20 de maio de 2026

DANIEL COMBONI: UM AMIGO DO POVO OROMO

 


É sabido que o padre Daniel Comboni fez uma viagem a Adem, no Iémen, no início de 1861, e resgatou sete jovens Gallas da escravatura. No entanto, demorou muito tempo até que eu (pelo menos!) compreendesse que aqueles jovens Gallas eram, na verdade, membros da etnia Oromo, originários do que hoje é o sul da Etiópia, parentes do povo Guji, com quem trabalho há mais de doze anos.

«Galla» era o nome originalmente dado ao povo Oromo. O bispo Gilherme Massaia era o leader do Vicariato dos Gallas, enquanto o bispo Justino de Iacobis era cabeça do Vicariato da Abissínia, o nome oficial da Etiópia no século XIX.

A origem da denominação «galla» é controversa. Pode derivar de «Galla’aa» — «Vamos entrar» em oromo —, um grito de vitória no final de uma batalha; ou de «Galana» — uma palavra oromo que significa rio. Outra etimologia possível é «ghaliz», um termo amárico e árabe que significa «selvagem» ou «áspero». «Galla» é um nome depreciativo dado pelos amaras aos oromos, significando «pagão, selvagem, incivilizado, inculto, inimigo, escravo ou alguém que é inerentemente inferior». O povo Oromo, evidentemente, nunca se autodenominou «galla».

 

A VIAGEM A ADEM

Comboni chegou a Adem a 12 de janeiro de 1861. Foi enviado pelo padre Nicolau Mazza para resgatar vários jovens, homens e mulheres, da Abissínia, que a marinha inglesa havia resgatado de um navio negreiro no Mar Vermelho. Foram levados para Adem, onde dezasseis desses homens e mulheres foram colocados sob o cuidado da Igreja Católica (Escritos 561).

Numa carta ao padre Francisco Bricolo, Reitor do Instituto Mazza em Verona, enviada de Alexandria, no Egito, a 2 de janeiro de 1861, Comboni explica que a sua viagem deve ser entendida em consonância com o Plano do padre Mazza de fevereiro de 1849, que previa trazer africanos para a Europa, educá-los e instruí-los na fé e, em seguida, enviá-los de volta para evangelizar o seu próprio povo de acordo com as respetivas vocações (E 498).

No mesmo dia, Comboni escreve ao padre Mazza, informando que, enquanto estava em Alexandria, tinha ouvido dizer que «é absolutamente impossível levar negros para a Europa» (E 542).

Navegando do Cairo para Adem, Comboni investigou a possibilidade de alargar a sua missão de resgate ao Madagáscar (E 563-564). Informou-se sobre a possibilidade de enviar outros escravos libertos para Verona via Ilha da Reunião e sobre como aprender a sua língua (E 565).

Uma vez em Adem, Comboni selecionou cinco jovens. Informou o seu Superior de que já estava a estudar «a língua dos Gallas» (E 598) da melhor forma possível, para poder ensinar o Catecismo na sua própria língua. Escreveu também que os jovens Gallas eram aptos para as estações missionárias do Nilo Branco, no Sudão (E 601).

Comboni não teve, contudo, sucesso no recrutamento de jovens mulheres. Um comerciante português queria confiar-lhe uma criada, mas esta recusou-se a deixar a sua casa.

No final de uma carta ao padre Mazza, escrita em Adem a 24 de janeiro de 1861, Comboni acrescenta em nota de rodapé: «Esquecia-me de lhe dizer que tanto os cinco jovens que tenho comigo como os dois que estão em Verona são Gallas e não Abissínios» (E 605). Ele repete a distinção numa carta muito longa ao padre Goffredo Noecker, ao recordar a provação em Alexandria: «os Gallas não são Abissínios» (E 892).

 

AS DIFICULDADES

Comboni partiu de Adem a 2 de fevereiro de 1861, com sete jovens Gallas (E 623), embora noutras duas cartas escreva que eram oito (E 744 e 874). Como tinha ouvido dizer que era proibido embarcar africanos em Alexandria para a viagem para a Europa, conseguiu obter para os jovens resgatados passaportes indianos emitidos pelo governador inglês em Adem, declarando-os súbditos de Sua Majestade (E 874). 

Embora a relação entre o governador e o chefe da Missão Católica em Adem fosse muito tensa, Comboni conseguiu que os jovens fossem declarados súbditos da Coroa Inglesa. Enquanto preparava a viagem para Adem, obteve em Roma uma carta de recomendação de Lorde John Pope-Hennessy dirigida ao Cônsul Geral Inglês no Egito (E 623-624). Talvez tenha ajudado!

Informou o seu Superior por carta que «tenho comigo sete bons jovens que, na opinião deste prefeito apostólico são muitíssimo dóceis» (E 608). Aliás, noutra carta, escreveu que a docilidade era o principal critério para selecionar os jovens a levar para a Europa para receberem educação (E 562). Os sete foram escolhidos de um grupo de dezasseis candidatos (E 623).

A viagem de Adem para Alexandria, no Egito, decorreu sem problemas. Comboni foi ao Cairo para trazer uma jovem de Santa Cruz – a sua primeira missão entre o povo Dinca, no Sudão –, chamada Zenab, para a levar para Verona como professora de dinca e árabe.

Os problemas começaram quando o grupo se preparava para embarcar em Alexandria com destino a Génova, na Itália. Uma proibição das autoridades impedia o embarque de africanos para a Europa. Embora os sete jovens viajassem com passaportes indianos como súbditos ingleses, o oficial responsável considerou-os demasiado escuros para serem indianos, rejeitou os passaportes e colocou-os, juntamente com Comboni, na prisão, declarando que os jovens eram Abissínios (E 625-626).

Comboni, porém, não desistiu da luta. A um funcionário que visitou a prisão para verificar a identidade dos prisioneiros, e que afirmou que os indianos eram de pele clara enquanto os viajantes eram negros, Comboni inventou uma série de nomes de lugares supostamente do interior do subcontinente indiano e disse que os seus habitantes eram, de facto, de pele escura. O funcionário admitiu que Comboni poderia estar certo, uma vez que ele próprio nunca tinha visitado esses lugares.

Outra estratégia consistiu em dizer aos jovens para não falarem oromo ou árabe entre si. Alguns deles sabiam um pouco de «Indostânico» – como diz Comboni – e conseguiram passar na entrevista para verificar a sua suposta origem indiana (E 626 e 892).

No final, Comboni e os seus companheiros de viagem foram libertados da prisão e puderam embarcar para Génova. O grupo chegou a Verona a 18 de março de 1861.

 

COMBONI FALAVA OROMO

Quando Comboni selecionou os sete jovens, começou a aprender oromo para lhes ensinar o Catecismo. Entretanto, em Verona, foi nomeado vice-reitor do Instituto Mazza, responsável pela educação dos africanos. Ensinou-lhes também árabe e italiano. 

Ao presidente da Sociedade de Colónia, na Alemanha, Comboni relata, a 4 de outubro de 1863, que o seu Instituto conta com onze jovens africanos: oito Oromos, dois Baris e outro do Nilo Branco, no Sudão. Publica a lista dos estudantes Oromos:

1. João Farajallah, de Malamoh;

2. Salvador Badassa, de Oromoh;

3. Pedro Bulloh, de Goraghi;

4. Batista Olbmbar, de Kafa;

5. António Dobale, de Marago;

6. Caetano Baratola, de Maggia;

7. Francisco Amano, de Kafa;

8. José Ejamza, de Maggia (E 743).

Farajallah foi o melhor aluno da sua turma no ano letivo de 1862-1863.

A fim de melhorar o seu «pouco conhecimento» do oromo, Comboni pediu ao cardeal Alexandre Barnabò, prefeito da Sagrada Congregação da Propaganda Fide, que lhe enviasse uma gramática e um dicionário inglês-galla impressos pela Congregação (E 628).

Comboni deve ter-se tornado bastante fluente em oromo – era um linguista dotado –, pois escreveu que entrevistou Petronilla Zednab «na sua língua materna» (E 1823) enquanto navegavam juntos para o Egito. Escreveu também que tinha ajudado o cardeal Guilherme Massaia a publicar o seu Catecismo e Gramática Galla durante a estada de quatro meses com o cardeal capuchinho em Paris (E 1030).

Comboni tinha uma relação muito forte com o cardeal Massaia, a quem admirava muito. Descreve-se a si próprio como «companheiro inseparável de mons. Massaia» (E 1001) e ao cardeal como «um dos mais corajosos e fervorosos bispos missionários do nosso século» (E 2106).

Comboni pediu a Massaia que escrevesse uma carta em oromo com as suas bênçãos aos quatro estudantes que permaneceram em Verona porque – como ele diz – o cardeal capuchinho é «o pai dos Gallas» (E 1026).

Ele também «adquiriu» do missionário oromo um par de sandálias gastas que este usou durante três anos quando foi ordenar o padre Justino de Iacobis como bispo da Abissínia. «Roubei-lhas e agora guardo-as como uma relíquia» (E 1030).

 

DOIS SEGUIDORES OROMOS

Daniel Comboni depositava grandes esperanças no povo Oromo para a concretização do seu plano estratégico de «salvar a África através dos africanos». Escreve: «Parece-me que se poderia reunir uma grande falange nas vastas tribos dos Gallas, onde o clima é melhor do que em Nápoles e, em pouco tempo, seria possível passar à África interior pela parte oriental». (E 1062).

Dos oito jovens Oromos recrutados por Comboni, apenas António Dobale se tornou missionário no Sudão. O nativo de Marago, que Comboni tinha libertado em Adem em 1861, ingressou no Colégio Urbano da Propaganda Fide, em Roma, após concluir os seus estudos no Instituto Mazza, em Verona.

Comboni pediu ao cardeal João Simioni, o novo leader da Sagrada Congregação da Propaganda Fide, que ordenasse Dobale sacerdote. Ele define-o como «aluno do Colégio Urbano, que me pertence por ter sido resgatado e levado por mim de Adem para Verona em 1860» (E 5086). Ele chegou a Verona com os outros seis jovens Oromos em 1861 e não em 1860, como Comboni escreveu ao cardeal.

Comboni pediu que Dobale fosse ordenado «o mais rapidamente possível», para que pudesse ser enviado ao Vicariato da África Central numa expedição que se preparava para liderar cinco meses mais tarde: «No meu Vicariato há milhares de Gallas e os lugares onde atualmente temos as nossas estações contam com muitos Abissínios e Gallas; portanto, a obra de Dobale ser-me-ia utilíssima», explica ele ao Prefeito da Propaganda Fide (E 5086).

O padre Dobale, o primeiro missionário etíope de Comboni, era o pároco de Malbes, uma colónia agrícola que Comboni define como «uma pequena comunidade cristã», não muito longe de El Obeid, destinada a jovens casais convertidos ao catolicismo (E 6674).

Numa longa carta ao cardeal Simeoni, escrita a 24 de setembro de 1881, quase duas semanas antes da sua morte, Dom Comboni informou que o padre Dubale tinha falecido de uma febre tifoide virulenta em El Obeid no dia anterior. Outros confrades afirmaram que ele morreu de «tristeza» após ter sido transferido de Malbes para El Obeid.

Outra Oromo que seguiu Comboni para África foi Petronilla Zenab, uma rapariga de Kafa, que foi resgatada pelo Conselheiro Geral da Sardenha e levada para a Europa. Foi educada pelas Irmãs Beneditinas em Salzburgo, na Alemanha (E 1823-1828).

«Petronilla pertence a uma das melhores tribos de África», escreveu Comboni nas notas biográficas que preparara para a Associação de Colónia sobre os missionários e professores africanos que o acompanharam ao Egito em 1867 para a fundação de duas escolas que planeava criar para a educação dos africanos no Cairo (E 1828).

Petronilla era para Comboni «um instrumento especial nas mãos de Deus para o apostolado da Nigrícia» (E 1882), acrescentando: «Tenho a absoluta confiança de que vai ser muito adequada para levar a África à regeneração por meio da própria África» (E 1828). Ela sabia árabe e estava a preparar duas meninas para o batismo quando foi chamada à Casa do Pai a 31 de janeiro de 1869, no Cairo.

 

CONCLUSÃO

Daniel Comboni, através dos sete Gallas que resgatou em Adem, tornou-se um grande amigo do povo Oromo. Aprendeu a sua língua, teve sempre o cuidado de os designar como Oromos e não como Abissínios, e depositou neles uma grande esperança para o seu «Plano para a Regeneração de África». Contou com a colaboração de dois missionários Oromo: uma leiga e um sacerdote.

A relação entre Oromos e Abissínios – os povos Amara, Tigrinha e Gurague, de origem semítica, do norte do país – continua a ser bastante delicada. Um dia, eu caminhava pelas ruas empoeiradas de Me’ee Bokko com um professor católico. As crianças começaram a gritar «Farenji, Farenji» (Estrangeiro, Estrangeiro), ao que eu respondi «Habesha, Habesha» (como os etíopes se autodenominam). O professor repreendeu-me, porque, explicou ele, «Habesha» não é a palavra correta para descrever adequadamente o povo Guji, que é de origem cuchita.

Comboni descreveu o povo Oromo – que constitui mais de um terço da população atual da Etiópia e que também se encontra no norte do Quénia e na Somália – como «uma das melhores tribos de África».

Por fim, Comboni descreve o vasto território da tribo Oromo «que desde o reino de Shoa se estende até ao equador e constitui com a Abissínia o grande planalto etíope» (E 6266).

Tem também um comentário interessante sobre Kaffa (que hoje não faz parte de Oromia). Descreve a região como «país originário do mais precioso café do mundo, até ao ponto de derivar de Kaffa o nome desse produto» (E 6266). Outro étimo para café pode ser «qahwah», uma palavra árabe para vinho que chegou à Europa através da sua derivada turca.

15 de maio de 2026

DOS ADEUSES AO OLÁ










A sabedoria popular reconhece – com redobrada razão – que o homem põe e Deus dispõe. Demorei 21 anos a regressar à Etiópia, com estações e apeadeiros no México, em Portugal e no Sudão do Sul. 

Quando regressei no final de outubro de 2021, pensei ficar uns dez anos com os meus irmãos gujis. Entretanto, a dezena de anos foi encurtada para menos de cinco. Os superiores propuseram-me ir para a comunidade da Cúria dos Combonianos, em Roma, Itália, para trabalhar na comunicação.

A proposição apanhou-me completamente em falso numa sexta-feira de março de 2025 no final da viagem com dois colegas de Qillenso para Haro Wato, a outra comunidade comboniana entre os gujis, para um sábado de recoleção zonal da quaresma.

Coloquei as minhas objeções – a maior? Ter de aprender a escrever em italiano aos 65 – e pedi tempo para reflexão. Consultei algumas pessoas – combonianos e leigos – que me recomendaram assumir o novo desafio.

Continuei as conversações com irmãos maiores. Entretanto, nas férias, diagnosticaram-me um cancro e o programa ficou suspenso até ter um quadro de saúde mais claro. Quando o urologista me disse em fevereiro que, depois da cirurgia estava livre do tumor, passei a novidade a Roma e fizemos o plano de rotação.

Eu queria voltar a Qillenso para celebrar a páscoa com as pessoas, despedir-me delas e viajar para Roma. Se possível, gostaria de partir quando o meu substituto, um missionário do Togo, voltasse a Qillenso. Preferiram manter o plano original.

As despedidas começaram no domingo de Páscoa nas comunidades de Gosa e Chirra. Expliquei que me destinaram a um novo serviço missionário em Roma. Em Chirra, o almoço festivo no fim da missa da ressurreição – leite e cocho – transformou-se em almoço de despedida.

No dia seguinte fui a Adola para dizer adeus às Missionárias da Caridade – de quem fui capelão – e aos seus utentes, aos anciãos da igreja e aos detidos na prisão regional com quem rezamos às terças-feiras.

De volta a Qillenso – a viagem serviu para me despedir dos tuque-tuques – expliquei à Werqé, a nova cozinheira que o meu tempo com eles foi encurtado. Ela convidou-me para ir à casa da sua família por detrás da colina onde está a missão. Fi-lo no sábado. Vi a irmã que casou e que estava de visita à família com o marido e conheci Kenna (Nosso), o primeiro filho do casal. A caminho da missão passamos pela casa dos tios da Werqé – uma família com quem tenho uma relação de grande amizade. 

No domingo, no fim da Eucaristia e antes da bênção, sentei-me ao lado do altar. Informei a assembleia que aquele foi a última missa nos tempos mais próximos. Que me querem em Roma para um novo serviço. Que os gujis são a minha segunda família. Que fiz o voto de obediência e por isso tive de obedecer. Houve funga-funga.

No final da eucaristia, depois de alguma discussão, decidiram fazer uma coleta para comprar o necessário para a festa da despedida ao fim do dia no salão paroquial.

A despedida tive várias partes. Mi’essa, o catequista da comunidade, fez um pequeno discurso laudatório e eu outro.

Depois, um grupo de homens levou-me ao escritório paroquial para trocar as minhas roupas pelo traje de cerimónia guji: calções, camisete e manto brancos debruados a azul e um cachecol na cabeça. E o bastão de chefe na mão.

Regressei ao salão entre palmas. Seguiu-se a secção fotográfica. Depois abençoei e cortei dois grandes pães para serem comidos por todos.

Algumas famílias trouxeram leite e iogurte para a festa. Tive de benzer os oferentes e beber quatro tragos de cada recipiente. 

Seguiu-se a refeição propriamente dita: injera, o pão daqui em forma de uma panqueca gigante, com carne cozida com alguns vegetais acompanhados por refrigerantes oferecidos por algumas pessoas – que também tive de abençoar.

Durante o repasto a luz falhou algumas vezes, mas com velas e as lâmpadas dos telemóveis ninguém meteu a comida por engano na boca do vizinho. Só na boca das pessoas que serviam às mesas. É um costume guji interessante e uma maneira de agradecer o serviço.

No final, pedi desculpa se a alguém ofendi e agradeci os quatro anos e meio que vivemos juntos na paróquia de Qillenso. Dei a bênção e fui abençoado. Houve tempo para trocar abraços, frases lindas e lágrimas.

Na segunda-feira de manhã, viajamos para Hawassa para a assembleia provincial. A falta de gasóleo obrigou-nos a contratar um carro privado a gasolina de Adola. 

A assembleia provincial serviu também para dizer adeus a Hawassa, uma cidade verde e temperada de que gosto muito. Despedi-me do lago e da cidade com uma longa caminhada. E do Monte Tabor, a colina junto ao lago. Tem uma escadaria com quase 600 degraus. Notei como a cidade cresceu e se alindou nos últimos 26 anos. E ganhei uma valente dor de pernas e uma broncopneumonia.

Adis-Abeba, a capital da Terra das Origens a quem os oromos chamam de Finfinne, foi o último palco das despedidas. Curei a infeção pulmonar. Fiz o cartão de identidade digital – quando foi lançado há dois anos disseram-me que era só para nacionais, mas quando fui renovar a carta de condução exigiram-mo. Renovei a carta de condução. Despedi-me das missionárias e dos postulantes combonianos. Almocei com o embaixador de Portugal na Etiópia e com a embaixatriz. Fechei o meu processo com o Governo, depois de dia e meio nos Serviços de Emigração e Cidadania. E recebi o visto de saída do país.

Nesta caravana de tempestades emocionais – que as despedidas sempre me provocam – tenho o sentimento vincado que hei de voltar. Quando e como, não faço ideia! E estou pronto dizer olá à nova fase da minha vida missionária em Roma, num posto que Deus me deu como mais uma das suas muitas surpresas carinhosas. Apesar dos meus medos! 

Viajo para a semana.

2 de maio de 2026

CRIME MAIOR CONTRA A HUMANIDADE


A Assembleia Geral das Nações Unidas classificou o tráfico de africanos e a sua escravidão racializada como o crime mais grave contra a Humanidade.

A resolução foi aprovada durante a 80.a sessão da Assembleia Geral, a 25 de Março de 2026, Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravatura. Teve votos a favor de 123 Estados-membros, incluindo do Brasil e países africanos de expressão portuguesa, votos contra dos Estados Unidos, Israel e Argentina e 52 abstenções, entre as quais Portugal, Espanha, França, Reino Unido e Holanda, potências coloniais envolvidas no tráfico transatlântico de africanos escravizados.

A resolução foi apresentada pelo presidente do Gana, país muito afetado pelo comércio de escravos. O Castelo de Elmina, construído pelos Portugueses na então Costa do Ouro em 1482 como entreposto para o comércio de ouro, marfim e especiarias, tornou-se um dos centros principais do tráfico transatlântico de escravos, e é um monumento a essa página escura da História da Humanidade. O presidente John Mahama declarou que «a aprovação desta resolução serve como uma garantia contra o esquecimento. Além disso, enfrenta as cicatrizes duradouras da escravatura».

O tráfico transatlântico de escravos constitui a maior migração forçada na História da Humanidade e o sistema mais longo de exploração de pessoas em massa. Entre 12 e 15 milhões de africanos foram escravizados e transportados em condições inumanas para as Américas. O comércio transatlântico durou mais de 400 anos, entre os séculos XV e XIX. Segundo a resolução, «marcou uma rutura profunda na história humana cujas consequências se estenderam através dos séculos e dos continentes e que o século XV marcou o início crítico da história excecional e negra da captura, transporte forçado e escravidão racializada do Povo da África».

A resolução faz referência a um número de documentos que legalizaram e legislaram o comércio transatlântico de escravos, bem como legislação internacional que pôs termo ao tráfico. Contudo, não refere o envolvimento de líderes africanos na captura e venda de escravos.

A migração forçada de dezenas de milhões de pessoas marcou significativamente as sociedades africanas através da depopulação, que desintegrou o tecido social e do racismo. 

A resolução reconhece que o tráfico de escravos africanos continua a informar o racismo estrutural, desigualdades raciais, subdesenvolvimento, marginalização e disparidades socioeconómicas entre africanos e milhões de afrodescendentes.

A resolução exorta os Estados-membros «a iniciar um diálogo inclusivo e de boa-fé em matéria de justiça reparadora, que inclua uma desculpa plena e formal, medidas de restituição, indemnização, reabilitação, satisfação, garantias de não repetição e modificação de leis, programas e serviços para combater o racismo e a discriminação sistemática».

A União Africana declarou os anos 2026-2036 Década de Ação sobre Reparações e Herança Africana

29 de abril de 2026

POR CAUSA DO REINO



A Etiópia vive há muito um problema grave de distribuição de combustíveis que a guerra contra o Irão veio agudizar. Os vendedores punham no mercado negro uma boa parte do produto para obterem lucros maiores. O Governo pôs alguns na prisão, mas foi uma operação cosmética.

Agora, com a falta de gasóleo – temos dois veículos parados na cidade à espera de abastecimento – recorremos aos transportes públicos, sobretudo aos tuque-tuques, para as deslocações. O mercado negro está bem abastecido de gasolina, mas o litro pode chegar ao equivalente a quatro euros. Uma exorbitância!

O tuque-tuque – que localmente chamam de Bajaj, a marca de um dos fabricantes indianos – é o táxi comum nas cidades, mas também faz grades distâncias e trabalha por contrato. Um meio de transporte alternativo, embora muito frio, sem portas nem janelas. A polícia proibiu o uso de cortinas, porque desconfiava que os veículos eram usados para abastecer os rebeldes oromos que operam nas terras baixas e quentes. 

Os veículos foram desenhados para levar o condutor no pequeno banco da frente mais três passageiros no de trás. Contudo, já viajei com mais nove passageiros – cada um acomodando-se como pôde – mais o motorista. Com boa vontade há sempre lugar para mais um!

A sobrelotação traz problemas de segurança: o veículo, pesado de mais, fica difícil de manobrar pelo condutor espremido entre dois passageiros. Os acidentes são geralmente graves com mortos e feridos.

Na semana passada fui a Adola. Era a minha vez de celebrar a missa para as Missionárias da Caridade e para os católicos da cidade e visitar a prisão. Vamos na sexta à tarde e regressamos a Qillenso, a nossa base, na terça para o almoço.

Não havia carrinhas de transporte em circulação, pelo que apanhei um Bajaj: 35 quilómetros em menos de uma hora. A corrida custou 400 birr, pouco mais de dois euros.

Como é meu hábito, meti conversa com os outros passageiros: uma mãe com o seu bebé, mais dois homens. O uso de transportes públicos possibilita uma relação mais próxima e diferente com as pessoas.

Como não me conheciam, ficaram admirados por falar a língua deles.

Na brincadeira expliquei que sou guji, mas, quando nasci, lavaram-me com lixivia e estragaram-me a pele! Uma boa gargalhada é prenúncio de cavaqueira amena.

Conversamos sobre o frio que apanhávamos, sobre a falta de combustíveis, sobre o custo da vida que não para de subir. 

Perguntaram pelo meu carro. 

– Nafta hin jiru! Não há gasóleo! – respondi. 

Entretanto, em Anfarara, no começo das terras baixas, a uma dezena de quilómetros de Adola, entrou um muçulmano mais uma comerciante. Devia sê-lo pelo molho de notas que tirou do bolso quando pagou a corrida.

Cumprimentei-os. O muçulmano, contorcido no banco da frente, perguntou se eu tinha família. Expliquei que sou padre missionário católico e, por isso, solteiro. 

– Os padres ortodoxos e os pastores protestantes podem casar. Se eu casar, tenho de deixar o meu ministério e gosto muito do que faço! – expliquei-lhe. 

Ele respondeu que a tradição católica era muito dura, que um homem precisa de uma mulher.

Um dos outros passageiros interveio:

– É como o apóstolo São Paulo: por causa do Reino não se casou... 

A conversa à volta do Reino continuou animada entre os dois.

Eu voltei a minha atenção para o bebé que, entretanto, tinha agarrado o meu polegar e não o largava. Também queria atenção! Fiz-lhe umas festinhas.

A mãe sorria!

23 de abril de 2026

COMPANHEIRAS DE EMAÚS

 




Caminhamos juntas, com perguntas e cansaço a palpitar no coração. Entre os trilhos do deserto, inesperadamente florido, avançamos como quem percebe um sussurro de esperança. 

Mulheres beduínas cujas histórias se entrelaçam: um marido sem trabalho; uma mãe que chora o filho recém-falecido; outra que cuida da filha de dezassete anos, debilitada pela doença; outra família obrigada a abandonar a sua casa em busca de pastagens onde ainda lhes seja permitido viver. 

Pelo caminho, colhemos pequenas flores e trançamo-las em pulseiras, como se abraçássemos a vida. Param, contemplam, seguram a beleza frágil nas mãos e entrelaçam-na com ternura.

Passo a passo, entre palavras partilhadas e silêncios habitados, emergem preocupações profundas: o medo de serem expulsadas, memórias guardadas, feridas sem nome. 

O caminho quotidiano — aquele que conduz ao coração da aldeia, onde a vida se encontra, aprende e resiste — torna-se um espaço de escuta e revelação. 

Avançamos juntas. 

Paramos numa casa; chegam mais mulheres e crianças. Oferecem-nos café e chá. 

Bordam. Mãos pacientes que guardam a memória e tecem dignidade. Na fragilidade, a sua força cresce em silêncio, ponto a ponto. 

Depois, paramos novamente a olhar juntas para o horizonte. Tudo se acalma: a dor, a pressa, o medo. Permanece a presença. 

Mais tarde, a mesa partilhada — simples e generosa — abre um novo espaço. 

Nos gestos de acolhimento, na proximidade sem pressa, na escuta que sustenta… algo se revela. Seremos capazes de te reconhecer? 

Como em Emaús, sê o nosso companheiro, nas histórias que se entrelaçam, na preocupação e na confusão, nos lampejos de esperança, na mesa simples. 

Leva-nos para o teu mistério. Ensina-nos o caminho da vida, sacia-nos de alegria na tua presença e de alegria perpétua ao teu lado. 

Acende o coração e fica connosco.

Ir. Cecília Sierra

Missionária Comboniana no Deserto da Cisjordânia

22 de abril de 2026

Etiópia: MISSIONÁRIOS COMBONIANOS CELEBRAM ASSEMBLEIA ANUAL





Os Missionários Combonianos que trabalham na Etiópia estão reunidos para a sua assembleia provincial. O evento anual decorre na Casa Comboni de Hawassa, de 21 a 24 de abril. 

Vinte e um missionários vieram das oito comunidades que compõem a Província: Gilgel Beles e Gublak (entre os Gumuz), Adis-Abeba (Casa Provincial e Postulantado), Hawassa (animação missionária e vocacional), Daye (entre os Sidamas) e Qillenso e Haro Wato (no território dos Gujis). Apenas dois permaneceram nas próprias comunidades.

A Assembleia Provincial conta também com a presença de dois convidados especiais: o Ir. Alberto Lamana, Conselheiro Geral que acompanha as províncias de língua inglesa e Moçambique, e o P. Franck Mandozi, da comunidade de Kosti, no Sudão, em representação da Província Comboniana do Egito-Sudão.

Dom Merhakristos Gabezayehu, bispo do Vicariato de Hawassa, e a Ir. Weynshet Tadesse, conselheira que representa as Irmãs Missionárias Combonianas na Etiópia, também falarão à assembleia. O ordinário local presidirá à Eucaristia de quinta-feira, que encerrará os trabalhos do dia.

O evento teve início com uma manhã dedicada à formação permanente. O Ir. Lamana apresentou uma ampla reflexão sobre a comunidade missionária na era digital e o desafio do tecno-capitalismo.

«A Internet está em todo o lado e faz parte da nossa vida quotidiana. Tem um impacto negativo na vida comunitária e na qualidade da missão que realizamos», afirmou.

A sua palestra foi seguida de trabalho em grupos sobre como os missionários utilizam a Internet, se a missão digital é possível, quais as oportunidades e os riscos que ela representa e as boas práticas da missão digital.

Após a sessão plenária, o Ir. Lamana apresentou outra palestra sobre o funcionamento da Internet e a sua utilização em segurança.

À tarde, o P. Asfaha Yohannes, superior provincial, apresentou o seu relatório sobre a situação da província, traçando uma visão otimista da circunscrição. Esta está a crescer em termos de vocações locais e com novos missionários enviados pelo Conselho Geral. Em termos de pessoal, a província é bastante jovem e internacional.

Ele afirmou que a Assembleia Provincial «é uma grande oportunidade para ouvir o Espírito Santo e uns aos outros».

Os trabalhos do dia concluíram-se com a Eucaristia, presidida pelo P. Mynor Chávez, um dos missionários recém-chegados à província.

Nos próximos dois dias, os participantes irão avaliar a implementação do Plano Sexenal 2023-2028 a meio do seu termo.

Cada comunidade estudou o documento orientador da vida da província e, em seguida, as reflexões foram partilhadas e sintetizadas por três zonas.

Na sexta-feira, última manhã da Assembleia Provincial, os participantes debaterão a proposta de fusão da Província Comboniana da Etiópia com a circunscrição do Egito-Sudão e a Eritreia.

O Superior Provincial presidirá à missa de encerramento, durante a qual os irmãos Meheretu Tundo e Marius Atakpa e os escolásticos Biruk Girma e Asmare Gawo renovarão os votos temporários.

21 de abril de 2026

UM SÓ BATISMO, DUAS PÁSCOAS

 




Ortodoxos e Católicos reconhecem os batismos mútuos, mas não conseguem concertar uma data comum para a celebração da Páscoa, o evento fundante da fé cristã.

Se um ortodoxo quiser entrar para a comunhão católica não precisa de ser batizado de novo. O mesmo vale para um católico que ingresse na comunhão ortodoxa. Apesar das diferenças teológicas que as separam, as duas tradições cristãs reconhecem um só batismo. Contudo, quase todos os anos ortodoxos e católicos celebram o mistério pascal do Senhor em datas distintas – que pode ir de uma semana a mais de um mês de diferença.

A data da celebração da Páscoa do Senhor foi assunto controverso desde o início do cristianismo. Houve quem quisesse unir a celebração da Páscoa cristã à Páscoa judaica. Porém, prevaleceu o entendimento de que a Páscoa é para se celebrar no domingo, porque foi na manhã do primeiro dia da semana que Madalena encontrou o sepulcro vazio. O domingo, como a própria etimologia diz, é o dia do Senhor.

Há 1701 anos, o concílio de Niceia, na Turquia de hoje, convocado pelo emperador, fixou a Páscoa para o primeiro domingo depois da lua cheia da primavera. Do primeiro concílio ecuménico saiu também grande parte do credo mais longo que recitamos na missa dominical.

No ano passado, que celebrou os 1700 anos do Concílio de Niceia, a páscoa católica e a ortodoxa foram celebradas no mesmo dia. Acontece de tempos a tempos. Se o Concílio de Niceia fixou o domingo para a celebração da Páscoa porque é que católicos e ortodoxos não se entendem quanto à data concreta?

 

DOIS CALENDÁRIOS

A resposta é simples: desde 1582 que católicos e ortodoxos usam calendários diferentes. Enquanto os cristãos orientais determinam a data da páscoa pelo calendário juliano, os católicos – e os cristãos em geral – usam o calendário gregoriano, introduzido pelo Papa Gregório XIII para corrigir as imprecisões do velhinho calendário romano ao qual foram tirados dez dias.

Por outro aldo, os dois calendários marcam o início do mês com 13 dias de diferença. Por isso, a data da Páscoa varia entre 22 de março e 25 de abril segundo as contas do calendário gregoriano e 4 de abril e 8 de maio segundo a contagem do juliano.

Durante as celebrações dos 1700 anos do Concílio de Niceia Leão XIV, Bispo de Roma, e Bartolomeu I, Patriarca de Constantinopla e primeiro entre iguais na hierarquia ortodoxa, assinaram a 29 de novembro de 2025, no Palácio Patriarcal de Istanbul, uma declaração conjunta que também abordou a questão da celebração díspar da Páscoa.

«É nosso desejo comum continuar o processo de explorar uma possível solução para celebrarmos juntos, todos os anos, a Festa das Festas. Esperamos e rezamos para que todos os cristãos, “com toda a sabedoria e discernimento espiritual” (Col 1, 9), se empenhem neste processo com vista a chegar a uma celebração comum da gloriosa ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo», afirmam os líderes cristãos do oriente e do ocidente.

Na Etiópia, os católicos celebram a Páscoa seguindo o calendário ortodoxo – aliás como fazem com as outras solenidades maiores: o Natal a 7 de janeiro; o Batismo do Senhor a 19 de janeiro; a Páscoa este ano é a 12 de abril; a Assunção a 22 de agosto; e a Exaltação da Santa Cruz a 27 de setembro. Isto em anos comuns. Em anos bissextos as celebrações são adiantadas de um dia em relação ao calendário gregoriano.

 

TRADIÇÕES DIFERENTES

Católicos e ortodoxos não só celebram a Páscoa em datas diferentes como a preparam através de tempos diferentes. A quaresma ortodoxa dura oito semanas, o que equivale para os observantes mais rigorosos a quase dois meses de jejum e abstinência, enquanto a católica se fica pelas seis semanas – ou quarenta dias – e fazem jejum no início e na Sexta-Feira Santa e abstêm-se de carne às sextas-feiras.

Os ortodoxos observantes não comem nada entre o jantar e o meio-dia (ou até às quinze horas) do dia seguinte. Carne, ovos, leite, laticínios e – para os mais radicais – até peixe ficam de fora do cardápio quaresmal que privilegia vegetais, lentilhas e papas de grão de bico, ervilhas ou favas moídas.

Durante a quaresma os ortodoxos celebram missa diária, de manhãzinha ou ao meio-dia. Durante o ano, os padres ortodoxos celebram a missa dominical a partir das duas ou três da manhã, podendo haver dias que haja missa na quarta ou na sexta-feira, dois dias da semana que lhes são particularmente caros e que, tirando o tempo pascal, são também de jejum obrigatório.

O hábito das missas durante a noite traz alguns inconvenientes públicos. Segundo a tradição ortodoxa na igreja podem entrar crianças e idosos além dos ministros sagrados: padres e diáconos mais os cantores. As pessoas sexualmente ativas ou ficam no recinto ou, em casos extremos, fora dele, embrulhadas num manto branco, porque se consideram impuras.

Aliás, os próprios padres – que por norma são casados – têm de se abster de sexo com as esposas na véspera da missa. Por isso, as celebrações sempre bem cantadas em gue’ez, a linguagem litúrgica etíope antiga, são transmitidas por altifalantes para serem acompanhadas por quem está no exterior do templo. E por quem queria dormir...

A vigília pascal dura a noite toda e tem na proclamação da ressurreição do Senhor o seu centro através de um hino próprio por volta da meia-noite.

De manhã, a celebração passa da igreja para a casa, do altar para a mesa de família. 

O prato tradicional para quebrar o jejum no dia de Páscoa é o doro wot, galinha em molho. O galináceo é cortado em doze bocados e cozido lentamente num molho feito de óleo, manteiga, cebola picada, piripiri em pó e outras especiarias juntamente com alguns ovos. Um prato delicioso, mas gorduroso e picante, próprio para estômagos fortes. 

Quanto a roupas novas, diz o provérbio que as indumentárias ou se estreiam na celebração do Timket, o Batismo do Senhor, ou se estragam depressa.