Mariam chegou agitada e cansada. Esta mulher beduína de Befu, na Cisjordânia, tem mais de sessenta anos e tinha corrido quilómetros para regressar à sua aldeia, com medo de se deparar com os colonos que rondam o lugar onde vive há mais de quarenta anos.
Saiu para comprar medicamentos para o marido doente. Ela própria sofre de diabetes e começa a perder a visão.
Durante semanas, acompanhou-o no hospital e, enquanto ele recuperava, bordava e fazia camelos de lã. Agora, após uma operação que a fez temer até pela vida dele, o marido começa a recuperar as forças.
Mariam sorri. Está cansada, mas contente.
O seu corpo, no entanto, guarda muitas outras histórias: filhos sem emprego, uma casa da família demolida, doenças, perdas, uma gravidez de alto risco da nora, netos que se casam, que correm riscos ao irem à escola.
Há ainda responsabilidades económicas que se acumulam sobre uma família que conhece demasiado bem a fragilidade da vida.
E, no entanto, há nela uma força serena.
Casou-se muito jovem. Durante quase cinquenta anos, partilhou a vida com o chefe da aldeia. Juntos, passaram por doenças, perdas e dificuldades. Poderiam tê-los separado, mas continuam lá, a cuidar um do outro e a apoiar-se mutuamente.
A sua casa foi, durante anos, um local de encontro. Lá recebiam peregrinos, sobretudo italianos, bem como grupos de judeus messiânicos e visitantes de muitos lugares.
Ela preparava a comida, servia o café. Acolhia.
O marido queria-a ao seu lado e reconhecia-lhe publicamente um lugar de respeito e dignidade.
Hoje chegam menos visitantes, mas permanece algo mais profundo: uma casa que foi uma ponte entre mundos diferentes.
Sempre que nós, missionárias, chegamos, saem ao nosso encontro com um sorriso: «Bem-vindas!» Oferecem-nos café e, com uma simplicidade comovente, dizem-nos: «Esta é a vossa casa.»
É a família que mais visitamos e, com o passar dos anos, também nós passámos a sentir a casa deles como nossa: um lugar onde somos sempre esperadas, acolhidas e recebidas como parte da família.
Em Mariam reconhecemos tantas mulheres beduínas: fortes, sem perder a ternura; feridas, sem perder a dignidade.
Mulheres que sustentam as suas famílias, defendem a sua terra e preservam a sua identidade, bordando no meio dasdificuldades.
Mariam é uma delas: exausta, doente, corajosa e acolhedora. Uma mulher do deserto que, em meio a tantas adversidades, continua de pé.
Ir. Cecília Sierra,
Comboniana no Deserto da Cisjordânia

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