1 de julho de 2026

SEGUIR O OURO, DESARMAR A GUERRA NO SUDÃO

O comércio ilegal de ouro é um dos fatores que alimentam a guerra civil que assola o Sudão há quatro anos. Trazer à luz este comércio, tanto legal como ilegal, será uma estratégia para revelar as responsabilidades internacionais que alimentam o conflito e exigir a eliminação destas causas da guerra.

O conflito no Sudão, que teve início em abril de 2023 entre as Forças Armadas do Sudão (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF), provocou uma das mais graves crises humanitárias do mundo. Estima-se que dezenas de milhares de pessoas tenham sido mortas, que mais de 14 milhões tenham sido forçadas a abandonar as suas casas e que mais de metade da população necessite hoje de assistência humanitária.

A apropriação do ouro é uma das razões que levou à eclosão da guerra civil. Graças ao seu elevado valor, à facilidade de transporte e à possibilidade de comércio informal, o ouro tornou-se um instrumento essencial para financiar as operações militares e consolidar o poder dos diversos atores envolvidos no conflito. De acordo com uma estimativa do Painel de Peritos das Nações Unidas sobre o Sudão, em 2024, as áreas controladas pelas RSF teriam produzido cerca de 10 toneladas de ouro, num valor de cerca de 860 milhões de dólares.

Neste cenário, os Emirados Árabes Unidos (EAU) desempenham um papel particularmente estratégico. Vários relatórios documentaram as ligações económicas desenvolvidas ao longo dos anos entre a liderança das RSF e os canais comerciais que conduzem aos Emirados. As SAF tentaram reduzir a dependência dos Emirados — acusados de apoiar as RSF —, orientando as suas exportações para o Egito, embora uma parte significativa deste ouro acabe, de qualquer forma, nos EAU.

Há quase dois anos que cerca de vinte associações da sociedade civil italiana e sudanesa [ACLI, Amnistia Internacional Itália, ANPI, AOI, ARCI, Baobab Experience, Caritas Italiana, Comité Internacional para a Paz no Sudão, Comunidade de Sant’Egidio, Comunidade Sudanesa em Itália, Economia Desarmada – Movimento dos Focolares Itália, Emergency, FOCSIV, Fundação Nigrizia, Médicos Sem Fronteiras, Missionários Combonianos na Itália, Rede Italiana para a Paz e o Desarmamento, Un Ponte Per, CIPAX] têm vindo a tentar sensibilizar a opinião pública para a grave crise humanitária no Sudão. Segundo estas organizações, lançar luz sobre o comércio legal e ilegal de ouro pode ser uma estratégia para revelar as responsabilidades internacionais que alimentam o conflito e exigir a eliminação destas causas da guerra.

Com este objetivo, realizou-se em Roma, na Casa Geral dos Missionários Combonianos, o seminário «Seguir o ouro, desarmar a guerra», com o intuito de reunir as principais informações sobre o comércio e o tráfico de ouro proveniente do Sudão e exercer pressão para uma legislação europeia mais rigorosa sobre o mercado do ouro, no contexto do Regulamento Europeu sobre Minerais de Conflito (2017).

A organização de cooperação SwissAid destacou a discrepância entre as declarações de exportação de ouro do Sudão e as de importação nos EAU, o que revela o enorme volume de contrabando. Estima-se que entre 50 e 70 por cento da produção nacional escape anualmente aos canais oficiais. Outro grande desafio é a rastreabilidade do ouro adquirido na Suíça, na Itália ou na União Europeia. Em 2025, a Itália importou 178 toneladas de ouro, no valor de 11,7 mil milhões de dólares.

O centro de investigação The Sentry insistiu na necessidade de reforçar a governação global do comércio de ouro, através de regras comuns para os principais centros de comércio e refinação e de uma maior transparência nos dados relativos à produção e ao comércio. É necessário criar mecanismos internacionais partilhados, seguindo o modelo já existente noutros setores, como o petróleo ou os diamantes. Além disso, o The Sentry denuncia as estratégias de «sports washing», através das quais os Emirados reforçam a sua imagem internacional por meio de investimentos em equipas e competições desportivas: «Há sangue na bola» é o nome da campanha que lançaram.

As organizações auto-organizadas concluíram o seminário com três eixos principais de ação:

  • Exercer influência política nas decisões e regulamentos da União Europeia: pretende-se, sobretudo, participar de forma crítica na segunda sessão de avaliação do Regulamento Europeu sobre Minerais de Conflito, destacando o risco ético da importação de ouro proveniente do mercado dos Emirados Árabes Unidos;

  • Chamar a atenção da opinião pública para a contradição da extração e do comércio de tanto ouro, cuja necessidade real é muito relativa e cujos impactos socioambientais são desastrosos;

  • Abrir novas vias de diálogo com o governo italiano sobre a urgência de medidas de paz no Sudão e de não colaboração militar com os países que alimentam a guerra neste país. Paradoxalmente, apesar de dois anos de denúncias por parte da sociedade civil, no início de junho o Senado aprovou o tratado de venda de armas da Itália aos EAU.

Após mais de três anos de conflito violento no Sudão, num contexto de cerco a El Obeid, Kadugli e Dilling — cidades sitiadas e à beira da fome —, as associações reunidas na sede dos Missionários Combonianos constituem um pequeno sinal de resistência e esperança ao lado da maltratada sociedade civil sudanesa, o povo a quem São Daniele Comboni quis dedicar a sua vida e a sua missão.

Padre Dario Bossi, missionário comboniano

29 de junho de 2026

DESTA PARTIU


Quando nasceste puseram-te o nome Desta, Felicidade em amárico. Um nome que te assentava como uma luva fina.

Conheci-te em novembro de 2021. Participavas na missa com os utentes da casa de acolhimento das Missionárias da Caridade, as freiras de Santa Teresa de Calcutá, em Adola, cada sábado ao cair da tarde, numa cadeira de rodas. E vestindo um enorme sorriso!

A doença foi enfraquecendo o teu corpo e acamaste. Levava-te a comunhão no fim da missa. A ti e à tua vizinha de enfermaria. Recebias sempre o Senhor com o teu sorriso rasgado. E uma fé enorme, expressa no modo como como rezavas.

Quando regressei de Portugal, em fevereiro passado, encontrei-te muito pior. Já não mexias os braços, estavas pele e osso. Cada vez mais magra, cada vez mais enfraquecida.

Mas o teu sorriso era cada vez mais lindo. Radiante. 

A notícia do teu falecimento não me surpreendeu. Surpresa foi a grande luta que mantiveste com essa doença prolongada sem perderes o sorriso. Sem deixares de ser Desta. Ou Déssita, como os outros utentes te chamavam. Felicidade!

Fiquei feliz por te terem sepultado em Gosa, junto ao teu pai, no fundo do terreno da antiga missão, onde o teu descanso não deve ser perturbado segundo a tradição guji.

Querida Desta, depois de um Calvário tão longo, de um Purgatório tão extenso, tenho a certeza de que descansas no Paraíso, a Casa da Felicidade sem fim. No abraço terno e eterno de Deus.

Obrigado pelo teu sorriso lindo, pela tua fé inquebrantável, pela coragem com que enfrentaste a doença.

Reza por nós, pelas missionárias e utentes de Adola, pelos cristãos de Gosa. Que a tua fé forte e o teu martírio lento se tornem semente de novos cristãos.

A Deus, Desta!

27 de junho de 2026

SEXTA-FEIRA, 13 – OU 17?

Aprendemos a olhar cada sexta-feira no dia 13 com muito receio: em cada segundo seu pulsa o alarme do azar! Se lhe juntarmos escadas, gatos negros, espelhos partidos, guarda-chuvas abertos em casa, pentes caídos – sei lá que mais – temos os ingredientes para um dia verdadeiramente aziago, azarado! 

Como se formou esta superstição?

Dizem os entendidos que esta crendice vem de uma salada russa de lendas e mitos religiosos caldeados com alguns acontecimentos históricos.

Nas culturas cristãs, a sexta-feira é relacionada com a crucifixão e morte de Jesus. Daí o seu carácter nefasto.

Já o número 13 pode ter origens diversas:

-      13 era o número dos convivas na última ceia: Jesus mais os 12 apóstolos;

-      13 era o número dos convivas no banquete de Odin na mitologia nórdica: 12 deuses convidados, mais o penetra Loki, o deus da discórdia, que criou o caos de que resultou na morte de Balder, deus amado na mitologia nórdica;

-      13 simboliza o caos enquanto 12 é um número perfeito, da totalidade!

Como é que sexta-feira se juntou com o número 13 para dar azar? 

-      Foi numa sexta-feira, 13 de outubro de 1307, que os Templários – uma ordem religiosa militar muito poderosa que em Portugal sobreviveram sob o nome de Ordem de Cristo – foram presos e chacinados em massa por Filipe IV na França, que via neles uma ameaça séria ao seu poder.

-      A obra Friday, the Thirteenth (Sexta-Feira Treze), publicada em 1907 por Thomas W. Lawson, um escritor norte-americano, pode ter tornado popular a superstição no mundo anglo-saxónico. 

-      Os filmes de terror que exploram o tema sexta-feira 13 são frequentes e colaboraram na popularização do dia assombrado.

Entretanto, na escola de italiano, descobri que neste país o dia azarado é sexta-feira 17! E porquê 17 e não 13? Porque 17 em numeração romana (XVII) pode ser rearranjado para formar a palavra VIXI que significa «eu vivi!» Vivi é passado: a morte ronda por aí!

E há mais! Para os espanhóis – e consequentemente para muitos latim-americanos – e para os gregos o dia do azar é a terça-feira 13! Porque martes (terça-feira em castelhano) é o dia dedicado a Marte, o deus romano da guerra (em grego chama-se Ares). Daí o ditado: «En martes ni te cases ni te embarques.» Precisa de tradução?

Pronto, as superstições são isso mesmo: um produto coletivo para esconjurar o medo do azar que não se pode controlar! Varia de cultura para cultura. Uma crendice sem bases reais.

25 de junho de 2026

«SOU ESPECIAL!»


Conhecemo-la há três anos. Uma menina beduína palestiniana numa aldeia do deserto da Cisjordânia. Extremamente tímida. Sempre afastada. Quase sem falar. Parecia viver por detrás de um muro invisível.

Esta semana, durante o acampamento de verão na sua aldeia, mal podíamos acreditar no que estávamos a ver.

Hoje tem seis anos. E é outra criança.

Cresceu ao lado de uma irmãzita apenas um ano mais velha, espontânea, segura e extrovertida.

Desde o primeiro dia, repetimos vezes sem conta a mensagem do acampamento: «Sou especial. Sou única. Obrigada por ser quem sou!»

Ao ritmo do hino que acompanhou estes dias, vimo-la sorrir, brincar, participar, falar e acercar-se. A menina que antes se escondia agora corre ao nosso encontro. Procura as outras crianças, partilha, colabora e oferece abraços cheios de confiança.

Esta transformação não aconteceu num instante. É fruto de anos de presença, proximidade e carinho. Fruto de se sentir amada, aceite e valorizada. Fruto de um caminho percorrido ao lado dela, da sua mãe e de toda a sua família.

Durante estes quatro dias, vimos concretizar-se cada um dos temas do acampamento.

No primeiro dia: «Eu sou especial!» E ela começou a acreditar nisso.

No segundo dia: «Posso mudar e fazer a diferença!» A sua própria história foi o melhor exemplo.

No terceiro dia: «Não estou sozinha, tenho muitos amigos!» E lá estava ela, rodeada de crianças, a desfrutar de uma amizade que antes parecia impossível.

No quarto dia: «Quero semear a paz!» E é exatamente isso que ela está a fazer: a curar feridas, a superar medos, a abrir o coração e a construir pontes.

Foram quatro dias intensos em duas aldeias do deserto. As crianças estavam ansiosas e impacientes por estarem juntas, por brincarem. A maioria delas não frequenta a escola. A escola mais próxima fica em Jericó, a quilómetros da sua aldeia.

Chegavam muito cedo, limpos, ansiosos, cheios de energia. Recetivos à aprendizagem, aos jogos e com os corações cheios de esperança. Sob o sol escaldante, amenizado este ano por uma brisa fresca que sentimos como uma dádiva de Deus.

Esta menina lembra-nos que o amor transforma. Que a proximidade cura.

Hoje, ela sorri quando canta: «Sou especial!»

E, ao vê-la, também acreditamos nisso.

Aqui, no meio do deserto, na Terra Santa, esta pequena menina beduína, com esta extraordinária capacidade de transformação, já está a semear a paz.

Ir. Cecilia Sierra

Missionária Comboniana no Deserto da Judeia