Ortodoxos e Católicos reconhecem os batismos mútuos, mas não conseguem concertar uma data comum para a celebração da Páscoa, o evento fundante da fé cristã.
Se um ortodoxo quiser entrar para a comunhão católica não precisa de ser batizado de novo. O mesmo vale para um católico que ingresse na comunhão ortodoxa. Apesar das diferenças teológicas que as separam, as duas tradições cristãs reconhecem um só batismo. Contudo, quase todos os anos ortodoxos e católicos celebram o mistério pascal do Senhor em datas distintas – que pode ir de uma semana a mais de um mês de diferença.
A data da celebração da Páscoa do Senhor foi assunto controverso desde o início do cristianismo. Houve quem quisesse unir a celebração da Páscoa cristã à Páscoa judaica. Porém, prevaleceu o entendimento de que a Páscoa é para se celebrar no domingo, porque foi na manhã do primeiro dia da semana que Madalena encontrou o sepulcro vazio. O domingo, como a própria etimologia diz, é o dia do Senhor.
Há 1701 anos, o concílio de Niceia, na Turquia de hoje, convocado pelo emperador, fixou a Páscoa para o primeiro domingo depois da lua cheia da primavera. Do primeiro concílio ecuménico saiu também grande parte do credo mais longo que recitamos na missa dominical.
No ano passado, que celebrou os 1700 anos do Concílio de Niceia, a páscoa católica e a ortodoxa foram celebradas no mesmo dia. Acontece de tempos a tempos. Se o Concílio de Niceia fixou o domingo para a celebração da Páscoa porque é que católicos e ortodoxos não se entendem quanto à data concreta?
DOIS CALENDÁRIOS
A resposta é simples: desde 1582 que católicos e ortodoxos usam calendários diferentes. Enquanto os cristãos orientais determinam a data da páscoa pelo calendário juliano, os católicos – e os cristãos em geral – usam o calendário gregoriano, introduzido pelo Papa Gregório XIII para corrigir as imprecisões do velhinho calendário romano ao qual foram tirados dez dias.
Por outro aldo, os dois calendários marcam o início do mês com 13 dias de diferença. Por isso, a data da Páscoa varia entre 22 de março e 25 de abril segundo as contas do calendário gregoriano e 4 de abril e 8 de maio segundo a contagem do juliano.
Durante as celebrações dos 1700 anos do Concílio de Niceia Leão XIV, Bispo de Roma, e Bartolomeu I, Patriarca de Constantinopla e primeiro entre iguais na hierarquia ortodoxa, assinaram a 29 de novembro de 2025, no Palácio Patriarcal de Istanbul, uma declaração conjunta que também abordou a questão da celebração díspar da Páscoa.
«É nosso desejo comum continuar o processo de explorar uma possível solução para celebrarmos juntos, todos os anos, a Festa das Festas. Esperamos e rezamos para que todos os cristãos, “com toda a sabedoria e discernimento espiritual” (Col 1, 9), se empenhem neste processo com vista a chegar a uma celebração comum da gloriosa ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo», afirmam os líderes cristãos do oriente e do ocidente.
Na Etiópia, os católicos celebram a Páscoa seguindo o calendário ortodoxo – aliás como fazem com as outras solenidades maiores: o Natal a 7 de janeiro; o Batismo do Senhor a 19 de janeiro; a Páscoa este ano é a 12 de abril; a Assunção a 22 de agosto; e a Exaltação da Santa Cruz a 27 de setembro. Isto em anos comuns. Em anos bissextos as celebrações são adiantadas de um dia em relação ao calendário gregoriano.
TRADIÇÕES DIFERENTES
Católicos e ortodoxos não só celebram a Páscoa em datas diferentes como a preparam através de tempos diferentes. A quaresma ortodoxa dura oito semanas, o que equivale para os observantes mais rigorosos a quase dois meses de jejum e abstinência, enquanto a católica se fica pelas seis semanas – ou quarenta dias – e fazem jejum no início e na Sexta-Feira Santa e abstêm-se de carne às sextas-feiras.
Os ortodoxos observantes não comem nada entre o jantar e o meio-dia (ou até às quinze horas) do dia seguinte. Carne, ovos, leite, laticínios e – para os mais radicais – até peixe ficam de fora do cardápio quaresmal que privilegia vegetais, lentilhas e papas de grão de bico, ervilhas ou favas moídas.
Durante a quaresma os ortodoxos celebram missa diária, de manhãzinha ou ao meio-dia. Durante o ano, os padres ortodoxos celebram a missa dominical a partir das duas ou três da manhã, podendo haver dias que haja missa na quarta ou na sexta-feira, dois dias da semana que lhes são particularmente caros e que, tirando o tempo pascal, são também de jejum obrigatório.
O hábito das missas durante a noite traz alguns inconvenientes públicos. Segundo a tradição ortodoxa na igreja podem entrar crianças e idosos além dos ministros sagrados: padres e diáconos mais os cantores. As pessoas sexualmente ativas ou ficam no recinto ou, em casos extremos, fora dele, embrulhadas num manto branco, porque se consideram impuras.
Aliás, os próprios padres – que por norma são casados – têm de se abster de sexo com as esposas na véspera da missa. Por isso, as celebrações sempre bem cantadas em gue’ez, a linguagem litúrgica etíope antiga, são transmitidas por altifalantes para serem acompanhadas por quem está no exterior do templo. E por quem queria dormir...
A vigília pascal dura a noite toda e tem na proclamação da ressurreição do Senhor o seu centro através de um hino próprio por volta da meia-noite.
De manhã, a celebração passa da igreja para a casa, do altar para a mesa de família.
O prato tradicional para quebrar o jejum no dia de Páscoa é o doro wot, galinha em molho. O galináceo é cortado em doze bocados e cozido lentamente num molho feito de óleo, manteiga, cebola picada, piripiri em pó e outras especiarias juntamente com alguns ovos. Um prato delicioso, mas gorduroso e picante, próprio para estômagos fortes.
Quanto a roupas novas, diz o provérbio que as indumentárias ou se estreiam na celebração do Timket, o Batismo do Senhor, ou se estragam depressa.

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