Parti no fim de maio para três meses de férias em Portugal. A fórmula é simples: um mês na pátria por cada ano na missão. Contudo, um problema de saúde acabou por me reter nove!
Resolvi o problema e estou imensamente grato à minha médica de família, ao urologista que me tratou, ao pessoal de enfermagem e de assistência da USF da Veiga do Leça e do Hospital de S. João. Fala-se muito mal do sistema nacional de saúde, mas eu só tenho palavras de elogio: fui muito bem tratado!
O regresso, no fim de fevereiro, foi marcado pela expetativa ansiosa: até que enfim!
Adis-Abeba, a capital da Etiópia, continua um estaleiro a céu aberto. Altos e arrojados edifícios despontam por todo o lado. A música do martelar das obras ouve-se dia e noite. De onde vem tanto investimento é um mistério.
A cidade está mais asseada com os seus muitos corredores que, vistos do avião, dão um efeito visual muito interessante.
Encontrei, contudo, uma novidade: filas enormes para atestar os veículos. A falta de combustível, que era comum nas áreas rurais, chegou à capital. Perguntei porquê. No fim do mês, os proprietários, na expetativa de mais um aumento no preço dos combustíveis, fecham os postos de abastecimento para vender carburante velho a preço novo.
Por falta de gasóleo tivemos de adiar de um dia a viagem para sul.
A caminho de Hawassa registei muitas novidades: a primeira área de serviço da autoestrada já está a funcionar; a autovia já está dotada de câmaras de segurança, placards eletrónicos e aparelhos de controlo de velocidade; também há sinais de que a abertura dos últimos 100 quilómetros até Hawassa está para breve; contudo, os veículos em trânsito eram poucos.
As áreas de cultivo de grande escala aumentaram substancialmente com novos espaços de estufas e grandes plantações de bananeiras; há também uma nova subestação para alimentar a um empreendimento industrial em construção. E havia filas imensas sobretudo de pesados e de transporte de passageiros nas muito poucas bombas a vender combustível ao longo da rota.
Hawassa, a cidade junto ao lago que lhe deu o nome, também não para de crescer. A grande avenida de entrada de três faixas de cada lado mais um amplo espaço para pedestres e ciclistas – que levou os dois edifícios de internamento das Missionárias da Caridade – já está terminada; um acesso soberbo! A avenida principal também recebeu dois passeios muito largos. E por todo o lado há novos edifícios em construção; o parque do pequeno hotel junto ao lago onde costumava ir, está a parturir um hotel de luxo...
A viagem de Hawassa para Qillenso – a minha aldeia – foi feita em estado de reverência. A estrada estava bastante vazia e todas as bombas de combustíveis fechadas. Apesar da falta notória de carburantes, novos postos estão a ser construídos. Um mistério! Os buracos na estrada na região do Oromia foram fechados com asfalto e não com terra e pedras como noutros sítios.
A chuva saudou-me ao entrar em território guji e acompanhou-me até Qillenso. Perguntei a uma idosa a quem dei boleia para o mercado de Irba Muda se a estação das chuvas, a ganna, se apressou. «Faltam dois meses, mas a chuva veio. Deus lá sabe!», respondeu à maneira guji.
Partiu-me a alma o que vi em Irba Muda e Me’e Bokko, as duas cidadezinhas antes de Qillenso. A moda dos corredores destruiu todas as habitações e lojas junto à via. As construções esventradas pareciam de um cenário pós-guerra. Muitas são de pau e barro e facilmente se reconstroem uns metros mais atrás. Contudo, as de blocos e cimento são para a destruição sem possibilidade de reaproveitamento de materiais. Algumas – como o pequeno hotel do anterior chefe dos gujis em Me’e Bokko – foram inauguradas recentemente e estão marcadas com o X encarnado para o camartelo.
Cheguei a Qillenso a tempo do almoço. Os dois colegas – o P. Mynor Chávez da Guatemala e o seminarista Biruk Girma da Etiópia – esperavam por mim, juntamente com Arganne, uma jovem que depois de três anos com uma congregação religiosa descobriu que aquele não era o seu caminho. Binensa, o nosso rafeiro, não parava de saltar pelas minhas pernas acima.
Depois do almoço – com mais conversa que comida porque eram tantas as perguntas que eu trazia – os dois colegas partiram para Adola porque à tarde tinham missa com as Missionárias da Caridade e no dia seguinte a visita semanal à prisão regional. Eu fui desfazer as malas. Burtukan, Laranja, a nossa cozinheira, chegou mais tarde.
Tiro o chapéu ao Abba Mynor e ao Biruk porque, com a colaboração dos catequistas e anciãos das comunidades, levaram a missão com os seus dois centros e uma dúzia de capelas adiante durante quase meio ano.
Com a agravante de só Biruk conduzir. O processo de revalidação de cartas de condução estrangeiras é muito longo e tortuoso e não é fácil fazer o exame de código para quem não conhece bem o amárico ou outra língua local. Em inglês só em Adis-Abeba!
Que bom voltar a casa! Obrigado, meu Irmão e Senhor Jesus!







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