze anos tiveram a oportunidade de passar duas semanas especiais cheias de alegria em cada centro. Em Adola, cerca de 470 pequenos desfrutaram, de segunda a sexta, de umas férias especiais com muita animação, jogos, canções, catequese, oração e um lanchinho diário. Porque as atividades puxam pelo corpo e é preciso repor as energias. Muitos outros tiveram de ficar de fo...