5 de abril de 2023

É A PÁSCOA DO SENHOR


Estamos às portas do Tríduo Pascal, os três maiores dias da nossa fé que fazem memória da paixão, morte e ressurreição de Jesus, o seu mistério pascal. Enquanto celebramos a sua Páscoa  o fulcro do calendário cristão, a mãe de todas as solenidades cristã  queremos rezar também as nossas próprias passagens pela vida. A Páscoa de Jesus é a nossa própria Páscoa. A sua ressurreição dos mortos é também a nossa ressurreição. Somos filhos da Ressurreição.


PARADOXO PASCAL

“A vida da Igreja consiste em participar no paradoxo da Páscoa: o momento de doação e autotranscendência, a transformação da morte em ressurreição e vida nova”, o teólogo checo Tomas Halik sublinhou num discurso recente.

O autor da Carta aos Hebreus explica o paradoxo cristão, convidando-nos à contemplação: “Mantenhamos os nossos olhos fixos em Jesus, que nos conduz na nossa fé e a leva à perfeição: por causa da alegria que o esperava, ele suportou a cruz, ignorando a vergonha da mesma, e sentou-se à direita do trono de Deus” (Hebreus 12:2).

Só através de um coração contemplativo podemos compreender e experimentar o paradoxo do Mistério Pascal de Jesus, a pedra fundamental, o alicerce da nossa fé.

A raposa ensina ao pequeno príncipe na parábola intemporal de Antoine de Saint-Exupéry O principezinho que “só com o coração é que se pode ver bem. O que é essencial é invisível aos olhos”. Mais tarde, o pequeno resume o ensinamento da raposa exclamando que “os olhos estão cegos. É preciso olhar com o coração”.

O Mistério Pascal de Jesus é a manifestação do seu amor até ao fim. João apresenta a narrativa da Páscoa do nosso Senhor com as palavras “Jesus, sabendo bem que tinha chegado a sua hora da passagem deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo” (João 13,1). 

Podemos compreender, podemos captar, podemos habitar no amor de Jesus apenas através de um coração contemplativo. Só através da contemplação podemos saber “qual a largura, o comprimento, a altura e a profundidade” (Efésios 3,18) do seu amor.

Fazendo memória da Páscoa de Jesus, celebramos a nossa própria Páscoa, o triunfo de Deus sobre Satanás, da vida sobre a morte, da graça sobre o pecado. Através da ressurreição de Jesus, proclamamos que a nossa pátria não são o sofrimento e a morte, mas é a alegria que é o nosso destino final, a nossa etapa eterna, a nossa vida para sempre. 


A PÁSCOA DE JESUS

A Páscoa de Jesus, o seu Mistério Pascal está no centro da fé cristã, é o seu acontecimento fundador. Aos cristãos de Corinto que diziam não haver ressurreição dos mortos, Paulo é muito inflexível: “se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé e permaneceis ainda nos vossos pecados” (1 Corintos 15:17). E conclui: “Mas não! Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram. Porque, assim como por um homem veio a morte, também por um homem vem a ressurreição dos mortos” (1 Coríntios 15: 20-21).

O mistério pascal de Jesus está no centro da proclamação da primeira comunidade cristã desde o Dia de Pentecostes, a própria origem da Igreja, o seu kerygma, pregão. 

Nesse dia, Pedro anunciou às multidões: “Homens de Israel, escutai estas palavras: Jesus de Nazaré, Homem acreditado por Deus junto de vós, com milagres, prodígios e sinais que Deus realizou no meio de vós por seu intermédio, como vós próprios sabeis, este, depois de entregue, conforme o desígnio imutável e a previsão de Deus, vós o matastes, cravando-o na cruz pela mão de gente perversa. Mas Deus ressuscitou-o, libertando-o dos grilhões da morte, pois não era possível que ficasse sob o domínio da morte” (Actos 2: 22-24). Este é pregão cristão mais importante, o coração pulsante do próprio Evangelho.

As quatro Preces Eucarísticas para uso em missas por várias necessidades, mapeam o itinerário pascal de Jesus com uma oração: "Pai santo, celebrando o memorial de Cristo, vosso Filho, nosso Salvador, que, pela sua paixão e morte na cruz, fizestes entrar na glória da ressurreição e glorificastes, sentando-O à vossa direita, anunciamos a obra do vosso amor, enquanto esperamos a sua vinda gloriosa, e Vos oferecemos o pão da vida e o cálice da salvação".

A Páscoa de Jesus não é um acontecimento privado, uma viagem a solo da vida para a morte e da morte para a vida eterna. É um mistério de comunhão com o Pai. De facto, Jesus na sua Páscoa, é conduzido pelo Pai desde a sua paixão até à sua glorificação como o Senhor de todos e de tudo.

A Páscoa do Senhor é também um mistério de comunhão com os defuntos. Os ícones ortodoxos da Ressurreição apresentam Jesus trazendo consigo do lugar dos mortos todos os justos, os santos que esperavam pela sua ressurreição para serem libertados da morte. Em algumas igrejas cristãs antigas, esta teologia da ressurreição também está representada nalgumas esculturas com Jesus a vir da mansão dos mortos trazendo pela mão uma enorme multidão de santos, a começar por Eva e Adão. O Ofício das Leituras do Sábado Santo apresenta uma belíssima homilia do século IV com o mesmo teor.

A ressurreição de Jesus forma o coração da proclamação da Igreja, o seu Kerygma, desde o próprio dia da Ressurreição, no alvorecer do primeiro dia da semana, o primeiro dia da nova criação. Melhor, a ressurreição está no coração do próprio kerygma de Jesus que se torna anúncio da Igreja. 

Quando Jesus se mostra aos apóstolos na sala de cima em Jerusalém, diz-lhes: “Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar dentre os mortos, ao terceiro dia; que havia de ser anunciada, em seu nome, a conversão para o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém” (Lucas 24, 46-47). E acrescentou: “Vós sois testemunhas destas coisas” (versículo 48).

No dia da Ascensão, pouco antes de voltar para o Pai, Jesus fez uma promessa aos discípulos: “Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo” (Actos 1,8).

Os primeiros crentes definiram-se a si próprios como testemunhas da ressurreição de Jesus. Pedro disse à multidão no Dia de Pentecostes: “Foi este Jesus que Deus ressuscitou, e disto nós somos testemunhas” (Actos 2,32). Mais tarde, na casa de Cornélio, em Cesareia, proclama: “Às testemunhas anteriormente designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com Ele, depois da sua ressurreição dos mortos. E mandou-nos pregar ao povo e confirmar que Ele é que foi constituído, por Deus, juiz dos vivos e dos mortos” (Actos 10,41b-42).

Comemos e bebemos com o Senhor Ressuscitado em cada celebração eucarística, a fim de sermos testemunhas da sua ressurreição através de vidas boas, vidas ressuscitadas, libertadas do poder de Satanás.

A ressurreição de Jesus é o coração da nossa missão. O Papa Francisco deixa-o claro num tweet: “A paixão pelo Evangelho não é uma questão de compreensão ou de estudos, que são úteis mas não a geram. Pelo contrário, significa passar pela experiência da queda e da ressurreição”.

E São Daniel Comboni escreveu: “este Coração admirável […] glorioso ressuscitado, manda os apóstolos pregar a salvação ao mundo inteiro” (Escritos 2232).

Como discípulos missionários de Jesus, somos testemunhas da sua ressurreição através da vida nova que vivemos desde o Batismo.  Deus recriou-nos através do Mistério Pascal do seu Filho. 

Na cultura atual marcada pelo individualismo, hedonismo, euismo, exploração, violência, destruição e morte, somos chamados a viver a bondade de Deus, a proclamar que o sonho de Deus de justiça, paz e alegria — o seu Reino — não está morto. Ele está vivo em nós, connosco e através de nós. 

A nossa vida comum é o laboratório desta nova vida Pascal.

Santas festas pascais na paz do Ressuscitado!

4 de abril de 2023

VIAJA LIGEIRO

Viaja ligeiro,
o vento é teu companheiro.
Veste o essencial:
olhos para contemplar,
ouvidos para escutar,
boca para louvar,
nariz para descobrir,
pele para sentir,
tato para ver,
coração para amar,
mãos para acarinhar,
abraços para estreitar,
pés para sentir a Mãe-Terra,
     para caminhar.
E muito deslumbre
     até te extasiar.
O resto?
Vem por acréscimo!

30 de março de 2023

Etiópia: SECA ENTRE OS BORANA





Entre 10 e 13 de março, o arcebispo de Adis Abeba, cardeal Berhaneyesus Souraphiel, e os representantes do Vicariato de Hawassa, P. Juan González Núñez, administrador apostólico, P. Nicola Di Iorio, vice-diretor executivo, e P. Tsegaye Getahun, diretor do Secretariado Católico de Hawassa, visitaram a região de Borana, localizado no sul do Vicariato, habitado em grande parte pelo grupo étnico de mesmo nome, uma das áreas mais afetadas pela seca, para levar ajuda e, acima de tudo, esperança para as muitas vítimas.


Na Etiópia, diz-se que se se pedir água a um Borana, ele oferece leite. Hoje, no entanto, esse povo generoso não pode oferecer leite ou água: as pessoas e seus animais estão literalmente a morrer de sede.

Os Borana ocupam a parte mais ao sul da Etiópia, na fronteira com o Quénia. A sua terra é uma savana perpetuamente árida, mas, se as chuvas são regulares, é capaz de suportar dois a três milhões de bovinos, além de grandes rebanhos de cabras brancas.

Infelizmente, a tendência normal de chuvas no distrito mudou drasticamente. Há cinco anos que não chove, e a capacidade da região de lidar com essa catástrofe esgotou-se completamente. Um após o outro, todos os pontos de água secaram e quase todo o gado morreu. Fala-se de pelo menos dois milhões de cabeças de gado mortos pela fome e sede.

Devemos regressar a 1984 para encontrar uma tragédia destas dimensões. Eu também a testemunhei em primeira mão. Naquele ano de terrível memória, as vítimas da seca entre os Borana excederam um milhão.

Hoje, o governo promete que não deixará um único indivíduo morrer devido à seca. Talvez ele pudesse fazê-lo se juntasse todos os Boranas nos campos de deslocados internos. No entanto, não será possível saber com certeza quantas vítimas terão falecido nas suas aldeias devido à desnutrição e fome.

Gradualmente, a maioria das pessoas já se mudou para os campos de deslocados internos criados pelo governo.

A delegação da Igreja Católica, liderada pelo cardeal de Adis Abeba, visitou o campo de Dubluk, que, com oitenta mil habitantes, é um dos maiores da região Borana. As pessoas deslocadas vivem principalmente em tendas, algumas em cabanas, outras em barracos de madeira cobertos com folhas de plástico. As pessoas parecem limpas, vestidas decentemente e bem alimentadas: roupas e alimentos são fornecidos pelo governo e instituições de caridade. Mas há um sentimento de desespero entre aqueles que antes eram ricos e perderam tudo.

A seca já dura há cinco anos: o mais longo que as pessoas se lembram. Desde o início, o Vicariato de Hawassa está presente, ajudando as pessoas deslocadas de todas as formas possíveis. Entre os Boranas, existem três missões católicas dos Missionários Espiritanos, que se destacaram por trabalho social através de escolas, residências estudantis e escavações de poços de água.

O Vicariato continua a ajudar a população, mas não se vê um fim à vista para esta grave crise humanitária. Até hoje conseguimos colaborar na assistência a cerca de um milhão e meio de Boranas, distribuindo grandes quantidades de ajudas recebidas de organizações como a Caritas América, Caritas Áustria e outras.

Um dia depois da nossa visita aos deslocados, começou a chover. É possível que as pessoas comecem a dizer que foram os católicos que trouxeram a chuva. Seria um equívoco curioso. Sabemos bem que só Deus é o Senhor de tudo que a sua providência coloca à nossa disposição.

Juan González Núñez, mccj

28 de março de 2023

AZIZA, A FREIRA DE FOGO


Azezet Habtezghi Kidane nasceu na Eritreia a 21 de agosto de 1956. Em 1980, com 24 anos, Aziza — como também é conhecia — juntou-se às Missionárias Combonianas. Enfermeira de profissão, desenvolveu o ser serviço missionário na Eritreia (cinco anos), Etiópia (sete anos), Sul do Sudão (dez anos) e Inglaterra (sete anos).

Em 2008 foi destinada à província comboniana do Médio Oriente, ficando a viver na Palestina.

A Ir. Aziza é pequena de estatura, mas tem um coração enorme, veste um sorriso tímido nos lábios e tem um cruz tatuada na testa. É uma mulher de fogo!

Em Israel, colabora como enfermeira voluntária com a organização não governamental Médicos para os Direitos Humanos-Israel, PHR-I na sigla em inglês.

No trabalho de enfermagem, ouvindo as histórias dos requerentes de asilo, apercebeu-se que algo de estranho se passava na Península do Sinai, no Egito.

Entre 2010 e 2012 fez milhares de entrevistas a estrangeiros — muitos eritreus como ela — que procuravam os seus cuidados e contavam os horrores por que passaram e pôs a nu uma rede de tráfico, tortura e exploração sexual no Sinai.

De acordo com o que apurou, pelo menos sete mil pessoas morreram sob tortura na península egípcia.

O Departamento de Estado Norte-Americano reconheceu a heroicidade desse trabalho de investigação sobre o tráfico de pessoas e atribuiu-lhe o prémio Trafficking in Persons Report Heroes em 2012.

Por seu turno, o embaixador da Eritreia em Israel telefonou-lhe para que parasse as investigações. A Ir. Aziza não é mulher para se deixar intimidar e continuou com o trabalho. Consequentemente perdeu a cidadania eritreia. Quando o passaporte caducou a embaixada recusou-lhe a renovação. Agora é cidadã britânica.

As Combonianas também assistem os beduínos palestinianos que foram expulsos do deserto do Negueb com um jardim infantil e através da promoção da mulher. A Ir. Aziza denuncia que os beduínos não têm quaisquer direitos reconhecidos e não podem construir nada em material permanente, vivendo em autênticos bairros de lata feitos de madeira, plástico e cartão.

O seu ativismo em favor dos direitos humanos dos requerentes de asilo, dos imigrantes africanos em Israel e dos beduínos levou-a ao Knesset, o Parlamento Israelita, por cinco vezes para partilhar com os políticos as suas descobertas e denunciar a violação sistemáticos dos direitos dos não-judeus no país.

A Ir. Aziza denuncia que em Israel as injustiças contra os não-judeus são gritantes e há cristãos fanáticos que apoiam a violência do Estado contra as minorias.

Considera-se livre de falar, de denunciar as injustiças. Pode falar sobre a política e as injustiças contra os requerentes de asilo. “Os Israelitas escutam mas não se preocupam com o que dizes” — confessa.

Durante a semana trabalha dois dias na clínica móvel de uma ONG em Israel para atender pacientes sem direitos sociais que não têm dinheiro para pagar a assistência de saúde privada. Cada sábado a clínica móvel desloca-se para o Território Palestiniano.

A Ir. Aziza afirma que a Palestina é chamada Terra Santa “porque o sangue de Cristo ainda não secou; os inocentes continuam a sofrer”.

Trabalha tanto com Judeus — com eles reza sobretudo os salmos — como com Palestinianos.

“A pessoa que vive a sua beleza, revela a bondade de Deus”, confessa, entusiasmada.

Diz que o seu trabalho humanitário é a dimensão mais importante da sua vocação comboniana.

No seu serviço missionário tem colaborado com muitas pessoas que se dizem não crentes, mas que são dedicadas, amorosas e capazes de perdoar.

“Elas não acreditam, mas trazem Cristo, Deus, a Bíblia dentro de si”, proclama, com os olhos cheios de luz.

As Missionárias Combonianas têm duas comunidades na Terra Santa: o Centro de Espiritualidade em Betânia, Jerusalém, desde 1966, e Al Azarieh, na Palestina. Esta comunidade, aberta em 2011, faz trabalho pastoral, social e educativo com residentes e beduínos e dá assistência a migrantes em Tel Aviv.

16 de março de 2023

NEGUELE É NOSSA!

 

O Parlamento da Oromia decidiu re-estruturar algumas zonas administrativas do mais vasto estado regional etíope e o território guji foi incluído nessa reconfiguração.

Na segunda-feira, 27 de fevereiro, o Conselho Regional Oromo anunciou que a capital administrativa da Zona Guji passava de Neguele — perto da fronteira com a Somália — para Adola e que Neguele era a capital da nova Zona Borana-Leste. Além disso, Shakisso, uma área guji rica em ouro e outros minerais, passava a zona autónoma administrada diretamente pelo Governo Oromo.

A inclusão de Neguele e de três distritos gujis no território borana sem consulta prévia criou uma onda de contestação violenta muito forte entre os guji, sobretudo nas zonas urbanas.

Os manifestantes — sobretudo jovens — vieram para a rua gritar “Negeele kennaa”, “Neguele é nossa”, ao mesmo tempo que exprimiam a raiva através de alguns atos de vandalismo.

Na cidade de Bore, a meia centena de quilómetros a norte de Qillenso onde vivo, pelo menos três pessoas foram mortas e duas feridas em recontros violentos com as forças da ordem (polícia e tropas).

Muitos manifestantes acabaram na prisão.

A estrada asfaltada que atravessa a região — é uma artéria fundamental para o abastecimento do sul da Oromia — tem sido frequentemente cortada através do derrube de árvores ou com pedras. A via atravessa florestas densas e é fácil cortar árvores.

Durante a noite de terça, 28 de fevereiro, pessoas não identificadas abateram à machadada um dos postes do ramal elétrico de média tensão que também serve a missão, deixando às escuras durante uma semana as cidades de Me’ee Bokko e Hirba Muda além de algumas aldeias.

As escolas foram encerradas a 1 de março para evitar que os alunos viessem para as ruas engrossar a contestação.

A 6 de março os comerciantes de Adola mantiveram as lojas fechadas em sinal de protesto.

Os militares patrulham as cidades e as estrada principais para tentar controlar a situação.

Entretanto, uma alta delegação guji deslocaram-se a Adis-Abeba — em oromo chamamos-lhe Finfinne — a 8 de março com o objetivo de reverter a anexação de parte do seu território na zona dos boranas.

Fontes bem informadas explicaram-me que a possibilidade da restituição do território guji incorporado na Zona de Borana-Leste é remota.

O trabalho pastoral da missão de Qillenso — com exceção da escola que foi reaberta esta segunda-feira mas funciona a meio gas — continua sem problemas. As patrulhas militares resolvem rapidamente of cortes de estrada. O único senão foi ficarmos às escuras e sem água em casa durante uma semana. Mas foi interessante voltar a viver à luz das velas!

Espera-se que a vontade do Parlamento Oromo em não mexer na restruturação administrativa não volte a trazer as pessoas para a rua para expressar indignação.

Os jovens, desempregados e afastados do ensino superior — somente cerca de três por cento conseguiu no fim do ano letivo anterior passar no exame de ingresso à universidade —, são um grupo muito volátil, vulnerável e manipulável.

Agora que parece que as chuvas regressaram, precisamos de paz para preparar os campos e iniciar a nova campanha agrícola.

Além dos distúrbios causados pela recente reforma administrativa, o território guji tem sido palco de recontros entre os rebeldes do OLA (Exército de Libertação Oromo na sigla em inglês) e as tropas do Governo a sul de Adola, na estrada para Neguele, e na zona de Shakisso.

O Governo tem enviado grandes colunas militares para a área, mas o conflito só pode ser dirimido através da negociação, como aconteceu com a revolta do Tigré. As autoridades dizem à população para abandonar as áreas dos confrontos, mas, segundo fontes bem informadas, os rebeldes não o permitem usando-as como escudos humanos.

A insegurança causada pelo conflito tem afetado o nosso serviço missionário nalgumas capelas da região. Há três comunidades que ainda não conheço, porque os catequistas dizem não ser seguro ir lá celebrar a Eucaristia.

A terra guji precisa urgentemente de paz. As pessoas trazem sempre a paz — “nagueya” — na boca e rezam incessantemente por ela durante as eucaristias. “Nagueya” é a palavra-chave das saudações dos gujis.

A experiência de insegurança das últimas semanas assustou muito a gente. Associa-te, por favor, a esta corrente de oração.

8 de março de 2023

ABBA DETOMASO: 50 ANOS NA ETIÓPIA

 

O padre Giuseppe Detomaso tinha 30 anos quando aterrou pela primeira vez na Etiópia e ficou lá durante cinco décadas. Uma vida de serviço e entrega generosa aos mais pobres e abandonados.

O calendário marcava 12 de Outubro de 1972, quando Abba Giuseppe Detomaso aterrou pela primeira vez na Etiópia. Tinha 30 anos. Chegou cheio de sonhos para permanecer no país durante meio século. «O meu sonho? Queria ir para uma missão, juntar-me aos missionários lá presentes; descobrir as coisas boas do povo Sidamo, estudar a sua língua e cultura e participar da sua vida», recorda.

Dias depois, foi para Sul para um primeiro contacto com as missões combonianas na província de Sidamo. No final do ano, mudou-se para Adis-Abeba, a capital, para frequentar o curso de amárico numa escola protestante.

Em Janeiro de 1974, Abba Giuseppe foi colocado em Dilla. Começou a abrir catecumenatos e escolas primárias. Em Dilla, administrou os primeiros baptismos e entregou os primeiros boletins escolares.

Em 1975, o imperador Haile Selassie foi destronado pelos militares que impuseram o Derg, um regime comunista que duraria até 1991. «O novo regime não trouxe sérios problemas às nossas missões, porque estávamos a trabalhar com os pobres, embora o perigo de expulsão fosse real», admite Abba Giuseppe.

Em Janeiro de 1976, juntou os seus parcos pertences e mudou-se para Arramo. Os missionários viviam numa barraca muito pobre sem água corrente nem electricidade, infestada de ratos e formigas, expostos à curiosidade de quem passava. Abba Giuseppe, entretanto, dedicou-se a aprender guedeo, a língua local.


A vida é feita de mudanças

Em 1986, o superior provincial pediu a Abba Giuseppe que deixasse as colinas verdes de Arramo e Galcha e se mudasse para a cidade de Hawassa, junto ao lago que lhe deu o nome, para dirigir a Escola Primária Comboni.

Foi uma obediência difícil. A escola tinha cerca de 2000 alunos desde o jardim-de-infância até à oitava classe. Era uma realidade complexa com 20 turmas, 30 professores e três turnos de ensino: manhã, tarde e noite. Contudo, o bom clima de diálogo com os professores, construído com base na confiança mútua e no esforço de ensino qualificado, granjeou uma boa reputação para a escola. Nesses dias, aos fins-de-semana, Abba Giuseppe fazia trabalho pastoral na cidade e nas capelas dos arredores.

Após sete anos a dirigir a escola primária e celebrando as bodas de prata sacerdotais, foi-lhe oferecido um ano sabático.

De volta à Etiópia, Abba Giuseppe é colocado na paróquia de Dongora. Para desenvolver o trabalho pastoral, criou uma equipa com os três melhores catequistas escolhidos pelo seu empenho e melhor educação. Foram formados para serem os seus colaboradores mais próximos e supervisores das actividades pastorais.

Na cidadezinha de Chukko, abriu uma escola de costura e um infantário. Também construiu uma bela igreja com vista à criação de uma nova paróquia.

Depois de Dongora, foi nomeado pároco de Tullo – uma das primeiras missões entre os Sidamos na margem do lago Hawassa. Foram tempos de crise de crescimento, colaboração com os padres locais e entrega de algumas missões.

Mais tarde, o bispo decidiu dividir a paróquia, que tinha cerca de 60 capelas. Abba Giuseppe voltou a fazer as malas e foi para Arosa, a capela escolhida para ser o centro da nova missão. Contudo, a escassez de missionários levou a província a entregar Arosa ao clero local e foi transferido para Teticha, uma missão extensa nas montanhas de Sidamo, a 2700 metros acima do nível do mar, onde o comboniano português padre Ivo do Vale trabalhou bastantes anos com muito amor.

Durante a estada em Teticha, Abba Giuseppe foi convidado a ir a Fullasa – a maior paróquia do vicariato de Hawassa e no país com cerca de 40 mil católicos – para a entregar ao clero local. Ficou lá de Janeiro a Outubro de 2013.

Em 2015, chegou o tempo de dividir a missão. Os Combonianos fizeram da capela de Daye, nas terras baixas, a cerca de 50 quilómetros a sul da sede da missão, o centro da nova paróquia. Num vasto complexo, Abba Giuseppe construiu uma escola e uma casa e fez um poço para acolher a nova comunidade. A nova missão começou com 27 capelas. Os missionários também abriram um infantário, depois a escola primária e finalmente a escola média. Juntas, tinham 700 alunos.


Salvar a África com a África

A rotação interna trouxe Abba Giuseppe de Daye para Hawassa em Julho de 2020. No início deste ano, problemas de saúde obrigaram-no a ir para Adis-Abeba, onde veio a falecer no dia 13 de Janeiro passado.

O Departamento da Missão de Bolzano, na Itália – a sua diocese de origem – concluiu um documentário sobre Abba Giuseppe com estas palavras: «Tu amas o povo e o povo ama-te.» Uma frase curta que sintetiza admiravelmente o seu serviço missionário na Etiópia.

Ele próprio não precisou de muitas palavras para resumir o percurso missionário: «Tive a oportunidade de ver o início de muitas missões e depois de testemunhar a sua entrega ao clero local. O meu serviço missionário é resumido nas palavras de São Daniel Comboni “Salvar a África com a África”.»

6 de março de 2023

A NOITE


O breu do meu bocadinho de céu
    está pintado
de estrelas, planetas e satélites,
    riscado por desejos cadentes.
O silêncio frio da noite
é palco aberto
    da polifonia harmónica da vida:
da estridência dos insetos,
    liderados pelos grilos e cigarras,
aos piares perdidos de aves notívagas,
do roncar gutural de frio dos símios,
ao ciciar do vento que acaricia
    as copas das árvores,
dos ecos abafados de conversas
trocadas no calor do lar.
A noite escura tem vida,
a noite é vida, intimidade,
mistério da presença de Deus,
que tudo criou, que tudo guarda
    e tudo conserva.
Ó noite, fonte dos amores,
de vidas reproduzidas...
Ó noite,
minha noite,
meu bocadinho de céu,
escuridão minha sarapintada de luz,
da Tua Luz,
    que é também minha.
Boa noite, noite minha,
meu lado escuro,
meu breu
à espera do sorriso dourado
    da Lua Nova,
da redenção
    da Lua Cheia!

16 de fevereiro de 2023

A POESIA DA MISSÃO


Há muito que acalentava um sonho que ia adiando dada a sua magnitude: ler de fio a pavio os Escritos de São Daniel Comboni. A obra reune em mais de duas mil páginas cartas, relatórios, estudos, documentos e outros textos escritos pelo fundador da Família Comboniana — os Missionários Combonianos, as Irmãs Missionárias Combonianas, as Missionárias Seculares Combonianas e os Leigos Missionários Combonianos — entre 27 de Dezembro de 1850 e 4 de Outubro de 1881.

Em meados de agosto passado, quando regressei de Portugal, decidi-me: é agora ou nunca. Até porque aqui tempo não falta, faz-se. Descarreguei as 1494 páginas A4 de texto corrido no leitor eletrónico e, mais de 50 horas depois, dei o meu sonho por cumprido.

Ler Comboni dia após dia foi sobretudo uma experiência de comunhão muito forte com o meu pai e fundador: desde a luta interior que travou para deixar os velhos pais (era o único sobrevivente de oito irmãos) e embarcar numa expedição do Instituto de Dom Mazza — de que fazia parte — à África Central até à última carta ao P. José Sembianti, superior dos Institutos masculino e feminino que fundou em Verona, Itália, para a África Central seis dias antes de morrer. Consumido pelas febres, esgotado pelas fadigas apostólicas, dilacerado pelas calúnias, escreve: «Que aconteça tudo o quer Deus quiser. Deus nunca abandona quem nele confia. Ele é o protector da inocência e o vingador da justiça. Eu sou feliz na cruz, que levada de boa vontade por amor de Deus gera o triunfo e a vida eterna».

Comboni é um excelente escritor e leva-nos a viajar com ele através das descrições que faz da peregrinação à Terra Santa, a caminho de África, das viagens Nilo Branco abaixo até Santa Cruz, a missão entre os dincas do Sudão do Sul onde viveu entre fevereiro de 1858 e janeiro de 1859, através dos desertos do Atmur e do Cordofão baloiçando na garupa de um camelo de braço ao peito, de Cartum, El Obeid ou dos Montes Nuba.

Escrevia muito para dar a conhecer a sua amada África Central — «o primeiro amor da minha juventude», denunciar a escravatura atroz a que os seus povos estavam submetidos, para encontrar missionários e meios financeiros para levar por diante a sua missão superlativa — «certamente a parte mais infeliz e abandonada do mundo, como também a mais difícil de evangelizar pelas particulares circunstâncias que se opõem à sua conversão», «a mais vasta», «a mais extensa e povoada missão do universo». Ele queria ter «cem línguas e cem corações para falar em favor da pobre África», «mil vidas para as consumir nesse fim». «Eu morrerei com a África nos lábios», profetizou.

Comboni cultivava a amizade desde gente simples a reis e imperadores. Entre as pessoas amigas figurava «Sua Alteza Real D. Maria Assunção de Bragança, filha do antigo rei de Portugal, que tem a bondade e a paciência de me receber durante 4 e até 6 horas por dia. Grande bem reverterá em favor da África de tão grata e valiosa relação». A princesa portuguesa, de 32 anos, vivia em Roma e foi sua professora de português. Mas também falava e escrevia em latim, italiano, alemão, francês, inglês (assinava The Tablet, o semanário católico que ainda hoje é publicado), árabe, dinca e oromo (uma das línguas da Etiópia que aprendeu quando foi ao Adem, em 1861, resgatar alguns rapazes dessa etnia para os levar para Itália para os formar).

Comboni tinha um só ideal: salvar a África através dos africanos. Escreveu um plano para colocar essa máxima em prática envolvendo todas as forças missionárias da Igreja numa colaboração que não era fácil devido «[a]o maldito egoísmo religioso e fradesco que impera em quase todas as ordens religiosas». Caluniado por alguns dos colaboradores que queriam o seu posto de pró-vigário apostólico e, depois, bispo, perdoava-lhes tudo contanto que se mantivessem a trabalhar na África. E não tinha problemas em beber merisa, a cerveja que os sudaneses faziam com sorgo e que substituía o vinho que era caríssimo e usado só para a missa.

Comboni foi o primeiro a levar missionárias para a África Central: primeiro, as irmãs de São José da Aparição, e depois, as Pias Madres da Nigrícia, que fundou em 1872, hoje chamadas Irmãs Missionárias Combonianas: «Eu fui o primeiro a fazer com que colabore no apostolado da África Central o omnipotente ministério da mulher do Evangelho e da irmã da caridade, que é o escudo, a força e a garantia do ministério do missionário».

Há dois séculos, ser missionário na África Central não era fácil. Não havia os remédios que temos contra as doenças tropicais, o transporte por via fluvial, de camelo ou a cavalo levava meses, os custos eram enormes, «em El Obeid a água custa mais que o vinho em Itália». Comboni chamava cruzes às dificuldades e dizia amiúde: «Deus estabeleceu que as obras que devem servir para a sua maior glória sejam marcadas com o selo da cruz». Para ele as cruzes eram o selo de garantia das obras de Deus. E explicou: «Cristo fabricou a cruz e não a carroça para ir para o céu».

Comboni escreve que lhe chamavam poeta dado o entusiasmo com que falava da África e dos Africanos. Mas a situação na linha da frente era desafiante: «toda esta poesia tornou-se prosa em três dias», confessa. Sobre um colega missionário, rico de pessoal e de meios, comenta: «rogo a Deus que este grande prelado faça o bem; mas não tenho confiança nele, pois falta-lhe a poesia do verdadeiro espírito». A esta poesia da missão chamo mística. O fundador da Família Comboniana era um grande místico, capaz de intuir o dedo de Deus nos acontecimentos e nas pessoas e viver, tranquilo, a realidade.

Ele queria missionárias e missionários «santos e capazes, […] humildes», porque «uma missão tão árdua e laboriosa como a nossa não pode viver da aparência, e de sujeitos de pescoço torto, cheios de egoísmo e de si mesmos, que não cuida como se deve da salvação e conversão das almas». Para ele, «a caridade é a vida do missionária».

Comboni sofria de insónias terríveis, lutava constantemente com a falta de recursos humanos e financeiros, era atribulado por um sem número de problemas, mas não deitava a toalha ao chão: dizia-se «pobre, crucificado, porém sempre alegre».

Só parou com a morte, a 10 de outubro de 1881, em Cartum, no Sudão, cidade de que era bispo. As suas últimas palavras? «Coragem para o presente, mas sobretudo para o futuro» e «Eu morro mas a minha obra não morrerá», como contaram os missionários que assistiram à sua agonia.

13 de janeiro de 2023

QUERIDO ABBA GIUSEPPE, A DEUS


A notícia deixou-me parvo: o Abba (Padre) Giuseppe Detomaso faleceu esta tarde, inesperadamente, num hospital de Adis-Abeba, a capital da Etiópia. Faria 81 anos no último dia do mês. O Ir. Desu, que vivia com ele em Hawassa, tinha comprado um carneiro para lhe fazermos a festa que merecia. Em outubro tinha completado meio século de serviço missionário na Etiópia.

Natural das montanhas Dolomites no Norte da Itália, o missionário comboniano aterrou pela primeira vez na Etiópia a 12 de outubro de 1972 e por cá ficou. Tinha 30 anos. Os primeiros quatro anos de ministério sacerdotal passou-os na Itália a fazer animação missionária e promoção vocacional. Dedicou-se à evangelização e educação dos povos guedeo e sidama, no Vicariato de Hawassa, sul da Etiópia.

Há três semanas, quando pernoitei em Hawassa a caminho do Conselho Provincial em Adis-Abeba, acheio-o bastante abatido. Quando regressei, semana e meia depois, estava muito melhor. Tinha de volta o sorriso acolhedor. Disse-me que estava a tomar medicamentos para o tifo, que se sentia muito melhor.

Antes de ontem o superior provincial foi vê-lo a Hawassa e decidiu levá-lo de avião para a capital para receber uma assistência médica mais qualificada Ficou internado no hospital. Os médicos descobriram que o cancro na próstata estava espalhado por todo o corpo. Esta tarde regressou à Casa do Pai.

Em novembro fiz-lhe uma longa entrevista de retrospectiva de meio século de serviço missionário que vai ser publicada revista Além-Mar de fevereiro.

«Durante esta longa viagem de 50 anos, tive sempre um Companheiro que, em todas as minhas obras pastorais e sociais e em todos os serviços que fiz, foi a minha inspiração e realização. A Ele honra e glória», disse-me.

E concluiu: «Tive a oportunidade de ver o início de muitas missões e depois de testemunhar a sua entrega ao clero local. O meu serviço missionário é resumido nas palavras de São Daniel Comboni “Salvar a África com a África”».

Um homem bom, simples, tranquilo, cheio de Deus e de amor para o Seu povo. Foi o meu confessor entre 1993 e 2000, durante o meu primeiro período de serviço entre os Gujis, e desde novembro de há dois anos, depois do meu regresso.

Ajudou-me a ver o dedo de Deus na minha vida e no meu pecado. Estou-lhe eternamente grato pela amizade, sabedoria e testemunho de dedicação missionária.

Encomendo-o à misericórdia do Senhor. Sei que está no abraço terno e eterno de Deus, a interceder pela Etiópia e pela família comboniana.

A Deus, meu irmão maior. Reza também por mim.

6 de janeiro de 2023

CARTA AO JESUS MENINO


Meu querido Jesus Menino,

Hoje, 7 de janeiro, celebramos o teu nascimento na Etiópia com muitos cânticos e danças, roupa limpa (e nova para quem puder), comida melhorada apesar da inflação que baralha as contas. Os católicos de Qillenso fizeram uma vaquinha para comprarem uma toira para a refeição comum do teu Natal. Tu também nasces nestes montes tranquilos e verdejantes de Qillenso e na cidade agitada, poeirenta e quente de Adola.

Obrigado por teres encarnado a nossa vida, a nossa história. Assim, sabes como é o humano viver: conheces as nossas alegrias e tristezas, angústias e esperanças. Por isso não te vou falar delas. Confio-as à tua ternura amorosa.

É costume pedir-te coisas através das cartas de Natal se nos portarmos bem durante o ano. Deixo aqui as minhas solicitações, confiado na tua misericórdia.

Hoje, só te quero pedir paz para a Etiópia — e especialmente paz para a Oromia onde vivo — e para o mundo inteiro. Tu és o Príncipe da Paz: monta a tua tenda de novo entre nós. Pacifica os corações violentos, os desmandos egoístas, a sede louca de vingança e de sangue.

Agradeço as bênçãos do primeiro ano de regresso à Etiópia. vOferceço-te todas as pessoas que trago no coração. São tantas, mas ficam em boas mãos.

Este foi um ano especial!

Regressei onde fui muito feliz e continuo a viver a benção de estar com esta gente simples, boa, acolhedora, simpática, às vezes exigente e desmedida, mas sempre sorridente.

Agradeço-te por abba Hippolyte, o meu companheiro de serviço missionário entre os gujis; por Guyyate, que nos traz nutridos e limpos; por Sholango, que com a sua sabedoria nos ajuda a navegar as dificuldades inerentes à nossa presença. Agradeço-te por Marta, que partiu feliz para o noviciado das Irmãs da Caridade na Zâmbia; por Duretti, que apesar dos achaques dos anos acumulados mantém o sorriso lindo e vem fielmente à missa apesar de ter de caminhar mais de três quilómetros para cada lado.

Agradeço-te pelos catequistas e pelos anciãos, que se esforçam por animar as comunidades locais; pelas professoras e professores que ajudam os alunos a gizar um futuro melhor. Agradeço-te pelas irmãs e irmãos combonianos que partilham a sorte das Etíopes e dos Etíopes apesar das dificuldades das línguas, do custo de vida, da insegurança da guerra, das tensões inter-étnicas…

Agradeço-te teres transformado os medos que toldaram o meu regresso em alegrias e estupefação, por me manteres tranquilo e feliz, satisfeito entre este povo que também é meu e eu sou deles.

Agradeço o colinho que me dás através da amizade, orações e ofertas dos familiares, amigos e benfeitores.

Peço a sabedoria de te ver nas coisas pequeninas do quotidiano, de te adorar nos mais pobres e abandonados, de te encontrar encarnado nas pessoas com quem partilho a vida, sem preferências nem escolhas.

Bom Natal etíope, meu querido Jesus Menino. Nasce no nosso coração para sermos presépios viventes de justiça, paz e alegria.

Que a alegria que leio nos olhos enormes dos meus vizinhos seja a companheira de viagem durante este ano de 2023 de cada uma e de cada um deles. E minha também.

1 de janeiro de 2023

MARIA E OS QUATRO PILARES DE 2023

A liturgia deste primeiro dia do novo ano é particularmente evocativa e seria uma pena não compreender a riqueza da mensagem das três breves leituras que a transmitem. Trata-se da primeira Palavra do ano, portadora de graça e bênção. 

As duas palavras mais recorrentes nas leituras são abençoar/bênção (primeira leitura e Salmo 66) e filho/filhos (segunda leitura). Poderíamos acrescentar uma terceira, retirada do Evangelho e de toda a celebração: Maria, a quem se consagra este primeiro dia do ano. Maria, Mãe de Deus, tão solenemente proclamada e celebrada pela Igreja. Associado a ela vem o de Jesus, o seu filho, a criança que hoje é circuncidada e recebe o nome de Jesus.

Gostaria de reflectir sobre a Palavra a partir precisamente destas quatro "palavras": Maria, Jesus, bênção e filhos. O cenário é o início do novo ano e o Dia da Paz. Estas quatro palavras são os alicerces, os quatro ângulos, ou se quiserem, os quatro pilares sobre os quais construir a casa das nossas vidas durante este novo ano. 365 tijolos são colocados à nossa disposição para o fazer. A Palavra dá-nos o plano ou projecto.


1. MARIA e o escândalo da manjedoura.

"Todos os que ouviram ficaram surpreendidos com as coisas que os pastores lhes disseram. Maria, pela sua parte, guardou todas estas coisas, ponderando-as no seu coração".

Entramos no Ano Novo sob os auspícios de Maria, a Mãe de Deus. Se nesta época natalícia a nossa atenção vai principalmente para a Criança, como é natural, hoje a Igreja convida-nos a levantar o nosso olhar para a Mãe. Com ela aprendemos como olhar, acolher e aprofundar o Mistério do nascimento da Criança. 

Os pastores encontram a criança "deitada na manjedoura". E o facto é motivo de alegria para eles, porque confirma a palavra do anjo, mas também porque o Salvador nasce no seu ambiente, ele é um deles. Para todos, o testemunho dos pastores é motivo de admiração. Mas para Maria? "Para Maria, a Santa Mãe de Deus, não foi assim. Ela teve de suportar "o escândalo da manjedoura" (Papa Francisco, 1 de Janeiro de 2022).

Gostaria de lhe propor que encontrasse um espaço de tempo nestes dias para parar diante de um ícone de Maria ou, melhor ainda, para a visitar numa das suas muitas "moradas", os santuários dedicados a ela, para lhe pedir a sua "paciência meditativa". Os 365 tijolos do novo ano não serão todos bonitos e suaves, bem quadrados e fáceis de encaixar na construção das nossas vidas. Talvez! Alguns ficarão bastante deformados e difíceis de encaixar. Sim, receio que não nos faltem problemas, dificuldades, escuridão e - Deus nos livre! - situações trágicas! São os tijolos do desânimo, da tristeza ou mesmo do escândalo face a certos acontecimentos da vida. Sentir-nos-íamos tentados a descartá-los como inúteis. Só este olhar de Maria que "guardava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração" nos pode ajudar. Só a sua "paciência meditativa" nos permitirá conseguir integrar certos blocos de construção no puzzle das nossas vidas. O que não é compreendido, e que seríamos tentados a descartar, deve ser mais valorizado. 

Vamos entrar no Ano Novo pela Porta de Maria, ou pela janela dos seus olhos!


2. JESUS, o Nome e os Nomes

"Quando os oito dias prescritos para a circuncisão foram completados, foi-lhe dado o nome de Jesus, como tinha sido chamado pelo anjo antes de ser concebido no ventre.”

Hoje, no oitavo dia de nascimento, o menino é circuncidado e recebe um nome: Jesus, isto é, "o Senhor salva", o nome designado pelo Céu através do anjo. O nome Jesus é a forma portuguesa do Iesoûs grego, em latim Jesus. A palavra aramaica original era Yeshua, uma forma contratada do Yehoshua hebraico. Josué, o sucessor de Moisés, tem este nome. Era um nome muito comum, como uma profissão de fé. Agora, porém, este nome dado à pessoa de Jesus revela a sua identidade. É uma profissão de fé nos lábios daqueles que o invocam. De facto, São Pedro dirá: "Não há outro nome sob o céu dado aos homens, no qual é estabelecido que devemos ser salvos". (Actos dos Apóstolos 4:12)

Agora Deus tem um nome: Jesus, 'O Senhor salva'. E podemos nomeá-lo e estabelecer uma relação pessoal com Ele. O nome de Jesus aparece 566 vezes nos evangelhos. É o Nome que dá valor a todos os outros nomes, aos nossos próprios. 

Como seria bom se durante este Ano Novo o nome de Jesus fosse o mais comum nos nossos lábios e o mais vivo nos nossos corações! Isto sugere-me outro exercício espiritual: porque não fazer nossa a chamada "Oração do Coração", que consiste em repetir continuamente o nome de Jesus, ao ritmo da nossa respiração, como se repete o nome de um ente querido. Uma bela forma de oração consiste precisamente na simples repetição do nome de Jesus, estabelecendo uma corrente entre mim e Ele e entre Ele e eu, até que dois corações batem em uníssono.


3. BENÇÃOS: Abençoados, abençoemos!

"Que o Senhor te abençoe e te guarde. Que o Senhor faça brilhar o seu rosto sobre ti e seja gracioso para contigo. Que o Senhor te mostre o seu rosto, e te conceda a paz". (Números 6: 22-27, primeira leitura)

É especialmente consolador e inspirador perceber que este novo ano começa sob o signo da bênção. Entramos em 2023 abençoados. Mas temos de permanecer na bênção! E para isso abençoar Aquele que é o Bendito, fonte de toda a bênção, para abençoar a minha vida, para bem-dizer a minha história... mesmo quando eu não vejo esta Sua bênção, antes pelo contrário! 

Abençoar especialmente aqueles que encontramos ao longo dos nossos dias. "Abençoai e não amaldiçoeis!" (Romanos 12:14). Temos de confessar que nos chega mais naturalmente, frequentemente e de bom grado, amaldiçoar em lugar de abençoar. Dizer mal da vida, dos políticos, dos padres (infelizmente, por vezes com boas razões!), do gerente do escritório, dos colegas, do autocarro atrasado, do trânsito, do vizinho no andar de cima que é demasiado barulhento ou que atira as beatas os cigarros para o meu terraço... E assim arriscamo-nos a viver uma vida amaldiçoada!

Quando eu era criança - e o hábito permaneceu comigo como adulto - fui habituado a pedir a bênção aos meus pais, avós e tios. E eles invocavam a bênção de Deus sobre mim. Como alguns de vós, suponho eu. Hoje em dia, não ocorreria a ninguém pedir tal coisa. Talvez com a excepção de a pedir ao padre: essa é a sua função! Precisamos de "bênçãos" mais tangíveis. 

No entanto, se tantas coisas correm mal, é porque falta a bênção! Já não abençoamos! Esquecemos que abençoar é a vocação do cristão: "Não render o mal com o mal ou o insulto com o insulto, mas responder desejando o bem. Pois a isto fostes chamados por Deus para herdar a sua bênção". (1 Pedro 3:9)

Aqui está um terceiro exercício para 2023: sair de casa, todos os dias, abençoar e dar bênçãos à esquerda e à direita!


4. FILHOS, adoptados no Filho

"Irmãos, quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob a Lei, para redimir aqueles que estavam sob a Lei, para que pudéssemos receber a adopção como filhos... Então já não és um escravo, mas um filho" (Gálatas 4:4-7, 2ª leitura)

Aqui está a suprema bênção: ser filhos! Para começar o Ano Novo com o pé ou o passo certo, é preciso começar como filho, não como escravo medroso, sob a tirania da lei! Se eu sou um filho, o que posso temer? Sim, a vida é uma luta constante, mas lutamos como vencedores e não como perdedores, à partida!

Apresso-me a concluir para... me fazer abençoar, a convite de alguns de vós! Feliz Ano Novo!


P. Manuel João, Castel d'Azzano, 30 de Dezembro de 2022 

p.mjoao@gmail.com - https://comboni2000.org

30 de dezembro de 2022

O NATAL E OS TRÊS NASCIMENTOS DE JESUS


Durante as quatro semanas da época do Advento, temos desejado, invocado, rezado: Marana tha, Vem, Senhor! Pois bem, "Hoje sabereis que o Senhor vem salvar-vos: amanhã vereis a sua glória" (antífona da Missa da Véspera, cf. Êxodo 16,6-7).

De qual vinda se trata, já que a época do Advento evoca três vindas? Uma no passado (Cristo veio!), uma segunda no futuro (Cristo virá!) e uma terceira no presente (Cristo vem!)? Cristo preenche todos os tempos: «Jesus Cristo é o mesmo ontem e hoje e para sempre»! (Hebreus 13.8). É reconfortante saber que Ele está presente no nosso passado, no nosso presente, e no nosso futuro. Toda a nossa existência é vivida no Seu eterno presente. E ai de mim, se eu não for «encontrado Nele» (Filipenses 3,9).

Então — repito — o que vem aí, de que nascimento estamos a falar? Na verdade, no Natal celebramos as três vindas ou nascimentos de Jesus. O monge Enzo Bianchi diz: a grande tradição da Igreja Católica, desde os antigos padres do Oriente e do Ocidente, tem meditado nestes três nascimentos ou vindas do Senhor, e precisamente por esta razão as três Missas de Natal foram introduzidas: noite, madrugada e dia.

A Missa da NOITE apresenta-nos o seu primeiro nascimento, em Belém, o nascimento em carne: «Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é Cristo, o Senhor». É a celebração da encarnação do Filho de Deus, que comemoramos na Fé.

A Missa da AURORA menciona o seu nascimento espiritual no coração do crente: «Maria, da sua parte, guardou todas estas coisas, ponderando-as no seu coração». É a sua vinda espiritual e nascimento no presente, colmatando a lacuna entre a primeira vinda, no passado, e a segunda vinda, no futuro. Este nascimento é o fruto da meditação sobre a Palavra ouvida e concebida no coração com AMOR.

A Missa do DIA, por outro lado, ao falar da Encarnação do Verbo, recorda na memória do cristão o regresso de Cristo em glória: «E o Verbo fez-se carne e habitou entre nós; e vimos a sua glória, glória como do Filho único que veio do Pai, cheio de graça e de verdade». Esta vinda é o objecto da nossa ESPERANÇA.


NATAL, O DIA DA «GRANDE LUZ» E DA «GRANDE ALEGRIA»

No Natal toda a nossa atenção está centrada em Belém, onde teve lugar a primeira vinda de Jesus. O Natal é o «memorial» desta vinda. Não apenas no sentido de recordação, mas especialmente como uma acção litúrgica com a graça actualizadora, ou seja, de tornar presente para nós o Natal de Jesus. Somos levados para Belém, por isso também nós nos tornamos companheiros dos pastores e, como eles, convidados a IR e VER a criança deitada na manjedoura. Neste espírito, olhamos para o berço.

O Natal é, portanto, o dia da GRANDE LUZ: «As pessoas que caminharam na escuridão viram uma grande luz». A Luz que vem iluminar a escuridão das nossas vidas, do mundo e da história. É uma Luz que as trevas, como os buracos negros siderais, tentam asfixiar, sem sucesso. Toda a história é a luta implacável entre a Luz e as trevas. O Natal é um convite repetido para caminhar em direcção à Luz que nos torna luminosos!

O Natal é também o dia da GRANDE Alegria: «eis que vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo». É a alegria da vida, a alegria dos salvos, a alegria da liberdade. É a alegria da visita do Céu, de saber que Ele é o amigo da Humanidade. É a alegria da visita de Deus que vem habitar entre nós, que já não é o Deus distante, mas o Deus da pequenez e ternura de uma criança que sorri para nós, que podemos tomar nos nossos braços e beijar. É uma alegria que deve ser bem-vinda para aliviar a nossa tristeza.


NATAL, UMA FESTA PARA ADULTOS

O Natal, porém, é acima de tudo uma profissão de FÉ. O Natal não é uma festa de crianças. É uma festa exigente, para os cristãos adultos! De facto, não é tão óbvio que Deus seja o Emanuel, o Deus-connosco! Pelo contrário, os factos gritam o contrário, eles gritam a distância do mundo de Deus e de Deus do mundo. É preciso a profissão de fé, ajoelhado perante o Mistério: «Pelo poder do Espírito Santo encarnou no seio da Virgem Maria e fez-se homem».

Toda a vida do crente é uma luta entre a fé e a incredulidade. A fé é constantemente minada pela dúvida. E desafiados e ridicularizados, por não-crentes. O grito típico do crente hoje na nossa sociedade ocidental pós-cristã é o do salmista: «A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo: quando virei e verei a face de Deus? As lágrimas são o meu pão dia e noite, enquanto me dizem sempre: "Onde está o teu Deus?» (Salmo 42). Onde está o vosso Deus? Esta é a questão sarcástica que ouvimos todos os dias, através dos meios de comunicação social, no trabalho, na escola, com amigos, e mesmo nas nossas próprias casas! Como seria útil recitar este Salmo 42 todos os dias para desabafar o nosso lamento perante o Senhor!

É por isso que precisamos do Natal. O Natal é o grito da pessoa com FÉ: Vem, Jesus!


UM MILAGRE DE NATAL: «ELE VEIO! ELE VEIO!»

Gostaria de concluir a minha reflexão evocando um facto histórico extraordinário que aconteceu na Hungria há algumas décadas, pouco conhecido. É relatado por Maria Winowska (+1993), que foi amiga de João Paulo II e escritora estimada de hagiografia. Fui buscá-lo à Wilma Chasseur (www.qumran2.net). 

Mas já alonguei demasiado, por isso convido-os a irem lê-lo no meu blogue.

https://comboni2000.org/2022/12/24/la-mia-riflessione-natalizia-il-natale-e-le-tre-nascite-di-gesu/


FELIZ NATAL!

P. Manuel João

Castel d'Azzano, 23 de Dezembro de 2022

p.mjoao@gmail.com


15 de novembro de 2022

Gilgel Beles (Etiópia): CAPELA PRISIONAL DEDICADA AO ARCANJO SÃO MIGUEL





A nova capela prisional construída pelos Missionários Combonianos no estado regional de Benishangul Gumuz, na Etiópia, foi dedicada ao Arcanjo São Miguel.

O Bispo Abune Lisanu-Christos Matheos, Eparca da diocese de Bahir Dar-Dessie, dedicou a nova capela construída no interior da prisão de Gilgel Beles.

A cerimónia de dedicação teve lugar no sábado, 22 de Outubro de 2022.

Devido às restrições do estabelecimento prisional, a participação externa na cerimónia de dedicação foi limitada aos catequistas, coro, irmãs missionárias e fiéis católicos que servem como autoridades locais.

Na ocasião, Abune Lisanu-Christos administrou o sacramento da confirmação a uma dúzia de reclusos católicos.

A nova capela é espaçosa. Construída com tijolos e cimento, substitui o antigo edifício feito de madeira, barro e zinco.

O centro de culto da prisão funciona como uma capela da missão de Gilgel Beles.

«Juntamente com a primeira evangelização nas aldeias e na cidade, o apostolado entre os presos tem sido uma prioridade desde o início da missão comboniana entre o povo Gumuz», explicou Abba Marco Innocenti, pároco de Gilgel Beles.

Aos sábados de manhã, há aulas de catequese para os catecúmenos, os reclusos que querem tornar-se católicos.

Aos domingos têm ou a Missa — se houver um padre disponível — ou a Liturgia da Palavra, presidida pelo catequista.

Os católicos na prisão são cerca de 40. A maioria tornaram-se católicos enquanto cumprem as respectivas penas de prisão.

Abba Marco explicou que o novo templo foi construído devido aos esforços da comunidade comboniana em Gilgel Beles, que procurava os fundos necessários.

«Um grande obrigado deve ser dado à Missio Munich e a alguns benfeitores alemães», sublinhou.

O missionário comboniano italiano agradeceu às autoridades prisionais do Estado Regional de Benishangul Gumuz.

Teve uma palavra especial para Alemu Asege, o inspector-chefe do Estabelecimento Correcional Gilgel Beles, que autorizou a reconstrução da pequena igreja.

O pároco acrescentou que é invulgar encontrar um local de culto católico dentro de um complexo prisional etíope.

Gilgel Beles alberga cerca de mil reclusos da Zona Metekel, que inclui sete áreas administrativas chamadas wereda.

Os Missionários Combonianos estão presentes em Gilgel Beles, entre o povo Gumuz, desde 2003.

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=> Queres colaborar com o serviço missionário dos combonianos na Etiópia? Reza por nós! Também podes enviar uma oferta para o IBAN PT50 0007 0059 0000 0030 0070 9 dizendo que é para a Etiópia. Nós agradecemos, rezando por ti.

7 de novembro de 2022

SEAREIR@S DE DEUS




Jesus, quando designou os 72 discípulos para irem, à sua frente, dois a dois, a todos os lugares que queria visitar, explicou-lhes que o seu trabalho número um era o de rogar ao Senhor da Seara que mandasse trabalhadores para a sua seara. Só depois é que lhes ordenou: «Ide!» (Lucas 10: 1-3).

A pastoral vocacional faz parte do serviço missionário que os Combonianos prestam na Etiópia. De três maneiras: através do testemunho alegre e generoso de cada missionário, da oração, e dos grupos vocacionais.

Para cumprir o mandato de Jesus, em Qillenso, todas as quartas-feiras, às 18h00, fazemos uma hora de adoração pelas diversas vocações na Igreja. É um momento tranquilo, cheio dos sinfonia polifónica do crepúsculo, feito à luz de velas quando há apagões — que são frequentes.

Durante as férias grandes, os candidatos e candidatas da missão em casas de formação, ou os postulantes combonianos que fazem a sua experiência de missão, acompanham os missionários quando vão celebrar a missa às diversas capelas para dar o seu testemunho.

A missão também tem um grupo vocacional que se reune algumas vezes durante o ano na capela de Urdata, que fica no centro da missão. 

O objectivo é pôr os vocacionados em contacto com diferentes carismas e modos de servir na Igreja. 

Um convidado ou convidada apresenta um tema. Há tempo para perguntas e respostas, cânticos e orações. 

O encontro termina com chá e pão para os participantes numa loja da localidade.

O primeiro encontro deste ano, em abril, foi animado pelas Irmãs da Caridade ou Irmãs de Maria Bambina. Vieram três indianas da comunidade na missão de Fullasa.

Apresentaram a sua congregação: o carisma, a história e a presença na Etiópia. Estávamos no início da estação das chuvas e a participação foi escassa: meia dúzia de jovens. 

Em outubro, fizemos o segundo encontro. Foi animado por Frei Awot, um padre capuchinho etíope da vizinha missão de Teticha, entre os Sidamas.

Fez uma longa exposição sobre a vocação em geral e sobre a sua congregação em amárico, uma das línguas do país. O catequista zonal traduziu para guji.

Desta vez a participação foi boa: onze raparigas e nove rapazes de cinco comunidades da paróquia, alunas e alunos a frequentar entre o sétimo e o décimo segundo anos.

Estes encontros estão a dar alguns frutos. A missão de Qillenso tem um postulante comboniano, uma noviça, uma aspirante e uma candidata nas Irmãs da Caridade e uma postulante nas Servas da Igreja, uma congregação fundada pelo primeiro bispo da diocese de Hawassa.

Continuamos a rogar ao Senhor da Seara que envie seareiros para a sua seara. 

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=> Queres colaborar com o serviço missionário dos combonianos na Etiópia? Reza por nós! Também podes enviar uma oferta para o IBAN PT50 0007 0059 0000 0030 0070 9 dizendo que é para a Etiópia. Nós agradecemos rezando por ti.

25 de outubro de 2022

A FESTA DA MISSÃO




Todos os anos a Igreja Católica celebra a festa da missão no penúltimo domingo de outubro para nos recordar — como o Papa Francisco escreveu na mensagem para o Dia Mundial das Missões de 2022 — que todos somos missionários.

Todos os batizados somos discípulos de Jesus. Somos enviados por Ele a testemunhar o amor do Pai por todas as pessoas e por toda a criação através do testemunho do nosso amor e da nossa palavra.

Este ano celebrei a Festa da Missão na linha da frente, missionário entre missionárias e missionários. «Todos somos uma missão!», tem repetido o papa argentino vezes sem conta.

No sábado à tarde, presidi à Eucaristia na capela do Centro de Acolhimento das Missionárias da Caridade, as Irmãs de Madre Teresa de Calcutá, em Adola.

Gosto muito de celebrar a Eucaristia vespertina com os pacientes do centro. A capela é toda feita de tiras de canas de bambu, entrelaçadas como um cesto gigante invertido.

Perco-me a contemplar os rostos sorridentes daquelas mulheres presas a uma cadeira de rodas. O olhar reguila das garotas e garotos no programa de tratamento da tuberculose e que no fim me saúdam efusivamente. No ar grave e solene dos homens. No vestir festivos e no cantar alegre das jovens e mulheres.

Estávamos no meio de um apagão que durou 24 horas: a missa foi celebrada à luz de uma lâmpada solar. A escuridão da capela ajudou à solenidade da celebração. Os cânticos são começados por uma senhora numa cadeira de rodas que também toca o tambor. Era muçulmana. Faz umas orações dos fiéis muito profundas.

Expliquei-lhes que também eram missionárias e missionários mesmo às voltas com doenças crónicas e deficiências profundas. Porque todos somos testemunhas do amor de Jesus que recebemos e damos às irmãs e irmãos.

No final da Eucaristia os pacientes mais ágeis ajudam os que têm problemas de locomoção. É bonito ver a Missa a continuar depois da Missa nos gestos de cuidado na procissão de regresso aos respetivos pavilhões.

Comecei o domingo a postar algumas mensagens no Facebook, o espaço dos nativos e de muitos emigrantes do digital, e a saudar familiares, companheiros e amigos. Normalmente esta rede social é muito lenta, mas no domingo de manhã estava a funcionar direito. Graça a Deus.

A noite de sábado e madrugada de domingo foram de muita chuva. Por isso, a igreja de São Daniel Comboni em Adola estava quase vazia quando começamos a missa às 9h20. Mas as pessoas foram chegando e a assembleia foi-se compondo.

O catequista leu a Mensagem do Papa para o dia, traduzida em amárico. Era importante que a assembleia escutasse a palavra do Santo Padre.

Por causa da mensagem o meu colega teve um acidente grave na sexta-feira. Um pároco vizinho tinha ficado encarregue de trazer o opúsculo preparado com o texto do Papa e mensagens de outros dignitários, mas na quinta à noite mandou um SMS a dizer que não conseguiu.

O meu colega decidiu fazer os 160 quilómetros até Hawassa, a sé da diocese. Saiu antes das seis. Por voltas das quinze telefonou-me a dizer que teve um acidente a cerca de 50 quilómetros de casa. O pickup e capotou numa curva a fugir de uma vaca e caiu na berma da estrada. O Abba Hippolyte felizmente saiu sem um arranhão. O seu Anjo da Guarda não brinca em serviço!

A missa foi animada por um grupo de rapazes que veio de Adis-Abeba, a capital, para trabalhar durante três semanas com as meninas e meninos das ruas de Adola, liderados por um casal italiano. O seu louvar deu uma tónica missionária à celebração. 

O produto do ofertório vai ser enviado para o Vaticano. É a nossa humilde e generosa colaboração para a evangelização dos povos.

Depois, fui celebrar a uma pequena comunidade a cerca de oito quilómetros de Adola, na estrada para Neguele (na foto). Comigo foram um ancião e um rapaz. Encontramos na capela de uma jovem mãe com duas crianças pequenas — o menino de peito assustou-se com a cor da minha pele e levou algum tempo a acalmar — e o catequista.

«Vais celebrar a missa?» — Sholango inquiriu. «Claro!» — respondi. A senhora não tem culpa de os outros católicos terem medo da chuva. Ela veio e merece que respeite o seu gesto.

Jesus chama de «pequenino rebanho» (Lucas 12: 32) aos seus seguidores. Naquela Eucaristia o rebanho era, de facto, bem pequenino. Mas o Pastor bom e belo estava connosco.

A Festa da Missão fechou com uma hora de adoração com as Missionárias da Caridade e os jovens voluntários.

Perante o Pão da Vida, pedi que o Senhor da Seara envie trabalhadoras e trabalhadores para a sua seara. A oração pelas vocações é o primeiro serviço do discípulo missionário. E a vida missionária é um privilégio único!

O Papa Francisco escreveu na Mensagem para o Dia Mundial das Missões que tem um sonho: «continuo a sonhar com uma igreja toda missionária e uma nova estação da ação missionária das comunidades cristã».

Partilho do seu sonho!

17 de outubro de 2022

VIVA SÃO DANIEL COMBONI



Daniel Comboni, o santo fundador dos Missionários Combonianos, faleceu em Cartum, Sudão — onde era bispo — a 10 de outubro de 1881. Tinha 50 anos.  Sucumbiu às febres tropicais e às fadigas apostólicas.

São João Paulo II canonizou-o a 5 de outubro de 2003. A festa litúrgica é celebrada no dia do seu falecimento.

São Daniel Comboni é o padroeiro da igreja que os combonianos construíram na cidade de Adola, paróquia de Qillenso. Foi sagrada a 7 de março de 2016. O adro da igreja tem uma estátua cinzenta sua com chaves na mão, uma iconografia incomum. Normalmente, S. Pedro é o santo das chaves.

Os católicos de Adola celebraram a festa do seu padroeiro a 9 de outubro, o domingo antes da sua memória.

Contudo, as celebrações começaram no dia 7 à noite. Trinta e sete romeiros de algumas das oito capelas à volta de Adola vieram pernoitar na igreja.

A manhã de sábado, dia 8, foi dedicada à formação dos fiéis com ensinamentos sobre a vida do padroeiro, identidade católica e as novas normas litúrgicas preparadas pelo Vicariato de Hawassa, a nossa diocese.

As novas normas litúrgicas pretendem fazer frente à crescente influência protestante nas celebrações católicas no que diz respeito ao cantar e saltar durante a liturgia, ao barulho, às orações palavrosas e ao modo de organizar as capelas.

Depois do almoço houve tempo livre para as pessoas irem ao mercado. Em Adola a feira é ao sábado e à terça-feira, uma oportunidade para socializar e saber novidades além de fazer compras.

Às 16h00 começou a Adoração do Santíssimo com tempo de confissões, até às 17h30.

Depois do jantar, foi projetado um filme de três horas sobre a vida de Jesus em oromo, a língua-mãe do guji. 

A ELPA, a companhia elétrica etíope, decidiu colaborar com o evento e não houve cortes de corrente — o que é pouco habitual.

À noite o número de católicos a dormir na igreja subiu para as sete dezenas.

No domingo de manhã, depois do pequeno-almoço, os festeiros continuaram a familiarizar-se com as novas normas litúrgicas.

Quando chegou a hora da Eucaristia, reuniram-se todos junto do portão do adro da igreja para a procissão de entrada com os quadros de São Daniel Comboni e Santa Madre Teresa Calcutá. As suas irmãs, Missionárias da Caridade, têm na cidade uma grande instituição para cuidar dos doentes crónicos e terminais e dos pobres.

A Eucaristia solene, presidida pelo pároco, o comboniano togolês P. Hippolyte Apedovi, durou mais de duas horas, bem cantada e participada.

No fim da eucaristia — e porque a chuva ameaçava — o almoço de confraternização foi servido nas instalações da Biblioteca Púbica Comboni.

O menu foi simples: injera — panquecas gigantes feitas com farinha de tef, um cereal etíope — com batatas guisadas com vegetais e água para beber.

Na festa do ano passado, a comunidade juntou dinheiro suficiente para comprar carne de vaca. Este ano a crise económica é grande. Os produtos essenciais — sobretudo açúcar, farinha e óleo alimentar e combustíveis — custam o dobro em relação ao ano passado.

O dinheiro das ofertas juntamente com as ajudas das missionárias e dos missionários deu para uma refeição mais simples. Mas estava uma delícia. As mulheres esmeraram-se.

O importante foi celebrar juntos e almoçar juntos. As comunidades reforçam-se à volta das mesas da Eucaristia e da convivialidade.

Viva São Daniel Comboni.

GUARDADORAS DA ESPERANÇA

— Eu não consigo… não consigo! – repetia sempre Reem, uma jovem beduína palestiniana de 16 anos, sempre que a convidávamos para aprender a u...