Fotos Judy McCallum
Há uns trinta anos, as hienas costumavam atravessar à noite o terreno da missão de Qillenso. Hoje, com a vedação e a desflorestação, deixaram de aparecer. Mas continuo a não gostar delas. São malfeitas, cabeçudas, com os membros da frente mais compridos que os de trás, de cores sujas, donas de um uivo qual risada sinistra, vivendo da noite e de animais mortos. Porém, também são úteis.
Em Harar, a cidade mais islâmica da Etiópia no Leste do país e a quarta cidade santa do Islão — que dizem albergar 99 mesquitas dentro das suas velhas muralhas em honra dos 99 nomes de Alá — a hiena-malhada, o tipo maior e mais comum da família das hienas, vive uma relação pacífica de meio milénio com os moradores que abriram pequenas passagens para de noite os animais poderem entrar e limpar as ruas dos lixos descartados durante o dia. Mais, as pessoas acreditam que as hienas também consomem os jinn, os espíritos malévolos na tradição islâmica, limpando o ar da cidade.
Contudo, são os famosos homens-hiena quem transformou uma tradição antiga em atração turística. No passado, os moradores de Harar alimentavam as hienas com restos de carne para as afastar dos rebanhos. Além da dieta de animais mortos, estes carnívoros são ótimos predadores. Hoje, quando a noite cai, as bestas aparecem para comerem pedaços de carne espetados num pauzito que alguns homens seguram com os próprios dentes. Alguns turistas, mais afoitos, também pegam nos espetos de carne com a mão ou com a boca — para a foto e para o vídeo. E pagam…
Recentemente a CNN americana publicou uma reportagem interessante sobre as hienas-malhadas na Etiópia e os benefícios do seu trabalho noturno catando materiais orgânicos nas ruas e lixeiras, um contributo importante para a saúde pública.
O Dr. Gidey Yirga, que estuda as hienas de Mekelle, a capital do Estado regional do Tigré, há mais de quinze anos, calcula que, juntamente com abutres e cães vadios, elas processam mais de cinco mil toneladas de resíduos orgânicos por ano, representando uma poupança anual de quase 90 mil euros da parte dos serviços municipais. Cerca de 90 por cento desse trabalho de «reciclagem» cabe às hienas-malhadas.
O investigador explicou que as pessoas veem com bons olhos a presença destes carnívoros na cidade e arredores, embora durante o tempo da guerra entre 2020 e 2022 fossem forçados a atacar rebanhos para sobreviver.
As hienas-malhadas (as mais numerosas das três espécies destes mamíferos) vivem exclusivamente na África. Formam grandes clãs que podem ter de 80 a 100 elementos, lideradas por uma fêmea. As fêmeas — que medem até um metro e 70 e pesam entre 70 e 90 quilos — são maiores e mais poderosas que os machos. Os grupos mais numerosos encontram-se sobretudo nos parques de Serengeti (na Tanzânia) e Kruger (na África do Sul), mas são presença comum na savana africana. A pressão urbana e o desmatamento, aliados ao envenenamento e à caça por causa dos ataques ao gado, reduziram-nas para entre 27 e 47 mil animais.


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