Li «Caim», o mais recente romance de José Saramago, em quatro fôlegos e gostei e des-gostei da obra. Saramago está a escrever melhor que nunca, a anos-luz de «Todos os Nomes», o seu romance mais chato e mal conseguido. Adoro ou seu português rústico – aquele em que nasci –, a sua capacidade de nos surpreender no virar de uma frase ou parágrafo. A capacidade de contar uma estória abrangente e rica de apartes que divertem e deliciam. Quanto ao conteúdo, fiquei surpreendido que alguém que vem das bandas do marxismo e do socialismo científico, tenha encarreirado por uma leitura revisionista, reaccionária e fundamentalista do texto bíblico. Um homem de esquerda a dar a mão à ultra-direita cristã. Saramago escreve na página 142: «Estou cansado da lengalenga de que os desígnios do senhor são inescrutáveis, respondeu Caim, deus devia ser transparente e límpido como cristal em lugar desta contínua assombração, deste constante medo, enfim, deus não nos ama.» Esta é a experiência de Deus que Sara...