Mensagens

A mostrar mensagens de fevereiro, 2021

TENTAÇÕES

Imagem
O evangelista Marcos despacha o relato das tentações de Jesus em 30 palavras no texto grego. Mateus e Lucas fazem uma narração mais detalhada em uma dúzia de versículos. Marcos, contudo, retém o essencial: o deserto é o local das tentações. Mas também é o lugar onde Deus fala ao coração do seu povo. No deserto Jesus ouve duas vozes, dois projetos de vida antagónicos: do Espírito e de Satanás. A tentação maior voltou já na cruz: “Salva-te a ti mesmo”.  Jesus foi tentado a usar os recursos com que o Pai o habilitou para a sua missão em proveito próprio. Esta é a maior tentação: sermos o centro da nossa própria vida. Os 40 dias das tentações recordam os 40 dias do dilúvio antes de a arca de Noé poisar terra firme; os 40 dias de Moisés em retiro no Monte Sinai para receber a Lei da Aliança; os 40 anos do povo a caminhar pelo deserto antes de entrar na Terra Prometida; os 40 dias em que Jesus, depois da ressurreição, num curso intensivo aos discípulos antes de regressar definitivamente ...

CINTO DE DEUS

Imagem
O Livro do Génesis, que abre a Bíblia, conta que, depois do grande trauma que foi o dilúvio universal, Deus fez uma aliança de vida com Noé e os seus filhos. E através deles com a criação inteira. O texto bíblico reporta o querer de Deus: «Vou estabelecer a minha aliança convosco, com a vossa descendência futura e com os demais seres vivos que vos rodeiam: as aves, os animais domésticos, todos os animais selvagens que estão convosco, todos aqueles que saíram da arca. Estabeleço convosco esta aliança: não mais criatura alguma será exterminada pelas águas do dilúvio e não haverá jamais outro dilúvio para destruir a Terra.» Uma nota importante: estamos habitados a pensar a salvação de Deus em termos antropocêntricos como a salvação do género humano. Mas a oferta ide felicidade de Deus é mais abrangente: nela cabem todos os seres vivos. É uma salvação cósmica. Não é só da minha alma… Deus faz uma aliança cósmica de vida. Depois da grande destruição que foi o dilúvio, a cheia mítica que cob...

TENHO UMBIGO!

Imagem
Os dois irmãos têm uma diferença de idades de cerca de dez anos. São excelentes amigos. O mais velho, provocador, diz ao mais novo: — Tu foste adotado! Não és meu irmão. O petiz, de resposta sempre pronta na ponta da língua, retorque: — Não fui adotado, não! Tenho umbigo. Pois é: o umbigo é a cicatriz que testemunha a nossa interdependência: não somos independentes, que precisamos uns dos outros, que pertencemos uns aos outros. A cicatriz da nossa fragilidade. Que algumas pessoas gostam de adornar com piercings . Descrates, o filósofo francês, dobrou-nos sobre o nosso umbigo com o seu aforismo «penso, logo existo».  Uma filosofia de vida muito diferente da filosofia africana do ubuntu : «eu sou porque nós somos».    Tudo na primeira pessoa do singular: eu penso; eu existo. Eu vivo por mim próprio e para mim próprio. A base do «euismo», da ditadura do eu, do individualismo narcisista globalizado.  Mas a cicatriz umbilical permanece no abdómen como uma tatuagem indelév...

🄐 🄠🄤🄐🄡🄔🄝🄣🄔🄝🄐 🄓🄐 🄠🄤🄐🄡🄔🄢🄜🄐

Imagem
Começa hoje a quaresma. A palavra tem a raíz no vocábulo latino quadragesima , que significa quadragésimo (dia antes do tríduo pascal). Na Bíblia,  40 – além de quantidade matemática – significa tempo de preparação: o dilúvio demorou 40 dias; Moisés esteve 40 dias em jejum e isolamento no Monte Sinai para receber a Lei; o povo de Israel vagueou 40 anos pelo deserto para entrar na Terra Prometida; Jesus foi tentado durante 40 dias no deserto para iniciar o ministério do anúncio do Reinado de Deus; o Senhor ressuscitado ensinou os discípulos durante 40 dias antes de regressar ao Pai, a ascensão. A quaresma é um período de 40 dias, de quarentena. Não em confinamento, mas em escancaramento de coração a Deus, aos outros e ao universo. A liturgia propõe, através do evangelho para a Quarta-feira de Cinzas, três modos de fazer quaresma: oração, jejum e esmola. Três vacinas para imunizar contra a pandemia do individualismo narcisista globalizado. A oração põe-nos em modo de ...

A ALEGRIA DA MISSÃO

Imagem
A alegria da missão concretiza-se na fidelidade da resposta dada ao chamamento de Deus. E essa tem que ser uma resposta diária. A alegria da missão vive-se, também, de momentos duros, dolorosos, mas riquíssimos. No momento em que vos escrevo, vivem-se momentos de paz na zona Metekel, no oeste da Etiópia. A paz de que vos falo é a paz da ausência de mortos e feridos. Mas, no meu íntimo, desejo uma paz mais difícil: paz no coração de tanta gente que sofreu e sofre! Aqui existem tantos corações feridos… Nestes dias, eu e o David temos ido com regularidade à esquadra da polícia, onde se encontram vários detidos, a maioria deles sem justificação e alguns deles feridos. Visitamos os detidos, oferecemos água, algum dinheiro para que possam comprar comida e, conjuntamente com a Ir. Nives Bataglia, Irmã Missionária Comboniana e enfermeira, prestamos cuidados médicos aos feridos. Hoje, quando fomos visitar os detidos, recebemos a notícia de que todos os que estavam feridos tinham sido colocados ...

🅔🅝🅒🅞🅝🅣🅡🅞 🅓🅔 🅣🅡🅐🅝🅢🅖🅡🅔🅢🅢🅞🅡🅔🅢

Imagem
Marcos, no início Evangelho (1, 40-4), conta que um leproso veio ter com Jesus e, ajoelhando-se, pediu: «Se quiseres, podes purificar-me». Jesus, profundamente compadecido, tocou-o com a mão, dizendo: «Quero: fica purificado!». E imediatamente a lepra deixou o homem. Os judeus — como muitos outros povos — tinham um pavor medonho da lepra. O Livro do Levítico dedica os capítulos 13 e 14 ao modo como lidar com a doença e com as suas vítimas. No fim do capítulo 13 prescreve: «o leproso atingido por tal afecção deve rasgar as roupas, desalinhar o cabelo, tapar-se até à boca e gritar: 'Impuro!... Impuro!' Enquanto conservar a chaga, será impuro, viverá isolado, e a sua residência será fora do acampamento.» O sofredor de lepra transgride a lei ao chegar até Jesus, em vez de permanecer à distância para não o contaminar. Acredita que Jesus pode purificá-lo. A resposta de Jesus representa outra transgressão: comovido até às entranhas, toca-o e cura-o! Quem toca um doente de lepra fica ...

CENTÚRIA

Imagem
  Cem apontamentos, cem olhares para a África. Eis o centésimo texto que escrevo para esta rubrica que nasceu do convite do então diretor de Além-Mar , Manuel Augusto Ferreira, para incluir uma análise mensal da atualidade africana em três mil caracteres, espaços incluídos. Estávamos em finais de 2011 e eu encontrava-me no Sudão do Sul. Era diretor de informação da Cadeia Católica de Rádios (com oito estações nas sete dioceses do país mais uma nos Montes Nuba, no Sudão, em território controlado pelos rebeldes do Exército de Libertação do Povo do Sudão-Norte). Aceitei o desafio e batizei a rubrica de «África minha». Talvez influenciado pela tradução portuguesa do filme «Out of Africa», inspirado na autobiografia da baronesa dinamarquesa Karen Blixen que viveu no Quénia. Sobretudo, por beber na espiritualidade de São Daniel Comboni, que escreveu que «o primeiro amor da minha juventude foi para a infeliz Nigrícia» (um dos nomes da África no século XIX) e fundou o Instituto das Missõe...

ENCONTRAR JESUS PELAS VIELAS DA FAVELA

Imagem
Cuidado para não abandonar o mandamento de Deus para seguir as tradições dos homens (Mc 7,7) Em todas as dioceses por onde passo, sempre sugiro aos bispos e aos/às provinciais que insiram no percurso formativo para a vida sacerdotal e religiosa experiências em Pastorais de fronteira como a Pastoral Carcerária, da Criança, do Menor, de Rua e da Sobriedade. Falo por experiência pessoal. Estes serviços foram fundamentais na minha experiência de fé e no meu caminho vocacional. Quando saí da Itália em 1985 depois da primeira profissão religiosa e ainda estudante de teologia e vim para o Brasil, não imaginava que ia encontrar Jesus pelas vielas da favela, nos porões das delegacias, em masmorras abarrotadas de presos em condições desumanas e nas ruas da amargura. Foi nessa Galileia que Jesus marcou o encontro comigo. Não dá para esquecer o primeiro contato com o Carandiru, considerado na época um dos maiores presídios do mundo com mais de 6.500 apenados. Era um domingo de dezembro. Faltava...