30 de maio de 2026

MISSÃO NA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

 


O papa Leão XIV publicou recentemente a sua primeira carta encíclica com o título Magnifica humanitatis (MH — Humanidade magnífica). Trata-se de um documento do âmbito da Doutrina social da Igreja, um hino que celebra a humanidade em todo o seu esplendor apesar dos desafios da cultura de poder (MH 188) que é feita de polarizações e violências (MH 185).

A missão, a dimensão fundamental e fundacional da vida cristã, não podia ficar de fora da encíclica «sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial», embora tratada circunstancialmente.


Poder ao serviço da missão

Na conclusão do segundo capítulo dedicado aos «Fundamentos e princípios da Doutrina social da Igreja», o papa americano faz uma reflexão sobre a Doutrina social da Igreja como teste e exame de consciência para a própria comunidade eclesial. 

«Para concluir, gostaria de abordar um ponto que me é particularmente caro. A Doutrina social não é apenas uma palavra dirigida à sociedade: é também um exame de consciência para a Igreja, casa e escola de comunhão, chamada sempre a averiguar se os princípios evocados neste capítulo são vividos, em primeiro lugar, dentro de si mesma» (MH 86), escreve.

A Igreja que ensina é também a Igreja que pratica, que quer ser laboratório dos próprios ensinamentos sobre a comunhão.

O papa fala da subsidiariedade como «critério de governo e de vida pastoral, que reconhece e apoia a responsabilidade dos fiéis e dos organismos eclesiais intermédios, valorizando os carismas e as competências, e evitando qualquer paternalismo que sufoque a liberdade evangélica» (MH 87). Também afirma que a «a solidariedade encontra a sua fonte no mistério de Cristo e alimenta-se da Eucaristia» (MH 88). 

A subsidiariedade e a solidariedade juntamente com o bem comum, a destinação universal dos bens e a justiça social formam os cinco esteios da Doutrina social da Igreja (MH 46).

Sobre a vivência da justiça no contexto eclesial, Leão XIV escreve: «viver a justiça na Igreja significa melhorar as relações e as estruturas eclesiais, eliminando as distorções que geram desigualdades, opacidades e prevaricações» (MH 89). Para acrescentar que «a escuta das vítimas de abusos espirituais, económicos, institucionais, sexuais, de poder e de consciência é parte integrante dum caminho de justiça, que inclui o reconhecimento do dano causado, a justa reparação e a prevenção» (MH 89).

Depois ajunta: «Todo o poder está ao serviço da comunhão e da missão. Toda a autoridade está ao serviço do povo de Deus» (MH 89). 

Estas duas frases redirecionam-me para o que o Papa Francisco de tão boa memória escreveu na Evangelii gaudium (EG — A alegria do Evangelho), o documento programático que lançou o seu pontificado. 

«Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo actual que à auto-preservação» (EG 27), escreveu o papa argentino. 

No pensamento do papa Leão, a missão qualifica também o modo do exercício eclesial do poder como serviço de comunhão e missão do povo de Deus. 

Por outro lado, a Igreja que vive em estado permanente de missão deve ser uma Igreja em permanente exercício de discernimento para uma missão mais frutuosa. 

«Devem promover-se formas regulares de avaliação do exercício das responsabilidades ministeriais, que não sejam um julgamento das pessoas, mas instrumentos de aprendizagem e de correção orientados à missão» (MH 89), preconiza Leão XIV.


Missão ao serviço dos mais pobres

Na linha dos seus antecessores, Leão XIV recorda que a «opção ou amor preferencial pelos pobres» — como escreveu São João Paulo II (MH 78) — é caminho obrigatório da Igreja, critério de discernimento da linguagem evangélica (MH 14), fonte de evangelização da própria Igreja (MH 42) e a partilha de bens é caminho para a missão.

«Esta diaconia manifesta-se não só na fé celebrada e vivida nos Sacramentos, e na aquisição de um estilo sinodal, mas também na partilha concreta dos bens: segundo o exemplo da Igreja primitiva, os recursos eclesiais são chamados a tornar-se verdadeiramente comuns, para que entre nós ninguém passe necessidade (cf. At 4, 34) e para que a sua administração apoie a missão de anúncio do Evangelho aos mais pobres» (MH 89).

Este é um ponto que quero sublinhar: a partilha dos recursos eclesiais — que são tantos e tão variados — passa pela sua comunização para que, à semelhança da primeira comunidade cristã, sejam postos em comum para que todos tenham o necessário para viver e para que apoie a evangelização dos mais pobres — que passa também pela sua promoção humana através da escolaridade, da saúde e da promoção da mulher.


Mundo digital: novo continente a evangelizar

Na conclusão da carta encíclica, e refletindo sobre a educação como investimento necessário para enfrentar os desafios da inteligência artificial, o papa Leão escreve: «Todos precisamos de nos formar para viver o mundo digital de forma humana, como parte integrante da educação na fé e na vida boa do Evangelho. Devemos educar-nos para considerar o mundo digital como um novo continente a ser evangelizado, e que requer missionários generosos e maduros na fé» (MH 238). 

Noto de que o documento conclusivo da primeira sessão do Sínodo sobre a sinodalidade falava dos missionários digitais, conceito que desapareceu do seu documento final. E neste parágrafo faria todo o sentido recuperar essa figura missionária do século XXI. 

Há uma geração inteira que mora no digital e que tem o direito de conhecer Jesus Cristo nesse espaço humano novo a que insistimos de apelidar de realidade virtual mas que, de facto, é o novo real para milhões de seres humanos. O papa afirma-o ao dizer que o digital é parte integrante da vida boa do Evangelho e que constitui o mundo novo a ser evangelizado por missionários provados.

A missão no digital tem de ir além dos tiktoks e das frases bonitas e beatas sobre Jesus e a fé cristã. Urge facilitar aos nativos do digital a experiência da liturgia, koinonia, diakonia e martiria (liturgia, comunhão, serviço e testemunho) —  os quatro elementos fundamentais da experiência cristã — lá onde vivem, no vasto e complicado mundo digital. A Igreja 3.1 — a Igreja eletrónica — é uma dimensão fundamental da missão da Igreja hoje e um direito dos nativos do digital.

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