4 de agosto de 2013

FÉRIAS MISSIONÁRIAS

©EValentini
Vinte e quarto jovens egípcios estão empenhados num campo de férias missionárias na diocese de Wau, Sudão do Sul.

Os jovens, com idades entre os vinte e os trinta, aterraram em Juba há duas semanas acompanhados por uma religiosa e três padres, incluindo o superior dos comboniaos no Egipto, e chegaram a Wau depois de dois dias num autocarro a pedir reforma.

Jeannette Fawzy explicou-me que os jovens foram enviados pela Igreja Católica do Egipto para partilhar a vida dos pobres, evangelizar as crianças e os jovens, ensinar árabe e administração, a área profissional em que a maior parte dos participantes  trabalha. Alguns são ortodoxos.

Ela explicou que o campo de férias de vinte dias foi preparado durante um ano com encontros cada dois meses e uma experiência de imersão nos bairros pobres do Cairo onde trabalharam com jovens marginalizados para se prepararem para as actividades em Wau.

Jeannette disse-me que estava muito emocionada sobre a participação no campo de férias missionário em Wau. Explicou que se preparou afincadamente para o campo missionário e queria partilhar a vida das pessoas com quem ia trabalhar.

18 de julho de 2013

CARTA ABERTA

Missionário Comboniano P. Fernando Zolli com ministra Cècile Kyenge

Membros da administração geral dos Missionários Combonianos escreveram uma carta aberta à Conferência Episcopal Italiana a pedirem uma tomada de posição sobre afirmações racistas de um alto dirigente político contra uma ministra italiana de origem africana.

Esta semana, o vice-presidente do senado italiano,  Roberto Calderoli, comparou a ministra da integração Cècile Kyenge a um orangotango. A ministra Kyenge é uma cidadã italiana de origem congolesa.

Os padres Mariano Tibaldo, Jorge Garcia, Arlindo Ferreira Pinto, John Baptist Opargiw, Arnaldo Baritussio e Enrico Redaelli escreveram uma Carta Aberta ao Presidente da Conferência Episcopal Italiana Cardeal  Angelo Bagnasco a pedir que a Igreja italiana chame à responsabilidade os políticos que usam frases racistas para conseguirem baixos dividendos eleitorais.

Os seis Missionários Combonianos dizem-se feridos com os «epítetos ofensivos» do político da Lega Nord, um partido de extrema-direita.

«Queremos que a Igreja italiana fale a uma voz contra este clima de ódio e de suspeita que está a tomar conta da vida política italiana e da convivência civil», escrevem.

Os signatários pedem que a “regeneração” moral e cultural da Itália encontre nos bispos «liderança segura, clara e forte.»

O comentário racista do senador teve grandes repercussões internacionais e causou uma onda de indignação na Itália. Circula na internet uma petição para a demissão do senador Calderoli que entretanto aprestou desculpas à ministra Kyenge.

16 de julho de 2013

DARFUR SEM FIM

Que se ouçam disparos aqui e além, de noite ou de dia, intermitentes e passageiros como muitas outras vezes os temos ouvido é banal e comum nestas terras. Porém, naquela noite de quarta para quinta-feira o tiroteio foi demasiado longo e não se esperava e muito menos se desejava que se transformasse numa tão assanhada batalha de vários dias. A parte central da cidade e o bairro de Malaja sofreram maiormente. Mas quase não houve lugar em Nyala que tenha escapado à violência militar naquela semana, de forma muito especial nos dias 4 e 5 de Julho de 2013.

Já tinha chegado a maioria dos alunos do curso de língua inglesa que funciona nas instalações da paróquia católica. Não houve tempo para sugestões nem anúncios mas também não foi necessário, pois num abrir e fechar de olhos o recinto ficou literalmente vazio. A mesma coisa aconteceu nas outras escolas da cidade, estabelecimentos ou instituições onde diariamente se juntam pessoas em grande número. As lojas, como também os muitíssimos e grandes mercados ao ar livre, seguiram o mesmo rumo: salve-se quem puder. Os cidadãos retiraram-se para dentro de casa, dando campo livre aos dois grupos rivais que tentavam eliminar-se mutualmente como crianças no jogo do esconde-esconde. Com a diferença fatal de que este era um jogo bélico verdadeiro em que as armas eram de fogo real. Além disso, acrescente-se que um grande número de pessoas também não foi poupado à despiedada crueldade dos soldados que destruiram e fizeram pilhagem das suas lojas e armazéns a seu bel-prazer.

Para nós os três missionários da comunidade comboniana a situação não foi diferente da do comum cidadão em Nyala. Optámos por não arriscar sair de casa, à espera que passasse a tormenta do tiroteio que se ouvia ora de mais longe, ora de mais perto ou mesmo a poucos metros de distância da missão, por vezes distinguindo-se também o som de armas pesadas.

Dois dias depois, quando o perigo pareceu ter diminuido consideravelmente, saí à rua, muito cautelosamente e com algum temor. Havia pouca gente e o mercado quase não tinha vida. Tinha apenas acabado de pagar o quilo das lentilhas à vendedeira quando esta se levantou de um salto e nos encontrámos com toda a outra gente correndo na direcção oposta donde viera o som da rajada de metralhadora.

Passados que foram cinco dias o som ameaçador da guerra tinha praticamente deixado de se ouvir. No entanto, o recolher obrigatório continuava em vigor desde as sete e meia da tarde até às sete horas da manhã. Tive ocasião de observar alguns dos sinais devastadores e profundamente tristes do pós-combate nas ruas de Nyala.  Paredes baleadas, vidraças estilhaçadas, mercados arrasados. Ambos os hospitais, o civil e o militar, ainda continuam a cuidar dos feridos mais graves, entre eles um grande número de civis inocentes. Ouve-se o lamento das mais de trinta famílias enlutadas. Já sem lágrimas para chorar, grita enraivecida a mãe duma criança atingida por fogo cruzado: “Não foi suficiente a miserável situação das doenças, da pobreza e da fome em que nos deixaram os janjauides e o seu ‘patrão’ de Cartum para, além disso, termos também agora de chorar os nossos mortos caídos em mais uma batalha sem sentido!”

O combate foi entre o exército das fronteiras – cujos membros foram sempre conhecidos por janjauides – e o exército da segurança nacional. Duas instituições governamentais sudanesas. O líder máximo dos janjauides, Ali Kusheib, um dos quatro criminais sudaneses indigitados pelo Concelho de Segurança da ONU foi atingido gravemente, permanecendo até hoje entre a vida e a morte.

No segundo dia do referido combate o vice-presidente do Sudão, Ali Osman Taha, chegou de Cartum a Nyala. Depois de várias horas entre discursos e reuniões de mesa redonda não conseguira produzir o desejado cessar-fogo. O governo sudanês continua a não poder ou a não querer (?) solucionar o colossal problema da região do Darfur que muita tinta e muito sangue fez correr. Quando se verá a solução deste velho conflito? Quem poderá trazer a paz? No profundo do meu ser ouço ecos da simplicidade e inocência de uma criança que, segura de si mesma, responde: Deus, porque Deus tudo pode. Porém, no diálogo com a mesma criança ouço também o próprio Deus que, carinhosamente, acrescenta: eu dei esse poder aos homens mas eles não têm tido vontade de o utilizar devidamente.

Engajada seriamente no diálogo com o Todo-poderoso, a criança comprometeu-se rezar para que os homens venham a ser pessoas de boa vontade e queiram trazer a paz ao Darfur. Deus apreciou a solidariedade humana daquele pequeno coração de ouro. Mas, por fim, despediu a criança com estas palavras: o teu modo de rezar faz-me muito prazer. Todavia, deixa que te ajude a completar o que falta à tua oração. E o pequeno coração de ouro escutou as palavras de Deus que disse: vai por toda a terra e fala aos responsáveis e políticos de todo o mundo. Ergue a tua voz e diz-lhes que me reservem um lugar nas suas conferências e reuniões de mesa redonda. Então sim, a paz irá chegar!
Padre Feliz da Costa Martins
Missionário Comboniano em Nyala – Darfur - Sudão

3 de julho de 2013

VIDA SELVAGEM

África continua a vender bem como destino turístico exótico e erótico para quem pretende uma experiência de vida selvagem.

Recentemente, uma agência de viagens mandou-me uma publicidade para participar numa expedição fotográfica de uma semana em tenda entre os Mundaris – onde os Combonianos têm uma missão – com o valor acrescentado de que aquele povo vive isolado e mantém as tradições, língua e roupas – ou a falta delas. Preço: 2230 euros.

O anúncio caracteriza de certa forma a oferta do turismo africano: experiências únicas e radicais entre povos e paisagens quase em estado puro, por um preço a condizer. Os turistas querem ver os grandes animais nas savanas, desfrutar das praias, monumentos, fazer experiências de imersão cultural e… sexo. O turismo sexual é mais forte nas praias da África Oriental, onde os europeus maduros, sobretudo italianos e ingleses, mulheres e homens, «alugam» um parceiro jovem local para passarem umas férias eróticas.

A África continua a atrair como destino turístico – em 2009 recebeu 58 milhões de visitantes – e os cinco países mais visitados são Egipto, África do Sul, Marrocos, Tunísia e Maurícias. Os visitantes vêm sobretudo da Europa e dos Estados Unidos, mas os chineses também começam a explorar as maravilhas africanas. Voos diretos entre Joanesburgo e Pequim ou Hong Kong ajudam.

A Organização Mundial do Turismo, uma agência das Nações Unidas, diz que a África foi uma das regiões turísticas que cresceram mais rapidamente na última década. Em 2012, o turismo africano cresceu cinco por cento, acima dos quatro por cento da média mundial.

A indústria turística e de viagens é um dos sectores vitais da economia africana. Emprega cerca de 7,7 milhões de trabalhadores – e, em 2011, gerou 36 mil milhões de euros. Metade do produto interno bruto das ilhas Seicheles e cerca de um terço do de Cabo Verde é gerada por fontes relacionadas com o turismo. O Ruanda, Uganda e RD do Congo fizeram mais de 173 milhões de euros com as excursões aos gorilas-das-montanhas.

A indústria turística africana enfrenta alguns desafios concretos: a Primavera Árabe – que também é africana, em 2011, gerou uma quebra de 12 por cento de visitantes no Norte de África. O continente necessita de investir na segurança, saúde, higiene, educação, infraestruturas, estradas e aeroportos para atrair mais visitas e tornar os aviões e o espaço aéreo mais seguros.

Especialistas dizem que a indústria tem de diversificar para atrair mais visitas ao continente, passando da oferta de safaris – uma das grandes atracções da África, de norte a sul, para um turismo de natureza e de cultura. A África é rica em paisagens únicas e diversificadas, em ecossistemas espectaculares que podem ser desfrutados através do ecoturismo. Na cultura, os festivais de cinema africanos estão a atrair mais e mais participantes. Os festivais podiam ser alargados a outras áreas culturas como a música, literatura, artes tradicionais e gastronomia, para mencionar apenas alguns sectores promissores.


O turismo interno é outro sector a explorar. A África é uma das economias mundiais em maior expansão e está a gerar uma classe média com bastante poder económico. Os operadores turísticos deviam aproveitar a maré para criar roteiros que favoreçam a africanidade.

1 de julho de 2013

BOA NOVA

© JVieira
A Rádio Good News – Boa Nova – está de novo no ar em Rumbek, a capital do Estado de Lakes, depois de três dias de «silêncio forçado.»

Na sexta-feira de manhã o Ministro da Informação do Estado de Lakes ordenou o seu encerramento alegando «falta de documentos para estar no ar.»

Fernando Colombo, o administrador da diocese de Rumbek, a proprietária da estação, disse que as razões eram diferentes: o Governo mandou encerrar a estação porque esta estava a ser «politizada.»

O Governo não gostou de uma notícia sobre a morte de um civil em circunstâncias estranhas detido numa prisão militar. Segundo testemunhas contactadas pela Good News o detido foi espancado até à morte enquanto que na versão do governo foi morto a tiro enquanto tentava fugir pela quarta vez.

Em causa também parece ter estado o tratamento a um membro do Governo entrevistado pela rádio a explicar a situação dos direitos humanos no Estado. A entrevista foi feita no seguimento de um relatório do Human Rights Watch que acusava o Governo do estado de ter mais de 100 civis detido sem culpa formada por longo tempo em prisões militares. O governante não gostou nem do teor nem das questões…

Lakes State vive uma situação complicada desde que em Janeiro o Presidente Salva Kiir demitiu o governador eleito Eng Chol Tong Mayay e nomeou para seu lugar Matur Chut Dhuol, um general à moda antiga que quer impor a ordem social à força da bala ou como alguém comentou «com a paz do cemitério.»

Para já decretou a «lei seca» e quem quiser uma cerveja tem que se dirigir a um dos três hotéis de Rumbek ou arriscar o «mercado negro.»

Também prometeu «crucificar» os jornalistas que falem mal da sua governação.

O mais interessante é que segundo a Constituição Interina o governador de transição tem 60 dias para organizar eleições, mas o General Chut está de pedra e cal. A desculpa do ministro da justiça John Luk Jok é que não há dinheiro para a Comissão Nacional de Eleições organizar o voto intercalar.

ÁRVORES

© JVieira
Os católicos da arquidiocese de Juba, no Sudão do Sul, foram convidados a plantar árvores em Julho e Agosto para celebrar a fé.

A iniciativa verde insere-se no calendário de atividades para a vivência do Ano da Fé que inclui encontros de formação e de oração.

Nicholas Kiri, pároco de Rejaf, explicou que a plantação de árvores evoca os anos de luta pela independência e as lutas pessoais para crescer.

Ele disse que também simboliza o renovamento da fé.

O padre Kiri convidou especialmente os pais das crianças que vão receber o batismo nestes dois meses que plantem uma árvore para marcar o evento.

Ele disse que no futuro vai ser interessante dizer aos filhos: vocês foram batizados no Ano da Fé e esta árvore marca o vosso batismo.

O padre Kiri convidou os sul-sudaneses a juntarem-se aos católicos de Juba e plantarem também uma árvore para simbolizar a esperança e a vontade de seguir em frente.

29 de junho de 2013

PADRE CAN


Joseph Can recebeu a ordenação presbiteral hoje em Gumbo.

O novo sacerdote dos Salesianos de Dom Bosco nasceu há 38 anos no Vietname.

A sua ordenação bateu um número de recordes: foi o primeiro padre ordenado pelo bispo auxiliar de Juba, Dom Santo Loku Pio, o primeiro vietnamita a ser ordenado no Sudão do Sul, o primeiro padre a ser ordenado na paróquia de São Vicente de Paulo em Gumbo.

O Padre Can estudou filosofia no país natal e fez uma experiência pastoral no Sudão. Cursou teologia em Nairobi, Quénia, antes de ser destinado ao Sudão do Sul.

Ele disse que foi uma grande graça ser ordenado no país de adopção, o lugar que ele escolheu para servir.

«Gostaria que alguns jovens que participaram na minha ordenação seguissem os meus passos», acrescentou.

A ordenação, que decorreu no pavilhão da escola primária, foi muito participada. O coro excedeu-se na animação.

Uma forte bátega de chuva com alguns trovões abençoou o evento.

No fim da ordenação fez um longo discurso de agradecimento a Deus pelo dom da vocação, à família pelo dom da vida, à família salesiana pelo acolhimento e apoio e a sem número de gente que fazem parte da sua história.

O padre Can vai ser o encarregado da pastoral das vocações nos dois Sudãos, onde os salesianos estão presentes.

No Sul têm comunidades em Wau, Tonj, Gumbo e Maridi.

A fundação de Gumbo, na margem leste do Nilo Branco a uns cinco quilómetros de Juba é recente. Em seis anos, já construíram três escolas: primária, secundária e técnica além de casas para três comunidades (salesianos, salesianas e Irmãs Caritas) e o salão multiusos da paróquia. 

O descampado à frente de Juba deu lugar a um complexo impressionante pelas dimensões e pela rapidez...

23 de junho de 2013

100 DIAS

Nesta semana o Papa Francisco completou cem dias de ministério petrino e continua a surpreender.
 
Jorge Mario Bergoglio foi eleito sucessor de Bento XVI enquanto eu andava em peregrinação pela terra que acolheu Daniel Comboni em 1858 no Sudão do SUl. Quando regressei a Yirol – e à ligação à aldeia global – a primeira coisa que me disseram foi: Habemus papam desde há dois dias. Eu ri-me e respondi: Ainda esta manhã rezámos pela eleição do novo papa!
Fui imediatamente à internet para ver o novo papa: gostei do sorriso franco e aberto, da escolha do nome – veio-a à mente a mensagem de Jesus ao outro Francisco uns séculos atrás: Repara a minha Igreja! – e o meu primeiro pensamento que foi que temos o bom Papa João XXIII de novo no Vaticano numa versão mais moderna e arrojada!
O Papa Bergoglio é o primeiro a escolher o nome Francisco, o primeiro Jesuíta a sentar-se na cadeira de Pedro, o primeiro papa da América Latina. Também é o primeiro a viver fora do palácio apostólico nos tempos modernos «para manter a sanidade mental…» Também deve ter sido o primeiro papa a telefonar ao vendedor de jornais para cancelar a assinatura e ao seu dentista a desmarcar uma consulta porque o Vaticano é longe de Buenos Aires.
O facto de ter escolhido oito consultores para o aconselhar no governo da Igreja é por si só um sinal claro de um papado mais colegial. A primeira missão que os cardeais receberam foi a de fazerem recomendações para reestruturar a cúria, uma reforma que precisa de ser feita para devolver a confiança à Santa Sé.
Também caiu muito bem celebrar a Ceia do Senhor com jovens detidos num reformatório e ter incluído algumas mulheres entre os doze apóstolos a quem lavou os pés. Uma era muçulmana! Agora devia introduzir acólitas e acólitos em São Pedro em vez dos monsenhores de cera que o servem… E continua a celebrar a missa diariamente como um bom pastor com partes do seu rebanho.
O Papa Francisco tem insistido na misericórdia e no amor de Deus e alertado os colegas eclesiásticos para a «lepra» do carreirismo. A palavra é dele. 
Depois de dois papados preocupados com a ortodoxia, temos agora um papa que quer salvaguardar o lado humanista da fé com mensagens simples que vão diretas mais ao coração e menos ao cérebro! As mensagens são claras: a Igreja é um espaço de comunhão e não de exclusão. E ele quer viver mais próximo do seu povo mesmo que ponha os guarda-costas à beira de um ataque de nervos.
E continua a tradição do Papa Bento com uma presença constante no Twitter. Apesar dos comentários desbocados que os seus tweets provocam. É impressionante o lixo e as obscenidades que lá escrevem!
Vamos a ver como vai correr a participação no festival mundial da juventude no Rio de Janeiro daqui a um mês: é a primeira visita ao estrangeiro e à sua América Latina natal,
E

13 de junho de 2013

REFUGIADOS


                                               Yida: Crianças da Pré-primária © JVieira
Yida, na parte norte do estado sul-sudanês de Unity, acolhe refugidos dos Montes Nubas, no estado sudanês do Cordofão do Sul, desde Agosto de 2011, depois de a guerra ter começado naquela região a 5 de Junho de 2011. Desde então, as tropas do Governo têm bombardeado sistematicamente alvos civis, incluindo aldeias, mercados, áreas agrícolas e rebanhos. Hoje o campo tem uma população de mais de 70 mil.
Visto do céu, o campo é uma coleção de pequenos pontos brancos e azuis espalhados por uma área de 38 quilómetros quadrados por entre esparsas árvores que restam do que era uma floresta espessa. As casas são feitas de paus e erva seca e coberta com plásticos fornecidos por agências humanitárias como a Samaritan´s Purse e as Nações Unidas. Algumas casas são de blocos de barro secos ao sol.
O campo é um espaço aberto, sem arame farpado. As crianças estão bem nutridas e limpas e são muito simpátricas. Há 20 mil em idade escolar que frequentam oito escolas primárias e uma secundária feitas de paus, palha e plásticos. Os da pré-primária contentam-se com a sombra de uma árvore. Um dos dez professores quenianos que ensinam os 270 alunos do décimo ano – a escola abriu em Janeiro – disse-me que os Nubas levam a educação muito a sério apesar da precariedade em que vivem.
Tanto o Governo do Sudão do Sul como o ACNUR, a agência para refugiados da ONU, querem mudar o campo para Ajuong, mais para sudeste. Razão? Yida está demasiado perto da fronteira – a um dia de caminhada – e não oferece segurança. Depois, Yida é ponto de passagem para as forças do SPLA-North que combatem o Governo de Cartum, e que recrutam entre a população jovem dos refugiados.
O Governo ordenou ao ACNUR para parar de registar novos refugiados a partir de 4 de Abril para forçar as pessoas a irem para Ajuong. Mas os refugidos vão ficando por Yida mesmo que não possam receber comida e outras ajudas porque não estão registados. Um agente humanitário disse-me que já há 3000 pessoas a viver da comida que recebem de familiares e amigos. Casos de malnutrição começam a aparecer. A falta de comida pode vir a trazer violência e banditismo ao campo! Toda a gente sabe onde a comida está guardada e os famintos podem ser tentados a saquear as mais de 30 tendas gigantes com comida para 100 mil pessoas até final de Dezembro.
O campo também precisa de mais 500 latrinas para reforçar a saúde pública durante a estação da chuva, que já começou. As cerca de 2000 latrinas contraídas não chegam para as necessidades e a diarreia e a hepatite E são recorrentes durante as chuvas por falta de condições sanitárias.
Ajuong – que abriu em Março – tem cerca de 1,200 residentes, a maioria rapazes dos 18 aos 20 e poucos que são pagos para cavar latrinas e preparar outras estruturas no novo campo. Os residentes de Yida não querem nem ouvir falar da mudança: dizem que lhes custou muito trabalho chegar a um acordo sobre a partilha de água, lenha e outros recursos naturais com a comunidade local e não querem ser guardados pelos soldados sulistas que têm fama - e proveito - de más maneiras.

2 de junho de 2013

CALE-SE


Cale-se quem nunca soube o que é a guerra nem viu nem ouviu nem sofreu os seus efeitos!
Cale-se quem só ouviu o Sr. El Bashir e os seus amigos e não deu ouvidos aos soldados que sucumbem nas trincheiras, aos civis e inocentes que (nestes dois primeiros meses após os memoriais dez anos do conflito do Darfur) morreram não de morte natural mas de morte matada e muito violenta!
Cale-se quem não sabe que os hospitais do Darfur e os campos de refugiados de Utash, El Salam, Idreij, Kalma estão a encher-se, a arrebentar pelas costuras e a expandir pelo deserto fora a cada momento (falo com conhecimento de causa, tudo estes aqui pertinho de mim, em Nyala. E que será de todos os outros campos... à volta de uma centena?)!
Já agora, deixa-me comentar isso do medo ou do susto. Mais do que medo sinto raiva com sintomas de paralisação, impotência de um menino perante um gigante, o Colosso. Isto é mesmo muito mau sinal, que já não me tenham conseguido assustar nem meter medo nem a mim nem aqueles com quem eu estava à tarde. Nem sequer comentámos. Não, minto, um deles disse, enquanto os seus olhos ainda fixavam o céu sonoro e rompante: "O que é que se pode fazer ou dizer a isto!?" O outro respondeu: "Nada". E voltando-se na direção do grande areal de treinos do quartel de infantaria, concluiu: "Está vazio, hoje não há ninguém, estão todos para lá."
E note-se que estes dois são militares, colegas de todos os que estão para lá (sudaneses aqui do norte e não sudaneses do sul), que por acaso se encontravam uns dias de férias. Eram as 6h00 da tarde e encontrava-me em casa do ex-sargento sulista António Creb que me tinha convidado para um pequena festa de reconhecimento do seu filho Solomon que ficou aprovado no exame do oitavo (e último) ano do ensino básico.
Não lhes perguntei onde era o lugar da batalha, nem falei com mais ninguém até chegar a casa pois diga-se a verdade, tinha uma certa pressa porque se aproximava a hora do recolher obrigatório. Curiosamente, não tinha medo mas mais bem sentia um certo receio de ser encontrado a transgredir a lei marcial em que o castigo pode ser a expulsão da região ou do país.
P.e Feliz Martins, Missionário Comboniano no Darfur - Sudão

30 de maio de 2013

GRANDE MURALHA VERDE



Os Chineses construíram a Grande Muralha para protegerem o Império do Meio das hordas invasoras. Os Africanos estão a plantar a Grande Muralha Verde para parar o deserto e combater a pobreza.

O programa envolve onze países africanos e pretende contrariar os efeitos da desertificação com um corredor de sete mil e setecentos quilómetros de comprimento e quinze de largura de vegetação diversa começando no Senegal e passando pela Mauritânia, Mali, Burkina Faso, Níger, Nigéria, Chade, Sudão, Etiópia e Eritreia e terminando no Jibuti cobrindo uma área de mais de 11,5 milhões de hectares.
Os povos que vivem na orla dos desertos do Sara e Sahel testemunharam mudanças profundas do clima no último quarto de século com secas prolongadas e baixa de precipitação, o que afectou e empobreceu os modos de vida tradicionais.
O ex-presidente Olusegun Obasanjo da Nigéria foi o pai da ideia da Grande Muralha Verde em 2005, que Abdoulaye Wade do Senegal apadrinhou. Em 2007, a União Africana apoiou a decisão de construir o grande muro e três anos mais tarde os onze países envolvidos no grande empreendimento ecológico assinaram a Convenção de Nedjadema pela qual criaram a Agência da Grande Muralha Verde.
A plantação de vegetação tem duas vantagens: segura os ventos secos e arenosos do deserto e mantém a humidade da terra e do ar, favorecendo as chuvas e a agricultura. O muro vegetal vai baixar a erosão, favorecer a biodiversidade e controlar as mudanças climáticas.
O Senegal já iniciou a plantação da cintura verde e os agricultores já colhem frutos e vegetais na sequência da reposição dos ecossistemas originais que a agricultura intensiva, a criação de gado, a desflorestação e as secas destruíram dando lugar às dunas do deserto.
A Grande Muralha Verde é um projecto caro: a factura deve chegar aos dois mil milhões de dólares. Mas é um investimento que vai fazer a diferença para as comunidades que vivem nas margens do Sara e do Sahel. O deserto já cobre dez por cento da área da África e tende a crescer a sul.

GUARDADORAS DA ESPERANÇA

— Eu não consigo… não consigo! – repetia sempre Reem, uma jovem beduína palestiniana de 16 anos, sempre que a convidávamos para aprender a u...