Os mísseis iranianos nos céus do deserto da Judeia não assustam as missionárias que querem partilhar da vida das beduínas palestinianas em tempos de conflito.
Desde esta manhã, após a missa, ouvimos as sirenes. Mesmo assim fomos para o deserto.
Há alguns dias que as comunidades beduínas sofreram incursões de colonos. Não podíamos ficar longe. Queríamos estar presentes. Levar tecidos, fechos, linhas: pequenos sinais concretos para costurar bolsas, para aprender, para não desistir.
Não se trata apenas de «promoção da mulher». É o pão de cada dia. É o sustento de uma economia familiar ferida, onde muitas vezes são as mulheres as únicas que podem contribuir para o lar.
Aprender, em tempos de conflito, é muito mais do que adquirir uma técnica: é manter a mente viva, acender a criatividade quando tudo parece apagar-se. É sobrevivência. É resiliência que se tece ponto a ponto.
Quase trinta mulheres esperavam-nos, rodeadas por tantas crianças.
Sob um espaço comunitário feito com cobertores grossos e gastos, que protegem um pouco do calor e do frio, partilhámos palavras e silêncios. Elas contaram-nos o que aconteceu nos dias anteriores, quando os primeiros estrondos de mísseis romperam o silêncio do deserto.
De repente, novos silvos. Mais mísseis.
As crianças correm para ver. Para elas, não há diferença: dentro ou fora é a mesma coisa. Não há abrigos. Não há refúgios. Vulneráveis a cem por cento.
Ficámos com elas, partilhando a mesma exposição, a mesma incerteza suspensa no ar.
A caminho de outra aldeia, mais explosões, mais próximas. As sirenes dos colonatos continuavam a gritar. As beduínas, quase impassíveis, como quem aprendeu a conviver com o inimaginável.
«Vais esconder-te debaixo da cama?», brincamos com Aisha, que adora dormir.
Rimos, sabendo que a sua «cama» é um colchão fino e que a sua casa de zinco não oferece qualquer proteção.
No regresso, a estrada para Jerusalém e para os colonatos estava quase vazia.
No bairro de Al-Azareya, por outro lado, a vida seguia o curso normal.
Ficar em casa não muda nada. Nas aldeias e cidades palestinianas não há abrigos. Continua-se. Trabalha-se. Vive-se.
É Ramadão. Quem jejuou desde o amanhecer irá procurar o necessário para o iftar, a refeição da noite. A vida insiste, mesmo sob as sirenes.
E nós, em casa, em oração. À espera.
Com a consciência de que isto pode ser apenas o início de algo que tornará ainda mais frágil a vida daqueles que já vivem no cerco e na precariedade.
É Ramadão.
É também Quaresma.
Ir. Cecília Sierra
Missionária Comboniana

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