21 de abril de 2026

UM SÓ BATISMO, DUAS PÁSCOAS

 




Ortodoxos e Católicos reconhecem os batismos mútuos, mas não conseguem concertar uma data comum para a celebração da Páscoa, o evento fundante da fé cristã.

Se um ortodoxo quiser entrar para a comunhão católica não precisa de ser batizado de novo. O mesmo vale para um católico que ingresse na comunhão ortodoxa. Apesar das diferenças teológicas que as separam, as duas tradições cristãs reconhecem um só batismo. Contudo, quase todos os anos ortodoxos e católicos celebram o mistério pascal do Senhor em datas distintas – que pode ir de uma semana a mais de um mês de diferença.

A data da celebração da Páscoa do Senhor foi assunto controverso desde o início do cristianismo. Houve quem quisesse unir a celebração da Páscoa cristã à Páscoa judaica. Porém, prevaleceu o entendimento de que a Páscoa é para se celebrar no domingo, porque foi na manhã do primeiro dia da semana que Madalena encontrou o sepulcro vazio. O domingo, como a própria etimologia diz, é o dia do Senhor.

Há 1701 anos, o concílio de Niceia, na Turquia de hoje, convocado pelo emperador, fixou a Páscoa para o primeiro domingo depois da lua cheia da primavera. Do primeiro concílio ecuménico saiu também grande parte do credo mais longo que recitamos na missa dominical.

No ano passado, que celebrou os 1700 anos do Concílio de Niceia, a páscoa católica e a ortodoxa foram celebradas no mesmo dia. Acontece de tempos a tempos. Se o Concílio de Niceia fixou o domingo para a celebração da Páscoa porque é que católicos e ortodoxos não se entendem quanto à data concreta?

 

DOIS CALENDÁRIOS

A resposta é simples: desde 1582 que católicos e ortodoxos usam calendários diferentes. Enquanto os cristãos orientais determinam a data da páscoa pelo calendário juliano, os católicos – e os cristãos em geral – usam o calendário gregoriano, introduzido pelo Papa Gregório XIII para corrigir as imprecisões do velhinho calendário romano ao qual foram tirados dez dias.

Por outro aldo, os dois calendários marcam o início do mês com 13 dias de diferença. Por isso, a data da Páscoa varia entre 22 de março e 25 de abril segundo as contas do calendário gregoriano e 4 de abril e 8 de maio segundo a contagem do juliano.

Durante as celebrações dos 1700 anos do Concílio de Niceia Leão XIV, Bispo de Roma, e Bartolomeu I, Patriarca de Constantinopla e primeiro entre iguais na hierarquia ortodoxa, assinaram a 29 de novembro de 2025, no Palácio Patriarcal de Istanbul, uma declaração conjunta que também abordou a questão da celebração díspar da Páscoa.

«É nosso desejo comum continuar o processo de explorar uma possível solução para celebrarmos juntos, todos os anos, a Festa das Festas. Esperamos e rezamos para que todos os cristãos, “com toda a sabedoria e discernimento espiritual” (Col 1, 9), se empenhem neste processo com vista a chegar a uma celebração comum da gloriosa ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo», afirmam os líderes cristãos do oriente e do ocidente.

Na Etiópia, os católicos celebram a Páscoa seguindo o calendário ortodoxo – aliás como fazem com as outras solenidades maiores: o Natal a 7 de janeiro; o Batismo do Senhor a 19 de janeiro; a Páscoa este ano é a 12 de abril; a Assunção a 22 de agosto; e a Exaltação da Santa Cruz a 27 de setembro. Isto em anos comuns. Em anos bissextos as celebrações são adiantadas de um dia em relação ao calendário gregoriano.

 

TRADIÇÕES DIFERENTES

Católicos e ortodoxos não só celebram a Páscoa em datas diferentes como a preparam através de tempos diferentes. A quaresma ortodoxa dura oito semanas, o que equivale para os observantes mais rigorosos a quase dois meses de jejum e abstinência, enquanto a católica se fica pelas seis semanas – ou quarenta dias – e fazem jejum no início e na Sexta-Feira Santa e abstêm-se de carne às sextas-feiras.

Os ortodoxos observantes não comem nada entre o jantar e o meio-dia (ou até às quinze horas) do dia seguinte. Carne, ovos, leite, laticínios e – para os mais radicais – até peixe ficam de fora do cardápio quaresmal que privilegia vegetais, lentilhas e papas de grão de bico, ervilhas ou favas moídas.

Durante a quaresma os ortodoxos celebram missa diária, de manhãzinha ou ao meio-dia. Durante o ano, os padres ortodoxos celebram a missa dominical a partir das duas ou três da manhã, podendo haver dias que haja missa na quarta ou na sexta-feira, dois dias da semana que lhes são particularmente caros e que, tirando o tempo pascal, são também de jejum obrigatório.

O hábito das missas durante a noite traz alguns inconvenientes públicos. Segundo a tradição ortodoxa na igreja podem entrar crianças e idosos além dos ministros sagrados: padres e diáconos mais os cantores. As pessoas sexualmente ativas ou ficam no recinto ou, em casos extremos, fora dele, embrulhadas num manto branco, porque se consideram impuras.

Aliás, os próprios padres – que por norma são casados – têm de se abster de sexo com as esposas na véspera da missa. Por isso, as celebrações sempre bem cantadas em gue’ez, a linguagem litúrgica etíope antiga, são transmitidas por altifalantes para serem acompanhadas por quem está no exterior do templo. E por quem queria dormir...

A vigília pascal dura a noite toda e tem na proclamação da ressurreição do Senhor o seu centro através de um hino próprio por volta da meia-noite.

De manhã, a celebração passa da igreja para a casa, do altar para a mesa de família. 

O prato tradicional para quebrar o jejum no dia de Páscoa é o doro wot, galinha em molho. O galináceo é cortado em doze bocados e cozido lentamente num molho feito de óleo, manteiga, cebola picada, piripiri em pó e outras especiarias juntamente com alguns ovos. Um prato delicioso, mas gorduroso e picante, próprio para estômagos fortes. 

Quanto a roupas novas, diz o provérbio que as indumentárias ou se estreiam na celebração do Timket, o Batismo do Senhor, ou se estragam depressa.

7 de abril de 2026

MERCENÁRIOS À FORÇA


Alguns milhares de africanos estão a combater do lado da Rússia na Ucrânia, uma guerra que entrou no seu quinto ano em Fevereiro passado e cujas reverberações chegam ao coração do Continente Negro.

As fontes são distintas e os números diferentes. O coletivo de investigação All Eyes on Wagner compilou uma lista de 1417 africanos de 35 países recrutados entre 2023 e 2025, incluindo 316 mortos, cerca de um quinto dos mercenários africanos. Os contingentes mais numerosos são do Egipto (361 combatentes), Camarões (335) e Gana (324). Andrii Sybiha, ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, tuitou que 1436 cidadãos de 36 países africanos estavam a lutar com os Russos contra o seu país. O Instituto Francês de Relações Internacionais, por seu turno, calcula que haja de 3000 a 4000 africanos entre os 18 000 a 20 000 estrangeiros a combater nas fileiras invasoras na Ucrânia. Recentemente o Parlamento do Quénia foi informado de que mais de 1000 quenianos se encontravam entre as forças russas, recrutados através de escritórios de emprego falsos e de alguns indivíduos importantes com a conivência de algumas agências governamentais. 

Os métodos usados para recrutar africanos vão desde a incorporação direta de combatentes com promessas de um bom salário e de cidadania russa – 150 camaroneses desertaram para se alistaram nas forças russas – ou através de promessas de trabalho bem remunerado ou de bolsas de estudos em universidades russas através das redes sociais ou usando centros de emprego falsos e angariadores locais. Um sul-africano disse que ao chegar à Rússia para supostamente receber treino em matéria de segurança foi imediatamente alistado: recebeu uma farda e uma arma, queimaram roupa, documentos e fotos que trazia, e depois de uma semana de recruta já estava na linha da frente. Aos soldados africanos são dadas missões perigosas como recolher, sob fogo inimigo, os corpos dos caídos.

Os recrutas alvo são sobretudo ex-militares e ex-polícias bem como cidadãos comuns que querem emigrar com idades entre os 20 e 50 anos. Ganham cerca de dois mil euros por mês e podem receber um passaporte russo depois de três a seis meses de combate.

O recrutamento muitas vezes fraudulento de combatentes africanos está a azedar as relações entre alguns governos e Moscovo. A Rússia nega quaisquer métodos enganosos no alistamento de africanos. 

O presidente Ramaposa, da África do Sul, conseguiu o repatriamento de dúzia e meia de sul-africanos com um telefonema a Putin. Foram ludibriados pela deputada Duduzile Zuma-Sambudla, filha do ex-presidente Jacob Zuma, que lhes prometeu formação como seguranças na Rússia para depois serem empregados pelo partido do pai. 

As famílias dos mercenários forçados estão muito preocupadas com a sorte dos seus entes. Recentemente houve manifestações em Nairobi exigindo ao Governo queniano que trouxesse de volta os seus filhos vivos e mortos que, na linha da frente da guerra na Ucrânia, são discriminados e vítimas de racismo por parte dos soldados russos.

6 de abril de 2026

CAMELOS DE LÃ


Basma carrega um mundo de preocupações… Mesmo assim, recebe-nos sempre com um sorriso. Serena, bela, atenciosa, digna. No meio de tantas dificuldades e tristezas, esta mulher beduína mantém-se de cabeça erguida.

Aproveitou cada oportunidade: aprendeu a fazer camelos com lã, estuda inglês com assiduidade, borda arte palestiniana e costura à máquina. Não desiste.

Depois da festa do fim do Ramadão, as filhas visitam os pais. 

Ela irá ver a sua família. Há meses que não os vê: um conflito entre famílias terminou com a casa paterna incendiada. O cerco dos colonos continua; o seu irmão e outros parentes foram espancados e hospitalizados. O seu pai vive agora numa tenda, também sob ordem de evacuação. O futuro é incerto.

Basma, viúva e na casa dos quarenta, tem oito filhos. Vive junto com a primeira esposa — a sua prima: duas mulheres, treze filhos, a apoiarem-se mutuamente. 

As crianças não vão à escola: o sistema educativo está a desmoronar-se. 

A sua aldeia está em risco. Todas as manhãs, colonos passam em frente à sua casa com rebanhos que ela já não pode ter.

Tanta dor… 

E ela, com o seu sorriso, acolhe, resiste e continua a manter a esperança para os seus.

Ir. Cecília Sierra

Missionária Comboniana

5 de abril de 2026

PÁSCOA NO SUDÃO: FEZ-SE LUZ

 



Quando Maria Madalena foi ao sepulcro, ainda estava escuro. Estava escuro para Maria porque estava consumida pela dor; porque não conseguia compreender a morte daquele que tanto amava. 

Estava escuro porque se sentia sozinha e perdida.

No Sudão, a guerra, que começou a 15 de Abril de 2023, lançou uma sombra de escuridão sobre todo o país. Mais de 11 milhões de pessoas tiveram de fugir das suas casas para outras partes do país, e cerca de quatro milhões procuraram refúgio noutros países. 

Para todos eles, o céu está coberto por um pesado e denso véu de escuridão.

Milhões de pessoas no Irão, Líbano, Ucrânia… sentem a mesma escuridão. 

Apesar da escuridão, Maria Madalena partiu cedo. A recordação e o amor que sentia por Jesus impeliram-na a ir ao seu túmulo.

Então, ela descobriu algo inesperado. A pedra tinha sido removida. 

Maria não compreendeu o que tinha acontecido e chamou Pedro e João. Quando João entrou no túmulo vazio, «viu e acreditou». 

A escuridão transforma-se em luz quando se olha para o túmulo com os olhos da fé.

A guerra é uma escuridão densa e espessa. Mas, paradoxalmente, na escuridão absoluta, é mais fácil descobrir pequenas e ténues luzes, por mais frágeis que sejam.

Em setembro, completarei 18 anos no Sudão. 

Os anos mais belos da minha vida missionária foram, paradoxalmente, os anos da guerra, porque vi luzes maravilhosas.

Para mim, os estudantes que, em plena guerra, nos dizem que querem continuar a estudar; a equipa do departamento de enfermagem que enfrentou batalhas para chegar a Porto Sudão e continuar a formar enfermeiros; os voluntários de cuidados paliativos que, movidos pela misericórdia, acompanham os doentes terminais e crónicos deitados em camas de dor e, muitas vezes, de solidão; e os jovens que organizam «Salas de Resposta de Emergência» para facilitar o acesso aos alimentos, representam uma luz.

Maria Madalena, João e Pedro deixam de estar nas trevas quando conseguem conectar as Escrituras com a realidade que tem diante de si. 

Esta realidade transforma-se, então, numa realidade de luz que enche os seus corações de paz e alegria, porque se torna o lugar do encontro com o Senhor Ressuscitado, a fonte de paz e de alegria. 

Feliz Páscoa!

P. Jorge Naranjo

Comboniano espanhol no Sudão 

4 de abril de 2026

VOLUNTÁRIOS PRECISAM-SE!



Chama-se Vera. Veste no olhar vivo e alegre a frescura dos verdes anos. Apareceu em Qillenso, a aldeia onde vivo no sul da Etiópia, com uma espanhola, um espanhol e um etíope. 

Iam a Dare Qidame, o local da (provável) nova missão dos combonianos entre os gujis, explorar a presença da água. Os locais já construíram uma grande igreja com a colaboração de vizinhos de outras igrejas e inclusive muçulmanos. 

O espanhol, voluntário há muitos anos na Etiópia, também é vedor. O etíope é engenheiro. Marcaram três pontos para um furo artesiano.

Tinham pernoitado em Hawassa. Pararam em Qillenso para me saudar. Ofereci-lhes um café da nossa safra.

Da Vera retive o nome, que é de Cascais, que terminou o curso de enfermagem e que antes de iniciar a atividade profissional quis oferecer algum tempo ao voluntariado.

Chegou à Etiópia por via das Missionárias da Caridade, as freiras da Santa Madre Teresa de Calcutá, que conhece de Setúbal e Lisboa.

Atirou-me uma pergunta: 

– Porquê há tantos voluntários espanhóis e tão poucos portugueses?

Comentou que em Adis-Abeba, no hospício das Missionárias da Caridade onde deu os primeiros passos como enfermeira formada, havia muitos jovens da vizinha Espanha. E que o cenário se repete noutras comunidades.

Perguntei à FEC, a Fundação católica que coordena a formação de voluntários e que costumava publicar estatísticas anuais sobre os jovens e menos jovens portugueses em voluntariado em Portugal e no estrangeiro.

– Houve quebra no voluntariado. Os dados foram muito baixos, poucas organizações responderam. Por isso, nem os lançámos. Mesmo na formação quase não temos inscritos! – informaram-me.

Minha querida Vera, aqui tens a resposta: há um esmorecimento entre a malta nova portuguesa no que toca a voluntariado. É pena! Será por falta de dinheiro para as viagens? Por falta de generosidade? Por medo?

Alguns colegas meus chamam de turismo missionário ao voluntariado de muito curta duração: duas semanas, um mês...

Eu discordo!

Aqui em Qillenso pude testemunhar em dois anos seguidos a alegria que grupos de jovens espanhóis – sempre eles – deram à criançada da aldeia dos cinco aos 14 anos durante duas semanas de campo de férias.

Com a ajuda de alguns tradutores, os voluntários brincaram, ensinaram, cantaram, jogaram, fizeram tantas coisas – inclusive um lanche a meio da manhã – que deliciaram os nossos miúdos.

Era giro ouvi-los em casa a trautear as canções que aprenderam de manhã nas atividades do campo de férias.

E, enquanto escrevo, a 35 quilómetros daqui, está um casal de enfermeiros espanhóis mais dois familiares a semear carinho e cuidados de saúde no Hospício das Missionárias da Caridade em Adola. O casal passa cá dois meses; os familiares – mais novos – um mês.

Dedicam-se com uma paciência ímpar a cuidar dos casos mais complicados entre os cerca de 200 internados e internadas e brincam com crianças com limites físicos e mentais. 

Há uma semana duas enfermeiras voltaram para Espanha depois de um mês entre os hospícios de Adis-Abeba e Adola.

Que nem o mar nem o ar fechem os caminhos do encontro e do serviço de outrora, os caminhos da fraternidade universal.

3 de abril de 2026

SEXTA-FEIRA SANTA EM JERUSALÉM

 





Todos os anos, na Sexta-Feira Santa, Jerusalém fica lotada. As ruas enchem-se de passos, de línguas diferentes, de orações que se entrelaçam, enquanto toda a cidade parece palpitar ao ritmo da Via-Sacra. 

A par da Via-Sacra oficial, organizada pelos franciscanos, inúmeros grupos percorrem a Via Dolorosa, parando em cada uma das catorze estações.

São rostos vindos de longe, corações inflamados pela fé, peregrinos que desejam tocar, ainda que por um instante, o mistério do amor levado ao extremo.

Seguem Jesus nos seus últimos passos, ali onde a dor se transforma em oferta e a entrega se consuma em silêncio. Cada pedra guarda a memória. Cada recanto sussurra o Seu Nome.

Mas este ano… tudo é diferente.

As ruas perderam a agitação. O eco dos cânticos silenciou-se. A cidade, ferida, respira entre o peso da incerteza e do medo. A terra que um dia foi testemunha da Redenção volta a conhecer a amargura da dor e da morte. Demasiado sangue derramado. Demasiadas lágrimas sem consolo. 

Soldados por toda a parte, como sombras que recordam que a paz ainda não chegou.

E, no entanto, estamos aqui.

Pequenas, quase invisíveis: três combonianas mexicanas a caminhar pelas ruas de Jerusalém. Não há multidões, mas não estamos sozinhas. Caminhamos unidas a tantos que gostariam de estar aqui e não podem. As suas orações pulsam no nosso silêncio. As suas esperanças tornam-se nossas.

Rezamos.

Rezamos por esta terra que geme. Rezamos por cada vida rasgada. Rezamos com toda a Igreja, elevando uma súplica antiga e sempre nova: «Perdoa ao teu povo, Senhor!»

E enquanto avançamos, com o coração apertado e a fé acesa, erguemos o olhar para o Crucificado.

Nestas ruas quase desertas da cidade velha, onde a dor parece ter a última palavra, proclamamos em silêncio a verdade que não morre:

que Ele já venceu a morte,

que a sua entrega não foi em vão,

que o seu amor continua a ser mais forte do que toda a violência.

Aqui, onde tudo parece escurecer, continuamos a pedir a paz.

Porque Ele deu tudo.

Porque Ele nos amou… até ao extremo.

Ir Cecília Sierra

Missionária Comboniana

23 de março de 2026

COSER O FUTURO


– Eu também quero!

– Ainda és muito pequena...

Mas a menina beduína insistiu… tal como a vida insiste. E conseguiu.

Observava as mulheres da sua aldeia a bordar, no deserto, entre Jerusalém e Jericó. 

O bordado palestiniano é um património rico, e nos seus olhos crescia um anseio: mais tecido, mais linha, mais espaço para sonhar.

Começou com pequenos retalhos, mas o seu desejo não cabia neles.

Queria pano para fazer uma bolsinha completa, com fecho, com forma, com sentido.

E fê-la!

Ponto a ponto, com paciência.

– A minha mãe ajudou-me com o fecho!, confessa.

E pergunta, à procura de aprovação: 

– Está bonita, não está?

Nas suas mãos, aquele pequeno objeto torna-se uma conquista: o seu primeiro ganho!

À sua volta, o conflito.

Mas as mulheres beduínas bordam com ânsia, aprendem a fazer acabamentos, apoiam-se umas nas outras.

Cada ponto traz dignidade, traz pão, traz esperança para a mesa.

Rosa aprende com a mãe, e, nesse gesto antigo e vivo, a vida continua a dizer-se: ensinar, aprender, acompanhar.

Tem 11 anos.

Uma casa com tantas necessidades, sustentada por uma mãe corajosa, seis filhos, um pai que não pode voltar.

E, com essa vontade de aprender, a luz abre caminho.

Em cada fio, Rosa não cose apenas uma bolsinha: cose dignidade. Preserva tradição e património.

Cose o futuro!

Ir. Cecília Sierra,

Missionária Comboniana

UMA ESCOLA PARA OS GUMUZ

 



O povo gumuz vive no noroeste da Etiópia, na região do Metekel, e no Sudão. Foi muito marginalizado pelas tribos vizinhas das terras altas, mais claras, de quem foi escravo por muitos séculos até à década de 1930 para ser utilizado na mineração do ouro. A região de Benishangul-Gumuz é das mais remotas e esquecidas da Etiópia.

Os gumuz pertencem à família nilótica e vivem da agricultura de subsistência, da caça e comida que recolhem na floresta. Marginalizados e esquecidos, o acesso à saúde e educação é difícil.

A família comboniana chegou ao Metekel no ano 2000. Primeiro vieram as Irmãs Missionárias Combonianas e três anos depois os Missionários Combonianos. Responderam ao apelo que o presidente da região de Benishangul-Gumuz fez aos líderes religiosos para voltarem o coração para o povo e a terra «abandonada pelo tempo». 

As missionárias fixaram-se em Mandura e os missionários em Gilgel Beles e Gublak. Mais tarde chegaram a Gilgel Beles as Franciscanas Missionárias de Cristo. As Irmãs de S. José de Aparecida estiveram alguns anos em Gublak, mas fecharam a comunidade devido ao conflito local. Além da evangelização direta, estão comprometidos nas áreas da Justiça e Paz e resolução de conflitos, na promoção da mulher, na educação e saúde.

O acesso à escola é muito limitado devido às distâncias e à insegurança. Por isso, os alunos normalmente iniciam a escolarização por volta dos 12 anos.

Para facilitar o acesso à educação das crianças gumuz os missionários construíram algumas creches e um albergue para estudantes das zonas rurais para prosseguirem os estudos secundários em Gilgel Beles.

Na creche de Gilgel Beles há 300 crianças a dar os primeiros passos na educação formal. Os missionários também oferecem bolsas de estudo aos estudantes mais promissores.

A cidade de Gilgel Beles, a capital de Metekel, é habitada por gente gumuz e não gumuz. Muitas vezes, as relações entre os diversos grupos étnicos são tensas e violentas. Por isso, os pais gumuz preferem não enviar os filhos para a escola.

Os Combonianos decidiram construir uma escola em Gilgel Beles para promover da paz e a reconciliação entre cidadãos gumuz e não gumuz através do convívio entre alunos de tribos rivais. O governo local ofereceu o terreno. 

Na primeira fase, vão ser construídos edifícios para 800 alunos da primeira à oitava classe. Na segunda fase, virá a escola secundária. 

Das instalações fazem parte salas de aulas, campos de jogos, casas de banho, secretaria, biblioteca e laboratório e uma pequena casa para acolher voluntários que queiram colaborar na educação dos Gumuz, além de outros edifícios de apoio.

A província etíope dos Missionários Combonianos agradece a colaboração dos católicos da diocese de Lamego na construção deste projeto essencial para o povo gumuz através de parte da sua renúncia quaresmal.

P. Joaquim Moreira

P. José Vieira

Missionários Combonianos