18 de abril de 2022

BARSISSA: O PROFESSOR



Hoje quero falar-te de Barsissa, o Professor — como é conhecido o braço-direito dos missionários e das Missionárias da Caridade na zona pastoral de Adola. 

Quando nasceu, há 61 anos, em Hossanna, uma cidade no Sudoeste da Etiópia, os pais puseram-lhe o nome de Sholango.

«Na minha língua natal, o welayitinha, Sholango significa Castanho», explicou-me com um sorriso tranquilo. «Porque eu não era nem negro nem branco».

No baptismo recebeu o nome de Joseph.

Fez a Escola de Formação de Professores em Robe, nas montanhas de Bale, e exerceu os 38 de profissão no distrito de Kibre Menguiste, no sudeste do país.

Casou em Adola, o nome guji para Kibre Menguiste.

É pai de oito filhos. O mais velho ensina na universidade de Harar. O segundo formou-se em informática e trabalha em Hawassa. O terceiro é oficial de saúde e trabalha num hospital.

Sholango foi investindo as poupanças em lotes de terra em Adola e construiu algumas casas que usa para complementar o orçamento familiar e para desenrascar amigos em dificuldade.

Comprou dois tuque-tuque, que fazem parte do serviço de taxis em Adola. Chamam-lhes bajaj — apesar de muitos serem de outros fabricantes. Podem carregar até dez passageiros, uns encima dos outros. Essa fila interminável de «formigas» azuis são um teste à paciência de condutores de veículos de dimensões mais avantajadas em muitas localidades da Etiópia.

Barsissa é um elemento fundamental e carismático na comunidade católica de Adola.

Anima a comunidade da cidade, de que é ancião, e acompanha os missionários nas visitas às suas capelas.

Ajuda nas traduções nos encontros de anciãos e catequistas. 

No fim da eucaristia, costuma motivar os fiéis com um discurso simples e didático sobre a fé e as suas vivências e exigências. 

É um comunicador nato e vivo, e prende a atenção das pessoas com muita facilidade. É Barsissa!

Apesar de ser welayta, domina o guji na perfeição.

Há quem veja com maus olhos a sua notoriedade e proeminência na comunidade de Adola precisamente por não ser guji. Mas a Igreja é católica, aberta a todos, para todos e de todos.

Há outro «senão»: ele trabalha como voluntário. Reformou-se há um ano e tem tempo suficiente para ajudar a comunidade católica a crescer em Adola e nas suas nove capelas.

É bastante crítico dos catequistas e do seu trabalho. Acha que deveriam ser voluntários como ele e não trabalhar por dinheiro.

No último domingo, ao virmos da capela de Ilala, notou com tristeza que o catequista não se empenha nem tem o zelo apostólico que devia para exercer o ministério de animador e líder da sua comunidade. Normalmente vêm à missa uma senhora com o seu bebé, duas jovens, dois jovens e o catequista. A comunidade conta com pelo menos quatro dezenas de batizados registados.

Barsissa está sempre à distância de uma chamada telefónica para dar uma mão. Católico fervoroso, dedicado, missionário.

Um homem de Deus!

7 de abril de 2022

AS TEIAS DA BUROCRACIA


Era uma vez uma carta de condução etíope caducada há dez anos. 

Garantiram-me que era quanto bastava para renovar o documento no meu regresso ao país para uma nova etapa de serviço missionário.

Mas não foi o que as autoridades entenderam.

Quando fomos à Autoridade das Estradas do município de Adis Abeba, explicaram que o título tinha sido passado por troca da carta de condução internacional. Acontece que agora não o documento não é reconhecido pela Etiópia. Que podia conduzir por três meses com a licença portuguesa e começar o processo para obter um novo título de condução etíope.

Estávamos no início de novembro. 

Nessa altura a preocupação maior era conseguir a licença de residência e de trabalho no país como membro de uma organização não governamental — a Igreja Católica. Por causa disso, no fim de novembro, tive de ir a Nairobi, Quénia, pedir um visto ONG e voltar a Adis Abeba duas semanas depois. Em janeiro estava legal!

Nesse mesmo mês, a embaixada portuguesa em Adis Abeba autenticou e traduziu a minha carta de condução. 

Contudo, no Ministério dos Negócios Estrangeiro — por onde o processo de troca passava — revelaram que o trâmite era mais complexo: precisava de receber de Portugal a certificação do título de condução passada pelo IMT e a respetiva tradução autenticadas por um notário e pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros e enviar tudo para a embaixada etíope em Paris para validação.

Entretanto, entre o despacho da carta para Portugal e o recebimento de todo o processo — tudo via correio expresso assegurado — passaram-se três meses. A culpa foi do vírus! A entrevista com o IMT para obter a certificação do original levou quase dois meses a ser agendada. Mas aqui o que mais há é tempo!

Munido do original do documento mais um dúzia de páginas com certificados, traduções e certificações, dirigi-me ao Ministério dos Negócios Estrangeiros para autenticar o processo.

No dia seguinte, voltamos à Autoridade das Estradas da capital. A chefe, uma senhora simpática e elegante, reviu o processo página a página, conferiu os carimbos da embaixada etíope em Paris e do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Mas disse que faltava o OK da Agência Federal da Autenticação e Registo de Documentos mais declaração com a minha residência oficial em Adis Abeba.

Tudo conseguido nessa mesma tarde, deixando o verso do processo no estado em que a foto documenta:  dez carimbos ao todo!

E fez-se o terceiro dia! De manhã voltamos à Autoridade das Estradas com todo o processo carimbado a preceito, fotocópias do passaporte e da carta de condução original e uma fotografia, mais as futuras dos emolumentos pagos no ministério e no registo.

A chefe estava em reunião.

Regressamos mais tarde. A senhora reviu todo o processo e encontrou espaço no verso do documento para visar, carimbar e autorizar a emissão temporária da carta de condução etíope por dois anos!

O processo de emissão foi rápido: passado pouco mais de uma hora tinha o documento viário em mãos!

Os meus colegas deram-me os parabéns! A carta nasceu, perfeitinha, depois de seis meses de gestação!

Assim concluo a ânsia de conduzir com uma fotocópia da carta portuguesa. A missão de Qillenso é extensa e sem carro não se chega a lado nenhum. Ou depois de longas horas a caminhar.

A primeira vez que a polícia de trânsito me parou não levantou objeções à fotocópia. Na segunda, fui multado em 400 birr, pouco mais de sete euros, por não ter o original do título de condução. Parece pouco dinheiro, mas é cerca de uma semana do ordenado da nossa cozinheira.

Agora, por dois anos, ando sossegado porque estou encartado!

Se não conseguisse a carta deste jeito a alternativa era repetir o exame de condução aos 62 anos de idade e com quase 40 de condução! Já tinha procurado de uma escola para fazer a prova teórica em Hawassa, a capital do Sul do país, mas estava difícil encontrar onde fazer o teste em inglês. Todas as escolas que tinha contactado só o faziam em amárico, uma língua que desconheço.

2 de abril de 2022

Gujis (Etiópia): A GRANDE REVOLUÇÃO CULTURAL




O povo Guji — que vive no sudeste da Etiópia e pertence à etnia Oromo — passou por uma revolução cultural muito grande durante as últimas três décadas graças à agricultura.

Os gujis são pastores que têm grande orgulho nas suas vacas, ovelhas, cabras, burros e cavalos. Costumavam desprezar a agricultura como trabalho escravo. Um dia, no início da missão de Haro Wato, estava a cavar um pedaço de terra entre a casa e a estrada para fazer uma pequena horta. Um ancião viu-me, voltou para trás, entrou no recinto, tirou-me a enxada das mãos, atirou-a ao chão e repreendeu-me. Eu estava a estragar o meu bom nome ao cavar a terra.

Hoje, os gujis superaram o preconceito sobre a agricultura e produzem quase tudo: do café ao chat (uma planta estimulante alcalóide que é droga legal), dos cereais às leguminosas e todo o tipo de legumes à custa da floresta. Agora, têm dinheiro, estão melhor alimentados, vestidos e alojados.

Têm acesso à rede móvel de telecomunicações, à electricidade ou energia solar, e muitas casas — maiores e mais confortáveis do que as cabanas tradicionais — têm parabólicas de televisão nos seus telhados de zinco com uma oferta enorme de canais de televangelistas etíopes que rezam, louvam, pregam e pretendem fazer curas em amárico, oromo e outras línguas. É um desafio à experiência de culto das comunidades católicas que já se debatem com questões de organização e culto de inspiração protestante.

Quando eu era director escolar de Haro Wato, a carreira académica de uma menina terminaria muito provavelmente na quarta classe. Era muito difícil convencer os anciãos a deixar as raparigas continuarem com a escolaridade. Em Qillenso, duas décadas mais tarde, as raparigas são tantas como os rapazes da escola da missão que, entretanto, foi promovida da quinta para a oitava classe. Um bom número de moças frequenta a escola secundária em Me'ee Bokko e Adola, algumas frequentam a faculdade ou universidade e as licenciadas estão a exercer as suas profissões em Adola, Neguele, Uraga ou noutro lugar.

O Islão também está a ganhar entre os Guji. No passado, alguns dos meus amigos em Haro Wato considerá-lo-iam com desprezo. Costumavam dizer-me que os pregadores muçulmanos estavam apenas interessados nas suas mulheres e no seu gado. Agora a aldeia tem uma mesquita. Alguns católicos converteram-se ao Islão devido aos comerciantes muçulmanos que controlam o mercado do café e os locais de processamento na região. As mesquitas em Adola estão ocupadas com o ensino utilizando altifalantes. Na cidade, é comum cruzar-se com mulheres que usam um rigoroso código de vestuário islâmico, deixando de fora apenas os bonitos e enormes olhos.

Entretanto, a missão Haro Wato registou um enorme desenvolvimento: passou de 29 comunidades (em 2000) para as actuais 52. A rede de estradas de terra batida favorece as deslocações às comunidades. Qillenso manteve as suas quatro estações mais a paróquia de Gosa.

Ambas as igrejas foram para a cidade: Haro Wato abriu uma capela em Sollamo, a cidadezinha capital do distrito, e as Missionárias Combonianas iniciaram um jardim de infância na mesma área à qual acrescentaram a escola primária que no próximo ano letivo chegará à oitava classe. Qillenso cresceu do sudeste para Adola. Os combonianos construíram uma pequena casa de barro, uma biblioteca pública, uma igreja espaçosa e gerem um albergue com nove rapazes e sete raparigas das zonas rurais que frequentam a escola secundária na cidade sagrada dos gujis.

À volta de Adola há nove comunidades ao longo do rio Awata, em direcção ao rio Ganalle e junto à estrada para Neguele. Infelizmente, os confrontos entre rebeldes e forças de segurança impedem-nos de visitar três comunidades durante os últimos quatro meses. Em Adola, a liturgia foi amarizada pela forma como as mulheres se vestem para ir à igreja e as pessoas rezam e cantam.

A pastoral vocacional é também um novo desenvolvimento com alguns frutos concretos. Já existe um padre guji entre o presbitério do Vicariato de Hawassa. Os Combonianos têm um escolástico e um postulante gujis. Duas raparigas de Qillenso estão no postulantado de uma congregação local e outra internacional. As combonianas seguem quatro candidatas: três de Haro Wato e uma de Qillenso.

À volta de Qillenso, as comunidades cresceram em auto-sustentação através da agricultura e plantação de eucaliptos, ofertórios dominicais e o côngrua anual. Compraram sistemas solares e sonoros e teclados que trouxeram muito ruído às liturgias. Em Adola, estamos a reiniciar a pastoral prisional após uma interrupção de dois anos devido à pandemia do Covid 19.

22 de março de 2022

AS TENTAÇÕES DO MISSIONÁRIO


A liturgia católica propõe-nos, no início da quaresma, a contemplação das tentações de Jesus e das nossas próprias tentações. O evangelista Mateus conta que, depois do Batismo, e antes de começar o seu ministério, Jesus foi levado pelo Espírito para o deserto para ser tentado pelo Diabo (Mateus 4, 1-11). Lucas (4, 1-13) inverte a segunda e terceira tentação. Marcos (1, 12-13) nota simplesmente que o Espírito levou Jesus para o deserto onde durante quarenta dias foi tentado por Satanás entre as feras e os anjos que o serviam.

Transformar pedras em pão. Jesus passou quarenta dias a jejuar e, claro, teve fome. O tentador disse-lhe: «Se Tu és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pão» (versículo 3).

Jesus foi tentado a reverter o poder que o Pai lhe deu para a missão em proveito próprio. Mas respondeu: «Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus» (versículo 4).

Os missionários vivemos em situações periféricas. A doença, a fome, a iliteracia, a miséria, a falta desenvolvimento das pessoas com quem partilhamos a vida e o Evangelho afetam-nos e apertam-nos o coração. Podemos ser tentados a reduzir o serviço missionário a uma resposta humanitária a estas emergências, mas a proclamação da Palavra é a razão da nossa presença. Aliás, a Palavra é também parte da solução para ultrapassar as desigualdades e os problemas com que as pessoas se debatem porque nos abrem à partilha e ao cuidado mútuo.

Lança-te! Na segunda tentação, o Diabo pôs Jesus sobre o Pináculo do Templo de Jerusalém e disse: «Se Tu és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo, pois está escrito: Dará a teu respeito ordens aos seus anjos; eles sustentar-te-ão nas suas mãos para que os teus pés não se firam nalguma pedra» (versículo 6). O Tentador conhece a Bíblia e citou o Salmo 91! Jesus replicou: «Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus» (versículo 7).

Confrontado pela realidade humana, social, cultural e religiosa — e motivado pelo zelo apostólico de querer a todos salvar, o missionário pode ser tentado a lançar-se ao trabalho sem horários nem descanso e depois querer que Deus faça milagres quando a saúde física, espiritual e mental falham. Gastar-se completamente e esperar que Deus tome conta do prejuízo. Não tentar o Senhor Deus é cuidar do corpo, do espírito e da alma. Os anjos ajudam, mas não são responsáveis pelas minhas escolhas.

Poder e glória. Finalmente, Mateus conta o Diabo levou Jesus para o alto de um monte e mostrando-lhe todos os reinos do mundo com a sua glória — a que Lucas ajunta «com o seu poderio» — disse-lhe: «Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares» (versículo 9). A resposta de Jesus foi seca: «Vai-te, Satanás, pois está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto» (versículo 10).

A tentação do poder é a tentação maior! Poder a controlar a consciência, a vida e as escolhas das pessoas, o protagonismo da juventude; poder que pode ser de confrontação com as autoridades locais ou de alianças de interesses não confessados; poder na confrontação inter-religiosa em vez da via do diálogo. Poder na ajuda paternalista que cria dependência.

A tentação do poder e glória também pode ser manifesta na ânsia de protagonismo, de ocupar o centro do palco da evangelização de que o Espírito Santo é o ator principal. Ou de deixar obra feita, uma espécie de monumento ao eu!

Daniel Comboni deixou um remédio simples. No capítulo décimo das Regras do Instituto das Missões para a Nigrícia — a África — escreveu: «o missionário da Nigrícia deve com frequência reflectir e meditar que ele trabalha numa obra de altíssimo mérito, sim, mas muito árdua e laboriosa, para ser uma pedra escondida debaixo da terra que talvez nunca apareça à luz e que entra a fazer parte do alicerce dum novo e colossal edifício, que só os vindoiros verão despontar».

14 de março de 2022

MISSIONAR É… REZAR JUNTOS



O Papa Francisco escreveu que «precisamos de rezar, porque precisamos de Deus». Tal e qual! Sendo a missão testemunho do encontro com o Deus Unitrino que todos e tudo ama, é também oração, é rezar juntos.

Dia do Senhor.
A oração mais importante que fazemos juntos é a Eucaristia dominical em memória da Ressurreição do Senhor que fez de nós criaturas novas. Os grupos corais ensaiam os cânticos no sábado. Nós preparamos a homilia, rezando a Palavra de Deus da missa de domingo. Nessa preparação tento encontrar um ditado guji que ilustre o tema da liturgia. O comboniano mexicano Pedro Pablo Hernández publicou uma recolha de provérbios gujis em guji, inglês e espanhol, ilustrados com fotos da sua autoria. É uma boa ajuda.

No domingo, enquanto as pessoas se vão juntando para missa o catequista dirige a oração da manhã e alguns mistérios do terço enquanto o padre atende de confissão quem quer. A liturgia é celebrada com calma e a missa pode demorar mais de duas horas. Além dos cânticos e das respostas, a assembleia participa com a oração dos fiéis e de agradecimento espontâneas. No ofertório as pessoas colocam ao pé do altar as suas oferendas: produtos agrícolas, dinheiro… Algumas deixam garrafas de água para serem benzidas no fim da missa.

No fim da Eucaristia os grupos corais das crianças, jovens e adultos cantam dois ou três cânticos cada um para a assembleia. A missa é sempre uma festa!

Na missão de Qillenso celebramos cinco missas dominicais: no sábado, ao fim do dia, com os utentes do centro de acolhimento das Missionárias da Caridade, em Adola; no domingo, nas igrejas de Qillenso e de Adola e em numa capela de cada zona. Durante a semana, celebramos a missa em cada capela de Qillenso. Em Qillenso, a missa de sexta-feira às 7h00 é sobretudo para as mulheres e a de sábado para os jovens.

Oração comunitária. São Daniel Comboni escreveu que «a omnipotência da oração é a nossa força». Por isso, além da oração pessoal, os dois missionários de Qillenso rezamos a oração da manhã às 6h45, na igreja, e a oração da tarde às 18h45, em casa. Todas as quartas-feiras fazemos uma hora de adoração pelas vocações entre as 18h00 e as 19h00 na igreja. A terceira quarta-feira do mês é uma jornada de oração. Os nossos colegas missionários, familiares, benfeitores e amigos espalhados pelo mundo inteiro estão presentes na nossa oração quotidiana.

Terço. Em Adola, costumamos rezar o terço todas as segundas-feiras às 17h00 com os moradores de um pequeno bairro social construído pelas Missionárias da Caridade. É uma hora que me enche e pacifica. O terço é cantado em tom monocórdico, tranquilo. No final, o catequista Petrosi ou o ancião Sholamo lêem o evangelho do dia e fazem uma pequena reflexão em amárico, a língua franca da cidade.

Via-sacra. Nas sextas-feiras da Quaresma os católicos reunem-se às três da tarde em cada capela para fazerem as estações da via-sacra, presidida pelo catequista. É uma forma de oração penitencial vivida intensamente.

Doentes. Visitar os doentes e rezar com eles e por eles é parte do nosso serviço missionário. Normalmente o catequista ou um ancião sinalizam alguém doente que queira a nossa visita. As pessoas gostam que lhes imponhamos as mãos durante a oração. Também nos convidam para uma oração de ação de graças quando a pessoa recupera a saúde.

Funerais. Quando alguém morre perto da missão, não importa de que religião, vamos visitar os doridos e permanecer com eles um bocado para os consolar com a nossa presença — quase sempre silenciosa. É costume servirem algo de comer e beber na mana bo’a, na casa do choro, como os gujis chamam à casa onde se juntam — normalmente uma tenda gigante — para celebrar a pessoa falecida. Quem participa colabora com algum dinheiro para cobrir a despesa da celebração. Aos católicos fazemos o funeral. No passado, as pessoas sepultavam os seus falecidos junto à casa; são parte da família. Agora, junto à igreja de Qillenso, há um pequeno cemitério em formação com quatro campas de cimento.

Bênçãos. Quando os exames do oitavo e décimo segundo ano e de entrada na universidade chegam os estudantes geralmente no fim da Eucaristia dominical ajoelham-se em frente ao altar para serem abençoados. Alguns depois passam por casa para benzermos as esferográficas e outros materiais com que vão fazer os testes.

Um católico que vai fazer uma casa nova, habitualmente pede para abençoarmos o terreno e o material de construção. A oração começa na casa velha com a leitura de um texto bíblico, uma pequena reflexão e uma oração partilhada pelos presentes. Depois benze-se a água para aspergir os membros da família, o terreno e os materiais. A celebração termina normalmente com uma pequena refeição de injera ou cocho, o pão feito de tef ou farinha de falsa banana com creme de leguminosas.

Oração solidária. Em Adola, ortodoxos, protestantes e muçulmanos competem através das ondas sonoras. Em vez de praguejar porque os clérigos ortodoxos me acordam às duas da manhã de domingo — ou nalgum dia de festa — junto às suas cacofonias um glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. Também o faço quando o muezim chama os muçulmanos à oração pelo menos antes da alvorada e depois do crepúsculo. Chamo-lhe oração solidária.

Silêncio. A oração que mais me preenche é o silêncio contemplativo. Durante o dia, sentado num canto sossegado a escutar a polifonia alegre e cheia de vida dos pios, assobios e chilreios da passarada nesta nesga de floresta. À noite, sentado nos degraus da igreja, a contemplar o céu de veludo ponteado de estrelas, planetas, luas e satélites, riscado por estrelas cadentes, enquanto as cigarras, os grilos e as aves noturnas enchem o silêncio de música. Estamos a cerca de 2300 metros de altitude e não há poluição atmosférica ou luminosa: os corpos celestes parecem muito perto, quase à mão.

O teólogo alemão Karl Rahner escreveu que o cristão do século XXI ou será místico ou não será cristão. Eu ajunto: o missionário do século XXI ou é místico ou não é missionário.

7 de março de 2022

A MISSÃO DOS TRÊS NOMES


\


Os primeiros combonianos chegaram a Qillenso em 1976, vindos da missão de Teticha, a cerca de noventa quilómetros mais a noroeste, para dar assistência a algumas famílias sidama que aqui se fixaram. Começaram por chamar Maleka — o nome da aldeia seis quilómetros mais abaixo — à clareira da floresta onde construíram a missão a quase 2300 metros de altitude. Depois deram-lhe o nome de Baddessa Chisa — baddessa caída, uma árvore de grande porte comum na floresta desta área. É o nome da área. Finalmente, ficaram por Qillenso, literalmente brisa agradável, mas que também pode ser forte e fria.

Vieram pelos sidama, mas cedo começaram a evangelizar o povo local, os gujis, um subgrupo oromo, embora o superior provincial que não visse com bons olhos o uso de mais uma língua na província. Já missionavam em amárico, sidamo e guedeo.

A missão, fundada pelo P. Bruno Lonfernini, está situada no que era uma clareira na borda da floresta junto à estrada que leva à Somália.

Quando aqui vivi, há quase trinta anos, a missão ainda não estava recintada. À noite, as hienas passavam à frente da casa e as árvores do alto da colina abrigavam os babuínos que aí pernoitavam em grande número. Hoje, a floresta está a ser transformada em zona agrícola. Há alguma reflorestação com… eucaliptos.

A paróquia foi oficialmente aberta em 1 de janeiro de 1981, dedicada a Nossa Senhora das Dores.

Com a vinda das combonianas, Qillenso transformou-se numa missão tradicional com a igreja e a escola primária, confiadas aos missionários, e a clínica e a promoção das mulheres, iniciativas das irmãs. Há três décadas, a missão tinha ainda duas voluntárias italianas que colaboravam com as irmãs na clínica e no programa de economia doméstica.

Entretanto, as combonianas partiram e vieram irmãs da congregação local, que também deixaram Qillenso.

Hoje, a clínica e o programa de promoção das mulheres estão suspensos. A escola tem 187 alunos da quinta à oitava classe. Os nove professores são do Governo.

A missão continua com as quatro capelas que tinha há três décadas — uma fechou e outra abriu — mas deu origem a duas missões novas entre os gujis: Soddu Abala (a uns 45 quilómetros a sudeste) e Haro Wato (a mais de cem quilómetros a oeste por estrada. A pé demora quatro a cinco horas).

A partir de 2008, o bispo entregou aos missionários de Qillenso o cuidado pastoral da cidade de Adola — Kibre Menguiste em amárico, que fica 35 quilómetros a sudeste. É o local, onde — segundo os mitos gujis — Deus criou os primeiros três homens: Urago, o pai dos gujis, Darasso, o pai dos guedeos, e Amaro, o pai dos amara. Os padres da diocese de Bari — Itália, que cuidavam de Soddu Abala, tinha construído na cidade um pequeno salão onde algumas mulheres aprendiam costura e eles celebravam a missa.

Os combonianos compraram um talhão junto à rua principal e aí construíram uma biblioteca para dar apoio aos alunos da secundária, uma pequena casa de barro com três divisões e, depois, uma igreja circular em anfiteatro dedicada a São Daniel Comboni. No talhão do salão transformaram uma pequena construção em hostel para alojar seis raparigas e seis rapazes das zonas rurais que estão em Adola a fazer a secundária.

Adola tornou-se no segundo polo de Qillenso. Hoje, há nove capelas à volta da cidade em três eixos.

A revolta do Exército de Libertação Oromo contra o Governo de Adis-Abeba, trouxe alguma insegurança à área e tem-nos impossibilitado a visita regular a quatro capelas.

Entretanto, a missão de Gosa — aberta pelos combonianos uns 35 quilómetros a norte de Qillenso a quase 2800 metros de altura — foi transformada em capela de Qillenso. A clínica e a escola (com mais de mil alunos desde a pré à oitava classe) são administradas diretamente pela diocese que usa pessoal local.

A nível de pessoal, a missão conta com os serviços de 21 catequistas, dois padres e cinco Missionárias da Caridade (quatro da Índia e uma da Roménia) — que têm uma casa de acolhimento para recuperação de doentes de tuberculose, bebés abandonados, doentes crónicos e terminais abandonados pelas famílias ou de famílias sem meios para cuidar deles.

O P. Hippolyte Apedovi nasceu no Togo há 33 anos. É o pároco e ecónomo. Eu desempenho as funções de superior e diretor da escola de Qillenso.

Nas igrejas de Qillenso e Adola há missa todos os domingos. Na casa das irmãs celebramos com os internados todos os sábados à noite. Celebramos uma vez por mês em cada capela. Nos outros domingos o catequista preside à celebração da Palavra.

Um de nós fica em Adola de sexta à tarde até terça de manhã para seguir as comunidades da área e celebrar a missa para as irmãs.

Entretanto, durante a Quaresma vamos celebrar missa todas as semanas nas capelas da zona de Qillenso-Gosa.

Cada comunidade, além do catequista, tem um conselho dos anciãos — com representantes dos adultos e dos jovens, homens e mulheres — que cuida do seu andamento. Há ainda a pastoral juvenil e vocacional. Qillenso e Adola têm um grupo de acólitas e acólitos. Em Urdata, há também uma pequena biblioteca de apoio aos alunos da escola média, vizinha da capela. Queremos também usar os computadores da biblioteca de Adola para dar alguns cursos básicos de informática e ligar os computadores à internet para os utentes poderem aprofundar os temas de estudo.

Os catequistas são o braço direito dos missionários na evangelização. Além de presidirem à oração da comunidade, visitam os doentes e preparam os catecúmenos para o batismo — o curso dura dois anos — e as crianças para a primeira comunhão. Reunimo-nos com eles uma vez por mês em Adola e em Qillenso para seguir o andamento das respetivas capelas, dar-lhes alguns conteúdos formativos e resolver problemas que aparecem. Recebem uma pequena ajuda económica.

O Centro Catequético da diocese de Hawassa — que cobre a área de Portugal — prepara cursos regulares de formação para catequistas, jovens e anciãos.

Cada capela tem um campo para conseguir alguma autonomia financeira e cobrir as próprias despesas através da agricultura e do cultivo de eucaliptos. As árvores são cortadas cada três anos para serem usadas na construção civil.

As três capelas e a igreja de Qillenso conseguiram juntar dinheiro suficiente para comprar um teclado para animar as liturgias. Confesso que não gosto muito da evolução, porque o acompanhamento dos cânticos nem sempre é (con)sonante além de ser muito barulhento. Nas capelas, o sistema sonoro e o teclado funcionam com energia solar armazenada em baterias.

15 de fevereiro de 2022

UM SÁBADO EM MISSÃO

 




Adola, seis da manhã de cinco de fevereiro.

Acordo, estremunhado, com o cantar sério e solene de um clérigo ortodoxo através do altifalante da igreja vizinha. A luz que entra pela janela ainda é pálida. O sol, preguiçoso, anda a levantar-se mais tarde.

Depois da eucaristia com as Missionárias da Caridade e do pequeno-almoço volto para o quarto dos hóspedes para preparar a homilia de domingo — como faço todos os sábados de manhã.

Pego no livro das leituras em inglês e guji, na folha onde desenho um pequeno esquema da homilia em inglês e no caderno onde a escrevo em guji. E o dicionário inglês-guji? Esqueci-o em Qillenso! Entro em pânico: como vou escrever a homilia sem o dicionário?

Qillenso fica a 35 quilómetros que Adola e está quase 500 metros mais alto. Vou ter que escrever a homilia sem dicionário. As palavras que não sei escrevo-as em inglês e depois à tarde — tenho de ir a Qillenso — procuro no dicionário.

A rotina da preparação da homilia é simples: rezo as leituras em inglês. Depois faço um pequeno esquema daquilo que a Palavra de Deus me inspira. Por fim, escrevo a reflexão diretamente em guji.

Interessante: só escrevi quatro palavras em inglês! O meu vocabulário está a reconstruir-se aos poucos apesar de a memória já não ser o que era!

Depois do almoço passei por Qillenso para pegar o dicionário e levar pratos e copos para a capela de Urdata, cinco quilómetros mais acima. Amanhã celebram o padroeiro — São Paulo — e prometi ir buscar água com o todo-o-terreno para o almoço da festa. Sim, porque a celebração do tabot — como aqui se chama à festa do padroeiro — termina sempre com uma refeição partilhada!

Na capela, às 15h00, esperavam-me o catequista e um grupo de jovens. Carregamos dois bidões e outro vasilhame de plástico no carro e fomos para a fonte.

Gostei do caminho: a nascente protegida está a uns 20 minutos da capela numa zona verde com alguma floresta e alguns campos agrícolas. Vistas lindas.

Os jovens começaram a encher as vasilhas. O catequista perguntou se conseguia caminhar uns 20 minutos para visitar uma católica que está doente. Sabem da cirurgia que fiz à anca e preocupam-se com os meus limites!

A caminhada foi curta e agradável. Entrámos na casa da doente: uma edificação recente, quadrada, com telhado de zinco e algumas divisórias. Muito diferente das tradicionais cabanas circulares divididas em duas partes.

A senhora estava deitada num colchão. Levantou-se, pôs umas sandálias bonitas em vez dos chinelos que lhe passaram e sentou-se num cadeirão entre o catequista e eu.

Pelo que entendi, sofre de anemia crónica devido aos muitos partos que teve: treze. Foi aos médicos a Adola e a Hawassa, mas não melhora.

Conversamos. Disse-lhe que o fígado mal cozido e a injera — o pão típico de muitos etíopes — são ricos em ferro e podem ajudá-la.

Depois rezamos, impus-lhe as mãos, desejamos-lhe as melhoras e voltamos para a fonte.

Estamos na bona — a estação seca — e das quatro bicas da fonte protegida por uma tanque de cimento coberto só a mais baixa deita água. O enchimento das vasilhas estava a demorar muito mais do que o previsto.

Telefonei às Missionárias da Caridade a dizer que ia chegar atrasado para a missa das 18h00 com os pacientes do centro de acolhimento em Adola.

Um grupito de crianças, curiosas com a presença do farenji — estrangeiro — acercaram-se. Comecei a brincar com elas e tirei algumas fotos. As mais afoitas, chegaram-se ao pé de mim e começaram a tocar nos pêlos dos meus braços. Para a pequenada os cabelos nos braços são uma grande novidade.

«Ani jaldessa fakkata» — «Pareço um macaco» — disse-lhes, na galhofa. Grande risada.

Eram 17h00 quando as vasilhas ficaram cheias.

Descarreguei-as na capela e pus-me a caminho de Adola. Cheguei à capela do hospício pouco antes das 18h30. É uma construção típica, totalmente feita de bambu, uma espécie de cesto gigante com a boca para baixo.

Esta é a eucaristia que mais gosto de presidir. Os pacientes carregam as doenças com um grande sorriso. Cada pessoa participa como pode. A assembleia litúrgica é formada por católicos, ortodoxos e protestantes. Há alguns miúdos! É uma eucaristia tranquila, cantada e rezada em guji, uma oração de agradecimento que chega ao coração de Deus.

As irmãs e os pacientes estavam a rezar o terço enquanto esperavam. Petrosi, o catequista daquela comunidade, orientava-o.

Dado o adiantado da hora, decidi fazer uma pequena reflexão pondo de lado a homilia que tinha preparado. Interessante: as palavras desta vez não me faltaram!

Fui para a cama cedo, depois do jantar, para aproveitar o silêncio e dormir um pouco. Porque no domingo os ortodoxos começam a eucaristia através do altifalante às três da manhã — ou mais cedo. A comunidade das Missionárias da Caridade fica entre duas igrejas ortodoxas!

8 de fevereiro de 2022

VAI UM CAFEZINHO?




Estamos no fim da época da apanha do café nas terras de Qillenso. A altura e a temperatura mais baixa fazem com que as suas bagas amadureçam mais tarde que noutras partes da Etiópia.

A apanha é trabalho árduo, lento, paciente! As bagas encarnadas são apanhadas à mão. Como era a apanha da azeitona em Cinfães, a minha terra. Não há máquinas.  

As flores, a promessa da nova colheita, já se adivinham nos gomos brancos que se formam junto às folhas do cafeeiro.

O café é o ouro vermelho, verde ou negro da Etiópia, a fonte primeira de entradas de divisa estrangeira no país.

A cor? Depende! Se consideramos a casca externa — encarnada, a cor da semente seca — verde clara, ou o café pronto a servir.

A cultura do café foi introduzida nesta parte da Etiópia há cerca de duas década. Dá muito trabalho: o cafezal tem de ser mantido limpo, o café á apanhado à mão, tem de ser seco ao sol… Mas também dá algum dinheiro apesar de os intermediários pagarem menos de um euro por quilo ao produtor. Os ganhos maiores ficam nas cadeias de comercialização.

É o dinheiro do café que, em parte, tem melhorado a vida das pessoas desta área nos últimos vinte anos: têm casas melhores, alimentam-se e vestem-se melhor. Estão mais saudáveis. E podem mandar as filhas e filhos para o ensino secundário e superior, fora da área.

Também temos um cafezal na missão. Dividido em três pequenos talhões. Não é grande, mas dá trabalho que chegue. É um modo de melhorarmos o orçamento da comunidade. E de beber café cem por cento biológico garantido!

O gosto do café cultivado, seco, torrado, moído e feito — fresco — é muito diferente do produto comercializado onde me lês. Aqui não há misturas de lotes: é lote único.

Enquanto vou apanhando as bagas de café, com as mãos ásperas e sujas, os braços doridos pelo esforço de chegar aos frutos mais distantes dos ramos sem os quebrar, ouvindo a sinfonia extraordinária que forma o canto das aves neste paraíso verde ainda com alguma floresta intacta, dou comigo a cismar: quem imaginou que estas bagas encarnadas e carnudas, tipo cereja miúda, depois de secas e descascadas, torradas, moídas e fervidas, seriam a bebida estimulante apreciada por todo o mundo?

Os etíopes dizem que a descoberta é sua!

Café, em amárico — a língua que é considerada nacional — diz-se buna. Mas a palavra internacional para o produto — café, coffee… — encontra supostamente a raiz em Kaffa, a região da Etiópia onde o café crescia selvagem.

Contam que um guardador de cabras deu-se conta de que os animais ficavam muito mais ativos e barulhentos depois de ruminarem as bagas vermelhas de um arbusto na floresta. Foi provar e sentiu-se ligeiramente diferente, mais leve!

Então apanhou algumas bagas, meteu-as na sacola e foi consultar um monge do mosteiro vizinho. Aqueles frutos encarnados seriam coisa de Deus ou do Diabo?

O monge ouviu a história das cabras hiperativas, examinou as bagas que o pastor lhe apresentou e atirou-as para a fogueira que aquecia a noite fria das terras altas etíopes.

Definitivamente aquelas sementes eram coisa do diabo.

Mas, eis que um perfume agradável se desprendeu das bagas em contacto com o braseiro.

Curioso, o monge decidiu tirar da fogueira as sementes tostadas com a ajuda de um chamiço. Colocou-as numa taça com água quente. A água escureceu. O religioso provou a bebida: era amarga, mas gostosa. Para surpresa sua, nessa noite manteve-se desperto na vigília: rezou até à alba sem qualquer ataque de sono.

Afinal aquelas bagas eram coisa de Deus!

E assim foi descoberto o café — cujo nome recorda que vem de Kaffa, na Etiópia. Mas foram os árabes que comercializaram a bebida estimulante. Hoje, o Brasil é o maior produtor mundial de café.

Aqui, até as cascas secas do café são aproveitadas para fazer uma infusão, uma espécie de chá de café, o cafezinho dos pobres.

O café, esse é fervido e temperado de muitas maneiras: com açúcar, cravinho, canela, leite, manteiga, sal…

Na Etiópia, a cerimónia do café é uma liturgia longa. Começa com a preparação do lugar — espalhando erva verde no chão — e o acender do fogareiro a carvão.

Depois as sementes esverdeadas são apresentadas aos convidados, torradas à sua frente, moídas no pilão e fervidas num púcaro de barro próprio, jabená. O café é servida em zi’ina, uma chávena pequena sem asa. Manda a etiqueta que se bebam três xícaras. Depois de cada servir, a fazedora do café — que se mantém num silêncio concentrado, religioso — vai juntando água à jabená para diluir a bebida.

Vai um cafezinho?

12 de janeiro de 2022

AMO


Amo 
        porque vivo,
        porque respiro,
        porque sou,
        porque sim
        porque amo
        para que sejas - confessa Agostinho.

Amo,
        logo existo
        logo és...

11 de janeiro de 2022

NATAL EM JANEIRO





Começo esta crónica com uma explicação: o Papa Gregório XIII promulgou um novo calendário solar — aquele que usamos e que, por isso, chamamos de gregoriano — em 1582 para ratificar alguns problemas com o calendário juliano que é lunar e andava dez dias adiantado em relação ao ano solar. As igrejas ortodoxas, contudo, não o aceitaram e continuam a usar o calendário antigo. Por isso,  o Natal na Etiópia cai a 7 de janeiro. A Igreja etíope faz parte da comunhão ortodoxa. A Igreja católica na Etiópia também celebra o natal no mesmo dia.

A preparação para o Natal etíope é trabalhosa: é preciso decorar as igrejas e as casas, ir à erva aos charcos para colocar no chão, ensaiar os coros, comprar e preparar comida…

No dia 6, durante o almoço, alguém bateu à porta! Pediu para eu ir benzer um boi: a comunidade fez uma vaquinha e comprou-o para o almoço comum da festa! Tive pena do animal…

Notei a azáfama das mulheres a preparar a injera — o pão típico da Etiópia, uma espécie de panqueca gigante feita de farinha de tef, um cereal miúdo — e a bebida: uma mistura de água, mel e uma folha seca moída para dar «pica».

Tivemos a visita de dois colegas que vieram de Adis Abeba (a capital) para passar o Natal connosco: o P. Miguel, comboniano peruano que trabalhou muitos anos em Qillenso e que foi transferido temporariamente para a comunidade provincial, e o P. André, consoles, que está a aprender o amárico numa escola da capital.

Celebrei a missa do galo, no dia 6 à noite, com os utentes do hospício que as Missionárias da Caridade têm em Adola. O espaço estava engalanado com bandeirinhas e alguns presépios. É a casa de cerca de 60 mulheres, 40 homens e 12 bebés rejeitados. Pessoas com problemas graves de saúde que a família e o hospital local abandonaram. As irmãs dão-lhe o amparo possível. Gostei muito de uma estrela gigante de plástico e lâmpadas coloridas com o presépio dentro.

A capela é feita de bambu. Parece um enorme cesto com a boca no chão. Os participantes — de credos diversos — cantaram e rezaram o Senhor no seu nascimento. A liturgia foi pontuada pelo choro de alguns bebés. Algumas senhoras trajavam a rigor com os vestidos bordados e a natalá — a mantinha branca na cabeça e dorso.

A consoada, preparada pelas irmãs de Madre Teresa, foi simples: uma sopa de carne e legumes e uma pequena rosca doce, feita por elas. Soube-me muito bem!

A noite de Natal muito curta: pelas três da manhã, os clérigos ortodoxos começaram a celebrar a missa nas diversas igrejas de Adola, através de sistemas de som em alto volume. Usam o gue’ez — uma língua antiga — na liturgia e a missa é toda cantada! Rezei com eles uma vez que não conseguia voltar a dormir embora não entendesse o que cantavam.

De manhãzinha coube-me o papel de pai-natal: distribuí, com a irmã encarregada da secção masculina, um pequeno cobertor e um saco com algumas guloseimas a cada pessoa. Na secção feminina também houve distribuição de prendas. Tanto homens como mulheres celebraram as prendas com canções e danças tradicionais gujis em que gammadá — alegria — era a palavra de ordem!

Às 9h00, celebrei a missa na Igreja de Adola, dedicada a São Daniel Comboni. O templo estava decorado e umas 70 pessoas tomaram parte na eucaristia que demorou pouco mais de hora e meia. As pessoas estavam vestidas a preceito, muitas envergando roupas novas. No final, distribuímos biscoitos pela petizada para eles também sentirem o Natal de forma diferente. Muitos usavam óculos de sol de plástico — parece que foi a prenda da moda deste ano.

Depois do missa em Adola, fui a Qillenso para almoçar com a comunidade local. Pelo caminho vi portas de muitas casas decoradas com ramos verdes, fitas brancas e balões coloridos. Algumas moto-taxis com que me cruzei também estavam decoradas com balões. As pessoas caminhavam tranquilamente, vestidas a rigor. A festa andava no ar!

A igreja de Qillenso estava repleta de gente e muito bem decorada com flores, balões e erva no chão. Os coros dos jovens e das mulheres esmeraram-se.

No fim da missa — presidida pelo P. Miguel — comemos juntos o boi que eu benzi no dia anterior. A carne foi cozida com e sem pó de piri-piri, uma tradição local. O centro paroquial estava repleto. Os jovens comeram no exterior.

Notei que alguns homens vestiam fatos brancos com uma árvore verde bordada repetidamente — a oda, o símbolo dos oromos. As mulheres estavam resplandecentes com os seus vestidos com bordados tradicionais, a mantinha e os penteados de festa.

À noite fomos jantar com as irmãs em Adola. Começamos por cantar algumas canções de natal em inglês. Há muitos anos que não o fazia! Depois partilhamos uma refeição simples mas alegre onde não faltou o panetone — o bolo de natal típico da Itália — confeccionado por uma irmã romena. As outras quatro são indianas.

A marca maior deste natal etíope foi a amnistia dada pelo primeiro ministro Abiy Ahmed a um grande número de prisioneiros, incluindo figuras da oposição. É o primeiro passo no diálogo de reconciliação nacional que o país precisa para viver em paz.

29 de dezembro de 2021

TENTAÇÕES DE NATAL

Caros amigos,

O Natal chegou pontualmente, como todos os anos. Um acontecimento que desafia e provoca a rotina cinzenta do nosso quotidiano. Uma graça que encontra resistência em nós e é ameaçada por tentações particulares. Este ano venho compartilhar com vocês ... precisamente as minhas tentações! Me ajudareis a vencê-las!

A primeira é a imobilidade. Esperei por este Natal na minha cadeira de rodas. Ele chegou e receio que vá embora e eu permaneça aqui imóvel, sem que nada mude. A ESPERANÇA de alguma mudança foi desapontada muitas vezes. Peço boleia, deixando-me levar pela comunidade, pelos ritos, pelas celebrações ... Mas sei que sem caminhar como os pastores e os Reis Magos não há Natal. Paralisado, peço ao Espírito Santo que me conceda as suas asas de águia. (Isaías 40,31)

Mas existe uma tentação ainda mais insidiosa. A do escândalo! Se a distância de Deus era um obstáculo para mim, agora sua proximidade me escandaliza! Um Deus criança, frágil, indefeso, mortal, é demais para a minha frágil . Um Deus que tem fome e chora, enquanto eu esperava que ele enxugasse as nossas lágrimas! Um Deus juiz que, em vez disso, se torna um réu! Aquele que deveria acabar com a injustiça, ao invés, a sofre! Que Deus é ele ?! Nós realmente teríamos esperado outro! Na minha consternação, peço ao Senhor Jesus a primeira bem-aventurança: Bem-aventurado aquele que não se escandalizar de mim (Mateus 11,6).

Mas não para por aí! Deus põe à prova também o meu AMOR instável! Ele chega mascarado, incógnito! Torna-se o estrangeiro que afirma ter o direito da cidadania em meu coração! Proclama a fraternidade universal! Mas como é possível?! Este Natal dele é definitivamente demasiado revolucionário e subversivo! Com o coração petrificado, a única esperança que me resta é pedir ao Pai que cumpra a sua promessa: Dar-vos-ei um coração novo e introduzirei em vós um espírito novo: arrancarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei um coração de carne (Ezequiel 36,26).

Pai, não nos deixeis cair na tentação de desperdiçar a graça deste Natal!

Mesmo se Cristo nascesse mil ou dez mil vezes em Belém, de nada servirá se Ele não nascer pelo menos uma vez no teu coração (Angelus Silesius,1624-1677).

P. Manuel João, comboniano
Natal de 2021 
Castel d'Azzano (Verona) - Itália

13 de dezembro de 2021

ALEGRAI-VOS


No meio do advento e da quaresma a liturgia convida os católicos à alegria. No terceiro domingo do advento e no quarto domingo da quaresma, tempos litúrgicos penitenciais de roxo vestidos, os paramentos podem ser cor-de-rosa para alegrar as celebrações!

«Alegrai-vos sempre no Senhor. Novamente vos digo: alegrai-vos» — exorta Paulo a comunidade grega de Filipos e cada um de nós.

Estamos habituados a rezar a vida como um vale de lágrimas. O grande amor e a grande dor são o caminho que leva à transformação pessoal, escreve Richard Rohr, o místico franciscano norte-americano.

Contudo, as lágrimas e o sofrimento não são a estação derradeira do peregrinar cristão. «Aqueles que semeiam com lágrimas, vão recolher com alegria. À ida vão a chorar, carregando e lançando as sementes; no regresso cantam de alegria, transportando os feixes de espigas», proclama o salmista.

A alegria do Senhor — que é a nossa fortaleza — é o destino final de cada um! Não é por acaso que o Papa Francisco colocou a palavra alegria no título de três das suas exortações apostólicas: A alegria do Evangelho (o seu programa pontifical), A alegria do amor (sobre o matrimónio cristão), Alegrai-vos e exultai (sobre a santidade nos dias de hoje). 

O advento é tempo de espera alegre. Vivi as duas primeiras semanas deste tempo litúrgico numa espera dupla: a espera do Senhor que vem e a espera do visto ONG para poder voltar à Etiópia. Cada vez que o alarme do telemóvel tocava ia logo à caixa do correio, mas ou era mais um golo do FC Porto, uma atualização da situação da Covid, mensagens via Facebook, Messenger, WhatsApp ou Twitter…

Enquanto esperava tive oportunidade de encontrar ou re-encontrar muitas pessoas — como o Ababayo na foto, de rever lugares…

No advento, não esperamos sentados na berma da vida à espera do milagre do encontro: esperamos vivendo o dia-a-dia com alegria e disponibilidade.

A minha espera não terminou com a chegada do visto uma dezena de dias depois da data em que era esperado. Continuou quando cheguei ao aeroporto internacional de Bole munido de passaporte português e visto ONG na mão.

O oficial de fronteira que me recebeu — que aqui tem o nome pomposo de Agência Etíope para a Imigração, Nacionalidade e Eventos Vitais — mandou-me esperar. Deixou o guichê apressado e foi consultar o supervisor. Parecia que os dois documentos lhe queimavam as mãos.

O supervisor veio com ele e perguntou para que ONG trabalhava. Expliquei que tinha contrato de trabalho como professor voluntário com a Igreja Católica. Apresentei os respetivos documentos.

«Espera ali» — disse, brusco, apontado para um espaço onde não havia ninguém. Esperei uma meia hora. Ainda imaginei que me fossem deportar!

Finalmente o oficial chamou por mim, quis saber a que nível ensinava, carimbou o passaporte e disse para ir-me embora. Que alívio!

Em casa explicaram-me que, uma vez que muitos europeus e norte-americanos deixaram o país com receio de que o conflito com os tigrinos atingisse Adis-Abeba, a chegada de cidadãos desses países é tratada com suspeição!

Hoje entreguei o passaporte e o visto no Secretariado Católico e amanhã prossigo a viagem até Hawassa. Quarta-feira, se Deus quiser, almoço em casa com o P. Hipólito! Entretanto, não reconheceram a minha carta de condução — tinha caducado há dez anos — e ter de fazer exame de código e de condução. De novo! Desaja-me sorte.

10 de dezembro de 2021

FÉRIAS FORÇADAS







Viajei para a Etiópia com um visto de turista, mas, para obter a licença de residência e a autorização de trabalho — oficialmente sou professor voluntário, preciso de um visto ONG. A Igreja Católica na Etiópia — o meu empregador legal — é classificada como organização não governamental.

No fim do mês de novembro viajei para Nairobi, Quénia com um colega da R. D. do Congo que estava nas mesmas circunstâncias para pedir um visto ONG.

O processo — que normalmente leva dois a três dias (no caso do colega) — demorou quase duas semanas para mim. O governo etíope acusa o Oeste de apoiar os rebeldes tigrinos no confronto com o governo federal e pode ser que tenham demorado a passar o visto em retaliação.

Fomos acolhidos em Nairobi — uma cidade em crescimento constante, verde e agradável — na sede provincial dos combonianos. Os colegas receberam-nos fazendo jus à proverbial hospitalidade africana.

Nas duas semanas que aqui passei tive oportunidade de visitar cinco comunidades na capital e inteirar-me de algumas iniciativas da província.

Há dez anos tinha visitado o início da nova missão de Embakasi, numa zona residencial a tomar forma na planície do aeroporto.

Hoje, a paróquia está a funcionar a todo o gas e abriu uma escola secundária em Utawala. A escola, iniciada há quatro anos, tem 125 estudantes divididos por quatro turmas do oitavo ao décimo segundo anos e oito professores. O complexo conta com laboratórios de informática, fisico-química e biologia e um refeitório.

Os missionários planeiam alargar a oferta ao ensino infantil e primário e querem melhorar as instalações desportivas.

O programa de reabilitação Napenda Kuisishi é outro desenvolvimento interessante. Iniciado em 2006, destina-se a tratar e reintegrar jovens dos 13 aos 19 anos com dependência de drogas provenientes do bairro de lata de Korogocho, Nairobi. O programa tem em Kibiko uma quinta para acolher até 26 rapazes que precisam de internamento para serem tratados e reintegrados na sociedade.

Os que estão em idade escolar, voltam para a escola. Em 2017, os combonianos abriram na quinta um centro de formação para garantir um futuro profissional aos jovens recuperados nas áreas de carpintaria, eletricidade, pichelaria, construção civil e serralharia. A formação dura um ano e é totalmente gratuita.

Também visitei a comunidade de Kariobangi onde missionárias e missionários combonianos desenvolvem diversos programas pastorais e sociais, tendo inclusive com um pequeno banco. A igreja paroquial foi alargada e os trabalhos de decoração estão a ser ultimados.

Durante estas duas semanas, tive oportunidade de visitar a Universidade de Tangaza — que nasceu como faculdade de teologia e cresceu noutras áreas do saber — e o centro de estudos de teologia dos combonianos na área. Além de reencontrar o P. Silvestre Hategek’Imana, comboniano ugandês com quem trabalhei largos anos na Etiópia, descobri com surpresa e muita alegria que Ababayo Garramu — um jovem de Haro Waro, a missão onde servi durante seis lindos anos — está no segundo ano de teologia!

Celebrei a solenidade da Imaculada Conceição na casa das combonianas que trabalham no Sudão do Sul, uma oportunidade para rever três missionárias que conheci em Juba. E visitei o Centro de Kivuli no bairro de Riruta, que promove muitas pessoas necessitadas através do ensino, da saúde e do artesanato.

Nestas ferias forçadas também encontrei algumas pessoas amigas que não via há muito e que o acaso nos juntou na capital do Quénia.

Sábado, 11 de dezembro, voo para Adis-Abeba para retomar o meu serviço missionário em Qillenso. Sem mais férias forçadas, espero!

25 de novembro de 2021

REZAR JUNTOS





As Missionárias da Caridade, como são conhecidas oficialmente as irmãs de Santa Madre Teresa de Calcutá, construíram na cidade de Adola um pequeno bairro para alojar 12 famílias que necessitam de apoio porque têm membros com deficiências físicas ou mentais.

Uma das casinhas tem uma divisão que foi transformada em espaço de oração com um pequeno oratório de Nossa Senhora de Fátima.

Todas as segundas-feiras, por volta das cinco da tarde, alguns dos moradores do pequeno bairro juntam-se para a reza do terço com algumas das missionárias e outros católicos da cidade. 

Petrós, o catequista do hospício que as irmãs têm noutra parte de Adola, é quem preside à oração mariana.

Quando estou em Adola também participo. Faz-me muito bem!

Os pai-nossos e as ave-marias são rezados, de vagar, em tom de cantilena com um cântico e uma pequena introdução a cada dezena.

Desfruto imenso daquela hora que passa, tranquila, sem se dar conta, a embalar o coração. Um momento profundo, mágico mesmo, de oração para todos.

No fim do terço, Petrós lê o evangelho do dia e faz uma pequena reflexão-exortação em amárico, a língua comum da Etiópia, porque na cidade há uma mistura de etnias. No interior usamos a língua guji.

Para concluir, pede que dê a bênção. É o único ato que faço como padre! De resto, sou mais um membro do Povo de Deus que reza e canta.

Santo Agostinho escreveu: para vós sou bispo, mas convosco sou cristão!

Em Adola, no terço de segunda-feira, sou cristão com os cristãos. E sinto a força enorme do terço rezado em comunidade.

A missão também se faz com a oração comum!

Rezar juntos é celebrar a presença do Deus unitrino que nos une e abençoa, que é Pai e Mãe — como o invocam os gujis. Porque nos ama e está sedento do nosso amor.

Já comecei a presidir à eucaristia em guji nas comunidades de Qillenso e Adola. Guyaté, uma vizinha que frequenta o décimo segundo ano, corrige a homilia que escrevo e que depois leio.

Voltar a ser criança, reaprender o B A BA aos 61 anos é complicado, mas é possível. Até porque «de tudo sou capaz naquele que me empodera». Faz parte do processo de esvaziamento que a missão pede para poder entrar nesta cultura e viver com este povo a fraternidade ao redor de Jesus — o Senhor da Missão!

18 de novembro de 2021

ETIÓPIA: PRIMEIRAS IMPRESSÕES









O avião aterrou no aeroporto de Adis Abeba — a Nova Flor — por volta das seis da manhã de 30 de Outubro. Na contagem etíope, era zero horas, o início do novo dia. Para mim é a hora zero de uma nova fase de serviço missionário comboniano, 21 anos depois da minha primeira estada na Etiópia.

As montanhas gastas e enrugadas que desenham a linha do horizonte do aeroporto, em cambiantes cinza e laranja, coloridas pelo sol nascente, afirmam que estou a pisar um país antigo, nobre, grandioso. Sagrado.

A cidade parece mais limpa, arrojada, maior. As construções de zinco entre o aeroporto e o centro deram lugar a grandes edifícios modernos, de muitos andares. As avenidas, mais largas e bem pavimentadas. O metro de superfície atravessa, em viaduto, a capital com duas linhas.

O primeiro-ministro Abiy Ahmed Ali dá, de sorriso rasgado, as boas-vindas de um póster gigante na empena de uma torre na Praça da Cruz, o centro da cidade, que também cresceu em altura com edifícios de linhas arquitectónicas ousadas.

Fui caminhar pelas ruas da cidade para a sentir. Um miúdo fixou-me com olhos grandes, ridentes e gritou «China!». Esperava ouvir «Frenji!», estrangeiro! A China está por detrás de boa parte do progresso da cidade e do país. A que custo, não sei! O trânsito, durante a semana, é caótico e o ar muito poluído.

Duas décadas passam depressa e deixam marcas indeléveis de mudança. Contudo, em Novembro de 2020 o país voltou à guerra no Estado do Tigray. Os tigrinos, a etnia que controlou o poder no país desde 1991 até 2018, pegaram em armas para obter mais autonomia do governo federal. Na capital, a guerra sente-se sobretudo através das filas longas para a compra de pão. E do estado de emergência desde o início de Novembro.

Vim para Qillenso, a 435 quilómetros a sul de Adis Abeba, a 5 de novembro, depois de iniciar o processo de legalização da minha estada no país.

A viagem revelou algumas novidades: os grandes bairros sociais na periferia da cidade com inúmeros autocarros para transportar os trabalhadores; a autoestrada entre a capital e Hawassa já tem uns 130 quilómetros — a portagem custa o equivalente a dois euros — e facilita imenso a viagem, tornando-a mais rápida e segura; no Vale de Rift há inúmeras estufas de plástico para o cultivo sobretudo de flores; nota-se um grande desenvolvimento do sector agrícola (muito trigo e tef já ceifados, plantações de vegetais e vinhas); vi mais igrejas ortodoxas ao longo da estrada em competição com as mesquitas; Langano, o lago de águas castanhas, é agora uma estância turística com muitos hotéis novos; Hawassa, a capital do Sul, cresceu muito e transformou-se numa cidade moderna, movimentada, asfaltada; a estrada para Neguele — que passa em Qillenso — está alcatroada até Kebre Menghist, a cidade a 30 quilómetros a sul da missão, que os gujis chamam de Adola, o lugar onde Deus criou as primeiras pessoas. O trabalho foi feito pelos chineses. Na parte sidamo há pontos bastante degradados a pedir intervenção urgente.

Chegamos a Qillenso à noite. Esperava-nos o padre Hippolyte Apedovi, um jovem comboniano do Togo há dois anos na Etiópia.

No sábado fiz o primeiro reconhecimento: a missão — que me acolheu há quase 30 anos — mudou muito. Tem eletricidade (quando há corrente). O sinal da rede móvel é fraco e os dados móveis só funcionam em Adola. A floresta foi devastada para dar lugar a campos de favas, ervilhas, cevada, trigo, milho, tef, café, couves, batatas. A colina, por cima da missão, é agora um eucaliptal. O campo de futebol foi aplanado pelos construtores da estrada. Temos uma pequena plantação de café. A TV via satélite, gratuita, apanha bem a CNN e a BBC de vez em quando.

A casa das irmãs está fechada. E o programa de promoção da mulher também. A clínica quase não funciona. Não há uma congregação com irmãs disponíveis para virem para Qillenso?

A escola, que antes tinha alunos da primeira à quarta classe, agora funciona da quinta à oitava. Tem 187 estudantes matriculados: 102 rapazes e 85 raparigas. As matrículas ainda não fecharam. Os catequistas vieram saudar-me. Alguns são dos meus tempos!

No sábado à tarde fomos a Adola, o novo centro pastoral da missão.

Fiquei impressionado com o desenvolvimento da cidade e, sobretudo, com a presença comboniana: uma biblioteca de apoio aos estudantes do secundário, uma igreja grande dedicada a São Daniel Comboni, um hostel para uma dúzia de alunas e alunos que precisam de apoio para estudar na cidade. Há nove capelas a funcionar na zona.

Celebramos a missa na capela de bambu com os utentes do hospício das irmãs de Madre Teresa, as Missionárias da Caridade: um oásis verde e tranquilo que acolhe bebés abandonados (uns 16), pessoas com doenças graves e terminais e distribui alimentos e remédios aos mais pobres. Cinco irmãs — quatro da Índia e uma da Roménia — encarnam a ternura de Deus por essa gente necessitada.

No domingo de manhã cedinho regressamos a Qillenso para a missa dominical às 9h00. A igrejinha da missão estava cheia.

As pessoas andam mais bem vestidas e parecem mais saudável (graças sobretudo à produção agrícola; antes cuidavam mais do gado que não dava rendimento, porque não o queriam vender). Os cânticos foram acompanhados por uma pequeno órgão eletrónico. Reconheci algumas pessoas idosas. Alguns jovens adultos disseram que jogámos futebol juntos (quando eram pequenos).

A eucaristia (de quase duas horas) terminou com a bênção de meia dúzia de estudantes que durante a semana iam fazer o exame de admissão à universidade. A maioria eram moças. Há 30 anos a carreira académica das meninas terminava para a maioria com a quarta classe. Agora já há jovens de Qillenso com curso superior.

Durante a semana visitamos a missão de Gosa, a uns 30 quilómetros a norte de Qillenso. O lugar onde antigamente só havia a missão cresceu muito. As irmãs e o pároco também partiram de lá e a missão é agoras uma capela de Qillenso. A clínica e a escola primária funcionam com pessoal local. Tem uma igreja nova, ampla. A floresta cedeu espaço à agricultura.

No fim de semana seguinte voltamos a Adola para a reunião dos catequistas da zona, para a missa dominical e para a assistência espiritual às irmãs.

A igreja nova e ampla, lindamente decorada, em anfiteatro, estava bem composta com jovens estudantes, na maioria. A aparelhagem de som de uma igreja protestante vizinha quase que nos abafava! Encontrei duas pessoas que me são muito queridas: Dabalá Elema — que nos ajudava nas traduções dos textos litúrgicos e dos Evangelhos para guji — e Uddessa Jarso — um adolescente que concertava as bolas de futebol e me ajudou na aprendizagem da língua. Ambos têm bons empregos, famílias bem estruturadas.

No domingo à tarde, presidi ao sepultamento de um bebé de quatro meses no cemitério do hospício das irmãs. Impressionou-me a multidão que se reuniu para apoiar à família devastada pela dor e rezar juntos naquele momento de dificuldade.

Em Adola, os ortodoxos começam a cantar e a rezar às 4h00 da manhã através do sistema de som das suas igrejas, em clara competição com os muçulmanos. A oração pode ir até às 10h00. Por isso, é preciso ir cedo para a cama — eu vou às 21h00 — para aproveitar o silêncio e dormir!

Em Adis Abeba, continuam a tratar dos papeis para oficializar a minha presença no país. E da carta de condução.

Por agora, ando às voltas com a língua guji. O meu organismo está a habituar-se de novo aos 2300 metros de altitude. Tempo de paciência e calma!

Aqui, em Qillenso, não se sente o ambiente de tensão provocado pelo levantamento dos tigrinos há um ano. A vida da aldeia decorre tranquila. A estrada regista grande movimento de pessoas e bens, até durante a noite. Em Adola, há recolher obrigatório desde as 19h00 às 5h30 da manhã.

3 de novembro de 2021

A RIQUEZA DO LEITE DE CAMELA


O leite de camela ganha o estatuto de superalimento e afirma-se como fonte de rendimento.

Algumas economias africanas têm beneficiado com as novas dietas divulgadas pelos influenciadores das redes sociais como o consumo de abacate – que já tratei nesta coluna – e a descoberta do tef, um cereal resistente, miúdo e muito nutritivo oriundo da Etiópia que é a base da injera, o pão nacional etíope.

Agora é o leite de camela que ganha o estatuto de superalimento depois de os nutricionistas terem vindo a afirmar os seus benefícios para a saúde. Encontra-se à venda fresco, congelado, em pó, em iogurte, queijo, gelados e até com vodca. Afigura-se como mais uma oportunidade económica para a África, onde vivem mais de 80 por cento da população global dos dromedários. A lista dos maiores produtores mundiais é encabeçada pelo Quénia, seguido da Somália, Mali, Etiópia e Arábia Saudita. Em 2020, o mercado global do leite de camela gerou mais de 2000 milhões de euros. A grande procura e oferta limitada do produto faz crescer o negócio em oito por cento ao ano.

O leite de camela é um recurso alimentar secular para as comunidades nómadas dos territórios áridos no Norte e Leste de África  e no Médio Oriente; é uma fonte nutritiva em tempos de seca, porque o animal continua a dar leite mesmo não bebendo água todos os dias.

A camela ganha à vaca no confronto directo porque o seu leite tem menos gorduras mono e polinsaturadas, é mais tolerado por ter pouca lactose, possui propriedades antimicrobianas e mais vitaminas e minerais (é dez vezes mais rico em ferro, zinco e vitamina C), tem proteínas de insulina e inibidoras das hepatites B e C.

Pela negativa, sobressai o preço – há muito menos camelas que vacas, uma vaca produz 24 litros por dia, enquanto a camela só dá seis, precisa de 13 meses de gestação e leva de 12 a 18 meses a amamentar a cria. Por outro lado, não vivem em explorações intensivas e não se adaptam bem à ordenha mecânica. Depois há o problema do armazenamento e transporte: o leite de camela não aguenta o processo de pasteurização – as proteínas reagem mal ao aquecimento, o que limita o transporte e tempo de prateleira do produto fresco. O problema está a ser resolvido com a introdução da rede de frio: distribuição de frigoríficos solares por parte de algumas ONG e introdução de máquinas de venda refrigeradas no Quénia, onde um litro de leite fresco custa 100 xelins, uns 78 cêntimos.

Uma curiosidade: em árabe as palavras jámal (camelo), jamal (bonito, lindo) e o feminino jamila – que também são nomes próprios – partilham a raiz jml. Quando vivia na Etiópia, todos os anos ia renovar os meus papéis de trabalho como professor numa zona onde havia muitos camelos com mulheres a vender o leite nas ruas. Ao ver os lábios feios, o olhar altivo e o andar desajeitado do animal, perguntava a mim mesmo onde estava a sua beleza. Um dia recebi a resposta: a beleza do camelo é uma beleza útil, porque tudo se aproveita – o leite, a bosta (para cozinhar), o pêlo (para tecidos), a carne, a pele (para tendas) e os ossos (para fabricar instrumentos de trabalho). Lindo!

GUARDADORAS DA ESPERANÇA

— Eu não consigo… não consigo! – repetia sempre Reem, uma jovem beduína palestiniana de 16 anos, sempre que a convidávamos para aprender a u...