11 de fevereiro de 2026

MISSÃO É DIÁLOGO


Defino-me como missionário por vocação, padre por ordenação e jornalista por profissão. Servi como missionário 20 anos em Portugal, uma dúzia na Etiópia, sete no Sudão do Sul, quatro na Grã-Bretanha e nove meses no México. É através desta espessura de vida que partilho algumas reflexões sobre a missão à luz da Gaudium et spes, a constituição pastoral do Concílio Vaticano II sobre a Igreja no mundo atual, que faz sessenta anos. 

Esquema 13 teve um parto difícil, mas devolveu a Igreja ao mundo de que é parte e parceira. É no mundo, é em diálogo com o mundo que a Igreja realiza a sua missão «de manifestar o mistério de Deus» (GS 41). Num mundo em transformação, a Igreja pretende ser também agente transformador. Sal, fermento e luz no dizer de Jesus. Por isso, a Igreja «prega a todos os homens o Evangelho e lhes dispensa os tesouros da graça, contribui para a consolidação da paz em todo o mundo e para estabelecer um sólido fundamento para a fraterna comunidade dos homens e dos povos» (GS 89).

Lemos na introdução: «o Concílio, testemunhando e expondo a fé do Povo de Deus por Cristo congregado, não pode manifestar mais eloquentemente a sua solidariedade, respeito e amor para com a inteira família humana, na qual está inserido, do que estabelecendo com ela diálogo sobre esses vários problemas, aportando a luz do Evangelho e pondo à disposição do género humano as energias salvadoras que a Igreja, conduzida pelo Espírito Santo, recebe do seu Fundador» (GS 3).

Dei a esta partilha o título de Missão é diálogo e gostaria de o dividir nos seguintes segmentos: Diálogo de vida; Diálogo intercultural; Diálogo com as questões de Justiça, Paz e Integridade da Criação; Diálogo com o Espírito Santo e Diálogo inter-religioso.

 

Diálogo de vida

A constituição pastoral A Igreja no mundo atual abre com estas palavras que impressionam pela sua amplitude: «As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração» (GS 1).

Estas 53 palavras estão prenhes com a força da missão da Igreja no mundo, uma missão que é cordial e exige empatia, proximidade e solidariedade e que tira a Igreja do templo e a envia às fronteiras da vida e da história.

A missão é maximamente uma questão de amor (GS 24. 28), um gesto cordial de irmão para irmão. São João Paulo II escreveu na Christifideles Laici, a exortação apostólica sobre vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo, que «o homem é amado por Deus! Este é o mais simples e o mais comovente anúncio de que a Igreja é devedora ao homem» (nº 34). 

O Papa Francisco de boa memória aprofundou esta intuição na Mensagem para o Dia Mundial das Missões de 2025. «No coração humano e divino de Jesus, Deus quer falar ao coração de cada pessoa, atraindo todos ao seu amor. Fomos enviados para continuar esta missão: ser sinal do Coração de Cristo e do amor do Pai, abraçando o mundo inteiro», escreveu. Os missionários somos epifania do amor de Deus pelo povo que servimos através do nosso amar, construtores da fraternidade universal iniciada por Jesus (GS 32).

O diálogo de vida faz-se a partir da humanidade partilhada, o chão sagrado e comum da nossa vida que assume aspetos diferentes – mas legítimos – em diferentes culturas. 

Este diálogo pede empatia. As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias são realidades concretas que afetam a vida de pessoas concretas. Jesus caminhava ao encontro dos que dele precisavam, não tinha medo de tocar as suas moléstias e nas suas feridas fomos curados (1 Pedro 2, 24). Por isso é que o saudoso Papa Francisco falava da Igreja-hospital de campanha que não tem medo de se sujar com as imundícies do mundo. Uma Igreja samaritana que se debruça sobre os sofredores – uma posição de grande vulnerabilidade, que atende as suas dores e feridas, as suas alegrias e sonhos. Uma Igreja ferida que também é curadora ao jeito de Jesus. As nossas feridas, os nossos pecados podem e devem ser curativos.

O Papa Francisco recuperou a sinodalidade que define a Igreja desde o princípio. Os cristãos eram os que seguiam o Caminho – repete o livro dos Atos dos Apóstolos. Jesus apresenta-se como «o caminho, a verdade e a vida» (João 14, 6). Este fazer juntos o caminho da vida, não é só no interior da Igreja, mas com todos os viventes. Somos todos peregrinos, fazemos parte de uma humanidade que caminha para a sua parusia – a GS fala da unidade universal, a transformação, os novos céus e a nova terra que são o reinado de Deus. Ou, como o papa argentino rezou naquela celebração memorável, na praça vazia do Vaticano, durante a crise do Covid 19: «estamos todos no mesmo barco. É o tempo de reajustar a vida. Só o conseguiremos juntos». A Gaudium et spes diz que participamos todos da mesma sorte (GS 40). Ou, como os moçambicanos costumam dizer: «Estamos juntos!». 

No diálogo de vida, os pobres e os sofredores são os parceiros privilegiados da Igreja. É o próprio Jesus que o afirma: «Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus» (Mateus 5, 3). A Dilexi te, a exortação apostólica sobre o amor para com os pobres, escrita a quatro mãos pelos papas Francisco e Leão XIV, é um excelente GPS nesta jornada privilegiada com os pobres e sofredores. 

«O cuidado com os pobres faz parte da grande Tradição da Igreja, como um farol de luz que, a partir do Evangelho, iluminou os corações e os passos dos cristãos de todos os tempos. Portanto, devemos sentir a urgência de convidar todos a entrar neste rio de luz e vida que provém do reconhecimento de Cristo no rosto dos necessitados e dos sofredores. O amor pelos pobres é um elemento essencial da história de Deus connosco e irrompe do próprio coração da Igreja como um apelo contínuo ao coração dos cristãos, tanto das suas comunidades, como de cada um individualmente», lemos no nº 103.

O serviço aos pobres e a sua promoção faz parte do serviço missionário da Igreja. Um serviço que exige cuidado e respeito para evitar qualquer forma de paternalismo ou dependência. Na missão da Etiópia este serviço aos pobres passa pela educação (primária, secundária e terciária), pela saúde (preventiva e curativa) e pela promoção da mulher. Nas emergências assistimos com comida, medicamentos e roupa; nos tempos normais preferimos ensinar a pescar.

 

Diálogo intercultural

Gaudium et spes faz uma reflexão interessante sobre a cultura na sua segunda parte que aborda alguns problemas mais urgentes a tratar. Entre eles está a conveniente promoção do progresso cultural – como escreve no título do capítulo II. O capítulo está dividido em três secções: (1) Condições da cultura no mundo atual; (2) Alguns princípios para a conveniente promoção da cultura; e (3) Alguns deveres mais urgentes dos cristãos em relação à cultura.

A missão é também diálogo intercultural: do Evangelho com a cultura hospedeira e vice-versa através da cultura do missionário. O Concílio Vaticano II fala das sementes do Verbo já presentes nas culturas, sementes essas que servem para introduzir o Evangelho nas culturas e as culturas no Evangelho.

Pessoalmente, prefiro a imagem dos falares de Deus tirada dos dois versículos de abertura da Carta aos Hebreus. «Muitas vezes e de modos diversos falou Deus, outrora, aos Pais dos profetas; agora nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e pelo qual fez os séculos», lemos. As falas de Deus passam através dos provérbios, das estórias e dos mitos dos povos.

O sentido de Deus dos povos ajuda a aprofundar o mistério de Deus e a dizê-lo de maneiras novas. Esta é também a minha experiência: evangelizo e sou evangelizado.

Para descobrir os falares de Deus na cultura hospedeira é preciso

1.     Descalçar as sandálias do etnocentrismo e do complexo de superioridade com humildade, porque a cultura hospedeira do Evangelho é chão sagrado; é uma exigência de respeito pela dignidade de cada pessoa (GS 23).

2.     Aprender a língua, a cultura, as tradições, a teologia presente nos provérbios e nas estórias, a própria comida, etc., para contextualizar o Evangelho e para que a sua luz transforme as sombras da própria cultura. Por isso, o primeiro serviço missionário é a aprendizagem da língua. 

Só depois é que podemos começar a explorar os falares de Deus na cultura que acolhe o Evangelho para que este não tome a forma de estrangeiro, que vem de fora, mas que está já presente na cultura.

No diálogo com a cultura, as traduções dos textos litúrgicos assumem um papel relevante. Quando cheguei à Etiópia, estava-se a passar do alfabeto amárico para o latino na transcrição das línguas do Sul. Parte do meu trabalho foi preparar os diversos livros (lecionários, ritual da missa, livro dos catequistas, etc.) no novo abecedário guiado por um missionário espanhol que conhece muito bem a língua guji. O trabalho mais interessante que fizemos nessa altura foi a tradução e impressão dos quatro evangelhos na língua local. As pessoas diziam: «Jesus fala a nossa língua». Mais tarde, uma comissão ecuménica, de que um tradutor leigo católico fazia parte, verteu a Bíblia para o guji.

No diálogo intercultural há muitos tópicos que necessitam de reflexão: a promoção da mulher através da educação (para vencer o machismo patriarcal que relega a mulher para segundo plano como mãe e cuidadora), a questão da poligamia (que o próprio sínodo sobre a sinodalidade pediu aos teólogos africanos), o uso de elementos culturais na liturgia (símbolos, música, linguagem), etc.

«A Igreja deve também reconhecer as novas formas artísticas, que segundo o génio próprio das várias nações e regiões se adaptam às exigências dos nossos contemporâneos. Sejam admitidas nos templos quando, com linguagem conveniente e conforme às exigências litúrgicas, levantam o espírito a Deus. Deste modo, o conhecimento de Deus é mais perfeitamente manifestado; a pregação evangélica torna-se mais compreensível ao espírito dos homens e aparece como integrada nas suas condições normais de vida», lê-se no nº 62 da Gaudium et spes.

Dou um exemplo deste diálogo entre cultura e liturgia: os gujis usam as cinzas como veículo de maldição. Quando pela primeira vez preparamos a liturgia do início da quaresma com os catequistas de Haro Wato, pediram que lhes mostrássemos onde a Bíblia falava das cinzas. Depois da reflexão decidimos usar água para significar o apelo à conversão, um gesto tirado pela cultura guji. Três décadas depois, os gujis já não têm medo das cinzas e são usadas na liturgia – como comentou o pároco.

O documento reconhece que o mundo precisa de sabedoria para se humanizar e, para isso, deve valorizar a sabedoria dos povos e sobretudo dos mais pobres. «Mais do que os séculos passados, o nosso tempo precisa de uma tal sabedoria, para que se humanizem as novas descobertas dos homens. Está ameaçado, com efeito, o destino do mundo, se não surgirem homens cheios de sabedoria. E é de notar que muitas nações, pobres em bens económicos, mas ricas em sabedoria, podem trazer às outras inapreciável contribuição» (GS 15), afirma, perentório. 

Finalmente, no âmbito do diálogo intercultural, a Igreja tem de aprofundar a sua relação com os nativos do digital. São gente que vive ligada nas redes sociais e deve experimentar a liturgia, comunhão, diaconia e missão nesse espaço. Daí ser urgente estabelecer uma Igreja 3.0 para o cuidado pastoral no digital. Não chega fazer postagens com frases bíblicas ou pensamentos religiosos ou aumentar o número de influenciadores católicos. Urge criar novas formas der ser Igreja no digital para responder à mudança de época.

 

Diálogo com as questões de Justiça, Paz e Integridade da Criação

O tema da promoção da paz e a comunidade internacional, é tratado no quinto capítulo dos problemas mais urgentes em duas secções: (1) Evitar a guerra e (2) Construção da comunidade internacional. 

O tema da paz sofreu um grande progresso no pensamento católico e transformou-se num espaço mais abrangente das matérias de Justiça, Paz e Integridade da Criação (JPIC). A Gaudium et spes já reconhece esta ligação quando afirma que a paz é «obra da justiça» (nº 78, citando Isaías 32, 7) através de um processo de processos. O documento sublinha dois aspetos importantes: a família humana caminha para a unidade e para a maturidade (GS 77).

A ligação indissolúvel entre a paz e a missão vem do próprio Jesus que envia os 72, dois a dois, como irenóforos, portadores de paz: «Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: “Paz a esta casa”. E se lá houver um filho de paz, a vossa paz irá repousar sobre ele; senão, voltará para vós» (Lucas 10, 5-6). 

Na mesma linha, São Daniel Comboni, um dos grandes missionários da África Central no século XIX, escreve: «Nós viemos aqui com o ósculo da paz, a fim de lhes trazer o maior bem que existe: a religião» (Escritos 297). No seu Plano para a Regeneração da África de 1871 repete: «o católico [...] sentiu que o seu coração palpitava mais fortemente; e uma força divina pareceu empurrá-lo para aquelas bárbaras terras, para apertar entre os seus braços e dar um ósculo de paz e de amor àqueles infelizes irmãos seus» (Escritos 2742).

Tenho vivido a dimensão missionária da JPIC em quatro áreas concretas:

1.     Informação;

2.     Educação das meninas;

3.     Reflorestação;

4.     Pena de morte.

1. Desde o princípio do meu trabalho profissional que uso o jornalismo como meio para tratar as muitas questões de JPIC. Aliás, tenho para mim que a função da imprensa missionária é precisamente dar voz e vez aos povos e aos temas que normalmente não têm eco na grande comunicação. Fi-lo de uma forma mais sistemática no Sudão do Sul através da Rádio Bakhita e da redação da Rede de Rádios Católica, onde trabalhei de 2006 a 2013. De manhã reuniamo-nos com os colaboradores da rádio católica de Juba para avalizar do que se falava na cidade e escolher o tópico mais quente para a discussão dos ouvintes no fórum matutino. Os políticos detestavam que abríssemos o microfone à opinião pública. O Ministro do Interior chamou a comboniana que dirigia a estação e a mim que era encarregado da informação para nos acusar de, apesar de sermos uma rádio católica, estarmos fortemente envolvidos na política. Eu expliquei-lhe que tudo é política. Até a camisa que vesti para o encontrar. Normalmente usava camisetes mais adequadas ao calor húmido de Juba, mas em sinal de respeito, nesse dia pus uma camisa – um ato político!

2. Na Etiópia, na nova missão de Haro Wato, fui diretor da escola da missão – que era do quinto ao oitavo ano. Na escola primária, as meninas eram metade das turmas. Na escola média passavam para dez por cento. Todos os anos, por altura das matrículas, encorajava os pais a enviarem as raparigas para a escola, porque tinham as mesmas capacidades e direitos dos rapazes. Um dia um ancião, agastado com a minha insistência, afirmou que a escola era uma casa de prostitutas. Pedi ao diretor escolar do distrito, um muçulmano meu amigo, que enviasse professoras – casadas ou solteiras – para as escolas da zona para que vissem que a escolaridade não formava meninas desobedientes à tradição. Cinco anos mais tarde, de visita a Haro Wato, fiquei muito feliz por ver que metade eram alunas. Hoje temos mulheres gujis com formação universitária e bons empregos. Diz-se que quando se educa uma mulher educa-se uma comunidade inteira.

3. Os gujis viviam sobretudo da pastorícia. Contudo, ao reparar na vida dos guedeos que eram agricultores – trabalho que desprezavam – foram a pouco e pouco trocando o gado pelo cultivo dos campos à custa da floresta que todos os anos levava grandes rombos para novos plantios. Eu falava muito nas homilias sobre a necessidade de reflorestar as partes que não eram usadas na agricultura para evitar a desertificação como aconteceu noutras partes da Etiópia. Um dia, um velhote, apontou para a grande floresta em frente da capela e perguntou-me, chateado: «Quem plantou tudo isto?» Agora o Governo tem mão pesada para quem continue o desmatamento para fazer novos campos.

4. O Papa Bento XVI exortou a Igreja Católica na África a comprometer-se com a abolição da pena de morte no documento que escreveu depois do segundo sínodo que foi dedicado ao continente. À boleia desse desafio e motivado pela história que um missionário me contou – fez o funeral de um homem que tinha sido executado e que pediu como última vontade ter funeral católico apesar de não pertencer à nossa Igreja – e tirando partido do púlpito que era a rádio iniciei com algumas ONGs uma reflexão sobre a pena de morte. O presidente da república veio a público esclarecer que respeitaria a vontade dos familiares de alguém que foi morto: podiam escolher entre a pena de morte para o homicida, a sua prisão perpétua, o pagamento de uma compensação ou o perdão.

Estes quatro exemplos têm um elemento em comum: as reações adversas às iniciativas. Ser voz dos que não têm voz e promotor da JPIC tem custos – e riscos – pessoais. Porém, a Constituição Pastoral advoga o diálogo com a comunidade política para salvaguardar os direitos da pessoa e das minorias (GS 73). A Igreja tem um grande número de mártires que se comprometeram com as questões de JPIC. Uma tradição que vem do movimento profético bíblico

 

Diálogo com o Espírito Santo

O mistério pascal de Jesus marca o início do tempo do Espírito Santo. Nos Atos dos Apóstolos contemplamos o Espírito Santo no comando da Igreja, guiando os discípulos pelos novos caminhos da missão. A título de exemplo, lemos na carta apostólica do Concílio de Jerusalém: «Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor nenhum outro peso além destas coisas necessárias» (Atos dos Apóstolos 15, 28).

Gaudium et spes proclama no parágrafo de abertura que a Igreja «é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos» (GS 1). Por isso, a seu objetivo é «continuar, sob a direção do Espírito Consolador, a obra de Cristo que veio ao mundo para dar testemunho da verdade, para salvar e não para julgar, para servir e não para ser servido» (GS 3).

São Paulo VI escreveu que «evangelizar é, em primeiro lugar, dar testemunho, de maneira simples e direta, de Deus revelado por Jesus Cristo, no Espírito Santo» (Evangelii nuntiandi 26). No nº 75 afirma: «Nunca será possível haver evangelização sem a ação do Espírito Santo».

O Espírito Santo conduz a Igreja, mas a sua ação é também extra-eclesial: «o homem, solicitado pelo Espírito de Deus, nunca será totalmente indiferente ao problema religioso» (GS 41).

Daí ser fundamental o diálogo com o Espírito Santo no serviço missionário que a Igreja presta à humanidade e à criação inteira. Neste tempo de mudança de época, é urgente ouvir o que o Espírito diz às igrejas tomando como inspiração e ponto de partida o Apocalipse de São João. Daí a necessidade de um discernimento constante para tomar consciência daquilo que o Espírito da Missão pede à Igreja, hoje. 

A própria Constituição fornece os parâmetros desse discernimento missionário: «é dever de todo o Povo de Deus e sobretudo dos pastores e teólogos, com a ajuda do Espírito Santo, saber ouvir, discernir e interpretar as várias linguagens do nosso tempo, e julgá-las à luz da palavra de Deus» (GS 44).

Paulo explica à comunidade de Corinto: «A minha palavra e a minha pregação [...] eram uma demonstração do poder do Espírito, para que a vossa fé não se baseasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus» (1Coríntios 2, 3-5). O Espírito Santo é «o agente principal da evangelização» (Evangelii nuntiandi 75) e o motor da missão que se faz também através da oração. Uma das grandes novidades de Jesus foi a sua forma de rezar, de chamar de Abba ao Pai. É parte do serviço missionário introduzir as pessoas à oração com a ajuda do Espírito Santo.

 

Diálogo inter-religioso

Gostaria de concluir esta reflexão abordando os desafios que o diálogo ecuménico – com outros cristãos – e inter-religioso – com outros interlocutores – põe à missão hoje. 

Jesus, na sua oração sacerdotal, pede ao Pai o dom da unidade dos futuros seguidores para dar credibilidade ao anúncio: «Não rogo somente por eles, mas pelos que, por meio da sua palavra, crerão em mim: a fim de que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste» (João 17, 20-21). 

Esta é a oração de Jesus por cada batizado de hoje. Só a unidade na diversidade pode alavancar o impulso evangelizador das Igrejas.

A Etiópia é um país cristão desde o século IV e maioritariamente ortodoxo. Separou-se na comunhão de Roma com Alexandria, a sua Igreja-mãe, no século V na sequência do Concílio de Calcedónia em 451 que definiu as naturezas de Cristo: verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Igrejas do Egito, da Arménia, da Síria e da Índia não concordaram com a definição teológica e separaram-se.

A presença portuguesa na Abissínia nos séculos XVI e XVII na luta contra a jihad do senhor de Adal (1541-1543), ainda alimenta uma grande animosidade dos ortodoxos etíopes em relação aos católicos. A razão? Os missionários ibéricos conseguiram que o rei Sisínio voltasse à comunhão com Roma e ordenasse o rebatismo, recasamento e reordenação dos fiéis. Criou-se uma grande revolta e o rei resignou em favor do filho Facílidas que reestabeleceu a ortodoxia e expulsou os jesuítas.

No final dos anos noventa do século passado, o Patriarca Ortodoxo Paulos disse em entrevista que os missionários católicos podiam deixar o seu dinheiro e voltar aos países de origem, porque a Etiópia não precisa deles.

Estes desafios podem ser ultrapassados sobretudo através das relações pessoais como experimentei com o pároco ortodoxo de Sollamo. Ficamos amigos através da cozinheira da missão que era ortodoxa. O conflito no estado regional amara está a aproximar as lideranças católica e ortodoxa como testemunhou o eparca local.

A Igreja Católica num gesto de comunhão e inculturação celebra as solenidades mais importantes segundo o calendário ortodoxo: a Páscoa (este ano é a 12 de abril), o Natal (7 de janeiro), o Batismo do Senhor (19 de janeiro), a Assunção (22 de agosto) e a Exaltação da Santa Cruz (27 de setembro).

O modo de organização dos protestantes que valorizam mais os anciãos da comunidade e menos os pastores é outro desafio. Os anciãos e catequistas católicos querem imitá-los tentando passar por cima da autoridade do pároco no controlo da vida das capelas.

As disputas constantes entre os membros das muitas igrejas e comunhões cristãs – por causa da Bíblia, do seu conhecimento e interpretação, e das suas práticas (sobretudo os pentecostais), também são um testemunho negativo de divisão. 

Porém, também há abertas no diálogo inter-religioso. Todas as terças-feiras os missionários de Qillenso vamos rezar o Evangelho do domingo anterior na capela que construímos na prisão de Adola. Há ainda duas capelas protestantes e uma ortodoxa mais uma mesquita. A grande maioria dos reclusos que rezam connosco não é católica. Mas o Evangelho de Jesus une-nos em oração e na fraternidade.

A experiência que fiz no Sudão do Sul foi muito diferente. Aí o espírito de comunhão entre cristãos e com os muçulmanos é muito forte, consequência da guerra civil contra os arabizadores do Norte, a ponto de os arcebispos católico e anglicano de Juba combinarem as saídas do país porque a cidade não podia ficar sem o seu arcebispo (católico ou anglicano não importava). As orações ecuménicas pela paz eram frequentes e atendidas por muçulmanos. A situação começou a mudar com a chegada das Igrejas pentecostais e independentes do Quénia.

O diálogo ecuménico transforma-se em diálogo inter-religioso quando agrega os muçulmanos e os praticantes das religiões tradicionais africanas. Com as religiões tradicionais o diálogo é também importante para inculturar o modo de dizer Deus, pesquisando as Sementes do Verbo presentes no crer tradicional ou – como eu gosto – os falares de Deus nos antepassados, encrustados na cultura.

Para facilitar o serviço da evangelização dos povos é necessário aprofundar o diálogo ecuménico através de um exercício de humildade e reconciliação de parte a parte para conciliar as diferenças teológicas e superar as desavenças históricas. 

Recordo que li com alguma dificuldade o documento Dominus Iesus sobre a unicidade e a universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja assinado pelo Cardeal José Ratzinger em 2000. Impactou-me a linguagem de superioridade que o documento debita em relação às outras Igrejas de Cristo. Pensei que se quem o escreveu vivesse em Haro Wato – ou viesse lá fazer uma curta experiência missionária – usaria uma linguagem mais humilde e conciliatória.

Transcrevo o que o Papa Leão XIV disse numa homilia dominical no fim de Outubro: «A regra suprema da Igreja é o amor: ninguém é chamado a comandar, todos são chamados a servir; ninguém deve impor as próprias ideias, todos devemos ouvir-nos reciprocamente; ninguém é excluído, todos somos chamados a participar; ninguém possui a verdade, todos devemos procurá-la juntos e humildemente». Temos aqui o mapa para um diálogo inter-religioso profícuo e respeitoso que deve começar pela oração com o Evangelho, o património cristão comum e presença do Senhor ressuscitado entre o seu povo.

 

Conclusão

O diálogo da missão tem de ser enquadrado num diálogo mais amplo com toda a humanidade. É o que a Gaudium et spes indica na sua conclusão ao incluir o subtítulo «Diálogo entre todos os homens».

O documento traduz como esse diálogo se atua: «Por nossa parte, o desejo de um tal diálogo, guiado apenas pelo amor pela verdade e com a necessária prudência, não exclui ninguém; nem aqueles que cultivam os altos valores do espírito humano, sem ainda conhecerem o seu autor; nem aqueles que se opõem à Igreja, e de várias maneiras a perseguem. Como Deus Pai é o princípio e o fim de todos eles, todos somos chamados a ser irmãos. Por isso, chamados pela mesma vocação humana e divina, podemos e devemos cooperar pacificamente, sem violência nem engano, na edificação do mundo na verdadeira paz» (GS 92).

Diálogo amorável, prudente, inclusivo, fraterno, humano, pacífico, paciente. Este é também o diálogo como missão!

VN Famalicão, 10 de fevereiro de 2026

P. José Vieira, MCCJ


2 de fevereiro de 2026

ESCONJURAR O MEDO


Os bispos etíopes reuniram-se em assembleia plenária a meados de Dezembro. No final da reunião de três dias, enviaram uma «mensagem de sinodalidade» aos católicos, ao Povo de Deus na Etiópia e a todas as pessoas de boa vontade. O documento de cinco páginas, em amárico e inglês, tem por título Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo, citação tirada do evangelho de Lucas.

O primeiro facto que ressalta da leitura do texto é a insistência no «não temais» que aparece no título, três vezes em negrito nos três primeiros parágrafos da mensagem e umas quinze vezes na conclusão. É um dado novo. A Igreja Católica na Etiópia não chega a um por cento da população e, como Igreja marginal, costumava remeter-se para um silêncio prudente e medroso. Desta feita, os bispos encorajam os católicos a esconjurar o medo, pedindo que a mensagem fosse lida nas missas dominicais.

A mensagem começa por listar as dificuldades que os etíopes encaram: custo de vida esmagador, flagelo das mudanças climáticas, confusão cultural e desintegração, conflito interminável, e a barreira da comunicação. De facto, a desvalorização do birr, a moeda local, fez disparar os preços e o poder de compra foi enormemente afetado. Por outro lado, a insegurança continua. O conflito que opôs os tigrinos ao governo central ainda não foi completamente sanado e nos Estados regionais amara e oromo os combates entre rebeldes e tropas continuam, com detenções, feridos, mortos e destruição.

Contudo, os prelados têm também palavras de apreço: «A produtividade agrícola e a diversificação das exportações, a transformação digital aliada ao crescimento de plataformas de tecnologia financeira (fintech) locais, o reengajamento diplomático e os movimentos de paz, o envolvimento vibrante do sector privado, as iniciativas de legado verde aliadas à autossuficiência económica, as soluções locais e o dividendo demográfico são alguns dos principais aspetos positivos que atuam como uma filosofia governamental que dá esperança para a transformação do nosso país.»

Os bispos propõem alguns marcos no caminho sinodal como resposta ao tempo do medo: construção da comunhão e escuta, proclamação da verdade, liturgia, corresponsabilidade na missão, diálogo na Igreja e na sociedade, ecumenismo, reavaliação da autoridade e participação, discernimento e decisão e, finalmente, formação na sinodalidade. A mensagem de sinodalidade é um marco importante no caminho da Igreja etíope, que assume com coragem a vocação profética de ser voz de esperança em tempos de medo.

O bispo de Hawassa (na foto), o vicariato que mais católicos tem na Etiópia, afirma que o documento é realista. «A mensagem reflete a realidade no terreno, sem culpar ninguém especificamente. Esperamos e rezamos para que seja recebida de forma positiva, pois foi escrita como reflexão honesta. É a nossa situação que precisa ser abordada em conjunto como cidadãos e não acho que seja demasiado crítica em relação ao Governo», disse-me D. Merhakristos Gobezayehu.

7 de janeiro de 2026

NIGÉRIA SOB ESCRUTÍNIO

No início de Novembro, o presidente norte-americano ameaçou cortar ajudas e enviar tropas para a Nigéria caso o Governo não detenha a violência contra os cristãos. «Se o Governo nigeriano continuar a permitir o assassínio de cristãos, os EUA suspenderão imediatamente toda a ajuda e assistência à Nigéria e poderão muito bem entrar nesse país agora desonrado, “com armas em punho”, para exterminar completamente os terroristas islâmicos que estão a cometer essas atrocidades horríveis», postou Donald Trump na sua rede social, instruindo o Departamento da Guerra a iniciar os preparativos necessários.

Uma semana antes, o cardeal Pietro Parolin, número dois do Vaticano, classificou de social a violência no país da África Ocidental. «Não [é] um conflito religioso, mas sim social, por exemplo, disputas entre pastores e agricultores. Devemos também reconhecer que muitos muçulmanos na Nigéria são eles próprios vítimas dessa mesma intolerância», disse, à margem da apresentação do Relatório sobre a Liberdade Religiosa para 2025.

As duas posições ilustram a complexidade da situação no país mais populoso da África (com cerca de 245 milhões de habitantes) e o maior produtor de petróleo do continente. Porém, não há evidência de um genocídio organizado visando os cristãos na Nigéria como a extrema-direita americana (e portuguesa) diz. Há sim, um grave problema de insegurança desde 2009, envolvendo atores diferentes: jiadistas, bandidos e grupos armados. Todavia, notícias de ataques a igrejas e escolas, sequestros e assassínios de pastores, padres, seminaristas, estudantes e cristãos de diversas denominações no Norte e no Centro do país são o pão nosso de cada dia.

As autoridades reconhecem a incapacidade de pôr termo a este estado de insegurança, mas negam a existência de um genocídio contra os cristãos. Os jiadistas (como o Boko Haram) atuam sobretudo no Norte e, nos ataques, não discriminam entre muçulmanos e cristãos. Nos últimos três anos, cerca de dez mil pessoas foram mortas nos Estados do Norte e mais de três milhões fugiram de casa. No Centro, grupos armados lutam pela posse da terra e da água numa área muito afetada pelas mudanças climáticas. É um conflito entre pastores (que são maioritariamente muçulmanos fulanis) e agricultores (cristãos na maioria). O banditismo armado também está a crescer. No Sul, cristão, a situação afigura-se mais tranquila, apesar de alguns confrontos mortais esporádicos.

A Conferência Episcopal nigeriana denunciou recentemente a insegurança e apontou o dedo ao Estado. «O Governo tem tanto a responsabilidade como os meios para pôr fim a esta violência e não pode continuar a permitir que a impunidade prevaleça. Os responsáveis por estes crimes hediondos devem ser identificados e levados à justiça, pois sem responsabilização não pode haver paz duradoura», escreveram os bispos católicos.

O presidente Bola Ahmed Tinubu, por seu turno, declarou o estado de emergência e ordenou o recrutamento adicional de 50 mil polícias e soldados, pedindo mais vigilância para internatos escolares e locais de culto, sobretudo em áreas remotas.

12 de dezembro de 2025

#TheScarfProject

Tenho usado um véu ou um lenço na cabeça durante grande parte da minha vida. Na minha congregação, as Missionárias Combonianas, não é obrigatório, mas eu escolhi usá-lo livremente. Na Itália, terra de muitas das nossas irmãs mais velhas, o véu adquiriu para mim um significado profundo: um sinal de continuidade, respeito e pertença.

Nos Estados Unidos — enquanto estudava, vivia no campus, servia as comunidades migrantes na fronteira, trabalhava na pastoral paroquial, fazia animação missionária e coordenava a Associação de Irmãs Latinas — eu usava-o com intenção, consciente do que ele revelava sobre a minha identidade e a minha missão.

Fiz os meus votos perpétuos no Egito, um país de maioria muçulmana, onde o véu se tornou quase parte de mim. Às vezes, trocava-o por um simples lenço para me mover discretamente pelas ruas, mesquitas e mercados. No entanto, cada vez que o voltava a colocar, reencontrava-me: uma serena certeza de lar, proteção e sentido.

No Sudão, ainda jovem e à frente do gabinete de comunicação da Arquidiocese, o véu dava-me identidade e autoridade. Abria portas e gerava respeito em contextos onde uma jovem sem véu não seria levada a sério.

No Sudão do Sul, tornou-se mesmo um escudo. Nos anos turbulentos após o Acordo Global de Paz, com soldados e milícias por toda parte, o véu literalmente salvou a minha vida. Uma tarde, eu conduzia sob um sol escaldante e, para aliviar o calor, tirei-o; um soldado, furioso, parou-me em atitude ameaçadora. Só quando cobri a cabeça é que a sua postura mudou. «Desculpe, irmã!», disse ele enquanto me devolvia os documentos.

Na Guatemala, a experiência foi diferente. Lá, o véu evocava um estatuto e um prestígio que eu não desejava assumir. Optei então por me vestir como as mulheres locais — calças e blusas bordadas com flores e cores vivas — para caminhar ao lado delas como uma mais.

Na Palestina, trabalhando com mulheres beduínas da Cisjordânia, o véu voltou a parecer natural. A graça e a dignidade com que o usam fizeram-me sentir imediatamente em casa. Em Jerusalém e no deserto da Terra Santa, as mulheres — muçulmanas, judias e cristãs — cobrem a cabeça. Entre elas, encontro novamente ressonância. O meu simples véu branco torna-se um sinal de quem sou e do que escolho ser.

Sempre que o coloco, lembro-me da promessa feita no dia dos meus primeiros votos: caminhar entre os povos de Deus com humildade e presença — com ou sem véu — buscando sempre a sintonia com as mulheres, as culturas, as línguas e as vidas que encontro.

E, para além do véu, desejo permanecer unida ao Único que é Compaixão e Misericórdia, o Deus que nos reúne e nos convida a refugiar-nos sob o suave véu da Sua santidade: esse manto divino que protege, consola e envolve com ternura cada coração, guiando-o para o seu verdadeiro lar.

Ir Cecília Sierra

Missionária Comboniana no deserto da Cisjordânia

2 de dezembro de 2025

A FORÇA DA GERAÇÃO Z


Madagáscar tem novo chefe de Estado desde Outubro, depois de o presidente Andry Rajoelina fugir do país após três semanas de manifestações sobretudo de jovens da Geração Z, os nativos digitais nascidos entre 1997 e 2012. O coronel Michael Randrianirina é o novo líder do país-ilha do Índico. Os cortes prolongados de água e de eletricidade foram o rastilho que desencadeou o grande levantamento juvenil que fez pelo menos 22 mortes e mais de uma centena de feridos. Dom Benjamin Ramaroson, arcebispo de Antsiranana, explicou ao portal ACI África que «os jovens, desarmados, queriam reivindicar os seus direitos fundamentais, mas a repressão foi muito dura».

A Geração Z africana representa 40 por cento da população – cerca de 600 milhões de jovens – e vive no espaço digital, usando-o para comunicar e se organizar. Viu-se em Madagáscar como se tinha visto no Quénia e em Marrocos. E depois na Tanzânia.

Em Junho de 2024, o presidente William Ruto do Quénia introduziu no Parlamento um projeto de lei para aumentar o IVA sobre bens essenciais e cortar nos subsídios aos combustíveis. Os jovens foram para a rua lutar contra a proposta. As forças da ordem reprimiram os manifestantes com violência e dezenas foram mortos. No final, o presidente teve de fazer marcha-atrás. Em Julho deste ano, a Geração Z regressou às ruas contra o governo de Ruto no 35.º aniversário da marcha Saba Saba do movimento pró-democracia. Exigiam melhores condições de vida e mais transparência nas contas públicas. A comissão queniana de direitos humanos registou 31 mortes, 107 feridos e mais de 500 detenções.

Em Marrocos, os jovens, organizados sob o coletivo GenZ 212 – o número do indicativo telefónico internacional do país –, protestaram contra os gastos do Governo com as infraestruturas para o mundial de futebol de 2030 (que o país organiza com Portugal e Espanha), e a falta de investimentos na saúde e na educação e queriam a demissão do primeiro-ministro. As manifestações foram brutalmente reprimidas pela polícia.

Na Tanzânia, nas eleições presidenciais de 29 de Outubro, os nativos digitais também estiveram particularmente ativos, sobretudo depois de a comissão eleitoral ter declarado vencedora a incumbente Samia Suluhu Hassan com quase 98 por cento dos votos. A União Africana denunciou o ato eleitoral como não conforme com os padrões democráticos internacionais. As autoridades usaram de força letal contra os manifestantes e ocultaram os mortos. Mais de uma centena foram levados a tribunal acusados de tentar obstruir o ato eleitoral.

A Geração Z africana é uma geração que se faz ouvir, militante, corajosa, ciosa dos seus direitos. Uma força com que os políticos têm de se haver. A rápida expansão e a grande acessibilidade da rede digital facilitam a sua intervenção. Daí que, quando há agitação social, os governos tendam a desligar a internet ou, pelo menos, as redes sociais.

28 de novembro de 2025

A NOIVA RESPLANDECENTE


— O meu marido vai deixar-me trabalhar e conduzir! — disse-nos, com um sorriso rasgado, a jovem noiva beduína.

Está envolta no seu longo vestido rosa pálido, ricamente debruado, tão leve que parecia flutuar com o vento do deserto.

Ela terminou o curso de enfermagem com as melhores notas. Várias clínicas já lhe ofereceram emprego.

Alguns meses atrás, rompeu outro noivado — mesmo depois da festa — ao descobrir que o futuro marido não a deixaria exercer a profissão. 

— Estudei tanto para ficar em casa? Não! — disse, firme, apoiada pelo carinho da mãe, a sua aliada mais fiel.

Hoje celebrámos o seu novo noivado, numa pequena aldeia beduína situada numa montanha do deserto da Cisjordânia, nos territórios palestinianos ocupados.

A noiva, que esteve connosco nos acampamentos de verão e no projeto de bordado Fili di Pace (Fios de paz), brilha como um fio luminoso entre tantas mulheres.

A festa decorre ao ar livre, no deserto, entre montanhas e colinas douradas pelo pôr do sol, no topo onde fica a sua aldeia. 

—O meu filho vai buscá-las. Deixem o carro lá em baixo! — disse-nos a mãe. 

O caminho é íngreme, uma verdadeira aventura: doze pessoas amontoadas num jipe, saltando entre pedras e curvas, roçando o abismo com o coração a bater forte sob o céu estrelado.

No topo, a noite é iluminada com luzes, cantos e risos. 

Quase todos os rostos nos são familiares. 

Dança-se, conversa-se, abraçam-se famílias que tiveram que deixar as suas aldeias por medo e que aqui encontraram um lar. 

As crianças correm para nos cumprimentar, as mães abraçam-nos com carinho. Aqueles que ainda não nos conhecem ficam surpreendidos com tanta familiaridade.

As missionárias somos as únicas não palestinianas. 

E ela, a noiva, está resplandecente. Os seus olhos refletem a promessa de um futuro aberto, onde a sua inteligência e o seu desejo de servir vão abrir novos caminhos para tantas raparigas beduínas.

A vida não é fácil! Mas continuam a encontrar-se, a dançar, a celebrar. Porque, apesar de tudo, a vida insiste, floresce no meio do deserto — e elas, com uma força suave e obstinada, escolhem não desistir, levantar os olhos, abrir caminhos e viver.

Ir Cecília Sierra

Missionária Comboniana no Deserto da Cisjordânia

19 de novembro de 2025

TUDO É CAMINHO


Deitei-lhe a mão. Hoje! Finalmente. Para os caminhantes tudo é caminho é a criação mais nova de José Tolentino Mendonça. 

Traz na capa estampado um barbusano. Planta perene e altaneira da Floresta Laurissilva da Madeira. De tronco denso, resistente. Um símbolo apropriado do homem, poeta, pensador, místico, mestre que nasceu na Pérola do Atlântico há sessenta anos.

Nasce de chofre como o riacho que brota de uma fraga rasgada na montanha! Sem introdução nem prefácio. Nem tão pouco posfácio. Capítulo segue capítulo. Sem páginas nem grandes espaços em branco. Cento e oitenta páginas com cinquenta e duas reflexões breves. Variadas. Profundas. Desafiantes. Inspiradas. Inspiradoras...

A sabedoria do invisível e do indizível destilada em letras e espaços. Porque «a sabedoria é amar tudo»! 

Um desafio a viver no real, a contemplar o real tal e qual. Sem frases feitas ou de efeito pirotécnico.

Um ótimo presente de Natal. Com certeza!