24 de janeiro de 2021

DOMINGO DA PALAVRA DE DEUS


O Papa Francisco proclamou o terceiro domingo do tempo comum Domingo da Palavra de Deus há dois anos para que «possa fazer crescer no povo de Deus uma religiosa e assídua familiaridade com as sagradas Escrituras».

A Palavra de Deus é o GPS que guia o povo santo nos caminhos da vida, nas veredas da história, nas calmarias da bonança e nos solavancos da tempestade.

O salmo 119 afirma: «a tua palavra é farol para os meus passos e luz para os meus caminhos».

Jesus, no Evangelho, fala da Palavra de Deus como o rochedo seguro onde alicerçar a construção da nossa vida.

Esta Palavra está na Bíblia, mas também está disponível no coração dos crentes: todos, alfabetos e analfabetos, têm igual acesso a este tesouro, porque «é junto a ti que está a Palavra: na tua boca e no teu coração. Esta é a palavra de fé que anunciamos», recordou Paulo aos cristãos de Roma (10, 8) citando as escrituras antigas (Deuteronómio 30, 14).

Somos filhos de uma cultura que comunica sobretudo através da imagem, recorrendo ao vídeo e à fotografia.

Uma boa imagem vale por mil palavras.

Nas redes sociais usamos a imagem para ilustrar os conteúdos que partilhamos. Imagens às vezes manipuladas…

Hoje, somos convidados a silenciar o coração para que a boca possa proclamar a Palavra que o habita.

Somos convidados a regressar à Palavra convocadora e essencial de Jesus: «cumpriu-se o tempo e está próximo o Reino de Deus: arrependei-vos e acreditai no Evangelho», a notícia feliz.

Acolher a Palavra de Jesus é aceitar o desafio da transformação pessoal e comunitária.

O processo de conversão leva a deixar de fazer o mal para fazer o bem, de pensar para além da mente, com o coração, alavancados no pensamento de Cristo Jesus.

O Papa Francisco recorda que «toda a evangelização está fundada sobre esta Palavra escutada, meditada, vivida, celebrada e testemunhada».

Escutar, meditar, viver, celebrar e testemunhar são os verbos que conjugam a gramática celebrativa da Palavra na vida das comunidades e dos indivíduos.

Ao longo do seu magistério papal, Francisco tem recordado assiduamente, desde a primeira exortação apostólica, que cada cristão é uma missão.

Cada batizado é chamado a encarnar uma dimensão do Evangelho de Jesus.

«Oxalá consigas identificar a palavra, a mensagem ide Jesus que Deus quer dizer ao mundo com a tua vida», augura.

E concluiu: «deixa-te transformar, deixa-te renovar pelo Espírito para que isso seja possível e assim a tua preciosa missão não fracassará».

Que assim seja!

9 de janeiro de 2021

BOA GOVERNAÇÃO EM TENSÃO

 


A governação degrada-se em África após década de ganhos.

O continente africano registou um ligeiro declínio do processo de governação depois de uma década de melhorias progressivas, apesar de 61,2 por cento da população viver num país onde a governação geral é melhor que em 2010. O aviso é do Índice Ibrahim de Governação Africana 2020, publicado pela Fundação Mo Ibrahim.

O estudo mede a governação sob quatro categorias: segurança e Estado de direito; participação, direitos e inclusão; desenvolvimento humano; e bases para a oportunidade económica. Cada categoria está subdividida em 16 subcategorias num total de 79 indicadores. Os dados para avaliar cada indicador foram recolhidos de 35 bases independentes e externas.

O índice, que verifica desde 2007 o desempenho dos governos dos agora 54 países africanos, define governação como provisão de bens e serviços políticos, sociais, económicos e ambientais que cada cidadão tem o direito de esperar do seu governo, e o governo tem a responsabilidade de prestar aos seus cidadãos.

Globalmente, em 2019 as bases para a oportunidade económica e o desenvolvimento humano melhoraram, enquanto os indicadores de segurança e Estado de direito e participação, direitos e inclusão decaíram. Na última década, houve melhorias sobretudo nas áreas das infra-estruturas, saúde e sustentabilidade ambiental, enquanto a segurança e Estado de direito pioraram com a erosão dos direitos e do espaço democrático e cívico.

Três Estados insulares encabeçam o índice da governação: Maurícias, Cabo Verde e Seicheles. Tunísia, Botsuana, África do Sul, Namíbia, Gana, Senegal e Marrocos completam a lista dos dez países mais bem governados. Os dez menos são, do pior para cima, Somália, Sudão do Sul, Eritreia, Guiné Equatorial, República Centro-Africana, República Democrática do Congo, Sudão, Chade, Líbia e República do Congo.

Em 2019, a Gâmbia foi o país que registou mais avanços na governação, enquanto a Líbia, perdida numa guerra civil destruidora desde que o Coronel Kadhafi foi morto em 2011, é o que mais piorou.

Quanto aos restantes países africanos de expressão portuguesa, São Tomé e Príncipe ocupa a posição 12, Moçambique a 26, Guiné-Bissau a 41 e Angola a 43. Angola, contudo, é o terceiro país a registar avanços maiores na governação nos últimos cinco anos, com a mudança de liderança. Aliás, é um dos sete países que em 2019 registaram uma melhoria nas quatro categorias do índice, juntamente com o Chade, Costa do Marfim, Etiópia, Seicheles, Sudão e Togo.

O estudo também reflecte sobre o efeito da covid-19 na governação. A pandemia obrigou ao adiamento de eleições e medidas de contenção do vírus estão a ser usadas nalguns países para interferir com a oposição em processos eleitorais em curso. O confinamento foi aplicado à força em alguns Estados e a repercussão social e económica da pandemia pode gerar agitação social. O impacto económico é dito dramático e a capacidade para mitigar os efeitos da pandemia no desenvolvimento humano é muito limitada.

4 de janeiro de 2021

O MEU DESEJO PARA 2021


Que 2021 seja um ano pacífico, abençoado pelo Senhor! Mas sem atirar 2020 para o caixote do lixo, ou mesmo chamar-lhe um ano amaldiçoado. Este ano difícil confirmou a minha convicção da preciosidade e beleza da vida na sua fragilidade constitutiva, da importância do afecto e da solidariedade, da urgência de cuidarmos uns dos outros e da nossa casa comum. Não, o ano de 2020 não é para ser esquecido, mas sim para ser recordado, com dolorosa gratidão!

Um cantadutor diz: "Há uma fenda em tudo, é assim que a luz entra". 

Não há nada de perfeito na vida, mas os limites desempenham um papel decisivo: podem tornar-se fendas de luz. 

As fendas de 2020 revelaram a loucura e a superficialidade de tantos dos nossos hábitos, que trouxeram à luz os verdadeiros valores da vida.

Como crente, gostaria de confiar 2021 a São José, a quem o Pai confiou a tarefa de cuidar do Seu Filho, que se tornou frágil como nós. E como uma boa resolução para 2021, proponho terminar o dia com a oração que o Papa Francisco tem recitado a São José há mais de 40 anos, uma vez que este ano lhe será dedicado:

“Glorioso Patriarca São José, cujo poder consegue tornar possíveis as coisas impossíveis, vinde em minha ajuda nestes momentos de angústia e dificuldade. Tomai sob a vossa proteção as situações tão graves e difíceis que Vos confio, para que obtenham uma solução feliz. Meu amado Pai, toda a minha confiança está colocada em Vós. Que não se diga que eu Vos invoquei em vão, e dado que tudo podeis junto de Jesus e Maria, mostrai-me que a vossa bondade é tão grande como o vosso poder. Amém”.

Gostaria de colocar uma pequena nota debaixo da cabeça de José no seu repouso todos os dias (como faz Francisco) com as vossas preocupações e necessidades no fim do dia! É também para mim uma forma de cuidar daqueles que Deus me confiou através de laços de família, amizade, proximidade e missão.

Feliz Ano Novo para vós, meus amigos!

Manuel João Pereira Correia

24 de dezembro de 2020

UM NATAL DIFERENTE? QUEM DERA!

Caros amigos,

Todos dizemos que este Natal vai certamente ser diferente, devido às circunstâncias de confinamento impostas pela pandemia. Diferente, porque não nos podemos encontrar, celebrar, abraçar... Mas eu diria: talvez fosse realmente diferente para nós, aproveitando a oportunidade para descobrir e reviver o significado profundo e cristão do Natal do Senhor.

Alguns dizem mesmo que este ano não haverá Natal. Felizmente, Deus é fiel às suas promessas. Sim, haverá um Natal do seu Filho. Podemos ter a certeza disso. Vamos arranjar espaço para Ele na nossa casa, e este ano há espaço que chegue para Ele. Mas ele não vem como convidado, para nos fazer uma visita de cortesia, mas para ficar connosco todo o ano, para ser um de nós, um da casa. Não há necessidade de se envergonhar, ele não espera um palácio real. Está habituado à pobreza, desconforto, desordem, sujidade... Não vamos fechar-lhe o fundo do nosso coração, mas sim deixá-lo entrar ali mesmo, no lugar da nossa miséria, da nossa vergonha, dos nossos instintos carnais. Não foi por nada que ele foi deitado numa manjedoura? Sim, VEM JESUS AO MANTO DO MEU CORAÇÃO!

Fiquei comovido com a história de Manuel, um rapaz siciliano "que falou com Jesus", que morreu em 2010, aos nove anos de idade, após cinco anos de luta contra um tumor. Na véspera de Natal de 2009, numa carta aos seus colegas de escola ele disse: "Quando a minha vida era sombria e triste, conheci um Amigo muito especial. Ele deu-me a sua mão e eu confiei Nele. E foi assim que Ele veio para sempre ao meu coração. É um Amigo que não se consegue ver, mas Ele está lá. Ele nunca me deixa em paz. Ele abraça-me ao Seu coração e diz-me: "O teu coração não é teu, mas meu, e eu vivo em ti"! Ele é um Amigo muito, muito especial". No dia da sua Primeira Comunhão, confidenciou à sua mãe algo surpreendente e indecifrável que se tornaria habitual para ele: "Mamã, ouvi a voz de Jesus, tal como tu ouves a minha, mas consegui falar com Ele e Ele respondeu-me no meu coração. Que bonito! Estou feliz".

Este Natal, Senhor, peço-Te: DÁ-ME O CORAÇÃO DO MEU MANUEL, porque o Pai esconde "estas coisas dos sábios" e revela-as aos "pequeninos" como ele.

Ao celebrarmos este Natal não podemos ignorar o sofrimento de tantos que vivem na pobreza, vítimas de injustiça e violência, e muito menos esquecer os nossos entes queridos levados pela pandemia. Os nossos pensamentos vão para eles também. Na minha comunidade missionária perdemos dezoito, um terço dos nossos confrades. A nossa comunidade de idosos e doentes é uma sala de partos, onde devemos ser entregues à Vida. Mas este não foi um parto natural, mas sim um parto traumático, um parto por cesariana!

Neste Natal do Senhor também gostaria de expressar este desejo: FELIZ DIES NATALIS a todos os nossos irmãos e irmãs que morreram devido ao vírus!

Um Natal diferente para todos!
P. Manuel João Pereira Correia, Missionário Comboniano 
Castel D'Azzano (VR) 23 de Dezembro de 2020

22 de dezembro de 2020

NATAL SEM MEDO


É espantoso: uma pessoa lê, relê e volta a ler vezes sem conta os relatos evangélicos e há sempre algo de novo que mexe connosco, que nos tira do conforto das seguranças mentais ressessas, do sossego dos esquemas empoeirados de interpretação.

Na preparação para esta quadra natalícia fui surpreendido pela voz de comando «Não tenhas medo» que tomou conta do meu coração: 

— «Não tenhas medo, Zacarias»;

— «Não tenhas medo, Maria»;

— «José, filho de David, não tenhas medo»;

— «Não tenhais medo, pastores»…

Nos quatro quadros evangélicos (as anunciações a Zacarias, a Maria, a José e aos pastores) os portadores do imperativo divino são anjos: Gabriel e companheiros…

«Não tenhas/tenhais medo» é o pregão divino que atravessa a bíblia inteira do livro do Génesis ao Apocalipse de São João, repetido mais de uma centena de vezes nas páginas sagradas.

Neste Natal, em estação pandémica global, a Palavra convida-nos a desarmar o medo.

Tememos ser infetados pelo novo coronavírus, que outros nos transmitam a Covid 19, temos medo da solidão, dos beijos e abraços, de perder o trabalho, de perder a vida…

Em plena pandemia voltamos a ouvir o pregão angélico natalino: «Não tenhas medo!».

O medo em si é um alarme, uma luz vermelha que, em situações de perigo, alerta: «Tem cuidado!».

Mas quando a efervescência provocada pelo caldo hormonal da adrenalina e cortisol, hormonas do medo, toma conta das entranhas, o medo paralisa, afeta seriamente o corpo e o coração e periga o quotidiano…

Daí, o imperativo divino «Não tenhas medo».

Mediado por tantos anjos, rostos e corações que Deus nos envia, para nos manter felizes.

Daniel Comboni escreveu que «o verdadeiro apóstolo não deve ter medo de nenhuma dificuldade, nem sequer da morte», porque «nunca se pode ter medo quando vela por nós com piedoso afã Aquela que se denomina Rainha dos Apóstolos».

Foi o que o anjo anónimo anunciou aos pastores que pernoitavam com o gado nos descampados de Belém: «Não tenhais medo! Eis que vos anuncio uma boa nova, que será uma grande alegria para todo o povo: nasceu-vos hoje na cidade de David, um salvador, que é Cristo Senhor».

E ajuntou: «E isto será para vós o sinal: encontrareis uma criança envolta em panos e deitada numa manjedoura».

Deus não teve medo de encarnar a realidade humana na vulnerabilidade frágil de um bebé indefeso, nascido numa gruta que protegia os animais mais delicados e os pastores do relento da noite. E estabeleceu a sua tenda entre nós para caminhar connosco os caminhos da vida e ser Caminho. Também no meio da pandemia.

Nesta hora de crise sanitária, económica, social e eclesial, Ele está connosco e faz natal dentro de cada um de nós, não num presépio que se arma e desarma cada ano, ao ritmo dos dia. Mas num presépio vivo e ao vivo em que os figurantes somos tu e eu, todos!

Vai ser um Natal diferente por culpa do SARS COV-2. Um Natal mais despojado, mais sóbrio, mais simples, mais essencial, mais genuíno. Com menos pessoas, mas com mais espaço efetivo e afetivo para com quem o vamos viver.

Feliz Natal, sem medo! Mas com cuidado!

21 de dezembro de 2020

UM NATAL DIFERENTE


Saúdo-vos desde Guilguel Beles, região de Benishangul-Gumuz, Etiópia, onde me encontro.

Aproxima-se o Natal para vós (aqui iremos celebrar o nascimento de Jesus a 7 de Janeiro) e, por isso, quero desejar a todos vós e a toda a vossa família um santo Natal.

Este será, certamente, um Natal diferente. A pandemia Covid-19 limitou as nossas vidas, obrigou-nos a recordar que somos pó, que a nossa vida é frágil e, ao mesmo tempo, preciosa. É, pois, esta vida frágil mas preciosa que celebramos no Natal: um menino nasceu para nós.

Isso é o que mais desejo neste Natal: que o Deus Menino, frágil mas precioso, nas nossas vidas nasça para todos nós, pois Ele é o Príncipe da Paz.

Estou em segurança, graças a Deus. Mas a instabilidade que existe nesta região impediu a abertura das escolas até aqui, impediu-me de visitar aldeias Gumuz onde fui feliz e onde tenho amigos que quero abraçar (aqui não há Covid-19, ou melhor, o Covid é outro).

Duas semanas atrás, o centro de saúde gerido pelas irmãs Combonianas foi assaltado e levaram os três microscópios. Não bastava que todos os trabalhadores não Gumuz (só um é Gumuz) tenham regressado a suas casas com receio de que algo lhes aconteça, senão agora também não haver microscópios tão importantes para analisar a existência de doenças como tifo, tifóide ou malária.

Pode parecer uma realidade difícil e que nos faz desanimar (e por vez é verdade). Mas esta realidade também nos ajuda a perceber que a missão pertence a Deus e que nós devemos ser meros instrumentos do seu amor: servos inúteis somos, fizemos o que devia ser feito.

Não acredito que Deus queira o nosso mal, roubos ou mortes. Mas sei que aproveita o mal ou sofrimento por que passamos para nos transformar e ajudar a sermos melhores, com a sua presença em nós.

Eu e o David, meu companheiro de missão, recomecámos algumas actividades e iniciámos outras, tais como aulas de inglês em Guilguel Beles e Mandura, aulas de matemática aos alunos da escola de Mandura, mesmo com as escolas fechadas, actividades com os jovens, entre outras.

Obrigado a todos pela vossa colaboração, especialmente através da oração.

Este ano soubemos que uma doença nos pode tirar quase tudo, mas este Natal recorda-nos que um Menino nasceu e nasce para nós e connosco está.

Feliz e Santo Natal

Pedro Nascimento, Leigo Missionário Comboniano

17 de dezembro de 2020

NOVENA DO Ó


A comunidade católica começa hoje a Novena do Ó, a novena que prepara o Natal. 

1. Do Ó, porque sete das antífonas do aleluia dessas nove missas começam por Ó:
  • Ó Sabedoria do Altíssimo, que tudo governais com firmeza e suavidade: vinde ensinar-nos o caminho da salvação. 
  • Ó Chefe da casa de Israel, que no Sinai destes a Lei a Moisés: vinde resgatar-nos com o poder do vosso braço. 
  • Ó rebento da raiz de Jessé, sinal erguido diante dos povos: vinde libertar-nos, não tardeis mais. 
  • Ó Chave da casa de David, que abris e ninguém pode fechar, fechais e ninguém pode abrir: vinde libertar os que vivem nas trevas do cativeiro e nas sombras da morte. 
  • Ó Sol nascente, esplendor da luz eterna e sol de justiça: vinde iluminar os que vivem nas trevas e na sombra da morte. 
  • Ó Rei das nações e Pedra angular da Igreja: vinde salvar o homem que formastes do pó da terra. 
  • Ó Emanuel, nosso rei e legislador, esperança das nações e salvador do mundo: vinde salvar-nos, Senhor, nosso Deus. 
2. Do Ó, porque a Senhora do Ó, no fim da gravidez, está a terminar uma penosa viagem de mais de 150 quilómetros entre Nazaré e Belém de Judá para cumprir o dever cívico do recenseamento.

3. Do Ó, porque somos convidados a acolher o espanto, a admiração ao contemplar Deus que encarna o inteiro humano viver por inteiro, e nasce, frágil e vulnerável, fora da cidade de Belém, por não haver espaço para ele e para a sua família na cidade abarrotada de recenseados.

«SENTIMOS PROFUNDA NECESSIDADE DE CELEBRAR O NATAL!»

 

«Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor» (Lucas 2, 10-11).

O Natal aproxima-se e nós vamo-nos preparando para acolher Deus que vem. O anúncio dos anjos ressoa nos céus e sobre a terra. É um anúncio claro, inconfundível e portador de alegria e esperança: Hoje nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo e é Senhor. Este anúncio é para o nosso hoje e é para todo o povo de Israel e para todos os povos da Terra.

Todavia, toda a humanidade está a viver uma situação crítica e difícil que atinge todos sem distinção. Todos sentimos o peso e o sofrimento desta pandemia que expôs a nossa fragilidade e os nossos limites, revelou os nossos medos, alterou os nossos comportamentos. Entre as vítimas, há também um bom grupo de confrades nossos que experimentaram o sofrimento e até a morte. Estamos todos, verdadeiramente, no mesmo barco e ainda no mar alto! Não obstante a dor e a perturbação, não faltaram gestos concretos de caridade e solidariedade para ir ao encontro das gentes. Nesta realidade sombria e ao mesmo tempo cheia de luz, fomos desafiados a ler os sinais dos tempos e dos lugares com os olhos da fé e a descobrir em tudo a presença de Deus.

É neste contexto de sofrimento e perturbação que somos chamados a viver com fé o Natal deste ano 2020. Em vez de dizer como muitos que não haverá Natal, nós sentimos a profunda necessidade de o celebrar e de estar despertos para receber Deus no nosso mundo e viver este acontecimento em espírito de humildade e de oração contemplativa. Ele vem em cada dia e em cada circunstância, vem sem se cansar, como Luz que refulge nas nossas trevas para habilitar-nos a ver a realidade com um olhar positivo e novo. Faz-se presente na fragilidade da nossa carne para assegurar-nos que é nela que se revela o seu poder salvador. Ele aproxima-se da humanidade ferida para a curar e para estimular em todos o desejo da fraternidade. Surge como a alba de um novo dia que vence o medo e abre à Esperança. Fixando o nosso olhar no Menino-Deus de Belém apercebemo-nos que tudo o que é humano é tocado pela sua Presença, muitas vezes escondida nas dobras da História. Ele é verdadeiramente o Emanuel. Deixando-nos envolver pelo mistério da incarnação seremos repletos de assombro e gratidão.

Na sua visita a Belém, Comboni comove-se ao contemplar o lugar onde Jesus nasceu: Entrei, e embora o nascimento seja mais alegre que a morte, fiquei mais comovido que no Calvário ao pensar na complacência de um Deus que se humilhou até ao ponto de nascer num estábulo (Escritos 111). Também nós, deixemo-nos comover pela sua presença no nosso quotidiano e no seio dos povos entre os quais vivemos. O nascimento do Menino-Deus, impele-nos a descobri-lo nas pessoas, sobretudo os mais pobres descartados, e a percorrer os caminhos da Vida juntamente com eles. Somos convidados a romper a carapaça da indiferença e do individualismo, a construir uma fraternidade aberta onde cada um é reconhecido, amado e valorizado independentemente do lugar do mundo onde nasceu ou habita (cf. Fratelli tutti, 1). A contemplação da Palavra feita carne leva-nos à conversão, a escolher estilos de vida simples e a centrar-nos no Essencial.

A situação difícil em que nos encontramos é um apelo a estar atentos aos sinais de Deus na História para encontrar os caminhos novos da missão. A contemplação da Incarnação de Deus faz-nos estremecer de gratidão e de assombro e abre-nos à solidariedade e ao empenho apaixonado a favor dos irmãos e irmãs mais pobres e abandonados na esteira de São Daniel Comboni.

Queremos viver este Natal juntamente com toda a Humanidade, deixando-nos transportar pelo amor que emana da gruta de Belém e nos faz ser sinais de alegria e de esperança. A Virgem Maria, que viveu de modo particular a espera do Salvador e o acompanhou do nascimento até à cruz, nos guie no nosso caminho tantas vezes penoso e nos transforme em testemunhas credíveis da Salvação trazida por Jesus.

Desejamos-vos um Santo Natal e um Ano Novo 2021 repleto de grande paixão missionária a caminho do Capítulo Geral.
O Conselho Geral

16 de dezembro de 2020

JESUS NASCEU PARA MIM


JESUS NASCEU PARA MIM!

Sim! Ele nasceu, porque eu existia! Mas, por causa dos meus pecados, das minhas transgressões, estava muito longe de Deus e, num movimento de Misericórdia do Seu Coração, quis trazer-me a grande alegria de me tornar um filho (uma filha) de Deus.

Para realizar essa façanha, a um certo momento da História, a que S. Paulo chama a «plenitude dos tempos», Deus voltou-se para mim, viu a minha miséria e teve compaixão de mim, por isso, «enviou o Seu Filho, nascido de Mulher (MARIA), … para que eu recebesse a adoção de filho (filha)» de Seu Pai (cf. Ga 4,4-7). Agora «já não sou eu que vivo é Cristo que vive em mim, … porque o Filho de Deus me amou e se entregou a si mesmo por mim» (Ga 2,20).

Eis a grande verdade: o meu Irmão, Jesus, nasceu para mim, viveu para mim e morreu por mim, para me resgatar do pecado e da morte e para que eu viva para toda a eternidade com Ele na casa do Pai.

JESUS NASCEU PARA MIM!

Sim! Ele nasceu de Maria Santíssima e continua vivo dentro de mim, para sempre, se não O expulsar com o meu pecado.

Ele não nasceu só para estar em grutas num presépio, num tempo muito distante, ou para ficar fechado dentro dum Sacrário sozinho nas nossas Igrejas. Não! Ele quer que eu seja um Tabernáculo Vivo que O leva para toda a parte para onde vou, para que, em mim, Ele possa contemplar comigo as maravilhas que o Pai criou e abençoar todas as pessoas que encontro no meu caminho.

Esta é uma grande verdade que cada um e cada uma de nós pode repetir, sem medo de errar: JESUS NASCEU PARA MIM!

Esta realidade pode confortar-nos grandemente no meio desta pandemia, onde vivemos, sabendo que a nossa vida está nas mãos do Pai agora e para sempre.

O Natal não é uma coisa banal, que celebramos na noite e no dia de Natal, num lindo presépio, mas que depois o metemos num cartão e o arrumamos até ao próximo ano.

Não! O natal é o nascimento do Deus-Menino, que nasce e renasce cada dia dentro de nós, cada vez que O recebemos no Sacramento da Eucaristia. Para celebrar com dignidade uma festa (Natal), é deixar que o Aniversariante (Jesus) esteja presente.

Peço a Nossa Senhora, a S. José e ao nosso Jesus, que vos encham das suas graças, para viverdes este tempo natalício, na paz e na alegria com a ternura do Menino Jesus, que nasce para cada uma e cada um de nós.
P. Alfredo Neres (RD Congo)

9 de dezembro de 2020

DÁ-ME ASAS



Proclama o Profeta:
«Aqueles que confiam no Senhor
renovam as suas forças.
Têm asas como a águia.»
Dá-me asas, Senhor,
para voar mais alto,
mais longe,
mais livre,
para ver o mundo com olhar de águia,
para Te contemplar mais de perto,
para aprender melhor o amor!
Confio em Ti, em quem tudo posso,
porque me empoderas e susténs.
Faz-me de novo, Oleiro amado.
Sou obra das tuas mãos criadoras,
da tua amorosidade.
Amen!

7 de dezembro de 2020

O OUTRO PULMÃO


A floresta da bacia do Congo pede atenção urgente.

A comunidade internacional segue, com alarme, os grandes incêndios que, anualmente, reduzem a cinzas grandes extensões da Amazónia. Um dos pulmões do planeta tem vindo a sofrer perdas irremediáveis de floresta e de biodiversidade por causa das queimadas e do abate ilegal de árvores. Contudo, o outro pulmão da Terra está a sofrer a mesma pressão ambiental: a floresta tropical da bacia do Congo, no coração da África, que ocupa quase dois milhões de quilómetros quadrados da costa atlântica às montanhas do Rift, onde o rio nasce.

A floresta tropical e equatorial da bacia do Congo, um ecossistema formado por rios, florestas, savanas e pantanais, estende-se por seis países: Camarões, República Centro-Africana, República Democrática do Congo (que detém a maior parte da selva), República do Congo, Guiné Equatorial e Gabão. A floresta dá sustento, água e protecção a 80 milhões de pessoas, de 150 grupos étnicos diferentes, incluindo pigmeus, um grupo de caçadores-colectores de baixa estatura que têm um estilo de vida profundamente ligado à mata.

A floresta congolesa é um repositório valioso de cerca de 20 por cento das espécies do planeta: inclui 10 mil espécies de plantas tropicais, 1300 espécies de aves, 900 de borboletas, 700 de peixes, 400 de mamíferos, 400 de répteis e 336 de anfíbios. Além disso, a floresta é rica em madeiras, petróleo, diamantes, ouro e tântalo (um metal raro fundamental para a indústria dos telemóveis).

A pressão sobre este grande depósito de biodiversidade é enorme e passa pela deflorestação para a produção de carvão (a fonte de energia mais comum), agricultura industrial (produção de óleo de palma e borracha), extracção de minerais (ilegal, na maioria, controlada por grupos armados à margem do Estado) e caça.

Entre 1990 e 2000, a floresta congolesa perdeu mais de 90 mil quilómetros quadrados, o equivalente à área de Portugal. Especialistas projectam que a este ritmo entre 2010 e 2030 outros 250 mil quilómetros quadrados venham a desaparecer, o equivalente a 10 por cento de toda a área. No limite, em 2100 não haverá mais floresta tropical na bacia do Congo, como alertou o presidente Félix Tshisekedi, se os índices de crescimento da população e de procura de energia se mantiverem.

A biodiversidade animal também se encontra em risco devido à caça furtiva e ao tráfico de marfim. Os povos da floresta têm o hábito de consumir caça brava, incluindo macacos e antílopes. Só a República Democrática do Congo consome mais de um milhão de toneladas de animais selvagens por ano. Nos Camarões, o comércio de carne selvagem chega a render 122 milhões de euros por ano. O consumo de caça também está na origem de alguns surtos de ébola.

A floresta tropical da bacia do Congo precisa de uma gestão sustentada para continuar a dar o sustento aos seus habitantes e manter o seu papel activo no controlo das mudanças climáticas e no armazenamento de dióxido de carbono, contribuindo para um planeta mais saudável. A Parceria da Floresta da Bacia do Congo é uma iniciativa que desde 2002 visa promover a conservação e a gestão responsável das suas florestas.

6 de dezembro de 2020

CANTONEIROS DE DEUS

 


O advento é tempo de romper caminhos: de preparar os caminhos do Senhor para acolher Aquele que é o Caminho, o Emanuel, Deus-connosco, porque caminha connosco.

«A Palavra fez-se carne: estabeleceu a sua tenda entre nós», proclama João no prólogo do seu Evangelho.

Jesus é caminho, porque faz caminho connosco, nómada com os nómadas de Deus.

Os primeiros cristãos definiam-se como os do Caminho.

António Machado, o grande poeta catalão, escreveu: «Caminhante, não há caminho, / faz-se caminho ao andar».

O Evangelho de Marcos começa com o pregão de João Batista — que se eleva das vastidões profundas do deserto, o lugar de Deus e do encontro com Ele: «preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas» através do batismo de conversão para perdão dos pecados.

Caminhar o caminho de Jesus pede mudanças na vida e de vida. 

Converter-se é deixar de fazer o mal para fazer o bem, passar da nossa cabeça — que tudo justifica — ao nosso coração para repousar no Coração de Deus.

No advento, Deus faz-nos seus cantoneiros, novos batistas que encorajam as pessoas a regressar aos caminhos do Senhor. Cuidadores dos caminhos de Deus no coração de cada pessoa.

"O Vicariato da África Central foi pelos caminhos que a Divina Providência traça a todas as obras santas: o caminho das provas, das lutas e do triunfo», escreveu São Daniel Comboni.

João vestia-se com peles de camelo e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. Vivia no deserto e do deserto. Tinha um estilo de vida sustentável.

Nós, os cantoneiros de Deu, temos que aprender a viver uma sobriedade feliz, sustentável, ecológica.

5 de dezembro de 2020

BOAS FESTAS DE CHIKOWA


Saudações em Jesus, o EMMANUEL.

Espero que o COVID vos tenha deixado tranquilos. As notícias que chegam daí não são as melhores. Esperamos que o medo não supere a serenidade e a prudência que a situação exige. 

Por aqui vive-se como se o bichinho não existisse. Esperamos que continue assim porque esta gente já tem quanto baste: malaria, SIDA, fome… Como aqui faz muito calor pensamos que o bichito não quer queimar o “rabinho”, salvo seja!... Antes assim!

Continuamos à espera das chuvas que acalmem este calor abrasador. Já deram os primeiros sinais e agora estamos esperançados que o futuro possa ser melhor. 

Entretanto, aguentam-se os meses mais duros até à novas colheitas. Esta gente ensina-me que nunca podemos desanimar e que há que viver na esperança de que algo melhor há-de vir. Também para vós melhores dias virão. O bichinho não há-de vencer.

Mando o cartãozinho natalício que preparei para este Natal. Possa o EMMANUEL encher-vos de esperança e das suas bênçãos.

Unidos na oração e na missão.

O amigo de sempre, 
Manuel Pinheiro - Zâmbia


4 de dezembro de 2020

TRÊS GRANDES PAIXÕES: JESUS CRISTO, COMBONI, MISSÃO


Irmã Clarisse Neves da Conceição – Missionária comboniana
Soito 27.11.44 – Lisboa 2.12.2020

Aos 76 anos de idade, o Senhor chamou a irmã Clarisse, depois de vários anos de sofrimento causado pela doença de Alzeimer. Visitei-a a última vez, já numa casa de saúde, em setembro de 2019. Nessa altura, apesar de não me reconhecer ainda cantou o fado com as palavras: “o meu destino é ser missionária”, em vez de “o meu destino é ser monge!” do cantor Hermano da Camara.

Nasce de uma família humilde com 8 irmãos, 4 rapazes e 4 raparigas. Uma família sã e feliz onde se respira Deus. Um lar de gente com talento. O pai era o carteiro e conhecia todas as pessoas da aldeia com mais de 3.000 habitantes.

Entra nas Missionárias Combonianas e faz os primeiros votos em 1972. Depois de alguns anos de preparação é destinada a Moçambique onde viveu a maior parte da sua vida, em tempos de grande sofrimento como tempo da guerra civil e em tempos de paz, depois do fim da guerra e do tempo de reconstrução do país completamente destruído no fim da guerra em 4 de outubro de 1992. Tive a graça de viver com ela a mesma missão e partilhar da sua alegria.

Em breves palavras, direi que a irmã Clarisse teve três grandes paixões na sua vida: jesus cristo, comboni e a missão. Foram estes os amores que a nortearam, lhe deram sempre uma grande alegria e causavam grande emoção na sua vida. Ela será recordada sempre pelo seu modo simples e descontraído de se aproximar das pessoas, para transmitir o Evangelho da vida sobretudo às mulheres moçambicanas e aos leigos a quem dedicou todas as suas energias. Tinha um caracter alegre e bem-disposto, atento e disponível. Era favorecida por um grande sentido de humor que a ajudava a ultrapassar tantas dificuldades próprias da missão.

Desde 1974 até 2014 esteve sempre em Moçambique embora com alguns períodos de formação ou trabalho na Itália ou em Portugal. A terra moçambicana e o seu povo tinham cativado o seu coração de um modo especial. Falar de Moçambique fazia-a saltar de alegria e emoção.

Era uma pessoa livre, alegre, gostava de cantar, sobretudo o fado. E este carisma nunca a abandonou mesmo na doença. Numa das últimas visitas que as irmãs combonianas lhe fizeram na casa onde se encontrava, ainda cantou o Ave de Fátima com a mesma emoção de uma jovem que canta para a sua querida mãe.

Clarisse consumiu a sua vida ao serviço do Reino, sempre com muita paixão e alegria. Ela descansa agora no abraço materno de Deus. Estamos certos de que continuará a cantar o fado a Maria, o seu fado missionário, espalhando alegria no Céu e na terra. Que a sua intercessão juntamente com Comboni desperte muitas e santas vocações missionárias nos jovens moçambicanos e portugueses.

P. Jeremias Martins (Vigário geral dos Missionários Combonianos)

3 de dezembro de 2020

MARAVILHA!


Estremece cada fímbria do meu ser,
arrepia-se cada célula do meu corpo,
ao ouvir que sou obra maravilhosa
moldado na bondade de Deus
pelas mãos do Amoreiro
a quem dou glória
vivendo a vida até ao último alento
com que devolvo o beijo
que o Papá depositou na minha boca
quando nasci.
Então eu sou Ele, sou eu!

18 de novembro de 2020

MORTES INJUSTAS


Caros amigos,

Alguns de vós estão a perguntar-me por novidades. Estou bem. De facto, viajo todos os dias, ou melhor, todas as noites (com bilhete de regresso!), caminho, falo, como... sempre à noite, nos meus sonhos! Eu costumava sonhar com a missão. Muitas vezes sonhei com Roma, onde vivi durante dezoito anos e deixei muitos amigos. Há já algum tempo que sonho com a minha terra natal com muita frequência. Não sei o que isso significa. Talvez um regresso às origens. De facto, nos meus sonhos, é como se eu estivesse a viver a minha vida ao contrário, a andar para trás.

É uma oportunidade para louvar o Senhor pelo dom da vida e vocação missionária, pelas pessoas que conheci e os amigos que me acolheram nos seus corações. Louvado seja o Senhor pela minha terra e pelo seu povo, pela sua beleza, pelas suas colinas e vinhas, exigentes mas generosas, pelas cerejeiras, oliveiras e árvores de fruto....

Agora que a doença me tirou o prazer de saborear a comida e a bebida, uma vez que sou alimentado por uma sonda, privando-me nestes últimos tempos de tomar o Corpo e Sangue de Cristo, pedi ao Senhor que quando chegasse às portas do Paraíso, onde espero entrar apenas pela Misericórdia de Deus, Ele faça receber-me com um grande tabuleiro de cerejas e cachos de uvas, e um bom prato de bacalhau regado com o azeite da minha terra. E que os amigos do Paraíso venham ao meu encontro com um bom fornecimento de bons vinhos para brindar à vida e a todos os amigos!

Mas eu não estou a escrever para falar de sonhos. Venho pedir-vos que rezem pela minha comunidade. A maioria dos meus colegas e do pessoal que nos assiste contraíram a covid19. Estou relativamente bem, apesar das habituais dificuldades respiratórias e perturbações de imobilidade. Estou confiante de que a baleia da minha doença (ELA - esclerose lateral amiotrófica) não será intimidada por um "animalzinho" tão vil e desprezível como o vírus. Esta minha amiga não muito simpática jurou durante 10 anos não me deixar e que me levaria com ela! 

Falo em tom de brincadeira, mas o meu coração está inchado de tristeza. Hoje em dia, a covid levou oito dos meus colegas, um ou mesmo dois ou três por dia. Outros encontram-se em situação crítica. Há mortes tão serenas como as do P. Aleardo que morreu há alguns dias com a idade de 99 anos ou do P. Efrem que também morreu há alguns meses com a idade de 99 anos, cheio de dias e das bênçãos de Deus. E há mortes injustas! Como as causadas pelo vírus, que nos arrancam a vida com violência e traição. É injusta a morte de um jovem morto por uma viagem que termina prematuramente o seu curso. Mas também é injusto a morte de um velho que é empurrado e cai, impedindo-o de gozar serenamente os últimos dias da sua vida na companhia dos seus entes queridos.

Quem deve ser responsabilizado por estas mortes injustas? Deus? Penso que não, uma vez que Deus é o amante da vida. Em vez disso, é o pai de todas as mentiras e inveja que introduziu a morte no mundo, juntamente com aqueles que lhe pertencem (Sabedoria 2,23-24). Então ficamos apenas com raiva e amargura? Não. Ainda temos esperança. E isto leva-me a acreditar que a monstruosa e insaciável baleia do vírus, inchada com mortes injustamente arrancadas da vida, não escapará à mão de Deus e, tal como fez com o Profeta Jonas, colocar-nos-á na costa onde Deus nos espera.

Eu mantenho-vos no santuário do meu coração. Que Deus vos abençoe e vos proteja!

Manuel João Pereira Correia 
Castel D'Azzano, 17 de Novembro de 2020

17 de novembro de 2020

REZAI PELA ETIÓPIA! REZAI PELOS GUMUZ! REZAI POR MIM!

 

Queridos amigos e queridas amigas,

Encontro-me já na Etiópia, o que me deixa muito feliz! Quando soube que o meu destino missionário era a Etiópia fiquei triste: era um país que não conhecia, que me era pouco familiar. Agora amo este país, quero bem a esta gente e orgulho-me de aqui estar em missão!

Cheguei no dia um de Novembro e, desde então tenho estado na capital, Addis Abeba! Estes têm sido dias de regresso, após quase quatro meses ausente, de contacto com a realidade do país, de preparação para a dura realidade que a minha região de Benishangul-Gumuz, zona Metekel, atravessa.

Quando cheguei soube da morte de cerca de 35 pessoas de etnia Amara, na região Oromo, perpetuada por rebeldes Oromo. Dois dias depois, na região Tigray, a norte da Etiópia, militares regionais de Tigray atacaram uma base militar do governo federal, que causou a morte de muita gente. Ora, o governo federal decretou guerra à região o que está a causar muitas mortes e refugiados no Sudão. Infelizmente os responsáveis de Tigray não se renderam e até já lançaram mísseis para outras cidades da Etiópia e também da Eritreia. Têm sido momentos difíceis os que se vivem na Etiópia.

Na minha região, infelizmente, também surgiu um grupo armado Gumuz e que tem criado insegurança, mortes e feridos. Ainda ontem ouvi dizer que mataram mais de 50 pessoas, normalmente, de outras etnias. As pessoas vivem com medo e sem certeza do futuro.

É, pois, para esta realidade que sou chamado a ser testemunha do amor de Jesus Cristo, a ser portador de esperança e a viver com esta gente que amo. Aguardo o meu regresso com alegria! Sei que tenho que ter cuidado pois sou responsável pela minha vida e responsável perante os que confiaram em mim para estar aqui, mas não vou com medo. O medo supera-se com a fé de que Deus me quer ali. Esta é a realidade a que Deus me chama e quero ser-lhe fiel!

Quero agradecer pelos donativos: dinheiro, roupa e outros materiais! Sem dúvida que a vossa ajuda é preciosa para a continuidade do meu serviço missionário! Estai certos de que a vossa partilha será usada para os trabalhos da missão e ao serviço deste povo lindo! Mas, mais que isso, a vossa contribuição ajuda-me a estar aqui! A vossa contribuição significa que estão comigo, que vieram comigo, que me apoiam e que querem fazer parte da obra de Deus aqui, na Etiópia! Sem dúvida que a missão se faz com os pés dos que partem, as mãos generosas dos que repartem e com os joelhos dos que rezam! Que Deus vos abençoe pelo bem que quereis à Etiópia!

Rezai pela Etiópia! Rezai por este lindo país que vive momentos de dor! Rezai pelos Gumuz! E, se ainda tiverdes um tempinho, rezai por este vosso amigo!

Obrigado pelo vosso apoio e amizade! E não se esqueçam de partilhar comigo sobre vós! É muito importante para mim saber dos amigos e amigas, sentir-me perto, presente!

Beijinhos e abraços,
Pedro Nascimento, Leigo Missionário Comboniano

7 de novembro de 2020

SOS PATRIMÓNIO


Grande mesquita de Djenné 

Alterações climáticas fazem perigar património africano.

As alterações climáticas representam uma ameaça grave para o património material e imaterial da Humanidade edificado pelos africanos em mais de três milénios. O alerta vem da Azonia, uma revista sobre investigação arqueológica no continente.

O estudo Património africano num clima em mudança, publicado em Julho, nota que a comunidade científica não está a dedicar a atenção devida à pressão do tempo sobre o património arqueológico, histórico e vivo, através da subida do nível dos mares e dos episódios climáticos extremos muito mais frequentes e violentos.

O aquecimento global pode aumentar em três graus a temperatura do planeta até ao fim do século, o nível do mar vai subir de um a dois metros e as águas vão alagar 240 metros da orla marítima. Dentro de trinta anos as costas da Gâmbia, Nigéria, Togo, Benim, Congo, Tanzânia e Comores vão sofrer forte erosão devido à subida do Atlântico. Além de afectar o património histórico costeiro, o fenómeno vai obrigar à mudança de milhões de pessoas. Metade da população urbana da África Ocidental vive em cidades à beira-mar.

A pressão da erosão marítima no património já se nota no Mediterrâneo e no Atlântico e ameaça os fortes e castelos construídos nos 500 quilómetros da Costa do Ouro, no Gana, entre os séculos xv e xviii por Portugal, Espanha, Dinamarca, Suécia, Holanda, Alemanha e Inglaterra para proteger o comércio do ouro, primeiro, e dos escravos, depois.

Um número de cidades muito antigas construídas sobre corais, lama e areia nas costas do Mar Vermelho e do Índico também podem vir a desaparecer. Suakin (com 3000 anos), no Sudão, Lamu (com 700 anos), no Quénia, e muitas medinas das ilhas Comores encontra-se fortemente ameaçadas tal como outros burgos históricos no litoral de Moçambique, Tanzânia e Madagáscar.

Os episódios climáticos extremos (tempestades, chuvas torrenciais, secas prolongadas e ondas de calor) também prejudicam o património por causa das inundações e do aumento da temperatura e da humidade.

Por exemplo, as grandes cheias do Nilo, provocadas pelas chuvas torrenciais, ameaçam as pirâmides de al-Bajrawiya, no Sudão – que têm mais de 2300 anos. No Mali, a grande mesquita de Djenné, construída em tijolos de barro, também está em perigo. As constantes inundações da planície do rio Bani (um afluente do Níger) estão a estragar a qualidade das lamas usadas no seu revestimento e reparação. A cidade, com cerca de 2000 casas de adobe, começou a ser construída há 2250 anos.

A rica e variada arte rupestre africana, do Sara e Sahel à Namíbia, está prejudicada pelo aumento da temperatura e da humidade nas cavernas onde os antepassados desenharam cenas do dia-a-dia há mais de 2000 anos. Fungos, micróbios e grandes amplitudes térmicas estão a afectar a estabilidade das faces rochosas onde esse património foi pintado ou gravado.

Por seu turno, os incêndios provocados pelas grandes vagas de calor põem em xeque muitos bosques sagrados, florestas protegidas e verdadeiras reservas de biodiversidade e de plantas medicinais espalhadas pelo continente, juntamente com os seus monumentos religiosos.

As próximas décadas serão críticas para a preservação do património africano, tão importante para a identidade cultural dos povos e para a sua economia.

4 de novembro de 2020

A DEUS, MISSIONÁRIO DOS REFUGIADOS



 

Querido Jesús,

Quando li a última postagem que deixaste no Facebook na manhã de 31 de outubro fiquei preocupado com o estado da tua saúde.

Escreveste: «disseram-me que tenho cov19, que o medicamento me vai manter a dormir, que não poderei comunicar-me; manda esta mensagem a todos os que podes. Avisa ao provincial que vamos comunicar-nos em três semanas. Unidos no coração de Cristo. Abuna Jesús Aranda».

Ontem à noite conversei com o teu provincial em Juba, no Sudão do Sul, para saber como estavas. Acabava de regressar à sede provincial e tentou telefonar-te, mas não teve resposta.

A notícia bateu-me de frente, esta manhã, como um murro no estômago: o coronavírus levou-te esta manhã do Hospital Católico de Lachor, no norte do Uganda, e ao Ir. Benito Ricci, um colega comboniano italiano que trabalhou quatro anos no Quénia e 48 no Uganda. Tinha 79 e era superior de Layibi, o centro comboniano de espiritualidade perto de Gulu.

Recordo com saudade o teu sorriso constante de missionário feliz: como formador no postulando conjunto do Sudão do Sul e do Quénia, em Nairobi; como pároco da missão de Lomin, no Sudão do Sul, junto à fronteira com o Uganda; e com os refugiados sul-sudaneses no norte do Uganda desde janeiro de 2017, quando as missionárias e missionários de Lomin decidiram acompanhar os paroquianos para o norte do Uganda depois de a guerra civil ter chegado com os seus horrores ao condado de Kajo Keji, o extremo sul do país.

Tinhas feito 68 anos em agosto e continuavas, feliz, a cuidar dos refugiados no campo de Pelorinya-Itula, com outros missionários e missionárias. As fotos e as mensagens que colocaste no Facebook mostram um missionário próximo, amigo, envolvido, dedicado.

Os tributos são muitos.

A irmã comboniana Dorinda Lopes trabalhou contigo em Lomin e com os refugiados.

«Marcou-me muito no P. Jesús Aranda, a sua capacidade de se integrar, permanecer e caminhar com  e ao lado de um povo oprimido e despojado do seu maior bem, a sua pátria.  Não se deixava abater pelas dificuldades, fixava o  seu olhar na Cruz de Cristo e seguia em frente. Estimava  os seus catequistas, confiava neles e apreciava a sua colaboração», escreve. 

E continua: «Quando chegamos ao campo de refugiados no Norte do Uganda e nos dirigimos aos vários agrupamentos dos refugiados, o P. Jesús perguntou-me: "Irmã, tu amas este povo de verdade?".  E continuou: "Se os amas de verdade podes permanecer, caso contrário seria melhor desistires, porque nestes campos de refugiados a vida não é fácil! Aqui só aguenta quem ama o povo de verdade".»

«O P. Jesús deu testemunho de que o seu amor por aquele povo, humilhado e despojado, era um amor verdadeiro e sem limites. Que Deus o acolha no seu eterno bem», implora.

O Ir. Jorge Rodríguez, mexicano como tu, escreve: «Descansa em paz, P. Jesús Aranda Nava. Teu amor exemplar à Missão do Sudão do Sul. Recordar-te-ei sempre».

O P. Carlos Nunes, testemunha da Zâmbia: «TRISTE NOTÍCIA HOJE! Encontrámo-nos no curso de Renovamento em Roma, preparando o retorno à Missão. Tornámo-nos imediatamente amigos, irmãos! Ele era o missionário dos REFUGIADOS do Sudão Sul! Sempre cheio de vida e alegria. Acolhedor com visitas e familiares que nos visitavam. Agradecia a Deus pela boa saúde que sempre tinha. Totalmente dedicado a Deus e aos refugiados… Tanto mais sofrerão com a sua falta!».

O estudante comboniano de teologia Lukeja Komakech Kenyi, que é de Lomin, agradece-te: «Significaste muito na nossa vida. Obrigado por seres genuíno durante toda a tua vida».

Seguiste o rebanho. Como o bom pastor deste a vida pelas ovelhas. Partilhaste a sorte dos pobres, dos refugiados, das vítimas da guerra.

Que o Senhor te acolha no seu abraço terno e eterno.

Descansa em paz depois de tão árdua missão.

Reza por nós.

Que a tua morte seja vida para os refugidos. Que possam regressar a casa e refazer as suas vidas. E os missionários à querida missão de Lomin, à igreja nova, ao trabalho apostólico e de promoção humana nas escolas, oficinas e na clínica.

Hasta Dios, Carnal.

Tu hermano Joe

31 de outubro de 2020

COM O PAI E CONNOSCO


A irmã comboniana Maria Ângela Séregni há muito que aprofunda o mistério da ascensão de Jesus a partir de um antigo hino cristão inserido na primeira carta que São Paulo escreveu a Timóteo, seu amigo e discípulo.

O texto diz: «Grande é — todos o confessam — o mistério da piedade: Aquele que foi manifestado na carne, foi justificado no Espírito, apresentado aos anjos, anunciado às nações, acreditado no mundo, exaltado na glória».

Desde maio de 1980 que a Ir. Mariângela anda às voltas com este hino litúrgico da primeira comunidade cristã.

«O mistério de Cristo torna-se o centro da minha atenção», confessa.

E começou a anotar aquilo que ia descobrindo na contemplação da subida de Jesus ao Pai através da leitura orante do mistério.

«Está connosco aquele que subiu ao Pai» partilha o resultado da oração do mistério da Ascensão de Jesus, uma espécie de diário contemplativo.

Os textos são curtos, profundos, inspiradores e incisivos.

Foram escritos entre 2015 e 2018.

A obra tem 64 páginas e está escrita em português e italiano (a língua original das reflexões).

Cada livro custa seis euros mais o custo do envio.

Pode ser pedido para as Missionárias Combonianas de Lisboa através do telefone número 218 517 640.

GUARDADORAS DA ESPERANÇA

— Eu não consigo… não consigo! – repetia sempre Reem, uma jovem beduína palestiniana de 16 anos, sempre que a convidávamos para aprender a u...