Conhecemo-la há três anos. Uma menina beduína palestiniana numa aldeia do deserto da Cisjordânia. Extremamente tímida. Sempre afastada. Quase sem falar. Parecia viver por detrás de um muro invisível.
Esta semana, durante o acampamento de verão na sua aldeia, mal podíamos acreditar no que estávamos a ver.
Hoje tem seis anos. E é outra criança.
Cresceu ao lado de uma irmãzita apenas um ano mais velha, espontânea, segura e extrovertida.
Desde o primeiro dia, repetimos vezes sem conta a mensagem do acampamento: «Sou especial. Sou única. Obrigada por ser quem sou!»
Ao ritmo do hino que acompanhou estes dias, vimo-la sorrir, brincar, participar, falar e acercar-se. A menina que antes se escondia agora corre ao nosso encontro. Procura as outras crianças, partilha, colabora e oferece abraços cheios de confiança.
Esta transformação não aconteceu num instante. É fruto de anos de presença, proximidade e carinho. Fruto de se sentir amada, aceite e valorizada. Fruto de um caminho percorrido ao lado dela, da sua mãe e de toda a sua família.
Durante estes quatro dias, vimos concretizar-se cada um dos temas do acampamento.
No primeiro dia: «Eu sou especial!» E ela começou a acreditar nisso.
No segundo dia: «Posso mudar e fazer a diferença!» A sua própria história foi o melhor exemplo.
No terceiro dia: «Não estou sozinha, tenho muitos amigos!» E lá estava ela, rodeada de crianças, a desfrutar de uma amizade que antes parecia impossível.
No quarto dia: «Quero semear a paz!» E é exatamente isso que ela está a fazer: a curar feridas, a superar medos, a abrir o coração e a construir pontes.
Foram quatro dias intensos em duas aldeias do deserto. As crianças estavam ansiosas e impacientes por estarem juntas, por brincarem. A maioria delas não frequenta a escola. A escola mais próxima fica em Jericó, a quilómetros da sua aldeia.
Chegavam muito cedo, limpos, ansiosos, cheios de energia. Recetivos à aprendizagem, aos jogos e com os corações cheios de esperança. Sob o sol escaldante, amenizado este ano por uma brisa fresca que sentimos como uma dádiva de Deus.
Esta menina lembra-nos que o amor transforma. Que a proximidade cura.
Hoje, ela sorri quando canta: «Sou especial!»
E, ao vê-la, também acreditamos nisso.
Aqui, no meio do deserto, na Terra Santa, esta pequena menina beduína, com esta extraordinária capacidade de transformação, já está a semear a paz.
Ir. Cecilia Sierra
Missionária Comboniana no Deserto da Judeia


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