DEUS É BOM E QUER SER BOM
É bom escutar a parábola dos vindimadores em tempo de vindimas! É um cenário perfeito para entender os tempos, a urgência, a azáfama da colheita das uvas no momento certo para fazer um vinho de qualidade.
No tempo de Jesus, o vinho, o trigo e o azeite eram as três produções mais importantes para os agricultores da Palestina. Depois, na Bíblia a vinha representa o povo de Israel.
Jesus faz uma introdução à parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário [a um senhor da casa] que saiu muito cedo para contratar trabalhadores para a sua vinha».
Jesus usa a imagem da vindima para nos falar de Deus, do seu modo de ser e de nós!
Jesus conta que o proprietário saiu cinco vezes a contratar pessoal: da manhã cedo, e às horas terça, sexta, nona e décima primeira. Era a maneira de contar as horas naquele tempo. Hoje diríamos às seis, às nove, ao meio dia, e às duas e cinco da tarde.
A paga para uma jorna era um denário, uma pequena moeda romana de prata que pesava menos de quatro gramas. Hoje vale menos de seis euros, mas no tempo de Jesus equivaleria a mais de 30.
Pelo que Jesus contou, a vindima correu bem. O problema veio na hora da paga. O proprietário disse ao capataz para começar pelos que trabalharam uma hora e que desse um denário a cada um!
Os trabalhadores da madrugada esperavam receber mais do que aqueles que trabalharam menos e, indispostos com o patrão, murmuram: «Estes últimos trabalharam só uma hora e destes-lhe a mesma paga que a nós, que suportámos o peso do dia e o calor».
O proprietário não se chateou. Chamou de amigo a um dos protestantes e explicou-se: «Não foi um denário que ajustaste comigo? Leva o que é teu e segue o teu caminho. [...] Não me é permitido fazer o que quero do que é meu? Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?»
Dizem os estudiosos que Mateus introduziu esta parábola no seu evangelho para responder aos cristãos da primeira hora da comunidade de Antioquia na Síria – que eram de origem judaica – numa altura em que havia muitos gentios a juntar-se à Igreja.
Os cristãos mais antigos achavam que tinham direito a um tratamento preferencial em relação aos gentios por serem dos primeiros a seguir Jesus.
A parábola de Jesus é desarmante: todos cabem na vindima e quem paga é Deus, o Senhor da vinha. Nós somos todos humildes trabalhadores da vinha do Senhor. A hora a que pegamos ao trabalho é irrelevante. A paga é igual para todos: a salvação.
Depois, há uma grande urgência para vindimar, isto é, para que o Reino produza o vinho novo de Deus. E na vinha, na Igreja não há desempregados: há trabalho para todos e para todas as horas, para a hora em que o Senhor chamar. Ele, o Senhor da vinha, é o Senhor da missão.
Nós, muitas vezes, somos como os trabalhadores da madrugada: queremos que Deus seja do nosso jeito, que use a nossa medida – nós que trabalhamos sem cessar temos direitos e méritos adquiridos.
O livro da profecia de Isaías – que escutamos na primeira leitura – é claro. «Os meus pensamentos não são os vossos, nem os vossos caminhos são os meus».
Há um céu distante, um horizonte longínquo que nos separa dos pensamentos e dos caminhos de Deus. E Deus não se intimida com os nossos murmúrios e protestos porque Ele não age ao nosso jeito.
Jesus é claro: Deus não quer invejas. Como dizia o salmo responsorial, «o Senhor é bom para com todos e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas».
O Senhor é bom e quer ser bom! Generoso. Justo. Livre. «Ide vós também para a minha vinha e dar-vos-ei o que for justo» – disse, diz e dirá!
São Paulo ajuda-nos a soletrar a resposta à bondade desarmante do Senhor: «Procurai somente viver de uma maneira digna do Evangelho de Cristo».
O trabalhador da vinha é uma pessoa digna, porque foi convidado pelo Senhor. Ele agradece esse amor bondoso através do seu modo de vida. Ser cristão é um jeito de viver alavancado no Evangelho de Jesus.
Que assim sejamos! Que assim seja!

Comentários