MISSÃO: AMOR FEITO OBRAS
O Papa Leão, que sonha com uma «nova era missionária» e
quer reavivar e «renovar em nós o fogo da vocação missionária», preparou uma
mensagem para ajudar a viver o Dia Mundial das Missões, que este ano se celebra
a 18 de outubro. Escolheu o tema Um em Cristo, unidos na missão.
Mais que um slogan, é um sumário da teologia da missão.
De facto, a missão faz-se à volta de Jesus e como
comunidade dos batizados no nome da Trindade Santa de quem somos presença
misteriosa e amorosa no mundo. Daí que a missão seja sempre cristológica e
ecuménica na sua essência.
Um em Cristo
O papa americano recorda que «no centro da missão está o
mistério da união com Cristo». De facto, Jesus partilhou com os discípulos
missionários a sua missão durante a última ceia. Na oração sacerdotal Jesus
recorda ao Pai: «Assim como Tu me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao
mundo» (João 17, 18).
A missão não é uma atividade exclusiva dos institutos
missionários nem desígnio de missionários individuais, caçadores furtivos de
almas para o Reino. A missão é de Deus – que revela o seu amor trinitário
através da vida, da mensagem e da Páscoa de Jesus – e cada batizado participa
nesse serviço ao mundo.
Os padres conciliares do Vaticano II escreveram no
Decreto Ad gentes sobre a atividade missionária da Igreja que «a Igreja
peregrina é, por sua natureza, missionária, visto que tem a sua origem, segundo
o desígnio de Deus Pai, na “missão” do Filho e do Espírito Santo» (AG 2).
«Este desígnio brota do “amor fontal”, isto é, da
caridade de Deus Pai, que, sendo o Princípio sem Princípio de quem é gerado o
Filho e de quem procede o Espírito Santo pelo Filho, quis derramar e não cessa
de derramar ainda a bondade divina, criando-nos livremente pela sua
extraordinária e misericordiosa benignidade, e depois chamando-nos
gratuitamente a partilhar da sua própria vida e glória», continua o documento
Leão recorda, na mesma linha, que a missão da Igreja tem
por objetivo «tornar visível o amor de Cristo» ao mesmo tempo que faz um
convite «a um encontro com Ele». A Boa Nova que a missão oferece ao mundo é, no
dizer do papa, «o Evangelho do amor fiel de Deus, encarnado no rosto e na vida
de Jesus Cristo». Ou, por outras palavras, a grande missão evangelizadora «é
sempre obra do amor».
Daniel Comboni também sublinhou a centralidade
cristológica amorosa da missão. Nas Regras de 1871 escreveu: «[os
alunos] fomentarão em si esta disposição essencialíssima, tendo sempre os olhos
postos em Jesus Cristo, amando-o ternamente e procurando entender cada vez
melhor o que significa um Deus morto na cruz pela salvação das almas» (Escritos
2721).
Unidos na missão
O segundo elemento da mensagem do Papa – união na missão
– devolve-nos de novo à oração sacerdotal de Jesus: «Eu neles e Tu em mim, para
que eles cheguem à perfeição da unidade e assim o mundo reconheça que Tu me
enviaste e que os amaste a eles como a mim» (João 17, 23). Uma Igreja
dividida é um contratestemunho do Evangelho de Jesus.
Daí que o diálogo (ecuménico – com todos os batizados no
nome do Senhor – e inter-religioso – com todas as pessoas de boa vontade) seja
o caminho da Igreja missionária, hoje.
Dialogar a partir das tradições litúrgicas, teológicas e
da eclesiológicas não é fácil dadas as clivagens bem demarcadas entre as
Igrejas cristãs, que são históricas, culturais, cultuais e sociológicas. Até o
facto de eu ser solteiro era motivo de confusão para alguns pastores
protestantes no Sul da Etiópia nos anos noventa do século passado. Um deles
acusou-me de não crer na Bíblia por não cumprir o mandato de crescer e
multiplicar-me!
Daí que o papa escreva que «a evangelização se realiza
quando as comunidades locais colaboram entre si e quando as diferenças
culturais, espirituais e litúrgicas se expressam plena e harmoniosamente na
mesma fé».
Por isso, Leão vai mais além, encorajando «as
instituições e realidades eclesiais a fortalecer o sentido de comunhão
missionária eclesial e a desenvolve com criatividade formas concretas de
colaboração entre si para a missão e na missão». A Igreja do Sudão do Sul, que
servi durante sete anos, era uma igreja ecuménica. A guerra e a perseguição
uniam cristãos e muçulmanos na busca da paz.
Amor encarnado
O diálogo de vida, a partilha do compromisso pelo bem
comum, a encarnação do Evangelho da libertação hoje, sobretudo entre os
empobrecidos e descartados, é uma missão que não pede nem teologia nem
eclesiologia nem tampouco liturgia, mas amor encarnado, o amor da Trindade
Santíssima pelos últimos, encarnado em Jesus de Nazaré.
No fundo, como tanto o Concílio Vaticano II como Leão
afirmam, os batizados continuam a missão de Cristo, «uma missão que nasce do
amor, que se vive no amor e que conduz ao amor».
Daniel Comboni viveu a missão como uma relação esponsal
com os africanos. «O primeiro amor da minha juventude foi para a infeliz
Nigrícia» (Escritos 3156), proclamou na inspiradora homilia de Cartum,
para depois acrescentar: «Tende a certeza de que a minha alma vos corresponde
com um amor ilimitado para todo o tempo e para todas as pessoas» (Escritos
3158).
Esta manifestação da amorosidade de Deus faz-se de muitos
modos e de maneiras complementares: quer partindo, quer ficando, quer
partilhando a vida, a oração e os bens. «Admirando os missionários e as
missionárias, faço um apelo especial à Igreja: unirmo-nos todos a eles na
missão evangelizadora através do testemunho da vida em Cristo, da oração e do
contributo para as missões», convoca o papa.

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