14 de agosto de 2026

BODAS: PARA CELEBRAR A VIDA



A situação nos territórios ocupados da Cisjordânia continua tensa e os palestinianos – incluindo os beduínos – vivem dias difíceis. Mas a vida continua a ser celebrada.

Já passavam das cinco da tarde e o termómetro ainda marcava mais de 40 graus quando chegámos àquela pequena aldeia beduína, no deserto da Cisjordânia.

Mal nos viram, um beduíno veio ao nosso encontro para indicar onde estava a noiva, com as demais mulheres.

Música árabe, umas quantas cadeiras, mulheres sentadas, com os filhos ao colo, sobre esteiras no chão.

Um calor sufocante, apenas atenuado por umas telas translúcidas. Porém, dançavam, sorriam e celebravam.

A noiva, belíssima, estava sentada numa cadeira alta, preparada para a ocasião. Ao seu lado, uma única ventoinha esforçava-se para aliviar o calor.

Tinha permanecido ali o dia inteiro, a receber as felicitações de mulheres que tinham chegado da sua aldeia, e também das aldeias vizinhas.

Nós duas, como sempre, éramos as únicas que não éramos nem beduínas nem palestinianas. E, no entanto, conhecíamos quase todas as mulheres ali reunidas.

A noiva é uma das jovens mais preparadas da aldeia. Terminou a universidade e aprendeu connosco o tatreez palestiniano.

Chegou a dominar o bordado e foi a primeira jovem da aldeia a aprender a usar a máquina de costura.

Tinha orgulho no que fazia e dizia-nos sempre, a sorrir:

– A mim não me podes dizer nada... Os meus bordados estão muito bem feitos!

Agora começa para ela uma nova etapa da sua vida.

Enquanto regressávamos, pensávamos em Jesus e Maria nas Bodas de Caná. Também eles foram convidados para umas bodas. E lá, no meio da festa, aconteceu o milagre.

Talvez, por isso, as bodas tenham algo de divino. No meio de tantas tensões e medos, as pessoas reúnem-se, dançam, riem e celebram a vida.

Durante umas horas, o deserto enche-se de música e de alegria.

Talvez também isto seja missão: estar presentes, partilhar a alegria daquele povo e recordar, juntas, que, mesmo no meio das dificuldades, a vida merece ser celebrada.

Ir. Cecilia Sierra,

Comboniana no Deserto da Judeia

CONSELHO GERAL COMBONIANO SOLIDÁRIO COM A POPULAÇÃO DA COLÔMBIA

[Foto: Diocese de Quibdó]
 

A Colômbia foi violentamente abalada por um sismo de grande intensidade no passado dia 10 de agosto. O sismo causou inúmeras vítimas e avultados estragos. O Conselho Geral dos Missionários Combonianos emitiu uma nota aos superiores das circunscrições do Instituto, lançando um apelo à solidariedade para com as vítimas. 

Caríssimos Provinciais e Delegados,
Uma cordial saudação de Roma.

O Conselho Geral exprime a sua profunda proximidade e solidariedade para com a população da Colômbia e os Missionários Combonianos que prestam o seu serviço neste país, unindo-se à dor de tantas pessoas duramente provadas pelo forte sismo que assolou o país a 10 de agosto, causando numerosas vítimas, feridos e avultados danos nas habitações e nas infraestruturas.

Neste momento de provação, desejamos fazer sentir às comunidades atingidas a nossa proximidade fraterna e a nossa solidariedade, em particular às famílias que perderam os seus entes queridos, àqueles que ficaram feridos ou perderam as suas casas, e a todos quantos estão a viver momentos de medo, dor e precariedade.

Expressamos, além disso, o nosso apreço e a nossa gratidão a todas as pessoas que, com generosidade e coragem, estão empenhadas nas operações de socorro, assistência e ajuda às populações atingidas.

Como Missionários Combonianos, acompanhamos com a nossa oração os povos da Colômbia e da Venezuela, pedindo ao Senhor da vida que acolha na Sua misericórdia quantos perderam a vida, que sustente as pessoas feridas e as famílias provadas pelo luto, e que conceda força, coragem e esperança a todos os que estão empenhados na assistência e na árdua obra de reconstrução.

Pretendemos, por isso, alargar à Colômbia a recolha de solidariedade lançada por ocasião do recente sismo na Venezuela e, assim, apelamos às Circunscrições que desejem aderir à iniciativa para que comuniquem ao Economato Geral o montante que pretendem que lhes seja debitado para este fim; a utilização da quantia angariada será destinada às necessidades mais urgentes das populações atingidas, para lhes fazer sentir que ninguém está sozinho perante o sofrimento, a perda e a árdua tarefa de reconstrução.

Que Maria, Mãe da Esperança, acompanhe e proteja os povos da Colômbia e da Venezuela e sustente todos aqueles que, neste momento difícil, se fazem próximos das pessoas mais vulneráveis, disponibilizando tempo, energias e recursos.

Que o Senhor conceda às comunidades atingidas consolação e esperança e nos torne a todos capazes de ser, com a nossa solidariedade, um sinal concreto da Sua presença e da Sua misericórdia.

Fraternalmente,
O Conselho Geral

12 de agosto de 2026

EUCARISTIA – A ENERGIA PARA A EVANGELIZAÇÃO




A Igreja que emergiu do Concílio Vaticano II é mais missionária e prepara todos os fiéis para a missão de uma forma diferente. A Eucaristia, no centro da vida da Igreja, alimenta as pessoas para a evangelização.

O Cardeal Arthur Roche, o inglês que dirige, desde 2021, o Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, deu recentemente uma entrevista ao The Tablet, semanário católico publicado em Londres. Questionado sobre se Leão XIV iria alterar a legislação do Papa Francisco relativamente ao uso da Missa Tridentina, respondeu com um enfático «Não».

«O que o Vaticano II fez foi afirmar que a Igreja precisa de ser mais missionária do que tem sido. E que, para preparar as pessoas para serem missionárias, o próprio núcleo central da vida da Igreja, que é a Eucaristia, tem de alimentar as pessoas de uma forma diferente. A abundante riqueza da Sagrada Escritura que hoje é oferecida através da celebração da Missa e dos Sacramentos é algo que antes não estava ao nosso alcance, mas que agora está», explicou.

O cardeal acrescentou ainda que, enquanto na Missa Tridentina o sacerdote age «em nome da assembleia», no novo Rito «quando a Missa está a ser celebrada, porque os batizados são um Povo Sacerdotal, também eles celebram com o sacerdote».


Culto versus missão

A explicação que o Cardeal Roche deu para que o Papa Leão mantenha a legislação relativa à celebração da Missa Tridentina toca em pontos muito importantes para uma Igreja ministerial e missionária.

As duas Missas — a Tridentina e a do novo Rito Latino — sublinham duas eclesiologias contrastantes e duas formas de compreender a vida cristã através do culto e da missão. A ênfase no culto divino alimenta uma visão mais tradicional da Igreja. Contudo, as últimas palavras de Jesus são um mandato missionário e um envio: «Ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho a toda a criatura.»

Esta tensão entre culto e missão está muito presente nas controvérsias em torno do uso da Missa Latina tradicional. Alguns católicos preferem uma liturgia envolta em mistério na sua linguagem, nos seus ritos, rituais e paramentos. Os que defendem a celebração da Missa Tridentina tendem também a opor-se às reformas conciliares, mantendo a eclesiologia pré-conciliar. Nesta perspetiva, a vida cristã atinge o seu cume na liturgia: uma celebração longa e mistérica, repleta de rituais diversos. (Circula na internet um vídeo da desparamentação do Cardeal Raymond Burke, que durou quase dez minutos, após ter celebrado a Missa Tridentina em Fátima.) Esta insistência na Missa Tradicional pode não ser apenas nostalgia da pompa litúrgica. Pode sinalizar uma rejeição da eclesiologia missionária nascida do Vaticano II.

O Concílio Vaticano II propôs uma Igreja missionária, de portas e janelas escancaradas, para deixar sair o fumo do incenso e o aroma da cera ardida: uma Igreja que sai ao encontro do mundo para partilhar o Querigma. Em suma, culto e missão devem ser conjuntivos e não disjuntivos.


A minha experiência

Vivi quase treze anos na Etiópia e testemunhei, em primeira mão, esta tensão entre culto e missão, entre liturgia e evangelização, e como uma ênfase exagerada no culto pode, de facto, diluir o ímpeto missionário da Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo e, em menor grau, na Igreja Católica Etíope.

Quando estava na missão de Haro Wato, travei amizade com o Abba Yigram (não sei se estou a grafar corretamente o seu nome), um sacerdote ortodoxo em Sollamo, a capital do distrito de Uraga, a cerca de nove quilómetros da casa onde vivia.

Um dia, numa das nossas muitas conversas — sempre mediadas pela esposa ou pelos filhos, pois ele era um amara de Gojjam e, embora tivesse vivido mais de duas décadas entre os guji, nunca aprendeu a língua local —, perguntei-lhe por que é que não saía de dentro das paredes da sua igreja, como faziam os católicos e os protestantes, para anunciar o Evangelho nas aldeias. Respondeu-me que ao celebrar a Eucaristia na igreja já proclamava a Palavra de Deus aos «quatro ventos».

De facto, os longos ritos ortodoxo e católico etíope incluem quatro leituras na celebração Eucarística: das Cartas de Paulo, das Epístolas Católicas, dos Atos dos Apóstolos e dos Evangelhos. Habitualmente, cada leitura é proclamada voltada para um ponto cardeal, sendo o Evangelho anunciado virado para o Oriente.


Eucaristia para a missão

Como sublinha o Cardeal Roche, a celebração da Eucaristia e dos demais sacramentos em língua vernácula, com a sua abundância da Palavra de Deus, visa promover uma Igreja missionária e preparar os fiéis para a missão; uma Igreja que vai além do seu próprio culto e acrescenta à sua liturgia martyria (testemunho), diaconia (serviço) e koinonia (comunhão).

O Concílio Vaticano II proclamou que a Eucaristia é fonte e ápice da vida cristã e que a Igreja e todos os batizados são missionários por natureza. A liturgia das duas mesas — a mesa da Palavra e a mesa da Eucaristia — é celebrada para alimentar os fiéis e enviá-los em missão. Apela igualmente a uma celebração mais inculturada e participativa, através do canto e da dança — como testemunhei nas missas dominicais que tive o privilégio de celebrar na Etiópia e no Sudão do Sul.

Contudo, podemos ainda notar que o texto oficial da Missa do novo Rito Romano, em latim – aprovado em 1969 –, termina com o imperativo Ite, missa est. A Divina Liturgia e a vida cristã não terminam dentro dos muros sagrados da igreja: pelo contrário, dá início à «missão» no mundo, através do testemunho de vida dos fiéis e do anúncio do que escutaram na igreja.

8 de agosto de 2026

COMBONIANO PRESIDE AOS BISPOS CATÓLICOS DA ETIÓPIA


 

O Arcebispo de Adis-Abeba, dom Tesfaye (Tesfasilasie) Tadesse Gebresilasie, foi eleito presidente da Conferência Episcopal Católica da Etiópia, anunciou ontem o organismo eclesial na sua página web.

D. Tesfaye foi eleito e nomeado novo presidente da nova Conferência Episcopal Católica da Etiópia (CBCE na sigla em inglês) no dia 6 de agosto de 2026, durante a 60.ª Assembleia Anual Ordinária realizada em Adis-Abeba. 

O prelado assume também as funções de Chanceler da Universidade Católica da Etiópia por inerência do cargo.

A eleição surge na sequência da aposentação do Cardeal Berhaneyesus Demerew Souraphiel, C.M., que desempenhou as funções de Presidente da Conferência e de Chanceler da Universidade Católica da Etiópia durante muitos anos.

«A Conferência Episcopal Católica da Etiópia expressa a sua profunda gratidão a Sua Eminência o Cardeal Abune Berhaneyesus pela sua dedicação e liderança ao longo dos últimos 28 anos. Graças à sua visão, empenho e orientação pastoral, a Conferência alcançou um crescimento significativo e inúmeras realizações na sua missão de servir a Igreja e a sociedade na Etiópia», afirma a CECE em comunicado.

«A Conferência – acrescenta o comunicado –endereça as suas mais sinceras congratulações e melhores votos a Sua Excelência o Arcebispo Tesfaselassie Tadesse pela sua eleição. Unidos em oração, os bispos imploram as abundantes bênçãos de Deus sobre o seu ministério e liderança, na confiança de que o seu serviço como Presidente será frutuoso e repleto de graça para a Igreja na Etiópia».

D. Tesfaye inaugurará o seu serviço como novo Arcebispo de Adis-Abeba no dia 6 de setembro de 2026.

1 de agosto de 2026

SUDÃO DO SUL: UMA VERDADEIRA ESCOLA DE MISSÂO




Conheci o estudante comboniano Komakech James Kenyi em março de 2013 numa peregrinação à área no Sudão do Sul onde Daniel Comboni viveu a sua experiência missionária. Ele, entretanto, entrou no instituto, completou a formação e regressou ao país natal para uma experiência pastoral. Fez um ano de serviço missionário na paróquia da Santíssima Trindade de Fangak, no Sudd, a vasta zona pantanosa formada pela secção Bar al-Jabal do Nilo Branco, onde a deslocação de uma comunidade para outra é feita principalmente em canoa. A sua experiência foi uma profunda lição de vida e missão.

A minha vocação missionária foi moldada por uma jornada de encontros ao longo da vida. Nascido num campo de refugiados na fronteira Sudão-Uganda durante a guerra civil no Sudão, cresci no Uganda antes de regressar ao Sudão do Sul após a sua independência em 9 de julho de 2011, onde servi como professor de ciências do ensino secundário.

Inspirado pelo testemunho dos missionários combonianos na minha paróquia em Lomin, no condado de Kajo-Keji, e pela visão missionária de São Daniel Comboni – Salvar a África com a África – juntei-me ao seu Instituto em 2014.

Após a minha formação no Sudão do Sul, Quénia, Zâmbia e Itália, em 2025 fui designado para a paróquia da Santíssima Trindade de Fangak, na diocese católica de Malakal, onde também tive a graça de ser ordenado diácono em 31 de maio de 2026.

Fangak tornou-se uma verdadeira escola de missão. A paróquia consiste em numerosas ilhas, algumas acessíveis a pé durante a estação seca e de canoa local durante a estação das chuvas.

Apesar das condições difíceis causadas por inundações, conflitos, pobreza e isolamento, encontrei um grupo étnico cuja hospitalidade, generosidade e fé profunda transformaram a minha compreensão da evangelização.

A comunidade Nuer ensinou-me que a missão é sempre recíproca: os missionários trazem o Evangelho, mas também recebem o Evangelho através do testemunho e da resiliência das pessoas que servem.

Uma das minhas primeiras prioridades foi ouvir antes de agir. Em vez de introduzir programas externos, procurei compreender as realidades do povo e colaborar com as estruturas pastorais existentes, especialmente com os catequistas e acólitos instituídos, cujo compromisso reflete a visão de São Daniel Comboni de capacitar a liderança local.

Juntamente com os jovens, promovemos a música sacra como meio de evangelização e cura de traumas. Preservámos o património espiritual da Igreja local gravando vídeos e partilhando cânticos dos corais através da plataforma YouTube da paróquia.

Os torneios de futebol tornaram-se oportunidades para promover a paz, a reconciliação e a amizade entre os jovens católicos, presbiterianos e de outras comunidades.

Com as associações femininas, iniciei iniciativas práticas como a produção de sabão líquido e o fabrico de terços artesanais, que fortaleceram os meios de subsistência, promoveram a comunidade e proporcionaram espaços de apoio mútuo e cura.

Estas experiências convenceram-me de que a metodologia missionária deve superar a dependência de missionários individuais.

O futuro da missão está na formação de pessoas locais que possam sustentar tanto as iniciativas pastorais como de desenvolvimento muito depois da partida dos missionários.

A evangelização deve, portanto, integrar o anúncio com a promoção humana, capacitando as comunidades a tornarem-se protagonistas do seu próprio desenvolvimento espiritual e social.

A minha experiência em Fangak aprofundou a minha convicção de que a missão autêntica começa com a escuta, cresce através da colaboração e dá frutos formando pessoas em vez de simplesmente estabelecer projetos.

Seguindo o exemplo de Cristo, que uniu o anúncio à compaixão, os missionários são chamados a promover tanto a dignidade espiritual como humana de cada pessoa.

Esta visão, inspirada por São Daniel Comboni e reafirmada pelo recente ensinamento social da Igreja, permanece essencial não apenas para Fangak, mas também para o futuro do trabalho missionário em toda a África.

Provavelmente deixarei Fangak por volta de outubro, para me preparar para a minha ordenação sacerdotal na minha paróquia natal em Kajo-Keji, com profunda gratidão.

Estou convencido de que o povo me evangelizou tanto quanto eu o servi. A sua resiliência, generosidade e esperança continuam a inspirar a minha vocação missionária.

A minha oração é que o Sudão do Sul se torne cada vez mais uma terra onde a paz supere a violência, a justiça supere a opressão e a esperança triunfe sobre o desespero, à medida que as comunidades locais continuam a construir o Reino de Deus através dos seus próprios dons e liderança.

Diácono Komakech James Kenyi
Missionário Comboniano

 

BODAS: PARA CELEBRAR A VIDA

A situação nos territórios ocupados da Cisjordânia continua tensa e os palestinianos – incluindo os beduínos – vivem dias difíceis. Mas a vi...