24 de março de 2012

CORRIDA


A corrida das rádios de Juba vista pelo cartoonista do Citizen
South Sudan Radio é a estação do Governo: velha e mal equipada. 
Rádio Bakhita, da arquidiocese de Juba, e Miraya, da operação de paz das Nações Unidas são líderes de audiências em Juba. 
A Bakhita foi começada e desenvolvida por Cecilia Sierra, uma freira comboniana do México que entretanto regressou ao seu país. 
Desde Dezembro, o novo diretor é um leigo sul-sudanês, Albino Takwaro, com longa experiência na gestão de estações FM privadas.
Eu tive um papel ativo durante os primeiros três anos da estação. 
Com a abertura das novas estações da Rede de Rádios Católica, deram-me um espaço próprio para montar a redação central.
Neste momento, faço parte de um painel que faz análise política na concorrência – a Miraya, que em árabe quer dizer espelho. 
Às sextas à tarde, durante 45 minutos passamos em revista a semana política no Sudão do Sul. 

14 de março de 2012

GESTOS


Tenho um carinho grande por este jornal: Não traz nada de especial mas é muito especial.
Passo a explicar.
Ontem fui cobrir uma conferência de imprensa que não chegou a acontecer. Normal em Juba!
Ao sair do recinto dos ministérios, vi um homem idoso a vender jornais. Pedi uma cópia do Citizen, um diário em língua inglesa publicado pelo camarada Nhial Bol em Juba. 
Queria pagar as duas libras sul-sudanesas (€0,50) mas não havia maneira de encontrar a carteira. Tinha-a deixado na redação.
Quis devolver o jornal ao vendedor mas ele fitou-me com um olhar sorridente e disse: «Leva-o!»
Um gesto de bondade a assinalar em Juba!

6 de março de 2012

SOLIDARITY



Asmara-Eritrea: Catholic Cathedral

 The Provincials and Delegates of English Speaking Africa and Mozambique (APDESAM), gathered in Nairobi from the 27 February until the 4 of March, have written a letter to the confreres of Eritrea as sign of solidarity.

LETTER OF SOLIDARITY TO THE CONFRERES OF ERITREA

The Lord said: I have seen how cruelly my people are being treated in Egypt; I have heard them cry out to be rescued from their slave drivers. I know all about their sufferings, and so I have come down to rescue them from the Egyptians (Ex. 3:7-8)

Dear confreres of Eritrea,

Gathered in Nairobi for the annual meeting of APDESAM and listening to the reports about the political and social situation of the countries where we are called to carry out our missionary service, we were struck in a special way by the situation of Eritrea. The cry of the people of Eritrea and of our confreres in this situation of suffering was brought to us by the delegate who challenged us to do something in order to help you in this moment of darkness and deprived of hope for a better future.

We tried to understand your situation although we are very much aware that we can do little to find concrete answers to your cry. We turned to God in prayer and we decided to write this letter to you, conscious that it will bring little relief to all of you. However, following the example of Comboni who looked into the situation of Africa in the light of faith, we are fully convinced that suffering and death will bring new life and resurrection to all of you and to your people. Our short history as Comboni Missionaries shows us also that in the end, after terrible moments of suffering and death, a new era of peace and life in abundance will take place. Life and resurrection will prevail over death and defeat; love will overcome hatred and contempt.
In this moment you are called to feel in your flesh the paschal mystery in its face of defeat, weakness, abandonment and loneliness. We invite you to be together, to keep strong the sense of belonging to a larger family which lives this moment in deep solidarity with you. In similar situations what counts more is not the much you can do or achieve, but simply being present and making common cause with the people of Eritrea.
Fully convinced of the power of prayer, we turn to God, joining your plea for help with the certitude that God is at hand and he is suffering and struggling with you, looking forward to the ending of this terrible situation.
May the intercession of St. Daniel Comboni who gave his life for the regeneration of Africa bring you consolation and hope and an end to your suffering.
We keep you in our friendship and prayer.

The members of the APDESAM,

Julio Ocana, Angelo Giorgetti, Daniele Moschetti, Paul Annis, Jose Luis, Joseph Maina, Sylvester Hategekimana, Dario Balula,  Jeremias Martins, Tesfaye Tadesse, Tesfamariam Ghebrechristos.

4 de março de 2012

PETRÓLEO MALDITO



Exploração de petróleo em Thar Jath (Sudão do Sul) © JVieira

A Nigéria, o país mais populoso de África, parou durante vários dias no princípio do ano, e as relações entre o Sudão e o Sudão do Sul chegaram ao ponto de ruptura algumas semanas mais tarde. Duas histórias a milhas de distância mas com um denominador comum: o petróleo.

A Nigéria é o segundo maior produtor de petróleo em África, depois de Angola. Produz 1.9 milhões de barris de crude por dia, mas precisa de importar 85 por cento dos combustíveis que consome, porque, apesar dos incalculáveis milhares de milhões de dólares que arrecadou com a exploração do ouro negro, nunca construiu as refinarias de que precisa para abastecer a população. Em Janeiro, o governo de Goodluck Jonathan decidiu acabar com o subsídio à gasolina e os preços duplicaram de 75 para 150 nairas (em euros, mais ou menos de 40 para 80 cêntimos). Os sindicatos decretaram uma greve geral que paralisou o país, e ao fim de uma semana o governo teve que baixar o preço para cerca de 100 nairas para restabelecer a tranquilidade.

O petróleo representa a maior fonte de rendimento do Sudão (65 por cento) e do Sudão do Sul (98 por cento). Quando o Sudão do Sul proclamou a independência a 9 de Julho, os governos de Cartum e de Juba ainda não tinham negociado a questão do petróleo. O Sudão perdeu 75 por cento das jazidas, e o Sudão do Sul precisava de utilizar a infra-estrutura dos vizinhos do Norte para colocar o crude no mercado internacional. Juba ofereceu a Cartum uma ajuda económica de mais de dois mil milhões de euros, faseada ao longo de quatro anos para compensar o Sudão pela perda de rendimentos mais 60 cêntimos do euro por cada barril de petróleo que exportasse, mas por seu lado Cartum exigiu 30 euros. Os mediadores da União Africana não conseguiram que as partes chegassem a acordo, e o governo de Cartum começou a confiscar o crude do Sudão do Sul. O governo considerou a situação intolerável e decidiu suspender integralmente a extracção, até chegar a um acordo com o Sudão e construir um oleoduto para Lamu, um porto queniano no Oceano Índico, que por enquanto existe só no papel.

A ONU tem pressionado as partes para chegarem a um acordo e evitarem uma tragédia humanitária de grandes dimensões. O presidente sudanês Omar al Bashir já ameaçou com a guerra e Valerie Amos, a encarregada dos assuntos humanitários da ONU, alertou que, sem o petróleo, o governo do Sul e os seus parceiros não serão capazes de responder às necessidades básicas da população. Sem a extracção de petróleo não há dinheiro para pagar a funcionários ou fornecedores.

Apesar de o petróleo poder ser uma bênção – a Noruega criou um fundo para promover o actual bem-estar social e prevenir o das gerações futuras, na eventualidade de as jazidas virem a esgotar-se – em África tende a ser uma maldição. Angola, Nigéria, Líbia são casos emblemáticos. A indústria petrolífera gera milhões de euros diariamente mas a maioria da população vive em pobreza abjecta, porque a classe política (e militar) controla e canaliza os lucros para as suas contas pessoais. Dois terços dos 160 milhões de nigerianos vive com menos de €1,00 por dia apesar de o país produzir 1.9 milhões de barris de crude diários.

África, onde existem 19 produtores de petróleo, não pode tolerar a perpetuação de práticas de corrupção e nepotismo. Um continente onde coexistem formas extremas de pobreza e de ilegítima riqueza necessita urgentemente de transparência, na prestação pública de contas e na gestão da indústria petrolífera, desde a assinatura dos contratos até à comercialização. E é preciso, igualmente, pôr fim aos desmandos das multinacionais do petróleo, que não só corrompem e pactuam com os corruptos, como contribuem para degradar ainda  mais as condições de vida dos africanos. Porque são as comunidades locais, ou seja quem pouco ou nada beneficia com o negócio, quem sai sempre a perder. Pois estão sujeitas a todo o tipo de arbitrariedades: desde as deslocações em massa, que lhes roubam as suas terras ancestrais, para abrir espaço à instalação dos poços, até aos constantes derrames causados por estruturas mal concebidas, com escassa manutenção e vigilância, responsáveis pela contaminação dos rios, do mar, dos solos e do ar que respiram.

29 de fevereiro de 2012

TOMBE


No domingo fui celebrar à minha comunidade preferida: a capela de São Marcos. Fica junto ao rio a meia dúzia de quilómetros do centro de Juba por uma picada coberta de pés de manga.
A maioria das pessoas da comunidade pertencem à etnia Bari, o grupo maioritário de Juba. Como não falam inglês, comprei o missal Bari e leio partes da missa nessa língua. 
A homilia é em inglês – claro está – e traduzida por um jovem sorridente para a sua língua.
A comunidade é formada na maioria por jovens – sobretudo bonitas moças – e crianças.
Cantam muito bem.
No domingo,  no final da missão, um sultão (chefe tradicional) pediu a palavra. Elogiou o modo como leio o missal Bari – sem gaguejar (deve ser surdo, coitado) – e disse que eu merecia um nome novo:  Tombe, Primogénito! Abuna Joseph Tombe! Sem mais.
Vamos a ver se este padrinho de última hora me vai dar as amêndoas na Páscoa. 
Mas gostei do nome que partilho com o meu amigo Emmanuel Tombe, um dos apresentadores da Rádio Bakhita.

1 de fevereiro de 2012

PULMÃO DA HUMANIDADE

©SAmado

Bento XVI pinta o continente africano, na Exortação Africae Munus (O Serviço da África), com pinceladas rápidas mas expressivos: exalta a coragem e dignidade dos africanos; a sua alegria e capacidade de celebrar a vida; o seu júbilo de viver, radicado numa visão holística que engloba as pessoas, os seus antepassados, as crianças por nascer, todos os seres e toda a criação. O Papa escreve que a África deseja ter confiança em si própria e na sua dignidade, mas sublinha que representa um imenso “pulmão” espiritual para toda uma humanidade que atravessa actualmente uma crise de fé e de esperança.
É evidente que o Papa também aponta o dedo aos males da África. Mas, no essencial, o quadro que traça contrasta profundamente com a África miserabilista e esquelética que alguns meios de comunicação teimam em fazer passar. É caso para dizer: faz mais barulho uma árvore a cair que uma floresta inteira a crescer. Aliás, a visão optimista de Bento XVI é confirmada pela actual realidade económica do continente.
Em Dezembro passado, o jornal britânico The Economist publicou um interessante artigo, intitulado “Um continente com esperança: África cresce”. O articulista frisa que, na última década, seis dos dez países que encabeçam a lista do crescimento económico são africanos, e realça que o continente cresceu de forma mais rápido que a Ásia Oriental, incluindo o Japão. As razões são várias: os recursos naturais geram mais riqueza, a população continua a crescer, a indústria e os serviços desenvolvem-se, e a classe média com maior poder de compra também aumenta.
O despertar do leão africano é também produto do investimento da China, Brasil e Índia – as potências emergentes, protagonistas do que actualmente se chama cooperação Sul-Sul –, e de outros países que também estão a investir na industrialização do continente. Registaram-se entretanto grandes progressos no sector das tecnologias da comunicação: os africanos têm mais de 600 milhões de telemóveis, e usam-nos não só para conversar mas também para fazer transacções comerciais, o que abre perspectivas para novos negócios; por outro lado, mais de dez por cento deste imenso continente está coberto pela internet. Verificaram-se também grandes avanços no campo da saúde, especialmente na luta contra a malária; e graças a soluções simples e baratas, que passam pela distribuição de redes mosquiteiras tratadas com insecticida.
O artigo conclui que o renascimento africano se deve também a alguns progressos em termos da redução dos conflitos, a uma melhor governação e à democratização do ensino. É claro que, nestes aspectos, o cenário continua a não ser o ideal. É impossível ignorar que alguns dos maiores estigmas da África permanecem: a corrupção, a desertificação, a pobreza, a violência. Mas a mensagem de esperança mantém-se, mesmo assim: o continente africano não é só um dos pulmões da Igreja mas também da economia, num período em que o mundo se encontra mergulhado numa profunda crise.
Para continuar a progredir, a África precisa sobretudo de paz e de que a deixem tomar as rédeas do seu destino, ou seja, de assumir o controlo do seu desenvolvimento. Para tal, é preciso que as potências estrangeiras deixem de fomentar conflitos e de vender armas ao desbarato às várias facções em confronto. O que, no fundo, a torna num palco de lutas por procuração pelo controlo e exploração dos seus vastos recursos.

ROSAS DO DESERTO


31 de janeiro de 2012

LIVRES

Dois padres da arquidiocese de Cartum foram libertados ontem à tarde depois de duas semanas de detenção por rebeldes sul-sudaneses.
O bispo auxiliar de Cartum, Dom Daniel Adwok, disse que os padres Joseph Makwey Mathod e Silvestro Mogga estão bem mas precisam de cuidados médicos.
Os dois sacerdotes foram raptados a 14 de Janeiro na paróquia de Kenana, na zona pastoral de Kosti, e levados para Kweik juntamente com dois jipes e alguns haveres da casa paroquial.
Os raptores – rebeldes Shilluk – exigiam 500 mil libras sudanesas – 100 mil euros – para libertar os padres.
Dom Daniel disse que a arquidiocese não pagou nenhum resgate.
Ele explicou que a Igreja apresentou uma queixa-crime contra os sequestradores e a polícia estava a interrogar os dois sacerdotes sobre o rapto e a detenção.
Um mês atrás, um missionário comboniano ugandês foi raptado por um grupo de rebeldes Nuer e libertado dois dias mais tarde juntamente com um casal sudanês.
O governo de Cartum permite que grupos rebeldes do Sudão do Sul operem em impunidade total, sequestrando jovens sulistas das universidades de Cartum para serem treinados como rebeldes ou resgatados por dinheiro pelas famílias. 
Os rebeldes também roubam viaturas com matrículas do Governo do Sudão do Sul levadas para o Sudão durante o período de transição que preparou o referendo de auto-determinação.

22 de janeiro de 2012

Rede de Rádios Católica (CRN), nove estações ao serviço da vida no Sudão do Sul
e Montes Nubas.

20 de janeiro de 2012

PETRÓLEO

O Governo do Sudão do Sul decidiu hoje em conselho de ministros suspender a produção de petróleo depois de mais uma ronda de negociações sem frutos entre os governos de Juba e Cartum em Adis Abeba sobre as tarifas pelo uso da infra-estrutura sudanesa.
O porta-voz do Governo sul-sudanês, Barnaba Marial Benjamim, disse que o gabinete decidiu suspender a produção de petróleo e o processo fica concluído dentro de duas semanas.
Juba e Cartum não se entendem sobre as tarifas que o Sul tem que pagar ao Norte para exportar o crude através do oleoduto que liga os campos petrolíferos nos estados de Unity e Upper Nile ao porto de Port Sudan, no Mar Vermelho.
As negociações estão paradas e as delegações acusam-se mutuamente pelo bloqueio.
Cartum preferia administrar a venda do crude do Sudão do Sul ou cobrar 35 dólares por cada barril exportado enquanto Juba quer pagar 74 cêntimos do dólar por barril – mais próximo das tabelas internacionais – e compensar Cartum com 2.6 mil milhões de dólares pela perda de entradas.
Juba já tinha ameaçado parar com a extração de petróleo, mas parece que desta vez é a sério.
Com um senão: 98% das entradas do governo sulista vêm da venda de petróleo – o ano passado fizeram mais de 3.1 mil milhões de dólares – e agora como vão manter os cofres do estado a funcionar?

16 de janeiro de 2012

NEGOCIAÇÕES

Tharjath (Unity State) – produção de crude ©JVieira


Os Governos de Juba e Cartum começam amanhã em Adis Abeba, a capital etíope, mais uma ronda de negociações sobre assuntos pós-independência numa altura em que as relações bilaterais estão cada vez mais escorregadias devido ao petróleo.
Os delegados dos dois países devem negociar durante uma semana os dossiers difíceis do petróleo, marcação de fronteiras, enclave de Abyei e o estatuto dos sulistas a viver no Sudão depois de uma alta delegação chinesa ter visitado as duas capitais.
Cartum está a exigir a Juba uma taxa de 35 dólares por cada barril de crude que o Sudão do Sul exporte através da sua infra-estrutura: oleoduto e porto de Port Sudan.
Juba, seguindo o conselho do Painel da União Africana, prefere dar uma assistência económica de 2.6 mil milhões de dólares a Cartum para compensar a perda das entradas do petróleo – o Sudão só produz um quarto do petróleo que exportava antes da independência do Sul – e pagar 74 cêntimos do dólar por cada barril. O preço médio mundial ronda os 40 cêntimos.
Na semana passada, o Governo sudanês obrigou uma empresa chinesa a carregar um navio do Sudão com 650 mil barris de crude do Sul no valor de 650 milhões de dólares sem autorização de Juba. Cartum justificou o ato como uma compensação pelas facturas que Juba não tem pagado para exportar o petróleo devido à falta de acordo entre as partes.
O estatuto de 700 mil sulistas a viver em Cartum e arredores é outro assunto a necessitar de um acordo urgente de ambas as partes. A 9 de Abril, termina o período de graça para os Sulistas a viver no Sudão e não se sabe como Cartum vai reagir.
António Guterres, o homem forte da agência da ONU para os refugiados, visitou Juba e Cartum na semana passada e pediu aos dois governos que encontrassem uma solução dignificante para transportar os sulistas que queiram regressar a casa. Atualmente têm sido transportados de barcaça e de comboio e os casos mais delicados de avião.
O Alto-comissário para os Refugiados pediu a Cartum que atribua documentos legais aos sulistas que pretendam ficar no Sudão como nacionais ou emigrantes.
O traçado final das fronteiras também necessita de um acordo rápido. Oitenta por cento dos mais de 2.000 quilómetros já estão negociados, mas as zonas em falta são ricas em petróleo, água, pastagens, ouro e outros minerais e por isso apetecidas e reclamadas por ambas as partes.

12 de janeiro de 2012

NOBEL DA PAZ

©JVieira

O bispo católico El Obeid (Sudão) encontra-se entre os candidatos ao Prémio Nobel da Paz 2012.
Macram Max Gassis foi proposto para o mais alto galardão Nobel pelo deputado centrista José Ribeiro e Castro em reconhecimento pela luta corajosa que o bispo sudanês tem travado contra a descriminação de cristãos no seu país através de um longo testemunho de coerência, tenacidade e coragem.
Dom Macram nasceu em Cartum há 73 anos e é Missionário Comboniano.
Foi nomeado administrador apostólico da diocese de El Obeid em 1983 e bispo em 1988.
Em 1990, Dom Macram seguiu o caminho do exílio depois de o governo de Cartum o ter posto em tribunal no seguimento do seu testemunho no Congresso dos EUA sobre atrocidades cometidas pelo governo sudanês contra o seu povo.
Dom Macram vive desde então em Nairobi, Quénia, e decida-se à assistência pastoral e social de um número de paróquias nos Montes Nuba (do Sudão) e do Estado de Warrap (no Sudão do Sul).
Além de um número de escolas nas duas áreas, o bispo apoia um hospital com 200 camas em Gidel (Montes Nuba) e uma estação de rádio na mesma localidade.

10 de janeiro de 2012

SOLIDARIEDADE

António Guterres com Lise Grande, coordenadora humanitária da ONU © JVieira

O Alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) terminou hoje uma visita de três dias ao Sudão do Sul com um apelo à comunidade internacional para assistir o país mais jovem do mundo com apoio humanitário massivo.
António Guterres esteve três dias No Sudão do Sul para marcar o sexto aniversário da presença da ACNUR na região.
O ex-primeiro ministro português visitou os retornados apinhados no porto de Juba, sob os pés de manga, à espera que as autoridades lhes atribuam uma parcela de terra.
Também vistoriou um campo no norte do país para se inteirar das dificuldades com que os refugiados sudaneses dos estados do South Kordofan e Blue Nile se deparam.
Esta manhã, antes de partir para Cartum para uma ronda de conversações com as autoridades sudanesas sobre o futuro dos cerca de 700 mil sulistas a viver no Sudão e sobre a assistência humanitária aos deslocados da guerra civil, Guterres lançou um apelo à comunidade internacional para que seja solidária com o Sudão do Sul.
O alto-comissário disse que o país tem em mãos uma enorme crise humanitária com cerca de 900 mil pessoas entre refugiados, retornados e descolados internos a necessitarem de ajuda imediata.
Guterres pediu também aos governos de Juba e Cartum para que cooperem em ordem a encontrem uma solução dignificada e que respeite os direitos humanos para transportar as centenas de milhares de sulistas que vivem no Sudão e que querem voltar a casa.
Ele disse que os problemas humanitários requerem soluções políticas.
Guterres louvou as autoridades e as comunidades do Sudão do Sul por terem generosamente acolhido mais de 75 mil refugiados sudaneses nos estados de Unity e Upper Nile apesar das dificuldades com que se debatem.

9 de janeiro de 2012

DE BRANCO PELA PAZ



© JVieira
Centenas de pessoas desfilaram hoje pelas ruas de Juba vestidas de branco pela paz.
A marcha inseriu-se nas comemorações do sétimo aniversário da assinatura do acordo de paz que pôs termo à guerra civil no sul do Sudão e abrir as portas para a independência do Sudão do Sul.
A iniciativa deveu-se ao grupo Concerned Citizens X South Sudan – Cidadãos Preocupado X Sudão do Sul – que nasceu há uma semana na sequência de mais um recontro sangrento entre duas tribos no Estado de Jonglei que matou mais de 2.000 pessoas e afectou outras 60.000.
O grupo apelou para que os cidadãos se manifestassem pela paz e contra os recontros étnicos, comuns no Sudão do Sul e está a recolher ajudas para os afectados pelos violentos combates no condado de Pibor, no leste do Estado de Jonglei.
UNOCHA, que coordena a ajuda humanitária, anunciou que está a montar a operação humanitária mais cara e complexa para ajudar as vítimas dos recontros étnicos no Estado. As estrada daquela zona do Sudão do Sul estão em muito mau estado e a ONU tem que montar uma ponte aérea para socorrer a população.
O Comissário do Condado de Pibor, Joshua Konyi, disse-me esta manhã que sete pessoas morreram de fome porque há cinco dias que não há comida para distribuir entre as pessoas que estão a regressar do mato – onde se esconderam – à cidade de Pibor.
Mais de 6.000 jovens da tribo Lou-Nuer atacaram o território da tribo Murle no início do ano semeando a morte e a destruição. O conflito entre as duas tribos vem de longe e tem dado origem a ondas de vingança e contra-vingança que fez milhares de vítimas.

29 de dezembro de 2011

PAPA REZA PELO SUDÃO DO SUL


O Papa rezou pelo Sudão do Sul durante a bênção a Roma e ao Mundo no Dia de Natal numa mensagem com a África no coração.
Bento XVI rezou para que o Nascimento do Redentor assista o povo do Sudão do Sul no empenho para defender os direitos de todos os cidadãos.
Ele pediu ao Menino Jesus para dar estabilidade política à Região dos Grandes Lagos da África.
O Papa pediu a ajuda de Deus para assistir os povos do Corno da África, que – como ele disse – sofrem fome e falta de comida, agravada por um estado de insegurança persistente.
O Santo Padre pediu à comunidade internacional para oferecer assistência aos muitos deslocados pela carestia.
Bento XVI disse aos milhões que o seguiram pela TV e aos milhares que se juntaram na Praça de São Pedro, no Vaticano, que Jesus trouxe ao mundo uma mensagem universal de reconciliação e paz.
Ele desafiou as pessoas a abrirem o coração a Jesus para o receberem nas suas vidas.
O Papa concluiu a mensagem com saudações natalícias em mais de 60 línguas.

28 de dezembro de 2011

NATAL EM GUIDEL




Passei o Natal em Barguel com um colega que dirige uma escola profissional financiada por Sudin, uma ONG italiana.
O padre Giovanni Girardi foi buscar-me ao aeródromo de Rumbek e depois de fazermos as compras para as festas – uma oportunidade para conhecer o mercado da capital do Estado de Lakes – pusemo-nos a caminho para Barguel.
A escola fica camuflada numa pequena floresta de árvores variadas entre a estrada que vai para Wau e uma clareira feita pelas inundações anuais do rio Guel. Um pequeno paraíso tranquilo, cheio de pássaros e de paz.
Na sexta-feira aproveitei para visitar a Rádio Don Bosco de Tonj, que fica a uns 60 quilómetros de Barguel. A picada recentemente reabilitada está em ótimas condições. Veio-me ao coração um imenso sentido de liberdade enquanto fazia a estrada sozinho por entre a savana equatorial.
Fiquei admirado com as movimentações das forças da ordem – polícia e militares – em preparação para o Natal. Aliás, acabei por dar boleia a cinco polícias que vinham de Juba – dois dias de viagem – e cujo camião avariou perto de Tonj.
A Don Bosco é uma estação modesta mas a fervilhar de vida. O apresentador de serviço aproveitou a minha passagem para fazer uma entrevista sobre o sentido do Natal. Gostei!
De volta a Barguel, comecei a minha rotina de férias com «Clarabóia» do José Saramago: um livro interessante, com partes muito rebuscadas, outras páginas que me remeteram para Camus e Sartre, uma estória tecida de vidas no tear de um prédio de Lisboa nos anos 50. Sendo uma obra antiga, destoa ser grafado no português do acordo ortográfico.
Li, caminhei, conversei com os alunos que frequentam a escola, ouvi o silêncio, passeei por entre a erva alta da clareira – o rio tinha voltado ao leito fechado há pouco tempo –, dormi, rezei, brinquei com os cabrititos que vinham pedir a minha atenção…
A Missa do Galo impressionou-me pela participação caótica dos fiéis que encheram um dos grandes pavilhões da escola até transbordar. O Giovanni lá levou a celebração a bom termo em hora e meia apesar dos gritos e corridas dos miúdos traquinas e das conversas animadas em dinka dos adultos…
Vivem com o Giovanni três voluntários italianos que o assistem na administração da escola. A Lisa preparou uma lasanha inteiramente artesanal para o almoço de Natal, que foi mais um lanche.
Depois da missa, das 11h30 às 13h00, os alunos da escola receberam os diplomas do primeiro ano de construção civil e os da sexta à oitava os boletins com as notas do ano mais uns prémios. Uma cerimónia que meteu muitos discursos – o ministro da educação do estado de Lagos apareceu a meio – e alguns jogos com os alunos.
A meio da função pediram-me para levar um bebé com um ataque de malária a Cueibet, uma vila a uns dez quilómetros de Barguel, e assim pude safar-me por um bocado ao enfado de estar numa cerimónia longa totalmente conduzida em dinka e cheio de fome!
Almoçámos já passava das 16h00. A lasanha da Lisa estava uma delícia. Havia também carne de vaca – o Giovanni mandou matar um boi para o almoço dos alunos e ficou com uma perna –, alface e couves cozidas do horto da escola, o famoso «panetone» - primo italiano do bolo-rei… E um bom branco para regar tudo porque o diretor de Sudin é produtor de vinhos de qualidade e mete umas caixas nos contentores que anualmente envia para a escola com material diverso.
No dia 26, segunda-feira, fui visitar as Combonianas a Cueibet. A Maria do Carmo, de Rio Caldo – Gerês, fez as honras da casa e mostrou-me o quintal cheio de árvores a crescer: uma nespereira e uma nogueira têm lugar de destaque entre os lulus, uma árvore local muito apreciada pela sombra e pelos frutos, pés de manga, papaieiras, mognos, nimes… Um verdadeiro jardim do Éden em termos botânicos numa região bastante seca e desflorestada.
Regressei a Juba no dia 27 com as baterias recarregadas e o coração tranquilo para mais um período de trabalho à frente da redação da Rede Católica de Rádios – porque os bispos na assembleia plenária de Outubro decidiram tirar a palavra Sudão do nosso nome. Tínhamos proposto mudar o nome para Rede Católica de Rádios do Sul do Sudão depois da independência, mas uma das estações – a Voz da Paz – encontra-se em Gidel, que é parte do Sudão!

21 de dezembro de 2011

NATAL



O Natal não é ornamento: é fermento
É um impulso divino que irrompe pelo interior da história
Uma expectativa de semente lançada
Um alvoroço que nos acorda
para a dicção surpreendente que Deus faz
da nossa humanidade

O Natal não é ornamento: é fermento
Dentro de nós recria, amplia, expande

O Natal não se confunde com o tráfico sonolento dos símbolos
nem se deixa aprisionar ao consumismo sonoro de ocasião
A simplicidade que nos propõe
não é o simplismo ágil das frases-feitas
Os gestos que melhor o desenham
não são os da coreografia previsível das convenções

O Natal não é ornamento: é movimento
Teremos sempre de caminhar para o encontrar!
Entre a noite e o dia
Entre a tarefa e o dom
Entre o nosso conhecimento e o nosso desejo
Entre a palavra e o silêncio que buscamos
Uma estrela nos guiará
O Natal não é ornamento
 José Tolentino Mendonça

20 de dezembro de 2011

2011


© WAlves

O Sudão do Sul viveu momentos espaciais em 2011. No inicio do ano, os sul-sudaneses votaram em massa pela independência num referendo de autodeterminação e a 9 de Julho celebraram a independência com uma festa que varreu o pais de lés a lés.

A independência representou o fim de uma luta de mais de 50 anos pelo direito à autodeterminação com custos humanos tremendos: mais de 2,5 milhões de pessoas morreram em duas guerras civis e mais de quarto milhões foram deslocadas pela última guerra de 1983 ate 2005. Mas a fé e a força de vontade das gentes do Sudão do Sul venceram!
A lua-de-mel pós independência foi curta e os cidadãos e o governo depressa tiveram que confrontar a trindade do demónio que afecta o país: corrupção, tribalismo e nepotismo que gera violência e impede o desenvolvimento.
O Sudão do Sul apesar de estar na cauda dos índices de desenvolvimento humano, é um país rico em gente, petróleo, solos, água, florestas, minerais... Necessita de uma liderança que se preocupe com o bem comum e motive as pessoas a trabalhar os campos para além da agricultura de subsistência e a comercializar o gado.
A Rede Católica de Rádios do Sudão também viveu um ano especial em 2011 com as nove emissoras no ar. Um trabalho árduo que levou cinco anos de muita paciência, recursos e teimosia por parte da equipa comboniana, dos directores diocesanos e dos muitos colaboradores das estações. A cadeia tem também uma redacção central – a meu cargo – e um centro de produção que faz sobretudo programas de educação cívica.
A nível dos Combonianos, desde Janeiro que temos uma liderança nova e continuamos a fazer preparações para passar algumas obras que atingiram a maturidade à igreja local para ficarmos livres para outros trabalhos de fronteira. Em 2012, o Colégio de Lomin – com quase 300 alunas e alunos internos do ensino secundário – deve passar para a administração da diocese de Yei e a paróquia um ano mais tarde. Em final de 2013, os bispos devem nomear um jornalista para assumir o meu trabalho e um director para substituir a Irmã Paola na coordenação da cadeia.
Para o ano devemos abrir uma comunidade na periferia de Juba para a formação de sul-sudaneses que queiram ser combonianos, apostolado bíblico e assuntos de justiça e paz.
Este trabalho foi uma surpresa agradável. Eu seguia o projecto mas nunca imaginei acabar em Juba a fazer parte da equipa fundadora da cadeia. Tem sido um privilégio viver e trabalhar com esta gente, partilhar das alegrias da independência e das dores do parto da nova nação. Até porque o Sudão do Sul, juntamente com o Sudão, são a Terra Santa da família comboniana.

7 de dezembro de 2011

JUMENTINHO



Um jumentinho voltando para sua casa todo contente, fala para sua mãe:
- Fui a uma cidade e quando lá cheguei fui aplaudido, a multidão gritava alegre, estendia seus mantos pelo chão... Todos estavam contentes com minha presença.
Sua mãe questionou se ele estava só e o burrinho disse:
-Não, estava levando um homem com o nome de Jesus.
Então sua mãe falou:
-Filho, volte a essa cidade, mas agora sozinho.
Então o burrinho respondeu:
- Quando eu tiver uma oportunidade, voltarei lá...
Quando retornou a essa cidade sozinho, todos que passavam por ele fizeram o inverso, maltratavam, xingavam e até mesmo batiam nele.
Voltando para sua casa, disse para sua mãe:
- Estou triste, pois nada aconteceu comigo. Nem palmas, nem mantos, nem honra... Só apanhei, fui xingado e maltratado. Eles não me reconheceram, mamãe...
Indignado o burrinho disse a sua mãe:
- Porque isso aconteceu comigo?
Sua mãe respondeu:
- Meu filho querido, você sem JESUS é só um jumento...

Obrigado, Raimundo, por esta estorinha gostosa!

GUARDADORAS DA ESPERANÇA

— Eu não consigo… não consigo! – repetia sempre Reem, uma jovem beduína palestiniana de 16 anos, sempre que a convidávamos para aprender a u...