A MINHA MISSÃO DE DEUS


Eu, missionário, me confesso! Tendemos a usar o pronome possessivo na gramática da missão. A minha missão, os meus catequistas, as minhas capelas, o meu povo são expressões comuns na boca de muitos missionários.

É verdade que cada um de nós é uma missão – como ensinou repetidamente o Papa Francisco de saudosa memória ao longo do seu ministério petrino.

Contudo, a missão não é nossa, não é minha. A missão é de Deus. Missio Dei, se quisermos pôr a afirmação de uma maneira mais elegante, em latim.

Paulo escreve aos cristãos de Corinto, uma comunidade muito militante e beligerante: «6Eu plantei, Apolo regou, mas foi Deus quem deu o crescimento. 7Assim, nem o que planta nem o que rega é alguma coisa, mas só Deus, que faz crescer. 8Tanto o que planta como o que rega formam um só, e cada um receberá a recompensa, conforme o seu próprio trabalho. 9Pois, nós somos cooperadores de Deus, e vós sois o seu terreno de cultivo, o edifício de Deus» (1Coríntios 3: 6-9).

Estes versículos são muito claros: nós, missionários, não somos os senhores da missão, mas cooperadores de Deus. 

Um versículo antes Paulo perguntava: «Quem é Apolo? Quem é Paulo?» E responde: «Simples servos, por cujo intermédio abraçastes a fé, e cada um atuou segundo a medida que o Senhor lhe concedeu».

Não é uma mera pergunta de retórica: é a confissão nua e crua que somos servos da missão, intermediários de Deus. A fé é dom de Deus e a comunidade dos crentes é «edifício de Deus». 

É interessante notar que o conceito de missio Dei nasceu no século XX no seio da comunhão Protestante. O termo foi cunhado por Karl Hartenstein em 1934 indicando que a missão não é da Igreja mas de Deus que Cristo realizou e enviou o Espírito Santo para a Igreja a continuar no mundo inteiro.

O conceito entrou na Igreja Católica por via do documento Ad gentes do Concílio Vaticano II: «A Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária, visto que tem a sua origem, segundo o desígnio de Deus Pai, na missão do Filho, e na missão do Espírito Santo» (AG 2).

O conceito de missio Dei obriga-nos a uma conversão profunda, a uma mudança de vista do serviço missionário que fazemos, a da linguagem que usamos. 

Usando as expressões de Paulo, somos cooperadores, intermediários e servos do Senhor da Missão. Para desempenharmos o serviço missionário ao jeito de Deus temos de seguir os passos de Jesus, o missionário do Pai.

Ele não só partilha connosco a missão que recebeu – «como o Pai me enviou eu também vos envio (João 20: 21)» – como nos empodera com o Espírito Santo para fazemos o que Ele fez e «ainda mais»!

Ser missionários do Amor da Trindade Santa – que ama o mundo e envia o Filho (João 3:16) – significa estar ligados a essa fonte de amorável cujo fluxo chegou a cada um de nós através de Jesus e, através de nós, pode chegar ao coração de cada homem e mulher.

Daí que a missão seja uma questão de amor e que – parafraseando Karl Rahner, um grande teólogo do século passado – a missionária e o missionário ou é contemplativo ou não é nada.

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