6 de março de 2026

LAR, DOCE LAR


Parti no fim de maio para três meses de férias em Portugal. A fórmula é simples: um mês na pátria por cada ano na missão. Contudo, um problema de saúde acabou por me reter nove! 

Resolvi o problema e estou imensamente grato à minha médica de família, ao urologista que me tratou, ao pessoal de enfermagem e de assistência da USF da Veiga do Leça e do Hospital de S. João. Fala-se muito mal do sistema nacional de saúde, mas eu só tenho palavras de elogio: fui muito bem tratado!

O regresso, no fim de fevereiro, foi marcado pela expetativa ansiosa: até que enfim!

Adis-Abeba, a capital da Etiópia, continua um estaleiro a céu aberto. Altos e arrojados edifícios despontam por todo o lado. A música do martelar das obras ouve-se dia e noite. De onde vem tanto investimento é um mistério.

A cidade está mais asseada com os seus muitos corredores que, vistos do avião, dão um efeito visual muito interessante.

Encontrei, contudo, uma novidade: filas enormes para atestar os veículos. A falta de combustível, que era comum nas áreas rurais, chegou à capital. Perguntei porquê. No fim do mês, os proprietários, na expetativa de mais um aumento no preço dos combustíveis, fecham os postos de abastecimento para vender carburante velho a preço novo.

Por falta de gasóleo tivemos de adiar de um dia a viagem para sul.

A caminho de Hawassa registei muitas novidades: a primeira área de serviço da autoestrada já está a funcionar; a autovia já está dotada de câmaras de segurança, placards eletrónicos e aparelhos de controlo de velocidade; também há sinais de que a abertura dos últimos 100 quilómetros até Hawassa está para breve; contudo, os veículos em trânsito eram poucos.

As áreas de cultivo de grande escala aumentaram substancialmente com novos espaços de estufas e grandes plantações de bananeiras; há também uma nova subestação para alimentar a um empreendimento industrial em construção. E havia filas imensas sobretudo de pesados e de transporte de passageiros nas muito poucas bombas a vender combustível ao longo da rota.

Hawassa, a cidade junto ao lago que lhe deu o nome, também não para de crescer. A grande avenida de entrada de três faixas de cada lado mais um amplo espaço para pedestres e ciclistas – que levou os dois edifícios de internamento das Missionárias da Caridade – já está terminada; um acesso soberbo! A avenida principal também recebeu dois passeios muito largos. E por todo o lado há novos edifícios em construção; o parque do pequeno hotel junto ao lago onde costumava ir, está a parturir um hotel de luxo...

A viagem de Hawassa para Qillenso – a minha aldeia – foi feita em estado de reverência. A estrada estava bastante vazia e todas as bombas de combustíveis fechadas. Apesar da falta notória de carburantes, novos postos estão a ser construídos. Um mistério! Os buracos na estrada na região do Oromia foram fechados com asfalto e não com terra e pedras como noutros sítios.

A chuva saudou-me ao entrar em território guji e acompanhou-me até Qillenso. Perguntei a uma idosa a quem dei boleia para o mercado de Irba Muda se a estação das chuvas, a ganna, se apressou. «Faltam dois meses, mas a chuva veio. Deus lá sabe!», respondeu à maneira guji.

Partiu-me a alma o que vi em Irba Muda e Me’e Bokko, as duas cidadezinhas antes de Qillenso. A moda dos corredores destruiu todas as habitações e lojas junto à via. As construções esventradas pareciam de um cenário pós-guerra. Muitas são de pau e barro e facilmente se reconstroem uns metros mais atrás. Contudo, as de blocos e cimento são para a destruição sem possibilidade de reaproveitamento de materiais. Algumas – como o pequeno hotel do anterior chefe dos gujis em Me’e Bokko – foram inauguradas recentemente e estão marcadas com o X encarnado para o camartelo.

Cheguei a Qillenso a tempo do almoço. Os dois colegas – o P. Mynor Chávez da Guatemala e o seminarista Biruk Girma da Etiópia – esperavam por mim, juntamente com Arganne, uma jovem que depois de três anos com uma congregação religiosa descobriu que aquele não era o seu caminho. Binensa, o nosso rafeiro, não parava de saltar pelas minhas pernas acima. 

Depois do almoço – com mais conversa que comida porque eram tantas as perguntas que eu trazia  – os dois colegas partiram para Adola porque à tarde tinham missa com as Missionárias da Caridade e no dia seguinte a visita semanal à prisão regional. Eu fui desfazer as malas. Burtukan, Laranja, a nossa cozinheira, chegou mais tarde.

Tiro o chapéu ao Abba Mynor e ao Biruk porque, com a colaboração dos catequistas e anciãos das comunidades, levaram a missão com os seus dois centros e uma dúzia de capelas adiante durante quase meio ano. 

Com a agravante de só Biruk conduzir. O processo de revalidação de cartas de condução estrangeiras é muito longo e tortuoso e não é fácil fazer o exame de código para quem não conhece bem o amárico ou outra língua local. Em inglês só em Adis-Abeba!

Que bom voltar a casa! Obrigado, meu Irmão e Senhor Jesus!

2 de março de 2026

MAMÃS SOLARES

 

São carinhosamente conhecidas por «solar mamas», as mamãs solares: têm mais de 35 anos, não têm crianças pequenas nem frequentaram a escola, vêm de zonas remotas e pobres e aprenderam a montar, reparar e manter sistemas de energia solar simples que revolucionaram a vida e a saúde de muitas comunidades rurais sem ligação à rede elétrica. O projeto foi criado em 1997 pela Barefoot College International, uma organização sem fins lucrativos da Índia, expandiu-se para a América Latina e chegou à África.

No início, as formandas eram levadas para a Índia para fazer um curso de meio ano sobre a montagem e manutenção de sistemas solares e aprender algumas noções gerais de saúde. Depois, na África a organização abriu centros de formação em Zanzibar (há dez anos), Madagáscar e Senegal. Técnicas solares do Maláui, Somalilândia e República Centro-Africana também foram formadas em Zanzibar. No final do curso, em vez do tradicional diploma, as participantes recebem meia centena de conjuntos de energia solar para instalar e manter nas próprias aldeias.

A iniciativa simples e revolucionária promove uma verdadeira transformação em áreas rurais sem acesso à eletricidade. Primeiro, porque oferece às mulheres um trabalho que lhes dá algum rendimento, combatendo a pobreza. Depois, porque as empodera em culturas onde geralmente são vistas como mães e cuidadoras, fazendo trabalhos tradicionalmente reservados aos homens.

A energia solar além de sustentável é limpa e quando há alguma avaria, a técnica está lá para a resolver. Por outro lado, as famílias põem de lado velas ou querosene para combater a noite, que, além de caras, são perigosas para a saúde por causa dos fumos e incêndios. 

Há ainda o fator segurança: a luz afasta os animais selvagens das casas e as pessoas podem usar latrinas externas sem medo. Além disso, os equipamentos são montados em casa resguardados dos larápios. 

Finalmente, os estudantes podem fazer os deveres com boa iluminação e as mamãs fazem algum dinheiro extra com o carregamento de telemóveis ou outros negócios energéticos.

O caso do Zanzibar é emblemático. O arquipélago tanzaniano semiautónomo do Índico tem cerca de dois milhões de habitantes. Metade não tem luz. As mamãs já montaram sistemas solares em mais de 1800 casas. Lá, o curso dura três meses e no final o Governo dá a cada participante 25 conjuntos solares para instalar na aldeia. A técnica cobra dois euros e meio por mês durante cinco anos por cada instalação. Em Madagáscar, a iniciativa planeia formar 700 mulheres e instalar sistemas solares de eletricidade em mais de 500 mil lares. No Senegal, o programa já formou 19 técnicas que levaram energia solar a 17 mil pessoas e estão a eletrificar uma maternidade, um contributo importante na luta contra a mortalidade infantil.

O programa já treinou mais de 4250 mamãs solares em 93 países da Ásia, América Latina e África, e tem quase 7,5 milhões de beneficiários diretos. A ONG também organiza cursos de corte e costura, produção de mel e agricultura sustentável.

1 de março de 2026

NO MEIO DA GUERRA, A VIDA INSISTE

 


Os mísseis iranianos nos céus do deserto da Judeia não assustam as missionárias que querem partilhar da vida das beduínas palestinianas em tempos de conflito.

Desde esta manhã, após a missa, ouvimos as sirenes. Mesmo assim fomos para o deserto.

Há alguns dias que as comunidades beduínas sofreram incursões de colonos. Não podíamos ficar longe. Queríamos estar presentes. Levar tecidos, fechos, linhas: pequenos sinais concretos para costurar bolsas, para aprender, para não desistir.

Não se trata apenas de «promoção da mulher». É o pão de cada dia. É o sustento de uma economia familiar ferida, onde muitas vezes são as mulheres as únicas que podem contribuir para o lar. 

Aprender, em tempos de conflito, é muito mais do que adquirir uma técnica: é manter a mente viva, acender a criatividade quando tudo parece apagar-se. É sobrevivência. É resiliência que se tece ponto a ponto.

Quase trinta mulheres esperavam-nos, rodeadas por tantas crianças.

Sob um espaço comunitário feito com cobertores grossos e gastos, que protegem um pouco do calor e do frio, partilhámos palavras e silêncios. Elas contaram-nos o que aconteceu nos dias anteriores, quando os primeiros estrondos de mísseis romperam o silêncio do deserto.

De repente, novos silvos. Mais mísseis.

As crianças correm para ver. Para elas, não há diferença: dentro ou fora é a mesma coisa. Não há abrigos. Não há refúgios. Vulneráveis a cem por cento.

Ficámos com elas, partilhando a mesma exposição, a mesma incerteza suspensa no ar.

A caminho de outra aldeia, mais explosões, mais próximas. As sirenes dos colonatos continuavam a gritar. As beduínas, quase impassíveis, como quem aprendeu a conviver com o inimaginável.

«Vais esconder-te debaixo da cama?», brincamos com Aisha, que adora dormir. 

Rimos, sabendo que a sua «cama» é um colchão fino e que a sua casa de zinco não oferece qualquer proteção.

No regresso, a estrada para Jerusalém e para os colonatos estava quase vazia.

No bairro de Al-Azareya, por outro lado, a vida seguia o curso normal. 

Ficar em casa não muda nada. Nas aldeias e cidades palestinianas não há abrigos. Continua-se. Trabalha-se. Vive-se.

É Ramadão. Quem jejuou desde o amanhecer irá procurar o necessário para o iftar, a refeição da noiteA vida insiste, mesmo sob as sirenes.

E nós, em casa, em oração. À espera.

Com a consciência de que isto pode ser apenas o início de algo que tornará ainda mais frágil a vida daqueles que já vivem no cerco e na precariedade.

É Ramadão.

É também Quaresma.

Ir. Cecília Sierra

Missionária Comboniana

25 de fevereiro de 2026

EDUCAR NO MEIO DA GUERRA


No meio da guerra que persiste no Sudão, os Missionários Combonianos continuam o seu labor de educação da juventude, cientes de que assim eles podem sonhar com um futuro melhor para o país da África Oriental.

Ahlam tinha 18 anos quando deixou a sua casa nos Montes Nuba, no sudoeste do Sudão, para estudar enfermagem no Colégio Comboni de Ciência e Tecnologia (CCST na sigla em inglês), a universidade fundada pelos combonianos em Cartum, a capital do país. Estávamos em Junho de 2022 e ela encarava a aventura com entusiasmo e o desejo de servir a sua comunidade como enfermeira.

A 15 de Abril de 2023, a guerra rebentou entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF), uma poderosa milícia com mais de cem mil soldados que tentou tomar o poder. Cartum tornou-se num campo de batalha feroz e Ahlam, os colegas, os funcionários do CCST e quase todos os missionários fugiram para salvar a vida. 

A guerra entre as SAF e as RFS, que, entretanto, alastrou a outras regiões do Sudão, fez mais de 11 milhões de deslocados internos, 4 milhões de refugiados e 21 milhões de pessoas malnutridas. Deixou 10 milhões de crianças fora da escola e 87 por cento dos estudantes universitários foram forçados a abandonar os estudos.

Ahlam refugiou-se em Kadugli, a sua cidade natal, no estado do Cordofão. 

Em Janeiro de 2024, o CCST retomou as suas actividades no espaço digital, a partir de Porto Sudão, uma cidade junto ao Mar Vermelho. Os combonianos já dirigiam a paróquia, uma escola secundária que, com a chegada dos deslocados, tem 900 alunos, e quatro escolas primárias nos arredores, onde se fixam os que fogem da violência da guerra. Essas escolas têm 2500 alunos. 

O CCST sofreu uma transformação digital acelerada para oferecer aos estudantes e professores, que a guerra dispersou pelo país e no estrangeiro, a oportunidade de prosseguirem os estudos académicos. Esta alternativa é uma luz no fundo do túnel e um vislumbre de esperança no meio da barbárie da guerra que conta com quase três anos.

O curso de enfermagem, porém, exige aulas práticas, primeiro no laboratório de enfermagem e, depois, em instalações de saúde. O CCST assinou um acordo com o Ministério da Saúde do Estado do Mar Vermelho e os estudantes de enfermagem no fim de cada semestre viajam para Porto Sudão para os respetivos estágios.

Estávamos em Agosto de 2025. Ahlam deveria sair de Kadugli para Porto Sudão. Porém, a cidade tinha sido cercada pelo Exército de Libertação do Povo do Sudão-Norte (SPLA-N), uma melícia aliada das RSF. 

Ahlam estava decidida a fazer tudo para continuar os estudos. Partiu com pouca bagagem e um telemóvel, usado para fazer chamadas e pagamentos. Caminhava e apanhava o autocarro à vez para evitar os postos de controlo do SPLA-N. Depois de lhes escapar, tendo dormido em pátios de escolas que são os abrigos para os deslocados, chegou à zona controlada pelas RSF, conhecidas pela violência. Foi presa e trancada num quarto. Pensou que a iriam violar. Mas defendeu-se, oferecendo algumas informações em troca da autorização para seguir viagem.

Finalmente, chegou a El Obeid, 300 quilómetros a norte de Kadugli, a primeira cidade sob o controlo das SAF. Pôde enfim dizer abertamente que ia para Porto Sudão, a mais de 1000 quilómetros de distância para norte, para continuar os estudos. 

Ahlam chegou em Novembro. Perdeu o período de estágio clínico, mas continuou a estudar e a capacitar-se para servir uma comunidade que sofre com a violência da guerra. 

Em Dezembro, os combonianos regressaram a Cartum. Os desafios que encontraram são imensos devido à destruição da guerra nas paróquias e escolas. O CCST necessita de investimentos avultados para voltar a acolher e formar os milhares de jovens que o frequentavam. 

Estamos gratos pela ajuda e apoio da diocese da Santarém através da renúncia quaresmal à missão da Igreja neste país devastado pela guerra, onde servimos através da educação, da saúde e do cuidado espiritual e pastoral.

P.e Jorge Naranjo Alcaide

Missionário Comboniano

Director da Universidade Comboni de Ciência e Tecnologia



23 de fevereiro de 2026

O REGRESSO DAS CARAVELAS


A Igreja portuguesa está a receber mais missionários do que aqueles que envia e o número de missionários portugueses fora do país diminuiu. É o que indica o resultado de um inquérito feito pelas Obras Missionárias Pontifícias (OMP) em 2025. 

Os dados recolhidos e tratados pelas OMP assinalam que no ano passado havia 243 missionários portugueses no estrangeiro e 197 missionários estrangeiros em Portugal.  Se lhe juntarmos os 37 padres diocesanos portugueses o número no estrangeiro sobe para 280. Juntando aos missionários estrangeiros em terras lusas os 248 padres diocesanos temos um total de 445 imigrantes a servir a Igreja portuguesa.

As missionárias e missionários portugueses servem na África (54 mulheres e 53 homens), na Europa (45 mulheres e 23 homens) na América (25 mulheres e 19 homens) e na Ásia (16 mulheres e 8 homens).

Por destinos, a número maior de missionários encontra-se em Moçambique (20) e de missionárias no Brasil (21). 

É de notar que dos 16 institutos missionários masculinos que responderam ao inquérito têm 721 missionários mas só 14,28 por cento se encontram em missão ad gentes. Os 24 institutos femininos contam com 1 598 missionárias e as 140 que estão em missão correspondem a 8,76 por cento.

Os 91 missionários estrangeiros ao serviço da Igreja em Portugal vêm da África (35), Ásia (34), Europa (15) e América (7). As 106 missionárias provêm da África (58), Ásia (31), Europa (10) e América (7). 

Por passaporte, Timor – com 30 missionárias – lidera a naturalidade das mulheres, e a Indonésia – com 12 missionários – dos homens.

Os 37 diocesanos portugueses no estrangeiro estão na Europa (27), na África (6) e na América (4). A Itália recebeu uma dúzia deles.

Os 248 diocesanos estrangeiros ao serviço das dioceses portuguesas vêm da África (96), Europa (71), América (63) e Ásia (18). Por países de origem, o grupo maior vem de Angola (69), Brasil (48) e Itália (24).

As dioceses portuguesas onde servem são Lisboa (91), Évora (33), Coimbra (21), Porto (19), Setúbal (17), Leiria (11), Braga e Viseu (10 cada), Portalegre (7), Aveiro (6), Bragança e Guarda (5 cada), Beja (4), Algarve (3), Santarém e Vila Real (2) e Angra e Viana do Castelo (1 cada). 

Os números prestam-se a leituras diferentes. Destaco quatro dados: (1) a percentagem dos missionários portugueses que servem igrejas fora de Portugal é residual (14,48 por cento dos religiosos e 8,76 por cento das religiosas); (2) incluindo os diocesanos, o número de portugueses e portuguesas a servir igrejas estrangeiras é igual (140 cada); (3) a África e a Ásia são os continentes que mais missionárias e missionários enviam para Portugal; e (4) o Anuário Católico indica que há em Portugal 2533 padres diocesanos dos quais 248 são estrangeiros (10,86 por cento). 

A Igreja que levou o Evangelho com as caravelas à África, Ásia e América, é também servida por batizados dessas Igrejas. As caravelas regressaram e o ciclo da evangelização fechou-se através da comunhão entre igrejas que enviam e recebem em simultâneo.

18 de fevereiro de 2026

MUÇULMANOS E CRISTÃOS NO DESERTO DA JUDEIA


Este ano, o Ramadão, o mês sagrado de jejum, oração e esmolas do Islão, começou um dia antes da Quaresma, a estação de jejum, oração e esmolas que prepara os cristãos para as celebrações pascais. Uma missionária mexicana que trabalha com as mulheres beduínas no deserto da Cisjordânia, partilha algumas reflexões sobre o jejum e o deserto.

Tal como Jesus, também nós fomos levadas para o deserto, o mesmo deserto da Judeia.

As mulheres beduínas estavam à nossa espera. Sem maquilhagem, olhos cansados, lábios secos, mãos gretadas. Costumam chegar com vestidos coloridos e um toque delicado de pintura que realça a dignidade dos seus rostos. Hoje estavam diferentes. É o primeiro dia do Ramadão e o jejum já se faz sentir: nada de comida nem água desde o nascer até ao pôr do sol.

O Ramadão transforma o ritmo destas terras. Antes do amanhecer, as famílias partilham o suhoor, o pequeno-almoço ritual. Depois, o dia torna-se lento e silencioso. Ao fim da tarde, o cansaço é visível e muitos regressam apressadamente para preparar o iftar, a refeição depois de o sol se pôr. 

A fome revela a fragilidade humana. Ao pôr do sol, a oração abre o momento sagrado de quebrar o jejum com água e tâmaras.

No deserto da Judeia, entre cobertores gastos e chapas de zinco que rangem com o vento, o jejum é ainda mais austero. Vulneráveis, sem serviços básicos, o sacrifício é concreto e quotidiano.

Este ano, as datas coincidem: no dia 17 começou o Ramadão e, no dia seguinte, a Igreja inicia a Quaresma.

«Vocês jejuam?», perguntam até as crianças. 

Amir, beduíno de sete anos, já jejua. 

«O seu espírito fortalecer-se-á», afirma a mãe com a firmeza de quem aprendeu a resistir.

Logo surge o mais doloroso: a situação que se agravada, a incerteza que pesa mais do que a fome. 

A presença das missionárias torna-se encontro, espaço para partilhar o que nos une e reconhecemos como sagrado. Caminhos diferentes, uma mesma sede, um único Deus.

O Espírito conduz ao deserto. Na sua imensidão, a necessidade do divino torna-se mais profunda. Deus também vive ao ar livre.

Talvez o deserto não seja o lugar onde tudo falta, mas um espaço de discernimento. A aridez ensina a conservar o essencial, o novo, o santo; a abrir espaço para que a sua Palavra desmascare os enganos e sustente a virtude.

O Espírito conduz-nos ao deserto para que o jejum não seja apenas privação, mas força e solidariedade. Para que a oração seja escuta e a tua vida e a minha se tornem presença próxima e consolo para quem clama a Deus por compaixão e misericórdia. 

Por isso, como a Jesus, o Espírito continua a levar-nos ao deserto.

Ir. Cecília Sierra

Missionária Comboniana

16 de fevereiro de 2026

DESTINO: MACUXI E WAPICHANA


O padre Mintesnot Simeneh Lemessa nasceu há 23 anos em Jijiga, no leste da Etiópia. Após completar dois anos de noviciado em Lusaka (Zâmbia) de 2017 a 2019, fez os seus estudos teológicos no escolasticado de São Paulo (Brasil) de 2019 a 2023. Concluídos os estudos, prestou serviço missionário durante dois anos em Manaus. Após a sua ordenação sacerdotal em agosto de 2025 na paróquia natal, foi destinado ao serviço dos povos indígenas Macuxi e Wapichana no estado de Roraima, Brasil.

No dia 11 de novembro, iniciei oficialmente a minha primeira missão como padre no extremo norte do Brasil, na região que faz fronteira com a Venezuela. Fui enviado para servir os povos indígenas Macuxi e Wapichana, no estado de Roraima.

Trata-se de povos originários desta terra, com história, língua, cultura e espiritualidade próprias. São comunidades que guardam uma profunda relação com a terra, com a família e com a vida comunitária. Muitos são católicos e caminham há décadas junto com a Igreja, especialmente através de uma presença missionária comprometida com a fé e com a defesa da dignidade dos povos indígenas.

A nossa missão abrange mais de 20 comunidades, muitas delas em áreas distantes e de difícil acesso. Junto com dois confrades missionários, os padres Deivith Harly Zanioli Gonçalves e Keyali Teddy Njaya, realizamos o acompanhamento pastoral, celebramos os sacramentos, visitamos as famílias, acompanhamos os jovens e oferecemos também apoio humano onde há necessidade.A missão entre os povos indígenas é uma prioridade dos Missionários Combonianos no Brasil, especialmente na Diocese de Roraima, cuja capital é Boa Vista. A Igreja local tem uma trajetória marcada pela defesa da vida, da cultura e dos direitos dos povos indígenas.

Sabemos que a realidade indígena no Brasil enfrenta desafios, inclusive no que diz respeito à proteção dos seus territórios, como nas discussões recentes sobre o chamado Marco Temporal. Diante disso, nossa presença missionária quer ser sinal de proximidade, escuta, justiça e esperança.

Sinto-me profundamente encorajado e renovado nesta missão. Fui acolhido com carinho e simplicidade. Aprendo muito com a fé, a resistência e a força comunitária desses povos. É uma grande graça iniciar meu ministério sacerdotal caminhando com eles.

Peço que rezem por mim e por todas essas comunidades. Eu também levo cada um de vocês na minha oração.

Como dizem em Macuxi: Tarenkon mîîrî pîî. Deus abençoe você.

Com gratidão missionária e carinho fraterno.

P. Mintes Simeneh Lemessa

Comboniano etíope no Brasil