17 de maio de 2023

CORAÇÃO: A CASA DE DEUS



O ícone do Coração Trespassado do Bom Pastor é uma chave interpretava para a religiosidade pós-moderna, um olhar para um futuro que já começou.

Parto de um dado inegável: a secularização está a avançar a passos largos, sobretudo no hemisfério norte, e as instituições religiosas estão a perder uso, peso e influência. Os mais jovens aderem menos a formas organizadas de religiosidade: 27 por cento dos norte-americanos e 11 por cento dos europeus descrevem-se espirituais mas não religiosos, de acordo com um estudo do Pew Institute.

Os agentes da pastoral vamos para o desemprego? Acho que não! Mas necessitamos de reciclar o nosso serviço missionário: passar de uma abordagem institucional e estrutural à missão do coração através da mística do encontro. Uma mudança de época exige uma mudança no paradigma da missão.

Religião tem a raiz em religare (voltar a ligar, a atar, a unir) ou relegere (voltar a ler, revisitar). O prefixo RE demanda uma atualização constante do ligar ou do ler.

A busca espiritual das novas gerações revela-se através estilos de vida mais eco-harmoniosos. Os sinais dessa procura espiritual passam pelas opções ecológicas, meditação, ioga, retiros, ativismo pró-clima, harmonia com a criação. Vidas ecologicamente sustentadas ancoradas no vegetarianismo e no veganismo — que é uma forma radical do modo de vida vegetariano — e no recurso ao mercado de segunda mão. Manifestações de uma compaixão integral pelas pessoas, pelos animais e pelos recursos da criação.

Por outro lado, a secularização não mata a fé. Antes, purifica-a. Devolve-a ao essencial: à relação cordial com Deus, com as irmãs e irmãos e com a natureza. É no coração que se encontra o epicentro da religião.

Jesus respondeu ao fariseu que procura uma síntese da fé que o essencial é amar a Deus com todo o coração, com toda a alma, com todo o entendimento e com toda a força e ao próximo como a si mesmo, citando os livros do Deuteronómio e do Levítico. Paulo é mais radical: «toda a Lei se cumpre plenamente nesta única palavra: Ama o teu próximo como a ti mesmo» (Gálatas 5, 14).

Lemos na profecia de Jeremias, capítulo 31, 31-34: «Dias virão em que firmarei uma nova aliança com a casa de Israel e a casa de Judá — oráculo do SENHOR. Não será como a aliança que estabeleci com seus pais, quando os tomei pela mão para os fazer sair da terra do Egipto, aliança que eles não cumpriram, embora Eu fosse o seu Deus — oráculo do SENHOR. Esta será a Aliança que estabelecerei, depois desses dias, com a casa de Israel — oráculo do SENHOR: Imprimirei a minha lei no seu íntimo e gravá-la-ei no seu coração. Serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Ninguém ensinará mais o seu próximo ou o seu irmão, dizendo: 'Aprende a conhecer o SENHOR!' Pois todos me conhecerão, desde o maior ao mais pequeno, porque a todos perdoarei as suas faltas, e não mais lembrarei os seus pecados» oráculo do SENHOR».

A profecia de Jeremias anuncia a passagem de uma religião organizada — a religião gravada na pedra, empedernida, do templo e da casta sacerdotal, clerical — para uma relação cordial com Deus, tatuada no coração e não na epiderme.

Nesta aliança nova e eterna «ninguém ensinará mais o seu próximo ou o seu irmão, dizendo: 'Aprende a conhecer o SENHOR!' Pois todos me conhecerão, desde o maior ao mais pequeno, porque a todos perdoarei as suas faltas, e não mais lembrarei os seus pecados», sublinha o versículo 34.

Talvez por isso a cidade santa, a nova Jerusalém descida do céu, não tem templo. João escreve no final das suas visões: «Templo, não vi nenhum na cidade; pois o senhor Deus, o Todo-Poderoso, e o Cordeiro são o seu templo» (Apocalipse 21, 22).

O rasgar de alto a baixo da cortina do Templo no momento em que Jesus entrega o espírito ao Pai tem esse significado: o Santo dos Santos — o lugar mais sagrado do Templo — é escancarado, deixando o mistério de Deus acessível a todos! Não há nem fronteiras nem controladores do divino para mediar a relação entre Deus e o seu povo.

Paulo fala com frequência do cristão como a nova casa de Deus. «Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?», pergunta aos cristãos de Corinto (1 Coríntios 3, 16; 6, 19). Pedro diz que somos pedras de um edifício espiritual (1 Pedro 2, 5).

Por outro lado, Jesus fala à samaritana que «a água que Eu lhe der há de tornar-se nele em fonte de água que dá a vida eterna» (João 4, 14).

Daí que Etty Illesum, a jovem judia holandesa morta em Auschwitz, tenha escrito no seu diário: «Dentro de mim há um poço muito fundo. E lá dentro está Deus. Às vezes consigo lá chegar. Mas acontece mais frequentemente haver pedras e cascalho no poço, e aí Deus está soterrado. Então é preciso desenterrá-lo».

Por seu turno, o Papa Francisco escreve no n.º 88 da. Carta encíclica Fratelli tutti: «A partir da intimidade de cada coração, o amor cria vínculos e amplia a existência, quando arranca a pessoa de si mesma para o outro. Feitos para o amor, existe em cada um de nós “uma espécie de lei de ‘êxtase’: sair de si mesmo para encontrar nos outros um acrescentamento de ser”. Por isso, “o homem deve conseguir um dia partir de si mesmo, deixar de procurar apoio em si mesmo, deixar-se levar”.»

É o amor que nos saca da zona de conforto e nos abre a Deus e aos outros, porque «Deus é amor», como não cessa de repetir João na primeira carta que escreveu.

A secularização está a promover a religião do coração baseada numa espiritualidade pessoal, cordial. Importa recuperar a dimensão comunitária da fé.

Contemplar o Coração de Cristo leva-nos a sermos missionários de coração e com coração, que revelam o Coração da Trindade Santíssima e são ponto de encontro com os corações de todos os homens e mulheres, com o grande Coração do Universo.

16 de maio de 2023

ESPELHO MEU


Cada rosto que contemplo
é espelho

da glória bela e bondosa

     de Deus!


Mistério de Amor,
centelha de Graça,
cartografia de amizade,
tempestade perfeita de bênçãos.

Crentes e não crentes
     tanto faz:
Deus é de todos
     e está em todos.

Ele é a nossa Paz!
Ver-nos felizes
   é o que se lhe apraz.

12 de maio de 2023

LITURGIAS VIVAS






O Missal Romano é o livro que a Igreja Católica usa para as suas liturgias. Tem, a negro, tudo o que se deve dizer e explica em letras vermelhas pequenas — as chamadas rubricas — como e quando dizer ou fazer silêncio. 

Os liturgistas, os especialistas versados em liturgia e que velam pelo modo do celebrar católico, defendem as rubricas com unhas e dentes. Um bispo comentou comigo, aparentemente citando o Papa Francisco, que é mais fácil negociar com um terrorista que com um liturgista! A imagem é eminentemente exagerada, mas ilustra bem a tensão que existe em certos sectores.

As liturgias que celebramos nas igrejas e nas capelas da missão de Qillenso podem escapar ao controlo das letrinhas vermelhas do missal, mas são celebrações cheias de vida e cheias de Deus. Muitas vezes dou comigo a pensar até que ponto as rubricas  não são uma tentativa de manter o Espírito Santo — através de quem rezamos — refém da suposta arte — e ordem — do bem celebrar.

Os africanos celebram com o corpo todo e com a vida inteira.

Os cânticos têm uma expressão corporal própria que vai da voz à dança, do ulular às palmas ritmadas. Há cânticos em que a assembleia litúrgica se expressa de uma forma quase tumultuosa: começam a balançar o corpo e os braços para a frente e para trás nas estrofes e no refrão pulam e a batem palmas num exercício exaustivo e cheio de alegria. Chamam-lhe xabe-xabá e acaba por ser um ato de louvor em que todos se associam com as forças que têm, desde a exuberância das pré-adolescentes ao cansaço das velhinhas.

Normalmente os diálogos entre o presidente e a assembleia são proclamados num tom próximo da cadência da liturgia ortodoxa, emprestando um ambiente sonoro de recolhimento à celebração.

A oração dos fiéis é espontânea. As pessoas contam as suas estórias e pedem a ajuda de Deus para as ultrapassar ou louvam-n’O por as ter abençoado depois de uma doença, de um animal perdido, de um acidente… No passado costumavam durar até meia hora. Agora restringem-se a meia dúzia de intenções ou menos.

Durante o ofertório a assembleia faz uma procissão para trazer as oferendas ao altar. Normalmente dão dinheiro, mas também trazem leite, café, cevada, couves, milho e outros produtos agrícolas. Ocasionalmente apresentam um animal (vitelo, cabra, ovelha ou galinha). No passado usávamos as ofertas em género para ajudar os pobres da comunidade. Quando regressei, encontrei a tradição de leiloarem no fim da missa os produtos para juntarem ao dinheiro do ofertório que é usado para a manutenção da igreja e das capelas e outras despesas da missão.

Na liturgia, foram introduzidos alguns detalhes novos. Durante a elevação da Hóstia consagrada, depois de todos proclamarem «Meu Senhor e meu Deus», cantam «Jesus, Pão da Vida» três vezes. Depois, na elevação do Cálice, repetem a oração «Meu Senhor e meu Deus» e cantam «Jesus, Cálice da Vida, Alfa e Omega, que não é mudado». A oração eucarística conclui com triplo amen solene cantado três vezes.

Como oração de graças comum usamos a oração «Alma de. Cristo» proclamada por toda a comunidade em tom próprio.

No final da Eucaristia, os grupos etários — crianças, jovens e mulheres — costumam brindar a comunidade com dois cânticos cada. Normalmente são originais treinados durante o encontro semanal: as mulheres reunem-se às quartas-feiras à tarde e os jovens e crianças aos sábados de manhã.

Talvez o que mais caracteriza as liturgias é o uso do tempo. John Mbiti, um filósofo queniano e pastor anglicano, escreveu que os africanos não contam o tempo, mas fazem-no. E fazem-no sobretudo na liturgia. Uma missa semanal leva quase uma hora, a de domingo duas horas, e a da festa do orago pelo menos três (e acaba com uma refeição comum). O tempo da celebração é sagrado e ninguém olha para o relógio, embora alguns dos mais novos às vezes saiam discretamente a meio da celebração.

9 de maio de 2023

FLORESTA


 Poiso o olhar sobre este mar de verde
tranquilo
que se abre diante de mim
em silêncio glorioso,
prenhe de vida
por debaixo das copas frondosas
a abraçarem o céu de azul pintado
lá longe
onde o finito e o infinito se fundem,
confundem.
Bailado de ramos entrelaçados
à melodia da brisa da tarde,
ondulação verde,
de vida,
condomínio aberto de ninhos,
lar de seres à procura de sustento,
de proteção,
casa viva,
palco da sinfonia polifónica
de chilreios, assobios, rugidos,
silêncio arrepiante,
diamante,
que talha a luz do sol
em fios esguios
através da densa folhagem
e brincam com a nibelina húmida,
coada,
do amanhecer
que embeleza com pérolas líquidas
as filigranas das aranhas tecedeiras.
Fotossíntese essencial,
fábrica de oxigénio
a partir de carbono reciclado.
Até que o avaro machado
a golpes secos de aço,
coadjuvado pelo fogo lambão,
traga pela raíz
este pedaço de paraíso
que paulatinamente vai dando lugar
a campos férteis de cultivo.
Deflorestação
que corta o coração,
o preço do progresso.
Sem regresso?

24 de abril de 2023

COISAS QUE ME ABORRECEM


Hoje apetece-me resmungar sobre algumas coisas que me tiram do sério aqui, na Etiópia. Faço-o à volta de quatro palavras: China, ELPA, dinheiro e ruído.


CHINA. Os chineses são uma presença óbvia e incontornável na Etiópia como o são em muitos outros países africanos. Aqui dedicam-se sobretudo à construção de infra-estruturas (estradas, vias férreas, linhas elétricas de alta tensão, construção civil) mas também têm algumas fábricas e outros negócios. Na área onde eu vivo, os chineses montaram uma linha elétrica de alta tensão, construíram um troço da estrada entre Aposto e Neguele (os sul-coreanos e os turcos completaram a obra) e escavam nos rios Hawata e Gannale à procura de ouro. No passado, as crianças quando viam um branco passar gritavam: Farenji! Aparentemente a palavra vem de French (francês) e começou a ser usada há cerca de um século quando os franceses construíram o caminho-de-ferro que liga Adis-Abeba ao Jibuti. Hoje, em muitos sítios, quando me vêem gritam: China! Não tenho nada contra os chineses, mas não gosto de ser chamado China. Prefiro farenji que, além do mais, é o termo clássico para designar estrangeiro.


ELPA. ELPA é a companhia elétrica etíope, a EDP cá do sítio. Mas deixa-nos mais às escuras do que com luz, sobretudo durante a estação das chuvas. Às vezes os cortes duram alguns minutos ou horas. Outras vezes os apagões levam dias, uma semana. De modo que, quando vem a luz, a primeira coisa a fazer é ligar as bombas e encher os depósitos da água. Jantar à luz da vela até é romântico, mas ficar sem água em casa é muito chato. O banho pode-se fazer com um balde de água aquecida. Não há problema. Mas precisamos de água para cozinhar e para a limpeza. Quando não há luz e a água “seca” no depósito temos de ir à nascente protegida da aldeia com alguns bidões pequenos para trazer água para casa. Durante o mundial de futebol, devido aos cortes de energia, “vi” alguns dos jogos através da rádio. Outra chatice é o pagamento da conta da luz. Como somos grandes utilizadores, temos de pagar no escritório da empresa, que fica a 50 quilómetros de onde vivemos. Contudo, é comum chegar lá e e não poder pagar ou porque não há luz ou porque o sistema está em baixo. Mas se demoramos vêm logo para cortar a corrente. Há ainda a confusão das fases. Há cerca de dois meses a bomba trifásica da antiga missão de Gosa deixou de funcionar deixando sem água a clínica e as residências dos missionários e missionárias (que se encontram vazias). Veio o eletricista de Hawassa, a 130 quilómetros de Gosa, para descobrir que a ELPA havia trocado a ordem das fases e por isso a bomba não funcionava. Muitas vezes a corrente é tão baixa que nem as lâmpadas consegue acender. Aliás, as bombas são quem mais sofre com a ELPA. Desde que cheguei, há ano e meio, dois condensadores foram queimados devido aos picos da corrente. Para atenuar os apagões temos um sistema de energia solar — que está a ser melhorado graças à ajuda da província portuguesa dos combonianos. Só falta vir um técnico de Hawassa para terminar a instalação das novas baterias e do inversor de corrente. Há alguns detalhes técnicos que não consigo resolver.


DINHEIRO. Um comboniano italiano, que foi ecónomo provincial em Portugal e já está na Casa do Pai, costumava dizer que o dinheiro é o esterco do Diabo. É verdade que não podemos passar sem dinheiro, mas aqui dá-nos algumas dores de cabeça. A começar pelos catequistas. Os nossos colaboradores recebem uma pequena ajuda (entre nove e doze euros por mês) mais para as despesas que fazem no ensino do catecismo e na animação das comunidades de que estão encarregados do que propriamente um salário. Mas acham que, porque são os nossos colaboradores diretos, têm o direito de serem os principais beneficiados das ajudas da missão. Por isso, estão sempre a bater à porta para comprar remédios, pagar os cadernos no início do ano escolar, pagar o alojamento dos filhos a frequentar a escola secundária na cidade, fazer uma casa nova… Um ficou muito zangada quando lhe expliquei que, como as ajudas que recebemos são poucas — devido ao falecimento dos benfeitores e à crise económica que se vive no Oeste como na Etiópia —, se tenho de escolher entre ajudar uma velhinha e um catequista, a ajuda vai para a velhinha que muitas vezes não tem quem cuide dela. Outro problema é a atitude dos anciãos das comunidades: as comunidades têm dinheiro mas continuam a pedinchar para pequenas obras nas capelas ou ajudar na festa do padroeiro. E, sobretudo, detesto que me cobrem o “imposto de pele”. O preço para um etíope é sempre mais barato que para um estrangeiro desde o mercado até às lojas. Por isso, o truque é levar comigo a cozinheira e ser ela a negociar. Ah: Há duas palavras em inglês que quase todos os garotos sabem de cor e que gritam quando nos vêem: You, you, you. Money, money, money! Tu, tu, tu. Dinheiro, dinheiro, dinheiro!


RUÍDO. Qillenso, a missão onde vivo, tem dois centros: a sede da paróquia (em plena floresta) e a igreja de Adola, na cidade do mesmo nome. Em Qillenso o silêncio é de ouro. Em Adola a poluição sonora é arrasadora e é sobretudo religiosa. Os irmãos muçulmanos começam todos os dias a chamar as pessoas à oração através dos altifalantes antes das cinco da manhã e vão-no fazendo ao longo do dia até depois de o sol se pôr. Os irmãos ortodoxos, por seu turno, começam a missa dominical às duas da manhã e a celebração toda cantada em gue’ez é também transmitida através de altifalantes. O lugar onde prenoito na cidade está “entalado” entre duas igrejas ortodoxas: dormir depois das duas da manhã de domingo é quase impossível. Por isso, Rezo com eles apesar de não entender palavra de gue’ez! Os irmãos protestantes também ajudam à festa. Atrás da igreja católica de Adola há duas igrejas protestantes que transmitem para o exterior o culto dominical. A concorrência sonora é arreliadora sobretudo quando a ELPA corta a luz!!! As outras confissões têm geradores e continuam com as transmissões enquanto que na igreja sem corrente ou gritamos ou não somos ouvidos.

Chega de barafustar! Abraço.

23 de abril de 2023

É O RAMADÃO


Olá amigo,

Quisera dormir, pois amanhã é domingo, dia de pica-boi, pelo menos para nós, padres. Mas há tiroteio forte aqui à minha volta. Uma coisa por demais. Porém, não é de guerra. é Ramadão, cuja festa do último do mês é amanhã, ou melhor, é hoje, daqui a poucas horas. Tem sido assim todo o santo mês. E eu a pensar que conhecia um pouco de Islão... Pelo menos no Sudão era muito mais mitigado. Talvez porque a vida é muito mais dura.

A nossa casa, imagina, está no centro do Mercado da cidade e a dois passos do metro. Aqui as buzinas usam quase todos os tipos de sons a ar comprimido, redobrados, ouvem-se e ecoam aqui na minha janela que tenho aberta por causa do calor tórrido. No mercado está tudo aberto até pelas três e mais da manhã com todo o resto e tipo de barulhos que vai acalmando só depois das três da manhã. Tentei usar uns tampões de cera nos ouvidos. Mas em vão.

Quero ser sincero contigo: sinto-me bem em saber e poder respeitar, mesmo que me custe muito, pois amanhã tenho missa muito cedo e hoje nem a homilia posso preparar tão bem como desejaria. Mas conforta-me ao saber que Deus sabe da minha boa intenção. O resto, estou de consciência tranquila, conto com Ele que é quem tem que agir, já que me chamou para este tipo de vida, a vida missionária, de que Ele é só Ele é o Senhor e dono...

Entretanto, chegam notícias do Sudão, da minha missão anterior. Alguns colegas hoje, depois de uma semana de Paixão prolongada e fora de tempo, puderam sair do esconderijo da casa -- ao menos em Cartum têm cave quando o resto da gente não tem nem sequer esse tipo de esconderijo em casa ou um qualquer buraco -- e ir ao mercado.

Poucos alimentos expostos e preços de guerra. Conheço bem os meus colegas! Imagino-os a tentar gracejar e rir, dizendo que até que enfim puderam emagrecer, fazendo uma semana de regime, embora um tanto duro e forçado.

El hamdu liliah! Graças a Deus!

Caro amigo, obrigado pela tua oração pela missão aqui no Egito, no Sudão e em qualquer outra parte do mundo. Bem precisamos das vossas orações. Tenho os olhos cansados, mas vou tentar dormir. Obrigado pela tua paciência de me teres acompanhado na minha vigília ramadanesca.

Continuação de um bom e santo tempo Pascal.

P. Feliz - Missionário Comboniano
Helwan, Cairo, Egito

5 de abril de 2023

É A PÁSCOA DO SENHOR


Estamos às portas do Tríduo Pascal, os três maiores dias da nossa fé que fazem memória da paixão, morte e ressurreição de Jesus, o seu mistério pascal. Enquanto celebramos a sua Páscoa  o fulcro do calendário cristão, a mãe de todas as solenidades cristã  queremos rezar também as nossas próprias passagens pela vida. A Páscoa de Jesus é a nossa própria Páscoa. A sua ressurreição dos mortos é também a nossa ressurreição. Somos filhos da Ressurreição.


PARADOXO PASCAL

“A vida da Igreja consiste em participar no paradoxo da Páscoa: o momento de doação e autotranscendência, a transformação da morte em ressurreição e vida nova”, o teólogo checo Tomas Halik sublinhou num discurso recente.

O autor da Carta aos Hebreus explica o paradoxo cristão, convidando-nos à contemplação: “Mantenhamos os nossos olhos fixos em Jesus, que nos conduz na nossa fé e a leva à perfeição: por causa da alegria que o esperava, ele suportou a cruz, ignorando a vergonha da mesma, e sentou-se à direita do trono de Deus” (Hebreus 12:2).

Só através de um coração contemplativo podemos compreender e experimentar o paradoxo do Mistério Pascal de Jesus, a pedra fundamental, o alicerce da nossa fé.

A raposa ensina ao pequeno príncipe na parábola intemporal de Antoine de Saint-Exupéry O principezinho que “só com o coração é que se pode ver bem. O que é essencial é invisível aos olhos”. Mais tarde, o pequeno resume o ensinamento da raposa exclamando que “os olhos estão cegos. É preciso olhar com o coração”.

O Mistério Pascal de Jesus é a manifestação do seu amor até ao fim. João apresenta a narrativa da Páscoa do nosso Senhor com as palavras “Jesus, sabendo bem que tinha chegado a sua hora da passagem deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo” (João 13,1). 

Podemos compreender, podemos captar, podemos habitar no amor de Jesus apenas através de um coração contemplativo. Só através da contemplação podemos saber “qual a largura, o comprimento, a altura e a profundidade” (Efésios 3,18) do seu amor.

Fazendo memória da Páscoa de Jesus, celebramos a nossa própria Páscoa, o triunfo de Deus sobre Satanás, da vida sobre a morte, da graça sobre o pecado. Através da ressurreição de Jesus, proclamamos que a nossa pátria não são o sofrimento e a morte, mas é a alegria que é o nosso destino final, a nossa etapa eterna, a nossa vida para sempre. 


A PÁSCOA DE JESUS

A Páscoa de Jesus, o seu Mistério Pascal está no centro da fé cristã, é o seu acontecimento fundador. Aos cristãos de Corinto que diziam não haver ressurreição dos mortos, Paulo é muito inflexível: “se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé e permaneceis ainda nos vossos pecados” (1 Corintos 15:17). E conclui: “Mas não! Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram. Porque, assim como por um homem veio a morte, também por um homem vem a ressurreição dos mortos” (1 Coríntios 15: 20-21).

O mistério pascal de Jesus está no centro da proclamação da primeira comunidade cristã desde o Dia de Pentecostes, a própria origem da Igreja, o seu kerygma, pregão. 

Nesse dia, Pedro anunciou às multidões: “Homens de Israel, escutai estas palavras: Jesus de Nazaré, Homem acreditado por Deus junto de vós, com milagres, prodígios e sinais que Deus realizou no meio de vós por seu intermédio, como vós próprios sabeis, este, depois de entregue, conforme o desígnio imutável e a previsão de Deus, vós o matastes, cravando-o na cruz pela mão de gente perversa. Mas Deus ressuscitou-o, libertando-o dos grilhões da morte, pois não era possível que ficasse sob o domínio da morte” (Actos 2: 22-24). Este é pregão cristão mais importante, o coração pulsante do próprio Evangelho.

As quatro Preces Eucarísticas para uso em missas por várias necessidades, mapeam o itinerário pascal de Jesus com uma oração: "Pai santo, celebrando o memorial de Cristo, vosso Filho, nosso Salvador, que, pela sua paixão e morte na cruz, fizestes entrar na glória da ressurreição e glorificastes, sentando-O à vossa direita, anunciamos a obra do vosso amor, enquanto esperamos a sua vinda gloriosa, e Vos oferecemos o pão da vida e o cálice da salvação".

A Páscoa de Jesus não é um acontecimento privado, uma viagem a solo da vida para a morte e da morte para a vida eterna. É um mistério de comunhão com o Pai. De facto, Jesus na sua Páscoa, é conduzido pelo Pai desde a sua paixão até à sua glorificação como o Senhor de todos e de tudo.

A Páscoa do Senhor é também um mistério de comunhão com os defuntos. Os ícones ortodoxos da Ressurreição apresentam Jesus trazendo consigo do lugar dos mortos todos os justos, os santos que esperavam pela sua ressurreição para serem libertados da morte. Em algumas igrejas cristãs antigas, esta teologia da ressurreição também está representada nalgumas esculturas com Jesus a vir da mansão dos mortos trazendo pela mão uma enorme multidão de santos, a começar por Eva e Adão. O Ofício das Leituras do Sábado Santo apresenta uma belíssima homilia do século IV com o mesmo teor.

A ressurreição de Jesus forma o coração da proclamação da Igreja, o seu Kerygma, desde o próprio dia da Ressurreição, no alvorecer do primeiro dia da semana, o primeiro dia da nova criação. Melhor, a ressurreição está no coração do próprio kerygma de Jesus que se torna anúncio da Igreja. 

Quando Jesus se mostra aos apóstolos na sala de cima em Jerusalém, diz-lhes: “Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar dentre os mortos, ao terceiro dia; que havia de ser anunciada, em seu nome, a conversão para o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém” (Lucas 24, 46-47). E acrescentou: “Vós sois testemunhas destas coisas” (versículo 48).

No dia da Ascensão, pouco antes de voltar para o Pai, Jesus fez uma promessa aos discípulos: “Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo” (Actos 1,8).

Os primeiros crentes definiram-se a si próprios como testemunhas da ressurreição de Jesus. Pedro disse à multidão no Dia de Pentecostes: “Foi este Jesus que Deus ressuscitou, e disto nós somos testemunhas” (Actos 2,32). Mais tarde, na casa de Cornélio, em Cesareia, proclama: “Às testemunhas anteriormente designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com Ele, depois da sua ressurreição dos mortos. E mandou-nos pregar ao povo e confirmar que Ele é que foi constituído, por Deus, juiz dos vivos e dos mortos” (Actos 10,41b-42).

Comemos e bebemos com o Senhor Ressuscitado em cada celebração eucarística, a fim de sermos testemunhas da sua ressurreição através de vidas boas, vidas ressuscitadas, libertadas do poder de Satanás.

A ressurreição de Jesus é o coração da nossa missão. O Papa Francisco deixa-o claro num tweet: “A paixão pelo Evangelho não é uma questão de compreensão ou de estudos, que são úteis mas não a geram. Pelo contrário, significa passar pela experiência da queda e da ressurreição”.

E São Daniel Comboni escreveu: “este Coração admirável […] glorioso ressuscitado, manda os apóstolos pregar a salvação ao mundo inteiro” (Escritos 2232).

Como discípulos missionários de Jesus, somos testemunhas da sua ressurreição através da vida nova que vivemos desde o Batismo.  Deus recriou-nos através do Mistério Pascal do seu Filho. 

Na cultura atual marcada pelo individualismo, hedonismo, euismo, exploração, violência, destruição e morte, somos chamados a viver a bondade de Deus, a proclamar que o sonho de Deus de justiça, paz e alegria — o seu Reino — não está morto. Ele está vivo em nós, connosco e através de nós. 

A nossa vida comum é o laboratório desta nova vida Pascal.

Santas festas pascais na paz do Ressuscitado!

4 de abril de 2023

VIAJA LIGEIRO

Viaja ligeiro,
o vento é teu companheiro.
Veste o essencial:
olhos para contemplar,
ouvidos para escutar,
boca para louvar,
nariz para descobrir,
pele para sentir,
tato para ver,
coração para amar,
mãos para acarinhar,
abraços para estreitar,
pés para sentir a Mãe-Terra,
     para caminhar.
E muito deslumbre
     até te extasiar.
O resto?
Vem por acréscimo!

30 de março de 2023

Etiópia: SECA ENTRE OS BORANA





Entre 10 e 13 de março, o arcebispo de Adis Abeba, cardeal Berhaneyesus Souraphiel, e os representantes do Vicariato de Hawassa, P. Juan González Núñez, administrador apostólico, P. Nicola Di Iorio, vice-diretor executivo, e P. Tsegaye Getahun, diretor do Secretariado Católico de Hawassa, visitaram a região de Borana, localizado no sul do Vicariato, habitado em grande parte pelo grupo étnico de mesmo nome, uma das áreas mais afetadas pela seca, para levar ajuda e, acima de tudo, esperança para as muitas vítimas.


Na Etiópia, diz-se que se se pedir água a um Borana, ele oferece leite. Hoje, no entanto, esse povo generoso não pode oferecer leite ou água: as pessoas e seus animais estão literalmente a morrer de sede.

Os Borana ocupam a parte mais ao sul da Etiópia, na fronteira com o Quénia. A sua terra é uma savana perpetuamente árida, mas, se as chuvas são regulares, é capaz de suportar dois a três milhões de bovinos, além de grandes rebanhos de cabras brancas.

Infelizmente, a tendência normal de chuvas no distrito mudou drasticamente. Há cinco anos que não chove, e a capacidade da região de lidar com essa catástrofe esgotou-se completamente. Um após o outro, todos os pontos de água secaram e quase todo o gado morreu. Fala-se de pelo menos dois milhões de cabeças de gado mortos pela fome e sede.

Devemos regressar a 1984 para encontrar uma tragédia destas dimensões. Eu também a testemunhei em primeira mão. Naquele ano de terrível memória, as vítimas da seca entre os Borana excederam um milhão.

Hoje, o governo promete que não deixará um único indivíduo morrer devido à seca. Talvez ele pudesse fazê-lo se juntasse todos os Boranas nos campos de deslocados internos. No entanto, não será possível saber com certeza quantas vítimas terão falecido nas suas aldeias devido à desnutrição e fome.

Gradualmente, a maioria das pessoas já se mudou para os campos de deslocados internos criados pelo governo.

A delegação da Igreja Católica, liderada pelo cardeal de Adis Abeba, visitou o campo de Dubluk, que, com oitenta mil habitantes, é um dos maiores da região Borana. As pessoas deslocadas vivem principalmente em tendas, algumas em cabanas, outras em barracos de madeira cobertos com folhas de plástico. As pessoas parecem limpas, vestidas decentemente e bem alimentadas: roupas e alimentos são fornecidos pelo governo e instituições de caridade. Mas há um sentimento de desespero entre aqueles que antes eram ricos e perderam tudo.

A seca já dura há cinco anos: o mais longo que as pessoas se lembram. Desde o início, o Vicariato de Hawassa está presente, ajudando as pessoas deslocadas de todas as formas possíveis. Entre os Boranas, existem três missões católicas dos Missionários Espiritanos, que se destacaram por trabalho social através de escolas, residências estudantis e escavações de poços de água.

O Vicariato continua a ajudar a população, mas não se vê um fim à vista para esta grave crise humanitária. Até hoje conseguimos colaborar na assistência a cerca de um milhão e meio de Boranas, distribuindo grandes quantidades de ajudas recebidas de organizações como a Caritas América, Caritas Áustria e outras.

Um dia depois da nossa visita aos deslocados, começou a chover. É possível que as pessoas comecem a dizer que foram os católicos que trouxeram a chuva. Seria um equívoco curioso. Sabemos bem que só Deus é o Senhor de tudo que a sua providência coloca à nossa disposição.

Juan González Núñez, mccj

28 de março de 2023

AZIZA, A FREIRA DE FOGO


Azezet Habtezghi Kidane nasceu na Eritreia a 21 de agosto de 1956. Em 1980, com 24 anos, Aziza — como também é conhecia — juntou-se às Missionárias Combonianas. Enfermeira de profissão, desenvolveu o ser serviço missionário na Eritreia (cinco anos), Etiópia (sete anos), Sul do Sudão (dez anos) e Inglaterra (sete anos).

Em 2008 foi destinada à província comboniana do Médio Oriente, ficando a viver na Palestina.

A Ir. Aziza é pequena de estatura, mas tem um coração enorme, veste um sorriso tímido nos lábios e tem um cruz tatuada na testa. É uma mulher de fogo!

Em Israel, colabora como enfermeira voluntária com a organização não governamental Médicos para os Direitos Humanos-Israel, PHR-I na sigla em inglês.

No trabalho de enfermagem, ouvindo as histórias dos requerentes de asilo, apercebeu-se que algo de estranho se passava na Península do Sinai, no Egito.

Entre 2010 e 2012 fez milhares de entrevistas a estrangeiros — muitos eritreus como ela — que procuravam os seus cuidados e contavam os horrores por que passaram e pôs a nu uma rede de tráfico, tortura e exploração sexual no Sinai.

De acordo com o que apurou, pelo menos sete mil pessoas morreram sob tortura na península egípcia.

O Departamento de Estado Norte-Americano reconheceu a heroicidade desse trabalho de investigação sobre o tráfico de pessoas e atribuiu-lhe o prémio Trafficking in Persons Report Heroes em 2012.

Por seu turno, o embaixador da Eritreia em Israel telefonou-lhe para que parasse as investigações. A Ir. Aziza não é mulher para se deixar intimidar e continuou com o trabalho. Consequentemente perdeu a cidadania eritreia. Quando o passaporte caducou a embaixada recusou-lhe a renovação. Agora é cidadã britânica.

As Combonianas também assistem os beduínos palestinianos que foram expulsos do deserto do Negueb com um jardim infantil e através da promoção da mulher. A Ir. Aziza denuncia que os beduínos não têm quaisquer direitos reconhecidos e não podem construir nada em material permanente, vivendo em autênticos bairros de lata feitos de madeira, plástico e cartão.

O seu ativismo em favor dos direitos humanos dos requerentes de asilo, dos imigrantes africanos em Israel e dos beduínos levou-a ao Knesset, o Parlamento Israelita, por cinco vezes para partilhar com os políticos as suas descobertas e denunciar a violação sistemáticos dos direitos dos não-judeus no país.

A Ir. Aziza denuncia que em Israel as injustiças contra os não-judeus são gritantes e há cristãos fanáticos que apoiam a violência do Estado contra as minorias.

Considera-se livre de falar, de denunciar as injustiças. Pode falar sobre a política e as injustiças contra os requerentes de asilo. “Os Israelitas escutam mas não se preocupam com o que dizes” — confessa.

Durante a semana trabalha dois dias na clínica móvel de uma ONG em Israel para atender pacientes sem direitos sociais que não têm dinheiro para pagar a assistência de saúde privada. Cada sábado a clínica móvel desloca-se para o Território Palestiniano.

A Ir. Aziza afirma que a Palestina é chamada Terra Santa “porque o sangue de Cristo ainda não secou; os inocentes continuam a sofrer”.

Trabalha tanto com Judeus — com eles reza sobretudo os salmos — como com Palestinianos.

“A pessoa que vive a sua beleza, revela a bondade de Deus”, confessa, entusiasmada.

Diz que o seu trabalho humanitário é a dimensão mais importante da sua vocação comboniana.

No seu serviço missionário tem colaborado com muitas pessoas que se dizem não crentes, mas que são dedicadas, amorosas e capazes de perdoar.

“Elas não acreditam, mas trazem Cristo, Deus, a Bíblia dentro de si”, proclama, com os olhos cheios de luz.

As Missionárias Combonianas têm duas comunidades na Terra Santa: o Centro de Espiritualidade em Betânia, Jerusalém, desde 1966, e Al Azarieh, na Palestina. Esta comunidade, aberta em 2011, faz trabalho pastoral, social e educativo com residentes e beduínos e dá assistência a migrantes em Tel Aviv.

16 de março de 2023

NEGUELE É NOSSA!

 

O Parlamento da Oromia decidiu re-estruturar algumas zonas administrativas do mais vasto estado regional etíope e o território guji foi incluído nessa reconfiguração.

Na segunda-feira, 27 de fevereiro, o Conselho Regional Oromo anunciou que a capital administrativa da Zona Guji passava de Neguele — perto da fronteira com a Somália — para Adola e que Neguele era a capital da nova Zona Borana-Leste. Além disso, Shakisso, uma área guji rica em ouro e outros minerais, passava a zona autónoma administrada diretamente pelo Governo Oromo.

A inclusão de Neguele e de três distritos gujis no território borana sem consulta prévia criou uma onda de contestação violenta muito forte entre os guji, sobretudo nas zonas urbanas.

Os manifestantes — sobretudo jovens — vieram para a rua gritar “Negeele kennaa”, “Neguele é nossa”, ao mesmo tempo que exprimiam a raiva através de alguns atos de vandalismo.

Na cidade de Bore, a meia centena de quilómetros a norte de Qillenso onde vivo, pelo menos três pessoas foram mortas e duas feridas em recontros violentos com as forças da ordem (polícia e tropas).

Muitos manifestantes acabaram na prisão.

A estrada asfaltada que atravessa a região — é uma artéria fundamental para o abastecimento do sul da Oromia — tem sido frequentemente cortada através do derrube de árvores ou com pedras. A via atravessa florestas densas e é fácil cortar árvores.

Durante a noite de terça, 28 de fevereiro, pessoas não identificadas abateram à machadada um dos postes do ramal elétrico de média tensão que também serve a missão, deixando às escuras durante uma semana as cidades de Me’ee Bokko e Hirba Muda além de algumas aldeias.

As escolas foram encerradas a 1 de março para evitar que os alunos viessem para as ruas engrossar a contestação.

A 6 de março os comerciantes de Adola mantiveram as lojas fechadas em sinal de protesto.

Os militares patrulham as cidades e as estrada principais para tentar controlar a situação.

Entretanto, uma alta delegação guji deslocaram-se a Adis-Abeba — em oromo chamamos-lhe Finfinne — a 8 de março com o objetivo de reverter a anexação de parte do seu território na zona dos boranas.

Fontes bem informadas explicaram-me que a possibilidade da restituição do território guji incorporado na Zona de Borana-Leste é remota.

O trabalho pastoral da missão de Qillenso — com exceção da escola que foi reaberta esta segunda-feira mas funciona a meio gas — continua sem problemas. As patrulhas militares resolvem rapidamente of cortes de estrada. O único senão foi ficarmos às escuras e sem água em casa durante uma semana. Mas foi interessante voltar a viver à luz das velas!

Espera-se que a vontade do Parlamento Oromo em não mexer na restruturação administrativa não volte a trazer as pessoas para a rua para expressar indignação.

Os jovens, desempregados e afastados do ensino superior — somente cerca de três por cento conseguiu no fim do ano letivo anterior passar no exame de ingresso à universidade —, são um grupo muito volátil, vulnerável e manipulável.

Agora que parece que as chuvas regressaram, precisamos de paz para preparar os campos e iniciar a nova campanha agrícola.

Além dos distúrbios causados pela recente reforma administrativa, o território guji tem sido palco de recontros entre os rebeldes do OLA (Exército de Libertação Oromo na sigla em inglês) e as tropas do Governo a sul de Adola, na estrada para Neguele, e na zona de Shakisso.

O Governo tem enviado grandes colunas militares para a área, mas o conflito só pode ser dirimido através da negociação, como aconteceu com a revolta do Tigré. As autoridades dizem à população para abandonar as áreas dos confrontos, mas, segundo fontes bem informadas, os rebeldes não o permitem usando-as como escudos humanos.

A insegurança causada pelo conflito tem afetado o nosso serviço missionário nalgumas capelas da região. Há três comunidades que ainda não conheço, porque os catequistas dizem não ser seguro ir lá celebrar a Eucaristia.

A terra guji precisa urgentemente de paz. As pessoas trazem sempre a paz — “nagueya” — na boca e rezam incessantemente por ela durante as eucaristias. “Nagueya” é a palavra-chave das saudações dos gujis.

A experiência de insegurança das últimas semanas assustou muito a gente. Associa-te, por favor, a esta corrente de oração.

8 de março de 2023

ABBA DETOMASO: 50 ANOS NA ETIÓPIA

 

O padre Giuseppe Detomaso tinha 30 anos quando aterrou pela primeira vez na Etiópia e ficou lá durante cinco décadas. Uma vida de serviço e entrega generosa aos mais pobres e abandonados.

O calendário marcava 12 de Outubro de 1972, quando Abba Giuseppe Detomaso aterrou pela primeira vez na Etiópia. Tinha 30 anos. Chegou cheio de sonhos para permanecer no país durante meio século. «O meu sonho? Queria ir para uma missão, juntar-me aos missionários lá presentes; descobrir as coisas boas do povo Sidamo, estudar a sua língua e cultura e participar da sua vida», recorda.

Dias depois, foi para Sul para um primeiro contacto com as missões combonianas na província de Sidamo. No final do ano, mudou-se para Adis-Abeba, a capital, para frequentar o curso de amárico numa escola protestante.

Em Janeiro de 1974, Abba Giuseppe foi colocado em Dilla. Começou a abrir catecumenatos e escolas primárias. Em Dilla, administrou os primeiros baptismos e entregou os primeiros boletins escolares.

Em 1975, o imperador Haile Selassie foi destronado pelos militares que impuseram o Derg, um regime comunista que duraria até 1991. «O novo regime não trouxe sérios problemas às nossas missões, porque estávamos a trabalhar com os pobres, embora o perigo de expulsão fosse real», admite Abba Giuseppe.

Em Janeiro de 1976, juntou os seus parcos pertences e mudou-se para Arramo. Os missionários viviam numa barraca muito pobre sem água corrente nem electricidade, infestada de ratos e formigas, expostos à curiosidade de quem passava. Abba Giuseppe, entretanto, dedicou-se a aprender guedeo, a língua local.


A vida é feita de mudanças

Em 1986, o superior provincial pediu a Abba Giuseppe que deixasse as colinas verdes de Arramo e Galcha e se mudasse para a cidade de Hawassa, junto ao lago que lhe deu o nome, para dirigir a Escola Primária Comboni.

Foi uma obediência difícil. A escola tinha cerca de 2000 alunos desde o jardim-de-infância até à oitava classe. Era uma realidade complexa com 20 turmas, 30 professores e três turnos de ensino: manhã, tarde e noite. Contudo, o bom clima de diálogo com os professores, construído com base na confiança mútua e no esforço de ensino qualificado, granjeou uma boa reputação para a escola. Nesses dias, aos fins-de-semana, Abba Giuseppe fazia trabalho pastoral na cidade e nas capelas dos arredores.

Após sete anos a dirigir a escola primária e celebrando as bodas de prata sacerdotais, foi-lhe oferecido um ano sabático.

De volta à Etiópia, Abba Giuseppe é colocado na paróquia de Dongora. Para desenvolver o trabalho pastoral, criou uma equipa com os três melhores catequistas escolhidos pelo seu empenho e melhor educação. Foram formados para serem os seus colaboradores mais próximos e supervisores das actividades pastorais.

Na cidadezinha de Chukko, abriu uma escola de costura e um infantário. Também construiu uma bela igreja com vista à criação de uma nova paróquia.

Depois de Dongora, foi nomeado pároco de Tullo – uma das primeiras missões entre os Sidamos na margem do lago Hawassa. Foram tempos de crise de crescimento, colaboração com os padres locais e entrega de algumas missões.

Mais tarde, o bispo decidiu dividir a paróquia, que tinha cerca de 60 capelas. Abba Giuseppe voltou a fazer as malas e foi para Arosa, a capela escolhida para ser o centro da nova missão. Contudo, a escassez de missionários levou a província a entregar Arosa ao clero local e foi transferido para Teticha, uma missão extensa nas montanhas de Sidamo, a 2700 metros acima do nível do mar, onde o comboniano português padre Ivo do Vale trabalhou bastantes anos com muito amor.

Durante a estada em Teticha, Abba Giuseppe foi convidado a ir a Fullasa – a maior paróquia do vicariato de Hawassa e no país com cerca de 40 mil católicos – para a entregar ao clero local. Ficou lá de Janeiro a Outubro de 2013.

Em 2015, chegou o tempo de dividir a missão. Os Combonianos fizeram da capela de Daye, nas terras baixas, a cerca de 50 quilómetros a sul da sede da missão, o centro da nova paróquia. Num vasto complexo, Abba Giuseppe construiu uma escola e uma casa e fez um poço para acolher a nova comunidade. A nova missão começou com 27 capelas. Os missionários também abriram um infantário, depois a escola primária e finalmente a escola média. Juntas, tinham 700 alunos.


Salvar a África com a África

A rotação interna trouxe Abba Giuseppe de Daye para Hawassa em Julho de 2020. No início deste ano, problemas de saúde obrigaram-no a ir para Adis-Abeba, onde veio a falecer no dia 13 de Janeiro passado.

O Departamento da Missão de Bolzano, na Itália – a sua diocese de origem – concluiu um documentário sobre Abba Giuseppe com estas palavras: «Tu amas o povo e o povo ama-te.» Uma frase curta que sintetiza admiravelmente o seu serviço missionário na Etiópia.

Ele próprio não precisou de muitas palavras para resumir o percurso missionário: «Tive a oportunidade de ver o início de muitas missões e depois de testemunhar a sua entrega ao clero local. O meu serviço missionário é resumido nas palavras de São Daniel Comboni “Salvar a África com a África”.»

6 de março de 2023

A NOITE


O breu do meu bocadinho de céu
    está pintado
de estrelas, planetas e satélites,
    riscado por desejos cadentes.
O silêncio frio da noite
é palco aberto
    da polifonia harmónica da vida:
da estridência dos insetos,
    liderados pelos grilos e cigarras,
aos piares perdidos de aves notívagas,
do roncar gutural de frio dos símios,
ao ciciar do vento que acaricia
    as copas das árvores,
dos ecos abafados de conversas
trocadas no calor do lar.
A noite escura tem vida,
a noite é vida, intimidade,
mistério da presença de Deus,
que tudo criou, que tudo guarda
    e tudo conserva.
Ó noite, fonte dos amores,
de vidas reproduzidas...
Ó noite,
minha noite,
meu bocadinho de céu,
escuridão minha sarapintada de luz,
da Tua Luz,
    que é também minha.
Boa noite, noite minha,
meu lado escuro,
meu breu
à espera do sorriso dourado
    da Lua Nova,
da redenção
    da Lua Cheia!

16 de fevereiro de 2023

A POESIA DA MISSÃO


Há muito que acalentava um sonho que ia adiando dada a sua magnitude: ler de fio a pavio os Escritos de São Daniel Comboni. A obra reune em mais de duas mil páginas cartas, relatórios, estudos, documentos e outros textos escritos pelo fundador da Família Comboniana — os Missionários Combonianos, as Irmãs Missionárias Combonianas, as Missionárias Seculares Combonianas e os Leigos Missionários Combonianos — entre 27 de Dezembro de 1850 e 4 de Outubro de 1881.

Em meados de agosto passado, quando regressei de Portugal, decidi-me: é agora ou nunca. Até porque aqui tempo não falta, faz-se. Descarreguei as 1494 páginas A4 de texto corrido no leitor eletrónico e, mais de 50 horas depois, dei o meu sonho por cumprido.

Ler Comboni dia após dia foi sobretudo uma experiência de comunhão muito forte com o meu pai e fundador: desde a luta interior que travou para deixar os velhos pais (era o único sobrevivente de oito irmãos) e embarcar numa expedição do Instituto de Dom Mazza — de que fazia parte — à África Central até à última carta ao P. José Sembianti, superior dos Institutos masculino e feminino que fundou em Verona, Itália, para a África Central seis dias antes de morrer. Consumido pelas febres, esgotado pelas fadigas apostólicas, dilacerado pelas calúnias, escreve: «Que aconteça tudo o quer Deus quiser. Deus nunca abandona quem nele confia. Ele é o protector da inocência e o vingador da justiça. Eu sou feliz na cruz, que levada de boa vontade por amor de Deus gera o triunfo e a vida eterna».

Comboni é um excelente escritor e leva-nos a viajar com ele através das descrições que faz da peregrinação à Terra Santa, a caminho de África, das viagens Nilo Branco abaixo até Santa Cruz, a missão entre os dincas do Sudão do Sul onde viveu entre fevereiro de 1858 e janeiro de 1859, através dos desertos do Atmur e do Cordofão baloiçando na garupa de um camelo de braço ao peito, de Cartum, El Obeid ou dos Montes Nuba.

Escrevia muito para dar a conhecer a sua amada África Central — «o primeiro amor da minha juventude», denunciar a escravatura atroz a que os seus povos estavam submetidos, para encontrar missionários e meios financeiros para levar por diante a sua missão superlativa — «certamente a parte mais infeliz e abandonada do mundo, como também a mais difícil de evangelizar pelas particulares circunstâncias que se opõem à sua conversão», «a mais vasta», «a mais extensa e povoada missão do universo». Ele queria ter «cem línguas e cem corações para falar em favor da pobre África», «mil vidas para as consumir nesse fim». «Eu morrerei com a África nos lábios», profetizou.

Comboni cultivava a amizade desde gente simples a reis e imperadores. Entre as pessoas amigas figurava «Sua Alteza Real D. Maria Assunção de Bragança, filha do antigo rei de Portugal, que tem a bondade e a paciência de me receber durante 4 e até 6 horas por dia. Grande bem reverterá em favor da África de tão grata e valiosa relação». A princesa portuguesa, de 32 anos, vivia em Roma e foi sua professora de português. Mas também falava e escrevia em latim, italiano, alemão, francês, inglês (assinava The Tablet, o semanário católico que ainda hoje é publicado), árabe, dinca e oromo (uma das línguas da Etiópia que aprendeu quando foi ao Adem, em 1861, resgatar alguns rapazes dessa etnia para os levar para Itália para os formar).

Comboni tinha um só ideal: salvar a África através dos africanos. Escreveu um plano para colocar essa máxima em prática envolvendo todas as forças missionárias da Igreja numa colaboração que não era fácil devido «[a]o maldito egoísmo religioso e fradesco que impera em quase todas as ordens religiosas». Caluniado por alguns dos colaboradores que queriam o seu posto de pró-vigário apostólico e, depois, bispo, perdoava-lhes tudo contanto que se mantivessem a trabalhar na África. E não tinha problemas em beber merisa, a cerveja que os sudaneses faziam com sorgo e que substituía o vinho que era caríssimo e usado só para a missa.

Comboni foi o primeiro a levar missionárias para a África Central: primeiro, as irmãs de São José da Aparição, e depois, as Pias Madres da Nigrícia, que fundou em 1872, hoje chamadas Irmãs Missionárias Combonianas: «Eu fui o primeiro a fazer com que colabore no apostolado da África Central o omnipotente ministério da mulher do Evangelho e da irmã da caridade, que é o escudo, a força e a garantia do ministério do missionário».

Há dois séculos, ser missionário na África Central não era fácil. Não havia os remédios que temos contra as doenças tropicais, o transporte por via fluvial, de camelo ou a cavalo levava meses, os custos eram enormes, «em El Obeid a água custa mais que o vinho em Itália». Comboni chamava cruzes às dificuldades e dizia amiúde: «Deus estabeleceu que as obras que devem servir para a sua maior glória sejam marcadas com o selo da cruz». Para ele as cruzes eram o selo de garantia das obras de Deus. E explicou: «Cristo fabricou a cruz e não a carroça para ir para o céu».

Comboni escreve que lhe chamavam poeta dado o entusiasmo com que falava da África e dos Africanos. Mas a situação na linha da frente era desafiante: «toda esta poesia tornou-se prosa em três dias», confessa. Sobre um colega missionário, rico de pessoal e de meios, comenta: «rogo a Deus que este grande prelado faça o bem; mas não tenho confiança nele, pois falta-lhe a poesia do verdadeiro espírito». A esta poesia da missão chamo mística. O fundador da Família Comboniana era um grande místico, capaz de intuir o dedo de Deus nos acontecimentos e nas pessoas e viver, tranquilo, a realidade.

Ele queria missionárias e missionários «santos e capazes, […] humildes», porque «uma missão tão árdua e laboriosa como a nossa não pode viver da aparência, e de sujeitos de pescoço torto, cheios de egoísmo e de si mesmos, que não cuida como se deve da salvação e conversão das almas». Para ele, «a caridade é a vida do missionária».

Comboni sofria de insónias terríveis, lutava constantemente com a falta de recursos humanos e financeiros, era atribulado por um sem número de problemas, mas não deitava a toalha ao chão: dizia-se «pobre, crucificado, porém sempre alegre».

Só parou com a morte, a 10 de outubro de 1881, em Cartum, no Sudão, cidade de que era bispo. As suas últimas palavras? «Coragem para o presente, mas sobretudo para o futuro» e «Eu morro mas a minha obra não morrerá», como contaram os missionários que assistiram à sua agonia.

13 de janeiro de 2023

QUERIDO ABBA GIUSEPPE, A DEUS


A notícia deixou-me parvo: o Abba (Padre) Giuseppe Detomaso faleceu esta tarde, inesperadamente, num hospital de Adis-Abeba, a capital da Etiópia. Faria 81 anos no último dia do mês. O Ir. Desu, que vivia com ele em Hawassa, tinha comprado um carneiro para lhe fazermos a festa que merecia. Em outubro tinha completado meio século de serviço missionário na Etiópia.

Natural das montanhas Dolomites no Norte da Itália, o missionário comboniano aterrou pela primeira vez na Etiópia a 12 de outubro de 1972 e por cá ficou. Tinha 30 anos. Os primeiros quatro anos de ministério sacerdotal passou-os na Itália a fazer animação missionária e promoção vocacional. Dedicou-se à evangelização e educação dos povos guedeo e sidama, no Vicariato de Hawassa, sul da Etiópia.

Há três semanas, quando pernoitei em Hawassa a caminho do Conselho Provincial em Adis-Abeba, acheio-o bastante abatido. Quando regressei, semana e meia depois, estava muito melhor. Tinha de volta o sorriso acolhedor. Disse-me que estava a tomar medicamentos para o tifo, que se sentia muito melhor.

Antes de ontem o superior provincial foi vê-lo a Hawassa e decidiu levá-lo de avião para a capital para receber uma assistência médica mais qualificada Ficou internado no hospital. Os médicos descobriram que o cancro na próstata estava espalhado por todo o corpo. Esta tarde regressou à Casa do Pai.

Em novembro fiz-lhe uma longa entrevista de retrospectiva de meio século de serviço missionário que vai ser publicada revista Além-Mar de fevereiro.

«Durante esta longa viagem de 50 anos, tive sempre um Companheiro que, em todas as minhas obras pastorais e sociais e em todos os serviços que fiz, foi a minha inspiração e realização. A Ele honra e glória», disse-me.

E concluiu: «Tive a oportunidade de ver o início de muitas missões e depois de testemunhar a sua entrega ao clero local. O meu serviço missionário é resumido nas palavras de São Daniel Comboni “Salvar a África com a África”».

Um homem bom, simples, tranquilo, cheio de Deus e de amor para o Seu povo. Foi o meu confessor entre 1993 e 2000, durante o meu primeiro período de serviço entre os Gujis, e desde novembro de há dois anos, depois do meu regresso.

Ajudou-me a ver o dedo de Deus na minha vida e no meu pecado. Estou-lhe eternamente grato pela amizade, sabedoria e testemunho de dedicação missionária.

Encomendo-o à misericórdia do Senhor. Sei que está no abraço terno e eterno de Deus, a interceder pela Etiópia e pela família comboniana.

A Deus, meu irmão maior. Reza também por mim.

6 de janeiro de 2023

CARTA AO JESUS MENINO


Meu querido Jesus Menino,

Hoje, 7 de janeiro, celebramos o teu nascimento na Etiópia com muitos cânticos e danças, roupa limpa (e nova para quem puder), comida melhorada apesar da inflação que baralha as contas. Os católicos de Qillenso fizeram uma vaquinha para comprarem uma toira para a refeição comum do teu Natal. Tu também nasces nestes montes tranquilos e verdejantes de Qillenso e na cidade agitada, poeirenta e quente de Adola.

Obrigado por teres encarnado a nossa vida, a nossa história. Assim, sabes como é o humano viver: conheces as nossas alegrias e tristezas, angústias e esperanças. Por isso não te vou falar delas. Confio-as à tua ternura amorosa.

É costume pedir-te coisas através das cartas de Natal se nos portarmos bem durante o ano. Deixo aqui as minhas solicitações, confiado na tua misericórdia.

Hoje, só te quero pedir paz para a Etiópia — e especialmente paz para a Oromia onde vivo — e para o mundo inteiro. Tu és o Príncipe da Paz: monta a tua tenda de novo entre nós. Pacifica os corações violentos, os desmandos egoístas, a sede louca de vingança e de sangue.

Agradeço as bênçãos do primeiro ano de regresso à Etiópia. vOferceço-te todas as pessoas que trago no coração. São tantas, mas ficam em boas mãos.

Este foi um ano especial!

Regressei onde fui muito feliz e continuo a viver a benção de estar com esta gente simples, boa, acolhedora, simpática, às vezes exigente e desmedida, mas sempre sorridente.

Agradeço-te por abba Hippolyte, o meu companheiro de serviço missionário entre os gujis; por Guyyate, que nos traz nutridos e limpos; por Sholango, que com a sua sabedoria nos ajuda a navegar as dificuldades inerentes à nossa presença. Agradeço-te por Marta, que partiu feliz para o noviciado das Irmãs da Caridade na Zâmbia; por Duretti, que apesar dos achaques dos anos acumulados mantém o sorriso lindo e vem fielmente à missa apesar de ter de caminhar mais de três quilómetros para cada lado.

Agradeço-te pelos catequistas e pelos anciãos, que se esforçam por animar as comunidades locais; pelas professoras e professores que ajudam os alunos a gizar um futuro melhor. Agradeço-te pelas irmãs e irmãos combonianos que partilham a sorte das Etíopes e dos Etíopes apesar das dificuldades das línguas, do custo de vida, da insegurança da guerra, das tensões inter-étnicas…

Agradeço-te teres transformado os medos que toldaram o meu regresso em alegrias e estupefação, por me manteres tranquilo e feliz, satisfeito entre este povo que também é meu e eu sou deles.

Agradeço o colinho que me dás através da amizade, orações e ofertas dos familiares, amigos e benfeitores.

Peço a sabedoria de te ver nas coisas pequeninas do quotidiano, de te adorar nos mais pobres e abandonados, de te encontrar encarnado nas pessoas com quem partilho a vida, sem preferências nem escolhas.

Bom Natal etíope, meu querido Jesus Menino. Nasce no nosso coração para sermos presépios viventes de justiça, paz e alegria.

Que a alegria que leio nos olhos enormes dos meus vizinhos seja a companheira de viagem durante este ano de 2023 de cada uma e de cada um deles. E minha também.

GUARDADORAS DA ESPERANÇA

— Eu não consigo… não consigo! – repetia sempre Reem, uma jovem beduína palestiniana de 16 anos, sempre que a convidávamos para aprender a u...