«ÀS VEZES, BASTA ESTAR PRESENTE»
— O meu avozinho morreu. — diz-me uma criança pequena do nosso jardim de infância, numa aldeia beduína no deserto da Cisjordânia.
Palavras simples que me comovem. Como vive uma criança a
ausência de alguém que ama? O que significa, para ela, a morte?
Morreu Abu Yosef, chefe da comunidade, pai de vinte e
três filhos, pai e sogro de muitas das mulheres que bordam e avô de tantas
gerações de crianças que passaram pelo jardim de infância que acompanhamos há
anos. A sua família faz também parte da nossa história, dessa vida que
partilhamos, semana após semana, com as comunidades beduínas.
Quando chegámos à aldeia, um dos irmãos de Abu Yosef
recebeu-nos:
— Deus sabe melhor. Bendito seja.
É o segundo irmão que morre de ataque cardíaco. Nas suas
palavras, reconheço a fé de quem conhece a dor de uma morte repentina e, ainda
assim, se entrega a Deus.
O luto dura três dias. Quando chegamos, encontramos as
mulheres reunidas, vestidas de preto e sem maquilhagem.
Oferecem-nos café e tâmaras e convidam-nos a sentar junto
da família. Uma das filhas segura o Alcorão e lê em silêncio. Entre
recordações, lágrimas e silêncios, repete-se uma oração: Allah yerhamo. Que
Deus tenha misericórdia dele.
Sento-me junto de uma idosa, mãe de uma das mulheres do
falecido. Surpreendem-me a sua lucidez e a sua memória. Enquanto a escuto,
penso em quanta história e sabedoria guardam as vidas dos nossos anciãos.
Há apenas duas semanas, a família celebrava um casamento.
Hoje, partilha a dor da perda.
Do lugar onde estamos reunidas, vemos os homens a
preparar o mansaf em grandes panelas sobre o fogo. É a refeição que,
segundo a tradição, se partilha com a família e a comunidade no terceiro dia do
luto. A vida continua, e ninguém fica sozinho na sua tristeza.
Chegamos para acompanhar, mas também somos acolhidas e
aprendemos.
Talvez a missão seja precisamente isso: partilhar a vida
de um povo e sentarmo-nos junto de quem chora. Às vezes, basta estarmos
presentes.
Descansa em paz, Abu Yosef.
Allah yerhamo. Que Deus te acolha na Sua
misericórdia.
Ir. Cecilia Sierra,
Missionária Comboniana

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