23 de maio de 2022

«ESTIVE NA PRISÃO…»


A pastoral carcerária é uma das novidades do serviço missionário oferecido pela paróquia de Qillenso, no sul da Etiópia, na prisão masculina de Adola.

Os combonianos construíram há alguns anos uma sala de oração simples de cerca de sete por sete metros, que partilham com outras confissões cristãs.

Ofereceram o material que sobrou aos ortodoxos para iniciarem a construção da própria igrejinha.

Junto aos dois espaços de oração cristãos há também uma pequena mesquita.

A pastoral na prisão é uma resposta à afirmação de Jesus: «estive na prisão e fostes ter comigo» (Mateus 25, 36).

Visitamos a prisão cada terça-feira para rezar e estar com os detidos que participam no nosso encontro.

Normalmente vamos quatro pessoas: duas Missionárias da Caridade (as irmãs de Madre Teresa), um leigo e um missionário.

Começamos com uma pequena oração de mãos dadas fora da prisão pedindo a inspiração do Espírito Santo para a nossa visita.

Depois de entrarmos no estabelecimento de correção, os homens somos revistados. Os telemóveis e os cartões de identificação ficam na portaria.

A prisão está construída colina abaixo. Alberga uns 650 presos: 250 frequentam a escola primária da primeira à oitava classe; um grande número trabalha em teares manuais: o pano tecido de algodão é usado na confecção de roupas tradicionais à venda no estabelecimento prisional; alguns prisioneiros jogam matraquilhos; outros reparam e limpam calçado.

A pandemia obrigou-nos a suspender as visitas ao estabelecimento durante dois anos. Retomamos a atividade pastoral a 13 de abril. Uma surpresa agradável: encontramos a sala de oração limpa e pintada. Tem uma enorme pintura de Jesus na Cruz com a Senhora da Soledade. Os pastores protestantes com quem partilhamos o espaço têm por hábito virar a imagem contra a parede.

Os Católicos adoram imagens — acusam.

A capela é simples: tem 14 bancos e uma mesa num pequeno estrado. Além da pintura, tem uma cruz de madeira e uma televisão com o descodificados de imagens satélite.

Cerca de meia centena de pessoas costumam tomar parte no encontro. Estão bem nutridos e limpos.

A maioria são jovens.

Os católicos são dois ou três pelo que a oração que fazemos é ecuménica.

Começa com um cântico acompanhado por uma kerara, uma espécie de harpa local de cinco cordas, e de um tambor. Os participantes cantam com entusiasmo.

No primeiro encontro os ortodoxos decidiram competir com música gravada.

Sholango, um ancião da igreja de Adola, introduziu o encontro. Apresentou os novos participantes.

Era a primeira vez que eu entrava numa prisão para rezar.

Três presos fizeram longas orações entrecortadas por muitos amens na boa tradição protestante.

No primeiro encontro utilizamos uma leitura da profecia de Isaías em que Deus promete libertar os prisioneiros.

A leitura e as reflexões foram feitas em amárico e em guji.

No espaço de oração há algumas bíblias que os participantes usam para acompanhar a leitura e as reflexões.

Sholango explicou o texto. Recordou que ele próprio na sua juventude passou duas semanas na prisão de Adola devido a uma rixa.

A Ir. Francília, Missionária da Caridade indiana, exortou em inglês os participantes a usar o tempo da sentença para se refazerem. Deus está com eles na prisão. Jesus também foi prisioneiro durante uma noite.

Um dos participantes traduziu para amárico.

Durante as diversas reflexões alguns dos participantes tiravam notas em pequenos bocados de papel.

Um recluso concluiu o encontro com uma oração de bênção.

No final, um católico pediu para ser ouvido em confissão.

Na saída, passamos pela escola para deixar uma caixa de esferográficas que o diretor pediu para os alunos.

Os encontros semanais são muito informais. No início, os participantes saúdam-nos e abraçamo-nos. Há muita alegria.

Normalmente começamos com um cântico seguido de orações espontâneas de invocação e louvor.

Depois lemos uma leitura bíblica e fazemos uma pequena reflexão. Eu costumo usar o evangelho do domingo anterior.

Depois há um momento de partilha, com perguntas e respostas.

A grande maioria dos orantes vem de tradições protestantes diversas. A discussão centra-se muito nas nossas diferenças: o culto a Maria, o uso de imagens, etc. Na boa tradição protestante, os argumentos de ambas as partes têm sempre um fundo bíblico.

O encontro termina com orações espontâneas.

Na saída, alguns fazem os seus pedidos: de remédios, de conselhos, um preso que usa uma cadeira de rodas pediu para lha compor-mos. As irmãs ofereceram-na há muito tempo e as rodas precisam de ser revistas.

Os guardas prisionais — mulheres e homens — também nos tratam com simpatia.

«Estive na prisão e e fostes ter comigo». Jesus está em toda a parte.

10 de maio de 2022

MAIO «LOUVADO SEJAS»



A diocese de Hawassa, no sul da Etiópia, celebra em maio o Mês Louvado Sejas para aprofundar a Carta Encíclica Laudato Si’ (Louvado Sejas) que o Papa Francisco escreveu «sobre o cuidado da casa comum» a 24 de Maio de 2015. 

O Mês Louvado Sejas abriu a 3 de maio, com uma eucaristia na catedral. Na celebração, presidida pelo administrador apostólico, o comboniano P. Juan Núnez, participaram quase todos os párocos da diocese e representantes das suas vinte paróquias.

O vicariato tem sensivelmente o tamanho de Portugal.

Os participantes receberam um desdobrável com o sumário da encíclica em que o Papa propõe uma ecologia integral que cuida da criação e cuida dos pobres.

O documento, intitulado Uma jornada com a criação: Mês de Maio Louvado sejas, Comprometidos a cuidar da nossa casa comum, foi preparado pela Comissão do Movimento Laudato Si’ do Vicariato de Hawassa.

No final da eucaristia, cada paróquia recebeu uma pequena árvore para plantar junto à igreja como monumento à encíclica Laudato Si’.

O pé de oliveira brava de Qillenso foi plantado no final da missa dominical de 8 de maio.

Depois da comunhão, o catequista explicou o essencial do Mês Louvado Sejas.

Os católicos são convidados a cuidar dos espaços públicos organizando campanhas de limpeza à volta da igreja, da clínica e da escola; apanhando plásticos, garrafas e outros lixos; plantando árvores de espécies locais — porque os eucaliptos dão dinheiro mas destroem a biodiversidade e os solos — para combater as mudanças climáticas que aqui também se sentem…

As igrejas devem colocar cestos ou caixotes para depositar o lixo.

Os pais, para manterem os pequenos sossegados durante a missa, dão-lhes biscoitos ou bolachas. Os pacotes de plástico acabam no chão das igrejas ou esgalhados pelos espaços envolventes.

Os anciãos da comunidade lideraram a procissão com o broto, que foi plantado depois de ter sido abençoado.

A eucaristia terminou no exterior da igreja junto à oliveirinha Laudato Si’.

A Etiópia tem sido assolada por fomes cíclicas causadas por períodos de secas extremas devido ao fenómeno meteorológico El niño.

Correntemente, cerca de treze milhões de pessoas vivem sob a ameaça da fome na Etiópia, Quénia e Somália depois de três anos de seca, que já matou muito gado.

2 de maio de 2022

FEZ-SE PÁSCOA!


Este ano a Páscoa do Calendário Juliano — em uso pela comunhão ortodoxa e também pelos católicos na Etiópia — foi celebrada uma semana depois da Páscoa segundo o Calendário Gregoriano — seguido pela grande maioria das Igrejas cristãs. 

Uma vez cada oito anos a data coincide nos dois contadores do tempo, mas a diferença a separar as duas páscoas pode chegar às quatro semanas. Não me pergunte porquê, porque não sei.

No programa pastoral para as celebrações pascais coube ao pároco ir para a zona pastoral de Adola. Eu fiquei na sede da missão.

Em Qillenso, a vigília pascal estava marcada para as 19h00, 13h00 segundo a hora local — aqui as zero horas são às seis da manhã.

Uma hora antes começamos os preparativos.

Sob um céu muito carregado, com alguns trovões fortes, apanhamos a lenha para a fogueira pascal, sempre com um olho nas nuvens. Felizmente, foram despejar a carga de água a outro sítio e pudemos iniciar a vigília pascal — a mãe de todas as vigílias — já passava das 19h30, à espera que as pessoas fossem chegando.

Feita a Liturgia da Luz, no campo de futebol da missão, os participantes — guiados pelo Círio Pascal, símbolo do Senhor Ressuscitado — encaminharam-se para a pequena e acolhedora igreja, decorada a preceito.

A ELPA, a elétrica da Etiópia, portou-se bem e tivemos eletricidade durante toda a Liturgia da Palavra. Antes da celebração iniciar, atendi de confissão alguns penitentes à luz de uma vela.

Fizemos as sete leituras das Escrituras Judaicas — é importante fazer memória do imenso amor de Deus pelo seu povo, por cada pessoa, por cada criatura — e relembrar a história desse amor sofrido desde a Criação até à promessa do coração novo que substitui o coração empedernido do amado para ser também amante!

Cada leitura foi intercalada com um cântico acompanhado pelo teclista, que esteve «desempregado» durante o tempo da Quaresma. Nesta estação litúrgica aqui todos os instrumentos musicais são calados!

Foi tão lindo e comovedor poder cantar de novo Glória a Deus e Aleluia ao ritmo cadenciado das palmas e dos gestos depois dos quarenta dias de sobriedade litúrgica.

A luz «apagou-se» durante a homilia e a partir daí a celebração continuou com a igreja bastante bem composta, iluminada pelo Círio Pascal, pelas velas do altar e pela minha pequena lanterna que uma acólita segurava para eu poder ler o missal.

Dez catecúmenos e uma dúzia de bebés foram batizados durante a Liturgia Batismal. Algumas crianças fizeram a Primeira Comunhão na Liturgia Eucarística. A comunidade continua a crescer!

Os catecúmenos e os meninos da primeira comunhão receberam um terço e os bebés uma medalha de Nossa Senhora.

Era cerca das dez da noite quando disse às pessoas: «Ide em paz, aleluia, aleluia!»

A vigília foi uma celebração tranquila, uma experiência do Senhor Ressuscitado entre nós! O ambiente escuro e o bruxulear das velas ajudou ao repouso do espírito.

A noite de Páscoa foi de chuva intensa que se prolongou por parte da manhã.

No Domingo da Ressurreição, algumas pessoas vieram cedo à igreja para a prepararem para a Celebração da Palavra presidida pelo Catequista.

Como de costume, cortaram umas ervas longas e carnudas dos pântanos e espalharam-nas pelo chão. Depois da celebração juntaram-se no salão paroquial para um café celebrativo.

Eu fui celebrar a Missa da Ressurreição à igrejinha de Urdata, a uns seis quilómetros a norte de Qillenso, na periferia da cidade de Me’ee Bokko.

A celebração estava marcada para as 9h30, mas o catequista telefonou-me para não ir antes das 10h30. A chuva — que não queria parar — estava a atrasar os fiéis.

Ao longo da estrada vi muitas pessoas vestidas para ir ver o Senhor nas diversas comunhões presentes na cidade: as mulheres com vestidos e mantilhas onde predominava o branco e os bordados tradicionais ou os mantos longos e vestidos brancos com listas negras, étnicos; os homens com roupas mais sóbrias, embora alguns vestissem fatos brancos decorados com pequenas árvores verdes com troncos pretos — a oda, a árvore sagrada dos oromos, etnia a que os gujis pertencem.

A estrada de acesso à pequena igreja, construída com blocos e coberta de lâminas de zinco, estava muito enlameada e com os saltos do todo-o-terreno receei entornar a água benzida na vigília pascal que levava num balde para os batismos.

As pessoas iam chegando a conta-gotas.

«É por causa da chuva!» — explicava-me um catequista.

No templo luterano vizinho a assembleia cantava com entusiasmo puxada pelo pregar intenso do pastor.

«Huum! Parece que a chuva não cai sobre os protestantes!» — comentei, jocoso!

Entretanto, os jovens do coro vestiram as túnicas roxas com estolas brancas. Mas não entravam no templo!

Alguém decidiu ir alugar um pequeno gerador. A ELPA não retomou o fornecimento da energia e a Missa de Aleluia não podia ser celebrada sem o acompanhamento do teclado!

Era meio-dia quando, finalmente, iniciamos a celebração eucarística. A igrejinha, com o chão adornado de ervas, estava cheia de fiéis em trajes festivos (foto).

O coro cantou e dançou a preceito e a assembleia também!

Na celebração cinco catecúmenos e sete bebés receberam o Batismo e onze crianças fizeram a Primeira Comunhão. E receberam terços e medalhas!

No fim da celebração, a comunidade ofereceu aos dois catequistas um fato de três peças! Uma maneira interessante de marcar a Páscoa de quem os serve.

À vinda para casa estacionei o todo-o-terreno junto à antena de comunicações móveis para falar com os meus pais através de vídeo-chamada. Faz parte da minha rotina dominical desde os tempos em que vivi no Sudão do Sul. A casa onde vivo fica num baixio e o sinal da internet é muito fraco para usar o vídeo.

Assim passei a primeira páscoa de regresso à Etiópia!

18 de abril de 2022

BARSISSA: O PROFESSOR



Hoje quero falar-te de Barsissa, o Professor — como é conhecido o braço-direito dos missionários e das Missionárias da Caridade na zona pastoral de Adola. 

Quando nasceu, há 61 anos, em Hossanna, uma cidade no Sudoeste da Etiópia, os pais puseram-lhe o nome de Sholango.

«Na minha língua natal, o welayitinha, Sholango significa Castanho», explicou-me com um sorriso tranquilo. «Porque eu não era nem negro nem branco».

No baptismo recebeu o nome de Joseph.

Fez a Escola de Formação de Professores em Robe, nas montanhas de Bale, e exerceu os 38 de profissão no distrito de Kibre Menguiste, no sudeste do país.

Casou em Adola, o nome guji para Kibre Menguiste.

É pai de oito filhos. O mais velho ensina na universidade de Harar. O segundo formou-se em informática e trabalha em Hawassa. O terceiro é oficial de saúde e trabalha num hospital.

Sholango foi investindo as poupanças em lotes de terra em Adola e construiu algumas casas que usa para complementar o orçamento familiar e para desenrascar amigos em dificuldade.

Comprou dois tuque-tuque, que fazem parte do serviço de taxis em Adola. Chamam-lhes bajaj — apesar de muitos serem de outros fabricantes. Podem carregar até dez passageiros, uns encima dos outros. Essa fila interminável de «formigas» azuis são um teste à paciência de condutores de veículos de dimensões mais avantajadas em muitas localidades da Etiópia.

Barsissa é um elemento fundamental e carismático na comunidade católica de Adola.

Anima a comunidade da cidade, de que é ancião, e acompanha os missionários nas visitas às suas capelas.

Ajuda nas traduções nos encontros de anciãos e catequistas. 

No fim da eucaristia, costuma motivar os fiéis com um discurso simples e didático sobre a fé e as suas vivências e exigências. 

É um comunicador nato e vivo, e prende a atenção das pessoas com muita facilidade. É Barsissa!

Apesar de ser welayta, domina o guji na perfeição.

Há quem veja com maus olhos a sua notoriedade e proeminência na comunidade de Adola precisamente por não ser guji. Mas a Igreja é católica, aberta a todos, para todos e de todos.

Há outro «senão»: ele trabalha como voluntário. Reformou-se há um ano e tem tempo suficiente para ajudar a comunidade católica a crescer em Adola e nas suas nove capelas.

É bastante crítico dos catequistas e do seu trabalho. Acha que deveriam ser voluntários como ele e não trabalhar por dinheiro.

No último domingo, ao virmos da capela de Ilala, notou com tristeza que o catequista não se empenha nem tem o zelo apostólico que devia para exercer o ministério de animador e líder da sua comunidade. Normalmente vêm à missa uma senhora com o seu bebé, duas jovens, dois jovens e o catequista. A comunidade conta com pelo menos quatro dezenas de batizados registados.

Barsissa está sempre à distância de uma chamada telefónica para dar uma mão. Católico fervoroso, dedicado, missionário.

Um homem de Deus!

7 de abril de 2022

AS TEIAS DA BUROCRACIA


Era uma vez uma carta de condução etíope caducada há dez anos. 

Garantiram-me que era quanto bastava para renovar o documento no meu regresso ao país para uma nova etapa de serviço missionário.

Mas não foi o que as autoridades entenderam.

Quando fomos à Autoridade das Estradas do município de Adis Abeba, explicaram que o título tinha sido passado por troca da carta de condução internacional. Acontece que agora não o documento não é reconhecido pela Etiópia. Que podia conduzir por três meses com a licença portuguesa e começar o processo para obter um novo título de condução etíope.

Estávamos no início de novembro. 

Nessa altura a preocupação maior era conseguir a licença de residência e de trabalho no país como membro de uma organização não governamental — a Igreja Católica. Por causa disso, no fim de novembro, tive de ir a Nairobi, Quénia, pedir um visto ONG e voltar a Adis Abeba duas semanas depois. Em janeiro estava legal!

Nesse mesmo mês, a embaixada portuguesa em Adis Abeba autenticou e traduziu a minha carta de condução. 

Contudo, no Ministério dos Negócios Estrangeiro — por onde o processo de troca passava — revelaram que o trâmite era mais complexo: precisava de receber de Portugal a certificação do título de condução passada pelo IMT e a respetiva tradução autenticadas por um notário e pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros e enviar tudo para a embaixada etíope em Paris para validação.

Entretanto, entre o despacho da carta para Portugal e o recebimento de todo o processo — tudo via correio expresso assegurado — passaram-se três meses. A culpa foi do vírus! A entrevista com o IMT para obter a certificação do original levou quase dois meses a ser agendada. Mas aqui o que mais há é tempo!

Munido do original do documento mais um dúzia de páginas com certificados, traduções e certificações, dirigi-me ao Ministério dos Negócios Estrangeiros para autenticar o processo.

No dia seguinte, voltamos à Autoridade das Estradas da capital. A chefe, uma senhora simpática e elegante, reviu o processo página a página, conferiu os carimbos da embaixada etíope em Paris e do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Mas disse que faltava o OK da Agência Federal da Autenticação e Registo de Documentos mais declaração com a minha residência oficial em Adis Abeba.

Tudo conseguido nessa mesma tarde, deixando o verso do processo no estado em que a foto documenta:  dez carimbos ao todo!

E fez-se o terceiro dia! De manhã voltamos à Autoridade das Estradas com todo o processo carimbado a preceito, fotocópias do passaporte e da carta de condução original e uma fotografia, mais as futuras dos emolumentos pagos no ministério e no registo.

A chefe estava em reunião.

Regressamos mais tarde. A senhora reviu todo o processo e encontrou espaço no verso do documento para visar, carimbar e autorizar a emissão temporária da carta de condução etíope por dois anos!

O processo de emissão foi rápido: passado pouco mais de uma hora tinha o documento viário em mãos!

Os meus colegas deram-me os parabéns! A carta nasceu, perfeitinha, depois de seis meses de gestação!

Assim concluo a ânsia de conduzir com uma fotocópia da carta portuguesa. A missão de Qillenso é extensa e sem carro não se chega a lado nenhum. Ou depois de longas horas a caminhar.

A primeira vez que a polícia de trânsito me parou não levantou objeções à fotocópia. Na segunda, fui multado em 400 birr, pouco mais de sete euros, por não ter o original do título de condução. Parece pouco dinheiro, mas é cerca de uma semana do ordenado da nossa cozinheira.

Agora, por dois anos, ando sossegado porque estou encartado!

Se não conseguisse a carta deste jeito a alternativa era repetir o exame de condução aos 62 anos de idade e com quase 40 de condução! Já tinha procurado de uma escola para fazer a prova teórica em Hawassa, a capital do Sul do país, mas estava difícil encontrar onde fazer o teste em inglês. Todas as escolas que tinha contactado só o faziam em amárico, uma língua que desconheço.

2 de abril de 2022

Gujis (Etiópia): A GRANDE REVOLUÇÃO CULTURAL




O povo Guji — que vive no sudeste da Etiópia e pertence à etnia Oromo — passou por uma revolução cultural muito grande durante as últimas três décadas graças à agricultura.

Os gujis são pastores que têm grande orgulho nas suas vacas, ovelhas, cabras, burros e cavalos. Costumavam desprezar a agricultura como trabalho escravo. Um dia, no início da missão de Haro Wato, estava a cavar um pedaço de terra entre a casa e a estrada para fazer uma pequena horta. Um ancião viu-me, voltou para trás, entrou no recinto, tirou-me a enxada das mãos, atirou-a ao chão e repreendeu-me. Eu estava a estragar o meu bom nome ao cavar a terra.

Hoje, os gujis superaram o preconceito sobre a agricultura e produzem quase tudo: do café ao chat (uma planta estimulante alcalóide que é droga legal), dos cereais às leguminosas e todo o tipo de legumes à custa da floresta. Agora, têm dinheiro, estão melhor alimentados, vestidos e alojados.

Têm acesso à rede móvel de telecomunicações, à electricidade ou energia solar, e muitas casas — maiores e mais confortáveis do que as cabanas tradicionais — têm parabólicas de televisão nos seus telhados de zinco com uma oferta enorme de canais de televangelistas etíopes que rezam, louvam, pregam e pretendem fazer curas em amárico, oromo e outras línguas. É um desafio à experiência de culto das comunidades católicas que já se debatem com questões de organização e culto de inspiração protestante.

Quando eu era director escolar de Haro Wato, a carreira académica de uma menina terminaria muito provavelmente na quarta classe. Era muito difícil convencer os anciãos a deixar as raparigas continuarem com a escolaridade. Em Qillenso, duas décadas mais tarde, as raparigas são tantas como os rapazes da escola da missão que, entretanto, foi promovida da quinta para a oitava classe. Um bom número de moças frequenta a escola secundária em Me'ee Bokko e Adola, algumas frequentam a faculdade ou universidade e as licenciadas estão a exercer as suas profissões em Adola, Neguele, Uraga ou noutro lugar.

O Islão também está a ganhar entre os Guji. No passado, alguns dos meus amigos em Haro Wato considerá-lo-iam com desprezo. Costumavam dizer-me que os pregadores muçulmanos estavam apenas interessados nas suas mulheres e no seu gado. Agora a aldeia tem uma mesquita. Alguns católicos converteram-se ao Islão devido aos comerciantes muçulmanos que controlam o mercado do café e os locais de processamento na região. As mesquitas em Adola estão ocupadas com o ensino utilizando altifalantes. Na cidade, é comum cruzar-se com mulheres que usam um rigoroso código de vestuário islâmico, deixando de fora apenas os bonitos e enormes olhos.

Entretanto, a missão Haro Wato registou um enorme desenvolvimento: passou de 29 comunidades (em 2000) para as actuais 52. A rede de estradas de terra batida favorece as deslocações às comunidades. Qillenso manteve as suas quatro estações mais a paróquia de Gosa.

Ambas as igrejas foram para a cidade: Haro Wato abriu uma capela em Sollamo, a cidadezinha capital do distrito, e as Missionárias Combonianas iniciaram um jardim de infância na mesma área à qual acrescentaram a escola primária que no próximo ano letivo chegará à oitava classe. Qillenso cresceu do sudeste para Adola. Os combonianos construíram uma pequena casa de barro, uma biblioteca pública, uma igreja espaçosa e gerem um albergue com nove rapazes e sete raparigas das zonas rurais que frequentam a escola secundária na cidade sagrada dos gujis.

À volta de Adola há nove comunidades ao longo do rio Awata, em direcção ao rio Ganalle e junto à estrada para Neguele. Infelizmente, os confrontos entre rebeldes e forças de segurança impedem-nos de visitar três comunidades durante os últimos quatro meses. Em Adola, a liturgia foi amarizada pela forma como as mulheres se vestem para ir à igreja e as pessoas rezam e cantam.

A pastoral vocacional é também um novo desenvolvimento com alguns frutos concretos. Já existe um padre guji entre o presbitério do Vicariato de Hawassa. Os Combonianos têm um escolástico e um postulante gujis. Duas raparigas de Qillenso estão no postulantado de uma congregação local e outra internacional. As combonianas seguem quatro candidatas: três de Haro Wato e uma de Qillenso.

À volta de Qillenso, as comunidades cresceram em auto-sustentação através da agricultura e plantação de eucaliptos, ofertórios dominicais e o côngrua anual. Compraram sistemas solares e sonoros e teclados que trouxeram muito ruído às liturgias. Em Adola, estamos a reiniciar a pastoral prisional após uma interrupção de dois anos devido à pandemia do Covid 19.

22 de março de 2022

AS TENTAÇÕES DO MISSIONÁRIO


A liturgia católica propõe-nos, no início da quaresma, a contemplação das tentações de Jesus e das nossas próprias tentações. O evangelista Mateus conta que, depois do Batismo, e antes de começar o seu ministério, Jesus foi levado pelo Espírito para o deserto para ser tentado pelo Diabo (Mateus 4, 1-11). Lucas (4, 1-13) inverte a segunda e terceira tentação. Marcos (1, 12-13) nota simplesmente que o Espírito levou Jesus para o deserto onde durante quarenta dias foi tentado por Satanás entre as feras e os anjos que o serviam.

Transformar pedras em pão. Jesus passou quarenta dias a jejuar e, claro, teve fome. O tentador disse-lhe: «Se Tu és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pão» (versículo 3).

Jesus foi tentado a reverter o poder que o Pai lhe deu para a missão em proveito próprio. Mas respondeu: «Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus» (versículo 4).

Os missionários vivemos em situações periféricas. A doença, a fome, a iliteracia, a miséria, a falta desenvolvimento das pessoas com quem partilhamos a vida e o Evangelho afetam-nos e apertam-nos o coração. Podemos ser tentados a reduzir o serviço missionário a uma resposta humanitária a estas emergências, mas a proclamação da Palavra é a razão da nossa presença. Aliás, a Palavra é também parte da solução para ultrapassar as desigualdades e os problemas com que as pessoas se debatem porque nos abrem à partilha e ao cuidado mútuo.

Lança-te! Na segunda tentação, o Diabo pôs Jesus sobre o Pináculo do Templo de Jerusalém e disse: «Se Tu és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo, pois está escrito: Dará a teu respeito ordens aos seus anjos; eles sustentar-te-ão nas suas mãos para que os teus pés não se firam nalguma pedra» (versículo 6). O Tentador conhece a Bíblia e citou o Salmo 91! Jesus replicou: «Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus» (versículo 7).

Confrontado pela realidade humana, social, cultural e religiosa — e motivado pelo zelo apostólico de querer a todos salvar, o missionário pode ser tentado a lançar-se ao trabalho sem horários nem descanso e depois querer que Deus faça milagres quando a saúde física, espiritual e mental falham. Gastar-se completamente e esperar que Deus tome conta do prejuízo. Não tentar o Senhor Deus é cuidar do corpo, do espírito e da alma. Os anjos ajudam, mas não são responsáveis pelas minhas escolhas.

Poder e glória. Finalmente, Mateus conta o Diabo levou Jesus para o alto de um monte e mostrando-lhe todos os reinos do mundo com a sua glória — a que Lucas ajunta «com o seu poderio» — disse-lhe: «Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares» (versículo 9). A resposta de Jesus foi seca: «Vai-te, Satanás, pois está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto» (versículo 10).

A tentação do poder é a tentação maior! Poder a controlar a consciência, a vida e as escolhas das pessoas, o protagonismo da juventude; poder que pode ser de confrontação com as autoridades locais ou de alianças de interesses não confessados; poder na confrontação inter-religiosa em vez da via do diálogo. Poder na ajuda paternalista que cria dependência.

A tentação do poder e glória também pode ser manifesta na ânsia de protagonismo, de ocupar o centro do palco da evangelização de que o Espírito Santo é o ator principal. Ou de deixar obra feita, uma espécie de monumento ao eu!

Daniel Comboni deixou um remédio simples. No capítulo décimo das Regras do Instituto das Missões para a Nigrícia — a África — escreveu: «o missionário da Nigrícia deve com frequência reflectir e meditar que ele trabalha numa obra de altíssimo mérito, sim, mas muito árdua e laboriosa, para ser uma pedra escondida debaixo da terra que talvez nunca apareça à luz e que entra a fazer parte do alicerce dum novo e colossal edifício, que só os vindoiros verão despontar».