4 de outubro de 2022
MISSIONÁRIA PARA SEMPRE
Gebaynesh Gebre Emmo fez os votos perpétuos como Irmã Missionária Comboniana no dia 4 de setembro de 2022.
A celebração, presidida pelo bispo local, D. Markos Gebremedin, decorreu na paróquia de São Paulo, na cidade natal de Bonga. É a capital do estado regional de Kaffa, a pátria do café, na Etiópia Central.
A Ir. Gebay nasceu há 35 anos numa família com dez filhos: sete raparigas e três rapazes. É a quarta mais nova. O irmão mais velho é padre Vicentino.
Começou o discernimento vocacional quando andava na faculdade, com mais dez meninas.
«Estávamos todas na faculdade e tínhamos um encontro mensal. Pedi para entrar no Instituto quando terminei os estudos. Fui atraída pelo carisma e espiritualidade de São Daniel Comboni, a sua paixão pelos pobres e mais abandonados, a coragem e a força das primeiras irmãs na missão, a sua auto-doação e simplicidade», recorda.
A formação de base levou-a a muitos sítios: fez o pré-postulantado em Adis-Abeba, na Etiópia, o postulando em Nairobi, no Quénia, e o noviciado em Namugongo, no Uganda.
«Gostei muito de estudar em Nairobi enquanto fazia a formação. Aprendi inglês numa escola onde encontrei gente de todo o mundo que falava línguas muito diferentes. No noviciado gostei sobretudo da vida de oração. Venho de uma família católica, mas realmente aprendi a rezar no noviciado», conta.
Depois de fazer os primeiro votos como missionária comboniana, continuou a formação em Fetais, Portugal, no Brasil e, finalmente, na missão de Haro Wato, na Etiópia.
Lugares que a marcaram: «Em Portugal aprendi a ser fiel (a mim própria, aos outros e a Deus). No Brasil descobri uma Igreja muito ativa que investiu imenso no povo. As pessoas estão envolvidas em todas as atividades da Igreja, especialmente na administração e na pastoral».
A celebração dos votos perpétuos marca a conclusão do processo de formação de base. Através da profissão perpétua dos votos de castidade, pobreza e obediência no Instituto das Missionárias Combonianas assumiu a disponibilidade de ser missionária para sempre.
Uma multidão esperava a Ir. Gebay, a superiora provincial e o bispo junto à igreja. Foram recebidos com canções, palmas e flores de boas-vindas. A igreja estava cheia. O coro cantou a preceito. A Eucaristia foi muito participada. A missa demorou mais de três horas: a alegria da festa!
A Ir. Gebai foi apresentada pelo pai — que tem mais de noventa anos — e pela irmã mais velha. A mãe faleceu há alguns anos.
«Fazer a minha consagração perpétua para a missão seguindo Comboni significa imitar Comboni para seguir a Deus amando-O e servindo-O enquanto sirvo os meus irmãos e irmãs. Sinto-me feliz, porque trabalhei muito para este dia. Senti-me muito feliz e chorei de alegria», confessou.
A festa prosseguiu com um almoço partilhado nas instalações da paróquia. À noite, na casa da família, houve jantar para alguns convidados mais próximos. E muita alegria.
Perguntei-lhe pelo futuro. «O futuro pertence a Deus e acredito que quanto mais crescer mais Deus vai querer de mim», respondeu convicta.
Também deixou uma mensagem quem acalente o sonho missionário.
«Para quem gosta de seguir a vida missionária tenho esta mensagem: não temas os desafios, porque eles dão-nos oportunidades para sermos aquilo que desejamos. Mantém uma atitude de escuta. É através da escuta que podemos identificar a voz d’Aquele que nos chama. Faz a vontade de Deus, porque obedecendo não cometerás erros», concluiu.
20 de setembro de 2022
Qillenso: CAMPO DE FÉRIAS
A pequenada de Qillenso e das vizinhanças preparou a chegada do Ano Novo etíope — celebrado a 11 de setembro — com uma experiência inédita: um campo de férias.
O evento, organizado pelas Missionárias da Caridade, as irmãs de Santa Madre Teresa de Calcutá, foi animado poe elas e por quatro voluntários de Adola: o catequista do hospício das Missionárias, mais uma aluna e dois alunos do décimo ano.
Cerca de sete dezenas de crianças entre os quatro e os catorze anos participaram no evento. Algumas faziam quatro quilómetros a pé para para participarem na semana de atividades várias.
O campo de férias decorreu de segunda a sábado das nove às treze horas. Nem o nevoeiro matinal nem a humidade — que é costume nestes meses — nem alguma chuva esfriaram o entusiasmo dos participantes.
As atividades começavam com uma pequena oração. Era impressionante a concentração dos mais pequenos, autênticos adultos em miniatura.
Depois havia uma catequese bíblica e a aprendizagem de cânticos em guji — a nossa língua, amárico ou inglês.
O tema apresentado era trabalhado por grupos com pequenas dramatizações, canções, etc.
Seguia-se a hora dos jogos. Os participantes eram divididos em dois grupos — num lado os mais pequenos e noutro os mais crescidos — e os animadores ensinavam jogos, danças e outros passatempos.
O gargalhar de felicidade competia com o chilrear da passarada.
A meio da manhã tomavam um lanche para retemperar as forças e continuar as atividades.
Na sexta-feira de manhã, celebrei a missa com eles. Foi uma Eucaristia muito alegre. A petizada pôde cantar o que aprendeu nos dias anteriores. Os mais velhos escreveram e leram as orações dos fiéis.
Malaltu, a sobrinha da cozinheira da missão que tem quatro anitos, é normalmente envergonhada e caladita. Na missa, cantava com um entusiasmo crescente e fazia as dinâmicas que acompanhavam as canções com toda a energia.
O campo de férias foi um espaço lúdico, de aprendizagem e socialização. Os participantes adoraram a experiência. Era giro ouvir os mais pequenos a caminho de casa ou ao fim do dia a canta as canções que aprenderam durante a manhã.
Perguntei a Beza, a jovem que fazia parte do grupo dos animadores, se gostou da experiência, apesar do frio de Qillenso. Os olhos iluminaram-se num enorme sorriso: «É tão bom ver esta alegria de poder brincar juntos!» — disse.
Para o ano haverá mais!
31 de agosto de 2022
É TÃO BOM VOLTAR A CASA
Tive de ir a Portugal a meados de julho, nove meses depois de ter chegado à Etiópia. Normalmente vamos de férias por três meses cada três anos.
Quando vim, no fim de Outubro de 2021, o meu passaporte tinha quase 11 meses de validade: ainda não era renovável. A embaixada em Adis Abeba informou-me que, não tendo serviço consular, não renovava passaportes. Podia fazê-lo noutro país africano ou em Portugal.
Decidi ir a casa para estar com os meus pais e com a minha família e para celebrarmos juntos o primeiro aniversário da morte da minha irmã Celeste. E estar com a comunidade cristã de Cinfães, que me viu nascer, introduziu à fé e em nome de quem também sou missionário.
Passei uma semana em Fátima em retiro anual para renovar o meu compromisso com a missão e participar na peregrinação nacional da família comboniana, ocasião para abraçar colegas, benfeitores e amigos.
Também tive a graça de participar no último adeus ao P. José de Sousa. Foi o maior animador missionário dos combonianos em Portugal. Muitos dos meus confrades entraram no Instituto «pescados» por ele nas visitas às escolas e paróquias das dioceses de Viseu, Lamego, Guarda e Aveiro. Tinha 82 anos.
O mês passou-se a correr! Gostei de voltar ao calor depois de um mês de nevoeiros intensos, morrinha, chuva e humidade na serra de Qillenso, para secar os ossos. Chocou-me o nível de seca que afeta Portugal e a Europa — vista do avião, a terra parecia mirrada e as albufeiras tinham pouca água — e o flagelo dos fogos.
Agradeço o carinho e as ajudas que me entregaram. Grato, encomendo cada pessoa ao amor misericordioso do Senhor da Missão.
Regressei à Etiópia a 17 de agosto. A viagem foi agradável: Porto — Frankfurt (Alemanha) — Adis Abeba. Saí de Pedras Rubras depois das quatro da tarde e cheguei a Adis às seis da manhã do dia seguinte.
Mia Couto — um dos autores africanos que mais estimo — fez-me companhia com o romance Terra sonâmbula. Uma reflexão genial sobre os efeitos da guerra civil em Moçambique através dos olhares de Tuahir, Muidinga e Kindzu.
Deixo três citações: «O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro». «Esperto é o mar que, em vez da briga, prefere abraçar o rochedo». «Nenhum rio separa, antes costura os destinos dos viventes».
Depois de um mês de canícula em Portugal, Adis Abeba acolheu-me com chuva. Negociei o preço da corrida com o taxista — os efeitos da guerra na Ucrânia também se fazem sentir aqui e o preço dos combustíveis aumentou quase cinquenta por cento — e fui para a casa provincial. Os colegas acolheram-me com a alegria e curiosidade costumeiras.
Fiz um dia de descanso e viajei rumo ao sul. Tinha deixado o velho «todo-o-terreno» em Adis para uma revisão mais profunda. Já rodou 405 mil quilómetros e precisava de alguns cuidados extra.
A Etiópia central está na estação das chuvas. Enquanto conduzia para Hawassa contemplava a paisagem verdejante que me envolvia: os campos trabalhados com milho, trigo e tief — o cereal local usado para fazer a injera, o pão quotidiano em forma de panqueca gigante — a crescer.
Os malmequeres amarelos (que anunciam o ano novo etíope — sim, vamos celebrar a chegada de 2015 segundo as contas daqui a 11 de setembro) davam uma nota de alegria às bermas da autoestrada onde alguns animais pastavam tranquilamente.
Almocei com a comunidade comboniana de Hawassa e prossegui a viagem até Qillenso, que fica a 432 quilómetros a sul da capital, na estrada que vai para a Somália. Pelo caminho comprei uma espiga de milho assado para matar saudades do sabor.
O vento deve ter arrumado as nuvens para algum lado, porque o sol deu-me as boas-vindas a casa. Mas, dois dias depois, o nevoeiro, a chuva e a humidade voltaram. É a sua estação! E as pessoas agradecem. Começaram a preparar a terra para semear os cereais e as favas. O milho está quase pronto para a colheita.
Cheguei a Qillenso por volta das cinco e meia da tarde, depois de quase oito horas de condução. O P. Hippolyte e a Guyyate, a cozinheira, receberam-me com um abraço de boas-vindas. Dei-lhes os «miminhos» que levei de Portugal.
Ao jantar trocámos novidades e começamos a pôr a conversa em dia.
Tivemos de fechar o portão maior da missão a cadeado, porque o gado dos vizinhos estava a fazer estragos no recinto; as pessoas entram por um portão mais pequeno inserido no grande; Jalata, um dos jovens mais próximos de nós, tinha casado tradicionalmente; a segurança a sul de Adola — onde fica o outro polo da missão — está a melhorar e o pároco planeia visitar a comunidade de Zambala, a que não vamos há quase um ano por causa dos ataques dos rebeldes oromos.
Uma nota triste. Sukari (Açúcar), uma senhora bastante jovem que sacramentei numa clínica privada em Me’ee Bokko antes de partir, tinha falecido supostamente vitimada por um cancro no estômago. Repousa no pequeno cemitério da missão, onde a fui encomendar à misericórdia de Deus.
O nosso gato desapareceu, talvez apanhado por um animal selvagem, um felino de porte médio parecido com o lince, a quem os dicionários chamam lobo-gato, que vive por aqui.
É tão bom voltar e sentir-me aqui também em casa!
31 de julho de 2022
O TEU SORRISO
O Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti e te seja benigno!
O Senhor mostre para ti a sua face e te conceda a paz!
É o teu rosto que eu procuro, Senhor,
É o teu sorriso que busco
e encontro
nos olhares resplandecentes e translúcidos
dos anjos que me envias,sorrisos de paz e de ternura,
sorrisos de amor e de conforto,
sorrisos de paz e alegria,
esplendores do teu sorriso amoroso
a cada uma das tuas criaturas.
O teu sorriso eu procuro, Senhor,
o teu sorriso eu encontro
nos sorrisos transparentes,
sem dentes,
dos bebés e dos anciãos.
Cada sorriso é expressão do único sorriso cósmico,
o teu divino sorrir!
Que o teu sorriso acompanhe
cada dia da minha vida.
Amen!
14 de julho de 2022
A CAPELA AZUL
Ouvia falar de Massina quando ia celebrar a missa à capela de Jalahu, no fundo de um vale apertado junto ao rio Hawata. Missionava em Haro Wato, nos montes Uraga.
Nessa altura, há um quarto de século, Jalahu era um sítio ermo. As pessoas iam ao mercado e ao moinho a Massina, do outro lado do rio.
Agora, Massina tem uma capela católica que pertence à zona de Adola, da paróquia de Qillenso.
A aldeia fica a cerca de vinte quilómetros de Adola, metade em asfalto, metade em terra batida. A picada acompanha a margem esquerda do rio Hawata por entre plantações de café, chat — uma planta alcalóide que é legal na Etiópia —, falsas-bananas, árvores de fruto e milharais.
O cenário é de encantar. Há muitas acácias, árvores típicas da savana africana. Os habitantes são amistosos e saúdam a nossa passagem com alegria, sobretudo as crianças.
Quando vivia em Haro Wato, tomei banho várias vezes nas águas límpidas e refrescantes do Hawata, junto à capela de Tuta.
Nesta secção, o rio vai muito sujo devido à prospeção de ouro nas margens e no seu leito.
Os locais garimpam usando pás, picaretas e escudelas. Os chineses usam retro-escavadoras. Há várias a operar nos cinco quilómetros de rio que acompanhamos para chegar a Massina. A concorrência é desleal e, por vezes, transforma-se em conflito violento.
Na última vez que fui celebrar a Massina, um membro da milícia Oromo, a força local que mantém a lei e a ordem, parou-me e perguntou se ia para o ouro.
«Não! Vou rezar com a gente de Massina» — respondi. Mandou-me seguir.
A capela está construída num dos extremos da povoação. Foi aberta pelo comboniano mexicano P. Pedro Pablo Hernández. Iniciamos juntos com um colega espanhol a missão de Haro Wato em 1995. Ele desenvolveu a presença católica em Adola e à volta da cidade santa dos gujis. Chama à atenção, porque está pintada de azul! A minha cor preferida.
Massina é a comunidade católica mais numerosa fora da cidade. Normalmente umas trinta pessoas participam na eucaristia dominical cada seis semanas. A maioria são mulheres. Sempre fiéis ao seu Senhor!
É também uma comunidade muito autónoma. Queriam instalar um sistema elétrico solar para alimentar os altifalantes e fazer concorrência aos protestantes. Juntaram o dinheiro necessário para comprar um painel solar, uma bateria, o controlador de corrente e o inversor — transforma os 12 volts da bateria em 220 —, o estabilizador, um altifalante externo e uma coluna de som interna.
Enquanto o catequista dirige a oração da manhã e o terço, o padre atende os penitentes de confissão.
Se por alguma razão nos atrasamos — ou porque a missa em Adola foi mais comprida, ou porque ficamos presos na lama da picada — o catequista faz a celebração da Palavra.
Depois, a missa é celebrada com calma. Os cânticos são acompanhados pelo tambor e por uma kerara, uma harpa etíope de cinco cordas. A da comunidade é um modelo comercial com cordas de aço, diferente das artesanais com cordas de náilon ou algodão.
A oração dos fiéis é espontânea e muito participada: uns fazem pedidos, outros expressam agradecimentos pelas bênçãos recebidas. Formam uma espécie de retrato oral da vida das pessoas da comunidade.
A missa termina com dois ou três cânticos em que todos participam cantando e dançando.
No final da eucaristia, serviram-nos uma pequena refeição de injera — o pão típico de Etiópia, uma espécie de panqueca gigante feita com farinha de tef, um cereal autóctone do país — com batatas, arroz ou umas papas feitas com tomate. Os anciãos da comunidade tomam parte do repasto. Manda a boa educação que não se coma tudo, porque as mulheres também têm direito ao seu quinhão depois de os homens comerem.
No regresso, é costume cruzarmo-nos com muita gente, sobretudo mulheres, que vêm da celebração dominical de igrejas protestantes ao longo da picada. Cumprimentamo-nos com alegria, porque somos todos irmãos e acreditamos que Jesus ressuscitado é o salvador da criação inteira.
22 de junho de 2022
Haro Wato: MATAR SAUDADES
Voltei a Haro Wato, a missão que comecei com dois colegas em abril de 1995. A ocasião foi uma manhã de recoleção na véspera do Pentecostes para as comunidades combonianas (uma feminina e duas masculinas) que servem o povo Guji.
Os cerca de 50 quilómetros de estrada de terra batida que atravessam os Montes Uraga entre Bore e Haro Wato estão em bom estado e a viagem foi agradável apesar de um forte aguaceiro na parte mais alta do percurso. Vi muitos batatais em flor, promessa de uma boa colheita. E os milharais crescem com a chuva.
No cruzamento com a estrada Dilla-Shakisso, onde havia duas ou três cabanas-tabernas para reabastecimento, nasceu Damma, uma aldeia enorme com hospital. Demos boleia a duas jovens que andavam a vacinar as pessoas contra o Covid.
Nalgumas partes onde antes havia floresta densa, agora há campos agrícolas e plantações de eucaliptos. A pressão sobre a natureza é grande e o equilíbrio entre conservação e desenvolvimento é difícil.
A pequena aldeia que se formou em volta da missão de Haro Wato transformou-se e como cresceu! As cabanas tradicionais estão a dar vez a casas maiores e mais cómodas revestidas a cimento.
Tem energia elétrica e uma torre de telecomunicações com internet G2. Também há uma pequena mesquita. No passado os gujis tratavam o Islão com desprezo. Agora há quem o siga, através da influência de empresários muçulmanos que controlam o negócio local do café.
A missão, essa cresceu em todos os sentidos e ficou «entalada» entre duas estradas.
As árvores que plantamos há um quarto de séculos estão frondosas. Produzem mangas e pêras abacate deliciosas. O cafezal cresceu. A casa dos missionários tem mais dois quartos. A clínica, dirigida pelas irmãs, não pára de receber acrescentos para melhorar oferta de serviços. Em 2021 atendeu quase vinte mil pacientes.
As estruturas paroquiais estão maiores com o salão multi-uso e uma nova construção para os catequistas.
A nível de capelas, quando disse adeus ao Uraga em finais de setembro de 2000, a paróquia tinha 29, divididas em três zonas. Agora são 47, agrupadas em sete zonas. Os batizados estão a chegar aos dezanove mil. A resposta dos Gujis do Uraga ao Evangelho é muito generosa.
A paróquia chegou a Sollamo, a capital do distrito, a nove quilómetros mais a norte, que continua com o ar de uma cidadezinha esquecida, para lá do sol posto. No início, as combonianas abriram um jardim infantil. Este ano têm 450 alunos da pré-primária até ao sétimo ano. Para o próximo ano abre o oitavo. Junto à escola há uma capela que serve os católicos da cidade.
A escola de Haro Wato, dirigida pelos missionários, tem mais de duas centenas de alunos do quinto ao oitavo ano.
Senti uma enorme saudade da meia dúzia de anos que passei em Haro Wato entre abril de 1995 e setembro de 2000. Um começo desafiante que está a dar muitos frutos.
As cerca de 24 horas que passei em Haro Wato deram para revisitar a alameda da memória. E para encontrar algumas pessoas, nomeadamente o senhor Tsegaye, um vizinho que me ajudava a inculturar as homilias com provérbios e estórias gujis.
Foram, sobretudo, para agradecer ao Bom Senhor por tudo o que vi e recordei! Como a Palavra continua a crescer naquelas colinas verdejantes com os pés lavados pelos rios e riachos.
5 de junho de 2022
DIZER DEUS
As culturas orais tradicionais falam de Deus usando estórias, narrativas, lendas e mitos fundacionais em vez de um discurso teórico teológico e dogmático.
Os Gujis do Sul da Etiópia têm uma lenda muito interessante para definir Deus.
Contam que no princípio Deus — Waaqa — amava tanto a terra que quase lhe tocava com a barriga. E fertilizava-a com a chuva diária.
Ora, a mula, farta de trazer o lombo molhado, um dia deu um coice na barriga de Deus.
Deus ficou muito zangado e amaldiçoou-a: «A partir de agora vais ficar estéril! Não vais emprenhar e parir mais!»
Depois, Deus foi para muito longe!
Mas continua a amar a terra e a fertilizá-la com a chuva. E usa os pássaros quando quer enviar mensagens aos humanos.
Por isso, antes de qualquer grande decisão — desde o programar de um casamento ao cultivo dos campos — perscrutam o voo dos pássaros no horizonte ao cair da tarde para discernir a vontade de Deus.
Chamam-lhe ver o kaayo, o agouro, o augúrio, o presságio.
Os mitos fundacionais também explicam a organização social.
Segundo os gujis, Deus criou os primeiros três homens onde é hoje a cidade de Adola junto à ooda, a grande árvore sagrada dos oromos.
Chamou Urago ao primeiro guji; Darasso ao primeiro guedeo; Amaro ao primeiro amara.
Deus deu a terra a Urago e fez de Darasso seu escravo. Quanto a Amaro, disse que viveria aldrabando os outros.
Deus é invocado nas orações tradicionais gujis como Pai e Mãe, Avô e Avó, Bisavô, que nos pariu. O nosso antepassado comum, que nos irmana na grande família humana.
Um guji não diz que Deus é omnisciente. Mas explica que os olhos de Deus são como o fundo de uma garrafa e os seus ouvidos tão grandes como uma janela.
Os provérbios também falam de Deus.
Cito dois: o silêncio é o lugar que Deus atravessa; o desejo não enche o curral, mas Deus enche-o.
Numa teologia oral que afasta Deus do quotidiano das pessoas, anunciar que Ele se chama Emanuel, que é Deus-connosco, que não fala no voo dos pássaros mas é Palavra na Bíblia e no coração do crente é verdadeiramente boa-nova.
Os gujis trazem Deus sempre na boca. O desafio que o missionário enfrenta é anunciar-lhes o Deus-Pai de Jesus já presente na sua cultura, nas suas tradições, na sua sabedoria milenar.
Este método evangelizador chama-se inculturação: dizer Deus usando a linguagem teológica e simbólica hospedeiras até ao limite.
Exige um estudo aturado da língua e da cultura locais.
Um trabalho que os missionários estrangeiros iniciamos, mas que é continuado e aprofundado pelos cristãos nativos.
23 de maio de 2022
«ESTIVE NA PRISÃO…»
Os combonianos construíram há alguns anos uma sala de oração simples de cerca de sete por sete metros, que partilham com outras confissões cristãs.
Ofereceram o material que sobrou aos ortodoxos para iniciarem a construção da própria igrejinha.
Junto aos dois espaços de oração cristãos há também uma pequena mesquita.
A pastoral na prisão é uma resposta à afirmação de Jesus: «estive na prisão e fostes ter comigo» (Mateus 25, 36).
Visitamos a prisão cada terça-feira para rezar e estar com os detidos que participam no nosso encontro.
Normalmente vamos quatro pessoas: duas Missionárias da Caridade (as irmãs de Madre Teresa), um leigo e um missionário.
Começamos com uma pequena oração de mãos dadas fora da prisão pedindo a inspiração do Espírito Santo para a nossa visita.
Depois de entrarmos no estabelecimento de correção, os homens somos revistados. Os telemóveis e os cartões de identificação ficam na portaria.
A prisão está construída colina abaixo. Alberga uns 650 presos: 250 frequentam a escola primária da primeira à oitava classe; um grande número trabalha em teares manuais: o pano tecido de algodão é usado na confecção de roupas tradicionais à venda no estabelecimento prisional; alguns prisioneiros jogam matraquilhos; outros reparam e limpam calçado.
A pandemia obrigou-nos a suspender as visitas ao estabelecimento durante dois anos. Retomamos a atividade pastoral a 13 de abril. Uma surpresa agradável: encontramos a sala de oração limpa e pintada. Tem uma enorme pintura de Jesus na Cruz com a Senhora da Soledade. Os pastores protestantes com quem partilhamos o espaço têm por hábito virar a imagem contra a parede.
Os Católicos adoram imagens — acusam.
A capela é simples: tem 14 bancos e uma mesa num pequeno estrado. Além da pintura, tem uma cruz de madeira e uma televisão com o descodificados de imagens satélite.
Cerca de meia centena de pessoas costumam tomar parte no encontro. Estão bem nutridos e limpos.
A maioria são jovens.
Os católicos são dois ou três pelo que a oração que fazemos é ecuménica.
Começa com um cântico acompanhado por uma kerara, uma espécie de harpa local de cinco cordas, e de um tambor. Os participantes cantam com entusiasmo.
No primeiro encontro os ortodoxos decidiram competir com música gravada.
Sholango, um ancião da igreja de Adola, introduziu o encontro. Apresentou os novos participantes.
Era a primeira vez que eu entrava numa prisão para rezar.
Três presos fizeram longas orações entrecortadas por muitos amens na boa tradição protestante.
No primeiro encontro utilizamos uma leitura da profecia de Isaías em que Deus promete libertar os prisioneiros.
A leitura e as reflexões foram feitas em amárico e em guji.
No espaço de oração há algumas bíblias que os participantes usam para acompanhar a leitura e as reflexões.
Sholango explicou o texto. Recordou que ele próprio na sua juventude passou duas semanas na prisão de Adola devido a uma rixa.
A Ir. Francília, Missionária da Caridade indiana, exortou em inglês os participantes a usar o tempo da sentença para se refazerem. Deus está com eles na prisão. Jesus também foi prisioneiro durante uma noite.
Um dos participantes traduziu para amárico.
Durante as diversas reflexões alguns dos participantes tiravam notas em pequenos bocados de papel.
Um recluso concluiu o encontro com uma oração de bênção.
No final, um católico pediu para ser ouvido em confissão.
Na saída, passamos pela escola para deixar uma caixa de esferográficas que o diretor pediu para os alunos.
Os encontros semanais são muito informais. No início, os participantes saúdam-nos e abraçamo-nos. Há muita alegria.
Normalmente começamos com um cântico seguido de orações espontâneas de invocação e louvor.
Depois lemos uma leitura bíblica e fazemos uma pequena reflexão. Eu costumo usar o evangelho do domingo anterior.
Depois há um momento de partilha, com perguntas e respostas.
A grande maioria dos orantes vem de tradições protestantes diversas. A discussão centra-se muito nas nossas diferenças: o culto a Maria, o uso de imagens, etc. Na boa tradição protestante, os argumentos de ambas as partes têm sempre um fundo bíblico.
O encontro termina com orações espontâneas.
Na saída, alguns fazem os seus pedidos: de remédios, de conselhos, um preso que usa uma cadeira de rodas pediu para lha compor-mos. As irmãs ofereceram-na há muito tempo e as rodas precisam de ser revistas.
Os guardas prisionais — mulheres e homens — também nos tratam com simpatia.
«Estive na prisão e e fostes ter comigo». Jesus está em toda a parte.
10 de maio de 2022
MAIO «LOUVADO SEJAS»
A diocese de Hawassa, no sul da Etiópia, celebra em maio o Mês Louvado Sejas para aprofundar a Carta Encíclica Laudato Si’ (Louvado Sejas) que o Papa Francisco escreveu «sobre o cuidado da casa comum» a 24 de Maio de 2015.
O Mês Louvado Sejas abriu a 3 de maio, com uma eucaristia na catedral. Na celebração, presidida pelo administrador apostólico, o comboniano P. Juan Núnez, participaram quase todos os párocos da diocese e representantes das suas vinte paróquias.
O vicariato tem sensivelmente o tamanho de Portugal.
Os participantes receberam um desdobrável com o sumário da encíclica em que o Papa propõe uma ecologia integral que cuida da criação e cuida dos pobres.
O documento, intitulado Uma jornada com a criação: Mês de Maio Louvado sejas, Comprometidos a cuidar da nossa casa comum, foi preparado pela Comissão do Movimento Laudato Si’ do Vicariato de Hawassa.
No final da eucaristia, cada paróquia recebeu uma pequena árvore para plantar junto à igreja como monumento à encíclica Laudato Si’.
O pé de oliveira brava de Qillenso foi plantado no final da missa dominical de 8 de maio.
Depois da comunhão, o catequista explicou o essencial do Mês Louvado Sejas.
Os católicos são convidados a cuidar dos espaços públicos organizando campanhas de limpeza à volta da igreja, da clínica e da escola; apanhando plásticos, garrafas e outros lixos; plantando árvores de espécies locais — porque os eucaliptos dão dinheiro mas destroem a biodiversidade e os solos — para combater as mudanças climáticas que aqui também se sentem…
As igrejas devem colocar cestos ou caixotes para depositar o lixo.
Os pais, para manterem os pequenos sossegados durante a missa, dão-lhes biscoitos ou bolachas. Os pacotes de plástico acabam no chão das igrejas ou esgalhados pelos espaços envolventes.
Os anciãos da comunidade lideraram a procissão com o broto, que foi plantado depois de ter sido abençoado.
A eucaristia terminou no exterior da igreja junto à oliveirinha Laudato Si’.
A Etiópia tem sido assolada por fomes cíclicas causadas por períodos de secas extremas devido ao fenómeno meteorológico El niño.
Correntemente, cerca de treze milhões de pessoas vivem sob a ameaça da fome na Etiópia, Quénia e Somália depois de três anos de seca, que já matou muito gado.
2 de maio de 2022
FEZ-SE PÁSCOA!
Este ano a Páscoa do Calendário Juliano — em uso pela comunhão ortodoxa e também pelos católicos na Etiópia — foi celebrada uma semana depois da Páscoa segundo o Calendário Gregoriano — seguido pela grande maioria das Igrejas cristãs.
Uma vez cada oito anos a data coincide nos dois contadores do tempo, mas a diferença a separar as duas páscoas pode chegar às quatro semanas. Não me pergunte porquê, porque não sei.
No programa pastoral para as celebrações pascais coube ao pároco ir para a zona pastoral de Adola. Eu fiquei na sede da missão.
Em Qillenso, a vigília pascal estava marcada para as 19h00, 13h00 segundo a hora local — aqui as zero horas são às seis da manhã.
Uma hora antes começamos os preparativos.
Sob um céu muito carregado, com alguns trovões fortes, apanhamos a lenha para a fogueira pascal, sempre com um olho nas nuvens. Felizmente, foram despejar a carga de água a outro sítio e pudemos iniciar a vigília pascal — a mãe de todas as vigílias — já passava das 19h30, à espera que as pessoas fossem chegando.
Feita a Liturgia da Luz, no campo de futebol da missão, os participantes — guiados pelo Círio Pascal, símbolo do Senhor Ressuscitado — encaminharam-se para a pequena e acolhedora igreja, decorada a preceito.
A ELPA, a elétrica da Etiópia, portou-se bem e tivemos eletricidade durante toda a Liturgia da Palavra. Antes da celebração iniciar, atendi de confissão alguns penitentes à luz de uma vela.
Fizemos as sete leituras das Escrituras Judaicas — é importante fazer memória do imenso amor de Deus pelo seu povo, por cada pessoa, por cada criatura — e relembrar a história desse amor sofrido desde a Criação até à promessa do coração novo que substitui o coração empedernido do amado para ser também amante!
Cada leitura foi intercalada com um cântico acompanhado pelo teclista, que esteve «desempregado» durante o tempo da Quaresma. Nesta estação litúrgica aqui todos os instrumentos musicais são calados!
Foi tão lindo e comovedor poder cantar de novo Glória a Deus e Aleluia ao ritmo cadenciado das palmas e dos gestos depois dos quarenta dias de sobriedade litúrgica.
A luz «apagou-se» durante a homilia e a partir daí a celebração continuou com a igreja bastante bem composta, iluminada pelo Círio Pascal, pelas velas do altar e pela minha pequena lanterna que uma acólita segurava para eu poder ler o missal.
Dez catecúmenos e uma dúzia de bebés foram batizados durante a Liturgia Batismal. Algumas crianças fizeram a Primeira Comunhão na Liturgia Eucarística. A comunidade continua a crescer!
Os catecúmenos e os meninos da primeira comunhão receberam um terço e os bebés uma medalha de Nossa Senhora.
Era cerca das dez da noite quando disse às pessoas: «Ide em paz, aleluia, aleluia!»
A vigília foi uma celebração tranquila, uma experiência do Senhor Ressuscitado entre nós! O ambiente escuro e o bruxulear das velas ajudou ao repouso do espírito.
A noite de Páscoa foi de chuva intensa que se prolongou por parte da manhã.
No Domingo da Ressurreição, algumas pessoas vieram cedo à igreja para a prepararem para a Celebração da Palavra presidida pelo Catequista.
Como de costume, cortaram umas ervas longas e carnudas dos pântanos e espalharam-nas pelo chão. Depois da celebração juntaram-se no salão paroquial para um café celebrativo.
Eu fui celebrar a Missa da Ressurreição à igrejinha de Urdata, a uns seis quilómetros a norte de Qillenso, na periferia da cidade de Me’ee Bokko.
A celebração estava marcada para as 9h30, mas o catequista telefonou-me para não ir antes das 10h30. A chuva — que não queria parar — estava a atrasar os fiéis.
Ao longo da estrada vi muitas pessoas vestidas para ir ver o Senhor nas diversas comunhões presentes na cidade: as mulheres com vestidos e mantilhas onde predominava o branco e os bordados tradicionais ou os mantos longos e vestidos brancos com listas negras, étnicos; os homens com roupas mais sóbrias, embora alguns vestissem fatos brancos decorados com pequenas árvores verdes com troncos pretos — a oda, a árvore sagrada dos oromos, etnia a que os gujis pertencem.
A estrada de acesso à pequena igreja, construída com blocos e coberta de lâminas de zinco, estava muito enlameada e com os saltos do todo-o-terreno receei entornar a água benzida na vigília pascal que levava num balde para os batismos.
As pessoas iam chegando a conta-gotas.
«É por causa da chuva!» — explicava-me um catequista.
No templo luterano vizinho a assembleia cantava com entusiasmo puxada pelo pregar intenso do pastor.
«Huum! Parece que a chuva não cai sobre os protestantes!» — comentei, jocoso!
Entretanto, os jovens do coro vestiram as túnicas roxas com estolas brancas. Mas não entravam no templo!
Alguém decidiu ir alugar um pequeno gerador. A ELPA não retomou o fornecimento da energia e a Missa de Aleluia não podia ser celebrada sem o acompanhamento do teclado!
Era meio-dia quando, finalmente, iniciamos a celebração eucarística. A igrejinha, com o chão adornado de ervas, estava cheia de fiéis em trajes festivos (foto).
O coro cantou e dançou a preceito e a assembleia também!
Na celebração cinco catecúmenos e sete bebés receberam o Batismo e onze crianças fizeram a Primeira Comunhão. E receberam terços e medalhas!
No fim da celebração, a comunidade ofereceu aos dois catequistas um fato de três peças! Uma maneira interessante de marcar a Páscoa de quem os serve.
À vinda para casa estacionei o todo-o-terreno junto à antena de comunicações móveis para falar com os meus pais através de vídeo-chamada. Faz parte da minha rotina dominical desde os tempos em que vivi no Sudão do Sul. A casa onde vivo fica num baixio e o sinal da internet é muito fraco para usar o vídeo.
Assim passei a primeira páscoa de regresso à Etiópia!
18 de abril de 2022
BARSISSA: O PROFESSOR
Hoje quero falar-te de Barsissa, o Professor — como é conhecido o braço-direito dos missionários e das Missionárias da Caridade na zona pastoral de Adola.
Quando nasceu, há 61 anos, em Hossanna, uma cidade no Sudoeste da Etiópia, os pais puseram-lhe o nome de Sholango.
«Na minha língua natal, o welayitinha, Sholango significa Castanho», explicou-me com um sorriso tranquilo. «Porque eu não era nem negro nem branco».
No baptismo recebeu o nome de Joseph.
Fez a Escola de Formação de Professores em Robe, nas montanhas de Bale, e exerceu os 38 de profissão no distrito de Kibre Menguiste, no sudeste do país.
Casou em Adola, o nome guji para Kibre Menguiste.
É pai de oito filhos. O mais velho ensina na universidade de Harar. O segundo formou-se em informática e trabalha em Hawassa. O terceiro é oficial de saúde e trabalha num hospital.
Sholango foi investindo as poupanças em lotes de terra em Adola e construiu algumas casas que usa para complementar o orçamento familiar e para desenrascar amigos em dificuldade.
Comprou dois tuque-tuque, que fazem parte do serviço de taxis em Adola. Chamam-lhes bajaj — apesar de muitos serem de outros fabricantes. Podem carregar até dez passageiros, uns encima dos outros. Essa fila interminável de «formigas» azuis são um teste à paciência de condutores de veículos de dimensões mais avantajadas em muitas localidades da Etiópia.
Barsissa é um elemento fundamental e carismático na comunidade católica de Adola.
Anima a comunidade da cidade, de que é ancião, e acompanha os missionários nas visitas às suas capelas.
Ajuda nas traduções nos encontros de anciãos e catequistas.
No fim da eucaristia, costuma motivar os fiéis com um discurso simples e didático sobre a fé e as suas vivências e exigências.
É um comunicador nato e vivo, e prende a atenção das pessoas com muita facilidade. É Barsissa!
Apesar de ser welayta, domina o guji na perfeição.
Há quem veja com maus olhos a sua notoriedade e proeminência na comunidade de Adola precisamente por não ser guji. Mas a Igreja é católica, aberta a todos, para todos e de todos.
Há outro «senão»: ele trabalha como voluntário. Reformou-se há um ano e tem tempo suficiente para ajudar a comunidade católica a crescer em Adola e nas suas nove capelas.
É bastante crítico dos catequistas e do seu trabalho. Acha que deveriam ser voluntários como ele e não trabalhar por dinheiro.
No último domingo, ao virmos da capela de Ilala, notou com tristeza que o catequista não se empenha nem tem o zelo apostólico que devia para exercer o ministério de animador e líder da sua comunidade. Normalmente vêm à missa uma senhora com o seu bebé, duas jovens, dois jovens e o catequista. A comunidade conta com pelo menos quatro dezenas de batizados registados.
Barsissa está sempre à distância de uma chamada telefónica para dar uma mão. Católico fervoroso, dedicado, missionário.
Um homem de Deus!
7 de abril de 2022
AS TEIAS DA BUROCRACIA
Era uma vez uma carta de condução etíope caducada há dez anos.
Garantiram-me que era quanto bastava para renovar o documento no meu regresso ao país para uma nova etapa de serviço missionário.
Mas não foi o que as autoridades entenderam.
Quando fomos à Autoridade das Estradas do município de Adis Abeba, explicaram que o título tinha sido passado por troca da carta de condução internacional. Acontece que agora não o documento não é reconhecido pela Etiópia. Que podia conduzir por três meses com a licença portuguesa e começar o processo para obter um novo título de condução etíope.
Estávamos no início de novembro.
Nessa altura a preocupação maior era conseguir a licença de residência e de trabalho no país como membro de uma organização não governamental — a Igreja Católica. Por causa disso, no fim de novembro, tive de ir a Nairobi, Quénia, pedir um visto ONG e voltar a Adis Abeba duas semanas depois. Em janeiro estava legal!
Nesse mesmo mês, a embaixada portuguesa em Adis Abeba autenticou e traduziu a minha carta de condução.
Contudo, no Ministério dos Negócios Estrangeiro — por onde o processo de troca passava — revelaram que o trâmite era mais complexo: precisava de receber de Portugal a certificação do título de condução passada pelo IMT e a respetiva tradução autenticadas por um notário e pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros e enviar tudo para a embaixada etíope em Paris para validação.
Entretanto, entre o despacho da carta para Portugal e o recebimento de todo o processo — tudo via correio expresso assegurado — passaram-se três meses. A culpa foi do vírus! A entrevista com o IMT para obter a certificação do original levou quase dois meses a ser agendada. Mas aqui o que mais há é tempo!
Munido do original do documento mais um dúzia de páginas com certificados, traduções e certificações, dirigi-me ao Ministério dos Negócios Estrangeiros para autenticar o processo.
No dia seguinte, voltamos à Autoridade das Estradas da capital. A chefe, uma senhora simpática e elegante, reviu o processo página a página, conferiu os carimbos da embaixada etíope em Paris e do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Mas disse que faltava o OK da Agência Federal da Autenticação e Registo de Documentos mais declaração com a minha residência oficial em Adis Abeba.
Tudo conseguido nessa mesma tarde, deixando o verso do processo no estado em que a foto documenta: dez carimbos ao todo!
E fez-se o terceiro dia! De manhã voltamos à Autoridade das Estradas com todo o processo carimbado a preceito, fotocópias do passaporte e da carta de condução original e uma fotografia, mais as futuras dos emolumentos pagos no ministério e no registo.
A chefe estava em reunião.
Regressamos mais tarde. A senhora reviu todo o processo e encontrou espaço no verso do documento para visar, carimbar e autorizar a emissão temporária da carta de condução etíope por dois anos!
O processo de emissão foi rápido: passado pouco mais de uma hora tinha o documento viário em mãos!
Os meus colegas deram-me os parabéns! A carta nasceu, perfeitinha, depois de seis meses de gestação!
Assim concluo a ânsia de conduzir com uma fotocópia da carta portuguesa. A missão de Qillenso é extensa e sem carro não se chega a lado nenhum. Ou depois de longas horas a caminhar.
A primeira vez que a polícia de trânsito me parou não levantou objeções à fotocópia. Na segunda, fui multado em 400 birr, pouco mais de sete euros, por não ter o original do título de condução. Parece pouco dinheiro, mas é cerca de uma semana do ordenado da nossa cozinheira.
Agora, por dois anos, ando sossegado porque estou encartado!
Se não conseguisse a carta deste jeito a alternativa era repetir o exame de condução aos 62 anos de idade e com quase 40 de condução! Já tinha procurado de uma escola para fazer a prova teórica em Hawassa, a capital do Sul do país, mas estava difícil encontrar onde fazer o teste em inglês. Todas as escolas que tinha contactado só o faziam em amárico, uma língua que desconheço.
2 de abril de 2022
Gujis (Etiópia): A GRANDE REVOLUÇÃO CULTURAL
O povo Guji — que vive no sudeste da Etiópia e pertence à etnia Oromo — passou por uma revolução cultural muito grande durante as últimas três décadas graças à agricultura.
Os gujis são pastores que têm grande orgulho nas suas vacas, ovelhas, cabras, burros e cavalos. Costumavam desprezar a agricultura como trabalho escravo. Um dia, no início da missão de Haro Wato, estava a cavar um pedaço de terra entre a casa e a estrada para fazer uma pequena horta. Um ancião viu-me, voltou para trás, entrou no recinto, tirou-me a enxada das mãos, atirou-a ao chão e repreendeu-me. Eu estava a estragar o meu bom nome ao cavar a terra.
Hoje, os gujis superaram o preconceito sobre a agricultura e produzem quase tudo: do café ao chat (uma planta estimulante alcalóide que é droga legal), dos cereais às leguminosas e todo o tipo de legumes à custa da floresta. Agora, têm dinheiro, estão melhor alimentados, vestidos e alojados.
Têm acesso à rede móvel de telecomunicações, à electricidade ou energia solar, e muitas casas — maiores e mais confortáveis do que as cabanas tradicionais — têm parabólicas de televisão nos seus telhados de zinco com uma oferta enorme de canais de televangelistas etíopes que rezam, louvam, pregam e pretendem fazer curas em amárico, oromo e outras línguas. É um desafio à experiência de culto das comunidades católicas que já se debatem com questões de organização e culto de inspiração protestante.
Quando eu era director escolar de Haro Wato, a carreira académica de uma menina terminaria muito provavelmente na quarta classe. Era muito difícil convencer os anciãos a deixar as raparigas continuarem com a escolaridade. Em Qillenso, duas décadas mais tarde, as raparigas são tantas como os rapazes da escola da missão que, entretanto, foi promovida da quinta para a oitava classe. Um bom número de moças frequenta a escola secundária em Me'ee Bokko e Adola, algumas frequentam a faculdade ou universidade e as licenciadas estão a exercer as suas profissões em Adola, Neguele, Uraga ou noutro lugar.
O Islão também está a ganhar entre os Guji. No passado, alguns dos meus amigos em Haro Wato considerá-lo-iam com desprezo. Costumavam dizer-me que os pregadores muçulmanos estavam apenas interessados nas suas mulheres e no seu gado. Agora a aldeia tem uma mesquita. Alguns católicos converteram-se ao Islão devido aos comerciantes muçulmanos que controlam o mercado do café e os locais de processamento na região. As mesquitas em Adola estão ocupadas com o ensino utilizando altifalantes. Na cidade, é comum cruzar-se com mulheres que usam um rigoroso código de vestuário islâmico, deixando de fora apenas os bonitos e enormes olhos.
Entretanto, a missão Haro Wato registou um enorme desenvolvimento: passou de 29 comunidades (em 2000) para as actuais 52. A rede de estradas de terra batida favorece as deslocações às comunidades. Qillenso manteve as suas quatro estações mais a paróquia de Gosa.
Ambas as igrejas foram para a cidade: Haro Wato abriu uma capela em Sollamo, a cidadezinha capital do distrito, e as Missionárias Combonianas iniciaram um jardim de infância na mesma área à qual acrescentaram a escola primária que no próximo ano letivo chegará à oitava classe. Qillenso cresceu do sudeste para Adola. Os combonianos construíram uma pequena casa de barro, uma biblioteca pública, uma igreja espaçosa e gerem um albergue com nove rapazes e sete raparigas das zonas rurais que frequentam a escola secundária na cidade sagrada dos gujis.
À volta de Adola há nove comunidades ao longo do rio Awata, em direcção ao rio Ganalle e junto à estrada para Neguele. Infelizmente, os confrontos entre rebeldes e forças de segurança impedem-nos de visitar três comunidades durante os últimos quatro meses. Em Adola, a liturgia foi amarizada pela forma como as mulheres se vestem para ir à igreja e as pessoas rezam e cantam.
A pastoral vocacional é também um novo desenvolvimento com alguns frutos concretos. Já existe um padre guji entre o presbitério do Vicariato de Hawassa. Os Combonianos têm um escolástico e um postulante gujis. Duas raparigas de Qillenso estão no postulantado de uma congregação local e outra internacional. As combonianas seguem quatro candidatas: três de Haro Wato e uma de Qillenso.
À volta de Qillenso, as comunidades cresceram em auto-sustentação através da agricultura e plantação de eucaliptos, ofertórios dominicais e o côngrua anual. Compraram sistemas solares e sonoros e teclados que trouxeram muito ruído às liturgias. Em Adola, estamos a reiniciar a pastoral prisional após uma interrupção de dois anos devido à pandemia do Covid 19.
22 de março de 2022
AS TENTAÇÕES DO MISSIONÁRIO
A liturgia católica propõe-nos, no início da quaresma, a contemplação das tentações de Jesus e das nossas próprias tentações. O evangelista Mateus conta que, depois do Batismo, e antes de começar o seu ministério, Jesus foi levado pelo Espírito para o deserto para ser tentado pelo Diabo (Mateus 4, 1-11). Lucas (4, 1-13) inverte a segunda e terceira tentação. Marcos (1, 12-13) nota simplesmente que o Espírito levou Jesus para o deserto onde durante quarenta dias foi tentado por Satanás entre as feras e os anjos que o serviam.
Transformar pedras em pão. Jesus passou quarenta dias a jejuar e, claro, teve fome. O tentador disse-lhe: «Se Tu és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pão» (versículo 3).
Jesus foi tentado a reverter o poder que o Pai lhe deu para a missão em proveito próprio. Mas respondeu: «Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus» (versículo 4).
Os missionários vivemos em situações periféricas. A doença, a fome, a iliteracia, a miséria, a falta desenvolvimento das pessoas com quem partilhamos a vida e o Evangelho afetam-nos e apertam-nos o coração. Podemos ser tentados a reduzir o serviço missionário a uma resposta humanitária a estas emergências, mas a proclamação da Palavra é a razão da nossa presença. Aliás, a Palavra é também parte da solução para ultrapassar as desigualdades e os problemas com que as pessoas se debatem porque nos abrem à partilha e ao cuidado mútuo.
Lança-te! Na segunda tentação, o Diabo pôs Jesus sobre o Pináculo do Templo de Jerusalém e disse: «Se Tu és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo, pois está escrito: Dará a teu respeito ordens aos seus anjos; eles sustentar-te-ão nas suas mãos para que os teus pés não se firam nalguma pedra» (versículo 6). O Tentador conhece a Bíblia e citou o Salmo 91! Jesus replicou: «Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus» (versículo 7).
Confrontado pela realidade humana, social, cultural e religiosa — e motivado pelo zelo apostólico de querer a todos salvar, o missionário pode ser tentado a lançar-se ao trabalho sem horários nem descanso e depois querer que Deus faça milagres quando a saúde física, espiritual e mental falham. Gastar-se completamente e esperar que Deus tome conta do prejuízo. Não tentar o Senhor Deus é cuidar do corpo, do espírito e da alma. Os anjos ajudam, mas não são responsáveis pelas minhas escolhas.
Poder e glória. Finalmente, Mateus conta o Diabo levou Jesus para o alto de um monte e mostrando-lhe todos os reinos do mundo com a sua glória — a que Lucas ajunta «com o seu poderio» — disse-lhe: «Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares» (versículo 9). A resposta de Jesus foi seca: «Vai-te, Satanás, pois está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto» (versículo 10).
A tentação do poder é a tentação maior! Poder a controlar a consciência, a vida e as escolhas das pessoas, o protagonismo da juventude; poder que pode ser de confrontação com as autoridades locais ou de alianças de interesses não confessados; poder na confrontação inter-religiosa em vez da via do diálogo. Poder na ajuda paternalista que cria dependência.
A tentação do poder e glória também pode ser manifesta na ânsia de protagonismo, de ocupar o centro do palco da evangelização de que o Espírito Santo é o ator principal. Ou de deixar obra feita, uma espécie de monumento ao eu!
Daniel Comboni deixou um remédio simples. No capítulo décimo das Regras do Instituto das Missões para a Nigrícia — a África — escreveu: «o missionário da Nigrícia deve com frequência reflectir e meditar que ele trabalha numa obra de altíssimo mérito, sim, mas muito árdua e laboriosa, para ser uma pedra escondida debaixo da terra que talvez nunca apareça à luz e que entra a fazer parte do alicerce dum novo e colossal edifício, que só os vindoiros verão despontar».
14 de março de 2022
MISSIONAR É… REZAR JUNTOS
O Papa Francisco escreveu que «precisamos de rezar, porque precisamos de Deus». Tal e qual! Sendo a missão testemunho do encontro com o Deus Unitrino que todos e tudo ama, é também oração, é rezar juntos.
Dia do Senhor. A oração mais importante que fazemos juntos é a Eucaristia dominical em memória da Ressurreição do Senhor que fez de nós criaturas novas. Os grupos corais ensaiam os cânticos no sábado. Nós preparamos a homilia, rezando a Palavra de Deus da missa de domingo. Nessa preparação tento encontrar um ditado guji que ilustre o tema da liturgia. O comboniano mexicano Pedro Pablo Hernández publicou uma recolha de provérbios gujis em guji, inglês e espanhol, ilustrados com fotos da sua autoria. É uma boa ajuda.
No domingo, enquanto as pessoas se vão juntando para missa o catequista dirige a oração da manhã e alguns mistérios do terço enquanto o padre atende de confissão quem quer. A liturgia é celebrada com calma e a missa pode demorar mais de duas horas. Além dos cânticos e das respostas, a assembleia participa com a oração dos fiéis e de agradecimento espontâneas. No ofertório as pessoas colocam ao pé do altar as suas oferendas: produtos agrícolas, dinheiro… Algumas deixam garrafas de água para serem benzidas no fim da missa.
No fim da Eucaristia os grupos corais das crianças, jovens e adultos cantam dois ou três cânticos cada um para a assembleia. A missa é sempre uma festa!
Na missão de Qillenso celebramos cinco missas dominicais: no sábado, ao fim do dia, com os utentes do centro de acolhimento das Missionárias da Caridade, em Adola; no domingo, nas igrejas de Qillenso e de Adola e em numa capela de cada zona. Durante a semana, celebramos a missa em cada capela de Qillenso. Em Qillenso, a missa de sexta-feira às 7h00 é sobretudo para as mulheres e a de sábado para os jovens.
Oração comunitária. São Daniel Comboni escreveu que «a omnipotência da oração é a nossa força». Por isso, além da oração pessoal, os dois missionários de Qillenso rezamos a oração da manhã às 6h45, na igreja, e a oração da tarde às 18h45, em casa. Todas as quartas-feiras fazemos uma hora de adoração pelas vocações entre as 18h00 e as 19h00 na igreja. A terceira quarta-feira do mês é uma jornada de oração. Os nossos colegas missionários, familiares, benfeitores e amigos espalhados pelo mundo inteiro estão presentes na nossa oração quotidiana.
Terço. Em Adola, costumamos rezar o terço todas as segundas-feiras às 17h00 com os moradores de um pequeno bairro social construído pelas Missionárias da Caridade. É uma hora que me enche e pacifica. O terço é cantado em tom monocórdico, tranquilo. No final, o catequista Petrosi ou o ancião Sholamo lêem o evangelho do dia e fazem uma pequena reflexão em amárico, a língua franca da cidade.
Via-sacra. Nas sextas-feiras da Quaresma os católicos reunem-se às três da tarde em cada capela para fazerem as estações da via-sacra, presidida pelo catequista. É uma forma de oração penitencial vivida intensamente.
Doentes. Visitar os doentes e rezar com eles e por eles é parte do nosso serviço missionário. Normalmente o catequista ou um ancião sinalizam alguém doente que queira a nossa visita. As pessoas gostam que lhes imponhamos as mãos durante a oração. Também nos convidam para uma oração de ação de graças quando a pessoa recupera a saúde.
Funerais. Quando alguém morre perto da missão, não importa de que religião, vamos visitar os doridos e permanecer com eles um bocado para os consolar com a nossa presença — quase sempre silenciosa. É costume servirem algo de comer e beber na mana bo’a, na casa do choro, como os gujis chamam à casa onde se juntam — normalmente uma tenda gigante — para celebrar a pessoa falecida. Quem participa colabora com algum dinheiro para cobrir a despesa da celebração. Aos católicos fazemos o funeral. No passado, as pessoas sepultavam os seus falecidos junto à casa; são parte da família. Agora, junto à igreja de Qillenso, há um pequeno cemitério em formação com quatro campas de cimento.
Bênçãos. Quando os exames do oitavo e décimo segundo ano e de entrada na universidade chegam os estudantes geralmente no fim da Eucaristia dominical ajoelham-se em frente ao altar para serem abençoados. Alguns depois passam por casa para benzermos as esferográficas e outros materiais com que vão fazer os testes.
Um católico que vai fazer uma casa nova, habitualmente pede para abençoarmos o terreno e o material de construção. A oração começa na casa velha com a leitura de um texto bíblico, uma pequena reflexão e uma oração partilhada pelos presentes. Depois benze-se a água para aspergir os membros da família, o terreno e os materiais. A celebração termina normalmente com uma pequena refeição de injera ou cocho, o pão feito de tef ou farinha de falsa banana com creme de leguminosas.
Oração solidária. Em Adola, ortodoxos, protestantes e muçulmanos competem através das ondas sonoras. Em vez de praguejar porque os clérigos ortodoxos me acordam às duas da manhã de domingo — ou nalgum dia de festa — junto às suas cacofonias um glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. Também o faço quando o muezim chama os muçulmanos à oração pelo menos antes da alvorada e depois do crepúsculo. Chamo-lhe oração solidária.
Silêncio. A oração que mais me preenche é o silêncio contemplativo. Durante o dia, sentado num canto sossegado a escutar a polifonia alegre e cheia de vida dos pios, assobios e chilreios da passarada nesta nesga de floresta. À noite, sentado nos degraus da igreja, a contemplar o céu de veludo ponteado de estrelas, planetas, luas e satélites, riscado por estrelas cadentes, enquanto as cigarras, os grilos e as aves noturnas enchem o silêncio de música. Estamos a cerca de 2300 metros de altitude e não há poluição atmosférica ou luminosa: os corpos celestes parecem muito perto, quase à mão.
O teólogo alemão Karl Rahner escreveu que o cristão do século XXI ou será místico ou não será cristão. Eu ajunto: o missionário do século XXI ou é místico ou não é missionário.
7 de março de 2022
A MISSÃO DOS TRÊS NOMES
Os primeiros combonianos chegaram a Qillenso em 1976, vindos da missão de Teticha, a cerca de noventa quilómetros mais a noroeste, para dar assistência a algumas famílias sidama que aqui se fixaram. Começaram por chamar Maleka — o nome da aldeia seis quilómetros mais abaixo — à clareira da floresta onde construíram a missão a quase 2300 metros de altitude. Depois deram-lhe o nome de Baddessa Chisa — baddessa caída, uma árvore de grande porte comum na floresta desta área. É o nome da área. Finalmente, ficaram por Qillenso, literalmente brisa agradável, mas que também pode ser forte e fria.
Vieram pelos sidama, mas cedo começaram a evangelizar o povo local, os gujis, um subgrupo oromo, embora o superior provincial que não visse com bons olhos o uso de mais uma língua na província. Já missionavam em amárico, sidamo e guedeo.
A missão, fundada pelo P. Bruno Lonfernini, está situada no que era uma clareira na borda da floresta junto à estrada que leva à Somália.
Quando aqui vivi, há quase trinta anos, a missão ainda não estava recintada. À noite, as hienas passavam à frente da casa e as árvores do alto da colina abrigavam os babuínos que aí pernoitavam em grande número. Hoje, a floresta está a ser transformada em zona agrícola. Há alguma reflorestação com… eucaliptos.
A paróquia foi oficialmente aberta em 1 de janeiro de 1981, dedicada a Nossa Senhora das Dores.
Com a vinda das combonianas, Qillenso transformou-se numa missão tradicional com a igreja e a escola primária, confiadas aos missionários, e a clínica e a promoção das mulheres, iniciativas das irmãs. Há três décadas, a missão tinha ainda duas voluntárias italianas que colaboravam com as irmãs na clínica e no programa de economia doméstica.
Entretanto, as combonianas partiram e vieram irmãs da congregação local, que também deixaram Qillenso.
Hoje, a clínica e o programa de promoção das mulheres estão suspensos. A escola tem 187 alunos da quinta à oitava classe. Os nove professores são do Governo.
A missão continua com as quatro capelas que tinha há três décadas — uma fechou e outra abriu — mas deu origem a duas missões novas entre os gujis: Soddu Abala (a uns 45 quilómetros a sudeste) e Haro Wato (a mais de cem quilómetros a oeste por estrada. A pé demora quatro a cinco horas).
A partir de 2008, o bispo entregou aos missionários de Qillenso o cuidado pastoral da cidade de Adola — Kibre Menguiste em amárico, que fica 35 quilómetros a sudeste. É o local, onde — segundo os mitos gujis — Deus criou os primeiros três homens: Urago, o pai dos gujis, Darasso, o pai dos guedeos, e Amaro, o pai dos amara. Os padres da diocese de Bari — Itália, que cuidavam de Soddu Abala, tinha construído na cidade um pequeno salão onde algumas mulheres aprendiam costura e eles celebravam a missa.
Os combonianos compraram um talhão junto à rua principal e aí construíram uma biblioteca para dar apoio aos alunos da secundária, uma pequena casa de barro com três divisões e, depois, uma igreja circular em anfiteatro dedicada a São Daniel Comboni. No talhão do salão transformaram uma pequena construção em hostel para alojar seis raparigas e seis rapazes das zonas rurais que estão em Adola a fazer a secundária.
Adola tornou-se no segundo polo de Qillenso. Hoje, há nove capelas à volta da cidade em três eixos.
A revolta do Exército de Libertação Oromo contra o Governo de Adis-Abeba, trouxe alguma insegurança à área e tem-nos impossibilitado a visita regular a quatro capelas.
Entretanto, a missão de Gosa — aberta pelos combonianos uns 35 quilómetros a norte de Qillenso a quase 2800 metros de altura — foi transformada em capela de Qillenso. A clínica e a escola (com mais de mil alunos desde a pré à oitava classe) são administradas diretamente pela diocese que usa pessoal local.
A nível de pessoal, a missão conta com os serviços de 21 catequistas, dois padres e cinco Missionárias da Caridade (quatro da Índia e uma da Roménia) — que têm uma casa de acolhimento para recuperação de doentes de tuberculose, bebés abandonados, doentes crónicos e terminais abandonados pelas famílias ou de famílias sem meios para cuidar deles.
O P. Hippolyte Apedovi nasceu no Togo há 33 anos. É o pároco e ecónomo. Eu desempenho as funções de superior e diretor da escola de Qillenso.
Nas igrejas de Qillenso e Adola há missa todos os domingos. Na casa das irmãs celebramos com os internados todos os sábados à noite. Celebramos uma vez por mês em cada capela. Nos outros domingos o catequista preside à celebração da Palavra.
Um de nós fica em Adola de sexta à tarde até terça de manhã para seguir as comunidades da área e celebrar a missa para as irmãs.
Entretanto, durante a Quaresma vamos celebrar missa todas as semanas nas capelas da zona de Qillenso-Gosa.
Cada comunidade, além do catequista, tem um conselho dos anciãos — com representantes dos adultos e dos jovens, homens e mulheres — que cuida do seu andamento. Há ainda a pastoral juvenil e vocacional. Qillenso e Adola têm um grupo de acólitas e acólitos. Em Urdata, há também uma pequena biblioteca de apoio aos alunos da escola média, vizinha da capela. Queremos também usar os computadores da biblioteca de Adola para dar alguns cursos básicos de informática e ligar os computadores à internet para os utentes poderem aprofundar os temas de estudo.
Os catequistas são o braço direito dos missionários na evangelização. Além de presidirem à oração da comunidade, visitam os doentes e preparam os catecúmenos para o batismo — o curso dura dois anos — e as crianças para a primeira comunhão. Reunimo-nos com eles uma vez por mês em Adola e em Qillenso para seguir o andamento das respetivas capelas, dar-lhes alguns conteúdos formativos e resolver problemas que aparecem. Recebem uma pequena ajuda económica.
O Centro Catequético da diocese de Hawassa — que cobre a área de Portugal — prepara cursos regulares de formação para catequistas, jovens e anciãos.
Cada capela tem um campo para conseguir alguma autonomia financeira e cobrir as próprias despesas através da agricultura e do cultivo de eucaliptos. As árvores são cortadas cada três anos para serem usadas na construção civil.
As três capelas e a igreja de Qillenso conseguiram juntar dinheiro suficiente para comprar um teclado para animar as liturgias. Confesso que não gosto muito da evolução, porque o acompanhamento dos cânticos nem sempre é (con)sonante além de ser muito barulhento. Nas capelas, o sistema sonoro e o teclado funcionam com energia solar armazenada em baterias.
GUARDADORAS DA ESPERANÇA
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– Eu também quero! – Ainda és muito pequena... Mas a menina beduína insistiu… tal como a vida insiste. E conseguiu. Observava as mulheres da...
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Parti no fim de maio para três meses de férias em Portugal. A fórmula é simples: um mês na pátria por cada ano na missão. Contudo, um proble...
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Defino-me como missionário por vocação, padre por ordenação e jornalista por profissão. Servi como missionário 20 anos em Portugal, uma dúzi...



































