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A mostrar mensagens de novembro, 2025

A NOIVA RESPLANDECENTE

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— O meu marido vai deixar-me trabalhar e conduzir! — disse-nos, com um sorriso rasgado, a jovem noiva beduína. Está envolta no seu longo vestido rosa pálido, ricamente debruado, tão leve que parecia flutuar com o vento do deserto. Ela terminou o curso de enfermagem com as melhores notas. Várias clínicas já lhe ofereceram emprego. Alguns meses atrás, rompeu outro noivado — mesmo depois da festa — ao descobrir que o futuro marido não a deixaria exercer a profissão.  — Estudei tanto para ficar em casa? Não! — disse, firme, apoiada pelo carinho da mãe, a sua aliada mais fiel. Hoje celebrámos o seu novo noivado, numa pequena aldeia beduína situada numa montanha do deserto da Cisjordânia, nos territórios palestinianos ocupados. A noiva, que esteve connosco nos acampamentos de verão e no projeto de bordado  Fili di Pace  (Fios de paz), brilha como um fio luminoso entre tantas mulheres. A festa decorre ao ar livre, no deserto, entre montanhas e colinas douradas pelo pôr do sol, n...

TUDO É CAMINHO

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Deitei-lhe a mão. Hoje! Finalmente.  Para os caminhantes tudo é caminho  é a criação mais nova de José Tolentino Mendonça.  Traz na capa estampado um barbusano. Planta perene e altaneira da Floresta Laurissilva da Madeira. De tronco denso, resistente. Um símbolo apropriado do homem, poeta, pensador, místico, mestre que nasceu na Pérola do Atlântico há sessenta anos. Nasce de chofre como o riacho que brota de uma fraga rasgada na montanha! Sem introdução nem prefácio. Nem tão pouco posfácio. Capítulo segue capítulo. Sem páginas nem grandes espaços em branco. Cento e oitenta páginas com cinquenta e duas reflexões breves. Variadas. Profundas. Desafiantes. Inspiradas. Inspiradoras... A sabedoria do invisível e do indizível destilada em letras e espaços. Porque «a sabedoria é amar tudo»!  Um desafio a viver no real, a contemplar o real tal e qual. Sem frases feitas ou de efeito pirotécnico. Um ótimo presente de Natal. Com certeza!

NATAL: TUDO ESTÁ PRONTO

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Agulha e linha dançam entre os dedos das mulheres beduínas no deserto da Cisjordânia. Traçam pequenos sinais de luz com o bordado tradicional palestiniano: cartões de natal que contam a beleza e a fragilidade desta terra amada —a cabana aberta para o céu, as estrelas que guiam, as ovelhas, os camelos e os burros que acompanham o mistério do nascimento de Jesus.  O Natal aproxima-se, e nas pobres cabanas de zinco do deserto as mulheres bordam sem parar com mãos pacientes e corações cheios de esperança. Na Cisjordânia, onde o conflito e a insegurança marcam o dia-a-dia, onde a ameaça de expulsão pesa sobre o único lugar a que chamam de casa, elas continuam a criar, acreditar e esperar. Com dedicação, preparam também enfeites para a árvore de natal: não bolas metálicas, frias, mas criações vivas, tecidas com cor, paciência e dignidade. Imagine uma árvore na sua casa ou na sua igreja, adornada com estes bordados! Sinais silenciosos de uma solidariedade que une os corações além de qualq...

NEM CHICOS-ESPERTOS NEM MORCÕES

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O evangelho de hoje é tirado de Lucas (16, 1-8). Jesus conta aos discípulos – e, por meio deles, a nós também – uma das parábolas mais desconcertantes que criou. Era uma vez um administrador que foi denunciado por desperdiçar os bens à sua guarda. Quando o patrão o chamou para fechar as contas, ele pôs-se a matutar: «Vou perder o emprego. E agora? Não tenho forças para trabalhar nem coragem para mendigar!» Então, gizou uma estratégia para ganhar a hospitalidade dos devedores. Chamou-os um a um para restruturar as dívidas. O primeiro devia cem talhas de azeite. Ele cortou o débito para cinquenta. Ao que devia cem medidas de trigo, fez um desconto de vinte por cento. No fundo, o que o administrador fez foi obrigar o homem rico a respeitar a Lei que proibia a usura, empréstimos com juros. No tempo de Jesus era costume cobrar cem por cento nos empréstimos de azeite e vinte e cinco por cento nos de trigo. No fim, o credor elogia a esperteza do administrador desonesto no trato com os seus se...

A MODA DOS CORREDORES

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Cheguei à Etiópia na manhã de 9 de Janeiro de 1993. Adis Abeba, Nova Flor, como foi rebatizada – os Oromos, esses continuam a chamar-lhe Finfinne – era uma mistura promíscua do velho e do novo, do belo e do feio. O Hilton convivia com casebres feitos de barro, madeira, plásticos ou zinco. Era assim por toda a cidade. As ruas, a pedir há muito nova camada de asfalto para tapar os buracos, eram disputadas por veículos, peões e grandes filas de burros de carga, com gado a pastar placidamente nas rotundas e alamedas. O Governo tinha gastado três décadas a lutar contra os separatistas da Eritreia e a guerra e a corrupção sorveram os dinheiros públicos. Hoje, Adis – como afetuosamente lhe chamamos – é uma metrópole moderna, cheia de altos edifícios de desenhos arrojados, grandes avenidas à mistura com alguns bairros-de-lata. Transformou-se num estaleiro onde grandes construções nascem um pouco por toda a cidade como cogumelos depois das primeiras chuvas. O executivo municipal da capital, ent...