NATAL
A preparação para o meu Natal começou no dia 22 com a viagem de Juba para Tali, a missão onde celebrei o nascimento do Senhor: cerca de oito horas aos pulos primeiro através de uma estrada de terra batida e depois por uma picada pelo meio da savana de Equatória Central com muitas árvores, erva alta seca e muito pouca vida selvagem.
A 40 quilómetros de Tali, um grupo de católicos recebeu-nos com cânticos: até me chamaram bispo e ofereceram-me um carneiro que tivemos que meter no jipe onde já íamos nove pessoas e muitas coisas mais!
Os cânticos de boas-vindas repetiram-se por mas duas vezes e chegámos a casa já noite com a janta pronta no baú de metal – para proteger a comida de roedores, formigas e insectos.
Tali é a minha ideia romântica de missão: 13 cabanas tradicionais, incluindo quartos, cozinha, refeitório, armazéns e despensa, uma capela e um poço com uma bomba manual, numa cerca de bambu – uma pequena aldeia africana mesmo.
O recinto está cheio de galinhas e galos que todos os dias passam a pente fino o chão arenoso e nos acordam bem cedo!
A missão é toda solar: desde à electricidade até a um fogão que parece uma parabólica gigante.
No dia 23, os soldados do Sul do Sudão chegaram à pequena localidade para recolher armas que os civis usam quando pastoreiam o gado e para se protegerem das razias das tribos vizinhas.
Tali é terra dos Mundari que mantêm uma relação beligerante com os Dinkas do vizinho estado dos Lagos.
Houve pancadaria valente nos civis que se recusaram a entregar a arma – normalmente uma AK 47, uma metralhadora mais conhecida por Kalashnilov – ou a dizer aos soldados onde a esconderam. Ao meio-dia tinham recolhido umas 50 armas, uma colheita fraca numa zona bem armada.
Pela manhã visitámos o mercado local – é a sala de visitas de qualquer aldeia africana – e a escola do governo, ou o que resta de uma série de construções semi-destruídas pela guerra civil de 21 anos.
De tarde fomos ajudar a buscar água ao rio para regar as papaieiras, pés de manga e outras fruteiras plantadas pelos meus colegas.
Uma novidade tecnológica: uma bomba tipo andadeira de um ginásio com duas válvulas a funcionar lindamente, um presente da UNICEF para incentivar a agricultura. Os Mundaris preferem a pastorícia. Só produzem amendoim e algum sorgo para fazerem cerveja e cachaça.
No dia 24 de manhã sentei-me com um jovem local para preparar a celebração da missa em Bari, a língua que os Mundaris falam. Tinham-me proposto que celebrasse a missa em inglês menos as partes dos diálogos com a assembleia. Como as pessoas não entendem inglês achei melhor celebrar a missa toda em Bari e tive que aprender a soletrar uma língua que não conhecia. Mas apesar da tensão, até me desenrasquei bem.
A missa do Natal foi por volta das 10h00 da noite e a capela de paus, barro e colmo estava cheia com muita gente no exterior.
A celebração correu bem com cânticos, danças, a minha homilia traduzida do inglês para Bari. Adorei voltar ao meio simples e natural de uma aldeia do interior: senti-me em casa.
No dia 25, celebrámos a missa de manhã e depois comemos a cabra do natal – o carneiro que me deram precisa de crescer mais um bocadinho – e à tarde foi a sesta geral.Depois fomos visitar o lugar onde as vacas pernoitam, «cattle camp» em inglês. Tinha umas 100 cabeças de gado. Deu para fazer uma fotos interessantes.
À noite, depois da janta, o irmão Damiano projectou um filme sobre a natividade de Jesus com tradução simultânea do inglês!
No dia 26, a caminho de Juba, celebrei a missa na velha missão de Tali, que os meus colegas construíram nos anos 50 e de onde foram expulsos pelos árabes cinco anos depois. Uma casa de tijolos com cinco quartos – embora sem tecto nem portas – mas ainda em muito bom estado, e uma igreja do mesmo material também sem tecto e com um muro a ameaçar ruína.
A aldeia mudou da antiga missão para o novo lugar porque na Tali-Velha não há água.
Depois da missa – e de uma galinha bem preparada para mata-bicho – lá nos pusemos a caminho para chegarmos a Juba a tempo da festa de Natal que o presidente do Sul do Sudão, General Salva Kiir Mayardit, deu para uma grupo de gente onde incluiu o pessoal da casa Comboni.
E antes tinha enviado 50 quilos de açúcar e 150 quilos de farinhas diversas além de garrafas de vinho de missa, de vinho de mesa e de whiskey. Bless you Mister President.
Voltando a Tali, a comunidade foi iniciada há ano e meio. Tem dois padres, o Markus, alemão de uns 30 anos que está de férias em casa, e o Pellerino, um italiano de 65 anos com um palmarés impressionante no sul do Sudão: foi prisioneiro do SPLA, administrador apostólico de Rumbek e recusou-se a ser bispo. Pega na moto com algumas coisas no saco e passa semanas de aldeia em aldeia a visitar as comunidades católicas dormindo onde calha e comendo o que lhe dão.
Depois há o irmão Damiano, um enfermeiro italiano, que além de manter a funcionar um pequeno ambulatório, também coordena as actividades de agricultura e de construção – estão a fazer uma casa de tijolo que deve estar pronta na Páscoa.
Finalmente, o Gregor é um alemão com sangue sul-coreano e está em Tali a fazer uma experiência de pastoral antes de ser ordenado padre. Dá apoio aos professores da escola primária do estado e substituiu os da secundária que se puseram a andar poucas semanas antes de chegarem a Tali – que um considerada por muitos para além do fim do mundo! O Gregor também visita as comunidades mais próximas da missão e bicicleta e anima a liturgia em Tali quando os padres estão fora.
Comentários
Que experiencia linda!
E como se estivesse ido la contigo. Legal mesmo! Obrigada pela partilha!
Deve ter sido maravilhoso!!!
Que bom, tu mereces!!
Bjtssssssssss
Vê-se mesmo que foi uma experiência muito boa, fico muito feliz!
Paz e Bem
Luisinha