21 de março de 2019

QUERIDOS IRMÃOS DA PROVÍNCIA DE MOÇAMBIQUE



Os Conselhos Provinciais de Portugal e Espanha, reunidos no encontro anual em Moncada, querem-se unir a todos vós e a todo o povo de Moçambique por causa dos recentes desastres naturais que deixaram rastos de muita dor e morte. Temos rezado por todos vós, e asseguramos-vos que, na medida do possível, nos sentimos tristes por todos estes acontecimentos.

A Quaresma deste ano tem nome e apelido em cada uma das vítimas, mas a Páscoa que brevemente celebraremos dará sentido a tanta dor.

Por isso queremos solidarizarmo-nos convosco e com todas as pessoas que estão a sofrer e, como províncias de Portugal e Espanha, queremos enviar-vos uma ajuda económica que podeis usar da forma que achardes mais urgente e necessária. Sabemos que nem tudo se resolve com o dinheiro, mas nos momentos em que se perde tudo, a caridade e a solidariedade são fundamentais para que os homens, mulheres e crianças de Moçambique possam recobrar a sua dignidade.

Continuaremos presentes com as nossas orações e com o desejo Pascal de que a morte e destruição de tantas pessoas e coisas nos conduza á vida em plenitude.

Que Daniel Comboni nos continue a iluminar no nosso caminho missionário, e que o povo Moçambicano alcance prontamente a serenidade e a normalidade.

Com afeto fraterno,

Conselho Provincial de Portugal 
Conselho Provincial de Espanha


13 de março de 2019

EZEQUIEL RAMIN, MÁRTIR DOS SEM TERRA


A vida missionária e o martírio do padre Ezequiel Ramin podem ser sintetizados por uma frase que ele próprio pronunciou durante a homilia da missa dominical de 17 de fevereiro de 1985, em Cacoal, passados apenas doze meses sobre a sua chegada ao Brasil: «O padre que vos fala recebeu ameaças de morte. Querido irmão, se a minha vida te pertence, pertencer-te-á também a minha morte.»

Ezequiel nasceu em Pádua, a 9 de fevereiro de 1953, filho de Mário Ramin e de Amirabile Rubin. Era o quarto dos seus seis filhos. Os pais, de cultura modesta, conseguiram, com grandes sacrifícios, realizar o seu sonho de pôr todos os filhos a estudar; contudo, o seu primeiro pensamento fora o de lhes dar uma educação humana e cristã sólida, que os preparasse para enfrentar as provas da vida. Passou uma infância e uma adolescência serenas, enraizadas nos valores da fé e da prática religiosa, do estudo e do trabalho, do sacrifício e da sobriedade, do amor e da ajuda mútua, da simplicidade e da honestidade. Uma família moldada sobretudo pela dedicação total da mãe, cuja jornada era iluminada pela Missa quotidiana e pela oração com que muitas vezes acompanhava a lide doméstica.

Ezequiel completou o seu percurso escolar, na convicção de que o estudo era importante para a vida, além de ser o seu “trabalho” daqueles anos. A tomada de consciência da pobreza em que vivia grande parte da Humanidade – então chamada Terceiro Mundo –, induziu-o a procurar formas práticas de solidariedade para com os oprimidos. Aderiu assim, em Pádua, à Associação Mãos Estendidas, empenhando-se como animador dos campos de trabalho de verão, para financiar microprojetos no Terceiro Mundo, mediante a recolha de material usado: papel, vidro, ferro e trapos. Ezequiel tinha sempre presente a necessidade de abrir os olhos para a marginalização dos pobres presente na nossa própria sociedade.

Numa sua intervenção por ocasião do Dia Mundial das Missões, em outubro de 1971, contando apenas dezoito anos, Ezequiel afirmou: «Cristo vai agora pelas ruas, a caminho de Emaús; é o rosto do irmão pobre, é o velho devorado pela lepra, são os milhões de famintos, são as seiscentas mil crianças malnutridas. O nosso Cristianismo é um forte empenho que, se nós quisermos, pode tornar-se numa palavra de vida para quem está ao nosso lado, porque a Deus nunca ninguém chega sozinho.» A experiência de Mãos Estendidas foi tão intensa e significativa para ele que viria a prossegui-la também em Florença, em 1973-74, durante um período de prova junto dos missionários combonianos.

No fim do verão, quando os seus pais o interpelaram sobre qual a faculdade universitária em que pretendia inscrever-se, ele convidou-os a entrar no automóvel e levou-os até ao Instituto dos Missionários Combonianos, em Verdara: «Eis a minha faculdade!» disse ele, deixando-os surpreendidos. Ficaram perplexos, como todos aqueles a quem comunicou a sua decisão. Com efeito, nunca tinha falado dela até então: fora uma opção meditada em silêncio, amadurecida no segredo da sua consciência, enquanto fazia o percurso casa-escola, trilhava as sendas no cume das montanhas ou pedalava entre as suas amadas colinas Eugâneas. Não fora uma opção fácil. Revela-o o episódio do seu encontro com um padre comboniano que tinha visitado a turma de Ezequiel para falar da vocação pessoal de cada um. No fim do encontro, o jovem Ramin tinha-lhe confessado: «O senhor falou de Jonas, que tinha medo de ir a Nínive. Esse Jonas cheio de medo sou eu, precisamente.» Teria medo de pretender seguir uma vocação dura como é a vocação missionária? O medo de não corresponder a ela, de não ser fiel até ao fim? Desconhecemos os temores que precederam a sua decisão, porque as suas cartas são datadas a partir de 1972, quando já tinha tomado uma decisão que nunca mais poria em causa. Com efeito, terminado o trabalho da escolha, sucedera-lhe a serenidade decorrente da certeza de ter correspondido a uma chamada insistente: «Levar Cristo é levar alegria. Eu sigo o caminho do missionário», escrevia ele, «não por minha iniciativa, mas porque Deus me procura e continuamente me pergunta se eu O quero seguir».

Assim, em setembro de 1972, Ezequiel deixou Pádua, a família e os amigos, para iniciar o percurso que o levaria ao sacerdócio. A 26 de maio de 1976, pediu para se consagrar a Deus, assumindo os votos de pobreza, castidade e obediência, e para passar a fazer parte da congregação missionária dos combonianos. Feitos os votos, Ezequiel foi enviado para Inglaterra, a fim de aprender bem a língua inglesa, prevendo-se que viria a ser enviado para o Uganda, onde completaria os estudos teológicos. No entanto, o seu destino não seria o Uganda, devido à precária situação política local e à dificuldade de obter a licença de residência, mas os estudos teológicos, em Chicago, onde permaneceria até junho de 1979. Durante as férias de verão, foi enviado a uma paróquia negra de Richmond (Virgínia), no sul dos Estados Unidos: era a América dos excluídos, dos vencidos, de quem ficava para trás na corrida da competição, precisando de ajuda e, por vezes, pedindo apenas que alguém os escutasse. Falou disso a um dos seus irmãos: «A pobreza estava presente em cada casa [...]. Encontrei pessoas de quarenta anos que recorriam a mim, perguntando-me o que deviam fazer. Estive com alcoólicos, com sem-abrigo, com rapariguinhas grávidas, de treze anos. Tudo gente que pedia apenas para ser escutada, compreendida.» Em suma, Ezequiel demonstrava possuir uma predisposição e uma sensibilidade particulares para apreender as necessidades prementes dos mais pobres e colocar-se a seu lado.

Chegou ao Brasil no dia 20 de janeiro de 1984, após uma permanência de vários meses em Lisboa, para aprender a língua portuguesa. Passou algumas semanas em São Paulo e no Rio de Janeiro. Em março, deslocou-se a Brasília para ter aulas de cultura e pastoral brasileira. Além da situação da Igreja, ia conhecendo, durante as suas deslocações pelo território do país, a condição dramática da população pobre, sobretudo dos camponeses expulsos das suas terras pela invasão prepotente de empresas multinacionais que destinavam grandes extensões de terreno a pastagens, tendo em vista a criação de gado e a exportação da sua carne para os países ricos. Em finais de junho ficou concluído o período de preparação, e Ezequiel chegou à missão de Cacoal, no estado de Rondónia, na Amazónia.

Dentro deste já difícil contexto geral, o estado da Rondónia estava envolvido, naquela época, em dois processos explosivos: por um lado, um contínuo fluxo migratório, sobretudo a partir do nordeste, por outro, uma invasão das terras habitadas por índios. Na Rondónia, com efeito, vivia mais de metade dos índios de todo o Brasil. Um foco de tensão situava-se, naqueles meses, no limite extremo da paróquia de Cacoal, precisamente na fronteira entre o estado da Rondónia e o estado de Mato Grosso: tratava-se da ocupação de alguns terrenos incultos por um grupo de famílias de camponeses. O padre Ezequiel, que já há algum tempo conhecia a zona do conflito, pertencente à sua jurisdição pastoral, a 22 e 23 de julho tinha-se dirigido ao local para desempenhar o seu ministério religioso, tendo sido acompanhado pelo presidente do sindicato rural de Cacoal. Numa das comunidades visitadas, as mulheres dos colonos tinham suplicado ao sacerdote que se dirigisse aos seus maridos que estavam a desbravar os terrenos no recinto da empresa, dissuadindo-os de prosseguir. A sua permanência ali certamente provocaria um confronto armado com muitos mortos, tanto mais que já tinham recebido ameaças e atos de intimidação por parte dos próprios guardas armados. Segundo aquelas mulheres, só o padre, graças à sua autoridade e credibilidade, granjeadas durante aqueles meses de trabalho pastoral, poderia convencê-los a retirar-se, ficando à espera de tempos melhores. Antes do jantar, o padre Ezequiel apresentou a situação aos seus confrades que viviam com ele. Todos concordaram que, dada a extrema gravidade das condições em que viviam aquelas pessoas, na manhã seguinte iriam ter com elas. Foram momentos cruciais: um ou outro discordavam do plano estabelecido, embora Ezequiel sublinhasse repetidamente o enorme perigo que corriam os camponeses e o sentido apelo que as suas mulheres lhe tinham dirigido.

Uma onda de pensamentos e de preocupações angustiosas deve tê-lo assediado durante as horas noturnas, visto que, no dia 24 de julho, de manhã muito cedo, enquanto os seus confrades ainda descansavam, decidiu partir no jipe da comunidade, acompanhado por um amigo sindicalista. Às onze horas chegaram ao município de Aripuanã (Mato Grosso), situado a cerca de cem quilómetros de Cacoal: no lugar de reunião dos trabalhadores encontraram uma dezena destes. A pouca distância ficava o local de encontro dos guardas contratados pelo latifundiário. Ambos falaram aos camponeses, convidando-os a evitar qualquer tipo de violência e provocação, tendo em conta o perigo de incidentes incontroláveis com os guardas armados. O encontro foi breve, confirmando o facto de que o próprio Ezequiel julgava tê-los persuadido a manter a calma e a não recorrer à violência. Enquanto se preparavam para partir, os guardas armados precederam-nos com um veículo todo-o-terreno. Ao fim de poucos quilómetros, Ezequiel e o seu companheiro de viagem depararam com o todo-o-terreno atravessado no meio da estrada: mal tinham intuído o que estava prestes a suceder, deflagra um tiroteio com fogo cruzado. Precipitaram-se ambos para fora do jipe, mas os disparos dos sicários concentraram-se em Ezequiel. Este gritou: «Sou padre! Vamos conversar, minha gente!» Não tiveram piedade: caiu trespassado por setenta e cinco projéteis antes de conseguir refugiar-se sob a densa vegetação da floresta. Foi uma verdadeira execução. Era cerca do meio-dia do dia 24 de julho de 1985. O companheiro do padre Ezequiel, ligeiramente ferido pelos vidros do jipe, ao fim de várias horas de caminho através da floresta, reencontrou os camponeses que se tinham afastado do lugar da reunião. Transportados por um camião com destino a Cacoal, à uma da manhã avisaram os confrades de Ezequiel. Estes partiram imediatamente para avisar a polícia e o bispo, mas a polícia só aceitou levá-los de manhã até ao local do tiroteio. Ezequiel jazia a cinquenta metros do jipe, crivado de balas e de chumbos de espingarda. Não havia dúvida de que tinham querido matar um sacerdote que encarnava a opção da Igreja diocesana a que ele próprio pertencia e que se tinha colocado claramente ao lado dos mais pobres e oprimidos pela injustiça: camponeses sem terra e indígenas. Aliás, a cruz ao peito da qual nunca se separava e que lhe fora arrancada no momento da execução viria a sofrer uma última afronta: a grande cruz erigida no lugar do seu martírio viria a ser arrancada umas três vezes pelo pessoal da fazenda Catuva. A comunidade batizada com o seu nome substituiu-a agora por uma cruz de cimento.
Em Mês missionário extraordinário - outubro 2019

10 de março de 2019

TENTAÇÕES DO MISSIONÁRIO



No Evangelho de hoje, Jesus é tentado três vezes no deserto, o início da luta contra o Diabo, aquele que divide como a palavra quer dizer. A missão de Jesus e vencer o poder do Mal dentro de si e à sua volta. Os milagres – ou sinais como João lhes chama – são a marca da vitória de Deus sobre Satanás.

A tentação, o teste faz parte da vida. Quais são as tentações de um missionário?

1. Transformar pedras em pão. O sofrimento das pessoas com que vivemos afeta-nos; a falta de condições de vida mínimas (pão, saúde, educação, habitação) não nos pode deixar indiferentes. Mas não podemos parar numa missão puramente sociológica, assistencial. Como não podemos parar numa missão puramente proclamadora, espiritual. Jesus diz: «Está escrito que nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra de Deus». A promoção humana é uma das vertentes essenciais da missão, mas não é a única. É consequência da vivência da Palavra de Deus.

2. Poder e glória. A missão pode ser uma vaidade. Um protagonismo. Um ato de poder. Uma glória vã à procura do reconhecimento. Um ato de adoração ao ego – somo s filhos da cultura do «euismo». A resposta de Jesus: «Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás». O missionário não é nem o centro nem o ator da missão: é servidor, colaborador na única missão de Deus-Trindade que quer encarnar o seu amor pelas pessoas através dele, um humilde trabalhador na vinha, na seara do Senhor.

3. Sucesso descuidado: atira-te, que Deus cuida de ti! Viver completamente centrado na missão, descuidando o corpo e o espírito, o descanso e a saúde, a formação permanente, pondo em Deus o ónus da responsabilidade pelas opções pessoais. Jesus diz: «Não tentarás ao Senhor teu Deus». Temos que colaborar com o Senhor que cuida de nós e está connosco até ao fim dos tempos. O cuidado é uma responsabilidade partilhada.

O texto do Evangelho de hoje conclui assim: «Tendo terminado toda a tentação, o Diabo afastou-se dele até certo tempo». As tentações não são um parêntesis de 40 dias na vida pública de Jesus, acompanharam-no todos os dias, porque todos os dias teve que escolher entre a fidelidade ao Pai que antes lhe dissera «Tu és o meu filho muito amado. Em ti me comprazo» e um projeto centrado nele próprio, usando o poder que Deus lhe deu para proveito pessoal. A última tentação de Jesus é na cruz: «Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós» (Lucas 23, 39), blasfemou um dos malfeitores crucificado com Ele. Jesus é fiel ao Pai fiel. O Pai e a sua vontade foram o seu sustento. Somos fiéis porque Ele permanece fiel (2 Timóteo 2, 13).

6 de março de 2019

«MULHER DE CORAGEM 2019» PARA MISSIONÁRIA


A missionária irlandesa Orla Treacy vai receber o Women of Courage Award 2019 (Prémio Mulheres de Coragem 2019).

O prémio, criado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, distingue mulheres «que demonstraram liderança, coragem, desenvoltura e vontade para se sacrificar pelos outros, especialmente na promoção dos direitos das mulheres».

A cerimónia, presidida pelo Secretário de Estado norte-americano Mike Pompeo, está marcada para 7 de março na capital dos Estados Unidas da América. A primeira-dama Melania Trump fará o discurso principal.

Orla Treacy, 46 anos, é a diretora da Escola Loreto em Maker Kuei, nos arredores da cidade de Rumbek, Sudão do Sul, há 11 anos.

É uma das dez mulheres distinguidas com o galardão «Women of Courage Award 2019». A lista inclui três advogadas do Bangladesh, Sri Lanka e Tanzânia, duas polícias do Djibuti e Jordânia, uma pacifista de Burma, uma egípcia que fundou uma ONG para cuidar de crianças, uma jornalista do Montenegro e uma juíza do Peru.

«Este prémio pertence às jovens do Sudão do Sul, com quem tenho o privilégio de trabalhar. As nossas alunas corporizam tudo o que é corajoso - elas são jovens mulheres com visão, força e esperança. Jovens mulheres que sonham com um país melhor para si e pra as suas famílias, que estão preparadas para desafiar velhas estruturas e trabalhar para tornar o Sudão do Sul um lugar de destaque. Estou grata a todos os que tornaram isso possível. O nosso trabalho no Sudão do Sul não é possível sem o apoio contínuo dos nossos parceiros, da nossa família Loreto ampliada, ex-alunos, estudantes, funcionários e a nossa comunidade local em Rumbek. Os nossos líderes eclesiásticos, comunitários e do governo local desempenharam um papel significativo no apoio à nossa missão», declarou a laureada.

A Ir. Orla abriu a escola secundária com internato em 2008 com 35 meninas. Hoje, conta com 300 alunas de todo o país.

Entretanto, as Irmãs de Loreto, a congregação a que pertence, criaram uma escola primária mista e uma pequena clínica para cuidar sobretudo de mulheres vulneráveis e de crianças.

Os Irmãos de La Salle abriram na área uma escola secundária para rapazes.

2 de março de 2019

ANO DO RIO


2019 é Ano da Bacia do Nilo.

A Iniciativa da Bacia do Nilo (NBI em inglês) proclamou 2019 Ano da Bacia do Nilo para celebrar os êxitos e desafios de vinte anos de cooperação na gestão hídrica da região.

A Iniciativa foi lançada a 22 de Fevereiro de 1999 para promover o uso equitativo da água do Nilo pelos dez Estados ribeirinhos (Burundi, Egipto, Etiópia, Quénia, República Democrática do Congo, Ruanda, Sudão, Sudão do Sul, Tanzânia e Uganda) mais a Eritreia (observadora), um território de 3,3 milhões de quilómetros quadrados e com mais de 520 milhões de habitantes.

A Iniciativa representa um marco importante no uso partilhado do Nilo. Em 1929, os Ingleses deram ao Egipto o usufruto exclusivo das suas águas. Como dizia o faraó, «os meus Nilos são meus, fui eu quem os fez» (Ezequiel 29, 3). Em 1956, o Sudão independentizou-se do Egipto e dois anos mais tarde os dois governos dividiram entre si o caudal do rio: 66 por cento para o Egipto e 33 por cento para o Sudão. Os países ribeirinhos a montante podiam pescar e pouco mais.

Foi neste contexto que surgiu a Iniciativa da Bacia do Nilo para um uso repartido das suas águas. A organização representa um passo em frente no desfrute das reservas hídricas da bacia por parte de todos os países ribeirinhos, uma partilha fundamental porque a região atravessa grandes transformações sociais, políticas, económicas e ambientais e precisa de mais comida, energia e água. A Etiópia tinha pouco mais de 66 milhões de habitantes na viragem do século; hoje, conta mais de 109 milhões.

A Iniciativa permite ao Uganda montar uma grande estação de tratamento de água para abastecer Campala, a capital, a partir do lago Vitória e à Etiópia construir a megabarragem Grande Renascença para produção de electricidade.

A área é muito afectada pelas mudanças climáticas. El Niño, o fenómeno meteorológico com origem no Pacífico tropical, provoca secas cíclicas seguidas de inundações cada vez maiores. Depois, há a praga do jacinto-de-água, que cobre parte do lago Vitória com um manto vegetal, mata a vida subaquática, afasta o turismo e aumenta casos de malária.

O Egipto e o Sudão resistiram ao novo ordenamento regional para a partilha das águas da bacia nilótica evocando direitos históricos. Mas os recursos comuns têm de ser usados por todos para o desenvolvimento socioeconómico sustentável e pacífico da região.

O Nilo é um rio curioso: aliás, são três rios num! O Nilo Azul vem das montanhas da Etiópia e o Nilo Branco das colinas do Ruanda. Ambos atravessam lagos (o Azul passa pelo Tana e o Branco cruza os lagos Vitória, Kioga e Albert). Juntam-se em Cartum (Sudão) formando o Nilo propriamente dito que desagua em delta no Mediterrâneo junto a Alexandria (Egipto).

Ao todo, do Ruanda ao Mediterrâneo, o Nilo mede 6695 quilómetros. O seu vale é habitado por gente com características físicas, étnicas e linguísticas próprias, os povos nilóticos. Entre as espécies autóctones destaca-se a perca-do-nilo, que chega às nossas mesas vinda sobretudo do lago Vitória. O crocodilo-do-nilo é o rei da espécie.

As nascentes do Nilo foram um mistério desde a Antiguidade. O escocês James Bruce (1730-1794) escreveu um livro a contar a descoberta da nascente do Nilo Azul cerca de cem anos depois de o jesuíta espanhol Pedro Páez o ter feito em 1618. O padre Páez viveu na Etiópia entre 1603 e 1622.

21 de fevereiro de 2019

IRMÃO DO OUTRO, MEU IRMÃO


Como irmão religioso missionário comboniano o que me move é fazer a vontade de Deus e evangelizar através das minhas acções. O Senhor chama-me a ser as suas mãos, os seus pés neste mundo e em particular em Matany, Uganda onde vivo desde 2013. Move-me o desejo de encontro e de “entrar” no profundo do outro, do doente, e descobrir que energias a pessoa possui e quais são as necessárias despertar para brotar saúde na pessoa. Ser irmão do outro, meu irmão.

Missão é ir ao encontro do outro. Missão é encontro de corações. Em Matany o meu serviço como irmão enfermeiro passa por organizar a farmácia do hospital. Compro medicamentos, distribuo-os pelos diferentes serviços que o Hospital oferece (medicina geral, maternidade, cirurgia, consultas, etc.), controlo os stocks e registo de medicamentos, participo nas reuniões da equipa médica sugerindo opções de tratamento e no serviço de tuberculose. Cada terça feira dispenso da farmácia principal (central) para todos os serviços e nos outros dias vêm para emergências ou medicamentos especiais que não são pedidos regularmente.

No momento, coordeno a equipa de farmacêuticos do Hospital: somos quatro. Um deles, Jonathan, trabalha a tempo inteiro na farmácia comigo; os outros dois, Christine e Joseph, estão encarregados de dispensar os medicamentos aos doentes nas consultas diárias. Encontramo-nos cada manhã para um momento de oração, partilhar dificuldades e alegrias e a realidade do dia anterior. Procuramos ter disponíveis os medicamentos necessários para levar para a frente a missão à qual o Senhor nos chama a viver aqui: oferecer serviços médicos com qualidade a esta população a um preço acessível.

Sinto que o meu serviço na farmácia é importante e é a forma como participo na construção do Reino de Deus entre os Karimojon.

Ir. José Eduardo Freitas (Uganda)

15 de fevereiro de 2019

PARAR, PARTILHAR PARA (RE)PARTIR



O Curso Comboniano de Renovação decorre de Janeiro a Maio de 2019 e decorre na Casa Geral em Roma. O curso realiza-se cada dois anos para Combonianos dos 45 aos 65 anos, que nesta fase da vida em missão, aceitam a proposta de um tempo de encontro consigo mesmos e com Deus. Nesta perspetiva, procuram assim responder na linha do convite de Jesus aos seus discípulos missionários: «Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco» (Marcos 6,30-34)

Os participantes deste ano são 17, vindos de 13 países diferentes e a trabalhar nos mais diversos áreas e lugares de missão. Têm idades entre os 48 e 68 anos. Entre eles estão os padres portugueses Feliz Martins, Joaquim Pereira e Carlos Nunes.

O curso é coordenado pela equipa de Formação Permanente, com larga experiência em acompanhamento de pessoas e grupos, constituída pelos padre Siro Stocchetti e Elias Sindjalim e pelo irmão Guillermo Casas.

A proposta do Curso é de «Parar, Partilhar para Re-Partir em missão»!

Este tempo vive-se muito em espírito de comunidade comboniana, vida em grupos com partilha de experiências, reflexão e oração! A variedade dos temas apresentados nas manhãs é orientada para ajudar os participantes e revisitar as várias dimensões da vida pessoal, comunitária e missionária.

Temas divididos em várias semanas incluem uma re-leitura da própria vida, o discernimento comunitário, o carisma comboniano, a saúde e a economia. Uma semana é dedicada à partilha e interpretação das experiências missionárias dos participantes. O passo a passo da vida do curso é também acompanhado por pessoas especializadas e escolhidas de outros quadrantes da vida da Igreja consagrada e missionária que acompanham individualmente cada participante.

O curso inclui também diversas visitas de estudo, reflexão, oração e convívio que muito contribuem para criar o espírito comunitário.

Visitámos já terras palmilhadas por S. Francisco de Assis, grande inspirador de vida e missão. Visitámos e participámos em várias celebrações na Basílica vaticana de S. Pedro e na área de “Tre Fontane” onde vivemos!

Outras visitas bem mais especiais e prolongadas levar-nos-ão às terras do nosso Pai e Fundador D. Daniel Comboni e, na conclusão do Curso, passamos três semanas na Terra Santa para palmilhar em missão, com Jesus, os caminhos da Bíblia. É com grande expectativa que todos e cada um espera por estes tempos especiais de graça!

O espírito do grupo de participantes neste curso 2019 é francamente positivo, com os tons das várias origens e experiências de missão, completando um quadro enriquecido por tantos dons e graças.

A vida de comunidade é sempre respeitadora e aberta, com alegria, partilha e ajuda entre todos.

A oração pessoal, comunitária e as várias celebrações têm sido bem preparadas e vividas, tornando-se fonte de vida espiritual para todos.

Os temas dos encontros e partilha em grupos ajudam a tomar consciência e a aprofundar aspetos da nossa vida humana, religiosa e missionária que nesta altura das nossas vidas, consideramos muito necessárias e úteis.

A comunidade cresce em espírito e vida. Estamos todos, tudo e sempre em missão! O caminho faz-se caminhando, escutando, partilhando e avaliando a realidade pessoal e comunitária de cada um. Só assim nos podemos preparar em conjunto para (re)partir em missão. Essa é a nossa vida e vocação. Esse é o desafio do curso e missão que continuamos a percorrer em Peregrinação de vida!

Penso exprimir um sentimento comum a esta comunidade do CCR 2019 quando digo: «Dou graças a Deus por esta oportunidade que me concede. Sinto-me feliz por estar aqui! Espero e sinto-me já seguro, de que esta vida nova, me ajudará a viver renovado a missão para que vou (re)partir.»


P. Carlos Alberto Nunes, mccj

7 de fevereiro de 2019

«CAI, CAI, BASHIR!»



Sudaneses querem mudança de regime, já.

As palavras de ordem de manifestantes a pedir a renúncia do presidente Omar al-Bashir e o fim da ditadura do seu partido ecoam por todo o Sudão desde finais de Dezembro num troar de descontentamento.

O levantamento popular teve início a 19 de Dezembro na cidade de Atbara, no Nordeste do país. A população foi para a rua protestar contra o aumento do preço do pão e a falta de combustíveis e de dinheiro nas caixas multibanco. Os manifestantes incendiaram a sede do NCP (o Partido do Congresso Nacional, no poder) enquanto exigiam a queda do presidente há quase três décadas no poder.

De Atbara os protestos estenderam-se à capital e ao país. Multidões cada vez maiores cantam «Cai, cai» enquanto nas paredes aparecem grafitos com a silhueta do ditador e a legenda «Vai, Bashir» em árabe.

O aparato de segurança (polícia, segurança nacional e milícias) confronta os protestos à bastonada, balas e gás lacrimogénio. Al-Bashir pediu-lhes que «extraíssem penitência» dos opositores e as suas forças levam-no a sério: além da violência desmedida contra os manifestantes, prenderam médicos, jornalistas, activistas, políticos da oposição e líderes da sociedade civil, invadiram residências privadas e atacaram mesmo o Hospital de Omdurmã com granadas de gás. Até meados de Janeiro, o Governo contava 24 mortos, mas a oposição dizia que foram pelo menos 55.

Um missionário escrevia há dias: «Os problemas de manifestações continuam (e os mortos aumentam). O pão vai-se conseguindo com grandes filas de espera, nem que seja preciso esperar todo o dia. A Internet tem estado bastante alterada e fechada por causa das manifestações antigovernamentais já há três semanas. A gente quer justiça, pão, novo governo. A nossa oração é para que se saibam resolver da melhor forma, com justiça e dignidade, os problemas do Sudão.»

As manifestações são menos contra a inflação (oficialmente nos 70 por cento) e a falta de combustível e de liquidez e mais contra os excessos do regime de al-Bashir e pela sua mudança. A presença feminina nas ruas é maciça. Num exercício de subversão criativa ao regime, fazem-se anéis com as cápsulas de metal das balas e vasos de flores com as latas do gás lacrimogéneo.

É muito difícil de prever como o levantamento vai acabar: as manifestações crescem em tom e tamanho e as forças do Governo enfrentam-nas com mais violência (e de rosto coberto para evitar serem identificados).

A chave da crise está no Exército, que se tem mantido à margem da repressão. Na Internet circulam vídeos de soldados a saudar os manifestantes no início da revolta e até a proteger manifestantes. Mas as chefias militares foram promovidas pelo presidente al-Bashir, um coronel que tomou o poder em Junho de 1989 por meio de um golpe.

As redes sociais estão cheias de vídeos, fotos e mensagens a cobrir as manifestações diárias, mas pouco sai nas páginas ou ecrãs das fontes de informação mais importantes. A polícia, essa continua a confiscar os telemóveis para tentar arrestar o registo vídeo dos protestos.

1 de fevereiro de 2019

CONTEMPLATIVA MISSIONÁRIA



A Irmã Maria Teresa é uma Carmelita de 44 anos, em Braga. No início do Ano Missionário, soube da importância decisiva que São Daniel Comboni atribui à oração missionária das pessoas em vida contemplativa. «Tenho, diz ele, mais de 200 mosteiros e institutos» a rezar «para eu conseguir levar a luz da santa fé ao interior da África». No seu longo retiro espiritual,  Teresa mergulhou nos Escritos do santo missionário: 


«Impressionei-me muito com o que li dos Escritos de Comboni. E mais ainda por desconhecer o seu tão rico, profundo e ardente vigor missionário, visível nos combonianos que conheço. 

Ao ler algumas das suas belíssimas cartas, cheias de paixão pela "Nigrícia", e aperceber-me de quão valiosa era para ele a oração feita nos mosteiros pelo seu trabalho, senti-me... envergonhada, por viver tão pouco a dimensão missionária da minha vida contemplativa! E pensei: realmente, este ano Missionário, só pode ser uma grande GRAÇA para nós, Consagradas contemplativas! Sim, porque a contemplação não se alimenta de utopias, sonhos, idealismos... mas da relação pessoal e amorosa com Jesus e simultaneamente com as dores, anseios e esperanças da Humanidade inteira! – Meu Deus, disse, quantas vezes eu vivo no meu pequeno mundo, tão ‘longe’ dos meus irmãos e pouco atenta aos seus clamores!... 

Decerto, Santa Teresa de Jesus, minha Santa Madre, não se ofendeu por eu ter passado um bom bocado a ler Comboni, durante o retiro espiritual... De facto, não foi uma interrupção nas meditações do retiro, mas um alerta, uma tomada de consciência mais profunda da minha vida contemplativa chamada a ser REALMENTE missionária! Pois, afinal, tanto ela como a minha “mana” Santa Teresinha do Menino Jesus e outros santos/as do Carmelo desejaram tão intensamente dar a conhecer Jesus e o Evangelho e entregar-se pela salvação das pessoas, que familiarizar-me com S. Daniel Comboni e os seus apelos à intensa oração pelo seu trabalho apostólico, só me assemelhará mais aos que me precederam no Carmelo e manterá vivo em mim o ideal eclesial-apostólico de Sta. Teresa.» 


Pensei também em Comboni e Teresinha. Esta quis «ser Apóstola, Missionária, não apenas durante alguns anos, mas desde a criação do mundo (e) até ao fim dos séculos.» Comboni disse que daria mil vidas pela Missão, em resposta à sede de Jesus na Cruz.

S. João Paulo II une a carmelita e o missionário num único movimento espiritual: «Esta sede de almas a salvar foi sempre fortemente sentida pelos Santos: pensemos, por exemplo, em santa Teresa de Lisieux, padroeira das missões, e em D. Comboni, grande apóstolo da África.»

Do Coração de Jesus, onde vivem, Teresinha e Comboni urgem agora os Cenáculos de Oração Missionária e as Famílias Carmelita e Comboniana, a unirem empenho pela santidade, oração missionária em profunda comunhão com o Senhor e inesgotável dedicação à evangelização.

Ir M. Teresa E.S. da Imaculada Conceição 
P. Claudino Ferreira Gomes, Missionário Comboniano

30 de janeiro de 2019

Consagrados: COMUNIDADES SANTAS E MISSIONÁRIAS


Na Semana do Consagrado de 2019 ecoa uma palavra do recente Sínodo dos Bispos sobre Os jovens, a fé e o discernimento vocacional: «O dom da vida consagrada, na sua forma, quer contemplativa quer ativa, que o Espírito Santo suscita na Igreja, tem um particular valor profético porquanto é testemunho alegre da gratuidade do amor. Quando as comunidades e as novas fundações vivem autenticamente a fraternidade, elas tornam-se escolas de comunhão, centros de oração e contemplação, lugares de testemunho, de diálogo intercultural e intergeracional e espaços para a evangelização e a caridade». Este nº 88 do Documento Final do Sínodo conclui reconhecendo que «a Igreja e o mundo não podem passar sem este dom vocacional, que constitui um grande recurso para o nosso tempo». A vida consagrada é um recurso valioso, um tesouro, que urge redescobrir, revalorizar e renovar. Uma das suas facetas mais belas e significativas é a sua expressão comunitária.

O desejo manifestado pelos jovens na preparação do Sínodo e o seu forte apelo para que as comunidades cristãs sejam mais autênticas e fraternas dirige-se não só às paróquias mas a todo o tipo de comunidade cristã, das comunidades de vida religiosa às novas comunidades, grupos e movimentos. Só em comunidades verdadeiramente fraternas, acolhedoras, alegres, orantes, brilham aquela frescura e novidade evangélicas capazes de atrair as novas gerações.

A insistência na dimensão comunitária é pertinente por razões culturais, contrariando o ar deste tempo que sopra um excessivo individualismo, autosuficiente e autoreferencial, mas é necessária sobretudo por razões teológicas, sublinhando que a lógica comunitária é intrínseca a toda a vida cristã e particularmente à vida consagrada.

A vivência comunitária é antes de mais caminho de mútua santificação. Fazer parte de uma comunidade religiosa, caminhar com os irmãos e irmãs na mesma fé, rezar e celebrar juntos a eucaristia constituem meios preciosos para ajudar cada um e cada uma a crescer em santidade. Na partilha do quotidiano, no cuidado permanente de uns pelos outros, com humildade, paciência e caridade esse processo de santificação se confirma e evolui.

A comunidade é santa e promove a santificação dos seus membros na medida em que é lugar onde se experimenta a presença do Ressuscitado. Por isso a renovação da vida consagrada no nosso tempo, em termos pessoais e comunitários, terá o seu ponto de apoio na paixão por Jesus Cristo. Viver a fundo esta paixão enamorada, numa entrega radical ao serviço de Deus e da humanidade, permitirá a cada consagrado ou consagrada e a cada comunidade ser aquela profecia de que o mundo precisa

Uma comunidade reunida em volta de Cristo e animada pelo seu Espírito, lugar em que se vive autenticamente o sentido da unidade e da comunhão, é uma comunidade que descobre a sua missão, que vê reforçado o seu dinamismo missionário. Não fica fechada ou indiferente ao mundo, estagnada nos seus processos ou instalada naquilo que já foi alcançado; antes é protagonista de uma Igreja em saída até às periferias do mundo. Ao longo da história do cristianismo, as várias formas de vida consagrada foram inovadoras e pioneiras nas respostas às necessidades de evangelização em cada época, atendendo a cada contexto social e cultural. Que este Ano Missionário que estamos a viver na Igreja em Portugal «se torne uma ocasião de graça, intensa e fecunda, de modo a que desperte o entusiasmo missionário» (Nota Pastoral da CEP, Todos, tudo e sempre em missão).

Nesta semana, somos convidados a partilhar da afeição e admiração do Papa Francisco pelos consagrados e consagradas, manifestada numa entrevista recentemente publicada: «Refiro-me àqueles padres, religiosos e irmãos que estão ali, a trabalhar, metidos em determinada periferia, mesmo que seja no meio da cidade. Aquelas pessoas consagradas que não têm pretensões, que não fazem barulho, mas que trabalham sem dar importância a si próprias. Os que fazem a teologia da vida consagrada, vivendo-a, rezando-a. São aquelas pessoas que têm como que uma humildade essencial: são trabalhadoras e tomam muito a sério a sua vida de consagração, quer no ensino, quer nas paróquias, nos hospitais, nas missões ou em qualquer lugar onde estiverem a trabalhar ao serviço dos demais. São realmente pessoas que se esfolam, sem olhar para si próprias. Dão tudo às mãos cheias» (Papa Francisco, A força da vocação, Ed. Paulinas, 21).

Convido cada cristão e cada comunidade a rezar de forma mais intensa pelos nossos irmãos e irmãs consagrados e consagradas, dando graças a Deus pela fidelidade da sua doação e pedindo-Lhe que a todos confirme numa vida santa e renove em ardor missionário. Tenhamos presente, como modelo de comunidade santa e missionária, a dos monges trapistas de Tibhirine (Argélia), sequestrados e mortos em 1996 e beatificados no passado dia 8 de Dezembro. Que o seu testemunho sirva de inspiração e a sua intercessão seja fonte de bênçãos de Deus para todos os consagrados e consagradas.

+António Augusto de Oliveira Azevedo 
Presidente da Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios

24 de janeiro de 2019

NÚMEROS DA INIQUIDADE


26 indivíduos sozinhos detêm a mesma riqueza que a metade mais pobres da humanidade junta, 3,8 mil milhões de pessoas.

As contas foram feitas pela OXFAM e publicados no relatório Public Good or Private Wealth? lançado antes do Fórum Económico Mundial que decorre em Davos, na Suíça, e mostram que as fortunas dos super-ricos atingiram níveis sem precedentes.

Os números que desmistificam a iniquidade do sistema capitalista que nos governa: 
  • Os bilionários viram a sua riqueza crescer 900 mil milhões de dólares no ano passado, ao ritmo de 2,5 mil milhões por dia; 
  • A riqueza dos 3,8 mil milhões mais pobres caiu em 11%; 
  • 3,4 mil milhões de pessoas vivem com menos de 5,5 dólares por dia; 
  • Os homens detêm mais do dobro da riqueza das mulheres (na lista Forbes só há duas mulheres entre os 26 bilionários) 
  • Os super-ricos pagam cada vez menos taxas e escondem 7,6 triliões de dólares em offshore
  • Se 1% dos super-ricos pagassem uma taxa extra de 0,5% podiam educar 262 milhões de crianças que não andam na escola e providenciar serviços de saúde a 3,3 milhões de pessoas que não os têm. 
  • Os super-ricos estão a diminuir (eram 43 e agora são 26) mas as suas fortunas aumentam. 15 são norte-americanos, 4 chineses, 2 franceses, outros 2 de Hong Kong e 1 da Espanha, México, e Índia. 
A OXFAM propõe que se escolha o bem público em vez de se continuar a recompensar os já muitos ricos, optando pela luta contra desigualdade para acabar com a pobreza.

O papa Francisco preconiza uma economia ao serviço da vida.

Na Encíclica Laudato si’ denuncia o paradigma da tecnocracia (a maior parte das grandes fortunas foi feita através da internet): «O paradigma tecnocrático tende a exercer o seu domínio também sobre a economia e a política. A economia assume todo o desenvolvimento tecnológico em função do lucro, sem prestar atenção a eventuais consequências negativas para o ser humano. A finança sufoca a economia real. Não se aprendeu a lição da crise financeira mundial e, muito lentamente, se aprende a lição do deterioramento ambiental» (nº 109).

E propõe uma solução concreta: «Pensando no bem comum, hoje precisamos imperiosamente que a política e a economia, em diálogo, se coloquem decididamente ao serviço da vida, especialmente da vida humana» (nº 189).

A OXFAM nasceu na Inglaterra em 1942 para lutar contra a fome. Hoje, está sediado em Nairobi, Quénia, e centra-se na luta contra a pobreza.

23 de janeiro de 2019

O MILAGRE DA VIDA



A avó Mary, há três anos trouxe-me um pequeno embrulho: a sua neta Adela. Muito pequena, desnutrida e doente.

A bebé tinha 12 meses, mas mostrava uns quatro. A mãe, afetada pela sida, morreu poucas semanas após o parto, deixando a Adela com a avó, que, no entanto, tinha dificuldade em a alimentar.

A malnutrição, juntamente com todas as infecções oportunistas que se juntaram, estavam a «comer» a bebé.

A avó estava decidida a manter a netinha, acompanhando-a até a morte, certa de que logo voaria para o céu como a sua mãe.

MAS ESTES NÃO ERAM OS PLANOS DE DEUS «cujos pensamentos não são os nossos pensamentos, cujos caminhos não são os nossos caminhos» (Is 55).

Eu tinha chegado recentemente ao Uganda quando a avó Mary nos procurou uma tarde para levar uma pequena sacola com comida, como fazia todas as semanas.

A minha irmã, que a atendeu, disse-lhe para me mostrar a bebé, porque eu era enfermeira e já tinha lidado com crianças em condições semelhantes.

Mas por medo, superstição ou qualquer outra coisa, a avó estava reticente. Um dia Adela piorou, e a avó faz a última tentativa à sua disposição: ela DECIDIU trazer-me a bebé.

No nosso primeiro encontro, percebi todo o esforço da avó para confiar em mim e acreditar que a netinha «ainda não está morta».

Então começamos uma longa caminhada, nem sempre fácil, marcada por altos e baixos, mas também pelo incrível desejo de viver de Adela, bem como pela hesitação da avó que lentamente começou a arrepender-se e a alegrar-se.

Hoje, Adela tem quatro anos, frequenta a creche e, mesmo vivendo com a sida, respira vida por todos os poros.

E a avó Mary? A sua coragem de ousar ir além do muro do medo e da superstição foi recompensada pela alegria e pela «turbulência benéfica» que Adela traz diariamente à sua vida.

A avó Mary ensinou-me que se pode decidir superar a si mesmo apenas por amor. O Amor é aquela palha que manteve Jesus aquecido na manjedoura.
Maria Luísa Miccoli, missionária comboniana 
Campala- Uganda

22 de janeiro de 2019

«NÃO TEMOS MEDO»



«Ma benekhaf!!!», «Não temos medo!!!», diz este cartaz provocador,
sinal desafiador da presença massiva das mulheres nos protestos do Sudão.


Estou em Roma há dois dias. Em Cartum deixei multidões de pessoas atrapalhadas, famintas, cansadas, feridas ou mortas na rua sem poderem ser sepultadas dignamente.

Quase todos os dias nas ruas, em demonstrações revolucionárias contra os preços que subiram aos píncaros desde há precisamente um ano.

Gritam contra o Presidente da República, Omar al Bashir, e os seus governadores dos Estados Federais e os seus seguidores. Que são muitos. São mais de metade da população do Sudão. Agora, a gente grita abertamente nas ruas e sem medo contra a fome e a vida impossível. À procura de viver.

Retrocedo uns dias no calendário. Foi há menos de um mês. E não foi só poesia de uma noite de frio de inverno, ou de neve, ou das renas do Pólo Norte, ou do pai natal, ou um qualquer conto de fadas. E é propriamente esse, e não outro, que é o verdadeiro sentido do Natal. Era isso o que contemplávamos naquela noite de 24 para 25 de Dezembro: a sua nua e crua humanidade no Presépio de Belém. Emanuel, Deus connosco.

Na verdade, o governo transformou em violência sangrenta as demonstrações revolucionárias pacíficas, já há mais de quatro semanas, com (segundo as noticias frescas de hoje) mais de 40 mortos e mais bem de 1000 prisioneiros, muitos deles jornalistas, e tantos feridos impedidos de fazer tratamento (…) porque uma multidão de polícias de segurança, controla, de arma em punho, o acesso ao Hospital de Royal Care no Bairro de Burri, em Cartum.

Gente que anda à procura de pão, casa, vestuário e de tudo o que é essencial para viver.

Esta gente tinha tentado fazer demonstrações nas ruas, muitas vezes, durante vários anos, e perdeu. Fugiram. Porque as balas de fogo real que tinham feito algumas vítimas, meteram-lhes medo. Recuaram. Diziam: temos mulher e filhos para alimentar.

Mas desde há um mês, todos à uma, perderam o medo. Bem se vê no cartaz que seguram que mostram na televisão: «Ma benekhaf!!! NÃO TEMOS MEDO!!!». Quer-me bem parecer que o que dizem é verdade: «Não temos medo».

Quem teve medo fui eu, estrangeiro, que um dia me encontrei na rua no meio deles, por engano, porque, nos meus cálculos, atrasei a minha fuga para casa. E logo ouvi alguém que me dizia: «Vai-te, foge, que tu com essa pele branca de estrangeiro, és e, ao mesmo tempo, fazes-nos também ser, alvo de primeira classe. Eles, os da Segurança, já vêm aí. Escapa, enquanto é tempo.»

E eu escapei. Sim, não só escapei do meio da multidão mas também do Sudão propriamente dito. Tinha, de facto, o bilhete marcado para anteontem, quinta-feira, 17 de janeiro, às 3h00 da manhã: Cartum-Roma.

Já cheguei atrasado ao curso de Renovação dos Missionários Combonianos que já tinha começado em 4 deste mês de Janeiro. A desculpa foi aceite pelo director do curso, que é muito compreensivo.

O curso é importante para todos os combonianos inscritos. Mas ele, na verdade, estava a par do que se estava a passar no Sudão. Além disso, o director sabia que o governo tinha retardado toda a documentação a meu respeito, não me tendo sido dado o visto de saída-reentrada, que já antes do Natal eu tinha solicitado.

Integrei-me e inseri-me bem no grupo destas duas dezenas de colegas vindos de todas as partes do mundo onde os combonianos estão a trabalhar como missionários. El hamdu lilhah, graças a Deus!

Feliz da Costa Martins 
21 de Janeiro 2019 
Roma

8 de janeiro de 2019

TEMPO E RELÓGIOS



O Ano Novo é tempo bom para pensar o tempo. 

A ideia de dividir o ano em meses, semanas e dias usando como medida o tempo da translação da Terra em volta do Sol nasceu na África: os astrónomos egípcios calcularam o ano solar há mais de seis mil anos. Dividiam o ano em 12 meses de 30 dias (agrupados em três quadrimestres relacionados com o ciclo agrícola – as cheias, as sementeiras e as colheitas) e juntaram um décimo terceiro mês de cinco dias para acertar as contas do ano solar. Chamavam-lhe Epagomene e marcava o início do ano, uma espécie de celebração prolongada do Ano Novo dedicada aos deuses. A semana tinha dez dias. Hoje, a Etiópia e a Eritreia ainda seguem este calendário de 12 meses mais um e na Etiópia chamam Pagomê ao mês de cinco (ou seis dias em ano bissexto) que colocam no fim do ano.

Chamamos gregoriano ao calendário que nos governa desde Outubro de 1582, porque foi o Papa Gregório XIII que pediu aos astrónomos que corrigissem as imprecisões do calendário juliano (do imperador romano Júlio César) por causa da data da Páscoa: o calendário civil já andava dez dias atrasado em relação ao calendário solar.

O arco que a Terra descreve à volta do Sol não é a única maneira de medir o tempo. Há um calendário mais simples de ler: a Lua.

Um mês lunar é o ciclo que vai de lua nova a lua nova. Cada ciclo dura em média 29,5 dias. O ano lunar, composto de 12 ciclos, corresponde a 354 ou 355 dias. É o calendário seguido pelos muçulmanos e muitos povos – como os Gujis do Sul da Etiópia, com quem vivi, porque toda a gente sabe ler as fases da Lua.

Assim, o tempo pode ser contado de muitas maneiras e entendido de outras tantas. Na Mauritânia, Etiópia, Tanzânia e Uganda dizem que «vós [os ocidentais] tendes relógios, nós temos tempo». De facto, para os Gujis o relógio era uma pulseira com números a mudarem. O que contava o tempo era o Sol e a intensidade da sua luz. Nas manhãs de nevoeiro cerrado, o dia só começava quando havia mais claridade.

O filósofo e clérigo queniano John Mbiti escreveu na obra African religions and philosophy que «na sociedade ocidental ou tecnológica o tempo é um bem que tem de ser utilizado, vendido ou comprado; mas na vida tradicional africana, o tempo tem de ser criado ou produzido. O homem não é um escravo do tempo; em vez disso, ele “faz” todo o tempo que quer». Noutras palavras, enquanto nós, ocidentais, conta(biliza)mos o tempo – e dizemos que não temos tempo para nada –, os Africanos fazem-no e chega para tudo e para todos!

Confesso que me custou muito voltar a viver a guerra aberta com os ponteiros do relógio depois de oito anos a fazer tempo através das horas marcadas pelo ritmo da vida e das relações interpessoais. Não entendia porque é que as pessoas me vinham ver e diziam: «É só para te cumprimentar, porque não tenho tempo.» Tinham... se o fizéssemos juntos em amena cavaqueira à volta de um cafezinho! A vida não precisa de ser uma corrida contra-relógio. Como diz o Livro, «para tudo há um momento e um tempo para cada coisa que se deseja debaixo do céu» (Eclesiastes 3, 1). Votos de um Ano Novo cheio de tempo para ser feliz!

4 de janeiro de 2019

Sudão: «VAI-TE, BASHIR!»


O grito «VAI-TE, BASHIR!», grafitado em árabe com uma silhueta do presidente sudanês, tomou conta das paredes de Cartum e de outras cidades do país.

Regista a vontade de milhões de sudaneses que, há três semanas, estão nas ruas a exigir o fim do regime de Omar al-Bashir.

O general, de 75 anos, tomou o poder há quase três décadas através de um golpe de estado.

A revolta começou na cidade de Atbara a 19 de dezembro. Manifestantes incendiaram a sede no NCP, o partido de Bashir.

O aumento do preço do pão e a falta de combustíveis foram o detonador da revolta sudanesa. Mas os manifestantes são contra a ditadura que tem o país a ferro e fogo.

As primeiras imagens da revolta mostravam militares a saudar os manifestantes.

Entretanto, as forças de segurança do governo atacaram os manifestantes com gás lacrimogéneo e balas reais, prenderam activistas, líderes da oposição, intelectuais e jornalistas, desligaram a internet para tentar conter a revolta.

O governo diz que há 19 mortos, 219 feridos civis e 187 das forças da ordem.

A oposição contabiliza 45 civis mortos, mais de um milhar de feridos e mais de dois mil de tidos.

«Os problemas de manifestações continuam (e os mortos aumentam) mas, tendo cuidado, não haverá grande perigo para nós que vivemos do lado oposto das grandes tensões. O pão vai-se conseguindo com grandes filas de espera, nem que seja preciso esperar todo o dia. A nossa oração para que se saibam resolver da melhor forma, com justiça e dignidade, os problemas do Sudão», escreveu um missionário que vive em Cartum.

A Frente nacional para a Mudança, formada por 22 partidos da oposição, e a sociedade civil assinaram uma Declaração de Liberdade e Mudança a pedir a renúncia de Al Bashir, a formação de um governo nacional de transição formado por líderes qualificados e eleições livres dentro de quatro anos.

As manifestações continuam...

22 de dezembro de 2018

MISSÃO É RELAÇÃO



Os bispos portugueses, seguindo uma deixa do Papa Francisco, puseram em primeiro lugar na vivência do Ano Missionário a relação pessoal com Jesus, que é a fonte de todas as relações que tecem e ligam o nosso ser missionários combonianos, hoje.

Escrevem na nota pastoral Todos, tudo e sempre em missão que o «encontro pessoal com Jesus Cristo vivo na sua Igreja: Eucaristia, Palavra de Deus, oração pessoal e comunitária» é a primeira das quatro dimensões para prepararmos e vivermos o Ano Missionário.

Daí surgiu o compromisso provincial de «favorecer nas nossas comunidades e nos grupos o encontro com Jesus (Lectio Divina, partilha da Palavra)» como foi expresso na primeira proposta operativa para a animação missionária este ano.

O encontro pessoal, a relação com Jesus, com os outros e com todas as criaturas é uma dimensão fundamental do nosso ser missionário.

A Intercapitular sublinhou que vivemos um deficit de humanidade e que a formação permanente nos deve humanizar. Notou também que a tensão entre o ser e o fazer é mãe de muitas das nossas doenças e sofrimentos que nos amarram.

Não fazemos missão, estamos em estado permanente de missão. Melhor, «eu sou uma missão nesta terra, e para isso estou neste mundo» como o Papa Francisco escreveu na Evangelii gaudium (nº 273).

Na exortação Gaudete et exsultate o papa argentino vai mais além. Nota que somos uma missão de santidade, chamados a encarnar uma palavra, uma mensagem de Jesus com e na nossa vida:
  • «Para um cristão, não é possível imaginar a própria missão na terra, sem a conceber como um caminho de santidade» (nº 19); 
  • «Pode também envolver a reprodução na própria existência de diferentes aspetos da vida terrena de Jesus» (nº 20); 
  • «Também tu precisas de conceber a totalidade da tua vida como uma missão. […] E permite-Lhe plasmar em ti aquele mistério pessoal que possa refletir Jesus Cristo no mundo de hoje» (nº 23); 
  • «Oxalá consigas identificar a palavra, a mensagem de Jesus que Deus quer dizer ao mundo com a tua vida» (nº 24). 
Os bispos portugueses sublinham que mais que geográfica a missão é, acima de tudo, cordial: «do encontro com a Pessoa de Jesus Cristo nasce a Missão que não se baseia em ideias nem em territórios, mas “parte do coração” e dirige-se ao coração, uma vez que são “os corações os verdadeiros destinatários da atividade missionária do Povo de Deus”.»

Viver a missão pelo lado do fazer tem a ver com a eterna tentação de escrever o quotidiano através de uma folha de cálculo, uma página Excel. Se pegamos na missão pelo lado do fazer, temos que dizer: «somos servos não necessários: fizemos o que devíamos fazer» (Lucas 17, 10).

Contudo, somos relação com o Deus-Trindade – donde viemos – para tecermos relações interpessoais e comunitárias, cordiais de vida e de missão: a missão nasce no coração amoroso da Trindade para chegar aos corações do mundo através do coração de cada um de nós.

Daí a necessidade de rever o silogismo cartesiano do «penso, logo existo» para o «relaciono-me, logo existo».

Que encarne e nasça em ti a Palavra, a mensagem de Jesus que Deus quer que digas ao mundo. Assim serás Natal todos os dias, assim 2019 será verdadeiramente Ano Missionário.

20 de dezembro de 2018

ESPERO UM MENINO!


Anuncio-vos uma feliz surpresa: ESPERO UM MENINO!

Nós, irmãos e sacerdotes combonianos, não temos crianças. Porém conhecemos e amamos tantas, no nosso fascinante e longo peregrinar missionário em terras de África, de América, de Ásia e Europa. 

Além disso, experimentamos com frequência a alegria de ver as crianças dos nossos amigos e familiares, os netos e sobrinhos; a alegria de ver grupos de crianças que, de vez em quando, vêm fazer-nos uma visita e cantar para nós, em particulares ocasiões de festa; a alegria de ver, de vez em quando, a Sofia, a menina da Clara, a nossa animadora cultural, com os seus belos olhos, negros e profundos; ou de encontrar a Verónica, uma doce e gentil menina que acompanha, cada sábado, a sua avó na organização da tômbola...

Todas estas crianças, porém, são filhos «dos outros!»

Agora, porém, venho anunciar-vos algo incrível: estou à espera de um menino mesmo meu! Sim, entendestes bem! Bem, não só meu. Porque a mãe conhecemo-la bem, mas o pai é só «putativo». Dado que todos reclamam a sua paternidade, decidimos, em espírito de fraternidade, adotá-lo todos juntos.

Estais surpreendidos? Também nós ficámos surpreendidos, dada a média avançada da nossa idade. Também nós pensámos, como Abraão: «a um com cem anos de idade, pode nascer um filho?» (Gênesis, 17,17). Também nós, como ele, nos teríamos contentado com o nosso Ismael, o filho «outro», mas Deus quis surpreender-nos, quando os nossos sonhos se tinham desfeito há muito. Que vos devemos dizer? O nosso coração, de repente, recomeçou a bater forte, aqueceu-se e encheu-se de alegria, «porque um menino nos nasceu, um FILHO nos foi dado» (Isaías 6,5). 

E também nós voltámos a sonhar, como profetizou Joel!

Agora andamos todos atarefados a preparar o Acontecimento. 

Sim, o nascimento de uma criança tem que se preparar com cuidado. Facilmente podeis compreender que para nós idosos esta preparação não resulta tarefa fácil. Por isto vos pedimos que nos deis uma mão. 

Pensando no velho Simeão que vai ao Templo para acolher nos seus braços o Menino e louvar a Deus porque os seus olhos vêem finalmente a Luz (Lucas 2, 25-32), perguntamo-nos: como faremos nós? É por isso que precisamos de vós, que a tarefa de pais e mães a sabeis desempenhar bem.

Dado que voltámos a sonhar, com a confiança das crianças, também nós desejamos colocar a nossa carta na árvore para pedir ao Menino o dom da PAZ. 

Como poderemos nós repetir com Simeão: «Agora, Senhor deixa que o teu servo vá em paz...» se vemos, à nossa volta, tanta injustiça, violência e pobreza?!... 

Mas, apesar de tudo isso, continuamos a alimentar o SONHO que este Menino nos trouxe. Ajudai-nos, vós também, a sonhar!

Bom Natal!
P. Manuel João 
p.mjoao@gmail.com

18 de dezembro de 2018

MÃE SANTA


A FADISTA MARIZA teve um filho prematuro às 18 semanas de gestação. Chama-se Martim e, durante o primeiro ano de vida, teve que lutar muito para sobreviver. Passou muito tempo na incubadora, esteve ligado às máquinas para respirar e crescer.

«Ele faz um ano e no dia a seguir pego na minha mãe e vou para Fátima com ele ao colo e digo: “Minha Nossa Senhora, eu sou mãe, tu és mãe. Ele é teu como meu. Cuida dele que eu vou cuidar o que conseguir.” E o Martim é da Nossa Senhora, não é meu. Está aí» – a cantora contou numa entrevista.

Emocionou-me profundamente este testemunho, este diálogo entre mulheres-mães, o génio feminino, esta consagração do Martim a Nossa Senhora. Uma mãe que confia o filho à outra: «Cuida dele!»

O Papa Francisco recordou-nos três vezes na missa da canonização dos Pastorinhos, a 13 de maio de 2017, que temos Mãe! E desafiou-nos: «Agarrados a Ela como filhos, vivamos da esperança que assenta em Jesus.»

A Imaculada Conceição é a nossa mãe, porque Jesus no-la deu no Calvário num ato de amor radical: normalmente a mãe é única e partilhada só com os irmãos de sangue. Ao dar-nos como filhos à Mulher e ao amado como Mãe, Jesus faz-nos irmãos de sangue no sangue derramado na Cruz.

«Junto à cruz de Jesus estavam, de pé, sua mãe e a irmã da sua mãe, Maria, a mulher de Clopas, e Maria Madalena. Então, Jesus, ao ver ali ao pé a sua mãe e o discípulo que Ele amava, disse à mãe: “Mulher, eis o teu filho!” Depois, disse ao discípulo: “Eis a tua mãe!” E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-a como sua» – conta João no seu Evangelho.

A Santa Maria, a mulher forte que permanece de pé junto à cruz do Filho, é uma Mãe que cuida de nós, seus filhos; uma Mãe que nos ensina o caminho da Vida, o caminho da santidade, o caminho de todos e cada um de nós.

O Papa Francisco publicou há quase um ano uma Exortação Apostólica. Chamou-lhe Alegrai-vos e exultai. É um roteiro para viver o chamamento à santidade no mundo actual, a santidade «ao pé da porta».

O penúltimo parágrafo, nº 176, coroa as reflexões do papa argentino sobre a santidade. Apresenta Maria como modelo – não das passarelas luzidias da moda, mas dos caminhos trabalhosos da vida – «porque ela viveu como ninguém as Bem-aventuranças de Jesus»:
  •  Estremecia de júbilo na presença de Deus; 
  • Conservava tudo no seu coração; 
  • Deixou-se trespassar por uma espada de dor. 
O Papa define Maria de Nazaré como «a mais abençoada dos santos entre os santos, aquela que nos mostra o caminho da santidade e nos acompanha!»

Maria, a Virgem Imaculada concebida sem pecado, caminha connosco os caminhos da santidade: não estamos sós neste peregrinar de Deus e para Deus. Fazemo-lo juntos, como povo de Deus, fazemo-lo com ela que nos precede como Mãe e Mestra.

Francisco escreve que «ninguém se salva sozinho, como indivíduo isolado, mas Deus atrai-nos tendo em conta a complexa rede de relações interpessoais» (nº 6).

O caminho da santidade nem sempre é chão raso! «Estreita é a porta e difícil o caminho que conduzem à vida», disse Jesus.

O caminho da santidade tem altos e baixos, dificuldades, tentações, buracos… De vez em quando caímos. Somos fracos, somos frágeis. Mas a Mãe está connosco: «quando caímos, não aceita deixar-nos por terra e, às vezes, leva-nos nos braços sem nos julgar», escreve o Papa.

Como Mariza rezou em Fátima: Santa Maria é Mãe e cuida de nós; levanta-nos e leva-nos ao colo, dá-nos colo.

O Papa Francisco termina assim o breve parágrafo de 115 densas palavras: «Conversar com Ela consola-nos, liberta-nos, santifica-nos. A Mãe não necessita de muitas palavras, não precisa que nos esforcemos demasiado para Lhe explicar o que se passa connosco. É suficiente sussurrar uma vez e outra: “Ave-maria...”.»

Eis uma trindade de verbos essenciais para a nossa espiritualidade mariana: Maria consola-nos, liberta-nos, santifica-nos!

É tudo isto que apresentamos à Mãe para que ela ao escutar a nossa prece, o nosso agradecimento nos console, nos liberte e nos santifique.

A Mãe Santa ensina-nos a escutar o que Deus quer de nós através de tantos anjos que nos envia, com rostos e corações conhecidos.

Ensina-nos a admitir os nossos sentimentos perturbados, a assumir os nossos medos e angústias, a dar voz às nossas dúvidas, a reconhecer os nossos limites, o vaso de barro onde trazemos o tesouro que somos.

O mistério da anunciação de Nazaré – a evangelização de Maria, como lhe chamam os nossos irmãos ortodoxos – repete-se na história de cada um de nós.

O Papa Francisco recorda que cada um de nós é uma missão em Cristo, um caminho de santidade. Deus quer dizer hoje uma palavra concreta, uma mensagem através de cada um.

«Permite-lhe plasmar em ti aquele mistério pessoal que possa reflectir Jesus Cristo no mundo de hoje», escreve o Papa no nº 23 da exortação Alegrai-vos e exultai.

Maria ensina-nos a dizer, no fim: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.»

Habitam-nos tantas palavras… Mas é a Palavra de Deus que quer fazer-se em nós, ser Natal em nós para celebrarmos bem o Ano Missionário, «uma ocasião de graça, intensa e fecunda, de modo que desperte o entusiasmo missionário», como desejam os nossos bispos.

Acolher Maria como nosso Mãe santa – como em nosso nome fez o discípulo amado junto à Cruz – é dizer sim como e com ela ao projeto de Deus de um mundo redimido através da encarnação, morte e ressurreição do seu Filho, triunfo da bondade de Deus sobre toda a maldade do Mafarrico.

Parece ser uma missão impossível, mas não precisamos de muitas palavras para pedir a ajuda de Santa Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe. Basta sussurrar uma e outra vez com o Anjo, com todas as filhas e filhos: «Ave-maria…»

16 de dezembro de 2018

NATAL NO CONGO


Com os meus votos de um Santo e Feliz Natal, quero antes de mais agradecer-vos a vossa proximidade através da oração. Eu continuo a trabalhar no Postulantado (Seminário) em Kisangani, República Democrática do Congo, onde colaboro na formação de jovens que se preparam para serem missionários Combonianos. Somos três formadores, eu mais dois padres congoleses. Os jovens em formação são 40. Durante o tempo do Postulantado recebem uma formação humana e cristã para ajudá-los a discernir a sua vocação e fazem três anos de filosofia. 

Neste momento é difícil descrever a situação do Congo. O Doutor Denis Mokwenge, genicologista-obstetra congolês, no seu discurso no dia 10 de dezembro, no momento em que lhe foi entregue o Prémio Nobel da Paz 2018 em Oslo, apresenta-nos a situação dramática do Congo nestes últimos anos: crianças, jovens, mulheres violadas, massacres,etc.

Diante do horrível e indescritível drama a sua atitude é antes de mais de silêncio e oração: «Meu Deus, diz-nos que aquilo que estamos a assistir não é verdade, diz-nos que é um pesadelo, diz-nos que quando despertarmos tudo está bem. Mas infelizmente não é um pesadelo, um mau sonho. É uma realidade. É a nova realidade do Congo...e tudo isto se passa sem que os autores deste crimes sejam julgados...».

Neste momento o Congo está a preparar-se para as eleições que serão no dia 23 de dezembro. Não sabemos o que vai acontecer no momento das eleições e depois das eleições.

Nestas circunstâncias não sabemos se iremos celebrar o Natal nas nossas igrejas. Confiamos no Senhor, pois é Ele o mestre da História.

Envio-lhe uma fotografia dos nossos postulantes juntamente com os superiores das nossas comunidade do Congo.

Que o Senhor a proteja e recompense de tudo quanto faz pela Missão.
P. José Arieira

15 de dezembro de 2018

VI ASSEMBLEIA INTERNACIONAL LMC




Está a decorrer de 11 a 17 de Dezembro, na Casa Generalícia dos Missionários Combonianos, em Roma, a VI Assembleia Internacional dos Leigos Missionários Combonianos (LMC), evento que se realiza cada seis anos.

No total, são 51 participantes. Além dos representantes dos LMC e dos combonianos que os acompanham nos seus respectivos países, vindos de 20 países de África, Europa e América, participam também a irmã Ida Colombo, do conselho geral das Missionárias Combonianas e a Maria Pia Dal Zovo, do conselho central das Seculares Missionárias Combonianas.

A Assembleia iniciou-se com as palavras de boas-vindas proferidas pelo Alberto de la Portilla, coordenador do Comité Central dos LMC, e pelo P. Pietro Ciuciulla, em nome do Conselho Geral comboniano.

A manhã do primeiro dia, 11 de Dezembro, foi dedicada à oração, à reflexão e à partilha, guiados pelos Gonzalo Violero García e Maria Carmen Polanco Delgado, LMC da Espanha. Da parte da tarde, os participantes estiveram reunidos por continentes.

Ontem, dia 12, no qual se recorda a Nossa Senhora de Guadalupe, cada continente apresentou o relatório das actividades realizadas durante os últimos seis anos e apresentaram os seus principais desafios em relação ao futuro. Na mesma linha, seguiu- se a apresentação do relatório do Comité Central e o relatório económico de 2012 a 2018.

De tarde, deu-se início à reflexão do primeiro tema da Assembleia, que está relacionado com a organização dos LMC (composição, estrutura, comunidades internacionais e economia).

Os LMC irão debater, entre si, outros três grandes temas: formação e espiritualidade, a missão dos leigos e os documentos fundamentais dos LMC.

Dar-se-á ainda tempo para falar de um modo especial sobre as comunidades internacionais, para partilhar as experiências da vida dos LMC, nos diversos contextos continentais, e informar sobre a actual relação dos LMC com a Família Comboniana.

Nos momentos de oração e na Eucaristia, estão também presentes todas e todos os LMC e, em especial, os que se encontram a trabalhar em contextos difíceis como, por exemplo, na República Centro-Africana.

Que a luz do Espírito Santo seja o farol que ilumine os participantes nesta Assembleia e os LMC em geral, para que sejam capazes de dar continuidade à obra e ao carisma iniciados por São Daniel Comboni!
P. Arlindo Pinto

GUARDADORAS DA ESPERANÇA

— Eu não consigo… não consigo! – repetia sempre Reem, uma jovem beduína palestiniana de 16 anos, sempre que a convidávamos para aprender a u...