Mensagens

DOZE PILARES PASTORAIS

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O SECAM – Simpósio das Conferências Episcopais da África e Madagáscar – celebrou a vigésima assembleia plenária em Kigali, a capital do Ruanda, de 30 de Julho a 4 de Agosto sob o tema «Cristo, fonte de esperança, reconciliação e paz: a visão da Igreja-Família de Deus em África para os próximos 25 anos (2025-2050)». Participaram 13 cardeais, uma centena de bispos e dezenas de padres, religiosas, religiosos e leigos, além de representantes dos parceiros da SECAM e das conferências episcopais da Ásia, América Latina, Europa e Estados Unidos da América. O núncio apostólico no Ruanda também esteve presente. O primeiro-ministro do país anfitrião discursou no plenário. O Papa Leão XIV enviou uma mensagem rogando que a Assembleia Plenária «destaque a importância de promover uma experiência intensa do amor de Deus que desperta nos corações a esperança segura da salvação de Cristo». O presidente do SECAM, cardeal Fridolin Ambongo, arcebispo de Kinshasa (RD do Congo), afirmou no discurso de abert...

PROFETAS DE ESPERANÇA, AO ESTILO DE COMBONI

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  Em 2025 vivemos um ano jubilar, um tempo especial de reconciliação, de renovação pessoal e comunitária. Para viver este tempo em plenitude, o Papa Francisco proclamou a esperança como mensagem central deste Jubileu desafiando a Igreja e o mundo a serem peregrinos de esperança. A partir da constatação de que «a esperança não engana» ( Romanos  5,5), o pontífice ao proclamar o Jubileu escrevia: «Todos esperam. No coração de cada pessoa, encerra-se a esperança como desejo e expectativa do bem. Muitas vezes encontramos pessoas desanimadas que olham, com ceticismo e pessimismo, para o futuro como se nada lhes pudesse proporcionar felicidade. Que o Jubileu, seja para todos, ocasião para reanimar a esperança! A Palavra de Deus ajuda-nos a encontrar as razões para isso».   A Esperança não engana A esperança nasce do amor do Pai e funda-se no amor, feito pão partido para a vida do mundo, o amor do Coração de Jesus trespassado na cruz. Este amor divino, manifestado por Cristo, o ...

ENCONTROS SAGRADOS

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O meu crucifixo, pendurado ao pescoço, atrai imediatamente os seus olhares curiosos. São crianças beduínas, palestinianas, muçulmanas. Algumas olham para o crucifixo, apontam para ele com seriedade e sussurram:  —  Haram ! Pecado!  Mas outras aproximam-se com os olhos bem abertos: — Quem é ele? — Jesus, o Messias! — respondo com um sorriso. —  Enti mesihiah ? És cristã? Um deles repete pensativo:  — O Messias... Ah, é por isso que chamam-vos  mesihiyin,  cristãos. Então, um deles pergunta-me: — Rezas? Respondo com outra pergunta: — E tu rezas? Com voz firme e olhar sereno, começa a recitar a sura  al-Fatiha  do Alcorão. Depois, olha para mim com ternura e diz: — Agora é a tua vez. Recito o Pai-nosso em árabe.  Uma menina aproxima-se, em silêncio, e acena com a cabeça a cada palavra. Cria-se um momento de suspenso, quase sagrado. Quando digo «Ámen», ela também sussurra: — Ámen! A oração de Jesus atravessa os corações. Não precisa de expli...

MISSÃO: DESAPRENDER PARA APRENDER

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O serviço missionário, especialmente num contexto linguístico-cultural novo, começa com um processo de (des)aprendizagem para abrir caminho para o mundo novo da cultura hospedeira onde o enviado deve inserir-se. Neste processo inicial de desconstrução, Cristo Jesus, o missionário do Pai, é o paradigma. Um hino cristológico da Igreja nascente proclama que «Ele, que é de condição divina, não Se valeu da Sua igualdade com Deus, mas despojou-Se a Si próprio, assumindo a condição de servo, tornando-se idêntico aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se a Si mesmo, obedecendo até à morte, e morte de cruz» ( Filipenses  2, 6-8). No início de cada envio missionário está este processo de despojamento humilde da experiência humana e cristã referentes para acolher uma nova maneira de ser pessoa e de crer, através da língua e da cultura, do viver. Confesso que é desafiante para um adulto aceitar voltar a ser criança e reaprender a vida quase do zero. Porém, sem esse «salto» não é possível...

A FORÇA DO BRINCAR

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«A coisa mais bonita deste dia», disse um rapaz beduíno que avaliava o segundo dia do campo de férias, «é que ajudámos o Qais e brincámos com ele.» Há quase três anos que conhecemos Qais, com os seus grandes olhos cheios de vida, mas incapaz de se mexer. A mãe, doce e forte, disse-nos com preocupação: «Ele não cresce, não se mexe.» Hoje vimo-lo a atirar a bola lentamente e a brincar com o irmão, sentar-se no círculo, rir e jogar ao bingo com os outros. Fiquei em êxtase, vendo como o amor e a inclusão abrem caminhos de esperança. Em dezembro, um amigo comprou um carrinho de bebé duplo para ele e para a irmã mais nova, porque a mãe não podia transportar os dois.  As crianças tomam conta dele, beijam-no, dão-lhe abraços no meio das suas brincadeiras e risos.  Aqui brincam, aprendem e apoiam-se mutuamente.  Hoje em dia, o valor que partilhamos é a resiliência. É isso que Qais, estas crianças e as suas comunidades beduínas do deserto na Cisjordânia personificam todos os dias. ...

DESTINO ETIÓPIA

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Verão é sinónimo de viagens e a terra das origens propõe-se como um destino aliciante para qualquer viajante que goste de explorar novas paragens. A Etiópia é um país atractivo para quem gosta de turismo histórico, natural, cultural e até religioso. O país é coberto por uma boa rede viária, servido de aeroportos e os hotéis são muito acolhedores. As cidades santas de Aksum, Lalibela e Harar e os castelos de Gondar encontram-se entre os destinos históricos mais relevantes, além de duas pontes ditas portuguesas junto às Cataratas de Tississat, sobre o Nilo Azul (de 1620) e depois do mosteiro de Debre Libanos, a pouco mais de 100 quilómetros a norte da capital (na foto). Há ainda sítios arqueológicos e paleontológicos a explorar. Aksum, que foi a capital do império homónimo, tem cerca de 2000 anos e é famosa pelas suas estelas. As três maiores vão de 23 a 33 metros e foram esculpidas com uma porta e filas de janelas como elegantes torres habitadas. No museu local, há 27 tronos esculpidos ...

LINHAS DE PAZ BEDUÍNAS

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«Dêem-nos mais material para bordar», pediram-nos esta manhã as mulheres beduínas que visitámos no deserto da Judeia. Há semanas que se sente no ar uma urgência silenciosa. Nas suas mãos, a pressa. Nos seus olhos, a determinação.  As mulheres beduínas bordam belos motivos palestinianos contra o tempo. Bordam com esperança, no meio do barulho das sirenes, dos mísseis, do medo e da dor. Vivemos tempos frágeis. O mundo sofre uma profunda «fome» de esperança. Dor, perdas, incerteza... E, no entanto, estamos no deserto. Um calor que não cede. Uma esperança que não se apaga. De uma paróquia na Itália, um casal pediu cem saquinhos bordados como sinal de solidariedade. É pouco e, ao mesmo tempo, é muito. Os maridos beduínos não podem trabalhar. Vários postos de controlo continuam fechados. As crianças rodeiam-nos...  Graças ao seu gesto — e ao teu — elas poderão alimentar-se. No meio do conflito, esperam enquanto continuam a bordar com linhas de esperança no calor crescente do deserto...

OBRIGADINHO

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Confesso-me avesso a este tipo de eventos. Quando mo propuseram, pensei duas, três vezes! Aceitei esta homenagem em nome da fé das gentes de Cinfães com quem aprendi a vida e o crer que partilho através do meu serviço missionário de doze anos com os gujis, no Sul da Etiópia, mais sete com os sul-sudaneses e uns breves nove meses no México.  Sou humilde testemunha do Evangelho da graça de Deus. Faço-o em vosso nome e com a força da vossa amizade solidária. O serviço missionário é um privilégio único e fonte de alegria e vitalidade. É uma experiência humana ímpar partilhar a vida com pessoas que nem sequer sabia que existiam e que me receberam como seu. José Tolentino de Mendonça, o cardeal-luzeiro das letras e espiritualidade contemporâneas, escreveu: «Quando entrego a vida como dom é que ela se multiplica. Quando me abandono é que me encontro. Quando digo “a minha vida é tua” é que ela me pertence verdadeiramente. A vida será uma aventura fecunda se estivermos seguros desse amor». ...

A FORÇA DO SORRIR

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Estava tão feliz. Era a festa de formatura do jardim de infância, numa aldeia beduína do deserto da Judeia. Com os olhos brilhantes e as mãos ansiosas, abriu o pequeno saco que, como as outras crianças, tinha recebido. Festejou cada doce, o pequeno carrinho e, sobretudo, os dois balões que tirou com espanto. Ficámos encantadas por o ver saltar de alegria. A sua alegria era contagiante, sincera, pura. As professoras beduínas acompanham esta viagem com dedicação e ternura. Uma delas, de 34 anos, foi a primeira professora de todas as crianças da região. Ensinou raparigas que agora se preparam para a universidade. É respeitada e amada. Uma verdadeira líder, uma tecedeira do futuro no meio da incerteza. Neste jardim de infância, as crianças chegam com fome de aprender. Para muitas, esta será a sua única experiência escolar. São sobretudo as raparigas beduínas que conseguem continuar. Poucos beduínos do deserto da Judeia conseguem chegar à universidade, mas elas, com muito trabalho, fazem-no...

O AMIGO QUE PARTIU

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Quando o cardeal camerlengo Kevin Farrell anunciou que o Papa Francisco regressou à casa do Pai na manhã de 21 de Abril de 2025, as redes sociais entraram em grande bulício e a notícia chegou-me através delas. Francisco foi um grande amigo da África – continente que descreveu como cheio de vida –, tendo visitado dez dos seus países: Quénia, Uganda e República da África Central, em 2015; Egipto, em 2017; Moçambique, Madagáscar e Maurícias, em 2019; e República Democrática do Congo e Sudão do Sul, em 2023. A África e as suas situações encontraram voz e vez nas suas exortações apostólicas  Alegria do Evangelho ,  Alegria do amor  e  Alegrai-vos e exultai  e nas encíclicas  Laudato Si´  e  Fratelli tutti . Na visita ao Congo o Papa Francisco foi veemente: «Tirem as mãos da África! A África não é uma mina para ser despojada nem um terreno para ser pilhado.» O cardeal Fridolin Ambongo, arcebispo de Kinshasa (RD Congo) e presidente do SECAM, o Simpósio d...

AMOR SECANTE

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No evangelho do quinto domingo da estação pascal para o ano C Jesus anuncia: «Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros; como Eu vos amei, que também vós vos ameis uns aos outros. Nisto saberão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» ( João  13, 34-35). Este é o pulsar do coração do Evangelho de Jesus: o amor ao seu jeito é o caminho que nos repara e salva, que nos faz felizes. Por outro lado, o que nos distingue como cristãos não são tanto as cruzes mais ou menos valiosas e trabalhadas que levamos ao pescoço, mas o amor até ao fim, extremado, brutal, consumado. Ao jeito de Jesus de Nazaré. Jesus ensina-nos através do seu viver que amar é autodescentrar-se. Amar é colocar o OUTRO no centro do coração. Um esforço árduo e contracultura em tempos da ditadura globalizada do eu. Quando preparo a homilia dominical em guji, gosto de conferir a mensagem do evangelho com algum ditado do povo com quem vivo há uma dúzia de anos. Este povo tem um provérbio...

PÁSCOA UNIDA

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Este ano os cristãos da Etiópia – ortodoxos e católicos – celebraram a Páscoa do Senhor unidos às outras Igrejas. Mas nem sempre é assim. No ano passado, por exemplo, enquanto a maioria festejou a ressurreição do Senhor a 31 de Março, as Igrejas da comunhão ortodoxa e os católicos da Etiópia fizeram-no a 5 de Maio. Porquê? A regra para a celebração da Páscoa foi estabelecida há exatamente 1700 anos no Concílio de Niceia: a ressurreição do Senhor celebra-se no domingo depois da lua cheia do equinócio da Primavera. O desacerto vem do facto de a comunhão ortodoxa seguir o calendário juliano e as Igrejas do Ocidente usarem o calendário gregoriano que o substituiu em 1582. O mês, entre os dois calendários, começa com uma diferença de treze dias. Por isso, a data da Páscoa varia entre 22 de Março e 25 de Abril segundo o calendário gregoriano e 4 de Abril e 8 de Maio segundo o juliano. O Papa Francisco sublinhou por diversas vezes a necessidade da celebração comum da Páscoa. Em Janeiro, na co...

«ALHAMDULILLAH!»

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« Alhamdulillah !  Alhamdulillah ! Bendito seja Deus! Bendito seja Deus!», repetem vezes sem conta a professora beduína e o seu marido, enquanto olhamos para os restos carbonizados daquilo que foi a casa deles.  Ela estava a cozinhar com a tia. Tinha deixado a máquina de lavar a trabalhar. O calor abrasador, as chapas de zinco sobreaquecidas... bastou um mau contacto. Em poucos minutos, o fogo tudo devorou. A casa, no meio da aldeia beduína, ficou completamente destruída. O marido mostra-nos o motor carbonizado da máquina de lavar: é o que resta.  A família, com os quatro filhos, vive agora com uma tia. O vestido usado pela professora foi-lhe emprestado pela irmã. Todos os seus pertences foram consumidos pelas chamas.  «Não conseguimos salvar nada», murmura. E, no entanto, repete com uma fé serena: “ Alhamdulillah , estamos bem». Eles já tinham tão pouco e perderam tudo. «Graças a Deus, estávamos fora», explica a professora.  Acena silenciosamente com a cabeça, ...

REVER O FUTURO

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Vinte e três membros da província etíope dos Missionários Combonianos reuniram-se de 6 a 9 de maio na Casa Comboni de Hawassa para celebrar a assembleia provincial de 2025, tendo como intento principal a revisão do Diretório Provincial, o documento que regula a vida da província. Quatro membros estavam ausentes, sobretudo por motivos de saúde ou escolares. O P. Isaiah Nyakundi deu o mote para os quatro dias de trabalho com a reflexão motivacional de abertura sobre «A província que sonhamos ter». O comboniano, nascido no Quénia, trabalha entre os Gumuz há uma dúzia de anos. O P. Asfaha Yohannes, superior provincial, apresentou o seu relatório sobre o estado da província em cinco pontos: situação sócio-político-económica, formação, pessoal, missão e economia. Deu também as boas-vindas aos missionários que chegaram recentemente à terra das origens. Em seguida, a assembleia começou a estudar o novo Diretório Provincial, capítulo por capítulo, debatendo-o e aprovando-o. O esboço foi prepara...

TEMOS PAPA

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  Cento e trinta e três cardeais, reunidos em conclave, durante pouco mais de 24 horas, escolheram o cardeal norte-americano Robert Francis Prevost, « um filho de Santo Agostinho»,  como o papa número 267. A escolha gerou alguma surpresa, mas o Prefeito do Dicastério para os Bispos desde 2023 fazia parte de algumas listas de papáveis, embora não fosse candidato de topo. Dom Robert Francis – partilha o nome com o papa que o precede – escolheu o nome de Leão XIV, o que motivou alguns sportinguistas a fazer montagens com o novo papa vestindo as cores e o emblema do clube. Segui o conclave com expetativa até porque o sector da Igreja mais tradicionalista se empenhou numa campanha para tentar «queimar» os candidatos mais dispostos a seguir o legado do papa Francisco. Produziram um dossier sobre quarenta cardeais com os seus pontos de vista em matérias mais fraturantes e a promover os próprios candidatos, e ofereceram o livro aos participantes no conclave. O dinheiro e o ruído mediá...

SONHAR AO SOL

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«Vou ser médico!», diz um rapaz beduíno com firmeza enquanto põe os meus óculos com um sorriso travesso. Ao lado dele, uma rapariga experimenta uns óculos de sol que lhe tapam metade da cara. «Também vou ser médica!», diz entusiasmada. Com gestos inocentes, simula uma cesariana: «Vou abrir a barriga das mães para os bebés nascerem.».  Outra, pequenina e determinada, anuncia que vai ser dentista e espreita para dentro da minha boca como se já estivesse a examinar os pacientes. Ironias da vida: os seus próprios dentes estão estragados pela cárie, sinal doloroso da falta de acesso aos cuidados mais básicos de saúde. Observo-os com ternura. Todos querem a minha atenção, sonham em grande, agem como se o futuro já estivesse nas suas mãos. Mas a realidade é dura: a rapariga que sonha ser ginecologista vai deixar o jardim de infância dentro de um mês e provavelmente terminará aí a sua educação formal. A única escola da aldeia, perdida entre as colinas e os vales do deserto, mal sobrevive. ...