A sabedoria popular reconhece – com redobrada razão – que o homem põe e Deus dispõe. Demorei 21 anos a regressar à Etiópia, com estações e apeadeiros no México, em Portugal e no Sudão do Sul.
Quando regressei no final de outubro de 2021, pensei ficar uns dez anos com os meus irmãos gujis. Entretanto, a dezena de anos foi encurtada para menos de cinco. Os superiores propuseram-me ir para a comunidade da Cúria dos Combonianos, em Roma, Itália, para trabalhar na comunicação.
A proposição apanhou-me completamente em falso numa sexta-feira de março de 2025 no final da viagem com dois colegas de Qillenso para Haro Wato, a outra comunidade comboniana entre os gujis, para um sábado de recoleção zonal da quaresma.
Coloquei as minhas objeções – a maior? Ter de aprender a escrever em italiano aos 65 – e pedi tempo para reflexão. Consultei algumas pessoas – combonianos e leigos – que me recomendaram assumir o novo desafio.
Continuei as conversações com irmãos maiores. Entretanto, nas férias, diagnosticaram-me um cancro e o programa ficou suspenso até ter um quadro de saúde mais claro. Quando o urologista me disse em fevereiro que, depois da cirurgia estava livre do tumor, passei a novidade a Roma e fizemos o plano de rotação.
Eu queria voltar a Qillenso para celebrar a páscoa com as pessoas, despedir-me delas e viajar para Roma. Se possível, gostaria de partir quando o meu substituto, um missionário do Togo, voltasse a Qillenso. Preferiram manter o plano original.
As despedidas começaram no domingo de Páscoa nas comunidades de Gosa e Chirra. Expliquei que me destinaram a um novo serviço missionário em Roma. Em Chirra, o almoço festivo no fim da missa da ressurreição – leite e cocho – transformou-se em almoço de despedida.
No dia seguinte fui a Adola para dizer adeus às Missionárias da Caridade – de quem fui capelão – e aos seus utentes, aos anciãos da igreja e aos detidos na prisão regional com quem rezamos às terças-feiras.
De volta a Qillenso – a viagem serviu para me despedir dos tuque-tuques – expliquei à Werqé, a nova cozinheira que o meu tempo com eles foi encurtado. Ela convidou-me para ir à casa da sua família por detrás da colina onde está a missão. Fi-lo no sábado. Vi a irmã que casou e que estava de visita à família com o marido e conheci Kenna (Nosso), o primeiro filho do casal. A caminho da missão passamos pela casa dos tios da Werqé – uma família com quem tenho uma relação de grande amizade.
No domingo, no fim da Eucaristia e antes da bênção, sentei-me ao lado do altar. Informei a assembleia que aquele foi a última missa nos tempos mais próximos. Que me querem em Roma para um novo serviço. Que os gujis são a minha segunda família. Que fiz o voto de obediência e por isso tive de obedecer. Houve funga-funga.
No final da eucaristia, depois de alguma discussão, decidiram fazer uma coleta para comprar o necessário para a festa da despedida ao fim do dia no salão paroquial.
A despedida tive várias partes. Mi’essa, o catequista da comunidade, fez um pequeno discurso laudatório e eu outro.
Depois, um grupo de homens levou-me ao escritório paroquial para trocar as minhas roupas pelo traje de cerimónia guji: calções, camisete e manto brancos debruados a azul e um cachecol na cabeça. E o bastão de chefe na mão.
Regressei ao salão entre palmas. Seguiu-se a secção fotográfica. Depois abençoei e cortei dois grandes pães para serem comidos por todos.
Algumas famílias trouxeram leite e iogurte para a festa. Tive de benzer os oferentes e beber quatro tragos de cada recipiente.
Seguiu-se a refeição propriamente dita: injera, o pão daqui em forma de uma panqueca gigante, com carne cozida com alguns vegetais acompanhados por refrigerantes oferecidos por algumas pessoas – que também tive de abençoar.
Durante o repasto a luz falhou algumas vezes, mas com velas e as lâmpadas dos telemóveis ninguém meteu a comida por engano na boca do vizinho. Só na boca das pessoas que serviam às mesas. É um costume guji interessante e uma maneira de agradecer o serviço.
No final, pedi desculpa se a alguém ofendi e agradeci os quatro anos e meio que vivemos juntos na paróquia de Qillenso. Dei a bênção e fui abençoado. Houve tempo para trocar abraços, frases lindas e lágrimas.
Na segunda-feira de manhã, viajamos para Hawassa para a assembleia provincial. A falta de gasóleo obrigou-nos a contratar um carro privado a gasolina de Adola.
A assembleia provincial serviu também para dizer adeus a Hawassa, uma cidade verde e temperada de que gosto muito. Despedi-me do lago e da cidade com uma longa caminhada. E do Monte Tabor, a colina junto ao lago. Tem uma escadaria com quase 600 degraus. Notei como a cidade cresceu e se alindou nos últimos 26 anos. E ganhei uma valente dor de pernas e uma broncopneumonia.
Adis-Abeba, a capital da Terra das Origens a quem os oromos chamam de Finfinne, foi o último palco das despedidas. Curei a infeção pulmonar. Fiz o cartão de identidade digital – quando foi lançado há dois anos disseram-me que era só para nacionais, mas quando fui renovar a carta de condução exigiram-mo. Renovei a carta de condução. Despedi-me das missionárias e dos postulantes combonianos. Almocei com o embaixador de Portugal na Etiópia e com a embaixatriz. Fechei o meu processo com o Governo, depois de dia e meio nos Serviços de Emigração e Cidadania. E recebi o visto de saída do país.
Nesta caravana de tempestades emocionais – que as despedidas sempre me provocam – tenho o sentimento vincado que hei de voltar. Quando e como, não faço ideia! E estou pronto dizer olá à nova fase da minha vida missionária em Roma, num posto que Deus me deu como mais uma das suas muitas surpresas carinhosas. Apesar dos meus medos!
Viajo para a semana.





















