12 de fevereiro de 2025

NOVO VIGÁRIO APOSTÓLICO DE HAWASSA ORDENADO BISPO



O recém-nomeado Vigário Apostólico de Hawassa, na Etiópia, foi ordenado bispo a 9 de fevereiro de 2025, na Catedral da Aliança da Misericórdia, pondo fim à longa espera de quatro anos por um bispo novo para a maior circunscrição católica em termos de fiéis no país.

D. Gobezayehu Yilma – que tomou o nome episcopal de Merhakristos (Conduzido por Cristo em Gue'ez, a antiga língua litúrgica da Etiópia) – foi ordenado pelo Cardeal Berhaneyesus Souraphiel, Arquiparca de Adis-Abeba, assistido por D. Abraham Desta, Vigário Apostólico de Meki, e pelo comboniano recém-ordenado D. Tesfaye Tadesse, bispo auxiliar da diocese da capital.

Estavam presentes outros sete bispos – seis da Etiópia e um da Nigéria – juntamente com mais de 100 sacerdotes (locais, de muitas dioceses e missionários). Havia também um grande número de irmãs, catequistas e uma enorme multidão que encheu a catedral e três grandes tendas no exterior, acomodando cerca de 5.000 pessoas. Convidados da Europa e dos Estados Unidos, políticos locais e representantes de Igrejas protestantes marcaram presença no evento.

A liturgia festiva, bem organizada e participada, foi celebrada segundo o rito latino em amárico e durou mais de cinco horas. Orações foram feitas em sidama, guji, borana e guedeo, algumas das sete línguas faladas no Vicariato. A cerimónia foi transmitida pela estação Pax Catholic TV, na internet e em circuito fechado no exterior da catedral. A Sidama Media Corporation e a Fana FM fizeram a cobertura do evento em amárico, oromo e sidama.

O comboniano P. Juan Núñez, que foi Administrador Apostólico de Hawassa durante mais de quatro anos, saudou com grande alegria o acontecimento da ordenação. 

“O período ‘provisório’ foi tão longo que parecia perder a sua própria condição para se tornar num interino permanente. Mas ninguém esqueceu a espera e todos continuaram a rezar para que Hawassa tivesse um Pastor. E o dia auspicioso chegou. Hoje, 9 de fevereiro de 2025, celebramos a sua consagração e a sua tomada de posse da ‘cadeira vazia’. Este é o motivo da nossa alegria”, escreveu na sua mensagem.

Nos discursos proferidos no final da celebração, Mons. Massimo Catterin, Encarregado de Negócios da Nunciatura do Vaticano em Adis-Abeba, agradeceu a D. Merhakristos por ter aceitado o chamamento de Deus para ser o Vigário Apostólico de Hawassa. 

“Recorde que foi consagrado bispo no Ano do Jubileu”, disse.

O diplomata da Sé Apostólica elogiou a liturgia bem organizada e participada e agradeceu ao P. Núñez pelo seu generoso serviço como Administrador Apostólico.

D. Merhakristos nasceu em Dodola, na zona de Bale, há 46 anos. Antes de entrar para o Seminário Maior de Meki, estudou agricultura na Universidade de Jima. Fez a sua formação teológica de base no Instituto dos Franciscanos Capuchinhos em Adis-Abeba e foi ordenado sacerdote em 2005.

Obteve um mestrado em Estudos de Desenvolvimento no Kimmage Development Studies Institute, uma licenciatura no Ensino Social Católico e o doutoramento com uma dissertação centrada na avaliação ética do paradigma do estado de desenvolvimento com base na antropologia cristã de João Paulo II na Pontifícia Universidade de Maynooth, na Irlanda.

Antes da sua nomeação para Vigário Apostólico de Hawassa, D. Merhakristos foi Vigário Delegado do Vicariato Apostólico de Meki e Diretor Executivo da Caritas-Meki.

D. Merhakristos, que escolheu “Ó Perpétuo Socorro” como lema do seu episcopado, é o quinto bispo do Vicariato de Hawassa e o primeiro etíope a governá-lo. Os bispos anteriores eram italianos, três combonianos e um salesiano. 

O Vicariato Apostólico de Hawassa cobre uma área de mais de 100 mil quilómetros quadrados – maior que Portugal, com nove milhões de habitantes no Sul do país. Tem um total de quase 290 mil fiéis em 20 paróquias e 558 capelas. 

Dois missionários combonianos, os padres Bruno Maccani e Bruno Lonfernini, expulsos do Sul do Sudão, chegaram a Hawassa a 18 de dezembro de 1964, para iniciar uma obra missionária de grande sucesso, primeiro entre os sidamas e depois entre os guedeos e os gujis. Mais tarde, chegaram os Missionários do Espírito Santo entre os boranas, os Salesianos assumiram a missão de Dilla, e os Apóstolos de Jesus, do Quénia, tomaram duas missões combonianas, uma entre os guedeos e outra entre os gujis, iniciaram a presença católica entre os amaros. Os Jesuítas e os Fidei donum abriram uma missão cada um entre os gujis.

Atualmente, o Vicariato conta com 531 catequistas a tempo parcial e 109 a tempo inteiro, 74 religiosas de 11 congregações missionárias e uma local, 47 sacerdotes religiosos e seis irmãos de quatro institutos missionários, 21 sacerdotes diocesanos, nove seminaristas maiores e dois diáconos.

6 de fevereiro de 2025

EX-GERAL COMBONIANO ORDENADO BISPO AUXILIAR DE ADIS-ABEBA


O P. Tesfaye Tadesse, anterior Superior Geral dos Missionários Combonianos, foi ordenado Bispo Auxiliar da Arqueparquia de Adis-Abeba, na Etiópia, a 2 de fevereiro de 2025.

O Cardeal Berhaneyesus Souraphiel, Arquiparca de Adis-Abeba, foi o ordenante principal, assistido por D. Menghesteab Tesfamariam, Arquiparca de Asmara, Eritreia, e por D. Abraham Desta, bispo do Vicariato Apostólico de Meki, Etiópia.

A ordenação teve lugar na catedral católica da Natividade durante uma liturgia muito colorida segundo o rito católico etíope, que durou mais de cinco horas.

A catedral e o seu recinto estavam completamente lotados. Toda a cerimónia foi transmitida em direto na catedral e na Internet.

Estavam presentes quase todos os bispos da Etiópia, o Vigário Geral dos Missionários Combonianos, P. David Domingues, os bispos combonianos Wokorach Raphael P'Mony, arcebispo de Gulu, Uganda, e Ndjadi Dbjate Léonard, bispo auxiliar de Kisangani, RD Congo, alguns superiores combonianos das províncias africanas de língua inglesa, muitos confrades e irmãs combonianas da Etiópia e do estrangeiro, um grande número de sacerdotes locais e religiosos, freiras, fiéis, representantes de outras Igrejas cristãs, do governo e do corpo diplomático.

A liturgia foi conduzida em Gue'ez com a tradução em inglês nos ecrãs. Alguns hinos foram cantados em amárico.

Durante a homilia, o Cardeal Berhaneyesus falou do ministério episcopal.

«Estamos felizes por receber do Santo Padre e dos Missionários Combonianos o novo bispo auxiliar», disse.

O Cardeal Berhaneyesus exortou D. Tesfaye a ser um bom pastor, sobretudo para os mais necessitados, «um pai para os pobres, deslocados, refugiados».

A procissão do ofertório foi animada por dançarinos da comunidade de refugiados do povo Kunama, da Eritreia.

A cerimónia de ordenação foi seguida de vários discursos. Monsenhor Massimo Catterin, encarregado de negócios da Nunciatura de Adis-Abeba, foi o primeiro orador.

«O episcopado é o nome de um serviço», sublinhou.

O P. David Domingues, Vigário Geral dos Missionários Combonianos, agradeceu a Deus pelo dom, pela vida e pelo ministério de D. Tesfaye no Instituto e na Igreja. «Estamos de facto orgulhosos de si», exclamou.

O Arquiparca Menghesteab recordou que convidou D. Tesfaye a entrar para os Combonianos.

«Há muitos anos, eu pensava que tinha pescado um peixe pequeno, mas gradualmente ele tornou-se um peixe grande. Vejo o D. Tesfaye como meu filho querido», explicou.

O Superior Provincial dos Combonianos na Etiópia, P. Asfaha Yohannes, e o líder de todas as Igrejas Evangélicas do país estiveram entre os oradores.

D. Tesfaye concluiu os discursos com uma palavra de agradecimento em amárico, inglês, italiano, espanhol e francês.

«Continuo a contar com as vossas orações e o vosso apoio», disse o novo bispo ordenado.

Depois da celebração litúrgica, foi servido aos convidados um delicioso almoço com pratos tradicionais etíopes e alguma animação.

O P. Tesfaye, que escolheu como lema episcopal «Ó Salvador do Mundo, fez a sua profissão de fé durante uma vigília na Catedral na véspera da ordenação.

5 de fevereiro de 2025

IDADE TERCEIRA


Completei 65 voltas ao Astro-rei no dia 4 de fevereiro, entrando oficialmente na terceira idade. A CP lá vai ter de me transportar por metade do preço! É o jeito.

Nesse dia, na Etiópia lemos nos textos da liturgia: «Deste-me um corpo: [...] eis-me aqui, ó Deus, para fazer a tua vontade».

O meu corpo está a envelhecer, mais lento e menos flexível, biónico, com uma anca de titânio, alguns dentes postiços, olhos cansados a exigir lunetas, meio surdo do lado direito, cabeleira esparsa e grisalha!

Por tudo isto e com estes ossos agradeço a Deus! E canto, como faço cada ano que passa neste dia: «Gracias a la Vida, que me há dado tanto».

O Senhor foi muito bondoso para comigo!

Agradeço à Fonte da Vida pelos meus queridos pais, pelas manas, pelas suas famílias, pela minha família, pelos meus amigos daqui, daí e de lá que são pura dádiva divina, pelos benfeitores, pela comunidade paroquial de Cinfães onde nasci para a vida e para a fé.

Grato por São Daniel Comboni, meu pai e inspiração no serviço missionário, pela família comboniana de que faço parte, pelos meus irmãos e irmãs gujis, a mátria que Deus na sua misericórdia amorosa me deu.

Estou eternamente agradecido pelo dom da vida, da vocação missionária comboniana, do serviço, da alegria, da missão.

Ofereço e rededico ao Senhor da Missão a minha vida através do amor aos irmãos, sobretudo aos mais pobres e abandonados, seguindo os passos de São Daniel Comboni.

Agradeço a felicidade que sinto, que vivo, que partilho: dom de um Deus feliz. 

Passei o dia praticamente na estrada. 

Estivei o fim-de-semana em Adis-Abeba para participar na ordenação episcopal do meu amigo P. Tesfaye Tadesse, bispo auxiliar da arque-eparquia da capital etíope e ex-superior geral dos combonianos.

Apanhei o autocarro para Hawassa às 5:30 da manhã. Em Hawassa, tratei de alguns assuntos urgentes, almocei com os colegas, fui às compras ao mercado e iniciei a viagem para Qillenso. 

Pelo caminho celebrei a Eucaristia com as irmãs de Gosa que há menos de um mês abriram a comunidade na capela mais a norte da missão. 

Eram 19:00 quando cheguei a Qillenso. Para festejar com o colega e com a cozinheira comprei alguns bolinhos em Hawassa. Depois fui dormir, porque o corpo pedia descanso.

Agradeço as felicitações recebidas – o espaço digital faz-nos vizinhos – e a todos abençoo no nome do «muito amado Irmão e Senhor Jesus».

23 de janeiro de 2025

DA TERRA DAS ORIGENS


Cheguei à Etiópia pela primeira vez há trinta e um anos. Nessa altura, o país apresentava-se aos visitantes como a pátria de «Treze meses de sol». A frase publicitária jogava com o facto de o ano etíope ter treze meses: doze de trinta dias e um de cinco (ou seis, se o ano universal for bissexto) para acertar as contas com o calendário solar.

Agora, a saudação transformou-se. «Bem-vindos à Terra das origens!», dizem. O novo chavão prende-se com o facto de na Etiópia se ter encontrado há precisamente meio século o esqueleto humanóide fossilizado mais antigo e completo à data. Pertencia a uma fêmea, baptizada de Dinkenesh – Lúcia em amárico, a Eva dos paleoantropólogos. Don Johanson, o paleontologista norte-americano que encontrou os fósseis, contou à CNN que nessa noite estavam a ouvir a canção «Lucy and the Sky with Diamonds» dos Beatles e alguém sugeriu chamar Lucy ao achado. O nome pegou!

O fóssil do antepassado entre o símio e o humano tem cerca de 3,2 milhões de anos e veio revolucionar a percepção da evolução: antes pensava-se que os nossos antepassados na cadeia da evolução ainda eram quadrúpedes (caminhavam com pés e mãos), mas Dinkenesh é definitivamente bípede. Mede cerca de um metro de altura e pertence à nova espécie Australopitecus afarensis (de Afar, a região onde foi encontrada, uma das áreas mais baixas e quentes do globo). Uma cópia dos quarenta e sete ossos encontrados encontra-se exposta na Museu da Universidade de Adis-Abeba. Entretanto, na mesma região, e dez anos depois, foram encontrados os restos de humanóides com mais de 4,5 milhões de anos, catalogados com o nome de Ardipithecus ramidus. A Etiópia é, de facto, a terra das nossas origens, um paraíso na Terra.

Viver na Abissínia é uma experiência humana e religiosa única. Regressei ao país há três anos e encontrei-o profundamente transformado. Duas décadas de grande progresso e industrialização levaram a electricidade e a rede móvel até aos seus recantos, o asfalto é carpete negra estendida por todo o país, o ensino superior foi democratizado. Os Etíopes vivem melhor e a população duplicou, de 63 para 126,5 milhões (os dados são do Banco Mundial).

14 de janeiro de 2025

REFLEXOS DO DIVINO

Durante as férias de Natal, um casal de judeus messiânicos quis reencontrar-se com o grupo de beduínos a quem, a nosso convite, ofereceram um curso de hebraico. 

Os judeus messiânicos são judeus que acreditam em Jesus (Yeshua) como o Messias, combinando tradições judaicas e cristãs.  

Encontrámo-nos à tarde no jardim de infância da aldeia. 

– O que podemos levar às suas famílias para lhes dar um sentido de celebração, de Natal? – perguntaram-nos.

Os membros da comunidade messiânica organizaram-se para partilhar um presente de Natal com as famílias beduínas.

A prenda foi apenas um pretexto para o reencontro. O afeto mútuo e a proximidade que se criaram eram evidentes. Nos seus rostos, notava-se o prazer de ver os seus professores e de falar com eles em hebraico.  

Num ambiente fraterno, cerca de catorze beduínos árabes palestinianos, na sua maioria casados, partilham em hebraico as suas vidas: a dificuldade de encontrar trabalho depois da guerra, o número de filhos, e... os seus sonhos. 

Riam-se e surpreendiam-se uns aos outros ao ouvir esses sonhos, talvez verbalizados pela primeira vez: uma casa, um cavalo, um lugar seguro para viver, um lar feliz, a paz. 

O sonho do casal messiânico é que, através da aprendizagem de línguas, se construam caminhos de paz e compreensão.  

– És amiga da professora que fala hebraico, certo? O meu pai fala hebraico! – disse uma rapariga orgulhosa da escola que visitámos no dia seguinte. 

– Gostaste dos presentes? – perguntei-lhe. 

O seu rosto estava radiante com um grande sorriso que quase mostrava os queques, chocolates, doces e guloseimas que tinham recebido. 

– Obrigado, obrigado! – repetiu ele, sorrindo.  

Tal como aconteceu com Jesus, ficamos muitas vezes espantados com a sua grande fé e confiança em Deus. Apesar da incerteza, dos conflitos, da perda de terras, de casas e de direitos, encontram na sua fé uma âncora para resistir.

A resiliência destas comunidades beduínas ensina-nos que a esperança floresce em pequenas ações: um reencontro, um presente especial no Natal, um chá partilhado no frio do deserto, um sorriso perante a incerteza ou a aprendizagem de bordados ancestrais que preservam tradições e reforçam a identidade. 

Nestas ações simples, encontramos o rosto de um Deus próximo que caminha com a humanidade e a sua criação.

Através destes momentos, compreendemos que a solidariedade, o desejo de ligação e a dedicação à inclusão são reflexos profundos do Divino.

Ir Cecília Sierra

Comboniana no Deserto da Judeia

9 de janeiro de 2025

NATAL EM JANEIRO



Não, não são rosas em janeiro – que aqui também as há – mas é Natal! Os etíopes celebram o nascimento de Jesus no dia 7 de janeiro, a data do Natal ortodoxo. E porquê? Porque os ortodoxos não aceitaram o calendário gregoriano, obra do Papa Gregório XIII em 1582, e continuam a seguir o vetusto calendário juliano a contar desde 46 antes de Cristo.

Como se celebra o Natal católico na Etiópia? 

A preparação difere. Os católicos que seguem o Rito Etíope ou Alexandrino – das quatro dioceses do Norte chamadas eparquias – têm um advento de seis semanas com jejum obrigatório para padres e monges, mas que os leigos também seguem: até ao meio-dia (ou até às três da tarde) não comem nada; depois carne, ovos e produtos lácteos estão fora do menu. Os que seguem o Rito Latino, a maioria dos fiéis – oito dioceses chamadas vicariatos apostólicos e uma prefeitura – fazem as quatro semanas de preparação sobretudo com oração intensificada.

Eu celebrei o Natal na Igreja Paroquial, em Qillenso, e na capela de Chirra, a comunidade mais jovem da missão.

A igreja de Qillenso estava decorada com o presépio – as imagens vieram da Europa: a Etiópia tem uma grande tradição na produção de ícones e outras pinturas, mas é pobre na escultura – e com junco pelo chão. As pessoas trajaram de festa com os vestidos tradicionais guji (em que predomina o branco com motivos decorativos a negro e encarnado, as cores da bandeira oromo) ou com trajes nacionais: brancos com bordados multicolor. E com penteados a condizer!

A celebração estava marcada para as 9h00, mas as pessoas chegaram tarde. Eram 10h00 quando a missa começou. A energia dos cânticos e das orações encheu o templo! Senti uma paz enorme enquanto presidi à eucaristia que demorou hora e meia.

Depois, os miúdos vieram comigo a casa para receberem dois rebuçados cada um! É um costume que se repete cada domingo. Às vezes levam biscoitos. 

Na igreja, a celebração continuou com as prestações dos três coros paroquiais: das casadas, dos jovens com alguns adultos pelo meio e das adolescentes. Normalmente cada coro apresenta duas canções.

Eu estava atrasado e tive de correr para Chirra que fica a doze quilómetros de Qillenso, ao lado da estrada asfaltada. 

A comunidade tem cerca de quatro anos e reúne-se para rezar na cabana da família que vendeu o terreno para estabelecer a comunidade. Cada capela tem um campo para cultivo e auto-sustento. Querem uma capela, mas primeiro queremos reforçar a Igreja das pedras vivas!

A capela-cabana estava cheia como nunca com muitas crianças sentadas no junco que cobria o chão. Fitas de papel higiénico e balões decoravam o espaço.

Quando cheguei já iam na segunda leitura. É costume começar a celebração da Palavra quanto o padre se atrasa. 

Depois da oração dos fiéis benzi as camisolas que a comunidade mandou fazer para a ocasião com a frase «Para mim viver é Cristo» (Filipenses 1, 21) em guji estampada com uma cruz.

No final da Eucaristia, as crianças e os jovens vestiram as camisolas e o filho mais novo do catequista leu um poema alusivo à quadra que escreveu na tradição guji. Depois todos cantaram e pularam! E as 54 crianças e jovens receberam de presente um terço de plástico luminoso, que o Santuário de Fátima me ofereceu há dois anos.

Para terminar trouxeram dois grandes pães para serem partilhados por todos juntamente com copo de chá. Para o catequista, para alguns anciães e para mim havia também hititu, o iogurte local. A mesa da Eucaristia é mesa fraterna.

Quando cheguei a Qillenso já passava das 14h00, mas ainda havia gente no salão paroquial. No fim da missa e das atuações na igreja, houve pão e café para os graúdos e refrigerantes para os miúdos. 

Jesus, através do mistério da Encarnação, fez-nos filhos de Deus e irmãos uns dos outros. O Natal é a festa da fraternidade.

A celebração mudou-se para casa à volta do almoço melhorado onde não faltaria a tradicional galinha cozida num molho espesso e bem condimentado.

A comunidade comboniana de Qillenso festejou o seu Natal com a ceia. Comemos galinha com injera (o pão tradicional etíope em forma de panqueca gigante) regada com uma garrafa de vinho tinto etíope, oferta do ecónomo provincial. Para terminar, panetone – o «bolo-rei» italiano com um dedal de uísque (da mesma procedência) e pipocas, preparadas pela cozinheira.

Assim celebramos o Natal de 2017 de acordo com as contas etíopes.

Bom Natal!

26 de dezembro de 2024

BORDAR EM PONTO DE ESPERANÇA


Chegou radiante, com a sua pequena almofada bordada e cosida à mão. Mostrou-ma com orgulho: 

– Não é linda? Diz-me que está bonita!

Peguei na almofada bordada e examinei-a com atenção. 

Ao reparar na minha expressão de dúvida, acrescentou rapidamente:

– Bem, eu estou a aprender... Mas diz-me que estou a ir bem.

Ela é uma mulher beduína muito bonita. 

A sua filha acaba de casar com o filho da irmã.

É um costume beduíno comum de casamento entre parentes próximos.

– A almofadita está bem feita. Porém, não a podemos enviar para outro país com o enchimento que puseste! – expliquei-lhe. 

Ela não desanimou. Na aula seguinte, trouxe-a de volta, sem o enchimento.  

– Achas que a vão comprar? – pergunta com esperança no olhar.

– Vamos ver! – respondi-lhe, confiante de que alguém vá apreciar o seu esforço.

A almofadita é o seu primeiro trabalho no curso de bordado beduíno que iniciámos há três meses. 

É muito mais do que um objeto: é um símbolo de esperança no meio de uma realidade cada vez mais incerta e desafiante. 

A paz tarda em chegar, mas, entretanto, eles bordam, sonham e confiam.

Será que, ao ler esta mensagem, apreciaria o trabalho dela ou o das outras 160 mulheres que estão a aprender e a produzir com esperança? 

Cada ponto carrega consigo esforço, dedicação e confiança. Cada produto tem a sua história e é uma história de resiliência e esperança no meio do conflito.

 Ir. Cecília Sierra,

Missionária Comboniana entre beduínas no Deserto da Judeia

22 de dezembro de 2024

NATAL DE MISSIONÁRIOS PORTUGUESES EM ÁFRICA


 

“Temos de viver no essencial, e o essencial é Jesus”

No Sudão do Sul, maioritariamente cristão, ou na Etiópia, onde os católicos são apenas 1% da população, a quadra natalícia é vivida com grande devoção e alegria, apesar das dificuldades e do aumento da insegurança. É o testemunho deixado à Renascença por uma religiosa e um padre, ambos missionários combonianos.

O Natal cristão é celebrado em todos os cantos do mundo, e mesmo nos mais longínquos e improváveis encontramos missionários portugueses. É o caso do Sudão do Sul, o país mais jovem do mundo. “Estou aqui há cinco anos”, conta à Renascença a irmã Beta Almendra. Esta missionária comboniana diz que “a maioria dos sudaneses são cristãos”, mas que enfrentam graves problemas de sobrevivência.

“As maiores dificuldades deste país são básicas: educação, saúde, água, luz, estradas. São coisas que ainda estamos a sonhar tê-las com qualidade”, diz a missionária.

A irmã Beta Almendra dá como exemplo a situação a que chegaram os próprios funcionários públicos: “Só para imaginar, o governo não paga os salários há um ano! Portanto, quem é professor, quem trabalha no setor público, não recebe há um ano. Como é que se sobrevive? Com as organizações não governamentais, com a Igreja. Há muita, muita corrupção, porque todos estão a tentar ganhar alguma coisa extra para sobreviverem. Estamos com muitas dificuldades”

Apesar disso, garante que o Natal será vivido com alegria, e deixa uma mensagem de esperança.

“Vamos à missa, rezamos, comemos, dançamos, com crianças, adultos, com os coros das paróquias. Celebramos o Natal com muita fé, com muito amor e carinho, Jesus está no meio de nós. Ele vive e é Ele que nos dá esta esperança, de que 2025 vai ser melhor! A mensagem que deixo para todos é que realmente Jesus esteja no nosso coração. Tudo o resto é muito supérfluo, roupas, comida, viagens…. Temos que viver no essencial e o essencial é Jesus. É a nossa força, é a nossa paz, é a nossa liberdade. Feliz Natal!”.

 

Etiópia. Minoria cristã só celebra o Natal a 7 de janeiro

O padre José da Silva Vieira, também ele comboniano, já esteve em missão no Sudão do Sul. Antigo provincial em Portugal, onde esteve à frente da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal (CIRP), há três anos voltou à Etiópia, onde já tinha sido missionário, entre 1993 e 2000. “Estou a trabalhar entre o povo Guji, no sul da Etiópia. É uma missão geograficamente muito extensa”.

No país vive-se alguma insegurança nesta altura. “Sim, há alguma insegurança na zona, à volta da cidade de Adola. Tivemos de fechar algumas capelas, devido aos combates intermitentes entre os soldados do governo e os rebeldes do Exército de Libertação. Esta insegurança não nos permite visitar essas zonas, e é pena, porque as pessoas ficam sem assistência dos missionários”.

O padre José Vieira conta que na Etiópia os cristãos são uma minoria. “A Igreja Católica é uma Igreja pequenina, não chegamos sequer a 1% da população. Seremos um milhão de católicos, num panorama de 120 ou 130 milhões de habitantes”.

Mas, apesar de ser pequena está dividida em dois ritos. “As quatro dioceses do Norte seguem o rito oriental etíope e têm uma maneira própria de preparar e viver o Natal. O Advento, para eles, tem seis semanas, durante as quais fazem jejum todos os dias. Não comem carne, produtos lácteos, ovos, está tudo fora do cardápio alimentar. No dia do Natal, que é a quebra do jejum, aí há uma grande festaque começa na igreja e depois continua nas casas com uma refeição, em que voltam a comer carne”.

A sul é tudo diferente. “Nós, nas oito dioceses do Sul, a que chamamos de vicariatos apostólicos, seguimos o rito latino vertido para as línguas locais. Temos quatro domingos do Advento, e depois, no dia do Natal, há uma Eucaristia celebrada com muita alegria. A igreja é decorada com balões, põe-se erva no chão como sinal de festa, e a Missa é comprida, bem cantada, bem rezada, bem dançada, como é costume aqui. As pessoas também vestem roupas novas, e a liturgia também continua em família, com um almoço melhorado”.

Este ano vai passar o Natal na comunidade da cidade. "Normalmente vou almoçar com as missionárias da caridade, as irmãs de Santa Teresa de Calcutá. São elas que nos dão o almoço e o jantar enquanto nós trabalhamos na cidade”, conta.

Na Etiópia seguem o calendário ortodoxo. “Só celebramos o Natal no dia 7 de janeiro, e não no dia 25 de dezembro, porque o calendário litúrgico que os católicos seguem na Etiópia é o calendário da Igreja Ortodoxa da Etiópia” explica. Mas assinalam com grande devoção o dia do batismo do Senhor.

“Há essa curiosidade: embora a celebração do Natal seja muito bonita e bem participada, em que a Igreja se enche de cor e alegria, a celebração maior na quadra natalícia é o Timkat (também conhecido como a Epifania etíope, em que se celebra o Batismo de Jesus no Rio Jordão, e que será assinalado a 19 de janeiro de 2025). “Aí é que realmente o Mistério da Encarnação do Senhor é celebrado extensivamente. A festa começa no dia anterior, dia 18, normalmente os ortodoxos celebram sempre durante a noite, como vigília. A Eucaristia acaba com uma grande bênção a toda a multidão, com água benta”.

“É outra das realidades que experimentamos na Etiópia, onde o Natal tem dois momentos, o momento do nascimento do Senhor e depois o momento do seu batismo e da sua manifestação como Salvador do mundo”, sublinha.

Para o padre José Vieira, o Natal “é uma quadra eminentemente missionária. Nós, os missionários, enquanto contemplamos o Mistério de Belém, contemplamos o mistério da nossa vocação. Como Jesus encarnou a nossa história, também nós somos chamados a encarnar a história, a cultura, o espaço em que manifestamos, através da nossa vida e através da pregação, o amor de Deus para com todos os povos. No meu caso, o povo Guji, no sul da Etiópia”.

Ângela Roque, Rádio Renascença

17 de dezembro de 2024

DEUS, MINHA MÃE


Por defeito profissional, quando leio um romance, procuro notar qual é a relação do autor com Deus. Valter Hugo Mãe, no seu Deus na escuridão – uma ficção que tem a Medeira como cenário – fala de Deus como mãe. Porque, como escreve Afonso Cruz em Flores, «Deus não é macho».

No décimo capítulo, que leva o título do livro, o autor escreve no primeiro parágrafo, que «Deus é certamente como as mães. Liberta Seus filhos e haverá de buscá-los eternamente. Passará todo o tempo de coração pequeno à espera, espiando todos os sinais que Lhe anunciam a presença, o regresso dos filhos». 

E prossegue: «Deus é exatamente como são as mães, que criam e depois vão ficando para trás, à distância, numa distância que parece significar que não são mais precisas, e Ele, como elas, só sabe amar acima de qualquer defeito e qualquer falha, com cada vez maior saudade. [...]. Deus, como as mães, corre os dias inteiros à janela e escuta. [...] A casa de Deus tem a chave do lado de fora, debaixo de um vaso. Toda a gente o sabe. É tique de todas as mães que dormem lá dentro vulneráveis q qualquer ladrão. [...] Exatamente como as mães, Deus cozinha os seus pratos favoritos e acredita que agora ficarão para sempre.»

Esta ideia de Deus como mãe não é estranha à Bíblia. Devido à nossa cultura, desenvolvemos muito o conceito de Deus-Pai e esquecemos o de Deus-Mãe. No livro do Deuteronómio lemos: «Desprezas a Rocha que te deu à luz, esqueces o Deus que te gerou» (Deuteronómio 31:18, na tradução da Bíblia de Jerusalém; a Bíblia dos Capuchinhos, traduz: «Desprezaste o Rochedo que te gerou, e esqueceste o Deus que te formou»).

O profeta Isaías também fala de Deus como mãe. No capítulo 49, Deus pergunta: «Acaso pode uma mulher esquecer-se do seu bebé, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas?» E responde: «Ainda que ela se esquecesse dele, Eu nunca te esqueceria!».

No último capítulo do livro, Deus promete: «Como a mãe consola o seu filho, assim Eu vos consolarei».

O povo guji, com quem vivo, partilha a mesma intuição. Começa as orações tradicionais invocando «Deus nosso Pai, Deus nossa Mãe, Deus nosso Avô, Deus nossa Avó, Deus nosso Bisavô, que nos deu à luz!»

Eu aprendi a rezar com eles, a invocar Deus por. novos nomes. A missão é circular: evangelizamos e somos evangelizados. Anunciamos Deus e aprendemos novas formas de dizer Deus. 

Tomas Halik, teólogo checo que, juntamente com José Tolentino Mendonça, me inspira, escreve em O sonho de uma nova manhã, o seu livro mais recente, que «a evangelização sob a forma de inculturação pressupõe [...] também a disponibilidade para compreender a nossa própria fé de uma nova e mais profunda forma, num novo contexto cultural». O sublinhado é dele.

Voltando ao Deus na escuridão, Valter Hugo Mãe apresenta uma definição de oração interessante: rezamos para dizer a Deus aonde estamos. 

As rezas são uma espécie do transmissor que identifica os aviões e marcam a sua posição no céu: «Se Deus pudesse, escreveria a cada filho uma carta de amor para o convencer a vir em visita. Mas o paradeiro do filho só se descortina pela prece. Sem isso, Deus guarda as cartas que escreve sem ter para onde as enviar. Espera. No que à visão de seus filhos se refere, Deus espera na escuridão. Seu candeeiro é Seu nome na boca do filho.» 

Genial!

10 de dezembro de 2024

CELEBRAR A PADROEIRA





Qillenso – a missão entre o povo guji da Etiópia onde sirvo – foi estabelecida oficialmente em 1981, dedicada à Senhora das Dores. Entretanto, a festa da padroeira passou a ser comemorada a 8 de dezembro, Senhora da Imaculada Conceição. 

Oficialmente a paróquia continua dedicada à Senhora das Dores. Porém, a data da solenidade foi mudada por duas razões. 

Primeiro, setembro e outubro são, aqui, o ponto alto da estação das chuvas. Quando chove, chove mesmo e estorva a organização e as deslocações.

Depois, em setembro os produtos agrícolas – milho, café, repolho, cereais – estão a crescer. Em dezembro, em plena estação seca o tempo das colheitas dá muito mais de comer e dinheiro para comprar.

A festa deste ano celebrou-se no domingo, dia 8, mas os preparativos começaram nos dias anteriores. Os jovens ensaiaram a dramatização da parábola do filho pródigo e os coros deram lustro às atuações.

Na sexta, um grupo de mulheres lavou o chão e as cortinas da igreja. 

No sábado, as adolescentes assearam o templo depois da reunião semanal. 

Algumas mulheres, ajudadas pelo catequista Mi’essa e por um dos anciãos da comunidade, estiveram até às duas da manhã a migar couves e repolhos, a raspar cenoiras e a cozer pão – bolos de trigo de um palmo de diâmetro e dois dedos de altura – para o almoço da festa. Devido a um apagão de mais de 24 horas, as mulheres trabalhavam de pilhas amarradas à cabeça.

Para a festa paroquial, participaram representantes de quatro das cinco capelas do centro. De Gosa, a 35 quilómetros mais a norte, não é fácil arranjar transporte ao domingo. As Missionárias da Caridade, as Irmãs de Santa Teresa de Calcutá, também marcaram presença com um grupo de jovens de Adola, o centro citadino da missão.

A igreja, que é pequena, estava à pinha, com as crianças sentadas nos degraus do altar e o corredor central e outros espaços com bancos e cadeiras extra. Estava decorada com bandeirinhas no exterior e balões e ervas de junco no interior.

A missa estava marcada para as 9h30. Porém, começou uma hora depois. Como é uso, foi bem participada, cantada e dançada. Coube-me presidir, ladeado pelo pároco e pelo seminarista que vive connosco, os catequistas da zona e os acólitos.

Depois da eucaristia – que demorou mais de duas horas – os jovens apresentaram a encenação inculturada da parábola da misericórdia. A assembleia seguiu o drama muito atenta e gozosa!

Os coros atuaram depois: os três de Qillenso (mulheres casadas dirigidas por Mi’essa, jovens com alguns adultos penetras e adolescentes) e os das capelas. Todos trajados a preceito. Entre atuações foram leiloados os produtos levados para o ofertório: milho, café, manteiga, uma galinha...

Já passava das 15h00 quando fomos para o salão paroquial para o almoço. Um momento sempre alegre. A ementa foi simples, mas nutritiva: um bolo de pão com um prato de vegetais cozidos. A comida estava saborosa.

Depois veio o grande desafio de futebol entre a equipa de Qillenso e a seleção do resto das capelas. Um jogo bem disputado e aferroado: os da casa levaram os hóspedes de vencida. E também houve alguma briga de permeio. É costume!

Assim se celebrou a Senhora das Dores no dia da Senhora da Imaculada Conceição de Qillenso com uma mensagem fundamental: «Temos mãe!». A declaração que o papa Francisco repetiu, emocionado, em Fátima há sete anos e meio, durante a eucaristia do centenário das aparições. Ainda ressoa dentro de mim.

 

2 de dezembro de 2024

AZUL DO CÉU

Hoje o pintor encheu de anil
o céu por cima de mim.
Sem fiapo de nuvem

nem grão de poeira.
Um azul que envolve 
e devolve,
e enche o olhar de paz
e o coração!
Um céu que leva
para além dele,
atrás do horizonte:
cor de infinito 
sobre tela breve.
Este azul celeste,
da mana-saudade,
que também é dele,
fundo, altaneiro,
regressa-me ao dia primeiro 
quando a Voz criadora anelou:
"Faça-se luz!"
A luz? 
Azul anilado,
índigo!


15 de novembro de 2024

HAWASSA TEM NOVO BISPO


O Vicariato Apostólico de Hawassa, no Sul da Etiópia, já tem bispo nomeado depois de uma longa espera de quatro anos. 

A notícia apareceu hoje no Boletim da Sala de Imprensa do Vaticano e foi tornada pública na casa episcopal de Hawassa pelo Encarregado de Negócios da Nunciatura Apostólica de Adis-Abeba, Monsenhor Massimo Catterin.

Dom Gobezayehu Getachew Yilma é o Vigário Apostólico nomeado para Hawassa.

O novo prelado fará 46 anos a 4 de dezembro e pertence ao clero do Vicariato Apostólico de Meki. 

Nasceu em Dodola, na Zona de Bale, Estado Regional da Oromia, a 4 de dezembro de 1978.

Antes de ingressar no seminário estudou agronomia.

Foi ordenado padre em 2005.

É doutorado em Teologia na vertente da Doutrina Social da Igreja.

Até agora, desempenhava as funções de Vigário Delegado do Vicariato Apostólico de Meki e Diretor Executivo da Cáritas Diocesana.

A sua nomeação foi recebida com grande regozijo.

Há cerca de quatro anos que o Vicariato de Hawassa era administrado pelo P. Juan Núñez, comboniano espanhol que há um mês completou 80 anos.

Dom Gobezayehu é o quinto bispo de Hawassa, sucedendo a três combonianos e a um salesiano (todos italianos) que, há quatro anos, foi transferido para o Vicariato Apostólico de Gambella.

O Vicariato Apostólico de Hawassa cobre um território em forma de triângulo com mais de 100 mil quilómetros quadrados, evangelizando os grupos étnicos Sidama, Guji, Guedeo, Borana e Amaro.

É a maior jurisdição católica em termos de fiéis. Em dezembro de 2023 contava com quase 280 mil católicos registados.

A Prefeitura Apostólica de Hawassa, foi iniciada pelos Combonianos em 1969 com o território da antiga Prefeitura Apostólica de Neguele e parte da de Hosanna. 

Foi elevada a Vicariato Apostólico dez anos mais tarde.

Tem 22 paróquias-missões com 558 capelas, servidas por 49 padres, 22 diocesanos e 27 missionários (Combonianos, Espiritanos, Apóstolos de Jesus, Salesianos e Capuchinhos), oito irmãos, 69 irmãs, 109 catequistas a tempo inteiro e 531 em ocupação parcial. Também conta com uma congregação feminina local.

As suas 62 escolas da pré-primária até ao secundário são frequentadas por cerca de 24 mil alunos ensinados por 656 professores. 

O Vicariato tem 13 estabelecimentos de saúde, incluindo um hospital de saúde materno-infantil. 27 médicos e 120 enfermeiros atendem cerca de mil pacientes por dia.

A Igreja em Hawassa dá emprego a 762 trabalhadores nas diversas missões.

Chama-se Vicariato Apostólico a uma diocese sob a jurisdição do Dicastério para a Evangelização dos Povos. Tecnicamente, o prelado é o Bispo de Roma. Daí o título de Vigário Apostólico dado ao bispo local.

13 de novembro de 2024

O SÍNODO TERMINOU E VAI COMEÇAR

A XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos «Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação, missão» chegou ao fim depois de três anos de trabalhos intensos. O caminho sinodal começou a 9 de outubro de 2021 e cortou a meta a 27 de outubro de 2024. Agora começa a sua execução.

Foi um sínodo novel a muitos títulos. Sublinho alguns: começou com uma auscultação mundial sem precedentes; teve assembleias nacionais e continentais; decorreu não no anfiteatro do costume, mas no espaço raso da Sala Paulo VI; utilizou o método de trabalho de conversação no Espírito através de pequenos grupos; teve mulheres e homens não bispos a votarem; e Francisco anunciou que não vai escrever uma Exortação Apostólica pós-sinodal, atribuindo ao Documento Final autoridade própria.

O trecho conclusivo insere uma pequena citação da narrativa das aparições de Jesus Ressuscitado do Evangelho segundo São João (capítulos 20 e 21) na introdução, em cada uma suas das cinco partes e na conclusão.

O recurso leva-nos às origens da experiência cristã e da Igreja: o encontro com o Ressuscitado. Foi esse evento que transformou a vida de um punhado de discípulos aterrados e de portas trancadas num qualquer primeiro andar em Jerusalém em anunciadores intrépidos de que Jesus vive e é o Senhor do universo. É o encontro com o Senhor Ressuscitado que sustém a Igreja e cada um dos seus membros hoje e sempre na sua peregrinação através da história.

Documento Final marca um regresso em força ao Concílio Vaticano II e mormente à sua eclesiologia. A Constituição Dogmática Lumen Gentium (de 21 de novembro de 1964) sobre a Igreja é citada mais de quatro dezenas de vezes ao correr do texto. Outros sete documentos conciliares também são mencionados.

A palavra-chave do documento é relações/relação. Na versão portuguesa do Documento Final a palavra relações aparece 56 vezes desde o parágrafo 8 até à conclusão e o seu singular 24. Aliás, a Parte II do texto é intitulada «Conversão das relações».

«Ao longo de todo o caminho do Sínodo e em todas as latitudes, emergiu o apelo a uma Igreja mais capaz de alimentar as relações: com o Senhor, entre homens e mulheres, nas famílias, nas comunidades, entre todos os cristãos, entre grupos sociais, entre as religiões, com a criação», assinala o parágrafo 50.

A conclusão sublinha que «Espírito colocou no coração de cada ser humano o desejo de relações autênticas e de vínculos verdadeiros» (n.º 154).

Estamos perante a génesis de uma nova teologia da fé e da Igreja como entrelaçado de relações múltiplas e artesanais à volta do Ressuscitado? Uma Igreja sinodal é uma Igreja relacional.

O documento – que na tradução portuguesa tem menos de 27 mil palavras – está estruturado em 155 parágrafos. É mais teórico que o Relatório de Síntese da primeira sessão, que vinha recheado de propostas práticas e diversificadas.

Repete que a Igreja Sinodal assenta no tripé da comunhão, participação e missão, que a Igreja é uma comunhão harmónica de diferenças, que a formação permanente ao estilo do catecumenado é para todos e todos juntos: dos fiéis leigos aos bispos, e volta a falar da missão no digital.

Muitos dos temas mais quentes com a ordenação de mulheres diáconos, a instituição de novos ministérios e as mudanças no Direito Canónico para acomodar novas práticas sinodais foram confiados às respetivas comissões.

A África é mencionada duas vezes: quando o documento recorda que o SECAM, o Simpósio das Conferências Episcopais da África e Madagáscar, foi mandatado de discernir sobre o acompanhamento pastoral de pessoas em matrimónios poligâmicos (n.º 10), e quando o trabalho dos catequistas que «sempre estiveram à frente de comunidades sem presbíteros em muitas regiões de África» (n.º 76) é exemplo concreto do que é o ministério de coordenação de uma pequena comunidade eclesial.

7 de novembro de 2024

GERAL COMBONIANO NOMEADO BISPO


O Superior Geral dos Missionários Combonianos foi nomeado bispo auxiliar da arquieparquia de Adis-Abeba, na Etiópia.

A notícia foi dada na quarta-feira, 6 de novembro de 2024, no Vaticano e em Adis-Abeba. A sua nomeação foi saudada pela Igreja da capital etíope e pela família comboniana.

Dom Tesfaye Tadesse Gebresilasie tem 55 anos. Foi ordenado padre em 1995 e serviu como missionário no Egito (onde estudou o árabe), no Sudão (encontrei-o na missão de Omdurman em 1998), na Etiópia e na Direção Geral dos Missionários Combonianos.

É licenciado em Teologia e diplomado em Estudos Islâmicos. Foi Superior Provincial na Etiópia de 2005 a 2009 e presidente da Conferência de Superiores Maiores. 

No Capítulo Geral de 2009 foi eleito Conselheiro Geral e em 2015 Superior Geral, sendo reeleito em 2022. 

O bispo-nomeado participou nas duas sessões do Sínodo sobre a Sinodalidade.

«Recebemos esta notícia com emoções e sentimentos mistos, entre os quais prevalece a gratidão a Deus pelo dom que nos deu até agora na pessoa do P. Tesfaye como nosso Superior Geral e como confrade», o Conselho Geral escreveu em comunicado aos confrades. 

E ajuntou: «Reconhecemos que a escolha da sua pessoa também representa um dom para o serviço da Igreja particular para cujo crescimento colaboramos como Instituto».

Os combonianos têm duas comunidades em Adis-Abeba: a sede provincial e o postulantado.

Era voz corrente que o Cardeal Berhaneyesus Souraphiel preferia o P. Tesfaye para lhe suceder à frente da Igreja em Adis-Abeba.

Ambos partilham um percurso semelhante: nasceram em Harar, no leste do país, cresceram em Adis-Abeba, pertencem a uma congregação missionária (o arcebispo é lazarista).

Aliás, em 2022, o Capítulo Geral dos Combonianos foi interrompido porque o Dicastério para as Igrejas Orientais ao saber que o P. Tesfaye foi reconduzido no cargo de Superior Geral chamou-o para lhe propor que recusasse a reeleição. Queriam fazê-lo bispo para Adis-Abeba. Ele tinha dado o sim aos capitulares e manteve a decisão.

Dom Tesfaye sucedeu-me como diretor da Escola Média da missão de Haro Wato, que abri em 1995 com a colaboração das autoridades educativas do distrito to Uraga. 

É um homem afável, humilde, tranquilo, próximo, consensual, espiritual. E tem medo das alturas. 

Somos amigos desde 2005 quando visitei a Etiópia com dois jornalistas, colaboradores da revista Além-Mar. Além de prover transporte para visitarmos as missões no sul do país, levou-nos à nova missão de Gilgel Beles, entre o povo Gumuz, no oeste.

Quando visitou Portugal, levei-o de Viseu para o Porto através de Cinfães para lancharmos com os meus pais. 

Quando chegamos à Maia olhou-me com o seu sorriso maroto e disse: «Agora entendo porque gostavas tanto das montanhas da Etiópia!». Tínhamos subido e descido o Montemuro e as Montedeiras.

É certo que o Instituto perde um grande Superior Geral e a arquieparquia – é assim que se designa uma arquidiocese do rito oriental – de Adis-Abeba ganha um grande eparca auxiliar e, muito provavelmente, um arquieparca no futuro próximo. 

Uma comboniana, veterana na Etiópia, saudou a sua nomeação com uma mensagem singela: «Parabéns à família dos combonianos. Que a Igreja na Etiópia cresça e se abra na direção missionária».

Todavia, a sua nomeação representa um desarranjo grande para os combonianos que têm de eleger um novo geral e, se ele fizer parte do Conselho Geral, um novo conselheiro. 

Dom Berhaneyesus tem 76 anos, mas encontra-se relativamente bem de saúde. 

No ano passado teve uma crise cardíaca (que, ao que sei, foi resolvida) e podia dirigir a sua Igreja até aos 80 anos. Dava tempo a Dom Tesfaye de terminar o mandato sem sobressaltos para o Instituto. 

Contudo, o Vaticano não pensa assim. Como me confidenciou o membro do Conselho Geral de outro Instituto missionário, «somos pau para as colheres sem pau». 

Que o Senhor da Missão abençoe o novo serviço missionário de Dom Tesfaye.

5 de novembro de 2024

BORDAR PARA VIVER

Vemo-la chegar sorridente e orgulhosa. Após apenas quatro lições, esta senhora beduína apresenta-nos uma saquinha bordada e cosida à mão com fecho de correr. 

«Onde é que arranjou o fecho?», perguntamos. 

Ela sorri e explica: «Tirei-o de um vestido!». 

Outra mulher acrescenta: «Eu tirei o meu de um par de calças.». 

A verdade é que todas elas se superaram. Nunca tinham estudado costura ou bordado, e agora conseguem pregar um fecho de correr à mão e bordar uma saquinha.

«Vocês saltaram do jardim de infância para o ensino secundário!», dizemos-lhes entusiasmadas.

Existem vários grupos de mulheres em várias aldeias beduínas no deserto da Judeia. Fizemos planos para que 160 mulheres beduínas recebessem formação em bordados palestinianos e criassem produtos para abrir portas de solidariedade. 

Cada uma delas mostra o máximo empenho na aprendizagem e o entusiasmo é contagiante. É um verdadeiro prazer observá-las enquanto se dedicam apaixonadamente a esta nova forma de arte. 

Para muitas, é a primeira vez que usam uma agulha, mas estão determinadas a preservar o bordado beduíno, especialmente agora que a sua terra lhes treme sob os pés. Neste contexto de incerteza, o que lhes dá força é a vontade de se agarrarem às suas raízes e à sua identidade.

Devido ao conflito em curso, muitos homens, que eram o principal sustento das famílias, continuam sem trabalho. Consequentemente, estas mulheres estão motivadas para ganhar alguma coisa para alimentar os entes queridos. 

Algumas dizem que bordam de manhã até tarde, dando o seu melhor para garantir a subsistência das suas famílias. É um período muito difícil, mas a sua determinação é uma fonte de inspiração.

Vemos como elas se concentram no processo de aprendizagem, passando tempo a ver vídeos de bordados e tentando melhorar a técnica, diariamente. Muitas delas dizem que o bordado as ajuda a distrair-se e a pensar em algo positivo, dando-lhes a oportunidade de ocupar a mente de forma construtiva.

Neste clima de opressão, elas procuram afirmação. 

«Digam-me que é bom!», dizem. 

Olhos nos olhos, sinto a importância de responder: «És fantástica! Que criatividade! O que estás a fazer é muito bonito, e vais melhorar cada vez mais!».

Por isso, agradecemos do fundo do coração a solidariedade dos nossos benfeitores. Graças ao vosso apoio, 160 mulheres beduínas continuarão o processo de aprendizagem e de criação. A vossa generosidade é essencial para ajudar as famílias e comunidades a viver, literalmente. Estes são tempos difíceis e é-lhes dada a oportunidade de criar, de sonhar, de aprender, de crescer, de ter esperança e de viver.

Ir. Cecília Sierra,

Comboniana, missionária com beduínas do Deserto da Judeia

2 de novembro de 2024

O SENHOR DAS PULSEIRAS


Os patriarcas do Antigo Testamento tinham o costume simpático de construir altares com pedras ou madeira no sítio onde tiveram experiências significativas e encontros especiais com o Senhor Deus. A Terra a que hoje chamamos de Santa estava cheia destes memoriais da ação de Deus na vida de Abraão, Isaque e Jacob. E de outras pessoas.

Os meus altares, os memoriais do meu passado e presente, são feitos de pulseiras. Uso quatro: uma de missangas azuis e transparentes, uma dezena do terço feito de contas de vidro e missangas, uma de contas verdes, amarelas e encarnadas e uma de couro.

A pulseira de missangas azuis e transparentes, em espinha, foi feita no Lady Lomin, um centro de artesanato que os combonianos tinham na missão de Lomin, Condado de Kajo Keji, no sul do Sudão do Sul. O centro empregava mulheres que através de produtos que fabricavam obtinham algum dinheiro extra para sustentar as suas famílias.

O centro produzia artigos em algodão, tecido pelas funcionárias do Lady Lomin, incluindo ti-chertes e outras peças de roupa, trabalhos variados em missangas, etc. O centro tinha um posto de vendas na casa provincial dos combonianos, em Juba. Infelizmente, a guerra civil que estalou em dezembro de 2013 entre as forças leais ao presidente Salva Kiir e as do seu vice-presidente Riek Machar chegou à missão de Lomin e os missionários, juntamente com os habitantes locais, tiveram de se refugiar no Norte do Uganda. A missão de Lomin foi saqueada e destruída.

A pulseira da Lady Lomin é memória dos sete anos que vivi no Sudão do Sul. Foram anos interessantes e importantes. Os dias da rádio. Guardo no coração as pessoas com quem trabalhei, os colegas missionários e missionárias, as amizades que fiz, as mulheres do Lady Lomin que visitei três vezes... E, sendo as missangas azuis e transparentes, lembram também os meus clubes do coração: o Clube Desportivo de Cinfães e o Futebol Clube do Porto! 

A dezena missionária, com contas verdes, amarelas, transparentes, vermelhas e azuis, já desbotadas pelo tempo, separadas por missangas cor de chumbo, foi feita e oferecida pela Ir Maria de Deus Meirinho, missionária comboniana do Soito, Sabugal. Regressou à Casa do Pai há cerca de um ano. O seu serviço missionário decorreu em Portugal, América Latina e Itália. Gostava muito dessa doce mulher do Evangelho. Com ela diz a última visita ao Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe – que os mexicanos chamam simplesmente La Villa – antes de regressar a Portugal depois de nove meses de formação permanente naquele país.

A dezena além de me recordar a Ir Maria de Deus, é também sinal da minha vocação missionária! E, quando esqueço o terço no meu quarto, serve também para contar as ave-marias das dezenas dos mistérios do rosário.

A pulseira de contas verdes, amarelas e encarnadas tem as cores da bandeira da Etiópia, o meu lar corrente. Um missionário veterano uma vez disse-me que só somos verdadeiros missionários se entramos numa relação esponsal com o povo que nos recebe. A pulseira tricolor recorda a minha aliança de amor com a Etiópia e, especialmente, com o povo guji com quem vivo e sirvo.

A pulseira de couro foi-me oferecida por uma amiga que vive na Galiza. Por via dela, representa todas as amigas e amigos que tenho espalhados pela Europa, África, Ásia e Américas. 

O Senhor prometeu cem vezes mais a quem deixar pais, irmãos, filhos e terras por causa dele e do Reino de Deus. Ele é um cavalheiro e mantém a sua palavra. Porque aceitei o seu convite de ser seu missionário no do Instituto dos Missionários Combonianos, agora a minha família alarga-se a quatro continentes e deixa-me de coração cheio.

Quando contemplo as minhas pulseiras louvo o Senhor da Vida e da Missão pela minha vida e missão, e por todas as pessoas que fazem parte da minha história. E encomendo-as, todas e cada uma, ao carinho de Deus. 

As pulseiras são os meus altares, memoriais de rostos e corações que manifestam e encarnam a ternura de Deus para comigo e que trago no coração. A ti também!

GUARDADORAS DA ESPERANÇA

— Eu não consigo… não consigo! – repetia sempre Reem, uma jovem beduína palestiniana de 16 anos, sempre que a convidávamos para aprender a u...