Na madrugada de 30 de maio de 2026, a cidade de Isiro, a capital e maior cidade da província de Alto Uele, no norte da República Democrática do Congo, foi despertada pela chegada em massa de deslocados que fugiam dos terroristas. A onda ruidosa, vinda de cerca de 125 quilómetros a leste, atravessou dezenas e dezenas de aldeias na floresta. Impelidos pelo medo, encheram durante vários dias a grande estrada internacional que liga Isiro ao Uganda e procuraram refúgio na capital da província.
O governo provincial foi apanhado de surpresa. Acreditava-se que a guerra era o destino dos povos do Leste e do Nordeste do país, não no Norte.
Além disso, todos acreditavam que os reforços militares enviados para Gombari (a duas centenas de quilómetros de Isiro) e para Mungbere (a 125 quilómetros) eram suficientes para dissuadir os guerrilheiros que, ao que parece, vêm do Nordeste. A estratégia da guerrilha pôs a nu a desorganização e a fraqueza das forças do governo.
Acolhimento e necessidades
As famílias de Isiro foram as primeiras a abrirem-se aos deslocados num admirável impulso de acolhimento. Famílias de si já numerosas acolheram dez, 15 e até 20 recém-chegados.
Perante a urgência, os serviços humanitários e de solidariedade do governo provincial pediram a disponibilização do vasto complexo escolar de Ntumba para acolher os deslocados sem familiares em Isiro. O fluxo de chegadas continuou durante toda a semana, devido às notícias e rumores de assassinatos e violências cometidos em Difolo e Ndubala, localidades na estrada para Isiro. O Diretor da Cáritas diocesana notifica que os seus serviços registaram mais de dez mil deslocados.
A 2 de junho, o governo provincial lançou um apelo ao governo central de Kinshasa: «Os meios de que dispomos são muito limitados e insuficientes para tantas pessoas, num prazo tão curto. E ninguém sabe dizer quanto tempo isto vai durar».
Dois dias depois, a Assembleia Provincial do Alto Uele enviou uma delegação de quatro deputados à capital, Kinshasa, para solicitar ajuda humanitária e o reforço significativo de militares.
Os deslocados são também acolhidos em conventos e paróquias católicas e protestantes de Isiro.
Na paróquia católica de Santa Ana, onde trabalho, prestamos ajuda a dois níveis: acolhimento nas nossas instalações e apoio às famílias que abriram os seus corações e portas àqueles que, partindo à pressa, chegaram sem quase nada. Atualmente, acolhemos 140 pessoas na nossa casa e apoiamos 40 famílias com arroz e feijão.
Nas visitas ao centro de acolhimento de deslocados Gossamu, que, devido às atividades escolares, substituiu o complexo Ntumba, colaborámos com alimentos, sabão, cordas secar a roupa — que, de outra forma, seria estendida no chão — e outras ajudas úteis ao funcionamento do centro. Em plena época de exames, as escolas, sob a orientação do ministério provincial competente, estão a fazer tudo o que é necessário para que os alunos deslocados não percam o ano letivo.
Acompanhamento
Praticamente todos os católicos das 40 comunidades espalhadas pela floresta e savana estão em Isiro. Assim, é natural que lhes prestemos todo o tipo de apoio: escuta, sacramentos, locais para ficar, assistência médica no local e, nos hospitais, para os mais graves. Para as crianças há futebol, catequese e oração.
Visitamos também as famílias, nos bairros, seja para rezar com os doentes, seja para estar com os deslocados. Lá, proclamamos a Palavra de Deus e rezamos juntos para que o conforto que recebemos do Senhor os conforte e ilumine os seus olhos e os seus corações.
Aos domingos, celebro a Eucaristia no centro de acolhimento Gossamu, que abriga algumas centenas de pessoas. A celebração é sempre um grande conforto, tanto para os católicos como para os protestantes. Vi a mesma alegria nos deslocados hospitalizados na zona oeste de Isiro.
A paróquia de Santa Ana é a mãe espiritual da maioria dos deslocados. Ela estende-se, de facto, para leste até Ndubala e Mungbere e, para norte, chega a Elimba, nas margens do grande rio Bomokandi, atravessado por uma ponte, destruída há décadas. Em Elimba, a comunidade mais distante da paróquia, os terroristas acabaram de matar várias pessoas que se dedicavam à prospeção artesanal de ouro. A grande aldeia de Ndubala também foi palco de violência e morte.
O futuro
Todos se perguntam quanto tempo vai durar esta violência. Entretanto, a frágil economia das famílias desmoronou-se: das famílias de acolhimento, incapazes de sustentar tantas bocas, e dos deslocados que deixaram tudo para trás.
Os campos, repletos de feijão e amendoim prontos para a colheita, para depois receberem a sementeira do arroz, foram abandonados. Todo o gado foi perdido. As casas foram incendiadas. Tudo, tudo se esfumarou. Foi-o também para o Sr. Martin, catequista titular de Ndubala, refugiado na paróquia de Santa Ana, com a mulher e filhos. «Já não temos nada», lamenta a esposa, banhada em lágrimas.
Os guerrilheiros, de facto, ao chegarem às aldeias desertas, queimam as casas e os estabelecimentos comerciais. Se encontram alguém que se recusou a fugir, matam-no. Por isso, mesmo aqueles que fugiram para Isiro das aldeias mais próximas, têm medo de lá ir buscar alguma coisa. O espectro da fome já se sente, ameaçador. Precisamos urgentemente de ajuda, para que a fome e as doenças não tornem ainda mais sombria a vida destas irmãs e irmãos, e a nossa com eles.
P. Claudino Ferreira Gomes
Missionário Comboniano





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