2 de fevereiro de 2026

ESCONJURAR O MEDO


Os bispos etíopes reuniram-se em assembleia plenária a meados de Dezembro. No final da reunião de três dias, enviaram uma «mensagem de sinodalidade» aos católicos, ao Povo de Deus na Etiópia e a todas as pessoas de boa vontade. O documento de cinco páginas, em amárico e inglês, tem por título Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo, citação tirada do evangelho de Lucas.

O primeiro facto que ressalta da leitura do texto é a insistência no «não temais» que aparece no título, três vezes em negrito nos três primeiros parágrafos da mensagem e umas quinze vezes na conclusão. É um dado novo. A Igreja Católica na Etiópia não chega a um por cento da população e, como Igreja marginal, costumava remeter-se para um silêncio prudente e medroso. Desta feita, os bispos encorajam os católicos a esconjurar o medo, pedindo que a mensagem fosse lida nas missas dominicais.

A mensagem começa por listar as dificuldades que os etíopes encaram: custo de vida esmagador, flagelo das mudanças climáticas, confusão cultural e desintegração, conflito interminável, e a barreira da comunicação. De facto, a desvalorização do birr, a moeda local, fez disparar os preços e o poder de compra foi enormemente afetado. Por outro lado, a insegurança continua. O conflito que opôs os tigrinos ao governo central ainda não foi completamente sanado e nos Estados regionais amara e oromo os combates entre rebeldes e tropas continuam, com detenções, feridos, mortos e destruição.

Contudo, os prelados têm também palavras de apreço: «A produtividade agrícola e a diversificação das exportações, a transformação digital aliada ao crescimento de plataformas de tecnologia financeira (fintech) locais, o reengajamento diplomático e os movimentos de paz, o envolvimento vibrante do sector privado, as iniciativas de legado verde aliadas à autossuficiência económica, as soluções locais e o dividendo demográfico são alguns dos principais aspetos positivos que atuam como uma filosofia governamental que dá esperança para a transformação do nosso país.»

Os bispos propõem alguns marcos no caminho sinodal como resposta ao tempo do medo: construção da comunhão e escuta, proclamação da verdade, liturgia, corresponsabilidade na missão, diálogo na Igreja e na sociedade, ecumenismo, reavaliação da autoridade e participação, discernimento e decisão e, finalmente, formação na sinodalidade. A mensagem de sinodalidade é um marco importante no caminho da Igreja etíope, que assume com coragem a vocação profética de ser voz de esperança em tempos de medo.

O bispo de Hawassa (na foto), o vicariato que mais católicos tem na Etiópia, afirma que o documento é realista. «A mensagem reflete a realidade no terreno, sem culpar ninguém especificamente. Esperamos e rezamos para que seja recebida de forma positiva, pois foi escrita como reflexão honesta. É a nossa situação que precisa ser abordada em conjunto como cidadãos e não acho que seja demasiado crítica em relação ao Governo», disse-me D. Merhakristos Gobezayehu.

7 de janeiro de 2026

NIGÉRIA SOB ESCRUTÍNIO

No início de Novembro, o presidente norte-americano ameaçou cortar ajudas e enviar tropas para a Nigéria caso o Governo não detenha a violência contra os cristãos. «Se o Governo nigeriano continuar a permitir o assassínio de cristãos, os EUA suspenderão imediatamente toda a ajuda e assistência à Nigéria e poderão muito bem entrar nesse país agora desonrado, “com armas em punho”, para exterminar completamente os terroristas islâmicos que estão a cometer essas atrocidades horríveis», postou Donald Trump na sua rede social, instruindo o Departamento da Guerra a iniciar os preparativos necessários.

Uma semana antes, o cardeal Pietro Parolin, número dois do Vaticano, classificou de social a violência no país da África Ocidental. «Não [é] um conflito religioso, mas sim social, por exemplo, disputas entre pastores e agricultores. Devemos também reconhecer que muitos muçulmanos na Nigéria são eles próprios vítimas dessa mesma intolerância», disse, à margem da apresentação do Relatório sobre a Liberdade Religiosa para 2025.

As duas posições ilustram a complexidade da situação no país mais populoso da África (com cerca de 245 milhões de habitantes) e o maior produtor de petróleo do continente. Porém, não há evidência de um genocídio organizado visando os cristãos na Nigéria como a extrema-direita americana (e portuguesa) diz. Há sim, um grave problema de insegurança desde 2009, envolvendo atores diferentes: jiadistas, bandidos e grupos armados. Todavia, notícias de ataques a igrejas e escolas, sequestros e assassínios de pastores, padres, seminaristas, estudantes e cristãos de diversas denominações no Norte e no Centro do país são o pão nosso de cada dia.

As autoridades reconhecem a incapacidade de pôr termo a este estado de insegurança, mas negam a existência de um genocídio contra os cristãos. Os jiadistas (como o Boko Haram) atuam sobretudo no Norte e, nos ataques, não discriminam entre muçulmanos e cristãos. Nos últimos três anos, cerca de dez mil pessoas foram mortas nos Estados do Norte e mais de três milhões fugiram de casa. No Centro, grupos armados lutam pela posse da terra e da água numa área muito afetada pelas mudanças climáticas. É um conflito entre pastores (que são maioritariamente muçulmanos fulanis) e agricultores (cristãos na maioria). O banditismo armado também está a crescer. No Sul, cristão, a situação afigura-se mais tranquila, apesar de alguns confrontos mortais esporádicos.

A Conferência Episcopal nigeriana denunciou recentemente a insegurança e apontou o dedo ao Estado. «O Governo tem tanto a responsabilidade como os meios para pôr fim a esta violência e não pode continuar a permitir que a impunidade prevaleça. Os responsáveis por estes crimes hediondos devem ser identificados e levados à justiça, pois sem responsabilização não pode haver paz duradoura», escreveram os bispos católicos.

O presidente Bola Ahmed Tinubu, por seu turno, declarou o estado de emergência e ordenou o recrutamento adicional de 50 mil polícias e soldados, pedindo mais vigilância para internatos escolares e locais de culto, sobretudo em áreas remotas.

12 de dezembro de 2025

#TheScarfProject

Tenho usado um véu ou um lenço na cabeça durante grande parte da minha vida. Na minha congregação, as Missionárias Combonianas, não é obrigatório, mas eu escolhi usá-lo livremente. Na Itália, terra de muitas das nossas irmãs mais velhas, o véu adquiriu para mim um significado profundo: um sinal de continuidade, respeito e pertença.

Nos Estados Unidos — enquanto estudava, vivia no campus, servia as comunidades migrantes na fronteira, trabalhava na pastoral paroquial, fazia animação missionária e coordenava a Associação de Irmãs Latinas — eu usava-o com intenção, consciente do que ele revelava sobre a minha identidade e a minha missão.

Fiz os meus votos perpétuos no Egito, um país de maioria muçulmana, onde o véu se tornou quase parte de mim. Às vezes, trocava-o por um simples lenço para me mover discretamente pelas ruas, mesquitas e mercados. No entanto, cada vez que o voltava a colocar, reencontrava-me: uma serena certeza de lar, proteção e sentido.

No Sudão, ainda jovem e à frente do gabinete de comunicação da Arquidiocese, o véu dava-me identidade e autoridade. Abria portas e gerava respeito em contextos onde uma jovem sem véu não seria levada a sério.

No Sudão do Sul, tornou-se mesmo um escudo. Nos anos turbulentos após o Acordo Global de Paz, com soldados e milícias por toda parte, o véu literalmente salvou a minha vida. Uma tarde, eu conduzia sob um sol escaldante e, para aliviar o calor, tirei-o; um soldado, furioso, parou-me em atitude ameaçadora. Só quando cobri a cabeça é que a sua postura mudou. «Desculpe, irmã!», disse ele enquanto me devolvia os documentos.

Na Guatemala, a experiência foi diferente. Lá, o véu evocava um estatuto e um prestígio que eu não desejava assumir. Optei então por me vestir como as mulheres locais — calças e blusas bordadas com flores e cores vivas — para caminhar ao lado delas como uma mais.

Na Palestina, trabalhando com mulheres beduínas da Cisjordânia, o véu voltou a parecer natural. A graça e a dignidade com que o usam fizeram-me sentir imediatamente em casa. Em Jerusalém e no deserto da Terra Santa, as mulheres — muçulmanas, judias e cristãs — cobrem a cabeça. Entre elas, encontro novamente ressonância. O meu simples véu branco torna-se um sinal de quem sou e do que escolho ser.

Sempre que o coloco, lembro-me da promessa feita no dia dos meus primeiros votos: caminhar entre os povos de Deus com humildade e presença — com ou sem véu — buscando sempre a sintonia com as mulheres, as culturas, as línguas e as vidas que encontro.

E, para além do véu, desejo permanecer unida ao Único que é Compaixão e Misericórdia, o Deus que nos reúne e nos convida a refugiar-nos sob o suave véu da Sua santidade: esse manto divino que protege, consola e envolve com ternura cada coração, guiando-o para o seu verdadeiro lar.

Ir Cecília Sierra

Missionária Comboniana no deserto da Cisjordânia

2 de dezembro de 2025

A FORÇA DA GERAÇÃO Z


Madagáscar tem novo chefe de Estado desde Outubro, depois de o presidente Andry Rajoelina fugir do país após três semanas de manifestações sobretudo de jovens da Geração Z, os nativos digitais nascidos entre 1997 e 2012. O coronel Michael Randrianirina é o novo líder do país-ilha do Índico. Os cortes prolongados de água e de eletricidade foram o rastilho que desencadeou o grande levantamento juvenil que fez pelo menos 22 mortes e mais de uma centena de feridos. Dom Benjamin Ramaroson, arcebispo de Antsiranana, explicou ao portal ACI África que «os jovens, desarmados, queriam reivindicar os seus direitos fundamentais, mas a repressão foi muito dura».

A Geração Z africana representa 40 por cento da população – cerca de 600 milhões de jovens – e vive no espaço digital, usando-o para comunicar e se organizar. Viu-se em Madagáscar como se tinha visto no Quénia e em Marrocos. E depois na Tanzânia.

Em Junho de 2024, o presidente William Ruto do Quénia introduziu no Parlamento um projeto de lei para aumentar o IVA sobre bens essenciais e cortar nos subsídios aos combustíveis. Os jovens foram para a rua lutar contra a proposta. As forças da ordem reprimiram os manifestantes com violência e dezenas foram mortos. No final, o presidente teve de fazer marcha-atrás. Em Julho deste ano, a Geração Z regressou às ruas contra o governo de Ruto no 35.º aniversário da marcha Saba Saba do movimento pró-democracia. Exigiam melhores condições de vida e mais transparência nas contas públicas. A comissão queniana de direitos humanos registou 31 mortes, 107 feridos e mais de 500 detenções.

Em Marrocos, os jovens, organizados sob o coletivo GenZ 212 – o número do indicativo telefónico internacional do país –, protestaram contra os gastos do Governo com as infraestruturas para o mundial de futebol de 2030 (que o país organiza com Portugal e Espanha), e a falta de investimentos na saúde e na educação e queriam a demissão do primeiro-ministro. As manifestações foram brutalmente reprimidas pela polícia.

Na Tanzânia, nas eleições presidenciais de 29 de Outubro, os nativos digitais também estiveram particularmente ativos, sobretudo depois de a comissão eleitoral ter declarado vencedora a incumbente Samia Suluhu Hassan com quase 98 por cento dos votos. A União Africana denunciou o ato eleitoral como não conforme com os padrões democráticos internacionais. As autoridades usaram de força letal contra os manifestantes e ocultaram os mortos. Mais de uma centena foram levados a tribunal acusados de tentar obstruir o ato eleitoral.

A Geração Z africana é uma geração que se faz ouvir, militante, corajosa, ciosa dos seus direitos. Uma força com que os políticos têm de se haver. A rápida expansão e a grande acessibilidade da rede digital facilitam a sua intervenção. Daí que, quando há agitação social, os governos tendam a desligar a internet ou, pelo menos, as redes sociais.

28 de novembro de 2025

A NOIVA RESPLANDECENTE


— O meu marido vai deixar-me trabalhar e conduzir! — disse-nos, com um sorriso rasgado, a jovem noiva beduína.

Está envolta no seu longo vestido rosa pálido, ricamente debruado, tão leve que parecia flutuar com o vento do deserto.

Ela terminou o curso de enfermagem com as melhores notas. Várias clínicas já lhe ofereceram emprego.

Alguns meses atrás, rompeu outro noivado — mesmo depois da festa — ao descobrir que o futuro marido não a deixaria exercer a profissão. 

— Estudei tanto para ficar em casa? Não! — disse, firme, apoiada pelo carinho da mãe, a sua aliada mais fiel.

Hoje celebrámos o seu novo noivado, numa pequena aldeia beduína situada numa montanha do deserto da Cisjordânia, nos territórios palestinianos ocupados.

A noiva, que esteve connosco nos acampamentos de verão e no projeto de bordado Fili di Pace (Fios de paz), brilha como um fio luminoso entre tantas mulheres.

A festa decorre ao ar livre, no deserto, entre montanhas e colinas douradas pelo pôr do sol, no topo onde fica a sua aldeia. 

—O meu filho vai buscá-las. Deixem o carro lá em baixo! — disse-nos a mãe. 

O caminho é íngreme, uma verdadeira aventura: doze pessoas amontoadas num jipe, saltando entre pedras e curvas, roçando o abismo com o coração a bater forte sob o céu estrelado.

No topo, a noite é iluminada com luzes, cantos e risos. 

Quase todos os rostos nos são familiares. 

Dança-se, conversa-se, abraçam-se famílias que tiveram que deixar as suas aldeias por medo e que aqui encontraram um lar. 

As crianças correm para nos cumprimentar, as mães abraçam-nos com carinho. Aqueles que ainda não nos conhecem ficam surpreendidos com tanta familiaridade.

As missionárias somos as únicas não palestinianas. 

E ela, a noiva, está resplandecente. Os seus olhos refletem a promessa de um futuro aberto, onde a sua inteligência e o seu desejo de servir vão abrir novos caminhos para tantas raparigas beduínas.

A vida não é fácil! Mas continuam a encontrar-se, a dançar, a celebrar. Porque, apesar de tudo, a vida insiste, floresce no meio do deserto — e elas, com uma força suave e obstinada, escolhem não desistir, levantar os olhos, abrir caminhos e viver.

Ir Cecília Sierra

Missionária Comboniana no Deserto da Cisjordânia

19 de novembro de 2025

TUDO É CAMINHO


Deitei-lhe a mão. Hoje! Finalmente. Para os caminhantes tudo é caminho é a criação mais nova de José Tolentino Mendonça. 

Traz na capa estampado um barbusano. Planta perene e altaneira da Floresta Laurissilva da Madeira. De tronco denso, resistente. Um símbolo apropriado do homem, poeta, pensador, místico, mestre que nasceu na Pérola do Atlântico há sessenta anos.

Nasce de chofre como o riacho que brota de uma fraga rasgada na montanha! Sem introdução nem prefácio. Nem tão pouco posfácio. Capítulo segue capítulo. Sem páginas nem grandes espaços em branco. Cento e oitenta páginas com cinquenta e duas reflexões breves. Variadas. Profundas. Desafiantes. Inspiradas. Inspiradoras...

A sabedoria do invisível e do indizível destilada em letras e espaços. Porque «a sabedoria é amar tudo»! 

Um desafio a viver no real, a contemplar o real tal e qual. Sem frases feitas ou de efeito pirotécnico.

Um ótimo presente de Natal. Com certeza!

8 de novembro de 2025

NATAL: TUDO ESTÁ PRONTO


Agulha e linha dançam entre os dedos das mulheres beduínas no deserto da Cisjordânia. Traçam pequenos sinais de luz com o bordado tradicional palestiniano: cartões de natal que contam a beleza e a fragilidade desta terra amada —a cabana aberta para o céu, as estrelas que guiam, as ovelhas, os camelos e os burros que acompanham o mistério do nascimento de Jesus. 

O Natal aproxima-se, e nas pobres cabanas de zinco do deserto as mulheres bordam sem parar com mãos pacientes e corações cheios de esperança.

Na Cisjordânia, onde o conflito e a insegurança marcam o dia-a-dia, onde a ameaça de expulsão pesa sobre o único lugar a que chamam de casa, elas continuam a criar, acreditar e esperar.

Com dedicação, preparam também enfeites para a árvore de natal: não bolas metálicas, frias, mas criações vivas, tecidas com cor, paciência e dignidade.

Imagine uma árvore na sua casa ou na sua igreja, adornada com estes bordados! Sinais silenciosos de uma solidariedade que une os corações além de qualquer distância.

E enquanto preparam pequenos saquinhos, delicados como confetes, tornam-se mensageiras de paz e partilha.

Tudo está pronto...

Neste Natal, voltemos o nosso olhar para a Terra Santa e o seu povo: para fazer renascer a esperança, abrir o coração à solidariedade e reconhecer nas «manjedouras» de hoje os lugares onde Deus se faz próximo, na simplicidade e na ternura desarmada de quem vive nas margens da vida.

«Entrar em contacto com os pobres e os impotentes é uma forma fundamental de encontrar o Senhor da história», recorda o Papa Leão XIV.

Há alguns meses, levámos uma máquina de costura nova para a pequena aldeia beduína e eu disse, quase sem pensar: «E se eles os atacarem novamente, o que acontecerá à máquina?»

Uma das mulheres, mãe de seis filhos — três dos quais com menos de onze anos — respondeu-me com uma calma que partiu o meu coração: «Quando os virmos chegar, vou correr para a salvar».

Esta manhã, outro grupo de colonos chegou antes do amanhecer e destruiu com uma máquina escavadora a casa de uma família da aldeia. 

«Esta noite não vamos conseguir dormir», dizem as mulheres, enquanto recebem linhas e tecidos para bordar. 

Trabalham contra o tempo, entre o medo e a esperança, sabendo que qualquer dia pode ser a sua vez.

No entanto, continuam a bordar. 

Decorações para as árvores de natal, postais com Maria, José e o Menino Jesus — que também nasceu aqui, nesta terra ferida, à noite, vulnerável.

A pergunta delas é urgente: «Podemos ficar, pelo menos, até ao Natal?»

Ir. Cecília Sierra

Missionária Comboniana no Deserto da Cisjordânia

 

Se quiseres celebrar um natal solidário e comprar alguns dos produtos bordados pelas beduínas do Deserto de Judá deixa o teu contacto nos comentários. Obrigado! Shukran!