22 de fevereiro de 2024

PROVOCAÇÕES DO PAPA À MISSÃO NA ETIÓPIA


O Papa Francisco publicou a Exortação Apostólica Laudate Deum (LD) sobre a crise climática, dirigida a todas as pessoas de boa vontade, na festa de São Francisco de Assis, oito anos depois da inovadora Carta Encíclica Laudato si' (LS) sobre o cuidado da nossa casa comum.  

O ecoPapa regressa ao tema, porque o nosso «maltratado planeta» está a entrar em colapso e as alterações climáticas estão a causar estragos por todo o lado. O Papa explica:

«Já passaram oito anos desde a publicação da carta encíclica Laudato si’, quando quis partilhar com todos vós, irmãs e irmãos do nosso maltratado planeta, a minha profunda preocupação pelo cuidado da nossa casa comum. Mas, com o  passar do tempo, dou-me conta de que não estamos a reagir de modo satisfatório, pois este mundo que nos acolhe, está-se esboroando e talvez aproximando dum ponto de rutura. Independentemente desta possibilidade, não há dúvida que o impacto da mudança climática prejudicará cada vez mais a vida de muitas pessoas e famílias. Sentiremos os seus efeitos em termos de saúde, emprego, acesso aos recursos, habitação, migrações forçadas e noutros âmbitos» (LD 2).

Que desafios a Laudate Deum coloca à missão comboniana na Etiópia? Retiro cinco provocações concretas da Exortação Apostólica.


1. Pequeno é importante: «Pequenas mudanças podem provocar alterações importantes» (LD 17).

Os católicos na Etiópia são, de facto, uma Igreja muito pequena, com menos de um milhão de fiéis (cerca de 0,8 por cento da população). A província dos Combonianos também é pequena: 24 missionários em oito comunidades e mais dois a caminho. A pequenez pode criar um complexo de inferioridade, levando-nos a escondermo-nos na nossa zona de conforto — as nossas missões — à margem da sociedade. 

No entanto, Jesus apresenta o Reino de Deus em termos de pequenez: um grão de mostarda, um pouco de fermento. Ele chama o seu pequeno rebanho para ser a luz, o sal e o fermento do mundo — três coisas que, em grandes quantidades, representam desastre seguro.

O Papa apela à Igreja Católica e aos Combonianos na Etiópia para que vivam a sua cidadania plena sem medo. A Igreja dá um grande contributo para a educação e a saúde. Deveria também ser uma voz profética líder para os que não têm voz em tempos de agitação ao longo de linhas de fratura étnicas a nível regional e nacional, especialmente em questões de Justiça, Paz e Integridade da Criação.


2. Humildade: «Repensamos a nós próprios para nos compreendermos de maneira mais humilde e mais rica» (LD 68).

Como Combonianos, passámos por uma grande mudança histórica, especialmente no Vicariato Apostólico de Hawassa: de fundadores com uma história missionária de grande sucesso, passámos a ser um grupo pequeno entre os seus muitos agentes pastorais. 

Comboni queria os seus missionários santos e capazes... e humildes (Escritos 6655). Para Comboni, a humildade é uma virtude fundamental para o serviço da missão, «fundamento de todas as virtudes» (Escritos 2814). 

Este processo de desempoderamento torna-nos participantes da própria kenosis de Jesus. A missão não é nossa. É missio Dei, missão de Deus. Somos humildes trabalhadores na vinha de Deus. Este processo de auto-esvaziamento deve também afetar a nossa relação com as pessoas que servimos e as suas culturas, tirando as sandálias do nosso etnocentrismo para decolonizar o serviço missionário.


3. Multilateralismo: «A globalização propicia intercâmbios culturais espontâneos, maior conhecimento mútuo e modalidades de integração dos povos que levarão a um multilateralismo “a partir de baixo” e não meramente decidido pelas elites do poder» (LD 38).

O multilateralismo é para a sociedade civil o que a ministerialidade é para a Igreja: um forte remédio para o elitismo e o clericalismo — onde os clérigos sabem tudo, fazem tudo e mandam em todos. Deve vir «a partir de baixo»: ao promover uma Igreja ministerial, temos de ouvir a comunidade cristã, dando-lhe poder e permitindo-lhe definir o próprio roteiro.


4. Transição energética: «Quanto à necessária transição para energias limpas, como a eólica, a solar e outras, abandonando os combustíveis fósseis, não se avança de forma suficientemente rápida» (LD 55).

O carbono é o principal agente da crise climática mundial. A transição energética para fontes renováveis é a única forma de a travar e inverter. Temos de reduzir a nossa pegada de carbono de duas formas: (1) preferindo a energia solar ao gasóleo para iluminar as nossas casas; (2) mantendo os nossos carros em bom estado de conservação, uma vez que não temos dinheiro para comprar veículos eléctricos ou novos. Outras medidas: programar viagens, partilhar carros e, sempre que possível, utilizar meios de transporte locais.


5. Percurso de reconciliação: «Convido cada um a acompanhar este percurso de reconciliação com o mundo que nos alberga e a enriquecê-lo com o próprio contributo, pois o nosso empenho tem a ver com a dignidade pessoal e com os grandes valores» (LD 69).

São muitas as escolhas que assinalam a nossa participação nesta reconciliação global. Entre elas distingo

  • optar por um estilo de vida simples, ecológica e economicamente sustentável para reduzir a pegada de carbono e contrariar o consumismo;
  • comer menos carne e mais proteínas de origem vegetal, porque as vacas contribuem para o aquecimento global através do metano que libertam;
  • comprar a granel ou em embalagens maiores e escolher embalagens de vidro, papel ou metal para reduzir a poluição causada pelo plástico;
  • reduzir os desperdícios e reciclar; 
  • comprar roupas em segunda mão nos mercados locais para contrariar a moda, que é responsável por dez por cento das emissões de carbono;
  • utilizar computadores, telemóveis e outros aparelhos até ao fim da sua vida útil, resistindo à tentação de mostrar o último modelo; 
  • manter as nossas casas reparadas, sem perdas de energia e de água
  • reflorestar os nossos terrenos com espécies autóctones, evitando o eucalipto. 

«Tudo concorre para o conjunto» (LD 70), afirma Francisco. Juntemos a nossa pequena parte para salvar o planeta e a nós próprios da catástrofe eminente que paira sobre a nossa casa comum.

12 de fevereiro de 2024

DEUS MENOR


No sorriso desdentado das crianças enxergo o rosto resplandecente de Deus.

Nos olhos traquinas e curiosos da pequenada  vejo o olhar translúcido de Deus.

No brincar despreocupado dos miúdos contemplo a força criativa de Deus.

No dormir tranquilo do bebé
adoro o descanso de Deus,
a sua eternidade.

Nos soluços esfomeados, doridos dos mais pequenos
sinto o Deus que sofre connosco.

Deus-connosco,
Emanuel.

10 de fevereiro de 2024

NA VIDA, NA MORTE, NO AMOR UNIDOS



Faz dois meses que os pais partiram: o Ti Amadeu depois do meio-dia de domingo, 10 de dezembro, a Ti Livina depois das 04h00 de segunda, 11.

Tinha falado com eles por vídeo-chamada na sexta-feira anterior e estavam tão bem. O pai recuperava de uma infecção no hospital de Penafiel e falou da alta iminente. Entretanto, A mãe foi levada para o São João, no Porto, no dia 9, para exames depois de uma queda em casa.

O coração do pai, depois de 89 anos de trabalhos e canseiras, entrou em falência. Conforme ele piorava em Penafiel a mãe — que não acusou nenhuma lesão da queda — começou a piorar de uma pneumonia que contraiu durante o breve internamento hospitalar. Parecia que, apesar da distância entre Penafiel e o Porto, os dois comunicavam entre si. Depois de 66 anos de casados nem a morte os separou. A mãe acabou transferida para Penafiel pouco antes de falecer.

Durante o velório e nos dias que se seguiram, muitas pessoas falaram da beleza deste amor, do lado romântico do seu finamento. Os meus amigos gujis, com quem partilho o diário viver no sul da Etiópia, também disseram o mesmo: casal enterrados juntos na mesma sepultura é sinal de um amor enorme.

A missa de corpo presente, presidida pelo senhor bispo de Lamego, o meu amigo D. António Couto, e animada pelo coro de cerca de três dezenas de padres do clero de Lamego e Guarda e do Instituto Comboniano a que pertenço, foi uma sentida homenagem aos pais por uma igreja a abarrotar de familiares e amigos.

Todavia, ficar órfão de pai e mãe em menos de 24 horas é uma experiência avassaladora. Quando soube que o pai faleceu através da chamada dominical costumeira fui chorar para trás da igreja da missão.

Soube da morte da mãe por volta das 16h00 quando cheguei a Adis-Abeba, a Nova-Flor que é a capital etíope.

A notícia tinha chegado muito antes, mas tinha os óculos de ler no saco de viagem e só abri o telemóvel depois de oito horas para cobrir os cerca de 450 quilómetros que separam Qillenso — onde vivo — da capital. Os meus olhos transformaram-se na nascente de um rio de dor.

Veio ainda a incerteza de que talvez não conseguisse participar nos funerais devido a problemas burocráticos com a renovação do meu cartão de estrangeiro residente na Etiópia.

Porém, graças ao empenho do meu provincial e de outras pessoas para conseguir autorização para deixar o país e ao adiamento dos funerais por um dia, consegui estar presente no último adeus aos pais e receber os pêsames de tanta gente — conhecidos e desconhecidos, dois ingredientes fundamentais para iniciar o meu luto com a minha família.

As semanas seguintes foram dedicadas à burocracia para deixar tudo em ordem antes do regresso à Etiópia. A Drª Liliana Ferreira, a quem reconhecidamente agradeço, foi fundamental neste processo.

Como família dorida, respeitamos a memória dos nossos pais, avós e bisavós celebrando o Natal juntos na casa deles e dando as prendas que tinham combinado com a minha irmã Armanda.

Regressei à Etiópia menos de um mês depois como turista e… com mais meia dúzia de quilos. A mana e os vizinhos trataram-me bem de mais! A anca, essa queixa-se.

De volta a Qillenso, foi a vez de ritualizar o luto à moda dos gujis. No primeiro domingo, à tarde, fi-lo com os católicos de Qillenso. Reunimo-nos em grande número no salão paroquial. 

Abraçaram-me e disseram-me palavras de alento. Depois pediram que lhes contasse a morte dos pais e os funerais. No fim, partilhamos um pão de trigo redondo com cerca de um metro de diâmetro com refrigerantes, café e leite.

Nas semanas seguintes vieram delegações das capela de Hindhale, Urdata e Badeye. O ritual e as narrativas repetiram-se.

As sobras do pão, dos refrigerantes e do leite ficavam connosco.

A vida continua!

Gosto muito de ler, mas durante o primeiro mês não tinha disposição para virar uma página que fosse nem de escrever nada. Dois meses depois, começo a normalizar a minha rotina.

Agora não falo nem brinco com os pais através da vídeo-chamada dominical, mas nas asas da oração de intercessão pela família alargada, pela paz na Etiópia e no Sudão do Sul. Creio na comunhão dos santos.

Além da foto deles que sempre me acompanha nas andanças de andarilho do Evangelho, uso uma volta de ouro que a mãe fez com o seu cordão de solteira, dividido em três para a Celeste, para a Armanda e para mim; e a aliança das bodas de ouro do pai. 

Trago-os sobretudo no meu código genético e na memória. Sei que estão em paz, que estão bem, que estão com Deus!

A morte súbita dos pais, poupou-os a outros sofrimentos. Agradeço a Deus por isso. E pelo testemunho de que nem a morte separou quem Deus uniu — como escrevemos na lápide da campa.

Deixo também uma palavra de agradecimento sentido a todas as pessoas que suavizaram a nossa dor com gestos tão carinhosos e próximos nos funerais e no tempo que passei em Portugal.

Agradeço ao senhor Dom António Couto, que presidiu às exéquias; ao pároco de Cinfães, P. Francisco Marques, que foi incansável no acompanhamento dos pais em vida e nos preparativos para os funerais; ao provincial dos Combonianos, P. Fernando Domingues, que me foi buscar ao aeroporto e também esteve presente na missa de sétimo dia; aos membros da família comboniana (seculares, leigos, irmãs, irmãos e padres); às generosas gentes de Cinfães tão próximas e solidárias também nas ofertas que me entregaram para a missão; aos familiares do lado do pai e da mãe; aos amigos de perto e de longe; a todos os que estiveram connosco em tão dorido momento e nos fortaleceram…

Os gujis dizem Bayee galaatooma! Muito obrigado!

5 de dezembro de 2023

TODOS OS NOMES



Não, esta crónica não é sobre o romance de José Saramago que mais me custou a ler. É sobre os muitos nomes que ganhei com a minha estada na Etiópia.

Abba Yooseefi. Abba significa pai e por extensão padre, embora na nova tradução do Pai-nosso em vez de Abba rezemos Abbo. Yooseefi é a forma guji de José. O nome vem do hebraico Yowceph (com a tradução grega de Iosef) e significa «Ele [Deus] acrescenta» ou «Deus multiplica». E Deus não pára de acrescentar na minha vida a sua ternura, misericórdia e graça. Herdei o nome do meu padrinho José, o marido da falecida tia Arnalda, a irmã mais nova do meu pai e minha madrinha. Era assim naquele tempo. Os gujis nomeiam os filhos de acordo com as circunstâncias da sua gestação e nascimento. A nossa cozinheira chama-se Guyyate porque nasceu à uma da tarde quando a manhã (bari) passa a ser dia (guyya). A irmã mais pequena chama-se Bontu, porque nasceu gordinha.

Abba Joe. Este é o nome porque sou conhecido em inglês. Joe é a forma abreviada de Joseph, o nosso Zé.

Farenji/Farenjicha. Farenji significa estrangeiro em amárico. Farenjicha é a versão guji. Uma das suas raízes possíveis é French (francês). Os galeses construíram a via férrea que liga Adis-Abeba ao Jibuti através de Dire Dawa há mais de cem anos. Farenji é o antónimo de habesha, o termo pelo que os etíopes se designam a si próprios e marca de uma boa cerveja. Tecnicamente, habesha é o nome dos povos etíopes de origem semita, que vêm do cruzar de povos locais com migrantes da Península Arábica: amaras, tigrinos e guragues… Abissínia, a terra dos habesha era o nome da Etiópia até ao século XIX antes de o país conquistar os povos do sul. A palavra também entrou na língua portuguesa: abexim é sinónimo de etíope. Já etíope vem do grego e significa rosto(s) queimado(s), palavra que designa na Bíblia os habitantes a sul do Egito (Sudão, Etiópia). A famosa rainha de Sabá tanto poderia ser etíope como sudanesa, do reino de Meroé onde as rainhas eram chamadas Kandake.

China. Esta é a nova maneira de os miúdos — e os graúdos em menor escala — chamarem os estrangeiros brancos. Ouvi-a pela primeira vez em Adis-Abeba na tarde em que cheguei ao país há dois anos. Quando me chamam «China» eu respondo «China, não. Portugal!» (ou Burtukan que é a forma etíope de dizer Portugal e significa laranja). Os chineses têm uma presença muito notada no país através da construção de infra-estruturas (auto-estradas, estradas, vias férreas — renovaram e electrificaram a linha do Jibuti e montaram um metro de superfície na capital, fábricas, linhas de alta tensão, etc.). Uma presença em quase toda a África. Os chineses são os novos senhores do continente negro mais interessados nas matérias primas (petróleo e outros minerais, madeira, etc.) em troca de empréstimos ou de construção de infra-estruturas. Quando os estados não pagam as dívidas tomam conta e gerem em proveito próprio as infra-estruturas locais (portos, aeroportos, auto-estradas, etc.) dadas como garantia para os empréstimos.

Petros. Este é o nome que me chamam na zona de Anfarara, uma aldeia que está a uns 25 quilómetros de Qillenso a caminho de Adola. O comboniano mexicano P. Pedro Pablo Hernández — conhecido em guji como Abba Petrosi — abriu em Anfarara um catecumenato durante algum tempo. Ser branco é ser Petros!

Lio. Na picada através da floresta para a missão de Soddu Abala — filha da missão de Qillenso onde vivo — a pequenada grita «Lio, Lio» quando vê o veículo passar. O P. Leonardo d’Alessandro, um sacerdote da diocese de Bari que trabalha como missionário na Etiópia há trinta anos, foi pároco de Soddu Abala durante muito tempo. É conhecido como Abba Leo.

Beka. Junto do bairro onde as Missionárias da Caridade vivem e têm e o centro de acolhimento para doentes terminais e bebés rejeitados, nos arredores de Adola, a pequenada quando vê o todo-o-terreno que conduzo desata a gritar «Beka, Beka». É o nome do condutor das missionárias que têm um veículo igual.

You you. Tu, tu em inglês. Há 30 anos, quando cheguei à Etiópia pela primeira vez, ao verem um estrangeiro os miúdos entoavam a lengalenga: «You, you, you! Money, money, money!», «Tu, tu, tu! Dinheiro, dinheiro, dinheiro!». Agora ficam-se pelo «You, you!» quando querem chamar a minha atenção.

Oito nomes para a mesma pessoa! Sou rico de nada!

24 de novembro de 2023

NOVO DIÁCONO COMBONIANO ETÍOPE









Melaku Wolde Tekle fez a profissão perpétua no Instituto dos Missionários Combonianos e foi ordenado diácono em vista ao presbiterado missionário.

Melaku — Anjo, em amárico, uma das muitas dezenas de línguas faladas na Etiópia — nasceu há 30 anos em Tanaka, eparquia de Emdibir.

Depois de concluir o postulantado em Adis-Abeba em 2015, foi para o noviciado em Lusaka, Zâmbia. Fez a primeira profissão como missionário comboniano em 2017 e completou o curso de teologia em Casavatore, Itália, em 2022.

Em 2023 regressou à Etiópia para o serviço missionário, um período de pastoral de dois anos antes da ordenação, integrando a comunidade comboniana de Gublak, entre o povo Gumuz.

A consagração perpétua para a missão no Instituto Comboniano teve lugar na tarde de 16 de novembro de 2023 no Postulantado de São Daniel Comboni em Asko, um bairro de Adis-Abeba, a capital etíope.

O comboniano ganês P. Joseph Anane, superior do postulantado, nas boas-vindas apresentou a celebração como um acontecimento grandioso que motiva os sete postulantes no processo pessoal de discernimento vocacional.

A celebração solene, presidida pelo superior provincial P. Asfaha Yohannes, contou com a presença de familiares e amigos do professante, uma dúzia de padres (dez combonianos e dois de Emdibir) e algumas Missionárias Combonianas.

Durante a homilia, o P. Asfaha recordou que Melaku iniciou a sua formação de base naquela comunidade há uma dezena de anos e agora encerra-a no mesmo local através da profissão de perpétua castidade, pobreza e obediência no Instituto Comboniano.

O Superior Provincial convidou Melaku a seguir as pegadas de São Daniel Comboni, abandonando-se à Providência Divina.

Depois das fotos da praxe, a celebração concluiu com o jantar festivo para todos os participantes.

Três dias depois, Melaku foi ordenado diácono em Bahirdar, a sede da eparquia onde serve como missionário e capital do estado regional amara.

A ordenação diaconal teve lugar no domingo, 19 de novembro, na igreja paroquial de Genete-Selam Kidanemihret.

Dom Lesanuchristos Metheos, eparca de Bahirdar-Dessie, presidiu à eucaristia da ordenação, que foi celebrada no Rito Católico Etíope.

Eparquia é o nome dado a uma diocese do Rito Católico Oriental e o seu bispo é eparca.

A Igreja Católica Etíope tem quatro eparquias (do rito oriental etíope) e oito vicariatos apostólicos e uma prefeitura apostólica (do rito latino).

Uma assembleia diversificada, formada por paroquianos, freiras, padres do clero local, jesuítas, vicentinos e combonianos, participou na eucaristia da ordenação.

Durante a homilia, Dom Lesanuchristos disse que a estimada posição de serviço do diácono traz uma responsabilidade imensa, pedindo-lhe para ser um farol do amor de Cristo, de compaixão e serviço aos irmãos e irmãs da comunidade cristã.

O novo diácono continua o seu estágio em Gublak, uma das duas missões confiadas aos combonianos na Eparquia de Bahirdar-Dessie.

A ordenação estava agendada para o fim de outubro na missão de Gublak, durante a festa dos seus padroeiros, os Beatos Mártires de Paimol (Uganda), Daudi Okelo e Gildo Irwa. Contudo, a insegurança causada pelos combates desde abril passado entre a milícia amara e o exército levou ao seu adiamento para Bahirdar.

9 de novembro de 2023

FINALMENTE, A CAPELA VERDE







A comunidade católica de Hirbora fica nos arredores da cidadezinha de Zambaba, a quase três dezenas de quilómetros de Adola, o segundo centro da missão comboniana de Qillenso, na estrada que dá para a Somália.

Os rebeldes do Exército de Libertação da Oromia (OLA na sigla em inglês) — a quem o Governo apoda pejorativamente de Chané — estão particularmente ativos na área. Devido à insegurança, nos últimos dois anos visitamos a capela apenas quatro vezes.

Conheci Hirbora no primeiro domingo de novembro, depois de dois anos em Qillenso. Tínhamos agendado os batismos para o domingo de Pascoela, mas um ataque do OLA a Zambaba — com o saque do posto de saúde local — levou ao adiamento para 5 de novembro.

Saí de Adola com o todo-o-terreno lotado: duas Missionárias da Caridade (as Irmãs de Santa Teresa de Calcutá), o senhor Sholango (o professor reformado sempre pronto a acompanhar os missionários nas visitas às comunidades), Gammachu (um adolescente que está a ser tratado da tuberculose no hospício das irmãs e que também nos acompanha nas idas às capelas) e um grupo de jovens que queriam conhecer Hirbora ou simplesmente dar um passeio.

A cerca de oito quilómetros de Adola fomos parados no controlo militar junto à capela de Hurre Heto. Todos saímos da viatura para sermos identificados e o veículo revistado.

A partir daí, a estrada era uma incógnita para mim! Por isso, tinha alguma preocupação com o que poderia encontrar adiante. As estórias de assaltos, destruição de veículos, sequestros e mortes às mãos dos rebeldes do OLA são comuns.

A estrada enrola-se, qual jibóia gigante de asfalto, pelas colinas verdejantes de campos de tefi (o cereal miúdo nativo da Etiópia) ou pastos e através de uma floresta frondosa de árvores autóctones a competirem com pinheiros e eucaliptos por um lugar ao sol.

Uma paisagem linda, mas perigosa: os rebeldes usam a densa floresta para organizarem emboscadas na estrada com o fito de extorquir dinheiro e bens aos passantes. Também fazem sequestros para extorquirem avultados resgates.

Hirbora, a capela com a frente de verde pintada, ali está: altaneira, com vistas deslumbrantes para as colinas à sua volta com uma alta coluna, obra das térmitas, de sentinela à sua frente.

A pequena capela — luminosa das seis janelas e do reflexo do seu teto de tecido branco — estava cheia. Mais de quatro dezenas de católicos esperavam a cantar pela minha chegada para celebrarmos a eucaristia e os batismos.

Na assembleia estava Haro Waqo. É um dos dois catequistas de Massina — a capela azul — que fica a uns cinquenta quilómetros de Hirbora. Veio por iniciativa pessoal passar algum com os católicos das comunidades à volta de Zambaba para os animar na fé.

Perguntei-lhe se queria aproveitar a boleia até Adola. «Fico por aqui mais uns dias» — respondeu, com o seu sorriso habitual. Um lindo exemplo de dedicação missionária.

Fiquei muito edificado com o modo como as pessoas participaram na missa através das respostas seguras e dos cânticos cheios de energia e alegria. Apesar de, em dois ano, ser aquela a quarta vez que celebravam a Eucaristia dominical, mostravam pelo seu estar que se reunem amiúde para celebrar a Palavra, presididos pelo catequista.

(Abro um parêntesis: reconhecendo a dedicação e empenho de alguns catequistas na liderança das comunidades e com a preparação catequética que têm, pergunto-me porquê, mesmo casados, não podem ser ordenados presbíteros para que as comunidades católicas sejam verdadeiramente eucarísticas, que se reunam à volta da Eucaristia pelo menos semanalmente?)

Antes da Eucaristia, atendi de confissão quem quis, como é prática pastoral no Vicariato Apostólico de Hawassa. A assembleia, entretanto, rezou as orações da manhã e algumas dezenas do terço.

No início da celebração expressei a grande alegria por finalmente conhecer os católicos de Hirbora depois de dois anos da chegada a Qillenso! Zambaba era uma palavra mágica que me enchia de expectativas e — confesso — de medos.

A Eucaristia foi celebrada com a calma e alegria que caraterizam as liturgias por estas latitudes. O tempo não é um bem essencial que não se pode esbanjar. É um estar juntos que se faz e celebra.

Durante a celebração, administrei o batismo a três adolescentes e cinco bebés. A comunidade continua paulatinamente a crescer.

No final da missa, pediram-me para abençoar os rebuçados a ser distribuídos pela petizada.

A minha primeira visita a Hirbora concluiu com uma refeição: injera (o pão local feito com farinha de tefi) e um refugado de lentilhas, regados com um refresco.

Depois fizemos uma visita guiada pelo terreno da comunidade.

Quando o comboniano mexicano padre Pedro Pablo Hernández pediu às autoridades locais um pedaço de terra para começar o catecumenato, ofereceram-lhe aquele espaço avantajado no alto da colina com vistas sobre Zambaba.

A primeira construção foi de paus e capim. Depois construíram a capela atual: de madeira e barro, coberta a zinco, com dois pequenos cómodos atras do altar.

A viagem de regresso a Adola foi já bem mais descontraída.

Como a segurança à volta de Zambaba a melhorar, decidimos começar a celebrar a eucaristia dominical todos os meses em Hirbora, mantendo a situação sob o radar.

A comunidade fiel católica merece essa atenção. E esse risco.

3 de novembro de 2023

PARTIU UM HOMEM DE DEUS


Dom Paride Taban, bispo emérito de Torit, no Sudão do Sul, regressou à Casa do Pai no dia 1 de novembro de 2023 de um hospital de Nairobi, Quénia, onde havia sido internado. Um santo que vive a comunhão plena com Deus e com os irmãos e irmãs no Dia de Todos os Santos. Contava 87 anos.

«Paride Taban era um humilde guerreiro para a paz», declarou Dom Eduardo Hiiboro Kussala, bispo sul-sudanês de Tombura-Yambio, ao programa Newsday da Rádio BBC.

Paride nasceu em 1936 em Opari, na Província de Equatória de Leste, no sudeste do Sudão. Foi ordenado padre em 1964 e bispo auxiliar de Juba, a capital do país, em 1980. Em 1983 tomou posse da nova diocese de Torit que governou até 2004, altura em que resignou.

Dom Paride fez parte da geração de jovens padres sul-sudaneses que, sem preparação alguma, tiveram de tomar em mãos a Igreja local quando, em 1964, o regime islamista de Cartum decretou a expulsão de todos os missionários — católicos e protestantes — do sul do país. Fizeram-no com muita dedicação e sucesso, enfrentando inúmeras dificuldades.

Defensor intrépido do seu rebanho, foi perseguido tanto pelo Governo de Cartum como pelos rebeldes do SPLA, o Exército de Libertação dos Povos do Sudão, que o mantiveram preso em condições humilhante durante algum tempo.

Dom Paride era, acima de tudo, um místico e um paladino da paz.

Em 1994, foi enviado ao Ruanda para mediar os esforços de reconciliação depois do terrível genocídio que afetou aquele país da África Oriental. Em 2013, tornou-se um denunciante acérrimo da guerra civil que estalou no Sudão do Sul entre as forças do Presidente Salva Kiir e do Vice-Presidente Riek Machar. Antes, havia mediado entre Kiir e o líder rebelde David You You.

Em 2000, inspirado pela visita que fez a uma comunidade na Terra Santa onde israelitas e palestinianos viviam juntos em paz, estabeleceu a Aldeia da Paz da Santíssima Trindade em Kuron para fomentar a concórdia entre as tribos beligerantes da sua diocese.

Em Kuron, vacas e armas, que alimentam as lutas intertribais na Equatória Oriental e noutras partes do país, estão banidas. Os residentes trocam a pastorícia pela agricultura e os jovens medem forças não através das razias, mas no campo de futebol. Defensores da paz observam e reportam movimentos suspeitos de jovens e homens armados na região e comunicam-nos através da rede móvel.

Em 2013, Ban Ki-Moon, Secretário Geral das Nações Unidas, galardoou Dom Paride com o Prémio da Paz Sérgio Vieira de Mello pelo trabalho em Kuron.

Dom Paride foi co-fundador do Conselho das Igrejas do Novo Sudão de quem foi o primeiro presidente. Por isso, o Arcebispo de Cantuária, Justin Welby, distinguiu-o com o Prémio Hubert Walter para a Reconciliação e Cooperação Interfé em 2017. Normalmente a Igreja Católica mantém o estatuto de observador neste tipo de organismos.

O bispo emérito de Torit era também desde 2016 co-presidente do Comité de Diálogo Nacional, organismo que devia promover a reconciliação e a paz no país mais jovem do mundo.

Em 2018, recebeu o Prémio Four Freedoms da Fundação Roosevelt pela «sua dedicação incondicional e abnegada para trazer a liberdade e paz ao povo do Sudão do Sul».

Encontrei-me inúmeras vezes com Dom Paride durante a minha estada de sete anos no Sudão do Sul ao serviço da Rede de Rádios Católica da qual era diretor de informação. 

Entrevistei-o algumas vezes quando se deslocava de Kuron a Juba para participar nas reuniões da Conferência Episcopal e noutros eventos. Era uma voz sábia capaz de ler os sinais dos tempos.

Entrevistá-lo foi sempre uma experiência única e impar pela transparência, humildade, bondade, alegria e sabedoria que irradiava.

Contou-me muitas histórias da sua vida. Durante o cativeiro às mãos do SPLA, os rebeldes fizeram a sua retrete no alto de uma colina sem nenhuma privacidade para todos o poderem ver a fazer as suas necessidades.

Homem de hábitos espartanos, confidenciou-me que isso o ajudou a passar esse tempo difícil de cativeiro. Alguns prisioneiros dos rebeldes sofreram muito, porque estavam habituados ao chá ou às papas para pequeno-almoço. Ele contentava-se com o que lhe serviam.

Um dos momentos a que se referia com grande humor foi quando, aos 68 anos, decidiu pedir a resignação de primeiro bispo de Torit para se dedicar à aldeia de Kuron.

«No Vaticano pensavam que eu estava maluco e exigiram que fosse visto por uma junta de psicólogos e psiquiatras», disse-me com o seu sorriso travesso.

Dom Paride é uma figura maior, impar e incontrolável da Igreja e da independência do Sudão do Sul. Nunca deixou de promover a paz e os direitos do seu povo. Agora fá-lo desde a Casa do Pai.

Descansa em paz!, servo bom, humilde e fiel.