15 de junho de 2026

A-DEUS, P. GREGÓRIO




Querido padre Gregório,

A notícia do teu falecimento apanhou-se de surpresa no metro, esta manhã, a caminho da escola de italiano. Mamma mia...

O P. José Rebelo, o superior provincial, postou no grupo esta mensagem: «Caros colegas, com o coração pesado queria informar-vos que o P. Gregório faleceu esta manhã, às 5, no hospital de Viseu».

A notícia deixou-me muito triste. Sem palavras. Tinhas 84 anos, muitos deles vividos em serviço missionário no Brasil de onde trouxeste um sotaque interessante.

Confesso que fiquei preocupado quando li que tinhas sido submetido a uma traqueostomia de urgência por dificuldades respiratórias. 

Perguntei à inteligência artificial que cirurgia era essa. Fiquei mais tranquilo quando soube que estavas bem, à espera de cama para seres internado.

Lembrei-me da tua dificuldade em falar e da possibilidade de cancro na garganta cujo diagnóstico dividia os clínicos de Viseu e de Coimbra.

Partiste.

Estás no abraço terno e eterno de Deus.

No metro, uma das primeiras memórias que me visitou, foi a viagem que fizemos da Maia para Lisboa através da EN 1 no Peugeot 504 azul quando me mudei para a redação das revistas. Estávamos em outubro de 1985. Ou talvez novembro...

Deste-me muitos conselhos e acompanhaste-me nesses tempos de mudança de casa e de trabalho. Uma proximidade que cultivamos através dos tempos apesar de a missão nos colocar em continentes diferentes.

Depois recordei-me da última vez que estive em Viseu antes de regressar à Etiópia e da longa conversa que tivemos apesar da tua dificuldade com a fala. Da estória daquela imagem bonita que trouxeste do bazar de natal da Paróquia de São Mamede.

Revi os passeios a Trás-os-Montes com o teu cunhado Zé, das vistas à tua família nos Olhos d’Água e em Arões, das tuas bodas de ouro.

Agora fica a saudade de um colega missionário, de um irmão maior, de um amigo, de um homem bom, da tua forma própria de comunicares, das tuas muitas histórias.

Obrigado pelos teus três anos como segundo provincial comboniano português entre 1975 e 1978 e do tempo em que trabalhámos juntos nas revistas: tu como administrador e eu como redator. 

Obrigado pelo mais de quarto de século ao serviço da Igreja no Nordeste do Brasil (e acho que noutras partes). 

Guardo religiosamente uma pedra parideira da tua terra: esteve comigo na Etiópia e está agora em Roma...

Amanhã, terça-feira, depois da missa exequial às 11h00, no Seminário das Missões em Viseu, a tua casa nos últimos anos, vais ser velado na capela do Cabrum natal a partir das 14h00. Depois da missa de corpo presente às 18:30 na igreja de Arões vais a sepultar no cemitério local.

Servo bom e fiel, já entraste na alegria do teu Senhor. Descansa na sua paz e intercede por nós para sermos missionários santos e capazes ao jeito de São Daniel Comboni. 

Quando voltar a Viseu vou sentir a tua falta e a saudades das conversas longas que tivemos.

12 de junho de 2026

IGREJA DE ADIS-ABEBA TEM NOVO LÍDER



O papa aceitou hoje a renúncia do arcebispo de Adis-Abeba e nomeou o auxiliar para o substituir.

O Vaticano anunciou hoje ao meio-dia de Roma que «o Santo Padre aceitou a renúncia ao governo pastoral da Arquieparquia de Adis-Abeba (Etiópia) apresentada por Sua Eminência o Cardeal Berhaneyesus Demerew Souraphiel» e «nomeou Arcebispo Metropolitano de Adis-Abeba (Etiópia) S.E. Abune Tesfaye (Tesfasilasie) Tadesse Gebresilasie, até agora Bispo Auxiliar da mesma Sé».

O Cardeal Berhaneyesys, Lazarista, completa 78 anos em julho. Liderava a Igreja de Adis-Abeba desde junho de 1999. Foi nomeado cardeal pelo Papa Francisco em 2015.

O novo metropolita Dom Tesfaye Tadesse é Missionário Comboniano. Desempenhava as funções de bispo auxiliar de Adis-Abeba desde novembro de 2024.

O novo Arquieparca nasceu há 56 anos em Harar, no leste da Etiópia e é licenciado em Estudos Islâmicos. Ordenado presbítero em 1995, serviu como missionário na Etiópia e no Sudão. 

Foi Superior Provincial dos Combonianos na Etiópia e Conselheiro Geral e depois Superior Geral do Instituto entre 2015 e 2024.

Foi sagrado bispo a 2 de fevereiro de 2025 na Catedral da Natividade de Nossa Senhora em Adis-Abeba.

Durante a apresentação pública do novo arquieparca, conduzida na catedral de Adis-Abeba pelo Núncio Apostólico, Dom Tesfaye respondeu com uma breve oração: «Sinto-me indigno e preciso da tua graça e a tua ajuda e das orações da Igreja e das orações do povo de Deus e peço perdão dos meus pecados».

O Conselho Geral dos Missionários Combonianos saudou a nomeação com uma nota de felicitação.

«Como confrades, felicitamos e expressamos a Dom Tesfaye a nossa alegria por este novo e delicado ministério, bem como o nosso carinho: todos nos sentimos honrados por esta decisão do Santo Padre», escreveram.

E concluíram: «Asseguramos a Dom Tesfaye as nossas orações, para que o Espírito Santo e o Coração de Jesus o sustentem e o guiem na sua missão».

Dom Tesfaye é membro dos dicastérios para os Institutos da Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica e para as Igrejas Orientais.

Nas Igrejas Orientais, uma diocese chama-se eparquia e o seu bispo eparca. Por isso Adis-Abeba é uma arquieparquia liderada por um arquieparca.

10 de junho de 2026

COMBONIANO RECEBE NOBEL DOS MISSIONÁRIOS


O missionário comboniano italiano padre Diego Dalle Carbonare, Superior Provincial dos Missionários Combonianos no Egito-Sudão, foi distinguido com o Prémio Cuore Amico 2026 na categoria Religiosos pela Associação Missionária Cuore Amico Fraternità ETS.

O galardão é por vezes designado como o «Nobel dos Missionários».

No comunicado oficial, datado de 5 de junho de 2026, a Associação sublinha que o prémio foi atribuído ao padre Dalle Carbonare pelo seu empenho missionário no Sudão, num contexto marcado pela guerra, pelo sofrimento e por graves emergências humanitárias. 

O prémio valoriza em particular o trabalho de coordenação e apoio às comunidades missionárias combonianas que continuam presentes ao lado da população, através de atividades pastorais, educativas e caritativas em favor das pessoas deslocadas e mais vulneráveis.

Instituído há 36 anos por Don Mario Pasini, sacerdote e jornalista de Brescia, o Prémio Cuore Amico é considerado um dos mais importantes prémios missionários italianos.

É atribuído anualmente a sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos que se distinguem no serviço aos mais pobres.

O prémio prevê a atribuição de 50 000 euros, destinada a um projeto de relevância social da Província Comboniana no Sudão. 

A cerimónia de entrega terá lugar a 17 de outubro de 2026 na Igreja de San Cristo, em Brescia, Itália.

Este reconhecimento representa um sinal de apreço pelo empenho dos missionários combonianos que, apesar das dificuldades e da instabilidade no Sudão, continuam a testemunhar a proximidade da Igreja às populações mais afetadas pela crise. 

Este prémio é motivo de alegria para toda a família comboniana e encoraja a prosseguir com renovada esperança o serviço de proximidade, solidariedade e anúncio do Evangelho junto das populações mais provadas pela guerra e pelas suas consequências.

8 de junho de 2026

ISIRO (RD CONGO): GUERRA E FUGA EM MASSA





 

Na madrugada de 30 de maio de 2026, a cidade de Isiro, a capital e maior cidade da província de Alto Uele, no norte da República Democrática do Congo, foi despertada pela chegada em massa de deslocados que fugiam dos terroristas. A onda ruidosa, vinda de cerca de 125 quilómetros a leste, atravessou dezenas e dezenas de aldeias na floresta. Impelidos pelo medo, encheram durante vários dias a grande estrada internacional que liga Isiro ao Uganda e procuraram refúgio na capital da província.

O governo provincial foi apanhado de surpresa. Acreditava-se que a guerra era o destino dos povos do Leste e do Nordeste do país, não no Norte.

Além disso, todos acreditavam que os reforços militares enviados para Gombari (a duas centenas de quilómetros de Isiro) e para Mungbere (a 125 quilómetros) eram suficientes para dissuadir os guerrilheiros que, ao que parece, vêm do Nordeste. A estratégia da guerrilha pôs a nu a desorganização e a fraqueza das forças do governo.

 

Acolhimento e necessidades

As famílias de Isiro foram as primeiras a abrirem-se aos deslocados num admirável impulso de acolhimento. Famílias de si já numerosas acolheram dez, 15 e até 20 recém-chegados.

Perante a urgência, os serviços humanitários e de solidariedade do governo provincial pediram a disponibilização do vasto complexo escolar de Ntumba para acolher os deslocados sem familiares em Isiro. O fluxo de chegadas continuou durante toda a semana, devido às notícias e rumores de assassinatos e violências cometidos em Difolo e Ndubala, localidades na estrada para Isiro. O Diretor da Cáritas diocesana notifica que os seus serviços registaram mais de dez mil deslocados.

A 2 de junho, o governo provincial lançou um apelo ao governo central de Kinshasa: «Os meios de que dispomos são muito limitados e insuficientes para tantas pessoas, num prazo tão curto. E ninguém sabe dizer quanto tempo isto vai durar».

Dois dias depois, a Assembleia Provincial do Alto Uele enviou uma delegação de quatro deputados à capital, Kinshasa, para solicitar ajuda humanitária e o reforço significativo de militares.

Os deslocados são também acolhidos em conventos e paróquias católicas e protestantes de Isiro.

Na paróquia católica de Santa Ana, onde trabalho, prestamos ajuda a dois níveis: acolhimento nas nossas instalações e apoio às famílias que abriram os seus corações e portas àqueles que, partindo à pressa, chegaram sem quase nada. Atualmente, acolhemos 140 pessoas na nossa casa e apoiamos 40 famílias com arroz e feijão.

Nas visitas ao centro de acolhimento de deslocados Gossamu, que, devido às atividades escolares, substituiu o complexo Ntumba, colaborámos com alimentos, sabão, cordas secar a roupa — que, de outra forma, seria estendida no chão — e outras ajudas úteis ao funcionamento do centro. Em plena época de exames, as escolas, sob a orientação do ministério provincial competente, estão a fazer tudo o que é necessário para que os alunos deslocados não percam o ano letivo.

 

Acompanhamento 

Praticamente todos os católicos das 40 comunidades espalhadas pela floresta e savana estão em Isiro. Assim, é natural que lhes prestemos todo o tipo de apoio: escuta, sacramentos, locais para ficar, assistência médica no local e, nos hospitais, para os mais graves. Para as crianças há futebol, catequese e oração.

Visitamos também as famílias, nos bairros, seja para rezar com os doentes, seja para estar com os deslocados. Lá, proclamamos a Palavra de Deus e rezamos juntos para que o conforto que recebemos do Senhor os conforte e ilumine os seus olhos e os seus corações.

Aos domingos, celebro a Eucaristia no centro de acolhimento Gossamu, que abriga algumas centenas de pessoas. A celebração é sempre um grande conforto, tanto para os católicos como para os protestantes. Vi a mesma alegria nos deslocados hospitalizados na zona oeste de Isiro.

A paróquia de Santa Ana é a mãe espiritual da maioria dos deslocados. Ela estende-se, de facto, para leste até Ndubala e Mungbere e, para norte, chega a Elimba, nas margens do grande rio Bomokandi, atravessado por uma ponte, destruída há décadas. Em Elimba, a comunidade mais distante da paróquia, os terroristas acabaram de matar várias pessoas que se dedicavam à prospeção artesanal de ouro. A grande aldeia de Ndubala também foi palco de violência e morte.

 

O futuro

Todos se perguntam quanto tempo vai durar esta violência. Entretanto, a frágil economia das famílias desmoronou-se: das famílias de acolhimento, incapazes de sustentar tantas bocas, e dos deslocados que deixaram tudo para trás.

Os campos, repletos de feijão e amendoim prontos para a colheita, para depois receberem a sementeira do arroz, foram abandonados. Todo o gado foi perdido. As casas foram incendiadas. Tudo, tudo se esfumarou. Foi-o também para o Sr. Martin, catequista titular de Ndubala, refugiado na paróquia de Santa Ana, com a mulher e filhos. «Já não temos nada», lamenta a esposa, banhada em lágrimas.

Os guerrilheiros, de facto, ao chegarem às aldeias desertas, queimam as casas e os estabelecimentos comerciais. Se encontram alguém que se recusou a fugir, matam-no. Por isso, mesmo aqueles que fugiram para Isiro das aldeias mais próximas, têm medo de lá ir buscar alguma coisa. O espectro da fome já se sente, ameaçador. Precisamos urgentemente de ajuda, para que a fome e as doenças não tornem ainda mais sombria a vida destas irmãs e irmãos, e a nossa com eles.

P. Claudino Ferreira Gomes

Missionário Comboniano

1 de junho de 2026

A GUERRA DOS ELEFANTES


O Sudão entrou no quarto ano de uma guerra civil devastadora e sem tréguas entre dois generais. Os civis são as vítimas maiores desta crise ignorada. 

Nota um ditado africano que, quando dois elefantes lutam, é o capim que sofre. O símile ilustra perfeitamente o que se passa no Sudão desde 15 de Abril de 2023 quando, em Cartum, a capital do país, forças do Exército (SAF), comandado pelo general Abdel Fattah al-Burhan, e paramilitares das Forças de Apoio Rápido (RSF) chefiadas pelo general Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido por Hemedti, entraram em confronto directo pelo poder que dividiam desde o golpe de Estado de Outubro de 2021. As RSF vieram dos janjaweeds do Darfur transformados em força pretoriana do ditador Omar al Bashir, deposto em 2019. Essas milícias árabes, que controlam muitas minas de ouro no país e contam com o apoio dos Emirados Árabes Unidos (EAU), ocuparam Cartum e rapidamente tomaram conta de infra-estruturas críticas no país.

Entretanto, o Governo mudou-se de Cartum para Porto Sudão, no Norte da costa do mar Vermelho. Agora, Cartum voltou ao controlo do Exército, mas é uma cidade esventrada. O país, esse está dividido duas partes: o Oeste (incluindo o Darfur) controlado pelas RSF e o Leste pelas SAF. Outros grupos armados aliaram-se aos beligerantes.

O resultado da catástrofe humana que desceu sobre o Sudão é devastador: mais de 150 mil mortos; 14 milhões de deslocados (incluindo mais de quatro milhões que procuraram refúgio nos países vizinhos); 21 milhões vivem sob a ameaça da fome; 33,7 milhões necessitam de ajuda humanitária urgente. A violência sexual, sobretudo contra mulheres e meninas, é usada como arma pelas partes em confronto, acusadas de massacres e crimes de guerra. A sociedade civil organizou-se numa rede de voluntários que apoiaram mais de 900 mil pessoas com comida, medicamentos e um tecto em 18 Estados do país.

A guerra civil ameaça extravasar as fronteiras do Sudão: as RSF são apoiadas pelos EAU, pelo Sudão do Sul, pela Líbia e pela Etiópia – que permitiu a criação de um campo de treino no Oeste do país – enquanto o Exército conta com o apoio da Arábia Saudita, do Egipto e da Eritreia.

O Sudão é Terra Santa dos Combonianos. O congolês padre Franck Mandozi viveu por dentro os dias difíceis dos combates por Kosti, a missão onde serve na margem do Nilo Branco. Os missionários decidiram manter-se na cidade mesmo com a guerra à porta. «Foi um sentimento contraditório: por um lado, a alegria de testemunhar o Evangelho num momento difícil, marcado por confusões, medos e incertezas; por outro lado, o peso de tantas responsabilidades e a situação crítica em que se encontravam as pessoas, que precisavam de assistência diária», explicou. Entretanto, os Combonianos voltaram para Omdurman, capital administrativa, para reabrir a missão de Masalma, que servem desde 1899. As outras duas comunidades de Cartum (a sede provincial e o Comboni College) exigem obras avultadas para voltarem a funcionar.

30 de maio de 2026

MISSÃO NA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

 


O papa Leão XIV publicou recentemente a sua primeira carta encíclica com o título Magnifica humanitas (MH — Humanidade magnífica). Trata-se de um documento do âmbito da Doutrina social da Igreja, um hino que celebra a humanidade em todo o seu esplendor apesar dos desafios da cultura de poder (MH 188) que é feita de polarizações e violências (MH 185).

A missão, a dimensão fundamental e fundacional da vida cristã, não podia ficar de fora da encíclica «sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial», embora tratada circunstancialmente.


Poder ao serviço da missão

Na conclusão do segundo capítulo dedicado aos «Fundamentos e princípios da Doutrina social da Igreja», o papa americano faz uma reflexão sobre a Doutrina social da Igreja como teste e exame de consciência para a própria comunidade eclesial. 

«Para concluir, gostaria de abordar um ponto que me é particularmente caro. A Doutrina social não é apenas uma palavra dirigida à sociedade: é também um exame de consciência para a Igreja, casa e escola de comunhão, chamada sempre a averiguar se os princípios evocados neste capítulo são vividos, em primeiro lugar, dentro de si mesma» (MH 86), escreve.

A Igreja que ensina é também a Igreja que pratica, que quer ser laboratório dos próprios ensinamentos sobre a comunhão.

O papa fala da subsidiariedade como «critério de governo e de vida pastoral, que reconhece e apoia a responsabilidade dos fiéis e dos organismos eclesiais intermédios, valorizando os carismas e as competências, e evitando qualquer paternalismo que sufoque a liberdade evangélica» (MH 87). Também afirma que a «a solidariedade encontra a sua fonte no mistério de Cristo e alimenta-se da Eucaristia» (MH 88). 

A subsidiariedade e a solidariedade juntamente com o bem comum, a destinação universal dos bens e a justiça social formam os cinco esteios da Doutrina social da Igreja (MH 46).

Sobre a vivência da justiça no contexto eclesial, Leão XIV escreve: «viver a justiça na Igreja significa melhorar as relações e as estruturas eclesiais, eliminando as distorções que geram desigualdades, opacidades e prevaricações» (MH 89). Para acrescentar que «a escuta das vítimas de abusos espirituais, económicos, institucionais, sexuais, de poder e de consciência é parte integrante dum caminho de justiça, que inclui o reconhecimento do dano causado, a justa reparação e a prevenção» (MH 89).

Depois ajunta: «Todo o poder está ao serviço da comunhão e da missão. Toda a autoridade está ao serviço do povo de Deus» (MH 89). 

Estas duas frases redirecionam-me para o que o Papa Francisco de tão boa memória escreveu na Evangelii gaudium (EG — A alegria do Evangelho), o documento programático que lançou o seu pontificado. 

«Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo actual que à auto-preservação» (EG 27), escreveu o papa argentino. 

No pensamento do papa Leão, a missão qualifica também o modo do exercício eclesial do poder como serviço de comunhão e missão do povo de Deus. 

Por outro lado, a Igreja que vive em estado permanente de missão deve ser uma Igreja em permanente exercício de discernimento para uma missão mais frutuosa. 

«Devem promover-se formas regulares de avaliação do exercício das responsabilidades ministeriais, que não sejam um julgamento das pessoas, mas instrumentos de aprendizagem e de correção orientados à missão» (MH 89), preconiza Leão XIV.


Missão ao serviço dos mais pobres

Na linha dos seus antecessores, Leão XIV recorda que a «opção ou amor preferencial pelos pobres» — como escreveu São João Paulo II (MH 78) — é caminho obrigatório da Igreja, critério de discernimento da linguagem evangélica (MH 14), fonte de evangelização da própria Igreja (MH 42) e a partilha de bens é caminho para a missão.

«Esta diaconia manifesta-se não só na fé celebrada e vivida nos Sacramentos, e na aquisição de um estilo sinodal, mas também na partilha concreta dos bens: segundo o exemplo da Igreja primitiva, os recursos eclesiais são chamados a tornar-se verdadeiramente comuns, para que entre nós ninguém passe necessidade (cf. At 4, 34) e para que a sua administração apoie a missão de anúncio do Evangelho aos mais pobres» (MH 89).

Este é um ponto que quero sublinhar: a partilha dos recursos eclesiais — que são tantos e tão variados — passa pela sua comunização para que, à semelhança da primeira comunidade cristã, sejam postos em comum para que todos tenham o necessário para viver e para que apoie a evangelização dos mais pobres — que passa também pela sua promoção humana através da escolaridade, da saúde e da promoção da mulher.


Mundo digital: novo continente a evangelizar

Na conclusão da carta encíclica, e refletindo sobre a educação como investimento necessário para enfrentar os desafios da inteligência artificial, o papa Leão escreve: «Todos precisamos de nos formar para viver o mundo digital de forma humana, como parte integrante da educação na fé e na vida boa do Evangelho. Devemos educar-nos para considerar o mundo digital como um novo continente a ser evangelizado, e que requer missionários generosos e maduros na fé» (MH 238). 

Noto de que o documento conclusivo da primeira sessão do Sínodo sobre a sinodalidade falava dos missionários digitais, conceito que desapareceu do seu documento final. E neste parágrafo faria todo o sentido recuperar essa figura missionária do século XXI. 

Há uma geração inteira que mora no digital e que tem o direito de conhecer Jesus Cristo nesse espaço humano novo a que insistimos de apelidar de realidade virtual mas que, de facto, é o novo real para milhões de seres humanos. O papa afirma-o ao dizer que o digital é parte integrante da vida boa do Evangelho e que constitui o mundo novo a ser evangelizado por missionários provados.

A missão no digital tem de ir além dos tiktoks e das frases bonitas e beatas sobre Jesus e a fé cristã. Urge facilitar aos nativos do digital a experiência da liturgia, koinonia, diakonia e martiria (liturgia, comunhão, serviço e testemunho) —  os quatro elementos fundamentais da experiência cristã — lá onde vivem, no vasto e complicado mundo digital. A Igreja 3.1 — a Igreja eletrónica — é uma dimensão fundamental da missão da Igreja hoje e um direito dos nativos do digital.

23 de maio de 2026

RESISTIR COM BELEZA E ESPERANÇA

As mulheres beduínas palestinianas das três aldeias que visitámos hoje na zona de Khan al-Ahmar, no deserto da Cisjordânia, vivem numa dolorosa incerteza. Sobre as suas casas paira a ameaça real da expulsão em massa. 

Algumas já ensacaram os poucos pertences que podem levar consigo caso, a qualquer momento, sejam obrigadas a abandonar a terra onde viveram toda a sua vida. 

«Não sabemos o que pode acontecer esta noite ou nos próximos dias...», dizem-nos com uma mistura de medo, cansaço e dignidade.

Vivem ao relento, expostas, vulneráveis, sob tendas e estruturas frágeis que mal conseguem protegê-las do calor, do frio e da ameaça constante que as rodeia. 

Contudo, no meio desta realidade cada vez mais pesada, continuam a encontrar forças para rir, partilhar chá, aprender algo novo, para se sentarem juntas diante de uma máquina de costura.

Receberam com imensa alegria cinco novas máquinas de costura, imediatamente postas a funcionar. 

Com mãos firmes a bordar ramos de oliveira — símbolo de paz, resistência e raízes profundas — estas mulheres continuam a apostar na vida. 

Cada pequena bolsa bordada representa muito mais do que um trabalho artesanal: é o desejo profundo de sustentar as suas famílias, de proteger a dignidade dos seus filhos e de transformar o sofrimento em algo que possa dar vida também a quem adquirir estes produtos.

É comovente ver como, mesmo sob o peso do medo e das ameaças, estas mulheres continuam a criar beleza, a partilhar esperança e a resistir com uma força silenciosa que nasce do amor pela sua terra, pelas suas famílias e pela própria vida.

Ir. Cecília Sierra

Missionária Comboniana na Cisjordânia