15 de novembro de 2022

Gilgel Beles (Etiópia): CAPELA PRISIONAL DEDICADA AO ARCANJO SÃO MIGUEL





A nova capela prisional construída pelos Missionários Combonianos no estado regional de Benishangul Gumuz, na Etiópia, foi dedicada ao Arcanjo São Miguel.

O Bispo Abune Lisanu-Christos Matheos, Eparca da diocese de Bahir Dar-Dessie, dedicou a nova capela construída no interior da prisão de Gilgel Beles.

A cerimónia de dedicação teve lugar no sábado, 22 de Outubro de 2022.

Devido às restrições do estabelecimento prisional, a participação externa na cerimónia de dedicação foi limitada aos catequistas, coro, irmãs missionárias e fiéis católicos que servem como autoridades locais.

Na ocasião, Abune Lisanu-Christos administrou o sacramento da confirmação a uma dúzia de reclusos católicos.

A nova capela é espaçosa. Construída com tijolos e cimento, substitui o antigo edifício feito de madeira, barro e zinco.

O centro de culto da prisão funciona como uma capela da missão de Gilgel Beles.

«Juntamente com a primeira evangelização nas aldeias e na cidade, o apostolado entre os presos tem sido uma prioridade desde o início da missão comboniana entre o povo Gumuz», explicou Abba Marco Innocenti, pároco de Gilgel Beles.

Aos sábados de manhã, há aulas de catequese para os catecúmenos, os reclusos que querem tornar-se católicos.

Aos domingos têm ou a Missa — se houver um padre disponível — ou a Liturgia da Palavra, presidida pelo catequista.

Os católicos na prisão são cerca de 40. A maioria tornaram-se católicos enquanto cumprem as respectivas penas de prisão.

Abba Marco explicou que o novo templo foi construído devido aos esforços da comunidade comboniana em Gilgel Beles, que procurava os fundos necessários.

«Um grande obrigado deve ser dado à Missio Munich e a alguns benfeitores alemães», sublinhou.

O missionário comboniano italiano agradeceu às autoridades prisionais do Estado Regional de Benishangul Gumuz.

Teve uma palavra especial para Alemu Asege, o inspector-chefe do Estabelecimento Correcional Gilgel Beles, que autorizou a reconstrução da pequena igreja.

O pároco acrescentou que é invulgar encontrar um local de culto católico dentro de um complexo prisional etíope.

Gilgel Beles alberga cerca de mil reclusos da Zona Metekel, que inclui sete áreas administrativas chamadas wereda.

Os Missionários Combonianos estão presentes em Gilgel Beles, entre o povo Gumuz, desde 2003.

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7 de novembro de 2022

SEAREIR@S DE DEUS




Jesus, quando designou os 72 discípulos para irem, à sua frente, dois a dois, a todos os lugares que queria visitar, explicou-lhes que o seu trabalho número um era o de rogar ao Senhor da Seara que mandasse trabalhadores para a sua seara. Só depois é que lhes ordenou: «Ide!» (Lucas 10: 1-3).

A pastoral vocacional faz parte do serviço missionário que os Combonianos prestam na Etiópia. De três maneiras: através do testemunho alegre e generoso de cada missionário, da oração, e dos grupos vocacionais.

Para cumprir o mandato de Jesus, em Qillenso, todas as quartas-feiras, às 18h00, fazemos uma hora de adoração pelas diversas vocações na Igreja. É um momento tranquilo, cheio dos sinfonia polifónica do crepúsculo, feito à luz de velas quando há apagões — que são frequentes.

Durante as férias grandes, os candidatos e candidatas da missão em casas de formação, ou os postulantes combonianos que fazem a sua experiência de missão, acompanham os missionários quando vão celebrar a missa às diversas capelas para dar o seu testemunho.

A missão também tem um grupo vocacional que se reune algumas vezes durante o ano na capela de Urdata, que fica no centro da missão. 

O objectivo é pôr os vocacionados em contacto com diferentes carismas e modos de servir na Igreja. 

Um convidado ou convidada apresenta um tema. Há tempo para perguntas e respostas, cânticos e orações. 

O encontro termina com chá e pão para os participantes numa loja da localidade.

O primeiro encontro deste ano, em abril, foi animado pelas Irmãs da Caridade ou Irmãs de Maria Bambina. Vieram três indianas da comunidade na missão de Fullasa.

Apresentaram a sua congregação: o carisma, a história e a presença na Etiópia. Estávamos no início da estação das chuvas e a participação foi escassa: meia dúzia de jovens. 

Em outubro, fizemos o segundo encontro. Foi animado por Frei Awot, um padre capuchinho etíope da vizinha missão de Teticha, entre os Sidamas.

Fez uma longa exposição sobre a vocação em geral e sobre a sua congregação em amárico, uma das línguas do país. O catequista zonal traduziu para guji.

Desta vez a participação foi boa: onze raparigas e nove rapazes de cinco comunidades da paróquia, alunas e alunos a frequentar entre o sétimo e o décimo segundo anos.

Estes encontros estão a dar alguns frutos. A missão de Qillenso tem um postulante comboniano, uma noviça, uma aspirante e uma candidata nas Irmãs da Caridade e uma postulante nas Servas da Igreja, uma congregação fundada pelo primeiro bispo da diocese de Hawassa.

Continuamos a rogar ao Senhor da Seara que envie seareiros para a sua seara. 

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25 de outubro de 2022

A FESTA DA MISSÃO




Todos os anos a Igreja Católica celebra a festa da missão no penúltimo domingo de outubro para nos recordar — como o Papa Francisco escreveu na mensagem para o Dia Mundial das Missões de 2022 — que todos somos missionários.

Todos os batizados somos discípulos de Jesus. Somos enviados por Ele a testemunhar o amor do Pai por todas as pessoas e por toda a criação através do testemunho do nosso amor e da nossa palavra.

Este ano celebrei a Festa da Missão na linha da frente, missionário entre missionárias e missionários. «Todos somos uma missão!», tem repetido o papa argentino vezes sem conta.

No sábado à tarde, presidi à Eucaristia na capela do Centro de Acolhimento das Missionárias da Caridade, as Irmãs de Madre Teresa de Calcutá, em Adola.

Gosto muito de celebrar a Eucaristia vespertina com os pacientes do centro. A capela é toda feita de tiras de canas de bambu, entrelaçadas como um cesto gigante invertido.

Perco-me a contemplar os rostos sorridentes daquelas mulheres presas a uma cadeira de rodas. O olhar reguila das garotas e garotos no programa de tratamento da tuberculose e que no fim me saúdam efusivamente. No ar grave e solene dos homens. No vestir festivos e no cantar alegre das jovens e mulheres.

Estávamos no meio de um apagão que durou 24 horas: a missa foi celebrada à luz de uma lâmpada solar. A escuridão da capela ajudou à solenidade da celebração. Os cânticos são começados por uma senhora numa cadeira de rodas que também toca o tambor. Era muçulmana. Faz umas orações dos fiéis muito profundas.

Expliquei-lhes que também eram missionárias e missionários mesmo às voltas com doenças crónicas e deficiências profundas. Porque todos somos testemunhas do amor de Jesus que recebemos e damos às irmãs e irmãos.

No final da Eucaristia os pacientes mais ágeis ajudam os que têm problemas de locomoção. É bonito ver a Missa a continuar depois da Missa nos gestos de cuidado na procissão de regresso aos respetivos pavilhões.

Comecei o domingo a postar algumas mensagens no Facebook, o espaço dos nativos e de muitos emigrantes do digital, e a saudar familiares, companheiros e amigos. Normalmente esta rede social é muito lenta, mas no domingo de manhã estava a funcionar direito. Graça a Deus.

A noite de sábado e madrugada de domingo foram de muita chuva. Por isso, a igreja de São Daniel Comboni em Adola estava quase vazia quando começamos a missa às 9h20. Mas as pessoas foram chegando e a assembleia foi-se compondo.

O catequista leu a Mensagem do Papa para o dia, traduzida em amárico. Era importante que a assembleia escutasse a palavra do Santo Padre.

Por causa da mensagem o meu colega teve um acidente grave na sexta-feira. Um pároco vizinho tinha ficado encarregue de trazer o opúsculo preparado com o texto do Papa e mensagens de outros dignitários, mas na quinta à noite mandou um SMS a dizer que não conseguiu.

O meu colega decidiu fazer os 160 quilómetros até Hawassa, a sé da diocese. Saiu antes das seis. Por voltas das quinze telefonou-me a dizer que teve um acidente a cerca de 50 quilómetros de casa. O pickup e capotou numa curva a fugir de uma vaca e caiu na berma da estrada. O Abba Hippolyte felizmente saiu sem um arranhão. O seu Anjo da Guarda não brinca em serviço!

A missa foi animada por um grupo de rapazes que veio de Adis-Abeba, a capital, para trabalhar durante três semanas com as meninas e meninos das ruas de Adola, liderados por um casal italiano. O seu louvar deu uma tónica missionária à celebração. 

O produto do ofertório vai ser enviado para o Vaticano. É a nossa humilde e generosa colaboração para a evangelização dos povos.

Depois, fui celebrar a uma pequena comunidade a cerca de oito quilómetros de Adola, na estrada para Neguele (na foto). Comigo foram um ancião e um rapaz. Encontramos na capela de uma jovem mãe com duas crianças pequenas — o menino de peito assustou-se com a cor da minha pele e levou algum tempo a acalmar — e o catequista.

«Vais celebrar a missa?» — Sholango inquiriu. «Claro!» — respondi. A senhora não tem culpa de os outros católicos terem medo da chuva. Ela veio e merece que respeite o seu gesto.

Jesus chama de «pequenino rebanho» (Lucas 12: 32) aos seus seguidores. Naquela Eucaristia o rebanho era, de facto, bem pequenino. Mas o Pastor bom e belo estava connosco.

A Festa da Missão fechou com uma hora de adoração com as Missionárias da Caridade e os jovens voluntários.

Perante o Pão da Vida, pedi que o Senhor da Seara envie trabalhadoras e trabalhadores para a sua seara. A oração pelas vocações é o primeiro serviço do discípulo missionário. E a vida missionária é um privilégio único!

O Papa Francisco escreveu na Mensagem para o Dia Mundial das Missões que tem um sonho: «continuo a sonhar com uma igreja toda missionária e uma nova estação da ação missionária das comunidades cristã».

Partilho do seu sonho!

17 de outubro de 2022

VIVA SÃO DANIEL COMBONI



Daniel Comboni, o santo fundador dos Missionários Combonianos, faleceu em Cartum, Sudão — onde era bispo — a 10 de outubro de 1881. Tinha 50 anos.  Sucumbiu às febres tropicais e às fadigas apostólicas.

São João Paulo II canonizou-o a 5 de outubro de 2003. A festa litúrgica é celebrada no dia do seu falecimento.

São Daniel Comboni é o padroeiro da igreja que os combonianos construíram na cidade de Adola, paróquia de Qillenso. Foi sagrada a 7 de março de 2016. O adro da igreja tem uma estátua cinzenta sua com chaves na mão, uma iconografia incomum. Normalmente, S. Pedro é o santo das chaves.

Os católicos de Adola celebraram a festa do seu padroeiro a 9 de outubro, o domingo antes da sua memória.

Contudo, as celebrações começaram no dia 7 à noite. Trinta e sete romeiros de algumas das oito capelas à volta de Adola vieram pernoitar na igreja.

A manhã de sábado, dia 8, foi dedicada à formação dos fiéis com ensinamentos sobre a vida do padroeiro, identidade católica e as novas normas litúrgicas preparadas pelo Vicariato de Hawassa, a nossa diocese.

As novas normas litúrgicas pretendem fazer frente à crescente influência protestante nas celebrações católicas no que diz respeito ao cantar e saltar durante a liturgia, ao barulho, às orações palavrosas e ao modo de organizar as capelas.

Depois do almoço houve tempo livre para as pessoas irem ao mercado. Em Adola a feira é ao sábado e à terça-feira, uma oportunidade para socializar e saber novidades além de fazer compras.

Às 16h00 começou a Adoração do Santíssimo com tempo de confissões, até às 17h30.

Depois do jantar, foi projetado um filme de três horas sobre a vida de Jesus em oromo, a língua-mãe do guji. 

A ELPA, a companhia elétrica etíope, decidiu colaborar com o evento e não houve cortes de corrente — o que é pouco habitual.

À noite o número de católicos a dormir na igreja subiu para as sete dezenas.

No domingo de manhã, depois do pequeno-almoço, os festeiros continuaram a familiarizar-se com as novas normas litúrgicas.

Quando chegou a hora da Eucaristia, reuniram-se todos junto do portão do adro da igreja para a procissão de entrada com os quadros de São Daniel Comboni e Santa Madre Teresa Calcutá. As suas irmãs, Missionárias da Caridade, têm na cidade uma grande instituição para cuidar dos doentes crónicos e terminais e dos pobres.

A Eucaristia solene, presidida pelo pároco, o comboniano togolês P. Hippolyte Apedovi, durou mais de duas horas, bem cantada e participada.

No fim da eucaristia — e porque a chuva ameaçava — o almoço de confraternização foi servido nas instalações da Biblioteca Púbica Comboni.

O menu foi simples: injera — panquecas gigantes feitas com farinha de tef, um cereal etíope — com batatas guisadas com vegetais e água para beber.

Na festa do ano passado, a comunidade juntou dinheiro suficiente para comprar carne de vaca. Este ano a crise económica é grande. Os produtos essenciais — sobretudo açúcar, farinha e óleo alimentar e combustíveis — custam o dobro em relação ao ano passado.

O dinheiro das ofertas juntamente com as ajudas das missionárias e dos missionários deu para uma refeição mais simples. Mas estava uma delícia. As mulheres esmeraram-se.

O importante foi celebrar juntos e almoçar juntos. As comunidades reforçam-se à volta das mesas da Eucaristia e da convivialidade.

Viva São Daniel Comboni.

4 de outubro de 2022

MISSIONÁRIA PARA SEMPRE









Gebaynesh Gebre Emmo fez os votos perpétuos como Irmã Missionária Comboniana no dia 4 de setembro de 2022. 

A celebração, presidida pelo bispo local, D. Markos Gebremedin, decorreu na paróquia de São Paulo, na cidade natal de Bonga. É a capital do estado regional de Kaffa, a pátria do café, na Etiópia Central.

A Ir. Gebay nasceu há 35 anos numa família com dez filhos: sete raparigas e três rapazes. É a quarta mais nova. O irmão mais velho é padre Vicentino.

Começou o discernimento vocacional quando andava na faculdade, com mais dez meninas.

«Estávamos todas na faculdade e tínhamos um encontro mensal. Pedi para entrar no Instituto quando terminei os estudos. Fui atraída pelo carisma e espiritualidade de São Daniel Comboni, a sua paixão pelos pobres e mais abandonados, a coragem e a força das primeiras irmãs na missão, a sua auto-doação e simplicidade», recorda.

A formação de base levou-a a muitos sítios: fez o pré-postulantado em Adis-Abeba, na Etiópia, o postulando em Nairobi, no Quénia, e o noviciado em Namugongo, no Uganda.

«Gostei muito de estudar em Nairobi enquanto fazia a formação. Aprendi inglês numa escola onde encontrei gente de todo o mundo que falava línguas muito diferentes. No noviciado gostei sobretudo da vida de oração. Venho de uma família católica, mas realmente aprendi a rezar no noviciado», conta.

Depois de fazer os primeiro votos como missionária comboniana, continuou a formação em Fetais, Portugal, no Brasil e, finalmente, na missão de Haro Wato, na Etiópia.

Lugares que a marcaram: «Em Portugal aprendi a ser fiel (a mim própria, aos outros e a Deus). No Brasil descobri uma Igreja muito ativa que investiu imenso no povo. As pessoas estão envolvidas em todas as atividades da Igreja, especialmente na administração e na pastoral».

A celebração dos votos perpétuos marca a conclusão do processo de formação de base. Através da profissão perpétua dos votos de castidade, pobreza e obediência no Instituto das Missionárias Combonianas assumiu a disponibilidade de ser missionária para sempre.

Uma multidão esperava a Ir. Gebay, a superiora provincial e o bispo junto à igreja. Foram recebidos com canções, palmas e flores de boas-vindas. A igreja estava cheia. O coro cantou a preceito. A Eucaristia foi muito participada. A missa demorou mais de três horas: a alegria da festa!

A Ir. Gebai foi apresentada pelo pai — que tem mais de noventa anos — e pela irmã mais velha. A mãe faleceu há alguns anos.

«Fazer a minha consagração perpétua para a missão seguindo Comboni significa imitar Comboni para seguir a Deus amando-O e servindo-O enquanto sirvo os meus irmãos e irmãs. Sinto-me feliz, porque trabalhei muito para este dia. Senti-me muito feliz e chorei de alegria», confessou.

A festa prosseguiu com um almoço partilhado nas instalações da paróquia. À noite, na casa da família, houve jantar para alguns convidados mais próximos. E muita alegria.

Perguntei-lhe pelo futuro. «O futuro pertence a Deus e acredito que quanto mais crescer mais Deus vai querer de mim», respondeu convicta.

Também deixou uma mensagem quem acalente o sonho missionário.

«Para quem gosta de seguir a vida missionária tenho esta mensagem: não temas os desafios, porque eles dão-nos oportunidades para sermos aquilo que desejamos. Mantém uma atitude de escuta. É através da escuta que podemos identificar a voz d’Aquele que nos chama. Faz a vontade de Deus, porque obedecendo não cometerás erros», concluiu.

20 de setembro de 2022

Qillenso: CAMPO DE FÉRIAS



A pequenada de Qillenso e das vizinhanças preparou a chegada do Ano Novo etíope — celebrado a 11 de setembro — com uma experiência inédita: um campo de férias.

O evento, organizado pelas Missionárias da Caridade, as irmãs de Santa Madre Teresa de Calcutá, foi animado poe elas e por quatro voluntários de Adola: o catequista do hospício das Missionárias, mais uma aluna e dois alunos do décimo ano.

Cerca de sete dezenas de crianças entre os quatro e os catorze anos participaram no evento. Algumas faziam quatro quilómetros a pé para para participarem na semana de atividades várias.

O campo de férias decorreu de segunda a sábado das nove às treze horas. Nem o nevoeiro matinal nem a humidade — que é costume nestes meses — nem alguma chuva esfriaram o entusiasmo dos participantes.

As atividades começavam com uma pequena oração. Era impressionante a concentração dos mais pequenos, autênticos adultos em miniatura.

Depois havia uma catequese bíblica e a aprendizagem de cânticos em guji — a nossa língua, amárico ou inglês.

O tema apresentado era trabalhado por grupos com pequenas dramatizações, canções, etc.

Seguia-se a hora dos jogos. Os participantes eram divididos em dois grupos — num lado os mais pequenos e noutro os mais crescidos — e os animadores ensinavam jogos, danças e outros passatempos.

O gargalhar de felicidade competia com o chilrear da passarada.

A meio da manhã tomavam um lanche para retemperar as forças e continuar as atividades.

Na sexta-feira de manhã, celebrei a missa com eles. Foi uma Eucaristia muito alegre. A petizada pôde cantar o que aprendeu nos dias anteriores. Os mais velhos escreveram e leram as orações dos fiéis.

Malaltu, a sobrinha da cozinheira da missão que tem quatro anitos, é normalmente envergonhada e caladita. Na missa, cantava com um entusiasmo crescente e fazia as dinâmicas que acompanhavam as canções com toda a energia.

O campo de férias foi um espaço lúdico, de aprendizagem e socialização. Os participantes adoraram a experiência. Era giro ouvir os mais pequenos a caminho de casa ou ao fim do dia a canta as canções que aprenderam durante a manhã.

Perguntei a Beza, a jovem que fazia parte do grupo dos animadores, se gostou da experiência, apesar do frio de Qillenso. Os olhos iluminaram-se num enorme sorriso: «É tão bom ver esta alegria de poder brincar juntos!» — disse.

Para o ano haverá mais!

31 de agosto de 2022

É TÃO BOM VOLTAR A CASA



Tive de ir a Portugal a meados de julho, nove meses depois de ter chegado à Etiópia. Normalmente vamos de férias por três meses cada três anos.

Quando vim, no fim de Outubro de 2021, o meu passaporte tinha quase 11 meses de validade: ainda não era renovável. A embaixada em Adis Abeba informou-me que, não tendo serviço consular, não renovava passaportes. Podia fazê-lo noutro país africano ou em Portugal.

Decidi ir a casa para estar com os meus pais e com a minha família e para celebrarmos juntos o primeiro aniversário da morte da minha irmã Celeste. E estar com a comunidade cristã de Cinfães, que me viu nascer, introduziu à fé e em nome de quem também sou missionário.

Passei uma semana em Fátima em retiro anual para renovar o meu compromisso com a missão e participar na peregrinação nacional da família comboniana, ocasião para abraçar colegas, benfeitores e amigos.

Também tive a graça de participar no último adeus ao P. José de Sousa. Foi o maior animador missionário dos combonianos em Portugal. Muitos dos meus confrades entraram no Instituto «pescados» por ele nas visitas às escolas e paróquias das dioceses de Viseu, Lamego, Guarda e Aveiro. Tinha 82 anos.

O mês passou-se a correr! Gostei de voltar ao calor depois de um mês de nevoeiros intensos, morrinha, chuva e humidade na serra de Qillenso, para secar os ossos. Chocou-me o nível de seca que afeta Portugal e a Europa — vista do avião, a terra parecia mirrada e as albufeiras tinham pouca água — e o flagelo dos fogos.

Agradeço o carinho e as ajudas que me entregaram. Grato, encomendo cada pessoa ao amor misericordioso do Senhor da Missão.

Regressei à Etiópia a 17 de agosto. A viagem foi agradável: Porto — Frankfurt (Alemanha) — Adis Abeba. Saí de Pedras Rubras depois das quatro da tarde e cheguei a Adis às seis da manhã do dia seguinte.

Mia Couto — um dos autores africanos que mais estimo — fez-me companhia com o romance Terra sonâmbula. Uma reflexão genial sobre os efeitos da guerra civil em Moçambique através dos olhares de Tuahir, Muidinga e Kindzu.

Deixo três citações: «O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro». «Esperto é o mar que, em vez da briga, prefere abraçar o rochedo». «Nenhum rio separa, antes costura os destinos dos viventes».

Depois de um mês de canícula em Portugal, Adis Abeba acolheu-me com chuva. Negociei o preço da corrida com o taxista — os efeitos da guerra na Ucrânia também se fazem sentir aqui e o preço dos combustíveis aumentou quase cinquenta por cento — e fui para a casa provincial. Os colegas acolheram-me com a alegria e curiosidade costumeiras.

Fiz um dia de descanso e viajei rumo ao sul. Tinha deixado o velho «todo-o-terreno» em Adis para uma revisão mais profunda. Já rodou 405 mil quilómetros e precisava de alguns cuidados extra.

A Etiópia central está na estação das chuvas. Enquanto conduzia para Hawassa contemplava a paisagem verdejante que me envolvia: os campos trabalhados com milho, trigo e tief — o cereal local usado para fazer a injera, o pão quotidiano em forma de panqueca gigante — a crescer.

Os malmequeres amarelos (que anunciam o ano novo etíope — sim, vamos celebrar a chegada de 2015 segundo as contas daqui a 11 de setembro) davam uma nota de alegria às bermas da autoestrada onde alguns animais pastavam tranquilamente.

Almocei com a comunidade comboniana de Hawassa e prossegui a viagem até Qillenso, que fica a 432 quilómetros a sul da capital, na estrada que vai para a Somália. Pelo caminho comprei uma espiga de milho assado para matar saudades do sabor.

O vento deve ter arrumado as nuvens para algum lado, porque o sol deu-me as boas-vindas a casa. Mas, dois dias depois, o nevoeiro, a chuva e a humidade voltaram. É a sua estação! E as pessoas agradecem. Começaram a preparar a terra para semear os cereais e as favas. O milho está quase pronto para a colheita.

Cheguei a Qillenso por volta das cinco e meia da tarde, depois de quase oito horas de condução. O P. Hippolyte e a Guyyate, a cozinheira, receberam-me com um abraço de boas-vindas. Dei-lhes os «miminhos» que levei de Portugal.

Ao jantar trocámos novidades e começamos a pôr a conversa em dia.

Tivemos de fechar o portão maior da missão a cadeado, porque o gado dos vizinhos estava a fazer estragos no recinto; as pessoas entram por um portão mais pequeno inserido no grande; Jalata, um dos jovens mais próximos de nós, tinha casado tradicionalmente; a segurança a sul de Adola — onde fica o outro polo da missão — está a melhorar e o pároco planeia visitar a comunidade de Zambala, a que não vamos há quase um ano por causa dos ataques dos rebeldes oromos.

Uma nota triste. Sukari (Açúcar), uma senhora bastante jovem que sacramentei numa clínica privada em Me’ee Bokko antes de partir, tinha falecido supostamente vitimada por um cancro no estômago. Repousa no pequeno cemitério da missão, onde a fui encomendar à misericórdia de Deus.

O nosso gato desapareceu, talvez apanhado por um animal selvagem, um felino de porte médio parecido com o lince, a quem os dicionários chamam lobo-gato, que vive por aqui.

É tão bom voltar e sentir-me aqui também em casa!