7 de abril de 2026

MERCENÁRIOS À FORÇA


Alguns milhares de africanos estão a combater do lado da Rússia na Ucrânia, uma guerra que entrou no seu quinto ano em Fevereiro passado e cujas reverberações chegam ao coração do Continente Negro.

As fontes são distintas e os números diferentes. O coletivo de investigação All Eyes on Wagner compilou uma lista de 1417 africanos de 35 países recrutados entre 2023 e 2025, incluindo 316 mortos, cerca de um quinto dos mercenários africanos. Os contingentes mais numerosos são do Egipto (361 combatentes), Camarões (335) e Gana (324). Andrii Sybiha, ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, tuitou que 1436 cidadãos de 36 países africanos estavam a lutar com os Russos contra o seu país. O Instituto Francês de Relações Internacionais, por seu turno, calcula que haja de 3000 a 4000 africanos entre os 18 000 a 20 000 estrangeiros a combater nas fileiras invasoras na Ucrânia. Recentemente o Parlamento do Quénia foi informado de que mais de 1000 quenianos se encontravam entre as forças russas, recrutados através de escritórios de emprego falsos e de alguns indivíduos importantes com a conivência de algumas agências governamentais. 

Os métodos usados para recrutar africanos vão desde a incorporação direta de combatentes com promessas de um bom salário e de cidadania russa – 150 camaroneses desertaram para se alistaram nas forças russas – ou através de promessas de trabalho bem remunerado ou de bolsas de estudos em universidades russas através das redes sociais ou usando centros de emprego falsos e angariadores locais. Um sul-africano disse que ao chegar à Rússia para supostamente receber treino em matéria de segurança foi imediatamente alistado: recebeu uma farda e uma arma, queimaram roupa, documentos e fotos que trazia, e depois de uma semana de recruta já estava na linha da frente. Aos soldados africanos são dadas missões perigosas como recolher, sob fogo inimigo, os corpos dos caídos.

Os recrutas alvo são sobretudo ex-militares e ex-polícias bem como cidadãos comuns que querem emigrar com idades entre os 20 e 50 anos. Ganham cerca de dois mil euros por mês e podem receber um passaporte russo depois de três a seis meses de combate.

O recrutamento muitas vezes fraudulento de combatentes africanos está a azedar as relações entre alguns governos e Moscovo. A Rússia nega quaisquer métodos enganosos no alistamento de africanos. 

O presidente Ramaposa, da África do Sul, conseguiu o repatriamento de dúzia e meia de sul-africanos com um telefonema a Putin. Foram ludibriados pela deputada Duduzile Zuma-Sambudla, filha do ex-presidente Jacob Zuma, que lhes prometeu formação como seguranças na Rússia para depois serem empregados pelo partido do pai. 

As famílias dos mercenários forçados estão muito preocupadas com a sorte dos seus entes. Recentemente houve manifestações em Nairobi exigindo ao Governo queniano que trouxesse de volta os seus filhos vivos e mortos que, na linha da frente da guerra na Ucrânia, são discriminados e vítimas de racismo por parte dos soldados russos.

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