21 de março de 2018

RESISTIR É CRIAR – RESISTIR É TRANSFORMAR


Mensagem final dos membros da Família Comboniana
Participantes no Fórum Social Mundial e no Fórum Comboniano 

Ministerialidade e trabalho em rede/colaboração na Família Comboniana
e com as outras organizações 

Salvador da Bahia, 10-19 de Março de 2018 

Nós leigos, irmãs, irmãos e padres missionários combonianos, que participámos no Fórum Social Mundial (FSM) e no Fórum Comboniano (FC), saudamos-vos a partir de Salvador, terra de resistência negra e de culturas afrodescendentes, com um coração cheio de gratidão e de esperança. De 10 a 19 de Março de 2018 vivemos juntos uma experiência forte e única ao participar no FSM, que tinha como tema “Resistir é criar – resistir é transformar” e no VIII FC com o tema “Minsiterialidade e trabalho em rede/colaboração na Família Comboniana e com as outras organizações”. Agradecemos de modo particular aos nossos conselhos gerais que juntos nos escreveram uma mensagem de encorajamento pelo empenho na JPIC e pela nossa participação no FSM como experiência do vivido do nosso carisma nos desafios do mundo de hoje.

A nossa participação foi relevante e numerosa: 53 pessoas provenientes da África, Europa e América. Experimentámos a grande riqueza do nosso carisma na variedade dos nossos empenhos. Pela primeira vez participaram também representantes dos jovens em formação no escolasticado e no CIF com um seu formador. Agradecemos também pelas respostas recebidas de quatro escolásticos ao questionário que o comité central tinha enviado com o objectivo de compreender até que ponto é que os temas da JPIC estão presentes na formação. Reafirmamos o empenho de envolver sempre mais as pessoas em formação e os formadores sobre os temas da JPIC e nas dinâmicas do FSM e do FC.

No FSM apresentámos como Comboni Network quatro workshops: Land grabbing, Extracção minerária, Situação sócio-política da RD. do Congo e do Sudão do Sul, Superação da violência e discriminação de género. Isto permitiu-nos partilhar na metodologia do FSM o nosso empenho como missionários e missionárias por um outro mundo possível. Um stand, preparado por nós, permitiu-nos fazer animação missionária, encontrar e dialogar com muitas pessoas e darmo-nos a conhecer. Entre os numerosos workshops propostos pelo FSM, acompanhámos com interesse Os novos paradigmas, Teologia e libertação, Jovens, Resistência dos povos originários e afrodescendentes, e Migrações. Durante o desenvolvimento do Fórum, participámos também na assembleia mundial das mulheres. O FSM realizou-se em clima de festa, interrompido pela morte de dois activistas dos direitos humanos: Marielle Franco, no Rio de Janeiro, e Sérgio Paulo Almeida do Nascimento, em Barcarena, estado do Pará.

O Fórum Comboniano realizou-se no signo da continuidade com os encontros precedentes. As jornadas foram intercaladas por momentos inculturados de espiritualidade, durante os quais celebrámos a vida, os sofrimentos e as esperanças, em sintonia com as realidades dos Países de proveniência e com aquelas encontradas no Fórum. Interrogámo-nos sobre a necessidade de aprofundar a reflexão acerca dos novos paradigmas da missão, de consolidar esta experiência como família comboniana e de poder dar maior espaço de participação aos leigos e às leigas. Nesta reflexão fomos acompanhados e animados por Marcelo Barros, que partilhou o estado actual da teologia e libertação, e Moema Miranda, que, depois de uma análise da realidade mundial, indicou algumas luzes para o caminho propostas pela Laudato Si’. Perante um neoliberalismo sem limites, o convite lançado foi no sentido de pôr em diálogo os pobres e de consolidar a fé na presença do Espírito de Deus que caminha connosco na história.

Interpelados por aquilo que vivemos, propomos:
  • Publicar um livro que reúna a história e as esperanças destes onze anos de Fórum Comboniano, indicando caminhos para o futuro. 
  • Ampliar a coordenação do Comboni Network para um melhor serviço de sensibilização e formação sobre os temas da JPIC. 
  • Realizar um Fórum Social Comboniano continental para pôr em confronto as diversas realidades nas quais estamos empenhados. 
  • Criar um fundo económico para sustentar as actividades ligadas ao empenho da JPIC. 
  • Consolidar uma plataforma on-line onde recolher e partilhar experiências e material sobre os temas da JPIC. 
Depois desta experiência, sentimos ainda mais consistente a importância de nos reencontrarmos para uma maior colaboração entre nós, para nos confrontarmos como Família Comboniana e como pessoas empenhadas em âmbitos diversos mas unidos no empenho da JPIC para procurar novos caminhos de minsiterialidade e novos paradigmas da missão.

Salvador da Bahia, 19 de Março de 2018
Festa de São José, Operário

20 de março de 2018

«ALARGA O ESPAÇO DA TUA TENDA»




«ALARGA O ESPAÇO DA TUA TENDA» (Is 54, 2) 

Mensagem final da 18ª Assembleia Geral da UCESM 

Snagov (RO), 5-10 de março de 2018 

Durante estes dias tivemos a oportunidade de experimentar a nossa unidade através da diversidade. Reunidos juntos como os religiosos da Europa, ouvimos a chamada de Deus e da Igreja para sairmos para as pessoas necessitadas.

Estamos profundamente comovidos pelo sofrimento de milhões de pessoas deslocadas que migram de todo o mundo e dentro da Europa. Como UCESM (União das Conferências Europeias dos Superiores Maiores), queremos ampliar o espaço da nossa tenda para os acolher.

Inspirados pelo Evangelho de Jesus, movido pelo Espírito Santo e os desafios que ouvimos ao longo do tempo que estivemos juntos, comprometemo-nos a continuar a apoiar a população migrante na Europa. Ao respeitar e defender a dignidade e os direitos humanos de todos os migrantes, esforçar-nos-emos para atender às suas necessidades através do acompanhamento, do serviço e da advocacia.

UCESM, que inclui comunidades interculturais na Igreja na Europa, compromete-se a ficar ao lado dos nossos irmãos e irmãs deslocados em amizade e oração. Nós também apoiamos a todos no seu direito de ter um lar. A nossa esperança é estar abertos a cada um com um coração que escuta.

Todos somos chamados a sair, a encontrar migrantes, a agir como congregação e das nossas comunidades onde estamos. É unindo-nos nesse caminho global de compreensão e ação que seremos um testemunho profético do amor de Deus para todas as pessoas. Amando-nos uns aos outros, incluindo o nosso próximo e o outro, o espaço dos nossos corações será ampliado e nossa «tenda» abrangerá muitos mais.

Snagov, 9 de março de 2018

CARTA ABERTA DE APOIO AO POVO DO BRASIL



«Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus» Mt 5,10).

Nós, leigos, irmãs, irmãos e padres missionários combonianos de 16 países, de 3 continentes diferentes, reunidos em Salvador da Bahia no âmbito do Fórum Comboniano (de 11 a 19 de março) e do Fórum Social Mundial (de 13 a 17 de março) queremos nesta carta aberta manifestar a nossa solidariedade ao povo brasileiro de maneira geral e, em particular, a todas as pessoas de boa vontade que, apesar dos tempos difíceis da atualidade, de golpe e reformas nocivas, de intervenção militar, perseguições, ameaças e assassinatos, mantêm-se firmes no empenho da defesa dos direitos das pessoas e da criação, resistindo contra todas as formas de discriminação de gênero, raça, etnia, religião e ainda de destruição do meio ambiente.

A situação política e social com a qual nos deparamos no Brasil, de modo mais relevante os recentes assassinatos de Marielle Franco, no Rio de Janeiro, e de Sérgio Paulo Almeida do Nascimento, em Barcarena, Pará, causa-nos espanto e atinge-nos como parte da mesma família humana e de toda a criação, na certeza de que tudo está interligado, e impulsiona-nos, inspirados pelo carisma do nosso fundador, São Daniel Comboni, a fortalecer o nosso empenho na defesa de uma vida digna para todas as pessoas, e sobretudo, as mais pobres e abandonadas da sociedade.

Como missionárias e missionários, interpelados pelo testemunho de Jesus Cristo, reafirmamos o nosso compromisso nas várias dimensões da justiça e da paz, unindo-nos a todas e a todos os defensores da dignidade da vida humana e da criação, e auguramos que a força do Ressuscitado nos anime e fortaleça sempre mais na construção de um mundo mais justo e fraterno, nos guie pelos caminhos do Bem-Viver, e nos inspire nas denúncias das violações que ferem estes ideais.

Continuamos unidos e unidas,
Os 53 participantes do Fórum Comboniano 2018.
Salvador da Bahia, 19 de março de 2018
Dia de São José, Operário


16 de março de 2018

S. MIGUEL (AÇORES): ROMARIAS QUARESMAIS






Este ano, mais uma vez, participei nas Romarias Quaresmais da minha terra. Devo confessar que para mim, foi uma das mais penosas; o ideal é ter entre 30 e 50 anos para poder caminhar longas horas com chuva ou com calor. Este ano fomos agraciados com uma semana de tempestade, vento forte, chuva, granizo e… muito frio.

As Romarias (não confundir com as festas que em Portugal se realizam e que usam o mesmo nome), surgiram em meados do século XVI (1522), durante a última grande erupção vulcânica na Lagoa do Fogo, que atravessou a ilha, dividindo-a a meio, destruindo a então capital, Vila Franca do Campo. As pessoas apavoradas percorreram as Igrejas e lugares de culto onde se encontrasse uma imagem da Virgem Maria, procurando a sua intercessão.

O movimento eminentemente laical e só para homens, foi criando raízes e hoje está estruturado do seguinte modo: caminha-se uma semana completa; à frente vai a cruz pendurada ao pescoço de um adolescente. Cruz essa que é beijada à noite e no início do dia seguinte. Os romeiros formam duas filas, ocupando meia faixa de rodagem da estrada. Na parte final do “rancho” caminha o mestre (pessoa escolhida entre os romeiros e confirmada pelo pároco e com plenos poderes durante a caminhada), encerra o cortejo o “arrematador das almas”, nome simpático que se dá àquele que vem no fim do cortejo e cuja função é informar as pessoas sobre o número dos irmãos, proveniência e tomar nota de pedidos de oração (Pai-Nossos, Ave-marias, Glórias…). Ao número dos irmãos acrescenta-se mais três, Jesus, Maria e José. A quem pede uma Ave-maria, cada romeiro rezará uma e a pessoa rezará outra por cada romeiro, está é uma maneira simples de oração de intercessão.

A caminhada inicia-se pelas quatro da manhã e dura todo o dia. Faz-se uma média de 35/40 kms por dia, porque muitas vezes andamos aos ziguezagues entre igrejas capelas e oratórios.

Terminado o dia, o sino da paróquia onde se dorme dá um sinal para que a população venha receber e dar dormida aos romeiros.

Chegados a casa de quem oferece hospedagem, é feita uma oração, toma-se banho, janta-se e vai-se dormir… porque a canseira é grande. Muitas vezes as pessoas oferecem os seus quartos e vão dormir em sítios menos cómodos. Para compensar o romeiro deixa o terço pessoal já rezado para que a família o ofereça pelas suas intenções.

Diferenças entre as Romarias Quaresmais e caminhar a Fátima a pé:

Na romaria todos se tratam por irmãos. Todos os grupos (paroquiais) caminham no sentido dos porteiros do relógio, ficando o mar à esquerda. Raramente se ultrapassam e quando o têm de fazer abre-se alas e depois da saudação deixam-se passar pelo centro. Caminha-se em duas filas e ocupa-se sempre os mesmos lugares na fila. O mestre tem muito poder e é obedecido por todos. A Romaria Quaresmal não é um passeio, mas um tempo de sacrifício, penitência e oração. Ninguém fala enquanto se reza ou caminha, até que seja dada ordem em contrário. Ninguém fica para trás, só excecionalmente e com conhecimento do mestre. Ninguém abandona o grupo, seja pelo motivo que for e caso o tenha de fazer, só o faz com autorização do mestre, acompanha-o outro irmão. O mestre fala pouco; tem uma pequena campainha no bolso e quando toca todos páram, mas a reza continua até que ele diga “seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo”.

Indumentária: Roupa larga, xaile dobrado ao meio, contendo no meio um plástico para abrigo em caso de chuva, um saco de pano que serve de mochila para roupa, comida, produtos de higiene… (convém que pese pouco), lenço para a cabeça que abriga do frio do sol ou da chuva e um bordão que ajuda nas subidas e descidas.

Comida: A paróquia organiza-se e leva-nos uma refeição por dia. A outra, faz-se na casa onde se pernoita. O café é servido também por grupos que se organizam. Regra geral, o álcool não é permitido.

Orações: chegados a uma aldeia, rezamos em voz alta a Ave-maria e o Pai-Nosso; reza-se pelas intenções e necessidades das pessoas que ali vivem. Chegados à Igreja cantam-se as saudações à Virgem. Dentro da Igreja implora-se a proteção de Deus para os romeiros e para a comunidade cristã. O bispo diocesano dá uma lista de intenções para serem rezadas.

Pessoalmente, gosto de caminhar de madrugada em silêncio, tendo como música de fundo a oração dos irmãos. Vou fazendo revisão de vida e rezando por todos aqueles que me pedem. Pena é que a experiência de oração e fraternidade que experimentamos, fique tantas vezes só por aquela semana.

Pe. José Tavares
Missionário Comboniano

12 de março de 2018

INQUÉRITO «ALÉM-MAR»


Se é leitor da revista missionária Além-Mar, por favor, colabore connosco e dedique dois minutos a responder a este inquérito AQUI.

Obrigado pela sua visita e pelos minutos que dedica a preencher este questionário. Completá-lo vai-nos ajudar a obter os melhores resultados para a edição da revista Além-Mar.

Obrigado!

11 de março de 2018

R.D. do Congo: APELO VIBRANTE



 Eugène MUHINDO Kabung

«Todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!» (Mt 25:40)

Porque é que me persegues, porque é que me matas? Não pertencemos todos à mesma natureza humana? Haverá ainda um pouco de humanidade? É certo que o sofrimento é inerente à humanidade, porque nascer já é entrar no sofrimento (Schopenhauer). No entanto, sem pretender omitir esta afirmação, o nosso olhar para com o outro deve nos desafiar a viver o dom do irmão, irmã. Desta forma, longe de persegui-lo, massacrá-lo, sequestrá-lo, é humano partilhar e promover a cultura da paz.

O que é que realmente está acontecendo no Congo, particularmente em Kinshasa, Lubero e especialmente Beni? Não podemos ficar indiferentes quando as pessoas são mortas, violadas sequestradas. Quem é o pai que se alegra com a morte de seus próprios filhos e seu infortúnio? A não ser que seja um sádico, tornando-se como aqueles animais que comem os seus próprios pequeninos.

A realidade que se está vivendo na República Democrática do Congo é trágica e podemos perguntar-nos que legado estamos a deixar para as gerações futuras, ao semearmos todos os dias a semente da vingança. Com certeza que não é apenas aqui no Congo, mas, em tantas outras partes do mundo que sofre de constantes guerras e estupros, como no Sul do Sudão. É horrível, o que se está a passar na província do Norte do Kivu (RD Congo) e em particular nas cidades Beni e Lubero de onde sou natural: massacre de populações, violações de mulheres e crianças, raptos de crianças para fazer delas crianças-soldados. Desde 2009 até hoje este fenómeno aumenta de dia para dia. Desde então, vive-se autênticas barbaridades, onde muitas famílias foram reduzidas e encontram-se num estado de pobreza e luto. Na minha família por exemplo em menos de um ano perdemos quatro membros, todos eles raptados e deles não há notícias. O mais certo é que foram mortos à machadada ou com machetes ou com outro tipo de armas brancas nas florestas vizinhas como tem acontecido com centenas de pessoas. Pergunto-me para que servem os 17 000 soldados da ONU (MONUSCO). O número de viúvas, de crianças órfãs aumenta de dia para dia, famílias inteiras são exterminadas.

Quero deixar-vos o testemunho de uma criança que encontrei numa família de acolhimento: «Eu chamo-me Ali, nasci e cresci em Eringeti. Os meus pais são agricultores. O meu pai tem um moinho. Numa certa tarde em que o pai tardava em regressar do moinho, uma multidão de homens e mulheres, jovens altos, uns vestidos de preto e outros de branco entram na nossa casa. A minha tia estava na cozinha, a minha mãe no quarto, o meu tio na sala de entrada, eu e meus irmãos junto da nossa tia. Estes homens obrigaram-nos a partir com eles. Quando partimos, um deles colocou-se sobre os meus ombros e perguntou-me como me chamava, eu respondi-lhe que me chamava Ali. Eles tinham catanas, machados, martelos, etc. Quando chegámos junto de uma bananeira, longe do nosso bairro, começaram a massacrar a gente. Então eu chorava… chorava… Sim, chorava. Eles deixaram-me junto de uma mulher toda enxovalhada e suja. Eu pensava que era a minha mãe. Então eu chamava: Mãe, mãe, mãe… Oh mãe, tu dormes muito, mãe eu tenho frio, cobre-me, mas a mãe não respondia. Durante toda a noite eu chorava pela mamã. Então pela manhã cedo um senhor apercebeu-se que eu chorava pela mamã. Este senhor estava com medo e correu de volta para me encontrar e levar-me dado que eu me encontrava no meio das pessoas que tinham sido mortas. As minhas roupas estavam banhadas de sangue. Então, a esposa deste senhor vestiu-me e deu-me de comer. Por fim reconheceu minha identidade.

Quando meu pai chegou (...) um dos meus irmãos chegou a casa, trouxe a mensagem de outros mortos: mãe, tia, tio e irmãos, e aqueles que ele não conhecia. Eram dez horas da manhã. Então meu pai, perturbado, chamou um seu amigo da localidade de Beni. Ele veio ter connosco após os enterros. Eu continuava a chamar e chorar: Mamã, mamã, mamã… A minha morreu desta maneira e o meu pai está doente.»

Podemos imaginar o sofrimento desta criança e o trauma que se seguiu. O testemunho desta criança nos mostra o sofrimento de milhares de crianças que viram morrer as suas mães e mães que viram morrer os seus filhos de forma horrorosa e indiscritível.

Quero deixar um apelo vibrante a toda a humanidade para que o fogo da caridade possa acender-se em cada pessoa a fim de podermos construir um mundo mais humano e fraterno. Quem és tu que matas o teu irmão? Recorda-te que «todos os que lançam mão da espada pela espada morrerão».

A mensagem do Papa Francisco para a Quaresma deste ano interpela-nos a estar atentos aos profetas da mentira, citando a passagem de Mt 24,12: «Porque se multiplicará a iniquidade, vai resfriar o amor de muitos». Cada um interrogue-se o que está fazendo pela paz no mundo. E assim, ouça, veja e aja. Que a misericórdia de Deus converta os inimigos da paz.

Que Cristo seja o nosso modelo. E que Maria e José intercedam por este povo sofredor.

Kisangani, 09/03/2018 
Eugène MUHINDO Kabung, 
Postulante comboniano

1 de março de 2018

LIDERANÇA EXCEPCIONAL


Fundação distingue ex-presidente da Libéria.


A Fundação Mo Ibrahim honrou Ellen Johnson Sirleaf, ex-presidente da Libéria, com o Prémio Ibrahim 2017 para a Excelência na Liderança Africana.

Numa citação de treze parágrafos, a Fundação explica que «confrontada com desafios renovados e sem precedentes, Ellen Johnson Sirleaf demonstrou uma liderança excepcional e transformadora» durante doze anos à frente da república mais antiga da África.

A laureada tem uma história de vida notável: nasceu há 79 anos em Monróvia, a capital liberiana; formou-se em Economia na Libéria e em Harvard, nos Estados Unidos; foi ministra das Finanças; viveu em detenção domiciliária e foi presa; foi exilada no Quénia e nos EUA; dirigiu o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento para a África; trabalhou no Banco Mundial.

Perdeu as presidenciais de 1997 para Charles Taylor e ganhou as de 2005 ao ex-futebolista George Weah, sendo a primeira presidente africana eleita. Conduziu a Libéria dos horrores de catorze anos de guerra civil (que fez 250 mil mortos) para a democracia. Conduziu o processo de reconciliação nacional, alistou a ajuda de grandes organizações humanitárias e atraiu investimento estrangeiro.

Em 2011, partilhou o Prémio Nobel da Paz com outras duas laureadas e conquistou o segundo mandato presidencial. O Comité Nobel quis distinguir a presidente Sirleaf por «salvaguardar a paz, promover o desenvolvimento económico e social e por reforçar a posição das mulheres».

É esta liderança que a Fundação Mo Ibrahim quer reconhecer e celebrar com o prémio que concedeu à ex-presidente liberiana: «Durante doze anos no cargo, Ellen Johnson Sirleaf pôs os alicerces sobre as quais a Libéria pode ser agora construída. No processo, ela restaurou a dignidade dos Liberianos e o orgulho do país.» E continua: «Manteve firmemente as suas prioridades e a sua determinação para ter êxito em nome do povo da Libéria.»

Mais benquista no exterior que no seu país, a «Dama de Ferro» africana enfrentou algumas dificuldades: apoiou numa eleição o senhor da guerra Charles Taylor; foi acusada de corrupção e nepotismo (empregou os filhos em lugares-chave do governo); dias antes de terminar o mandato, o seu partido expulsou-a, porque apoiou George Weah nas presidenciais de 2017 em vez de fazer campanha pelo seu vice-presidente Joseph Boakai. E teve de lidar com a grave epidemia do vírus de ébola que matou quase cinco mil liberianos entre 2014 e 2015 e afectou severamente a economia nacional. Mas, para a Fundação Mo Ibrahim, estes reveses não minoram a liderança de excelência da senhora Sirleaf.

Ellen Sirleaf junta-se à galeria dos líderes laureados pelo Prémio Ibrahim que inclui Hifikepunye Pohamba da Namíbia (2014), Pedro Pires de Cabo Verde (2011), Festus Mogae do Botsuana (2008) e Joaquim Chissano de Moçambique (2007). Nelson Mandela recebeu o prémio a título honorário em 2007. E embolsou cinco milhões de dólares americanos pagos em prestações durante dez anos, mais 200 mil por ano depois de dez anos.

O prémio foi instituído por Mo Ibrahim, magnata anglo-egípcio das telecomunicações, para distinguir e promover a excelência na liderança africana.

20 de fevereiro de 2018

Bispos: ABERTURA SOLIDÁRIA


Os bispos das 21 dioceses de Portugal publicaram as respetivas mensagens para a Quaresma, exceto Viseu, e indicaram a quem se vai destinar o produto das renúncias quaresmais dos diocesanos. A maioria manifestou uma abertura de horizontes que importa assinalar.

Assim:
  • Viana do Castelo reparte as entradas pelas obras na catedral e o financiamento de um hospital no Gana; 
  • Braga destina o produto ao Fundo Partilhar com Esperança e à missão de Ocua, em Pemba (Moçambique); 
  • Lamego contempla as obras no seminário para o adequar à formação pastoral e as vítimas da guerra no Kivu (RD do Congo); 
  • Porto reparte a pecúnia com Fundo Solidário Diocesano e a Guiné-Bissau; 
  • Viseu vai ajudar as vítimas dos fogos do ano passado e uma missão vicentina em Moçambique; 
  • Guarda também auxilia as vítimas dos incêndios e uma obra na Guiné-Bissau; 
  • Aveiro apoia o colégio da diocese e São Tomé e Príncipe; 
  • Leiria-Fátima vai ajudar os cristãos perseguidos no Iraque e no Paquistão; 
  • Portalegre-Castelo Branco tem a RD Congo e o Fundo solidário como destinatários; 
  • Setúbal vai ajudar os cristãos no Iraque e Síria e um projeto na Trafaria; 
  • Évora também destina as renúncias à Síria;
  • Beja distribui o dinherio pela Terra Santa e pela diocese; 
  • Funchal quer ajudar o Fundo Social Diocesano e construir casas para os cristãos no Iraque;
  • Forças Armadas e de Segurança reservam um terço para a capelania e enviam dois terços para Moçambique; 
  • Lisboa vai financiar um programa de educação na República Centro-Africana.

Quanto às restantes dioceses,
  • Santarém quer melhorar o Fundo de Partilha Diocesano, 
  • Angra apoia as vítimas dos incêndios nas dioceses de Portalegre-Castelo Branco e Viseu; 
  • Bragança-Miranda está virada para o seminário e a pastoral;
  • Vila Real empodera a Conferência de São Vicente de Paulo para fazer face à pobreza encapotada e vai criar bolsas de estudo para ajudar seminaristas pobres;
  • Coimbra quer apoiar a Obra Frei Gil 
  • e Faro ajudar um projeto em Aljezur.

Os bispos estão de parabéns: a maioria vai para além das necessidades entre portas e vai fazer chegar o produto da renúncia solidária à África e à Ásia.

9 de fevereiro de 2018

HORA CR17


Ramaphosa conquistou a liderança do ANC. Por fim!

Cyril Ramaphosa, o CR17 da África do Sul, ganhou a liderança do Congresso Nacional Africano – ANC em inglês – para os próximos cinco anos. O combate eleitoral de 18 de Dezembro com Nkosazana Dlamini-Zuma, a ex-mulher do presidente em exercício, foi renhido e dramático. O resultado do escrutínio foi anunciado depois de sucessivos adiamentos. A vitória foi curta: de 179 votos num colégio de quase 5000 eleitores-delegados vindos de todo o país.

Estive na África do Sul no início de Novembro e deu para perceber pelos jornais e pelos colegas missionários que a eleição da liderança do ANC prometia luta até ao fim, sem um vencedor claro.

Explicaram-me que a vitória de Dlamini-Zuma seria um seguro de vida para o presidente ex-marido a contas com inúmeros processos por corrupção. Se Ramaphosa ganhasse, Jacob Zuma seria o grande perdedor, pois ficava à mercê de novas investigações judiciais. O presidente já sobreviveu a oito moções parlamentares de censura.

Ramaphosa tem um percurso interessante: nasceu no bairro negro de Soweto, nos arredores de Joanesburgo, há 65 anos. Iniciou o activismo político ainda jovem e na recta final do regime branco do apartheid. Foi co-fundador da União Nacional dos Mineiros, um dos maiores e mais poderosos sindicatos do país. Negociador hábil, era o braço-direito de Nelson Mandela nas conversações com o Partido Nacional que pôs termo ao regime de discriminação racial e abriu a África do Sul à democracia.

Tido como sucessor de Mandela, foi preterido em favor de Thabo Mbeki, a escolha do ANC para vice-presidente em 1994 e candidato do partido para as presidenciais de 1999, que ganhou.

Ramaphosa, desiludido, abandonou a política e dedicou-se aos negócios. É apresentado como um empresário de sucesso e um dos sul-africanos mais ricos, embora não conste entre os 22 bilionários africanos da lista da Forbes, que inclui cinco sul-africanos.

Um tribunal absolveu-o de cumplicidade na matança pela polícia de 34 mineiros em Marikana durante uma greve violenta em 2012. Ramaphosa fazia parte da administração da empresa inglesa que explora as minas de platina e enviou um e-mail à polícia para pôr termo à greve.

Em 2012, voltou à política activa e dois anos depois foi eleito vice-presidente. Apesar de integrar a administração do presidente Zuma, é tido como um reformador capaz de guiar o partido e o país para lá dos escândalos de corrupção e relançar a economia do país.

Com a vitória mínima de Ramaphosa, a África do Sul pode começar a recuperar alguma autoridade moral que caracterizou o nascimento da Nação Arco-Íris sob a liderança exemplar de Mandela, mas perdida sucessivamente devido à corrupção e avareza de muitos dos dirigentes do ANC. O país disputa a primazia económica africana com a Nigéria, mas os índices de desemprego (na ordem dos 26 por cento), pobreza e desigualdade social são dos mais altos do mundo.

Ramaphosa será o candidato do ANC às presidenciais de 2019, mas o partido que encabeçou o processo de democratização do país está em queda: nas eleições municipais de Agosto de 2017 perdeu câmaras de cidades importantes para a oposição, incluindo Joanesburgo e Pretória. Além de recuperar a confiança do eleitorado, vai ter de unir o ANC, profundamente clivado pela eleição de Dezembro passado.

7 de fevereiro de 2018

Sudão do Sul: ORAÇÃO E JEJUM


Líderes religiosos propõem que as negociações de paz entre as diversas fações beligerantes no Sudão do Sul sejam acompanhas por orações e jejum.

A Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento (IGAD) está a facilitar uma nova ronda de negociações entre as partes em conflito no Sudão do Sul para reabilitar os acordos de 2015 e salvar a paz que teima em ganhar raízes no países mais jovem do mundo..

A guerra civil já leva quatro anos e, apesar de alguns acordos assinados pelas partes, o conflito continua a matar e a destruir o país.

Recentemente, António Guterres, secretário-geral da ONU, lamentou que nunca viu «uma elite política com tão pouco interesse no bem-estar do seu povo» como a do Sudão do Sul.

O Conselho das Igrejas do Sudão do Sul proclamou um dia de oração e jejum para o sábado, 10 de fevereiro sob o tema «O meu povo, sobre o qual foi invocado o meu nome, se humilhar e procurar a minha face para orar e renunciar à sua má conduta, hei de escutá-lo desde o céu, perdoarei os seus pecados e curarei dos males o seu país» (2 Crónicas 7, 14).

Por seu turno, o Papa Francisco convidou as pessoas de boa vontade a juntarem-se a ele num dia de oração e jejum pela paz especialmente no Sudão do Sul e na República Democrática do Congo a 23 de fevereiro.

A guerra fez mais de dois milhões de refugidos e outros tantos deslocados internos no país. O número de mortos é incerto, mas mais de 100 mil pessoas perderam a vida no conflito.

Filippo Grandi, Alto Comissários das Nações Unidas para os Refugiados, disse recentemente que o conflito do Sudão do Sul atingiu «proporções épicas».

Os líderes religiosos do país apelaram às partes sentadas à mesa das negociações em Adis-Abeba que «respeitem, honrem e cumpram o acordo» que assinarem há ano e meio.

«Que o orgulho, avareza, luta pelo poder político não sejam maiores que a necessidade de paz e reconciliação no Sudão do Sul», escreveram.

E deixaram uma mensagem para os países vizinhos: «Que nenhum interesse regional ou bilateral seja servido à custa do povo do Sudão do Sul.»

5 de janeiro de 2018

CONTINENTE DE ACOLHIMENTO


A grande maioria dos refugiados da África são acolhidos na África.

O Papa Francisco dedica o Dia Mundial da Paz – que se celebra a 1 de Janeiro – aos «Migrantes e refugiados: homens e mulheres em busca de paz» e propõe que «com espírito de misericórdia, abraçamos todos aqueles que fogem da guerra e da fome ou se vêem constrangidos a deixar a própria terra por causa de discriminações, perseguições, pobreza e degradação ambiental.»

Estamos habituados a ver a África como continente origem de emigrantes e refugiados, mas alguns dos seus países são espaços de acolhimento com práticas exemplares.

Há cerca de 250 milhões de migrantes e 22,5 milhões de refugiados espalhados por todo o mundo; metade tem menos de 18 anos. São gente que procura vida melhor e enfrenta riscos tremendos para a tentar. No ano passado, mais de 3000 morreram afogados no mar Mediterrâneo. Recentemente descobriu-se que algumas centenas foram vendidos como escravos em leilões na Líbia, o porto principal de embarque para a Europa, por menos de 400 euros para trabalhos forçados e prostituição.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugidos diz que a África Subsariana acolhe mais de seis milhões de refugiados, um quarto do mundo inteiro. A maioria escapou do Sudão do Sul, República Centro-Africana, Nigéria, Burundi e Iémen.

O Uganda e a Etiópia são os dois países que mais refugiados têm na África. O Uganda recebeu mais de um milhão de sul-sudaneses que fogem da guerra civil desde Dezembro de 2013, mais 215 mil refugiados da República Democrática do Congo, 50 mil do Burundi, 44 mil da Somália, 20 mil do Ruanda, 13 mil da Eritreia e 11 mil do Sudão. A Etiópia acolheu mais de 847 mil cidadãos do Sudão do Sul, Somália, Eritreia e Sudão.

Os Camarões, Chade e Níger dão guarida a cerca de 200 mil nigerianos que fugiram da violência do Boko Haram.

O Uganda e a Etiópia são apresentados como referência pelas políticas abertas de acolhimento aos refugiados. As autoridades ugandesas distribuem pequenas parcelas de terra aos refugidos para habitação e cultivo, embora a competição pelo domínio dos recursos naturais escassos gere alguma tensão com as populações locais.

António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, disse na última Cimeira de Solidariedade com os Refugiados que o Uganda é «o símbolo da integridade do regime de protecção aos refugiados» e propôs as suas políticas de portas abertas como exemplo a seguir no acolhimento dos refugiados.

Há países africanos onde há deslocamentos forçosos, mas que também recebem refugiados. Por exemplo, o Sudão do Sul acolhe pessoas do Sudão (mais de 276 mil), da República Democrática do Congo (14 900), da Etiópia (4500) e da República Centro-Africana (1800).

O papa deixa um recado importante na sua mensagem: «Quem fomenta o medo contra os migrantes, talvez com fins políticos, em vez de construir a paz, semeia violência, discriminação racial e xenofobia, que são fonte de grande preocupação para quantos têm a peito a tutela de todos os seres humanos.» Um alerta que serve para a África e serve para a Europa!

3 de janeiro de 2018

Viseu: DIA DE ALEGRIA




«Celebrai dias de alegria e cantai a Sua glória», diz o Livro de Tobias (13, 8).

É neste registo que a comunidade comboniana de Viseu, hoje, celebra o dom da vida do Ir. António Martins da Costa, que completa 90 anos, e do P. Inácio Babo de Macedo, que faz 68 anos.

O Ir. António Martins além de ser o comboniano português mais idoso é também o comboniano mais antigo: fez os primeiros votos a 9 de setembro de 1954 e os perpétuos seis anos depois.

O Ir. António das Barbas – como é carinhosamente chamado – nasceu em Cepões a 1 de janeiro de 1928, mas foi registado a 3.

A sua vida reparte-se por Moçambique (1962-1969 e 1970-1976), Brasil-Nordeste (1984-1993 e 1997-2009) e Portugal (1954-1962, 1969-1970, 1976-1984, 1993-1997). Regressou em 2010 e vive em Viseu, no Centro de A colhimento da Província.

Apesar de ser o decano da província todos os dias vai trabalhar para a quinta de que é encarregado. A comunidade agradece os vegetais e fruta frescos!

Durante a missa de ação de graças presidida pelo provincial, o Ir. António disse que não pensava chegar a tal idade já que os pais morreram cedo e ele teve alguns problemas de saúde no Brasil.

«Agradeço ao Senhor, porque é Ele que nos leva longe», disse num momento de partilha.

O P. Inácio é de Vila Cova da Lixa. Foi ordenado em 31 de setembro de 1977. Trabalhou na RD do Congo (1977-1983 e 1987-1993), Paris (formador de 1983 a 1987), Moçambique (1999-2008) e Portugal (1993-1999). Regressou em 2008. Vive em Viseu depois de um AVC o ter deixado limitado em julho do ano passado.

«Rezar é o que posso fazer. E não sei rezar», disse durante a eucaristia.

O P. Feliz Martins, missionário no Darfur (Sudão), escreveu uma mensagem para os dois aniversariantes:

Parabéns a você nesta data querida...
Contigo celebro a vida. É bom estares vivo!
Não te espantem os calafrios da velhice!
Porque os anos acumulados ajudam no segredo da maturidade e sapiência.
E quando se lhe ajunta o ingrediente do Amor 
Então vive-se a juventude sem cessar
Onde o provisório dá lugar ao infinito.
A mensagem está aí, jovem como a eternidade, 
Buscando um coração afinado onde pousar o convite: 
Deixa-te amar pelo Amor 
Semeia amor ao jeito do Amor 
E terás parte na Sua juventude!
Não serás jamais anfitrião da caducidade
E a velhice não será hóspede em tua casa.
Serás jovem no mundo. 
Serás Jovem em Deus Amor.
Serás Jovem com Deus eternamente Jovem.

Um abraço de parabéns aos aniversariantes!

20 de dezembro de 2017

PARA BELÉM COM O GPS

Caros amigos

Eis-nos quase lá! Em poucos dias chegaremos a Belém! A menos que percamos o nosso caminho, o que é fácil com tantas barreiras e muros para superar! Além disso, este ano a árvore de Natal na praça central de Belém foi desligada em protesto contra Trump (os herodes também não faltam hoje)! Mas não te preocupes, guia-nos a luz do coração, esperando que continue acesa, porque, de outra forma, será um grande problema!

Em qualquer caso, não vamos perder o ânimo: há sempre a Estrela, olhemos para o céu! É o nosso «navegador satélite» que o próprio Deus nos fornece para que ninguém perca o grande encontro com o Seu Filho. Ele sabe como é fácil perder a cabeça na sociedade de hoje.

De acordo com um rabino contemporâneo, nós costumamos comportar-nos como certas formigas que, tendo perdido o caminho, começam a seguir a formiga à sua frente! Mas mesmo que ela se perca, acabam às voltas num grande círculo, acreditando que estão no caminho certo. Então, amigos, se perdermos o caminho, não façamos como essas formigas, mas levantemos os olhos para a Estrela!

Se acontecer vermos escuro o céu, não pensamos que o GPS nos tenha traído. É mais provável termos ignorado o GPS, como costuma acontecer, porque – digamo-lo com franqueza – ninguém gosta de ser guiado. Então, o GPS, depois de assinalar repetidamente o erro, pára por um tempo para redesenhar uma rota alternativa. Da mesma forma, Deus é paciente connosco. Então, façamos como os Magos: examinemos as Escrituras e discirnamos os sinais da presença de Deus em nossa história, e logo a Estrela reaparecerá para iluminar as nossas trevas.

Desculpem se dou a impressão de estar a «pregar»! Pensando nisso, apenas há dois meses atrás, a doença (SLA) tentou tirar-me a palavra para sempre. Depois de mais uma crise respiratória, fui hospitalizado com urgência por quatro longas semanas e fizeram-me uma traqueotomia. Uma experiência dolorosa que não esquecerei facilmente! Agora respiro ligado a uma máquina e mal consigo fazer-me entender. Tenho pena de não poder responder às vossas chamadas, mas só posso ouvi-las.

Em qualquer caso, eu recuperei a minha «assinatura» do «ESTOU BEM!» e encontro-me sereno, um presente que Deus me concedeu graças a vocês. É verdade que estou cada vez mais limitado no meu corpo, agora praticamente paralisado, mas não me falta o sorriso e o bom humor, louvando a Deus todos os dias pelo dom da vida. Como já não posso usar os dedos para escrever ou a voz para ditar, tive que aprender a usar o ponteiro ocular, ou seja, eu estou a escrever-vos com os olhos! Maravilhas da tecnologia!

Ah, esquecia-me de dizer que, por necessidade, aprendi a imitar o corvo! Para chamar a atenção de alguém emito uma espécie de Crac! Crac!

Então, saúdo-vos calorosamente também com um CRAC, CRAC de bom agoiro para o Natal que se aproxima e para o Ano Novo de 2018. Que Deus abençoe cada um de vocês!

Aperto-vos ao meu coração
P. Manuel João Pereira Correia
Missionário Combonianoa

19 de dezembro de 2017

ESPANHA: COMBONIANOS ACOLHEM JOVENS AFRICANOS




A comunidade comboniana de Granada ofereceu abrigo a 19 jovens imigrantes subsarianos que deram à costa no Sul de Espanha.

O P. Rafael Pérez disse que a comunidade decidiu acolher desde 16 de dezembro alguns jovens que dormiam ao relento nas ruas geladas da cidade de Granada.

Os imigrantes vêm sobretudo da Guiné-Conacri e dos Camarões.

«Chegaram às praias de Almería e a polícia depois de os meter num autocarro, enviou-os para Granada onde foram abandonados à sua sorte na estação rodoviária», disse o missionário.

Um jovem sofre de malária e foi internado. Três têm queimaduras.

Ao grupo dos 36 imigrantes de Almería, juntou-se outro de 45 que desembarcaram em Motril, a sul de Granada.

Também foram transportados de autocarro para a cidade andaluz e abandonados nas ruas junto à estação rodoviária.

«Vista a situação, decidimos dar tecto a 19 imigrantes num espaço da nossa comunidade: dar-lhes de comer, que estejam resguardados do frio intenso, dar-lhes roupa, assistência de saúde», explicou o P. Pérez.

Os missionários da comunidade de Granada estão em contacto com a Cáritas e com outras ONGs para tratar de algumas questões jurídicas referentes aos imigrantes.

O P. Pérez explicou que não podem ser expulsos logo à chegada, mas a polícia pode detê-los dentro de 60 dias de permanência em território espanhol.

Os jovens foram registados à chegada pela polícia que lhes entregou um «acordo de devolução.»

Os combonianos de Espanha vão abrir uma comunidade entre os imigrantes africanos que trabalham nas estufas de Almería juntamente com as Irmãs e os Leigos Missionários Combonianos.

Em Granada, a comunidade dá assistência a uma paróquia para imigrantes.

11 de dezembro de 2017

CINFÃES MARIANO


Igreja de São João Batista de Cinfães

Estamos a terminar o ano como o começámos: com uma festa singela e sincera em honra da Mãe do Céu. A dois de fevereiro celebrámos a fevereirinha, a festa em honra da Senhora da Piedade no lugar ribeirinho de Avitoure. Hoje, neste sítio altaneiro de Joazim, celebramos a Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria. Fechamos o círculo das festas populares e preparamo-nos para celebrar o Natal em pouco mais de duas semanas.

Fazemo-lo assim, porque somos herdeiros de uma fé mariana. Os nossos antepassados tinham uma grande devoção pela Nossa Senhora: dedicaram a capelinha de Lagarelhos à Senhora dos Remédios, a das Pias à Senhora do Sagrado Coração, a de Avitoure à Senhora da Piedade, esta de Joazim à Senhora da Conceição!

Antigamente, a festa maior de Cinfães era a da Senhora das Graças, no início de agosto! E a Igreja matriz, ao lado da Senhora das Graças, tem outro altar dedicado à Senhora do Rosário. Duas imagens muito belas!

Depois, do lado direito do Santo António há uma imagem pequena que pela expressão corporal parece representar a Senhora da Apresentação. Ao lado do Coração de Jesus está a Senhora da Conceição. A imagem da Senhora do Rosário de Fátima está presente na igreja e em muitas das capelas e nichos na nossa paróquia.

Aprendemos dos nossos pais a viver a devoção mariana marcada pela recitação do terço em família, e da oração ao toque das ave-marias. Antigamente, nos dias de feira fazia-se um silêncio profundo quando o sino chamava a rezar ao meio dia: os homens tiravam o chapéu e as conversas e negócios davam vez ao silêncio e à oração mariana.

Dirigimo-nos a Maria nos momentos de aperto, porque – como o Papa Francisco nos recordou três vezes durante a memorável homilia da missa centenária a 13 de maio – TEMOS MÃE!

Sim, Maria é a nossa mãe, dada por Jesus do alto da cruz. A mãe que nos remete a Jesus.

Santo Francisco Marto disse há 100 anos: «Do que mais gostei foi de ver a Nosso Senhor, naquela luz que a Nossa Senhora nos meteu no peito. Gosto tanto de Deus.»

Maria ensina-nos a sermos filhos, a sermos cristãos, ela que é a grande mestra dos discípulos missionários de Jesus da Anunciação ao Pentecostes.

Na anunciação em Nazaré (Lucas 1, 29-38) faz perguntas, expõe dúvidas, medos, perplexidades. Depois de encontrar respostas para os seus porquês torna-se disponibilidade total e acolhe o projecto de Deus a seu respeito, a sua vocação, sem condições nem reticências. Maria disse ao anjo Gabriel: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua Palavra.»

Quando o anjo se retirou, a menina de Nazaré não ficou a curtir a solidão nem o momento: partiu apressada, pelo caminho perigoso dos montes, para ajudar Isabel, idosa, grávida de seis meses (Lucas 1, 29-36). A prima chama-a de feliz porque acreditou «porque se vai cumprir tudo o que foi dito da parte do Senhor.»

Durante a infância de Jesus, houve momentos em que Maria-mãe não entendeu o que se passava à sua volta, mas «guardava todas as coisas, ponderando-as no seu coração» (Lucas 2, 19.51), ou melhor: compunha todas as coisas no seu coração como traduz o nosso bispo, Dom António Couto. Maria é a mãe contemplativa que descobre o sentido de Deus nas pequenas coisas da vida corrente. Ou, como proclama o hino da oração da manhã da solenidade da Imaculada Conceição, «Ofereceste a Deus aquele silêncio, / onde habita a Palavra.»

No início da vida pública de Jesus, nas bodas de Caná (João 2, 1-11), apressou a manifestação do Filho com uma afirmação atenta e preocupada: «Não têm vinho!». E disse aos empregados – como diz a cada um de nós, hoje: «Fazei o que ele vos disser.» Eles encheram as seis talhas de água como Jesus mandou e este transformou-a em vinho, o vinho melhor.

Maria foi sempre uma presença discreta, solidária e constante na vida de Jesus desde a Galileia até ao Calvário onde se manteve firme aos pés da Cruz a velar o seu Jesus com um grupo de mulheres fiéis e o discípulo amado.

Seguindo o Filho, descobriu que a relação com Ele não dependia dos laços de sangue, mas da escuta e do fazer da Palavra de Deus (Lucas 8, 19-21).

Junto à cruz, viu a sua família alargar-se: Jesus deu-lhe o discípulo amado como filho – e deu-lhe cada um de nós como seus filhos amados – e chamou-a mãe do discípulo amado, que – conta o evangelista João – a levou para sua casa (João 19, 26-27).

Finalmente, Maria era parte da comunidade orante dos discípulos fechados no salão de cima, o salão da primeira eucaristia, à espera do Consolador, o Espírito de Jesus ressuscitado (Actos 1, 14). Uma mulher de comunidade, uma mulher de Igreja!

São João introduz o lava-pés com esta frase: «Jesus, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo» (João 13, 1).

Este amor extremado, total levou Jesus a dar-nos a sua mãe.

Para nós, a mãe é única e intransmissível. Para Jesus, Maria é mãe de todos: «Então, Jesus, ao ver ali ao pé a sua mãe e o discípulo que Ele amava, disse à mãe: «Mulher, eis o teu filho!» Depois, disse ao discípulo: «Eis a tua mãe!» E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-a como sua» (João 19, 26-27).

Hoje, ao celebrarmos a solenidade da Imaculada Conceição de Maria somos convidados acolher a mãe de Jesus como nossa mãe, a levá-la para nossa casa como o discípulo amado a levou, a aprender dela o compromisso cristão nos pequenos gestos diários, a redescobrir a Palavra de Deus como o alimento que nos faz viver, a rezar-lhe uma ave-maria todos os dias! Para ela interceder por nós, para ser luz no caminho até Jesus.

A nossa fé mariana não deve ficar-se pelas súplicas interesseiras quando andamos com o coração apertado pelas dificuldades da vida. Nossa Senhora não é «uma “Santinha” a quem se recorre para obter favores a baixo preço», recordou o Papa Francisco a 12 de maio na Cova da Iria. Não é a Senhora dos milagres baratos, low cost!

Maria fez da Palavra de Deus a melodia de fundo da sua vida, o seu fio condutor, e ensina-nos a regressar a essa Palavra de vida.

Na homilia do dia 13 de Maia o Papa Francisco disse: «Queridos peregrinos, temos Mãe, temos Mãe! Agarrados a ela como filhos, vivamos da esperança que assenta em Jesus.»

Uma mãe carinhosa, que cuida de nós, que nos devolve ao sonho de Deus de sermos todos seus filhos muito amados, o seu enlevo, e irmãs e irmãos uns dos outros.

O Papa terminou a carta encíclica Laudato Si sobre o cuidado da casa comum com um parágrafo dedicado à «Rainha de toda a criação».

«Maria, a mãe que cuidou de Jesus, agora cuida com carinho e preocupação materna deste mundo ferido. Assim como chorou com o coração trespassado a morte de Jesus, assim também agora Se compadece do sofrimento dos pobres crucificados e das criaturas deste mundo exterminadas pelo poder humano» – escreveu o Papa no n.º 241.

É este cuidado carinhoso e compadecido que queremos aprender dela! É assim que a honramos como nossa mãe.

Celebramos esta festa na catedral que Deus construiu, a criação que sofre com os fogos, a falta de chuva, a poluição, o abuso dos seus recursos. A Mãe do Céu ajuda-nos a ouvir o clamor da mãe-terra!

«Podemos pedir-Lhe que nos ajude a contemplar este mundo com um olhar mais sapiente», escreve o Papa no mesmo número.

Sim, precisamos da sua ajuda para podermos viver melhor e melhorar a vida dos mais pobres que são quem mais sofre com as mudanças climáticas e com a crise ecológica que vivemos.

Nossa Senhora da Imaculada Conceição intercede por nós, teus filhos muito amados, que te louvam e bendizem. Amém!

6 de dezembro de 2017

MENSAGEM DE UM HOMEM DE DEUS

Caríssimos,

Passou-se cerca de um ano, desde o Natal de 2016, quando recebi o relatório médico de ter estado atacado por um cancro no pâncreas, com metástase no fígado. Então qualifiquei-o como um dom especial, porque na minha ingenuidade e talvez na minha excessiva presunção e orgulho acreditei que me fosse fácil aceitar este caminho ao lado de Jesus e dos meus irmãos que sofrem. Em vez disso, dei-me conta de que foram os meus irmãos e as minhas irmãs mais débeis que me deram a coragem para continuar a subida até ao Cume, juntamente com Jesus e na sua companhia.

Este foi um ano em que contemplei flores jamais por mim vistas, cujo perfume me circunda e penetra no mais fundo das minhas células cancerígenas transportando alento, vida e desejo de continuar a lutar.

A primeira flor foi o encontro, depois da minha primeira sessão de quimioterapia, com uma senhora com os seus trinta anos. Estava sentada ao meu lado e no fim da sessão e de improviso começou a chorar. Antes que eu pudesse dizer uma palavra, declarou, enxugando as lágrimas: «Não choro por mim, mas pela minha menina de doze meses». E, lançando-se sobre mim, abraçou-me. Foi um abraço que jamais esquecerei.

A segunda flor foi um rapaz de dezoito anos, Gabriel, que estava a acabar o ensino secundário, um rapaz enamorado pelo alpinismo e escaladas em altas montanhas. Partilhei com ele o mesmo quarto em oncologia e partilhamos as nossas experiências de vida que nos enriqueceu mutuamente. Ele tinha uns nódulos tumorais nos pulmões que, depois de poucos meses, o levaram rapidamente a escalar a última montanha, o Paraíso. Um bom número de jovens ficou sensibilizado com o seu testemunho silencioso e a sua constante preocupação em ajudar aqueles que sofriam mais do que ele. A fragrância e a frescura da sua presença foi um dom incomparável que guardo no coração.

A terceira oferta foi um ramo de flores dos mais variados perfumes e cores que me fizeram saborear a grandeza e a beleza da vocação missionária que se manifestou na presença de uma trintena de confrades combonianos que vieram aqui a Brescia para vários exames médicos. Todos manifestavam um desejo imenso de continuar a lutar para retomar forças de modo a poderem regressar o mais depressa possível à missão. As experiências missionárias, alegres e ao mesmo tempo dolorosas, com toda uma série de insucessos e desilusões, ajudam-me a viver a minha vocação missionária na minha condição de missionário frágil.

A mais pequena flor, mas não menos esplêndida, é o meu irmãozito Padre Renato, que no dia 17 de Outubro de 2017 me entregou estas palavras (que tinha escrito em 2009), palavras quase proféticas: «Obrigado Alberto por tudo… Os sofrimentos preparam-nos para um Paraíso Eterno. Os nossos pais e o Senhor esperam por nós. Acompanho-te com afeto. Tudo posso na minha fraqueza, com a Sua ajuda.»

Os médicos disseram-me que o encontro final com o PAI deverá ocorrer antes do Natal de 2018. Tenho uma grande vontade em dar este salto nos SEUS braços.

AGORA ELE sustém o meu andamento um pouco instável, procurando colocar as minhas mãos nas dos meu irmão e da minha irmã que sofre mais do que eu. Por vezes, e é a maioria das vezes, não pode fazer mais do que abraçar-me e enxugar-me as inevitáveis lágrimas. Caloroso abraço. Bom Natal
Alberto Modonesi

5 de dezembro de 2017

NATAL JUBANO


Juba celebra um Natal vibrante e colorido.

Passei o meu primeiro Natal em Juba, no Sul do Sudão, em 2006. Os dias que o antecederam foram de grande azáfama e preocupação: queríamos ter tudo a postos para que a primeira emissão experimental da Rádio Bakhita acontecesse na noite de Natal.

Dois técnicos italianos davam os últimos toques nos estúdios, nas antenas e no transmissor, enquanto a equipa missionária – duas irmãs e um irmão combonianos, e eu – aprendíamos os segredos da rádio.

Veio a meia-noite e desligámos a emissão automática dos estúdios para ir para o ar a transmissão da missa do galo da Catedral de Santa Teresa, presidida por Dom Paolino Lukudu Loro, arcebispo comboniano de Juba e primaz do Sudão do Sul.

A transmissão inaugural foi um êxito: a celebração do Natal da catedral entrou nos lares de Juba através da Bakhita Radio 91 FM, a voz da Igreja – como proclamava o indicativo da estação.

Depois da transmissão tivemos de arrumar cabos, microfones e misturador. Quando chegámos, na rua tínhamos uma surpresa à nossa espera: uma multidão imensa celebrava o nascimento de Jesus ao jeito de um grande Carnaval.

Jovens, mulheres e homens, tudo vestido a preceito, corriam pelas ruas sem iluminação pública numa alegria efusiva. Rapazes queriam impressionar a fazer habilidades com as suas motas. Automóveis manifestaram-se com uma explosão de sons numa coreografia desordenada e imparável. As ruas junto às igrejas fervilhavam de gente e de actividade.

A razão para tanta algazarra natalícia era a liberdade: durante a guerra civil, que terminou em Janeiro de 2005, a população de Juba viveu sob o recolher obrigatório das seis da noite às seis da manhã. Quem fosse apanhado nas ruas durante esse período era preso ou na pior das hipóteses apanhava um tiro de um soldado ou de um polícia. A segurança nesses tempos era férrea.

Contudo, na noite de Natal, o Governo muçulmano (fundamentalista) de Cartum levantava o recolher obrigatório para os cristãos poderem celebrar o nascimento de Jesus com a missa do galo à meia-noite.

Depois da celebração, bem cantada, dançada e vivida, os templos despediam as grandes assembleias para a rua para celebrar a alegria do nascimento do Menino, a única noite em que podiam quebrar o recolher obrigatório sem correrem risco de vida.

Contudo, os últimos quatro Natais foram muito diferentes: os libertadores tornaram-se opressores e a 15 de Dezembro de 2013 o país voltou a descer aos infernos da guerra civil com contornos étnicos da luta fratricida pelo poder. Forças do Governo e da oposição usam a ajuda alimentar, a violência sexual e a limpeza étnica como armas para punir aqueles que percebem como inimigos à hegemonia política que dá acesso ao controlo das riquezas nacionais – sobretudo o petróleo – e à percentagem «cobrada» ao investimento estrangeiro.

Não sei se este ano os cristãos voltam a trazer a alegria do Natal para as ruas de Juba e para os caminhos do país. Mas Jesus, o Deus-connosco, continua a oferecer a sua paz a todos os que queiram fazer o caminho da reconciliação e da conversão.

«Glória a Deus nas alturas e paz na terra, sobretudo no Sudão do Sul martirizado!» – vão cantar os anjos na noite santa.

23 de novembro de 2017

CRER NOS JOVENS


Vivemos tempos de seca vocacional extrema. A não renovação de gerações na vida consagrada preocupa-nos. Há uma escapatória, uma rota de fuga para a frente: condenar esta geração que não quer saber de Deus; que não acolhe propostas vocacionais empenhativas; que não… não… não…

Neste cenário vocacional desafiante, desanimador e desolador somos chamados «a ver o ramo da amendoeira» (Jeremias 1, 11). E a pedir ao Senhor da vinha que envie operários para a sua vinha. Essa é a primeira tarefa do discípulo missionário (Lucas 10, 2).

Há muitas amendoeiras a florir no inverno vocacional que atravessamos, há muitos operários à espera de um convite para irem trabalhar para a vinha do Senhor.

Em fevereiro de 2017 havia 745 candidatos ao presbitério diocesano nos pré-seminários, seminários menores, propedêutico, seminários maiores e no ano pastoral. Os dados são da Comissão Episcopal Vocações e Ministérios.

O inquérito de opinião aos jovens que a CIRP comissionou por ocasião do Ano da Vida Consagrada revelou uma conclusão interessante: os jovens de hoje têm lugar para Deus nas suas mentes e corações e estão disponíveis para acolher histórias de vida. Talvez não haja é tanta paciência para discursos «secantes»…

Os jovens de hoje são tão generosos como nós, mas expressam a sua dedicação de uma maneira diferente, têm a sua maneira de viver a generosidade.

Segundo a FEC, 389 jovens e adultos estão empenhados em projetos de voluntariado missionário de curto, médio e longo prazo no estrangeiro e 1014 desenvolvem atividades de voluntariado/missão em Portugal.

Muitos jovens empenharam-se na ajuda às vítimas dos incêndios desde o lançamento de iniciativas através das redes sociais até à recolha e distribuição de ajudas.

Por outro lado, todos os anos um batalhão de gente nova põe-se ao dispor do Banco Alimentar para recolher donativos nas superfícies comerciais.

Mais de 2000 universitários passaram o carnaval na «Missão país», um projeto católico de universitários para levar Jesus às universidades e evangelizar Portugal através do testemunho da fé, do serviço e da caridade. Em 14 anos, esses universitários já desenvolveram 154 missões de evangelização em 75 localidades diferentes em três anos seguidos.

O papa Francisco escreveu no n.º 8 da sua mensagem para o Dia Mundial das Missões de 2017: «Os jovens são a esperança da missão. A pessoa de Jesus e a Boa Nova proclamada por Ele continuam a fascinar muitos jovens. Estes buscam percursos onde possam concretizar a coragem e os ímpetos do coração ao serviço da humanidade. “São muitos os jovens que se solidarizam contra os males do mundo, aderindo a várias formas de militância e voluntariado. (...) Como é bom que os jovens sejam ‘caminheiros da fé’, felizes por levarem Jesus Cristo a cada esquina, a cada praça, a cada canto da terra!” (Ibid., 106)»

E continua: «A próxima Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que terá lugar em 2018 sobre o tema «Os jovens, a fé e o discernimento vocacional», revela-se uma ocasião providencial para envolver os jovens na responsabilidade missionária comum, que precisa da sua rica imaginação e criatividade.»

O Papa acredita nos jovens! Na carta que lhes escreveu ao anunciar o Sínodo de 2018 sublinhou: «Um mundo melhor constrói-se também graças a vós, ao vosso desejo de mudança e à vossa generosidade. Não tenhais medo de ouvir o Espírito que vos sugere escolhas audazes, não hesiteis quando a consciência vos pedir que arrisqueis para seguir o Mestre. »

E tem uma palavra para nós: «Também a Igreja deseja colocar-se à escuta da vossa voz, da vossa sensibilidade, da vossa fé; até das vossas dúvidas e das vossas críticas. Fazei ouvir o vosso grito, deixai-o ressoar nas comunidades e fazei-o chegar aos pastores.»

Gostava de sublinhar dois pontos sobre esta atitude de escuta: para comunicar com os jovens necessitamos de um discurso que eles entendam. Muitas vezes falamos uma linguagem demasiado hermética, para iniciados, que pede tradução simultânea. E temos que saber escutar e responder às suas questões existenciais.

Para comunicar temos que dizer presente no areópago da aldeia global: o espaço digital. Há alguma dificuldade em entender a utilidade da presença dos consagradas e dos consagrados nas redes sociais. Mas é lá que os jovens moram, falam, escutam, namoram, compram, vendem… É lá que eles vivem quase 24 horas por dia!

As redes sociais – o Facebook, o Twitter, o Instagram, o YouTube, os blogues, as comunidades digitais – são os espaços onde temos que testemunhar a alegria de sermos seguidores de Jesus em comunidades castas, pobres e obedientes de discípulos missionários que vivem a alegria do Evangelho.

10 de novembro de 2017

TERRAS DA DISCÓRDIA


O negócio da terra afecta comunidades africanas que se vêem privadas de recursos vitais.
Os bispos de Moçambique publicaram em Abril uma carta pastoral muito robusta e corajosa intitulada À tua descendência darei esta terra. Nela denunciam que «a terra em Moçambique está em agonia profunda!». E mais enfaticamente a dado passo: «Chega até nós, cada dia, a preocupação e o desencanto de tantas comunidades cristãs e não cristãs que enfrentam conflitos de terra pondo em perigo a própria segurança alimentar e a estabilidade familiar e social.»

É uma tensão transversal a muitas comunidades africanas. Governos estrangeiros e investidores arrendam ou compram vastas extensões com a cumplicidade das autoridades que lucram com os enormes negócios da indústria agro-alimentar. Desde 2006 mais de 30 milhões de hectares – mais de três vezes a área de Portugal – de solo africano foram arrendados ou vendidos em Madagáscar, Moçambique, Etiópia, República Democrática do Congo, Sudão, Camarões, Gana, Mali, Somália, Tanzânia e Zâmbia. Entre os alugadores destacam-se a China, os países árabes, a Índia e a Coreia do Sul.

Governos estrangeiros e investidores privados usam a África para produzir cereais, frutas, legumes e gado para exportação e culturas para fazer biocombustíveis à custa das comunidades locais que ou são deslocadas violentamente pelas autoridades (como aconteceu no Sul da Etiópia) ou trocam os seus terrenos por promessas vagas.

Em Moçambique, o ProSavana, um megaprojecto para 11 milhões de hectares nas províncias de Nampula, Niassa e Zambézia com dinheiros brasileiros e da cooperação japonesa, está a provocar uma grande oposição local: os residentes temem perder as suas terras. Também se fala de um projecto de plantio extenso de eucaliptos por uma indústria de celulose estrangeira.

Esta nova onda colonizadora da África afecta os pequenos agricultores e as comunidades locais: porque vêem os meios de subsistência a minguar e porque sofrem as consequências de um investimento que não os beneficia, incluindo a escassez de solos e de água e a sua poluição.

Este fenómeno é possível devido à corrupção endémica e ao modo como a gestão dos solos é feita no continente. Desde os tempos coloniais que a terra é considerada propriedade do Estado. E assim se mantém. A Constituição da Eritreia, por exemplo, estipula no n.º 2 do artigo 23 que «toda a terra e todos os recursos naturais sob e sobre a superfície do território da Eritreia pertence ao Estado». Uma percepção que contrasta com o direito tradicional, que considera suas as terras ancestrais. Além da ligação à terra, há a ligação aos antepassados nela sepultados.

Quando construímos a missão de Haro Wato, fizemos um contrato com o Estado etíope que cedeu o espaço por 99 anos: os edifícios são da diocese, mas o terreno não. O que está abaixo dos oito metros da superfície pertence integralmente ao Estado. Os mineiros artesanais de ouro fazem poços até oito metros de profundidade e depois abrem galerias para o Governo não expropriar o ouro que garimpam.

Os bispos moçambicanos terminam a carta pastoral advogando «uma efectiva Reforma Agrária para corrigir os impactos negativos que as políticas económicas agrárias actuais estão a causar nas comunidades rurais em todo o país». E, acrescento eu, para o continente também!

5 de novembro de 2017

ACORNHOEK ACOLHE VOTOS PERPÉTUOS, DIACONADO DO RICARDO GOMES


A paróquia sul-africana de Maria Assunta de Acornhoek, na diocese de Witbank, viveu um fim-de-semana missionário especial ao acolher a consagração perpétua no Insituto comboniano e a ordenação diaconal do escolástico Ricardo Alberto Leite Gomes.

As celebrações mobilizaram muita gente: os pais, a irmã e os párocos do Ricardo, que viajaram da Trofa juntamente com o provincial de Portugal; a província da África do Sul; muitos amigos; e as comunidades comboniana e cristã de Akornhoek que prepararam os espaços e as celebrações com esmero.

O Ricardo emitiu os votos perpétuos na encaristia da tarde de sábado, 4 de novembro de 2017, presidida pelo P. Jude Burgers, superior provincial da África do Sul.

A Igreja paroquial estava cheia de pessoas que quiseram testemunhar o sim para sempre do Ricardo a Deus no Instituto Missionário Comboniano.

O P. Jude explicou durante a homilia que a essência da consagração final é dar a própria vida como uma ato de fé: «Sim, este é o meu corpo, eu dá-lo-ei por ti, Senhor, e pela missão», disse.

O Ricardo, através da fórmula da consagração perpétua, perante o provincial de Portugal, P. José Vieira, em representação do padre geral, agradeceu a Deus por todas as bênçãos recebidas e por todas as pessoas que fazem parte da sua vida.

No final da eucaristia os participantes partilharam um jantar animado sob a magia da lua cheia africana.

A ordenação diaconal decorreu no domingo, 5 de novembro de 2017. O salão Father Angelo Matordes estava completamnete cheio em ambiente de grande alegria, cor e festa. A assembleia cantou, dançou e rezou com grande entusiasmo e devoção. Vuvuzelas, tambores e apitos marcavam o ritmo da celebração.

O bispo de Witbank, D. Giuseppe Sandri, presidiu à eucaristia em três línguas e ordenou o Ricardo como diácono.

O bispo comboniano, que foi pároco de Acornhoek, explicou que «tornar-se diácono significa ser um servo de Deus e um servo do povo de Deus.»

«Tu és abençoado porque Deus te chamou de uma maneira misteriosa e tu respondeste», proclamou na homilia.

No final da eucaristia a assembeia ofereceu presentes e deu os parabéns ao novo diácono.

Na hora dos discursos, o provincial de Portugal recordou o fim-de-semana prolongado que passou na missão em 1990 e agradeceu à comunidade cristã e comboniana o acolhimento e o cuidado dispensados ao Ricardo durante os meses de serviço missionário que viveu em Acornhoek.

O P. Jude, provincial da África do Sul, disse que a celebração da ordenação foi «um momento de Deus.»

O neo-ordenado teve uma palavra de agradecimento a Deus pelo dom que recebeu apesar de não se sentir digno, e um obrigado a todos os que fazem parte da sua história. Terminou com um agradecimento à comunidade através de uma mensagem lida em língua tsonga.

A cerimónia de mais de três horas concluiu com algumas danças por um grupo de bailarinos tsongas e um almoço de confraternização para todos os participantes.

O Diácono Ricardo foi destinado a Portugal a partir de 1 de janeiro de 2018 e vai ser ordenado padre missionário na paróquia natal, São Martinho de Bougado-Trofa, dentro de meio ano.

SUDÃO DO SUL: UMA VERDADEIRA ESCOLA DE MISSÂO

Conheci o estudante comboniano Komakech James Kenyi em março de 2013 numa peregrinação à área no Sudão do Sul onde Daniel Comboni viveu a su...