20 de setembro de 2023

BABEL: A TENTAÇÃO DO UM


O Génesis, o livro que abre as Escrituras, conta uma estória intrigante: um grupo de pessoas, unidas pela mesma língua, emigraram do Oriente e, ao chagarem a uma planície em Chinear, deitaram mãos ao barro para construirem uma cidade e uma torre que teria o céu por limite.

Deus, na sua infinita curiosidade, desceu para ver a cidade e a torre que estavam a ser edificadas com tijolos e betume, evocando os zigurate da Babilónia, torres de menagem muito altas dedicadas aos deuses.

E o Senhor disse: «Eles constituem apenas um povo e falam uma única língua. Se principiaram desta maneira, coisa nenhuma os impedirá, de futuro, de realizarem todos os seus projetos. Vamos, pois, descer e confundir de tal modo a linguagem deles que não consigam compreender-se uns aos outros» (Génesis 11: 6-7).

A narração tem um final inesperado: O Senhor dispersou-os por toda a Terra e eles pararam com a construção da cidade que foi batizada de Babel.

Esta narrativa primordial pode ser lida como um ato de sabotagem da parte de Deus contra a concorrência daquele povo sem nome.

De facto, uma das raízes do vocábulo Babel pode ser confusão. Deus confundiu-os e espalhou-os pelo mundo — e obrigou-nos a aprender línguas estrangeiras — porque o empreendimento no vale de Chinear punha em causa a sua soberania incondicional.

Aliás, esta é a leitura mais comum desta estória que explica a origem das línguas diferentes e da colonização de toda a Terra que, segundo a evidência científica, começou a partir de África.

Mas há outra leitura mais interessante.

Reparemos no texto: um povo, com uma linguagem única e um único vocabulário, queria construir num vale uma cidade e uma torre para adquirir um nome.

O numeral um é a chave de leitura da estória, que representa uma grande tentação.

Quando visitei Moçambique em 1990 para participar na ordenação de um colega comboniano e fazer uma reportagem sobre o país, a rádio nacional repetia à saciedade o jingle — cito de cor — «Do Rovuma ao Maputo, um país, uma língua, um partido». A ordem e as palavras podem ser diferentes.

Os regimes ditatoriais e totalitários amam o número um: a unidade nacional, o partido único, o pensamento único contra a diversidade das opções políticas, a essência da democracia. 

E Deus? Ele ama o plural! 

Em Fevereiro de 2019, o Papa Francisco escreveu juntamente com Grande Imã de Al-Azhar Ahmad Al-Tayyeb no Documento sobre a Fraternidade Humana em prol da paz mundial e da convivência comum que «o pluralismo e a diversidade de religiões, cor, sexo, raça e língua são despejados por Deus na Sua sabedoria, por meio da qual ele criou os seres humanos».

O Papa argentino, durante a sua participação na Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023, explicou que «um significa solidão, fechamento, pretensão de autossuficiência». Ele tem afirmado repetidamente que a realidade é poliédrica.

Babel também pode significar Porta de Deus. 

Vamos até Ele através da pluralidade das línguas, das culturas e dos povos. Ele quis assim. 

O último livro da Bíblia, o Apocalipse de São João descreve o conjunto dos redimidos como «uma multidão enorme que ninguém podia contar, de todas as nações tribos, povos e línguas» diante do Cordeiro a aclamar «a salvação pretende ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro» (Apocalipse 7, 9-10).

Daí que o missionário tenha de descalçar as sandálias da sua «etnocentricidade» diante do povo que o acolhe e respeitar a diversidade, porque foi criada e é amada por Deus!

16 de setembro de 2023

VALSA DA VIDA


 O meu coração é um salão de dança,

espaço mega, luminoso, acolhedor,
onde recebo e trago quem amo!
Por direito próprio.
Uma multidão transcontinental,
que me energiza,
humaniza,
revitaliza.
Com cada querida e querido
no meu coração
danço a valsa da vida!
São dom do Deus que dança,
com quem aprendo os passos simples e complicados
da valsa do humano viver,
amar.
A melodia da valsa?
O amor da amizade,
música profunda e harmoniosa
que (pre)enche o palco da vida.
A orquestra?
O palpitar ritmado de centenas de corações em
harmonia,
sintonia,
simpatia,
sinfonia;
que se querem, 
porque se amam.
Danças comigo?

ETIÓPIA: CRENTES VIVEM DIAS COMPLICADOS


Comunidades ortodoxas, muçulmanas e católicas vivem tempos difíceis devido a conflitos e reformas administrativas na Etiópia.

Não têm sido fáceis os últimos tempos na Etiópia. O país mais antigo de África tem vivido uma espiral de conflitos com raízes em tensões etnocêntricas, derivadas da sua federalização depois de 1991. Estas tensões afectam as diferentes comunidades de fé.


Igreja Ortodoxa entre cismas

A Igreja Ortodoxa Etíope, uma Igreja com quase 1700 anos e que conta com cerca de 46 milhões de fiéis – 40 por cento dos 115 milhões de etíopes –, está ameaçada por cisões desde Maio de 2021, altura em que os cinco arcebispos do Tigré anunciaram o corte de relações com a Igreja-mãe – o Santo Sínodo Ortodoxo Etíope – criando a Igreja Ortodoxa Tigrínia.

A cisão vem da guerra que opôs o Estado Regional Tigrinío ao Governo Federal entre Novembro de 2020 e Novembro de 2022, e que extravasou aos Estados vizinhos de Amara e Afar. O conflito envolveu tropas federais, milícias locais e soldados eritreus e deixou um rasto enorme de deslocamentos, destruição e morte. 

Os arcebispos tigrínios denunciaram o silêncio da Igreja Ortodoxa perante a chacina de milhares de civis, incluindo a mortandade na cidade santa de Axum por tropas eritreias no início dos confrontos, a morte de um grande número de padres e monges e o saque e destruição de mosteiros e igrejas. No início, o patriarca ortodoxo, Abune Matias I, ele próprio tigrinío, denunciou o genocídio contra o seu povo. Depois remeteu-se ao silêncio. 

Os prelados tigrínios acusam a hierarquia ortodoxa de ter apoiado o Governo Federal durante a guerra e de contribuir para o financiamento do conflito por meio das colectas levadas a cabo pelas autoridades locais.

Em Fevereiro deste ano, o Santo Sínodo – o governo central da Igreja Ortodoxa – escreveu individualmente aos arcebispos tigrínios a propor um diálogo para a reconciliação e normalização de relações com a Igreja-mãe. A missiva caiu mal, porque não foi endereçada ao Conselho dos Bispos da Igreja Ortodoxa do Tigré, que rejeitou a proposta. «Não podemos viver com aqueles que nos chacinaram», sublinharam.

Com o cisma tigrino por sanar, o Santo Sínodo Etíope foi confrontado por outra rebelião, desta feita no Estado Regional da Oromia. Razões? Línguas, centralismo, finanças e corrupção.

Três arcebispos de etnia oromo decidiram criar o Santo Sínodo de Oromia e das Nações e Nacionalidades, acusando a hierarquia ortodoxa de favorecer os padres de etnia amara nas suas promoções e de travar a celebração da liturgia em oromo em vez do guêes – uma língua morta muito antiga – e do amárico, arrastando milhões de fiéis para as denominações protestantes. Havia ainda a questão financeira com a gestão das ofertas dos fiéis centralizada em Adis-Abeba.

No dia 22 de Janeiro, os três arcebispos ordenaram 26 bispos, 17 para o Estado Regional da Oromia e nove para outras regiões. Quatro dias depois, o Santo Sínodo excomungou os três arcebispos mais 25 dos novos bispos. Um tinha voltado para a Igreja-mãe depois de pedir perdão. Os arcebispos rebeldes retaliaram, excomungando uma dúzia de arcebispos ortodoxos. No dia 22 de Julho, seis dos dez novos bispos nomeados pelo Sínodo do Tigré foram sagrados à revelia da Igreja Ortodoxa Etíope, que marcou uma reunião de emergência para o início de Agosto para analisar os últimos desenvolvimentos.

A cisão oromo gerou alguma insegurança e o Governo pôs as forças da ordem em alerta e restringiu o acesso à Internet, sobretudo às redes sociais mais populares (a meados de Julho a situação foi normalizada). No dia 4 de Fevereiro, pelo menos oito pessoas foram mortas em Shashamane, uma cidade do Sul da Etiópia, quando um dos novos bispos tentou entrar na sua catedral. Um grupo de fiéis ortodoxos opôs-se e as forças da ordem atacaram os manifestantes.

Entretanto, numa intervenção televisiva, o primeiro-ministro, Abiy Ahmed, instou os ministros a não se envolverem na questão da Igreja Ortodoxa, o que foi entendido como um apoio aos dissidentes. O chefe do Governo é oromo e pertence a uma Igreja pentecostal apesar de ter nome árabe. Algumas vozes acusaram Abiy de querer destruir a Igreja Ortodoxa Etíope. O Santo Sínodo proclamou um jejum de três dias e marcou uma manifestação nacional para 12 de Fevereiro em memória dos mártires que perderam a vida durante os confrontos com as forças da ordem. O Governo proibiu-a.

O primeiro-ministro sentou-se à mesa com representantes da Igreja Ortodoxa Etíope e da Oromia a 15 de Fevereiro e a crise foi sanada. Os três arcebispos excomungados foram readmitidos nas suas funções, os novos bispos voltaram ao estado presbiteral e o Santo Sínodo comprometeu-se a desenvolver (e financiar) a liturgia e a catequese nas línguas locais e a abrir seminários para formar clérigos não amaras e a ordenar alguns monges para servirem as dioceses oromos como bispos.

Em Maio, o canal de televisão por cabo da Igreja Ortodoxa foi suspenso durante alguns dias pela Autoridade da Comunicação Social, que acusou a estação de transmitir conteúdos passíveis de provocar conflitos. Em questão esteve um comunicado da comissão nomeada pelo Santo Sínodo para seguir a nomeação de novos bispos de etnia oromo. A comissão ameaçou não ficar em silêncio perante um grupo de bispos «a seguirem agendas mundanas dentro da Santa Igreja». O comunicado coincidiu com a abertura da convenção anual dos padres ortodoxos em Adis-Abeba, a capital do país. O canal, entretanto, voltou às emissões regulares com liturgias, entrevistas, ensinamentos e cânticos ortodoxos.


Muçulmanos protestam

Os muçulmanos representam o segundo maior grupo religioso etíope com mais de 36 milhões, 31 por cento da população, e chegaram à Etiópia ainda Maomé era vivo.

O Estado regional de Oromia redesenhou, em Março passado, algumas zonas administrativas e criou cidades, incluindo Shaggar, nos subúrbios de Adis-Abeba. Os autarcas da nova cidade decidiram demolir milhares de construções ilegais, incluindo 19 mesquitas e outros templos religiosos.

O Conselho Supremo dos Assuntos Islâmicos do Estado Regional da Oromia denunciou a demolição «ilegal» das mesquitas e fiéis muçulmanos manifestaram-se contra as demolições no final das orações de sexta-feira na Grande Mesquita de Anwar, situada em pleno mercado de Adis-Abeba a 26 de Maio e a 2 de Junho. Pelo menos cinco pessoas foram mortas nos confrontos com as forças da ordem e mais de uma centena ficaram feridas, incluindo seis dezenas de polícias. A Comissão Etíope dos Direitos Humanos anunciou que umas 140 pessoas foram detidas na sequência dos protestos. A Grande Mesquita foi encerrada durante algum tempo.

No início de Junho, o presidente do Estado regional da Oromia reuniu-se com o líder do Conselho Supremo dos Assuntos Islâmicos Etíopes, sublinhando que as autoridades de Shaggar não estavam a visar a comunidade muçulmana. Outras construções religiosas ilegais também foram demolidas. Perante as dificuldades que os muçulmanos apontaram em adquirir terrenos e autorizações para a construção de novas mesquitas, os edis prometeram ter o novo plano director para Shaggar pronto em Julho. O mapa incluirá áreas destinadas a templos religiosos, incluindo uma grande mesquita.


As cruzes da Igreja Católica

O conflito no Tigré também afectou a hierarquia da Igreja Católica no país, que conta com pouco menos de um milhão de fiéis. D. Tesfasellasie Medhin, bispo de Adigrat, a diocese católica do Tigré, assumiu a defesa intrépida do seu rebanho e denunciou o conflito como «genocídio devastador com actos horrorosos de crimes brutais». 

Dom Tesfasellasie pediu, em Novembro de 2021, à hierarquia católica etíope que rompesse o silêncio perante as atrocidades cometidas no Tigré, uma acusação implícita da falta de solidariedade dos irmãos bispos. A resposta chegou em Março do ano seguinte com uma mensagem onde os bispos pediram a paz para o país: «A Conferência dos Bispos Católicos da Etiópia renova o seu apelo a todas as partes envolvidas no conflito no país para baixar as armas e começar um diálogo genuíno para o interesse do povo.»

Entretanto, a rebelião armada do OLA (Exército de Libertação Oromo, na sigla em inglês) contra o Governo Federal também tem afectado a Igreja Católica na Oromia, sobretudo no Oeste e no Sul. 

Em Março, visitei Dom Abraham Desta, bispo de Meki, uma diocese no Estado Regional da Oromia a 150 quilómetros a sul de Adis-Abeba. O bispo esteve exilado durante mais de um ano na Europa onde se encontrava a tratar da saúde quando o conflito no Tigré estalou. Dom Abraham pertence ao clero da diocese de Adigrat e era conotado com os dirigentes tigrínios que lideraram o país de 1991 até 2018. Disse-me que o vicariato tinha limitado o trabalho pastoral à catedral devido à insegurança provocada pelos rebeldes do OLA. 

Os rebeldes oramos estão activos sobretudo nas zonas guji e arsi, no Sul, e no Wollega, no Oeste. Há quase dois anos que a insegurança impede a visita a três das comunidades da missão onde sirvo. 

O OLA recorre ao rapto, incluindo membros da Igreja Católica, para se autofinanciar. Em Fevereiro passado, uma freira indiana das Irmãs de Betânia foi raptada na sua comunidade perto da cidade de Nekemte, no Wollega, durante a noite e, no início de Junho, um padre da diocese de Meki foi capturado no mercado local onde fazia as compras. Ambas as vítimas foram libertadas mediante o pagamento de um resgate de perto de dez mil euros cada.

No final de Abril, o Governo Federal iniciou o diálogo com o OLA na ilha tanzaniana de Zanzibar. Espera-se que as conversações à porta fechada, mediadas pelo Quénia e a Noruega, respondam ao descontentamento dos Oromos e tragam paz e reconciliação para o Estado regional e para o país.

12 de setembro de 2023

AS CONTAS DO TEMPO





Para ti que me lês hoje é dia 12 de Setembro de 2023. Um dia de fim de verão, a retoma da vida corrente depois das férias estivais, o regresso à escola. Para os etíopes — e para mim que com eles partilho o diário viver — hoje é o primeiro dia do mês de Meskerem do ano de 2016, o Ano novo etíope, que a liturgia nacional dedica à solenidade de João o Precursor, São João Batista no santoral católico.

A inkutatash é o símbolo do ano novo. Uma flor silvestre amarela que pinta de alegria a paisagem da Etiópia nesta altura do ano. Nas montanhas, onde vivo, a flor desponta mais tarde.

A celebração do ano novo começa na véspera com uma grande fogueira à volta da qual se canta e dança a alegria do tempo novo prestes a chegar.

Desejam-se mutuamente «Melkam addis amet», Feliz ano novo em amárico. Ou o equivalente nas línguas vernaculares.

Para celebrar o ano novo, as pessoas alindam-se com as roupas tradicionais das respetivas culturas.

As meninas prendem inkutatash de plástico nos cabelos ou nas orelhas. Também usam a flor amarela bordada nos vestidos longos de algodão. As construções e os veículos são decorados com flores gigantes, fitas amarelas e balões, amarelos e pretos na predominância.

Os miúdos e os jovens juntam-se em bandos a cantar «Minha flor, minha flor, tu és linda» enquanto dançam e pedem dinheiro. Fazem-no de casa em casa ou nas estradas, parando o tráfego.

Os cristãos começam o ano nas respetivas igrejas. A maioria são ortodoxos. Celebram a divina liturgia na madrugada, transmitida através de altifalantes.

Depois de louvar o Senhor do tempo pelo dom de mais um ano, vão para casa celebrar à volta da mesa ou de uma travessa gigante.

O chão da sala é adornado com erva grossa da família do junco.

Carne de vaca, galinha e ovos (cozinhados em molho picante) e cerveja local são parte da ementa festiva. E café.

Porquê 2016? 

Os etíopes, na maioria cristãos ortodoxos, não aceitaram o calendário universal que foi promulgado pelo Papa Gregório XIII em 1582 para corrigir algumas discrepâncias do calendário juliano, o contador em uso. A Igreja Ortodoxa Etíope segue ainda o calendário do imperador romano.

Estamos em 2016 e começarmos o ano normalmente a onze de Setembro — este ano inicia-se um dia mais tarde, porque Fevereiro tem vinte e nove dias e, por isso, o mês de Pagumé, o décimo terceiro mês do calendário etíope, tem seis dias em vez de cinco.

O calendário etíope é formado por doze meses de trinta dias, mais o Pagumé para não perder mais dias para o calendário geral.

Quando cá cheguei pela primeira vez, há trinta anos, a Etiópia auto-promovia-se como o país de «Treze meses de sol». Agora apresenta-se como «Terra das origens».

Além disso, as zero horas correspondem às seis da manhã. Mais ou menos a hora do nascer do sol.

Outras peculiaridades do Calendário Etíope: o Natal é a sete de Janeiro, o Batismo do Senhor (Timket) a dezanove do mesmo mês (este ano, celebra-se a vinte por ser ano bissexto), a Páscoa de 2024 vai ser a cinco de Maio (mais de um mês depois da Páscoa do calendário universal), a Assunção de Nossa Senhora celebra-se a vinte e dois de Agosto, a festa da Santa Cruz a vinte e oito de Setembro.

É normal que povos diferentes tenham modos diferentes de contar o tempo. Melhor: modos diferentes de celebrar o tempo.

John Mbiti, o filósofo queniano, que também era pastor anglicano, nota com precisão que «em África o tempo não se conta. Faz-se.»

Feliz Ano Novo!

6 de setembro de 2023

A ALEGRIA DA PEQUENADA










Todos os anos as Missionárias da Caridade, as Irmãs fundadas por Santa Teresa de Calcutá, organizam um campo de férias para os mais novos durante as férias grandes com a colaboração de alguns voluntários.

Este ano tiveram a ajuda valiosa de cinco jovens vindos de Adis-Abeba, a capital da Etiópia, mais cinco rapazes e duas raparigas da cidade de Adola, no Sul do país, onde as Missionárias têm uma comunidade que cuida de mais de 150 doentes, alguns incapacitados, outros em tratamento da tuberculose e outras doenças.

O campo deste ano teve três edições: Adola, Soddu Abala e Qillenso.

Meninas e meninos entre os cinco e os quinze anos tiveram a oportunidade de passar duas semanas especiais cheias de alegria em cada centro.

Em Adola, cerca de 470 pequenos desfrutaram, de segunda a sexta, de umas férias especiais com muita animação, jogos, canções, catequese, oração e um lanchinho diário. Porque as atividades puxam pelo corpo e é preciso repor as energias.

Muitos outros tiveram de ficar de fora por falta de espaço e de animadores. Um dia passei pela rua em frente ao espaço onde os participantes brincavam e tive pena dos que seguiam as atividades do outro lado da rede.

Em Soddu Abala, uma paróquia rural entre o povo guji, vizinha de Adola, os participantes rondaram os 250. Qillenso, a minha casa, contou com cerca de 170 petizes.

Ao todo, quase mil crianças e adolescentes beneficiaram das atividades estivais especiais.

Para facilitar as atividades, os participantes são divididos em grupos. Os mais empenhados de cada grupo são premiados.

O campo de Qillenso concluiu com uma missa.

Os pequenos escolheram os cânticos — entre os muitos que aprenderam — e fizeram as orações. Foi uma verdadeira festa de fé. Presidi à celebração e adorei estar e rezar com aquele grupo de gente pequena tão empenhada e animada.

No final do encontro todos os participantes recebem uma peça de roupa como recordação.

O campo de férias representa uma ocasião para as Irmãs avaliarem o estado de saúde dos participantes sobretudo em matéria de malnutrição. A guerra na Ucrânia encareceu os produtos essenciais — farinha, óleo e açúcar custam o dobro — e alguns pais têm dificuldades em alimentar os filhos.

Quando aqui cheguei, há dois anos, um litro de gasóleo custava 27 birr. Agora está quase nos 80.

Para os organizadores, duas irmãs e a dúzia de voluntários e voluntárias que com elas trabalharam, foram seis semanas de muito trabalho e cansaço.

Soddu Abala fica a uma dúzia de quilómetros de Adola, mas a picada florestal está em muito mau estado. Para chegar a Qillenso é preciso fazer 35 quilómetros de estrada asfaltada que sobe cerca de 500 metros. Os facilitadores estavam baseados em Adola e tinhas de se fazer à estrada de segunda à sexta.

Mas, no final, tanto participantes como facilitares, exprimiam a alegria imensa de fazer os outros felizes. Sobretudo os mais pequenos.
 
Para o ano há mais! Se Deus quiser!

31 de agosto de 2023

DOIS MISSIONÁRIOS SERVOS PARA SEMPRE

 



Dois combonianos da Etiópia fizeram a profissão perpétua e foram ordenados diáconos, enriquecendo assim a província e o Instituto com novo sangue missionário.

Abebayehu Tefera Atara e Tamirat Tegegn Tanga fizeram a profissão perpétua para a missão da Igreja no Instituto Comboniano na passada sexta-feira, dia 25 de agosto de 2023, na igreja paroquial de Qillenso.

O P. Asfaha Yohannes, Superior Provincial, recebeu em nome do Superior Geral os votos perpétuos de pobreza, castidade e obediência, segundo a Regra de Vida dos Missionários Combonianos do Coração de Jesus. Ele presidiu à Eucaristia em Guji, a língua local. O Rito da Profissão Perpétua foi feito em inglês.

Os votos tiveram lugar durante a missa semanal das mulheres em Qillenso, a primeira missão que os combonianos abriram entre o povo Guji, no Sul da Etiópia, em 1981. A celebração contou com a presença de um bom número de fiéis.

Abebayehu nasceu há 36 anos na paróquia de Haro Wato, missão criada em 1995 na zona do Uraga com várias capelas que pertenciam a Qillenso. É o primeiro de nove filhos. Frequentou durante algum tempo o Seminário Maior de Hawassa antes de voltar ao postulantado comboniano em Adis-Abeba. Fez o noviciado em Namugongo, no Uganda, e completou a sua formação teológica no Instituto Tangaza em Nairobi, no Quénia. A sua paróquia de origem acolhe-o para o serviço diaconal.

«Ser chamados por Ele, consagrarmo-nos e sermos Missionários Combonianos é colocarmo-nos ao serviço dos outros, ao serviço do Reino de Deus. O próprio Jesus disse: “Eu vim para servir e não para ser servido”, o que é um convite a imitá-lo. Por isso, aqui estou para este serviço em que Jesus me convida a espalhar o seu Reino», sublinha.

Tamirat tem 36 anos e é o primeiro Comboniano do Vicariato Apostólico de Soddo. É originário da paróquia de Hembecho. Primogénito de nove irmãos, foi professor de Matemática e Física durante cinco anos numa EB3 antes de entrar no postulantado comboniano. Também fez o noviciado no Uganda e completou a formação de base em Lima, no Peru. Foi destinado à Província do Peru, para onde regressará depois da sua ordenação sacerdotal. Faz o seu serviço pastoral como diácono em Qillenso.

«Estou muito feliz com a minha vocação, apesar de algumas dificuldades no meu percurso vocacional. Alguns desafios que enfrentei ensinaram-me a ser forte», afirma.

Os dois Missionários Combonianos foram ordenados diáconos a 27 de Agosto, na Missa dominical muito participada e colorida, na igreja de São Daniel Comboni em Adola, o centro urbano da Missão de Qillenso, repleta de gente. Coros de Adola, Qillenso e Soddu Ababa abrilhantaram a Eucaristia que foi celebrada em amárico, a antiga língua franca da Etiópia.

Participaram na cerimónia o comboniano P. Juan Núñez, Administrador Apostólico do Vicariato de Hawassa, sacerdotes locais, combonianos, combonianas, FMM, Missionárias da Caridade e irmãs locais, os pais e familiares dos ordenandos, juntamente com fiéis de Qillenso, Haro Wato e Soddu Abala, as três paróquias católicas entre os Gujis.

Dom Roberto Bergamaschi, Vigário Apostólico de Gambella, que ordenou os diáconos, disse-lhes durante a homilia: «Deus escolheu-vos porque vos ama. Agora tendes de testemunhar o amor de Deus às pessoas que servis».

O bispo salesiano sublinhou que os novos diáconos precisam de rezar para manter viva a sua fé: «Se não rezardes, a vossa fé morrerá lentamente. A Igreja pede-vos também que sejais santos».

Dom Roberto, que foi durante alguns anos o Vigário Apostólico de Hawassa, pediu aos participantes na celebração que ajudassem os novos diáconos rezando por eles.

Os diáconos recém-ordenados agradeceram a todos os participantes e a todas as pessoas significativas no percurso vocacional que os conduziu ao diaconado. Pediram também que rezassem por eles, no caminho rumo ao sacerdócio.

No final, tiveram uma palavra especial de agradecimento a Deus e às suas famílias:

«Agradecemos ao Senhor por tudo o que Ele tem feito nas nossas vidas. Chegámos hoje aqui graças a Ele. Desde o início até ao dia de hoje, Ele guiou-nos e manteve-nos focados. Hoje estamos aqui na presença de Deus e na vossa presença. Não com o nosso próprio esforço, força, capacidade e ajuda, mas Ele tornou-se tudo na nossa vida. Estamos gratos a Deus pelo que nos tornámos hoje e continuamos a rezar para que Ele possa caminhar connosco enquanto continuamos a nossa missão onde quer que estejamos».

«O nosso agradecimento vai também para aqueles que são o fundamento do nosso chamamento e da nossa vocação, ou seja, os nossos queridos pais, que nos mostraram o que é a fé e nos acompanharam, que se tornaram também numa escola de vida: estamos realmente muito gratos por nos terem tornado naquilo que somos hoje».

Depois da Eucaristia, que durou quase três horas, os participantes foram brindados com um rico almoço de pratos locais preparados pelos católicos de Adola e servido na Biblioteca Pública São Daniel Comboni, no recinto da igreja.

17 de agosto de 2023

SINTO-TE

Sinto-te
à minha volta
no chilrear alegre das aves,
na brisa que acaricia a pele,
no sol que me aconchega
com um abraço terno e cálido,
no bailar ligeiro das árvores,
na altivez das acácias,
no comunhão das bananeiras,
nas flores a acenar ao vento,
no zumbido dos insetos irrequietos,
na música da vida que me envolve.
Sinto-te
dentro de mim,
na paz que me invade,
na tranquilidade do meu corpo
sentado neste banco duro de ferro,
repousado.
Na Palavra que fecunda o coração.
Transfiguração!
Estou em ti
estás em mim,
somos um
na dança do amor criador:
sinto-te,
sinto-me!

ETIÓPIA: FAMÍLIA COMBONIANA FAZ RETIRO ANUAL

 





Treze membros da Família Comboniana — um irmão, quatro irmãs e oito padres — passaram uma semana de exercícios espirituais no Centro da Consolata em Mojo, na Etiópia Central.

O P. Fernando Domingues, provincial dos Combonianos de Portugal, aceitou orientar retiro anual sob o tema "Eu vim para servir" (Mt 20, 28).

Cada dia teve um tema próprio desenvolvido em duas palestras: O serviço do peregrino, Rostos luminosos ao serviço da luz de Deus, Servir como comunidade, O serviço da reconciliação, O serviço de Maria como Mãe e Percursora e, finalmente, Ao serviço do projeto maior.

O animador preparou uma folha de apoio para cada palestra, a fim de orientar a reflexão e a oração dos participantes. Também distribuiu alguns textos curtos para leitura espiritual.

O programa comum diário incluía duas meditações, a adoração do Santíssimo Sacramento e a celebração da Eucaristia com a oração da tarde.

O tempo para a oração pessoal e reflexão, repouso e exercício físico foram abundantes.

A Irmã Manna Fessuh, que ensina na Escola Secundária Comboni de Hawassa, está grata a Deus e ao animador pelo tempo de oração e reflexão.

«Foi um momento rico em que Deus nos convida a aprofundar a nossa relação com Ele, uma vez que somos chamados a ser um “sinal” de Deus no meio do seu povo. Sinto que uma boa relação com Jesus faz nascer algo de novo em nós e transforma-nos no nosso dia-a-dia», disse.

E concluiu: «Rezo para que sejamos alimentados e iluminados com a Palavra de Deus que faz de nós um verdadeiro “sinal de serviço” e “verdadeiros dadores de vida” em Deus».

O Comboniano Comboniano P. Isaiah Nyakundi é o vice-superior provincial dos Combonianos na Etiópia e pároco de Gublak. Questões de insegurança no Estado Regional de Amhara retiveram-no uma semana em Bahir Dar, mas conseguiu chegar dois dias depois do início do retiro.

«Foi um momento de repouso com o Senhor e também de encontro com Ele. No final, sinto-me espiritualmente revigorado para começar de novo a missão que me foi confiada. Sinto que o Senhor me está a ver de novo a ser pão para o seu povo que espera ser servido por mim», partilhou.

Os participantes expressaram a sua gratidão ao P. Fernando por ter guiado as suas reflexões e a sua oração ao longo dos caminhos do serviço missionário com perícia e profundidade, «dando-nos um bom alimento para o caminho deste ano» — como disse a Ir. Manna. Um grande obrigado também ao pessoal do Centro pelo seu excelente serviço e cuidado.

O Centro Espiritual da Consolata é um pequeno oásis verde muito acolhedor e bonito, cheio de acácias e outras árvores, pássaros e flores, na movimentada cidade de Mojo, cinquenta quilómetros a sul de Addis Abeba.

Durante uma semana, foi o lugar solitário onde os treze missionários descansaram, aprenderam, partilharam e rezaram com o Senhor da Missão.

Os bons dias de sol, com pouca chuva e alguma trovoada, contribuíram para o sucesso do retiro. O tempo quente ajudou os missionários que vieram das montanhas húmidas do Sul a secar os ossos.

No próximo ano, será a vez das Irmãs Missionárias Combonianas organizarem o evento interprovincial.

10 de agosto de 2023

CREPÚSCULO


 O murmúrio das palavras trocadas,
conversas cruzadas de fim de dia,
dilui-se no suave marulhar
das pequenas ondas do lago
que se desfazem
de mansinho,
em reflexos pálidos do sol cansado
num manto de paz
contra as margens empedradas
com o alegre chilrear
como música de fundo.
O dia cerra os olhos
sobre o dourado aquático
do sol posto.
A natureza entra em modo de descanso
- como eu -
até a lua de prata se deitar
para lá dos montes distantes,
e o sol riscar de fogo
o horizonte de breu do novo dia.

4 de agosto de 2023

MISSIONAR É EMPODERAR


São Daniel Comboni tinha um plano missionário visionário: salvar a África com a África. Queria fazer dos africanos os protagonistas da própria regeneração através da evangelização e educação envolvendo padres, irmãs, professores e artesãos locais no processo de regeneração dos próprios africanos.

Quase 160 anos depois, na missão comboniana de Qillenso, iniciada há quatro décadas entre o povo Guji no Sul da Etiópia, este sonho continua vivo.

A língua e a cultura da gente que acolhe os missionários estão entre as ferramentas principais da evangelização. Para trabalhar com os Gujis é precioso falar guji e aprender a cultura para traduzir e inculturar as Escrituras Sagradas, o Missal, o catecismo, etc..

O trabalho do comboniano espanhol P. Ramón Navarro e meu nos anos noventa do século passado foi nesse sentido: rever e imprimir os livros litúrgicos, os Evangelhos e o Manual dos Catequistas no alfabeto romano. Antes do golpe de estado de 1981, tudo era escrito no alfabeto etíope cujo uso hoje é restrito às línguas semitas (amárico e tigrino entre outras).

Esta aprendizagem passa também pela investigação aturada e pelo estudo científico para codificar a língua e a cultura. Os missionários católicos e protestantes desempenharam um papel impar na preservação da língua e cultura locais.

O P. Bruno Lonfernini, o comboniano italiano que iniciou a missão de Qillenso, escreveu um livro em italiano a apresentar o povo Guji e a sua cultura ao grande público. Também escreveu sobre os Sidamas, onde começou a presença católica.

Do primeiro bispo de Hawassa, o comboniano Dom Armido Gasparini, saiu a primeira gramática guji com um pequeno vocabulário.

O jesuíta belga P. Joe Van de Loo também publicou uma gramática, os dicionários Guji-Inglês e Inglês-Guji e escreveu extensivamente sobre a sua cultura.

Recentemente, o mexicano comboniano P. Pedro Pablo Hernández editou um Dicionário Inglês-Guji e publicou um livro com provérbios do mesmo povo, com tradução em inglês e espanhol, ilustrados com fotos suas e fez a tese de mestrado em espanhol sobre o conceito guji de Deus.

Os catequistas são o braço direito dos missionários. Todos os meses fazemos dois encontros com eles. As mulheres, os jovens e adolescentes reúnem-se semanalmente em encontros separados para rezar, aprofundar a fé e preparar cânticos para a liturgia dominical. Os anciões, que zelam pela vida das comunidades, também são objeto de seguimento mais próximo.

O Centro Catequético da diocese presta um serviço extraordinário na preparação de líderes leigos.

Porque a Igreja precisa de servidores especializados — padres e missionários entre outros — Qillenso tem um grupo vocacional. Cada dois ou três meses um padre, uma irmã ou um irmão de congregações diferentes partilha o percurso vocacional e o carisma do próprio Instituto.

A missão tem uma noviça e duas candidatas nas Irmãs da Caridade, um postulante nos Combonianos e uma pré-noviça na congregação, local das Servas da Igreja.

Os missionários — dois padres do Togo e de Portugal e um seminarista da Etiópia —além de visitarem a dúzia de capelas da missão regularmente para celebrar a Eucaristia e estarem próximos das pessoas do nascer ao morrer, todas as semanas rezam com os reclusos da prisão de Adola — a capital guji sede do segundo polo da missão — e celebram a missa no centro de acolhimento das Missionárias da Caridade na mesma cidade.

O centro urbano de Adola proporciona uma pastoral diferente no acompanhamento das famílias católicas.

Cada família foi consagrada aos Sagrados Corações de Jesus e de Maria numa cerimonia individual — um lar por semana — com a participação de vizinhos, das Missionárias da Caridade e de um dos padres da equipa. Agora, a Senhora de Fátima vai de família em família durante uma semana. No início da estada rezamos o terço juntos com a família de acolhimento e alguns vizinhos.

A paróquia de Qillenso tem cerca de 1200 estudantes em três escolas: no jardim infantil das Missionárias da Caridade, em Adola, na escola de Gosa (do jardim infantil até à oitava classe) e na escola de Qillenso (com turmas da quinta à oitava). A missão abriu duas bibliotecas públicas em Adola e em Urdata. Os estudantes têm livros, internet (em Adola) e um espaço sossegado para estudar, fazer trabalhos de casa, aprofundar matérias, etc.

A biblioteca de Adola tem uma sala de computadores. Nas férias escolares cerca de 40 jovens estão a aprender a usar o computador e os programas mais comuns através de um curso gratuito de seis semanas orientado por um postulante comboniano.

Um hostel acolhe duas dúzias de rapazes e raparigas das zonas rurais que em Adola fazem a secundária.

Durante as férias grandes, a pequenada dos cinco aos 14 anos todos os anos tem um campo de férias de pelo menos duas semanas em Adola, Qillenso e Soddu Abala, a outra missão vizinha entre os Gujis. O evento é organizado pelas Missionárias da Caridade e conta com a colaboração de jovens voluntários de Adola e de Adis-Abeba.

O plano de São Daniel Comboni continua vivo!

14 de julho de 2023

ASSISTENTE-GERAL COMBONIANO VISITA ETIÓPIA


O Ir. Alberto Lamana, assistente-geral comboniano espanhol, efectuou uma visita oficial à província da Etiópia. Chegou a Adis-Abeba a 26 de junho e regressou a Roma a 15 de julho. 

Durante as três semanas da estada na «terra das origens», o Ir. Alberto visitou as oito comunidades combonianas entre os Gumuz (duas), Sidama (uma) e Guji (duas), em Hawassa (para a animação missionária e promoção vocacional) e em Adis-Abeba (Casa Provincial e Postulantado).

Teve encontros com o Cardeal Berhaneyesus Souraphiel Demerew, arcebispo de Adis-Abeba, com a provincial em exercício das Irmãs Missionárias Combonianas, com a responsável das Irmãs de São José da Aparição e com o Administrador Apostólico de Hawassa e o seu assistente.

Durante a visita às comunidades, o Ir. Alberto encontrou-se com cada missionário individualmente e com a comunidade para apresentar a situação atual do Instituto em termos de estatísticas e processos pós-capitulares.

Estes encontros foram momentos fortes de grande comunhão com todo o Instituto.

O Ir. Alberto visitou também algumas capelas em cada missão e encontrou-se com alguns dos membros a fim de fazer uma experiência da ministerialidade da Província MCCJ da Etiópia.

Concluiu a visita com um encontro de meio dia com o Conselho Provincial em Hawassa.

"A missão comboniana está muito viva na Etiópia", disse ao Conselho.

Afirmou que se sentiu muito bem acolhido por todos os confrades.

Explicou que a sua visita à província comboniana da Etiópia foi uma oportunidade para encontrar e conhecer todos os confrades e os ministérios que desenvolvem.

Disse ter encontrado uma província muito intercultural e saudável, com sentido de unidade e de objetivos, com muitos jovens missionários cheios do fogo da missão.

O assistente-geral em visita reconheceu a desproporção entre compromissos e o pessoal e a falta de irmãos como alguns dos problemas que a circunscrição enfrenta.

"A província é um grupo de pessoas felizes e empenhadas na missão", concluiu.

O Superior Provincial, P. Asfaha Yohannes Weldeghiorghis, e os seus conselheiros agradeceram ao Ir. Alberto por ter enfrentado com dedicação o frio das missões serranas, a lama de algumas estradas e as longas viagens para visitar todos os missionários da Província e encorajá-los a continuarem fiéis ao carisma de São Daniel Comboni.

Muito obrigado pela visita!

13 de julho de 2023

MEMORIAL 3D


Na parede da sala de estar da missão de Qillenso fizemos um memorial 3D com as fotos dos três missionários combonianos que desbravaram a presença católica entre os Gujis: os padres Bruno Lonfernini (centro), Carlo Giana (esquerda) e Esteban Ramón García Reyes (direita). Porque temos raízes. Porque temos memória. Porque fazemos memória. «[Por]que morreram no amor, nós também viveremos certamente» (Ben Sira 48, 11).

Os combonianos começaram a visitar Qillenso em 1973 para acompanhar um grupo de sidamas da missão católica de Teticha que migrou para essa localidade da terra dos gujis. Até 1979 Qillenso era uma capela daquela missão a cerca de 90 quilómetros mais a norte.

Entretanto, a relação entre gujis e sidamas azedou e os últimos foram obrigados a regressar ao seu território. O P. Bruno, que tinha fundado as missões de Tullo em 1966 e Teticha em 1977, entretanto, com o acordo do bispo Dom Armido Gasparini, decidiu ficar em Qillenso tentar fundar uma missão entre os gujis à revelia do superior provincial que não via com bons olhos a possibilidade de a província trabalhar com quatro línguas: amárico, sidama, guedeo e guji. Em 1980 abriu a capela de Gosa, 35 quilómetros a norte de Qillenso.

O P. Bruno nasceu na Itália em 1924 no seio de uma família muito devota que deu dois padres e uma comboniana à Igreja. Entre 1949 e 1958 trabalhou no Sudão do Sul de onde foi expulso por supostamente distribuir medicamentos entre os doentes pobres. Colegas dizem que a razão verdadeira foi o seu hábito de comprar cereais durante a época barata para depois os dar aos pobres durante a fome, o que deveras incomodava os comerciantes locais.

Entre 1958 e 1964, dedicou-se à formação de futuros missionários na Itália natal, sendo depois destinado à Etiópia juntamente com o P. Bruno Maccani para iniciar a missão comboniana entre os sidamas no sul do país. Investigador da língua e da cultura dos povos sidama e guji escreveu um livro em italiano sobre cada povo.

Em 1981, a missão de Qillenso, dedicada à Senhora das Dores, foi oficialmente erigida e, um ano depois, Gosa era confiada aos Jesuítas e às Franciscanas Missionárias de Maria. Mais tarde chegaram a Qillenso as Missionárias Combonianas para abrir a clínica e iniciar a pastoral de promoção feminina.

O P. Carlo Giana, também nascido na Itália, juntou-se ao P. Bruno em 1980. Veio da Eritreia. Na altura era província da Etiópia, onde chegou em 1962, para ensinar no Comboni College, uma escola secundária que os combonianos iniciaram em Asmara para preparar jovens para a universidade que as Combonianas fundaram naquela cidade.

Depois de 18 anos dedicados à escola como professor e diretor, o P. Carlo fez um curso em 1979 para se dedicar à primeira evangelização e a partir de 1980 fez equipa com o P. Bruno.

Dedicou-se sobretudo ao estabelecimento de capelas na zona das montanhas do Uraga, a cerca de cem quilómetros de carro ou de cinco horas a pé de Qillenso. Do suor e das canseiras apostólicas do P. Carlo nasceu em 1995 a florescente missão de Haro Wato.

O P. Bruno, em 1981, começou também a visitar a zona de Soddu Abala, a 48 quilómetros a sudoeste de Qillenso, dando origem à quarta missão comboniana entre os gujis, que, em 1984, foi confiada ao cuidado apostólico de dois padres da arquidiocese italiana de Bari.

O P. Esteban, mexicano, chegou a Qillenso em 1982, depois de trabalhar meia dúzia de anos como formador no México. Permaneceu em Qillenso dez anos.

Cada missionário tinha o seu estilo. O P. Bruno, sabendo da paixão dos gujis pelos cavalos, organizava corridas e dava prémios — sobretudo roupa — aos vencedores, prometendo mais agasalhos a quem frequentasse o catecumenado. Também distribuía ajudas pelos pobres e dedicava-se a estudar a língua e cultura locais.

O P. Carlo era o verdadeiro papa-léguas do grupo. As suas longas caminhadas sobretudo na região do Uraga — entre uma família diferente dos gujis — estão ainda presentes na memória dos católicos. Além disso, traduziu para guji os textos litúrgicos e o catecismo.

O P. Esteban era mais dado aos trabalhos práticos e dedicou-se sobretudo à escola da missão (que na altura tinha alunos da primeira à quarta classe e hoje da quinta à oitava). Ensinou um jovem a reparar as bolas de futebol. Como bom mexicano não podia passar sem o feijão e guardava uma boa reserva da leguminosa em latas debaixo da cama.

O P. Bruno deixou Qillenso em 1987, altura em que foi para a missão de Fullasa, entre os sidama. Em 1991, regressou a Tullo, a sua primeira missão na Etiópia. Faleceu a 04 de outubro de 1999 em Milão, no norte da Itália, depois de ter sido evacuado da Etiópia por ter contraído um virus que lhe afetou o cérebro.

O P. Carlo em 1993 foi eleito superior provincial dos Combonianos na Etiópia. Substituí-o em Qillenso. Depois de terminar o segundo mandato, em 1999 iniciou o serviço de secretário-geral de Hawassa para sistematizar o crescimento da diocese. Faleceu de cancro no estômago em 20 de Janeiro de 2008, em Milão.

O P. Esteban regressou duas vezes aos gujis: entre 1996 e 1998 serviu em Haro Wato e entre 2007 e 2012 em Qillenso. Faleceu a 12 de janeiro de 2021 em Guadalajara, no México, vítima do COVID.

Estes são os pioneiros que nos inspiram no nosso serviço missionário entre os gujis de Qillenso, Gosa e Adola, que celebramos, recordamos e tentamos imitar. Porque amaram a Jesus e aos gujis nós vivemos aqui!

22 de junho de 2023

A FORÇA DAS PERGUNTAS


No domingo, 18 de julho, celebrámos na Etiópia, segundo o calendário local, a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo.

A primeira leitura, tirada do Livro do Deuteronómio, falava duas vezes do maná: «Deu-te a comer o maná que não conhecias nem teus pais haviam conhecido, para te fazer compreender que o homem não vive só de pão, mas de toda a palavra que sai da boca do Senhor».

A palavra maná tem a raíz nos vocábulos hebraicos man hu que literalmente significam «o que é isto».

O maná era uma substância granulada que cobria o deserto depois de o orvalho da madrugada evaporar. Perante o fenómeno desconhecido, os hebreus, na caminhada do êxodo do cativeiro do Egito para a liberdade da Terra da Promessa, questionavam-se: Man hu? O que é isto?

Esta pergunta fez-me recordar uma passagem da obra Cartas a um jovem poeta de Rainer Maria Rilke que uma amiga teve a bondade de partilhar comigo numa altura em que eu vivia muitas questões.

«Tenha paciência quanto a tudo o que está ainda por resolver no seu coração e que tente amar as próprias perguntas como se fossem salas fechadas ou livros escritos numa língua muito diferente das que conhecemos. Não procure agora as respostas que não lhe podem ser dadas porque ainda não as pode viver. E tudo tem de ser vivido. Viva agora as perguntas. Aos poucos, sem o notar, talvez dê por si um dia, num futuro distante, a viver dento da resposta» — o poeta austríaco anota.

A pergunta fundamental Man hu, O que é isto, serviu de alimento ao povo de Deus durante quarenta anos no vaguear preparatório do êxodo pelo deserto.

Temos que (re)aprender a acariciar as perguntas que nos tiram o terreno das nossas próprias (in)certezas debaixo dos pés, viver o risco de tentar encontrar novas respostas para velhos perguntares. Não ter medo das perguntas. Não ter medo das incertezas.

Quando passei três semanas na Academia Militar para fazer a  tropa o Capitão Cavaleiro repetia: «Não há perguntas estúpidas. As perguntas estúpidas são as que não perguntamos!».

Muitas vezes as perguntas são muito mais valiosas que as respostas. Talvez por isso o Documento de Trabalho para o Sínodo sobre a Sinodalidade em vez de propor um texto para ser discutido pelos padres e madres sinodais apresente uma coletânea de dezenas de perguntas para o discernimento comum.

Não tenhas medo das perguntas. Vive-as! Elas contêm já sem si as respostas.

18 de junho de 2023

LUZ


Tenho dentro de mim
uma luz bruchuleante
que alumia o coração,
a mente,
as entranhas
num jogo de sombras claro-escuras
nas fímbrias profundas,
entrestícios,
dobras
     de quem fui,
     sou,
     serei
e que as correntes de ar
do humano viver
não apagam,
     avivam.
Essa luz cintilante
aquece o meu porvir.
Às vezes fica baça,
poeiras que a filtram.
Mas vence sempre as trevas
atentadas em toldar o olhar
     do coração.
Essa luz
chama-se Jesus!
     E faz-me luz.

GUARDADORAS DA ESPERANÇA

— Eu não consigo… não consigo! – repetia sempre Reem, uma jovem beduína palestiniana de 16 anos, sempre que a convidávamos para aprender a u...