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A mostrar mensagens de maio, 2020

AMAS-ME? SOU TEU AMIGO

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O evangelho de João termina com uma desconversa intrigante entre Jesus e Pedro (que alguns tradutores passam por cima). Na última aparição junto ao lago de Tiberíades, depois do pequeno almoço de pão e peixe grelhado que Jesus lhes preparou – que amigo cuidador, este perguntou a Pedro: «Simão, filho de João, tu amas-me mais do que estes?» Pedro respondeu: «Sim, Senhor, Tu sabes que sou teu amigo» (João 21, 15). Primeiro, Jesus, trata Pedro pelo seu nome civil, o nome antes da missão: Simão, filho de João. A ressurreição de Jesus marca também um novo começo, um novo chamamento para os discípulos. Depois, Jesus pergunta se ele o ama e Pedro responde que é seu amigo. São duas coisas diferentes: amar e ser amigo. Jesus fez esta pergunta a segunda vez e obteve a mesma resposta. Da terceira vez Jesus reajustou a pergunta: «Simão, filho de João, tu és meu amigo?» (João 21, 17). Dom António Couto, bispo de Lamego, tem uma explicação para este trocadilho entre amar e ser amigo no texto Entre ...

IMPERATIVO MISSIONÁRIO

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A ressurreição e a ascensão de Jesus ao céu são duas faces, duas fases do único processo da glorificação de Jesus como o Senhor do universo. Mateus conta que os onze discípulos voltaram à Galileia para o monte que Jesus lhes indicou. Depois da ressurreição, os discípulos são chamados a voltar ao princípio, à Galileia onde começaram a seguir Jesus. Voltam à Galileia não para reviverem a história do discipulado numa espécie de círculo fechado em retorno eterno, mas para serem enviados ao mundo inteiro para fazerem discípulos entre todas as nações. Quando os discípulos viram Jesus, ajoelhara-se, adoraram-no. Ele é o Senhor glorioso, sentado ao lado do Pai. Contudo, alguns duvidaram. Este é um detalhe interessante: todos adoram o Senhor, mesmo que alguns continuem com dúvidas a resolver. Tenho medo das pessoas que nunca duvidam, que não se interrogam, que têm tudo resolvido no seu coração… No monte da Ascensão Jesus apresenta-se como Senhor glorificado com poder cósmico: « Foi-me dada ...

BEIJO DE PAZ

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Jesus ligou para sempre o serviço missionário com a empresa da paz. Quando enviou os 72 dois a dois a preparar a sua visita a algumas localidades da Galileia, fez de cada discípulo um irenóforo , portador de paz. «Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: 'A paz esteja nesta casa!' E, se lá houver um homem de paz, sobre ele repousará a vossa paz; se não, voltará para vós» ( Lucas 10, 5-6), manda. Antes, no Sermão do Monte, tinha abençoado os homens e mulheres fazedores da paz: «Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus» ( Mateus 5, 9). Daí que tenha deixado a sua paz como presente maior aos seus discípulos: «Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou. Não se perturbe o vosso coração nem se acobarde» (João 14, 27). E é de paz que fala a primeira saudação do Ressuscitado: «A paz esteja convosco» ( João 20, 19). Daniel Comboni viveu a missão como um serviço de paz e foi nestes termos que a explic...

NO MESMO BARCO

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«A PESTE», a ficção que Albert Camus escreveu sobre uma suposta epidemia que fechou a cidade portuária de Orão, na Argélia, impôs-se como leitura obrigatória em tempos de pandemia global. «Estamos todos no mesmo barco» é o mantra do romance. Aparece por três vezes. Mais do que no mesmo barco estamos todos na mesma tempestade. Alguns estão em iates enquanto outros bailam em «cascas de noz» ao sabor das correntes. O romance descreve o confinamento imposto pela peste bubónica e depois pela pneumónica como exílio, solidão, saudade. Há muitas cenas que nos são familiares: momentos especiais de oração - «a religião em tempo de peste não podia ser a religião quotidiana» –, praias fechadas, doentes sem visitas, valas comuns, hotéis vazios… «A peste mata prazeres», diz-se. Interessante é o trabalho da sociedade civil que se organiza para ultrapassar a inércia das autoridades, «porque a compaixão é caminho da paz» e «um mundo sem amor é um mundo morto». Há quem espere que o frio do inverno m...

AUTO DA FARSA NÃO PAGO, MAS JÁ PAGOU

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Cena 1 Os mandões do burgo mais a oeste prantado incluem na folha de paga uma injeção de 850 milhões na veia do Mealheiro Novo feito de dívidas revelhas. Quando o tempo amadurece o CR7 das Massas transfere o guito. Cena 2 A Reguila da Canhestra pergunta no Parlatório ao Primeiro Otimista se vai esgravatar as contas do Novo Mealheiro antes de entregar o carcanhol. Este, num encolhe de ombros a dizer «Já me lixaste», jura que sim. Cena 3 O Primeiro em privado pede desculpa à Reguila porque afinal o bago já está no Mealheiro. Desculpe qualquer coisinha, mas não sabia o que o Massas fez. Este explica que o Governo paga e não bufa até o ábaco chegar aos 3,89 mil milhões, porque é o que está no papiro rabiscado com o pele vermelha Estrela Solitária. Cena 4 O Primeiro e o Louro-Mor juntam-se na Fábrica dos Calhambeques, afagam-se mutuamente. O Mor manda bitaites ao Massas. Na Parlatório, há quem lhe queira a cabeça na caixa-forte. Cena 5 O Primeiro e o Massas reúnem-se no breu ...

NOVA NORMALIDADE: E NA IGREJA?

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«A religião em tempo de peste não podia ser a religião quotidiana». A observação é de Albert Camus em «A peste», a sua obra maior publicada em 1947, uma ficção sobre um surto de febre bubónica e pneumónica em Orão, cidade costeira da Argélia. Os tempos de pandemia global que vivemos dão-lhe razão: as igrejas fecharam e a prática religiosa foi confinada ao meio familiar. Passou-se da Igreja das grandes multidões à Igreja doméstica, da família, a célula que é a base de tudo. A frase de Camus bateu à minha porta juntamente com a carta que o teólogo checo Tómaš Halík escreveu ao Patriarca Ecuménico Bartolomeu de Constantinopla com uma reflexão muito atual e robusta examinando as implicações mais profundas de pandemia para a Igreja. A editora Paulinas publicou a carta com o título O sinal das igrejas vazias – para um cristianismo que volta a partir . (A publicação em livro eletrónico pode ser descarregada gratuitamente aqui ). Halík escreve que o confinamento da prática da fé cri...

NADA TE PERTURBE

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Durante a última ceia Jesus disse aos discípulos entristecidos: «Não se perturbe o vosso coração». Repete-o a ti e a mim nos tempos conturbados que vivemos, perturbados pelo medo do novo coronavírus, da doença, da insegurança, da falta de emprego, da fome, da morte… Fiz uma pesquisa no aplicativo da Bíblia dos Capuchinhos e descobri que o imperativo «não temais», «não tenhais medo» no singular e no plural aparece pelo menos 125 vezes na Bíblia do Livro do Génesis (15,1), o primeiro livro da Bíblia, ao Apocalipse (2.10), o último. Não temas é o grande pregão que atravessa as Escrituras cristãs, o imperativo de Deus a cada um de nós, hoje. Ter medo é um sentimento natural de autopreservação, uma espécie de preservativo que nos livra de situações perigosas, um grito de alarme, às armas. O Dalai Lama e o Arcebispo Desmond Tutu publicaram um livro-entrevista sobre a alegria. O líder espiritual tibetano diz: «Na verdade, o medo faz parte da natureza humana; é uma resposta natu...

África: DESAFIOS DA COVID-19

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A prevenção é a arma africana contra o novo coronavírus. Em África, o primeiro caso positivo de covid-19 foi registado a 14 de Fevereiro de 2020 no Egipto num estrangeiro assintomático. A 20 de Abril, o novo coronavírus tinha chegado à maioria dos países africanos – excepto Lesoto e Comores – com 22 313 casos confirmados e 1124 vítimas mortais (dados oficiais da OMS). A África do Sul era o país com mais casos registados (3158), enquanto a Argélia arrolava o maior número de óbitos (375). A maioria dos Estados africanos tem serviços de saúde muito frágeis e estruturas sanitárias pobres. Há hospitais que nem electricidade têm quanto mais ventiladores e oxigénio. Depois, o continente regista uma incidência alta de malária, sida e tuberculose e tem problemas de nutrição. Por isso, a palavra de ordem dos governos tem sido, desde o princípio, prevenir e prevenir com medidas bastante agressivas, incluindo o recolher obrigatório, impostas muitas vezes à bastonada e mesmo à bala pelas forças d...

PRESENTE LINDO

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Os judeus sentiram alguma dificuldade em «encaixar» Jesus nas suas expetativas. Num dezembro frio, enquanto Jesus aquecia o corpo a caminhar no Pórtico de Salomão, uma das divisões do grandioso templo de Jerusalém, atiram-lhe: «Até quando nos manterás em suspenso? Se Tu és o Cristo, diz-nos com clareza». Jesus pede que reparem nas obras que faz em nome do seu Pai. Explica que não acreditam nele, porque não são «das suas ovelhas». E aclara que foi o Pai que lhe deu as ovelhas. Jesus não vê os seus seguidores como um rebanho, uma nebulosa, um coletivo, mas como ovelhas singulares, concretas que são um presente que o Pai lhe fez. Tu e eu somos um presente lindo que Deus fez a Jesus e que Jesus – que não é soberbo – partilha: faz-nos presentes uns para os outros. Quando olhas alguém nos olhos estás a contemplar um presente lindo que Jesus te deu. Há algumas pessoas que me tratam por anjo. Amigo, amado, bom: são alguns dos adjetivos que ajuntam. Confesso que sinto algum incómodo ao ser ...

BOM E BELO

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A beleza, tal como a bondade, é caminho seguro para Deus . O P. Adelino Ascenso, superior geral da Sociedade Missionária da Boa Nova e missionário no Japão, escreveu a tese de doutoramento sobre a teodiceia transcultural na obra literária de Shūsaku Endō, um novelista católico japonês que aprecio. A dada altura, sublinha a dificuldade de anunciar Jesus Cristo numa cultura que não acomoda uma ética pessoal. Fiquei a remoer este desafio desde que li a excelente dissertação: como anunciar o evangelho numa cultura sem balizas éticas pessoais? É uma questão muito atual. No ocidente, as referências éticas externas ou desapareceram ou estão a esfumar-se: cada pessoa é a sua própria referência moral. Por outro lado, dados sociológicos descrevem a beleza e a comodidade como grandes linhas que guiam as escolhas da juventude de hoje. Há uma alternativa ao bem e ao bom como imperativo ético de um itinerário para chegar a Deus? Há sim! A beleza é uma alternativa viável. Vejamos! Je...

PALAVRA + PORTA + VIDA

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O QUARTO DOMINGO DA PÁSCOA chama-se do Bom Pastor, porque a liturgia nos serve o capítulo décimo de São João – intitulado Jesus, porta e bom pastor – em três porções. Hoje saboreamos os primeiros 10 versículos. Jesus começa por explicar que há duas maneiras de entrar no redil das ovelhas: o pastor entra pela porta enquanto o ladrão sobe por outro lado. Está a dar uma alfinetada aos fariseus que lideravam o povo de Deus como salteadores ou como mercenários. Jesus explica que há uma ligação afetiva entre o pastor e o rebanho: as ovelhas conhecem a voz do pastor e o pastor sabe o nome de cada ovelha. Nós, o rebanho do Senhor, conhecemos a voz de Jesus através dos Evangelhos. Ele conhece cada um de nós pelo nome, sabe quem somos e do que precisamos. Não somos rebanho. Somos ovelhas, às vezes carneiros também, com nomes próprios, pessoas únicas. O bom pastor é o último a sair do redil e o primeiro a abrir caminho. Não deixa ninguém para trás e arrepia caminho, caminha connosco à nossa fr...