Os bispos etíopes reuniram-se em assembleia plenária a meados de Dezembro. No final da reunião de três dias, enviaram uma «mensagem de sinodalidade» aos católicos, ao Povo de Deus na Etiópia e a todas as pessoas de boa vontade. O documento de cinco páginas, em amárico e inglês, tem por título Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo, citação tirada do evangelho de Lucas.
O primeiro facto que ressalta da leitura do texto é a insistência no «não temais» que aparece no título, três vezes em negrito nos três primeiros parágrafos da mensagem e umas quinze vezes na conclusão. É um dado novo. A Igreja Católica na Etiópia não chega a um por cento da população e, como Igreja marginal, costumava remeter-se para um silêncio prudente e medroso. Desta feita, os bispos encorajam os católicos a esconjurar o medo, pedindo que a mensagem fosse lida nas missas dominicais.
A mensagem começa por listar as dificuldades que os etíopes encaram: custo de vida esmagador, flagelo das mudanças climáticas, confusão cultural e desintegração, conflito interminável, e a barreira da comunicação. De facto, a desvalorização do birr, a moeda local, fez disparar os preços e o poder de compra foi enormemente afetado. Por outro lado, a insegurança continua. O conflito que opôs os tigrinos ao governo central ainda não foi completamente sanado e nos Estados regionais amara e oromo os combates entre rebeldes e tropas continuam, com detenções, feridos, mortos e destruição.
Contudo, os prelados têm também palavras de apreço: «A produtividade agrícola e a diversificação das exportações, a transformação digital aliada ao crescimento de plataformas de tecnologia financeira (fintech) locais, o reengajamento diplomático e os movimentos de paz, o envolvimento vibrante do sector privado, as iniciativas de legado verde aliadas à autossuficiência económica, as soluções locais e o dividendo demográfico são alguns dos principais aspetos positivos que atuam como uma filosofia governamental que dá esperança para a transformação do nosso país.»
Os bispos propõem alguns marcos no caminho sinodal como resposta ao tempo do medo: construção da comunhão e escuta, proclamação da verdade, liturgia, corresponsabilidade na missão, diálogo na Igreja e na sociedade, ecumenismo, reavaliação da autoridade e participação, discernimento e decisão e, finalmente, formação na sinodalidade. A mensagem de sinodalidade é um marco importante no caminho da Igreja etíope, que assume com coragem a vocação profética de ser voz de esperança em tempos de medo.
O bispo de Hawassa (na foto), o vicariato que mais católicos tem na Etiópia, afirma que o documento é realista. «A mensagem reflete a realidade no terreno, sem culpar ninguém especificamente. Esperamos e rezamos para que seja recebida de forma positiva, pois foi escrita como reflexão honesta. É a nossa situação que precisa ser abordada em conjunto como cidadãos e não acho que seja demasiado crítica em relação ao Governo», disse-me D. Merhakristos Gobezayehu.







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