23 de setembro de 2019

EM MEMÓRIA DO IR. PAULO ARAGÃO



Mensagem do Conselho Geral aos confrades de Portugal e à família do Irmão Paulo Aragão 

Caríssimos confrades,
Caríssima família do Irmão Paulo,
Caríssimos amigos e paroquianos

“Para os que creem em vós, Senhor, a vida não acaba, apenas se transforma” (Liturgia)

Neste momento em que celebrais as exéquias do nosso querido Irmão Paulo Aragão, missionário comboniano, o Conselho Geral deseja expressar a sua tristeza por esta perda e ao mesmo tempo convidar-vos à ação de graças pela sua vida e pela sua entrega generosa ao Senhor.

Sentimo-nos em comunhão convosco, acima de tudo numa atitude de profunda gratidão ao Senhor pelo dom do Irmão Paulo para a sua família, para o Instituto e para a Missão, especialmente do Sudão, uma missão difícil e muito significativa para todos os combonianos. Gostaríamos de lembrá-lo pela sua presença serena e calma, a sua atenção aos outros e o seu incansável serviço, nos vários trabalhos que lhe foram confiados.

Ressoam aos nossos ouvidos as palavras de Jesus: “quem crê em mim, mesmo que morra viverá” (Jo. 11, 25). Acreditamos que o Paulo vive para sempre com o Senhor e intercederá por todos nós. As palavras de São Daniel Comboni, quando ele perdeu um dos seus missionários, podem-nos servir de conforto neste momento de luto e tristeza: “Deus, nos seus imperscrutáveis mas sempre amorosos desígnios, quis privar-me do incomparável P.e António Squaranti, braço direito da obra santa e meu verdadeiro anjo de conselho e consolo, para lhe cingir a coroa reservada às almas justas” (W. 6373). Assim também, o Senhor chamou Paulo para lhe dar a recompensa dos seus trabalhos e sofrimentos, sobretudo nos últimos anos da sua vida.

Queremos assegurar a todos, aos combonianos em Portugal e à família do irmão Paulo, a nossa amizade e oração. Pedimos ao Senhor que possamos viver este momento com a consolação que nos vem da fé e com a certeza de que um dia nos encontraremos de novo, para celebrar juntos o Deus da Vida.

Roma, 10 de setembro de 2019
Em nome do Conselho Geral
P. Tesfaye Tadesse Gebresilasie (Superior Geral) 

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Presença humilde e serena

O Paulo era uma pessoa muito introvertida, mas muito gentil de coração. Ele era humilde e sereno e amava muito os seus irmãos sem distinção. Ele não reclamou muito, mas, quando o fez, foi feito em caridade. Ele adorava jogar as cartas todas as noites como o auge de um longo dia de trabalho. Foi tão difícil vencê-lo no jogo. Ele não falava muito, mas estava sempre presente e sua ausência era sentida imediatamente. Nunca o ouvi rir alto, mas ele tinha um sorriso simples e contagioso.


Serviços comunitários com disponibilidade excecional

Ele trabalhou principalmente na economia e foi um génio nesse campo. Ele trabalhou como administrador financeiro diocesano e como ecónomo provincial. Ele estava sempre ao serviço dos outros. O seu trabalho era muito exigente, mas como a sua personalidade, ele sempre o fazia com humildade, serenidade e silêncio. Quando ele regressou ao Sudão após a sua primeira crise de saúde, tinha menos energia, mas isso não o impediu de servir diligentemente e fê-lo até ao último dia em que deixou a província em março deste ano. Ontem mesmo as cozinheiras perguntaram-me quem seria o responsável pelo jardim, já que o Paulo não iria voltar. Para elas, será difícil ter alguém a prestar aquele serviço com a mesma paixão que Paulo teve. Apesar da sua quietude, ele era amigo de todos, também porque ele estava lá sempre que tu precisavas dele.


Amante da Missão

O Paulo passou a maior parte de sua vida missionária no Sudão, nas comunidades de Port Sudan e na Casa Provincial em Cartum. Ele amava o Sudão e nos poucos anos em que ficou longe, sempre desejou o dia em que regressaria. Quando esteve doente em Portugal, há dois anos, garantiu que voltaria a renovar a autorização de permanência para poder voltar ao Sudão quando melhorasse. Mesmo nesta última partida, embora todos os sinais mostrassem que seu retorno seria impossível, ele manteve a esperança. Em maio ele escreveu-me:

“Caro P. Richard, hoje estive novamente com o médico. Os resultados dos valores dos testes dos rins são baixos e não permitem o tratamento de quimioterapia. Além disso, eles precisam de confrontar a TAC recente dos pulmões com as que fiz no ano passado em Viseu. Portanto, a próxima consulta com o médico é sexta-feira, 24 de maio. Vejo que meu regresso ao Sudão está a ficar sombrio”.

Mas, mesmo com esse quadro aparentemente sombrio, ele esperava que um milagre acontecesse e ele retornasse à Missão. Sentiremos muita falta dele aqui em Cartum. A sua presença humilde, serenidade e disponibilidade para todos os tipos de serviços acompanharão sua memória entre nós!

Descansa em paz, Paulo!
P. Richard Kyankaaga – Provincial do Egito-Sudão 

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O Ir. Paulo faleceu na última segunda-feira, 9 de setembro, no dia da festa de São Pedro Claver, «Servo dos negros», como costumava assinar.

O Paulo também foi «servo dos negros» através de seus serviços na economia da arquidiocese de Cartum e na província dos missionários combonianos. Era muito claro para ele que os bens postos nas suas mãos eram para a missão e para o serviço do povo.

Depois de muitos anos de serviço economia, ele alcançou um grau de maturidade que o tornou sábio na maneira de lidar com todos os confrades, de acordo com as regras mais recentes do Fundo Comum, a personalidade do confrade e o bem da missão e das pessoas.

O início de 2017 foi um ano terrível para ele, pois várias infeções o levaram quase à morte. Ele foi evacuado em coma induzida de Cartum para Lisboa. Após alguns meses de reabilitação, ele conseguiu voltar, mas a sua saúde não era a mesma de antes, tanto física como psicologicamente.

Um dos seus irmãos tinha morrido com fibrose quiástica e ele estava convencido de que esse também seria o seu destino.

Em 2019, um tumor foi descoberto.

Que ele descanse agora em paz, livre do sofrimento de qualquer tipo de doença que maltratou o seu corpo nos últimos anos de missão.
P. Jorge Naranjo - Cartum (Sudão) 

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Paulo, tu que foste sempre parco em palavras, deixamos aqui o essencial.

Enquanto Família sabemos q a tua memória, viverá nos nossos corações, fruto de um imenso Amor por Ti uma vez q É nele e por Ele que sobreviverás em nós e é com Este Amor que t lembrararemos e animar-nos- -emos, como é também Ele que nos sustenta nesta dor imensa d t ver partir.

A fraternidade, a solidariedade vive se no e com o Amor, sendo q a Caridade é o seu grande pilar, pois aí encontramos Deus na intimidade do nosso Ser, Sendo!.

Dores dolorosas, suavizam se com e pelo Amor, não apenas na palavra, mas acolhendo o seu verdadeiro sentido pois, só assim, torna se Vida, Pratica.A doença, a solidão, os anseios, receios e o próprio estado d velhice, suavizam com este Amor.

Aos teus confrades, deixamos o nosso agradecimento e carinho.

Qto a ti, encontrarás a Alegria d cura no e com o Amor de Deus.

Um até já.
Os irmãos: Júlia, Isabel, Cecília, Conceição, Zé Manel e Diamantina

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Cristo ressuscitou verdadeiramente, Aleluia!

Agradecemos-Lhe por nos dar o Irmão Paulo. Ele levou-o de volta para Si marcado com o sinal de fé.

As minhas condolências a você e aos confrades em Lisboa.

Os meus agradecimentos aos parentes de Paulo, especialmente à sua irmã, juntos na foto com ele nos últimos momentos de Paulo, sinal de carinho e compaixão.

Agradeço também ao Senhor pela assistência e apoio oferecidos a Paulo durante a doença.
Dom Daniel Adwok – Bispo auxiliar de Cartum (Sudão) 

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Triste notícia. Perdemos um amigo aqui na terra... Rezemos por ele e pela sua família.
P. Arlindo Pinto – Roma (Itália) 

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Paz à alma do Paulo e que descanse eternamente no regaço misericordioso do Pai.
P. António Carlos – Manila (Filipinas) 

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O meu abraço, a ti e aos membros da província, pela Páscoa do nosso querido irmão Paulo.

Soube hoje de manhã e uno-me a vós na oração pelo seu eterno descanso: que na Casa do Pai ele interceda por nós! E dou graças a Deus pelo belo testemunho que ele nos deixa.

Dá os meus pêsames aos seus familiares, que se mostraram tão bons irmãos e irmãs no caminho do Paulo.
P. Manuel Augusto – Roma (Itália) 

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Lamento a morte do irmão Paulo. Finalmente descansa ao colo do Pai e intercede por nós.
Ir. Mary Cármen – Fetais (Loures) 

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Recebemos a notícia e já celebrámos missa de ação de Graças pela sua vida Missionária! Unidos a vós e família. Abraço especial para a Diamantina! Amanhã celebrarmos em CHIKOWA unidos a vós! RIP!
P. Carlos Nunes e P. Manuel Pinheiro – Chipata (Zâmbia) 

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Depois de tantos sofrimentos, o Senhor tenha na Sua paz o nosso querido Irmão Paulo Aragão.

Sentimentos a toda a Província, e também à família do Ir. Paulo especialmente à Diamantina.

Que ele interceda pelo Sudão e por todos nós, para que continuemos a Obra de Comboni.

Unidos na oração e na fé.
P. Manuel dos Anjos – Tete (Moçambique) 

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Os nossos sentimentos de profundo pesar. Rezamos pelo Ir. Paulo. Que Deus o acolha no seu Reino de Paz.
Ir. Arlete Santos – Port

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Sinto muito, gostava muito do Ir. Paulo. Ele estava a sofrer, foi melhor assim. Agora descansa em paz.
Amélia Neves – Cacém 

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É triste a partida do Paulo, mas sabemos que estava a sofrer muito. Uno-me a toda a província e, particularmente a sua família, nesta hora difícil.

Que o Senhor lhe conceda o eterno descanso.
P. David Domingues – Manila (Filipinas)

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Deixa-me oferecer-te, à Província e à família do irmão Paulo as minhas condolências e orações.

As minhas orações e missas são pelo repouso eterno do irmão Paulo: a nossa vida está nas mãos de Deus o tempo todo, e tudo o que podemos fazer é aceitar o dom da vida e vivê-la ao máximo.

Eu conheci o irmão Paulo em Elstree quando ele chegou depois do noviciado para aprender inglês antes de ir para o CIF no Quénia. Nós demo-nos bem desde o começo e costumávamos passar algum tempo juntos quase todos os dias, primeiro revendo os trabalhos de casa em inglês e depois conversando sobre muitas coisas, especialmente sobre a vida missionária. Também saíamos juntos para tomar uma cerveja de vez em quando!

A única coisa que eu não podia aceitar nele era seu hábito de fumar. Tentei tantas vezes convencê-lo de que era um péssimo hábito, mas sem sucesso.

Mantivemos contacto ao longo dos anos e todos os dias orávamos um pelo outro.

Quando o visitei em Cartum, ouvi (não dele!) muitas histórias maravilhosas sobre sua generosidade e disponibilidade, o seu amor pelos pobres e sua simplicidade de vida.

Há alguns anos atrás encontramo-nos em Verona e, como ele tinha alguns dias livres na Itália, fomos para Trento e de lá para Limone. Mal sabia eu que esses eram nossos últimos dias juntos. Peço ao Senhor ressuscitado que o receba em seu Reino.

O irmão Paulo é verdadeiramente o servo bom e fiel que viu o rosto de Cristo nos pobres e viveu sua vida missionária em uma atitude de total dom para os outros.

Todos os que o conhecerem sentirão sua falta.
P. Rinaldo Ronzani – Verona (Itália) 

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É sempre com pesar que vemos partir um confrade, porque é também algo de nós que morre e que parte. Por outro lado, a fé diz-nos que devemos encarar esta realidade com olhos que veem o invisível e, então, a alegria vence a tristeza. Acompanho-vos nesta hora de provação e, fico rezando para que Deus acolha o Paulo no seu Reino onde Ele lhe reservou um lugar. As minhas condolências à sua família natural.

Memento,
P. José Francisco Dias – Cotonou (Benim

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É com uma enorme tristeza que recebo esta notícia, que descanse em paz! Era um irmão muito gentil! Ficará para sempre no meu coração! Os meus sentimentos!
Catarina Neri Baptista – Viseu 

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No silêncio da oração... sentido abraço carinhoso à sua família e meus irmãos e irmãs. RIP
P. José Boaventura – Salvador (Brasil) 

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Acabo de receber a notícia do falecimento do nosso Irmão Paulo Aragão. Não estava à espera porque quando o visitei em agosto não me pareceu que a sua vida corria assim tantos riscos.

A vós que trabalhais aí na nossa Igreja em Portugal, quero mostrar-vos toda a minha solidariedade e comunhão de amizade e de fé.

Que Jesus o acolha no seu reino e dê aos seus familiares a paz e confiança de espírito que necessitam nestes momentos difíceis.

Deus lhe dê o eterno descanso.

Em comunhão de oração.
P. Francisco Machado – Acra (Gana) 

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Conheci pela primeira vez o Ir. Paulo Aragão em 1984, em Sakakini (Cairo) onde e quando ele veio para estudar a língua árabe no Centro para o árabe e estudos islâmicos que tinha sido aberto no ano anterior.

Em 1984, éramos apenas dois alunos, ele e eu. O superior e diretor do centro foi o P. Miguel Angel Ayuso, recentemente escolhido pelo Papa Francisco para cardeal.

Eu estava no segundo ano e seguia o curso de árabe na Universidade Americana, enquanto o Ir. Paulo recebeu lições em casa de um professor particular. No período da tarde, juntos seguimos o curso em questões islâmicas dado pelo P. Ayuso. Este foi o início do centro árabe e podemos considerar que o Ir. Paulo foi o primeiro aluno que fez na íntegra o curso de dois anos de árabe em Sakakini.

O que recordo dele naquela época era sua atitude humilde e tímida, mas sempre sorridente, um de seus traços de caráter conhecidos de todos.

Muito respeitoso com todos os confrades, ele sempre preferiu manter o silêncio em vez de falar contra um ou outro confrade, mesmo conhecendo perfeitamente a todos.

A sua missão aqui no Sudão foi principalmente como o ecónomo da província, mas foi também, durante um mandato, o ecónomo da diocese, que era uma tarefa muito exigente para ele... Também esteve em Port Sudan como encarregado da casa e da economia.

Agora vou falar sobre o seu "Calvário" a partir de 8 de janeiro de 2017, quando ele ficou doente por causa da malária seguida por muitas outras complicações.

Primeiro, ele foi encaminhado para uma das clínicas aqui à volta do Hospital de Khartoum, onde o encontraram com malária e uma úlcera de estômago: para tratá-los, por alguns dias, ele foi hospitalizado no hospital «Ibn Sina».

De volta para casa em Cartum-norte, a sua saúde em vez de melhorar estava a piorar de forma constante. Então no dia 12 de janeiro ele foi levado para o Hospital Royal Care, para o Departamento de Urgências, onde os médicos encontraram o que era sua principal doença: capacidade pulmonar insuficiente complicada por uma pneumonia resistente.

Em segundo lugar, na mesma noite, com a ajuda de um consultor cristão, Dr. Helen Sobhy (ex-aluno da escola das irmãs), ele foi admitido na Unidade de Cuidados Intensivos do hospital onde permaneceu até a 28 quando, por um avião-ambulância o levou para o Hospital de Santa Maria em Lisboa. Foi em coma induzida, mas chegou em coma profundo.

Devemos dizer que a equipe médica do Royal Care fez o melhor para mantê-lo vivo. Mesmo a proposta de o levarem para o estrangeiro para tratamento adicional foi deles.

Apesar do conselho contrário de outras fontes médicas, a administração provincial de Portugal tomou a decisão importante de evacuá-lo.

No hospital de Santa Maria, o Paulo recuperou do coma e, finalmente, teve alta e foi transferido para nossa casa em Viseu, onde continuou os tratamentos.

No início de março 2017, enquanto eu estava de férias na Itália, o P. Richard propôs-me ir visitá-lo em Portugal, o que eu fiz dentro na primeira semana de março. O Ir. Paulo veio receber-me com o P. Francisco à central rodoviária de Viseu.

Eu não podia acreditar que ele era capaz de ficar nos próprios pés. Porém, fê-lo com a ajuda de um carrinho. Fez-me recordar o seu rosto coberto por uma máscara de oxigênio antes da decolagem do Aeroporto de Cartum.

Além de ver o Ir. Paulo vivo e agradecer a Nossa Senhora de Fátima por ele estar vivo (eu estive em Fátima no dia 5 de março no regresso a Lisboa), tive outra razão para a minha visita: agradecer ao Provincial de Portugal e os outros confrades pela coragem que eles mostraram em levar o irmão para casa.

Pude vê-lo novamente no Sudão duas vezes; ele continuou a fazer o seu trabalho até o fim. Pôde fazer a sua despedida e voltar sozinho para sua terra natal para ser sendo consolado pelos seus confrades e parentes.

Um agradecimento particular ao padre Vieira e à Diamantina, a irmã que acompanhou e sustentou o nosso querido Paulo durante quatro meses até ao último momento.

Que o Senhor lhe abra as portas do paraíso, que ele possa voltar àquela pátria onde não há morte, onde a alegria eterna perdura.
P. Norberto Stonfer – Cartum (Sudão) 

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NA OUTRA MARGEM

Querido Paulo, companheiro de missão,
Recordo que me disseste, um dia, que irias morrer cedo.
Viste-me sorrir, tentando repelir o mau presságio:
“Não será verdade,
Tens muito pra dar ao Sudão,
Tens muito pra dar à Missão”.

Esse mau anjo perseguiu-te, arrogante, assaltou-te no caminho.
Combateu e levou a melhor. Roubou-te da missão do Sudão.
Levou-te embora, à força.
Deste contigo moribundo, numa cama de hospital, em Lisboa.
Porém, arranjaste força de leão para te livrares desse leito de morte.
E de novo regressaste, alegre, ao teu país de missão.

O anjo desandou mas não te deu tréguas. E, de novo, te assaltou.
Desta vez não trazia espada nem foice. Viria da parte de Deus?
Sim, mas… porquê assim tão cedo? Desejaríamos que ficasses mais tempo cá na terra.

Mas Deus, que te ama e quer o teu sumo bem
Fez ouvir a Sua voz com a feliz notícia para ti:
Irmão Paulo, missionário de Comboni, a missão foi e será sempre o teu destino.
Mas hoje, aqui e agora, é a mudança da grande estação.

Dá cá a tua mão.
Passemos à outra margem.
Na outra margem encontrarás o teu Sudão!
Na outra margem encontrarás a tua Missão!
Na outra margem…
Onde a Felicidade e a Missão jamais terão fim!
Bem-vindo, Irmão Paulo!
P. Feliz da Costa Martins – Cartum (Sudão) 

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Tive conhecimento do falecimento do nosso Ir. Paulo Aragão, e em meu nome e das irmãs da Comunidade apresento os nossos pêsames.

Estamos unidas na oração a cada um de vós e a família.

Pelo Ir. Paulo pedimos o eterno descanso. Que o Senhor o recompense pelo bem que fez e por aquilo que ele sempre foi para nós, Combonianas, em particular para as irmãs do Sudão.
Ir Joana – Missionárias Combonianas (Lisboa) 

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Tenho apenas recebido a notícia da morte do irmão Paulo Aragão, uno-me a todos vós e à sua família na oração pela sua alma. Desde Ngetta, Lira, Uganda vos envio um forte abraço amigo com as condolências de toda a comunidades.
P. Zé João Valero – Lira (Uganda) 

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Estaremos unidos em oração com a província portuguesa e com a família do Paulo, na certeza de que Deus vos consola e abençoa, e ao Paulo dá a vida eterna.
P. Júlio Marques – Nampula (Maputo) 

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Agradecemos por ele a Deus e pedimos-lhe que o acolha no seu regaço.

P. Zé Rebelo – Pretória (África do Sul) 

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Acabo de saber sobre a morte do Ir. Paulo Aragão. Conheci-o em 1983: estávamos juntos na abertura do Centro de Irmãos em Gilgil. Aconteceu que nos tornamos bons amigos, compartilhando inspirações da nossa vocação comum. Por favor, aceita as minhas condolências. Que o bom Senhor, que nos chamou para partilhar na Sua vinha , o recompense.
Ir. Jorge Rodriguez Fayad – Old Fangak (Sudão do Sul) 

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Fico triste com a notícia da morte do Ir. Paulo, apesar de estar informado sobre sua grave condição! Paulo era realmente um amigo querido para muitos.

Que o Paulo descanse agora no amor de Deus!
Ir. Bernhard Hengl – Juba (Sudão do Sul) 

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Primeiro de tudo uma palavra de comunhão e oração com toda a província pela partida do Paulo para a casa do Pai. Falei com ele uns dias de vir em Viseu, e achei-o melhor, pelo que a noticia da sua morte me apanhou de surpresa… mas Deus lá tem os seus desígnios. Lembro-me que o Paulo nessa altura me disse: "Ainda não partiste para as Filipinas!" Respondi-lhe que não queria partir sem lhe dar um abraço… e foi o último. Ainda brincámos sobre a sua saúde e as vezes que ele já tinha estado ás portas de S. Pedro! Foi um bom colega de postulantado, noviciado, profissão religiosa, estudo do inglês em Londres… e as vezes que nos fomos encontrando. Perdemos um bom colega aqui na terra, mas ele continuará connosco agora desde a eternidade. Dá a promessa da minha amizade e oração á Diamantina… ela foi uma irmã extraordinária para o Paulo.
P. Victor Dias – Manila (Filipinas) 

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Repouse na Paz o nosso irmão Paulo!

Certamente que não fará muito barulho no céu, pacato e de poucas palavras como foi aqui na terra. Mas continuará a ser um grande trabalhador no céu como o foi cá na terra!

Que Deus nos conceda muitos outros irmãos combonianos como ele!
P. Manuel João Pereira Correia – Castel D’Azzano (Itália) 

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21 de setembro de 2019

NOTÍCIAS DAS FILIPINAS



 A viagem correu bem, e desde o Dubai até Manila encontrei-me com um comboniano Filipino sem saber! 

O corpo do P. TQ, vindo do Quénia, ia no mesmo avião em que viajei. Conhecia-o muito bem, e tinha sido meu formando…. Morreu muito novo.

Já é o segundo comboniano Filipino na eternidade; o primeiro foi o Abito que morreu há uns anos atrás apenas oito dias depois de ter feito a primeira profissão… os desígnios de Deus são de facto diferente dos nossos. Vou pedir a intercessão destes dois para a reabertura do noviciado aqui.

Estes dias têm sido de readaptação a esta realidade, já conhecida mas também um pouco diferente.

Tenho passado grande parte do tempo a preparar a casa e tudo o resto para a reabertura do noviciado, no dia 10 de Outubro, com a presença do nosso Padre Geral e do P. Alcides.

Os noviços serão três... se não houver mais surpresas: um Filipino e dois Vietnamitas. Outro deveria entrar no noviciado saiu uns dias antes de eu chegar.

Também tive a oportunidade de visitar alguns amigos que se recordam do Manuel Augusto e do Alberto.

Encontrei a casa muito como a deixei há há anos atrás… os colegas que aqui estiveram mudaram pouco! E vim para o mesmo quarto. Encontrei também as coisas que aqui deixei… incluindo um bom número de aviões lindos!

Enfim, já vai longa esta minha saudação; fico por aqui e digo-vos que estou contente e feliz de ter regressado a esta terra, embora não tenha sido fácil despedir-me da minha boa mãe.

Agradeço a Deus os dez anos que passei na província, a vossa amizade e apoio.

Ppeço desculpa pelo que não fiz de bem e continuemos unidos na amizade, na oração e na missão.

Abraço amigo,
Victor Dias 
Manila

2 de setembro de 2019

FESTA DE MESKEL


A Santa Cruz é festa maior na Etiópia e Eritreia.
Os cristãos (ortodoxos e católicos) da Etiópia e Eritreia celebram a Festa de Meskel (Santa Cruz) com grande solenidade a 27 de Setembro, ou 17 de Meskerem – segundo o calendário local, que começa a 1 de Meskerem (11 de Setembro – ou 12, se o ano for bissexto).

A festa, uma das celebrações mais importantes da liturgia cristã etíope e eritreia – juntamente com a Páscoa, Natividade e Baptismo do Senhor, a Assunção (ou Dormição) da Virgem Maria e o Ano Novo – marca a descoberta da cruz de Jesus feita por Santa Helena, mãe de Constantino, o imperador romano que deu cidadania ao Cristianismo.

O comboniano eritreu P.e Habtu Teclai explicou-me o significado desta festividade: «A festa de Meskel é uma das maiores festas da Igreja da Eritreia e da Etiópia. Depois de celebrar a Santa Missa as pessoas saem das igrejas para irem para um lugar público onde uma pira de lenha é preparada para a celebração. Sacerdotes e diáconos, vestidos com roupas litúrgicas, encabeçados pela Cruz, dirigem-se de todas as igrejas para o lugar público. Aí, rezam e abençoam o fogo e acendem a pilha de lenha preparada para a celebração. Esperam que a lenha consumida caia na direcção do leste, o que é um bom sinal para o ano que começa. Então as pessoas pegam em cinza e com ela fazem o sinal da cruz na testa.»

A celebração, que começa na véspera ao fim do dia, continua com os tradicionais comes e bebes e muita dança à mistura.

Em Adis-Abeba, a capital etíope, o lugar do fogo sagrado é Meskel Square, a Praça da Cruz, para onde convergem milhares de fiéis, velados por mantos brancos, juntamente com clérigos com os melhores paramentos de todas as igrejas da cidade para a grande celebração. Nos anos de sangue do comunismo, deram-lhe o novo nome de Praça da Revolução, mas quando o regime caiu, a praça voltou a chamar-se Meskel.

A cruz tem um lugar especial na identidade tanto de Etíopes como de Eritreus. É sinal de uma fé milenária e muito sofrida. Pode ser feita de prata ou mesmo ouro, ferro, bronze, cobre, latão, madeira, pedra, osso ou couro. Pode ser pintada ou bordada. É sempre muito estilizada e intricada, autênticas filigranas de entrelaçados geométricos harmoniosos que evocam a vida eterna. É usada nos brincos, anéis e ao pescoço. E tatuada na testa ou nos pulsos. As cruzes processionais são as mais vistosas pelo tamanho e pelo trabalho artístico. São decoradas com panos ricos e coloridos e levadas na ponta de uma vara por padres ou diáconos.

Os padres ortodoxos trazem sempre no bolso uma pequena cruz de madeira ou de metal para abençoar os fiéis com um gesto muito harmonioso: tocam com a cruz na testa de quem pede a bênção, que, por sua vez, a beija num movimento sincronizado e muito respeitoso. As cruzes de mão normalmente têm um quadrado na base que evoca a Arca da Aliança.

As cruzes etíopes provêm de três escolas artísticas relacionadas com as cidades de Aksum (a cidade santa onde os Etíopes juram ter a Arca da Aliança), Lalibela (famosa pelas onze igrejas escavadas na rocha) e Gondar (que foi capital da Etiópia iniciada pela engenharia militar portuguesa).

Uma cruz etíope é uma peça de arte linda, mas é sobretudo sinal da fé de um povo que aceitou Jesus Cristo como seu Senhor no século IV e tem-se-lhe mantido fiel ao longo dos tempos mesmo conturbados.

29 de agosto de 2019

PRIMEIRO MÊS NO REGRESSO À MISSÃO


Um mês passou, desde que parti de Portugal e cheguei de regresso à Missão na Zâmbia. Tanto e tão pouco! Sentimentos que me invadem…

DIAS FELIZES tenho vivido, dificuldades vão aparecer…

Não há missão Sem CRUZ, ensinou-nos Comboni!

Um Mês é pouco, mas é tempo para muita Alegria, Amor, Renovação…

Dias felizes eu tenho vivido, Graças ao Senhor da Missão e a todos e todas que fazem parte desta missão que partilhamos! Sinto uma vida nova!

Ela tem sido assim:

MISSÃO É PARTIR! Partir eu aceitei. Partir era o meu dever. Partir era a minha vida, vocação e missão. Não parti sozinho, senti isso ao re-partir!

Parti com tantos e tantas no coração. Parti com Aquele que envia!

Parti e recebi o «OLÁ» doce do encontro!

MISSÃO É ENCONTRO! O encontro veio ter comigo. As circunstâncias assim o permitiram.

Havia festa; ordenação, primeira missa, crianças a sorrir. O encontro que ultrapassa o tempo: dez anos de distância pareceram uma semana apenas terminada. No Amor, o encontro vence o tempo. O encontro não tem distâncias.

MISSÃO É AMOR E ALEGRIA! A única verdade é Amar, lembro Raul Follereau proclamar.

A missão é amar, é ser, é partilhar. É encontrar a alegria do Amor que não tem medida.

Dizem-me «Mas não esqueceste Cinyanja». Vem-me natural a resposta: «O que se ama, nunca se esquece!»

Amar traz a alegria no serviço.

MISSÃO É SERVIR! Servir o irmão e irmã, o pobre, a criança ou velho, o doente, o que sofre.

É sentir e experimentar que a minha vida, foi-me dada, não é minha, pertence aos que dela precisam…

MISSÃO É CRUZ…

Fico com o pensamento: «A lua-de-mel» vai passar. A Cruz vai aparecer. Mas o amor no serviço será sempre fonte de alegria e coragem. Planos para o futuro já há. Responsabilidades novas, nunca tidas. Gabei-me de nunca ter embarcado em construções, mas apenas vivido a amizade da fé, na formação, no relacionamento com todos.

Vou ter agora que «construir». Somos uma comunidade nova. Temos um projecto novo! Nele eu acredito!

Por isso, não quero perder a alegria do momento, preparando-me para a responsabilidade que espreita.

Missão é de Deus. Missão sou eu. Missão és tu! Todos somos missão! Juntos viveremos muitos meses de partir, de encontro, de amor e alegria no serviço…com a CRUZ que as obras de Deus comportam!

OBRIGADO SENHOR POR UM MÊS DE MISSÃO! OBRIGADO A TI, AMIGA, AMIGO EM MISSÃO!

CONTINUAMOS JUNTOS, UNIDOS EM MISSÃO!
P. Carlos A. Nunes, mccj 
Zâmbia

26 de agosto de 2019

VENCEMOS! VIVA A DEMOCRACIA!


As conversas cruzavam-se e misturavam-se na fila que se prolongava cada vez mais, até que uma voz se distinguiu claramente. «Hoje, 4 de Agosto, é um dia histórico para o Sudão: está a ser assinado o acordo constitucional pelas duas forças-líderes contendentes do governo, os militares e civis» – disse com voz nobre e segura.

Alguém pegou, espontânea e instintivamente, na palavra que tinha ficado no ar: «Já não é sem tempo, estamos atrasados mais de 30 anos por causa daquele que adulterou o seu próprio nome e tratou os sudaneses sem honra nem dignidade humana. Esse homem – El Bashir, (em árabe significa alegre notícia) – não merece tão lindo e expressivo nome. Por causa dele é que estamos nós a agora aqui a aguentar durante horas para levar um pouco de pão, miserável ração para tantas bocas a quem tenho que dar de comer lá em casa…»

Assim ia a conversa enquanto esperávamos na fila da padaria que ocupava e estorvava boa parte da rua. Eu sei que é inútil olhar para o relógio mas o hábito foi mais forte. E logo ouvi uma voz amigável que me sussurrou: «Khauaja, Estrangeiro, tu que vives neste nosso país, tens que ter paciência, como nós».

Entretanto, tocou o telemóvel: «… Abuna, Padre, temos sorte, tu e nós, pois a missa aqui é só à tardinha; caso contrário, não chegarias cá a tempo; só se eu tivesse que fazer a celebração da Palavra enquanto tu aguentasses aí na fila».

Quem falava era o catequista daquela povoação onde estava previsto eu ir celebrar a Eucaristia.

Inesperadamente, a nossa longa fila do pão foi invadida e um tanto descomposta pelo numeroso grupo de pessoas que vinha avançando. Dançavam de alegria, cantando palavras de ordem conhecidas da revolução, destacando, sobretudo, um refrão pela primeira vez: «Vencemos, viva a democracia! Vencemos, viva a democracia!».

Iam cantarolando e marcando o ritmo com as panelas, tachos e outros utensílios, novos em folha, que iam encontrando e que estavam à venda ao passar na rua do mercado.

Um senhor idoso a quem um jovem ofereceu um lugar mais à frente na fila suspirou: «Foi longa a espera. Suor, sangue e lágrimas misturaram-se em dias sem fim. Não me saem da memória os massacres bárbaros onde caíram tantos nossos mártires. Mas pelo que estamos a ouvir hoje, valeu a pena».

Do outro lado, na fila das mulheres, o eco respondeu: «Tantos sofrimentos para, finalmente, ver hoje o feliz resultado, a assinatura do acordo na constituição do governo. Pelo menos, no papel. É só um começo de outros sacrifícios que nos serão pedidos, aos sudaneses. Mas é muito importante que, desde o início, como hoje, se tente o futuro caminhando juntos».

Não longe de nós, ia aumentando a alegre vozearia. No meio daquela algazarra, uma voz sobressaía entre o cantarolar ritmado pelos utensílios de latas e alumínios: «El hamdu lillah, Graças a Deus, a cerimónia do acordo constitucional, neste momento, está a acontecer em Cartum».

Viam-se algumas pessoas, de facto, que acompanhavam, pelo telemóvel, o tão importante evento. E a mesma voz continuava: «Alf mabruk, Parabéns, caros compatriotas! Coragem, temos futuro!».

Distraído com a marcha da gente inebriada de alegria, vi, finalmente, que a fila das mulheres tinha terminado e a dos homens tinha diminuído bastante. Se tudo correr bem e a farinha não terminar, de aqui a pouco já estarei aviado, pensei com a alma a sorrir. E teremos pão em casa para hoje e amanhã.

Regressando a casa, passei pela bomba de combustível. Embora invisível aos meus olhos, eu sei que na longa e interminável fila dos carros está também o P. Luigi com a velha carrinha Toyota da missão. Mal de mim que se cumprisse na pessoa dele o conhecido provérbio «quem espera desespera». 

Certamente que o colega missionário, além da água e do rosário que sempre leva consigo terá, hoje, incluído também algum livro ou revistas e uma sandes. Porque a experiência é mestra na vida. Mas, para além de tudo disso, o P. Luigi também sabe – e é o mais importante – que «a paciência tudo alcança».
Feliz da Costa Martins
El Obeid, Sudão
4 Agosto 2019

6 de agosto de 2019

INFLUENCIADORA DE DEUS



O Papa publicou em março uma exortação apostólica dirigida aos jovens e a todo o povo de Deus. Chamou-lhe Christus vivit, Cristo vive! E diz aos jovens cristãos: «Ele vive e quer-te vivo». Porque Jesus veio para termos vida e vida em abundância (João 10, 10), vida para partilhar, para vivificar o nosso tempo tão morto de amor.

Francisco dedica meia dúzia de parágrafos a Maria, a jovem de Nazaré. Meio milhar de palavras sobre as quais quero reflectir convosco, porque nos ensinam muito.

O Papa chama Maria de «influenciadora de Deus», recuperando um discurso que fez em janeiro no Panamá durante as Jornadas Mundiais da Juventude.

Na vigília com os jovens disse: «a jovem de Nazaré não aparecia nas «redes sociais» de então; Ela não era um «influenciador» (influencer, em sentido digital) mas, sem querer nem procurá-lo, tornou-Se a mulher que maior influência teve na história».

Os influenciadores digitais são figuras públicas que conseguem influenciar comportamentos e opinião através dos conteúdos originais que publicam nas redes sociais (YouTube, Facebook, Instagram, Twitter…). Usam vídeos, fotos e textos.

As grandes marcas pagam fortunas para os influenciadores recomendarem os seus produtos. Os influenciadores cobrem todas as áreas da vida: da moda à alimentação, da beleza ao desporto, dos jogos digitais à mudança de comportamentos.

Maria, a influenciadora de Deus, não usa a net nem nos impõe padrões de consumo. Antes, ensina-nos o caminho do sim a Deus através dos sins da sua vida.

O Papa continuou com o discurso: «Poderíamos, com confiança de filhos, defini-La: Maria, a influenciadora [às ordens] de Deus. Com poucas palavras, teve a coragem de dizer «sim», confiando no amor, confiando nas promessas de Deus, que é a única força capaz de renovar, de fazer novas todas as coisas».

Nossa Senhora do Sim, ensina-nos a dizer sim ao amor como a força da vida na vontade de servir a todos, sobretudo aos mais necessitados.

Depois, arrematou a reflexão: «Maria embarcou no jogo e, por isso, é forte, é uma “influenciadora”, é a “influenciadora” de Deus! O “sim” e o desejo de servir foram mais fortes do que as dúvidas e dificuldades».

Sandra Amado, uma comboniana brasileira minha amiga, comentou que Maria é influenciadora porque «não teve medo nem reservas de se expor, mostrando a sua fragilidade. Então ficou livre para influenciar todos os que têm medo daquilo que outros pensem de si. É uma mulher de fibra».

O nº 44 da exortação apostólica é uma transcrição deste discurso.

Mas antes Francisco escreveu: «No coração da Igreja resplandece Maria. Ela é o grande modelo para uma Igreja jovem, que quer seguir Cristo com frescura e docilidade. Quando era muito jovem, recebeu o anúncio do anjo e não se coibiu de fazer perguntas. Contudo, tinha uma alma disponível e disse: “Eis a serva do Senhor”» (nº 43).

É esta mulher resplandecente que segue o Filho de Belém até Jerusalém, da manjedoura ao túmulo, e que com os discípulos se entrega à oração na sala de cima depois da Ressurreição, que celebramos e contemplamos para aprendermos também nós a sermos influenciadores dos nossos dias; sermos sal, luz e fermento num mundo que precisa de redenção para não cair no abismo do egoísmo globalizado que mata as pessoas e a natureza, que mata a vida!

A jovem de Nazaré sentiu-se perturbada, colocou questões, tirou dúvidas a limpo, fez perguntas, expressou perplexidades. Mas no fim disse com a força que lhe veio de Deus: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lucas 1, 38).

Maria segue Jesus com frescura e docilidade e coloca-nos nesse caminho se aprendermos dela e com ela a estar sempre prontos para ir ao encontro dos que precisam.

O relato da anunciação – ou da evangelização de Maria como os nossos irmãos ortodoxos lhe gostam de chamar – termina com uma frase breve mas tremenda: «E o anjo retirou-se de junto dela» (Lucas 1, 38).

Outra missionária amiga comentou: «na vocação há uma grande solidão». Há, se ficarmos apartados a gozar a mística do instante. Maria, essa pôs-se a caminho, apressada, fazendo frente aos perigos da montanha, urgente para ajudar Isabel.

A solidão cura-se no encontro com o outro, nas relações interpessoais. «O inferno não são os outros. Eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti», escreveu Valter Hugo Mãe em A Desumanização.

Francisco descreve o percurso de vida da Mãe do Céu num breve parágrafo: «Sem ceder a evasões nem a miragens, “ela soube acompanhar a dor do seu Filho [...], sustentá-lo com o seu olhar, abrigá-lo no coração. Dor essa que sofreu, mas que não a deixou resignada. Foi a mulher forte do ‘sim, que sustém e acompanha, protege e abraça». (nº 45).

Ela ensina-nos a sermos acompanhadores, cuidadores das dores de uns dos outros, lutadores contra a resignação ou a demissão, a dizer sim à vida, às suas alegrias e dificuldades.

E também é a acompanhadora, a cuidadora de cada um de nós «neste vale de lágrimas» que, com o seu abraço e a sua intercessão, se transforma em planície de alegria.

Tudo porque se escancarou ao Espírito Santo que a fecundou com a força do altíssimo. Por isso, Francisco a descreve como «a jovenzinha de olhos iluminados pelo Espírito Santo que contemplava a vida com fé e tudo guardava no seu coração de menina» (nº 46).

É este Espírito consolador que precisamos para fazer face aos dias que correm: aos medos do outro, do diferente que fecha o coração e não nos deixa ser solidários a ponto de menorizar a bondade e criminalizar o resgate de pessoas naufragadas no mar…

E para contemplarmos as maravilhas que Deus continua a fazer, a sua bondade presente na nossa história.

O Papa argentino termina a sua breve mas profunda reflexão sobre o modo como Maria nos influencia nos caminhos de Deus, encomendando-nos à sua protecção.

«Aquela jovenzinha, hoje, é a Mãe que vela pelos filhos, estes filhos que caminhamos pela vida muitas vezes cansados, carentes, mas querendo que a luz da esperança não se apague. É isso o que nós queremos: que a luz da esperança não se apague», escreve no (nº 48).

Sim! Somos filhas e filhos de Maria. Jesus deu-no-la como Mãe através do discípulo amado aos pés da Cruz (João 19, 26-27). Esse discípulo sem nome, que Jesus amava, é cada um de nós.

Neste mundo confuso, agitado, violento podemos estar cansados, carentes, mas queremos continuar a alimentar a luz da esperança que mantém vivo em nós o sonho de Deus de novos céus e nova terra, de um reino de justiça, paz e alegria no Espírito Santo, como Paulo explicou na carta que escreveu aos cristãos de Roma (14, 17).

O Papa remata: «A nossa Mãe olha este povo peregrino, povo de jovens querido por ela, que a procura fazendo silêncio no coração, mesmo que no caminho haja muito ruído, conversas e distrações. Contudo, diante dos olhos da Mãe só cabe o silêncio esperançado. E assim Maria ilumina de novo a nossa juventude».

É este silêncio esperançoso que escancaramos à Mãe de misericórdia que como no casamento de Canã, repete a cada um de nós: «Fazei o que Ele vos disser!» (João 2, 5).

22 de julho de 2019

PODEMOS – E DEVEMOS – ATREVER-NOS



Ultimamente sinto-me Abrão. Explico: o velho caldeu estava a ficar muito preocupado. Há dez anos que sonhava com o filho prometido pelo Senhor, mas não havia maneira de Sara, a esposa, engravidar e o seu herdeiro seria o escravo Eliézer de Damasco.

Neste horizonte de dúvida, o Senhor volta a avocar a promessa de um herdeiro fruto das suas entranhas, primícia de uma descendência incontável como as estrelas do céu e as areias do mar. E renova a aliança com Abraão – que tem que espantar as aves de rapina (para não devorarem as carcaças do sacrifício) enquanto se sente profundamente ensonado, apavorado e deprimido (Génesis 15, 1-12. 17-18).

A estiagem vocacional que nos assola faz-me identificar com o velho Abrão. Não é melhor tirar as botas, calçar os chinelos e sentar-se no sofá a ver o tempo correr? Ou então: por que não tentar uma solução de recurso, fora do âmbito da providência divina, como Sara fez ao pedir ao marido para fazer um filho com Agar, a sua escrava… Deu bronca!

O Papa Francisco lança-nos um repto importante na Exortação Apostólica Cristo Vive que escreveu aos jovens e a todo o povo de Deus.

No nº 274 escreve: «Se partimos da convicção de que o Espírito continua a suscitar vocações para o sacerdócio e para a vida religiosa, podemos “voltar a lançar as redes” em nome do Senhor, com toda a confiança. Podemos atrever-nos, e devemos fazê-lo, a dizer a cada jovem que se interrogue sobre a possibilidade de seguir este caminho».

Temos que afugentar «as aves de rapina» do desânimo e do insucesso, combater a sonolência do cansaço, o pavor e trevas que nos habitam e continuar a insistir com o Senhor da seara que envie mais operários para a sua seara – é esta a primeira tarefa do discípulo missionário – e a apostar na pastoral vocacional juvenil como no-lo recorda o Capítulo de 2015: «As diversas circunscrições serão estimuladas a fazer uma opção mais clara pelos jovens, realizando mesmo um plano pastoral juvenil de rosto comboniano» (Documentos Capitulares 2015, 45.8.)

Este «plano pastoral juvenil de rosto comboniano» pressupõe missionários alegres e felizes na sua entrega ao Senhor ao serviço da Missão de Deus em todas as idades e comunidades que «sejam lugares de acolhimento com uma atitude “em saída”, abertas aos que são atraídos pelo nosso testemunho missionário: isto nos ajudará a viver relações renovadas» (Documentos Capitulares 2015, 48.3.). E não torres de marfim ou covas de urso para hibernar…

Os Documentos Capitulares vão mais além: «abrindo-nos aos jovens e acolhendo-os, promovemos comunidades vocacionais que ao mesmo tempo se renovam na paixão missionária» (Documentos Capitulares 2015, 37).

O testemunho comunitário e pessoal de uma paixão missionária que se mantém viva apesar da contagem imparável dos anos e comunidades de portas abertas, acolhedoras e vocacionais são os elementos mais importantes e o recurso número um para uma pastoral vocacional que dê frutos.

Há que juntar-lhe o respeito pelos jovens como território sagrado do nosso serviço missionário – como recorda Francisco: «O coração de cada jovem deve, portanto, ser considerado “terra sagrada”, portador de sementes de vida divina, diante da qual nos devemos “descalçar” para nos podermos aproximar e penetrar a fundo no Mistério» (Cristo vive, 67).

A avaliação do caminho feito pelo Movimento JIM e a elaboração de um plano estratégico 2020-2025 é parte deste ato de fé na pastoral vocacional juvenil com rosto comboniano e em família comboniana em Portugal.

Abraço-te com carinho e desejo-te umas férias retemperantes e cheias de graças.

19 de julho de 2019

32 ANOS


Hoje faz 32 anos que Dom António Castro Xavier Monteiro, bispo de Lamego, impôs-me as mãos e ordenou-me padre missionário na Igreja paroquial de Cinfães.

Nessa altura, escrevi na estampa-recordação, citando Paulo na 1.ª Carta ao amigo Timóteo: «Dou graças Àquele que me confortou, a Jesus Cristo, nosso Senhor, porque me julgou digno de confiança, chamando-me ao ministério.»

Hoje, esse agradecimento é ainda maior e mais espantoso pelo conforto, pela confiança e pela partilha que Jesus fez comigo em 32 anos de ministério vivido em tantas latitudes e com pessoas tão diferentes e sempre tão lindas.

O Salmo 115 da missa de hoje disse-me o que havia de fazer para celebrar a minha ordenação: «Que poderei retribuir ao Senhor Deus por tudo aquilo que ele fez em meu favor? Elevo o cálice da minha salvação, invocando o nome santo do Senhor.»

Sim, o Senhor fez tanto por mim e para lhe agradecer elevo o cálice da minha vida, faço um brinde ao seu Amor com todas as pessoas que trago no coração. É interessante como num órgão tão pequeno pode caber tanta gente... E há sempre lugar para mais um.

O teólogo Tomas Halik diz que escolheu ser cristão por causa do paradoxo da fé: cabe lá tudo e o seu contrário.

É o que sinto visitando a avenida da memória do meu sacerdócio: há graça e pecado, há luz e trevas, há alegria e lágrimas, há tanta tanta gente que me quer bem e que representa o carinho amoroso que Deus tem por mim!!!

Termino este memorial com uma pequena confissão: o P. Acácio Soares, abade de Cinfães e pessoa de referência para mim, dizia que o dia mais feliz do seu serviço paroquial foi a minha ordenação. Por isso, queria colocar uma lápide de mármore na Igreja para perpetuar a memória da festa.

Eu nunca concordei e ele não a colocou. E porquê? Porque tinha mede de um dia decidir mudar de rumo e talvez casar... Se não o fiz, foi porque o Senhor é fiel e me faz fiel.

18 de julho de 2019

GUERRA (NADA) SANTA



Os jiadistas continuam activos na África Ocidental.

Apesar de o Estado Islâmico ter sido derrotado no Iraque e na Síria, a jiade – a guerra (nada) santa islâmica – continua a semear violência e morte no Mali, Burkina Faso e Níger.

Os jiadistas e o Governo do Mali estão atados num conflito mortal sem solução armada no Centro do país. Os holofotes estão virados para os líderes religiosos que devem mediar as negociações entre as partes envolvidas no conflito que matou muitos civis indefesos e alguns elementos das forças de paz da ONU.

Militantes islâmicos ligados à al-Qaeda desencadearam uma série de ataques contra igrejas e escolas no Norte do Burkina Faso. A 20 de Março, assaltaram uma escola e mataram quatro professores. O ataque levou ao encerramento de um milhar de estabelecimentos de ensino e deixou 150 mil alunos sem aulas. Entre 5 de Abril e 26 de Maio, terroristas islâmicos mataram 18 católicos (incluindo um padre) e pelo menos seis protestantes em cinco ataques distintos a igrejas e a uma procissão do 13 de Maio.

O Papa Francisco apresentou em 2016 o Burkina Faso como exemplo de tolerância religiosa. Mais de metade da população é muçulmana e o seu modo de viver a fé pode ser considerado blasfemo para os integralistas salafitas. A campanha violenta contra os cristãos pode querer inverter a boa convivência entre crentes de fés diferentes e impor uma versão do Islão mais ortodoxa.

No Níger, o Boko Haram – um movimento jiadista com origem na vizinha Nigéria – tem intensificado os ataques no Sul do país. Atacam sobretudo forças de segurança para capturar armamento, mas recentemente atacaram a sede de uma organização não-governamental. Entretanto, a 13 de Maio um grupo não identificado assaltou a missão católica de Dolbel, na fronteira com o Burkina Faso e o Mali. O pároco ficou ferido. O ataque confirmou rumores de que as missões católicas – e sobretudo os padres – são alvos a atacar.

Os grupos extremistas islâmicos estão também a afectar o Norte do Benim, Togo e Gana. A expansão para as florestas a sul do Sahel dá-lhes protecção contra os ataques das forças governamentais.

Esta onda de militância muçulmana armada na África Ocidental para a imposição de uma prática islâmica mais radical ao jeito do salafismo, promovido pela Arábia Saudita e financiado com os petrodólares, põe em causa a boa vizinhança secular que pessoas de credos diferentes têm praticado. Afecta ainda a vida dos muçulmanos comuns, aqueles que recitam o credo, rezam, dão esmola, cumprem o jejum do Ramadão, se tiverem meios peregrinam a Meca e vivem em paz com os seus vizinhos de outras religiões, gente com quem convivi na Etiópia e no Sudão do Sul.

Os actos dos militantes muçulmanos radicais representam o Islão como religião violenta e obscurantista, contra a educação e contra a cultura. Islão rima com salam (paz em árabe), mas também é verdade que o Alcorão e a cimitarra andaram juntos como juntos andaram a cruz e a espada. A obra Vivências Cristãs em Contexto Islâmico, do Professor Adel Yussef Sidarus, da Universidade de Évora, dá a entender que o Islão medieval foi criador de filosofia e ciência e manteve um forte diálogo científico com médicos cristãos.

É pena que haja quem teime em usar e perverter o Islão para fins políticos de domínio.

16 de julho de 2019

DA «NOIVA DAS AREIAS»


                                                                                              
Caro/a amigo/a

Já passaram 21 dias desde que cheguei à minha nova missão de El Obeid. Tinha prometido escrever-te mas, ao mesmo tempo, queria fazê-lo só quando tivesse melhores notícias para te dar. Além disso, desde que cheguei aqui não houve, absolutamente, possibilidade de internet. As autoridades apoiam a junta militar de Cartum que cortou todo o tipo e forma de comunicação. Tudo isso tem favorecido o atraso desta minha carta.

Situada na zona central do Sudão, El Obeid é uma cidade histórica conhecida pelo sugestivo e engraçado apelido de arussat el rimal, a noiva das areias. Mas nestes últimos tempos, esse belo título pouco tem de condizente e harmonioso com a realidade. Os carros armados, espalhados pelas ruas da cidade fazem parte do cenário do dia-a-dia. O estado de alerta é permanente por parte dos soldados que procuram evitar inoportunos e suspeitosos ajuntamentos de pessoas. É comum encontrar um piquete militar também à porta das padarias e nas bombas de combustível, onde se formam longas filas durante todo o dia. E não é raro acontecer que o pão e o combustível acabem antes de chegar a nossa vez! Por outro lado, por mais controlo ameaçador que as milícias imponham sobre tudo e todos, os rumorejos e murmúrios não deixam de se ouvir aqui e além: «Afinal, estamos muito pior do que antes… desde há mais de meio ano que andamos nisto.»

Mas é na populosa capital do país que reside a maior expectativa. À entrada do mercado ouvem-se conversas com esperança. Um jovem vestido à europeia diz para quem está à sua volta: «Estou muito optimista com o que irá acontecer amanhã em Cartum, na grande demonstração/greve da desobediência civil».

«Vai ser um verdadeiro sucesso», confirmou a vendedeira de tremoços, aí ao meu lado. E, com orgulho e brio, continuou: «Essa manifestação em pleno centro de Cartum vai ser uma marcha milionária; são palavras da minha filha que acaba de me telefonar de lá. E disse-me também que ela e os colegas de trabalho não vão faltar nessa grande demonstração». Depois, voltou-se para mim: «E tu, khauaja (estrangeiro), que dizes? Não tenhas medo, os soldados estão do outro lado do mercado, não nos ouvem». O riso, sem disfarce, de quem ouviu a tão animada tremoceira dispensou a resposta que me ficou no pensamento: a esperança não desiste, a democracia já vem perto.

Todavia, não há só notícias tristes. Certamente, a melhor notícia é aquela em que também eu estou incluído: Jesus Cristo e a sua igreja estão no meio deste povo, onde os cristãos são uma minoria. Mas não insignificante. E eu sou muito feliz por poder partilhar a minha vida com esta gente de costumes, crenças e religiões tão variadas. Uma das coisas que me impressiona é que encontro bastante frequentemente duas religiões (o cristianismo e islão) que convivem de forma pacífica nos vários membros de uma mesma família. Isso estimula o meu contacto com este povo e facilita o diálogo inter-religioso. Outro aspecto a ter muito em conta neste meio ambiente é o trabalho missionário no apostolado com os refugiados, na sua maioria cristãos que chegam do Sul do Sudão, nosso país vizinho, ameaçados com problemas de conflitos armados.

Eu não me considero novo no Sudão, onde passei 27 anos como missionário. No entanto, a arussat el rimal (a noiva das areias) e as suas gentes maioritariamente de etnia Nuba é para mim uma área com desafios muito peculiares. Como membro novo que sou da comunidade comboniana com residência nesta cidade, dou graças a Deus pelos meus três colegas (dois italianos e um congolês) que não se poupam em trabalhos para me introduzir em cheio em todos os sectores do trabalho missionário a desenvolver nestes lugares tão necessitados de evangelização.
Feliz da Costa Martins 
Missionário comboniano em El Obeid, Sudão

NB: Como diz a canção «Eu tenho uma carta escrita, não tenho por quem na mande». Na verdade, esta minha carta já estava uns longos dias à espera… mas a internet só chegou hoje (dia 12 julho). E, então, pois aí vai.

27 de junho de 2019

AO RITMO DO CORAÇÃO DE JESUS


Disseram, então, um ao outro: «Não nos ardia o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» (Lucas 24,32)

Levado pelo ímpeto daquela caridade que se acendeu com divina chama aos pés do Gólgota e, saída do lado do Crucificado, para abraçar toda a família humana, sentiu que o seu coração palpitava mais fortemente (São Daniel Comboni, Escritos 2742)



Caros confrades,

O encontro verdadeiro e profundo com o Senhor Jesus Cristo sempre faz arder o coração no peito daquele que experimenta de perto a Sua presença, dispondo-o a ouvir a Sua palavra.

Isto produz um movimento duplo na nossa vida: por um lado, faz-nos amar o Pai cada vez mais e convida-nos a viver como filhos; por outro, põe-nos a caminho para encontrar os irmãos e irmãs, exortando-nos a viver a nossa vida de irmãos. O encontro com Cristo introduz-nos na presença do Pai e estimula-nos a viver como filhos e irmãos.

Cada um de nós, Missionários Combonianos do Coração de Jesus, experimentou este encontro pessoal com Cristo a ponto de torná-lo o momento decisivo da sua vida e da sua vocação (cf. Regra de Vida 21.1). Fizemos nosso o plano de Deus para a humanidade de hoje e, portanto, esforçamo-nos para nos revestirmos dos mesmos sentimentos do Senhor Jesus (Cf. Fil 2.5) e tornar-nos assim presença do amor e da misericórdia de Deus no mundo. Nesta solenidade do Sagrado Coração de Jesus, somos chamados, como em cada ano, a renovar a nossa consagração a Deus e à missão que Ele nos confia. O convite é feito para estarmos cada vez mais conformes com Ele e para assegurar que o nosso coração bata ao mesmo ritmo que o coração de Deus e arda de amor por cada homem e mulher do planeta, especialmente pelos mais pobres e abandonados.

Somos discípulos missionários, enviados para testemunhar e tornar visível com as nossas vidas o coração de Deus que se acende de amor por cada criatura sua, chamados a partilhar um amor que salva e dá vida. O amor incondicional de Comboni aos povos da África tinha a sua origem e o seu modelo no amor salvífico do Bom Pastor, que ofereceu a sua vida na Cruz pela humanidade: «E confiando naquele Coração Sacratíssimo ... sinto-me cada vez mais disposto a sofrer … e a morrer por Jesus Cristo e pela salvação dos povos infelizes da África Central» (Regra de Vida 3).

A solenidade do Sagrado Coração de Jesus este ano coincide com o período em que estamos a rezar para escolher os novos superiores das nossas circunscrições: peçamos ao Senhor o dom de superiores segundo o Seu Coração. Peçamos-Lhe também, neste ano em que refletimos sobre a interculturalidade, a graça de sabermos reconhecer-nos filhos e irmãos que partilham a mesma fé, o mesmo batismo, a mesma consagração e a mesma missão.

Boa festa do Sagrado Coração de Jesus
Roma, 28 de junho de 2019 
O Conselho Geral

21 de junho de 2019

DE NOVO NO SUDÃO



1. Eram as cinco da tarde quando os meus pés pisaram terra sudanesa, de onde estive ausente meio ano. O avião já tinha começado a baixar e muitos dos passageiros espreitávamos pela janelita do assento para ver a cidade de Cartum do alto. Mas só se via uma cor amarela muito, muito espessa. Nada de estranho, é certo, para quem vive em lugares desérticos, onde as tempestades de areia são parte do ambiente climático. Mas outra coisa é acontecer no momento de uma aterragem…

2. Ouviu-se um grito histérico que foi imitado por outros. E não creio que fosse puro contágio psicológico. Porém, outra voz se ouviu, também. Graças a Deus! A voz do piloto que assegurou não haver verdadeiro motivo para alarme. E, de facto, mostrou verdadeira perícia com uma aterragem de um profissional bem sucedida.

3. Depois do susto em que precisaram de respirar fundo até os passageiros mais destemidos, alguns, embora travados pelos Seguranças do aeroporto, teimaram em aproximar-se do experimentado piloto que saía do avião. A rebeldia e desobediência aos guardas de turno eram justificáveis: o homem da farda branca tinha que receber os merecidos parabéns. Muito embora sóbria e simples, por causa do mau tempo que nos obrigava a esfregar os olhos doridos pelo pó areoso continuamente a cair em cima de nós, a cerimónia foi cumprida com gratidão e simpatia.

4. Esta minha viagem de Roma a Cartum já tinha sido iniciada no dia 4 de junho, mas o voo tinha sido truncado a meio do caminho. O aparelho aterrou no Cairo, Egipto, e não prosseguiu. Porquê? Razões de segurança máxima, devido à revolução em curso naqueles dias em Cartum, cujo aeroporto tinha deixado de funcionar. «Vamos esperar até quando?». «Até quando acabar a revolução», alguém do escritório esclareceu. «Mas o bilhete está pago até Cartum», protestámos todos em grupo. E a resposta veio do mesmo escritório, desta vez mais delicada: «Sigam, por favor, as informações/instruções pela internet». Quando olhei em volta, os presumíveis passageiros para Cartum tinham dispersado no meio da multidão do aeroporto.

5. Quanto a mim, já que estava no Cairo, aproveitei a ocasião e fui visitar os colegas combonianos naquela cidade. Graças a Deus que a nossa família também se encontra presente nesta parte do mundo. Aqui, na cidade cosmopolita do Cairo, tive a graça de participar nas actividades com os colegas daquela comunidade. E, logo por sinal, falam a mesma língua que nós no Sudão: o árabe. Ao missionário, de facto, nunca há-de faltar trabalho.

6. Depois de dez dias de espera, chegou a notícia: o aeroporto de Cartum reabriu. Finalmente, rumo ao Sudão! Apesar do susto da tempestade de areia que ameaçava a aterragem com segurança, como já descrevi acima, o apto e ágil piloto mereceu os parabéns.

7. Cartum… um lugar fantasma?! Foi-me realmente difícil acreditar na calma e tranquilidade que via nesta cidade que, ainda no dia anterior, tinha sido testemunha da crueldade e atrocidade barbárica da revolução. No caminho do aeroporto para a missão católica distinguia-se claramente o campo principal de batalha destes dias passados onde a sujidade e os estragos ainda estavam à vista.

8. Ao passar na ponte do rio Nilo fiz memória das quarenta vítimas que os militares tinham atirado, raivosamente, às águas, depois de os terem cravejado de balas. Mais tarde, os seus corpos apareceram a boiar à mercê das águas e foram retirados pelos seus amigos manifestantes. Uma revolução que, em poucos dias, custou um preço muito caro: 130 vidas. E largas centenas de feridos. Antes e depois da ponte, vi dezenas de carros armados parados. Os militares em atitude de relaxamento mas bem atentos a tudo o que se passa à sua volta. Os reboques cheios, bem abastecidos de tudo, bombas de vários tipos e tamanhos. Prontos para obedecer à ordem dos senhores da guerra. A marcha lenta e cautelosa do nosso veículo afoitou-me a cumprimentá-los: «Assalam aleicum», a paz esteja convosco. E eles, encostados aos seus carros-monstros arrumados à sombra daquela árvore gigantesca, responderam secamente: «Ua aleicum assalam», e contigo também”. Oxalá esta linguagem habitual de saudação que fala literalmente de paz (em língua árabe) corresponda aos seus pensamentos e acções, – comentei, dentro de mim, em jeito de oração. O condutor viu-me limpar o suor do rosto: «Andando a este passo tão lento as janelas, ainda que abertas, não dão ventilação para abrandar os 43 graus de calor…» – desculpou-se, delicadamente. Momentos depois, voltei-me para trás. Só então reparei naquela árvore tão grande e tão bonita. Era uma acácia em flor a acolher, na sua asseada frescura e beleza, aquele grupo de homens brutos e sanguinários com as suas ferramentas mortíferas de destruição e guerra. Mais um quarto de hora e estávamos a chegar à igreja da missão e residência dos missionários combonianos. Aquela cena para mim, é o espelho de Deus e de nós, humanos… Concluí a minha oração: «Assim és tu, meu Deus. És a grande acácia à cuja sombra podemos, maus e bons, fazer uma pausa de sossego e descanso. Obrigado, Senhor, porque, na tua magnanimidade, beleza e misericórdia perdoas o nosso pecado, a nossa violência, a nossa fome de poder. Ámen!»

9. As pessoas com quem me vou encontrando prudente e cautelosamente nas vizinhanças da missão, mostram rostos de corpos sofredores, cansados das vigílias de noites e dias sem tréguas. Eu tinha seguido as notícias pelos meios de comunicação, mas ao cumprimentar a amiga e vizinha Myriam Salah – 42 anos e mãe de 7 filhos – o sentimento trouxe uma emoção ainda mais forte. «Estás longe de imaginar, abuna (padre), o que eram estas ruas e praças e tudo quanto era sítio... Era tudo um mar de gente. Acampados de qualquer modo, com tendas ou sem tendas, não arredámos pé durante mais de dois meses. O pão escasseava mas não faltava a solidariedade entre os manifestantes. Gritávamos e cantávamos as palavras de ordem liberdade, justiça e paz que tanto desejamos para o nosso querido país. Como aguentámos durante todo esse tempo… só Deus o sabe». A boa senhora, de religião muçulmana, respirou fundo, como que a querer retomar a palavra. E enquanto limpava as lágrimas com a ponta do tôb (manto-véu) que lhe cobria o corpo dos pés à cabeça (excepto as mãos e as maçãs do rosto), perguntou com a voz entrecortada: «E o futuro como será!? Estamos com muito medo do que está para vir…» Perguntei-lhe se eram muitas as mulheres na revolução. Mas Myriam Salah só levantava os braços e procurava secar as lágrimas de um choro que lhe paralisou a voz. Compreendi que eram muitas, muitas. Sim, eu já tinha sabido por outras fontes que as mulheres nesta revolução ultrapassaram em muito o número dos homens. Certamente, porque foram mais espezinhadas e sofreram mais do que os homens numa sociedade machista.

10. Cheguei a Cartum há três dias, mas o meu destino é ainda mais longe. Quando os transportes públicos funcionarem com segurança, viajarei para a cidade de El Obeid, a 600 quilómetros de aqui, na região do Cordofão. Como a de Cartum, também esta é uma herança geográfica do nosso pai e fundador S. Daniel Comboni. Foi aqui que ele realizou grande parte da sua vida missionária, abrindo o caminho para nós, seus filhos, que seguimos os seus passos.

11. A população é maioritariamente muçulmana. Autóctones arabizados. Pele mulata bem tostada. Mas também lá vivem muitos africanos, especialmente da etnia Nuba, onde cristãos e muçulmanos vivem lado a lado. O nosso será um evangelizar com o cunho distintivo do diálogo interreligioso focalizado e salientado no testemunho de vida e amizade, sobretudo através dos serviços de saúde (pequenas clínicas/dispensários) e da educação/ensino. Sem proselitismos ou fanatismos, como recordou o papa Francisco na sua viagem de há poucos meses atrás, ao pequeno grupo de cristãos em Marrocos.

12. É nessa zona do Cordofão que se situa a região dos Montes Nubas, onde os Janjauides (milícias militares) são famosos, infelizmente, pelos massacres de conflito armado, semelhante ao já mundialmente conhecido no Darfur. Muito do nosso trabalho aqui tem a ver também com os desalojados que se encontram espalhados pelos Montes. Também temos ao nosso cuidado muitos outros que chegam refugiados do país vizinho e irmão, o Sudão do Sul, de onde fogem da guerra fratricida que o Papa Francisco actualmente tanto se tem esforçado para ajudar a pôr termo.
Feliz da Costa Martins
Missionário comboniano
Sudão

COMBONIANO ENTRE SANTOS E MÁRTIRES DA AMAZÓNIA


O Instrumento de trabalho para a Assembleia Especial para a Região Amazónica do Sínodo dos Bispos incluiu um missionário comboniano entre os santos e os mártires da Igreja na Amazónia.

O nº 113, intitulado «Um rosto inculturado e missionário», diz textualmente: «A diversidade cultural exige uma encarnação mais real para assumir diferentes modos de vida e culturas. “Na ordem pastoral é sempre válido o princípio da encarnação formulado por Santo Irineu: «O que não foi assumido, não foi redimido»”.[49] Os impulsos e inspirações importantes para esta almejada inculturação se encontram no magistério da Igreja e no itinerário eclesial latino-americano, de suas Conferências Episcopais (Medellín, 1968; Puebla, 1979; Santo Domingo, 1992; e Aparecida, 2007), de suas comunidades, de seus santos e de seus mártires.[50] Uma realidade importante deste processo foi o surgimento de uma teologia latino-americana, em particular da Teologia Índia.»

A nota nº 50 explica: «Entre outros, podemos citar: Rodolfo Lunkenbein, SDB, e Simão Bororo (1976), Marçal de Souza Tupã-i (1983, Guarani), Ezequiel Ramin (1985, Comboniano), Irmã Cleusa Carolina Rody (1985, missionária Agostiniana Recoleta), Josimo Morais Tavares (1986, sacerdote diocesano), Vicente Cañas, SJ (1987), Mons. Alejandro Labaka e Irmã Inés Arango (1987, ambos capuchinhos), Chico Mendes (1988, ecologista), Galdino Jesus dos Santos (1997, Pataxó Hã-Hã-Hãe), Ademir Federici (2001), Irmã Dorothy Mae Stang (2005, Irmã de Nossa Senhora de Namur).»

A Editorial Além-Mar está a publicar uma biografia do P. Ramin, que foi assassinado no Cacoal em 1985 por defender o direito dos agricultores à terra.

O Sínodo Especial vai realizar-se no Vaticano de 6 a 27 de outubro sobre o tema Amazónia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral.

7 de junho de 2019

RAINHA CÂNDACE


As mulheres tiveram papel próprio nas revoltas do Sudão e da Argélia.

A imagem tornou-se um ícone viral do levantamento popular sudanês que derrubou o ditador Omar al-Bashir em quatro meses de protestos de rua: uma mulher jovem e esbelta, coberta no toab branco, o manto-véu comprido das sudanesas, com grandes brincos dourados, em cima do tejadilho de um carro, de dedo em riste e em diálogo rapeiro com a multidão que à sua volta canta «Revolução, revolução» numa praça de Cartum. Dezenas de outras mulheres gravam o momento de telemóvel em punho.

Chamaram-lhe a nova rainha Cândace. O livro bíblico dos Actos dos Apóstolos descreve Cândace como rainha etíope. Mas é provável que fosse uma rainha guerreira de Méroe, reino núbio antigo que ficava no Sudão de hoje. Aliás, «etíope» em grego significa «rosto (ou olho) queimado», um tom de pele mais do que um país.

A rainha Cândace do levantamento sudanês tem nome: Alaa Salah, 22 anos, estudante de Engenharia e Arquitectura em Cartum. Define-se no Twitter como «mulher sudanesa, líder das raparigas novas do Sudão», «a voz e o rosto da luta da mulher sudanesa». Nunca esperou que a sua foto corresse mundo, mas está contente «porque o mundo viu que há uma revolução no Sudão». Diz-se uma entre um milhão de manifestantes.

«Dois terços dos manifestantes no Sudão são mulheres. Mulheres são metade da sociedade. Não podemos ter uma revolução sem mulheres. Não podemos ter democracia sem mulheres. Acreditámos que éramos capazes, e fizemo-lo», escreve noutro tuíte.

Alaa é o ícone mais recente da participação feminina nos levantamentos da História. A Wikipedia fez uma lista de meia centena de mulheres que encabeçaram revoluções das quais uma dúzia é africana: desde 280 antes de Cristo, quando a princesa Quilónis tomou parte activa durante o cerco a Esparta, até Aya Virginie Touré, a pacifista que organizou 45 mil mulheres contra Laurent Gbagbo, o presidente costa-marfinense que não queria abandonar o poder apesar de perder as eleições de 2010.

As mulheres africanas são a espinha dorsal da vida e da economia no continente e estão a mudar a sociedade, a cultura e a política. No fundo, estão a reclamar o poder que lhes foi tirado. Os anciãos gujis, do Sul da Etiópia, contaram-me, invocando a lenda das origens, que no princípio eram governados por mulheres, uma memória partilhada por outros povos.

A foto viral de Alaa é uma afirmação enorme das mulheres num país que vive o Islão radical. Junta-se a uma longa série de imagens poderosas recentes que documentam a força da mulher na política africana: a mulher do sutiã azul que foi despida e brutalmente agredida pela polícia no Cairo (Egipto) durante a Primavera Árabe de 2011; as idosas acholis ugandesas que se despiram em 2015 para protegerem a terra ancestral da cobiça do Governo; as mulheres etíopes que raparam o cabelo, solidárias com os presos políticos oromos em 2016; a adolescente sul-africana que usou um penteado afro para denunciar o racismo nos códigos de traje impostos pelas escolas, no mesmo ano; e a bailarina Melissa Ziad, que, com o «protesto poético», simboliza a revolta popular argelina.

As mulheres estão a reclamar o lugar de direito que têm na narrativa histórica dos povos africanos contada em demasia no masculino.

31 de maio de 2019

PARTIU UM AMIGO


Ver partir um amigo com quem trabalhei e vivi, com quem partilhei a minha vida e acompanhei na doença é um dos momentos mais duros que estou a viver na minha terceira missão neste país.

Conheci o então P. Sandri em 1987 quando me deu as boas vindas, para viver com ele na Missão de Acornhoek, a mais rural e distante das missões da diocese de Witbank. O impacte que teve na minha vida de jovem de vinte e poucos anos foi determinante para o sucesso na minha consagração missionária.

Um missionário dedicado à comunidade, ao seu compromisso sacerdotal. O povo adorava-o. Sempre muito pontual e exigente nas suas contas e nos seus gastos, conduzindo uma vida de pobreza e de simplicidade.

Nunca alimentou conflitos. Encarnou sempre no seu viver o carisma que herdou de S. Daniel Comboni ao detalhe. Nunca nos desligámos, apesar de cada um de nós ter seguido caminhos diferentes.

Por altura do falecimento dos meus pais, em 2012, sendo ele já bispo desta diocese, mandou-me uma mensagem via Facebook para vir ajudá-lo na diocese. Eu não vi razões para que não considerasse o seu pedido. Aceitei o projeto, e devidamente combinado com os Combonianos aqui na África do Sul, entrei na residência episcopal em julho 2015.

Nomeou-me imediatamente diretor diocesano das Obras Missionárias Pontifícias e diretor de outra Instituição vocacionada para os pobres, o Lenten Appeal. Também queria que eu dirigisse a Cáritas diocesana. Porém, depois de termos conversado, achámos melhor arranjar outra pessoa para o fazer.

A vida aqui em casa correu sempre muito calmamente e sem problemas.

Eu passei a administrar a casa. Foi sempre uma casa de muitas visitas. Depois de me ter ensinado e mostrado onde fazer as compras, eu comecei a fazer tudo no estilo que ele já tinha adquirido e senti-me sempre bem.

A diocese de Witbank é muito grande. Dom Joe, para o seu trabalho de pastor, era forçado a viajar mais de 40 mil quilómetros por ano. Foi um bispo presente, totalmente dedicado de tal maneira, que se esqueceu de si mesmo, de cuidar da sua saúde, totalmente doado ao Senhor e ao seu povo. Em casa onde comia poucas vezes, o sal quase não se usava e os fritos foram eliminados. Também me habituei a comer assim.

Fora, em trabalho apostólico, nunca selecionou comidas. Aceitava o que as pessoas lhe davam. Talvez aqui tenha estado a origem da sua úlcera no estômago, que no dia 27 de março pela manhã muito cedo lhe rebentou, perfurando-lhe o estômago.

Nem ele, nem o seu médico, nem eu nos apercebemos de qualquer manifestação desse problema. Nunca se queixou desse perigo que o levou à morte.

Levei-o ao hospital logo de manhã cedo acompanhado do seu médico pessoal. Só me disse; «Pinto, chama-me o medico imediatamente, que não aquento as dores» enquanto se contorcia todo à entrada da nossa capela onde nos preparávamos para celebrar a Eucaristia logo de manhã.

Neste mesmo, dia 27 de março, durante a noite, depois de descobrirem o que se estava a passar, foi operado de urgência. Puseram-no em coma induzida durante sete dias. Eu visitava-o duas vezes por dia na unidade de cuidados intensivos no hospital privado da cidade de Witbank.

Como os seus rins começaram a falhar, no dia 7 de abril, mudámo-lo para o melhor hospital privado da África do Sul perto de Pretória. Estava agora mais cuidado no campo de especialistas renais e outros a quase duas horas de carro daqui de casa. Agora era o seu amigo médico que mais perto dele nos ia informando e telefonando também à sua família na Itália.

No dia 11 de abril os médicos descobriram que sangrava pelo estômago. Neste mesmo dia sofreu uma segunda operação ao estômago e a infeção generalizou-se e tornou-se impossível de controlar.

Todos os católicos da diocese e por muitas partes do mundo estavam unidos em oração por ele. Ele conhecia muita gente em todos os continentes. E mais fervorosamente começaram a orar por ele quando começámos a saber que só um milagre o podia salvar.

Depois de tanto viajar paro o hospital, depois de tantas lágrimas derramadas, depois de tanto esperar em Deus, depois de tantos momentos contemplando o mistério, no dia 30 de maio pelas 4h30 da madrugada, eu acordei sobressaltado pelo telefone com a notícia: «O nosso bispo acabou de nos deixar». Era o seu amigo doutor a dar-me a notícia.

Precisei de ar. Nestes dois meses vivi sozinho em casa. Não tinha com quem partilhar a minha dor. Refiz-me e alguns minutos depois comecei a telefonar aos amigos mais chegados que a desgraça tinha finalmente chegado.

O momento que eu mais temia e que me manteve colado ao meu telefone, ao telefone do Sr. Bispo e ao telefone da casa.

O seu funeral está marcado para o dia 6 de junho às 10h00. Será em Witbank no pavilhão multiusos da cidade para que todos possam participar. Depois haverá uma breve cerimónia na catedral onde será sepultado junto à sua cátedra que permanecerá vazia.

Neste momento de luto e dor é o que me é possível dizer. Que o Senhor da missão o recompense pelo exemplo de vida simples, pobre e trabalhosa que o levou a esgotar-se em favor dos outros por toda a sua vida. Descanse em paz.


Ir. Artur Fernandes Pinto
Missionário Comboniano

17 de maio de 2019

ESCOLAS INTERCULTURAIS


3,5% dos alunos que frequentam o ensino público básico e secundário em Portugal são estrangeiros e têm cerca de 180 nacionalidades diferentes.

Os dados referem-se ao ano lectivo de 2015-2016 e foram publicados pelo Observatório das Migrações.

Mais de um quarto dos alunos estrangeiros era brasileiro: 9 687 ao todo.

No segundo e terceiro lugar encontravam-se crianças de Cabo Verde (4 433 ) e Guiné-Bissau (2 768).

Seguiam-se os alunos oriundos de Angola (2 750) e da Ucrânia (2 741).

Os 2 475 alunos da Roménia representavam o sexto grupo mais numeroso seguidos pelos colegas de São Tomé e Príncipe, Moldávia, China e do Reino Unido, que completavam a quadro das dez nacionalidades mais representadas nas escolas públicas em Portugal.

No ensino superior, há mãos de 42 mil estudantes estrangeiros de 167 países, representando mais de 12 por cento dos universitários matriculados em Portugal.

13 785 são brasileiros. Seguem-se estudantes da Espanha, Angola, Cabo Verde, Alemanha e França.

Coimbra, Minho, Porto, Lisboa e o Politécnico de Bragança são as instituições do ensino terciário com mais estrangeiros matriculados.

Os números referem-se ao ano lectivo de 2016-2017.

15 de maio de 2019

MEU QUERIDO PAI DO CÉU


Esta é uma prece da Tua filha muito amada, Carolina de Jesus Fiúza, que hoje, com a força desta comunidade, é enviada por dois anos a amar o povo da Etiópia.

Desde há uns bons tempos que oiço o Teu convite a ecoar dentro de mim e que me diz:

“Faz-te ao largo e lança as redes para a pesca. Não tenhas medo: vem comigo ser pescadora de Homens. Vem, segue-me!

Pois a Ti agradeço este convite e é com muita alegria que, como Maria, digo SIM, Faça-se em mim segundo a Tua palavra!

A Ti devo um grande OBRIGADA pois este Sim é fruto de uma relação entre nós dois. A Ti muito OBRIGADA por nunca desistires de mim e porque em mim confias. A Ti também agradeço todas estas pessoas que aqui estão das mais diversas formas, física ou espiritualmente. A Ti agradeço estas mil vidas que, muitas vezes, sem o saberem, são também Mil vidas para a Missão, tal como pedia São Daniel Comboni: as Mil vidas para a Missão. Agradeço-Te a coragem e força que dão ao meu Sim e a confiança que em mim depositam.

A todas estas estas vidas e a Ti agradeço e prometo: prometo errar, falhar. É a condição humana! Porém, prometo tentar melhorar sempre, prometo aprender, escutar, calar, aceitar, entender, partilhar o que sou, receber o que são… e, mais que tudo, AMAR. Prometo entregar-me totalmente ao povo etíope e Fazer o que posso, com o que tenho, onde estiver.
Olho para mim e vejo-me pequena. Porém, é com as minhas limitações, com o que trago na minha bagageira, que me quero entregar a Ti e partir para junto dos mais pobres e necessitados, inspirada por São Daniel Comboni. E confio em Ti. Confio que Tu não escolhes os capacitados, mas sim capacitas os escolhidos. Assim, confio que me darás as capacidades para amar este maravilhoso povo da Etiópia, onde Tu já estás desde sempre.

Talvez muitos não entendam porque escolho partir em missão. Compreendo e aceito a incompreensão de muitos. E agradeço o apoio que, ainda assim e de forma incondicional, me dão. Tal como o meu querido pai diz, “o bem pode fazer-se em muitos lados!”. E não é mentira… porém, Tu meu Pai do céu, Tu que és um só Corpo, mas com muitos membros e cada membro com a sua função, Tu chamas-nos a todos a ser missionários, de formas muito distintas. Hoje e a mim, sei que me chamas a partir, chamas-me assim a ser um grão de trigo que morre na terra para que nasça fruto. E isto é um mistério. Tal como o mistério do Teu Filho muito amado que morreu na Cruz. Tal como Ele, também dou o meu Sim, pronta a fazer nascer e crescer a missão aos pés da Cruz. Conseguiremos nós alguma vez entender este mistério da morte de Jesus na Cruz, meu Pai? Talvez não. Da mesma forma, talvez não seja entendível o meu Sim para muitos. É um mistério, também. Também para mim a missão que me entregas em mãos é um mistério. Mas, ainda assim, digo Sim. Digo Sim confiadamente pois sei que nunca, mas nunca me abandonarás.

Meu Deus, Tu sabes a Gratidão que trago dentro a tantas pessoas. Sem oportunidade de mencionar todas, agradeço em especial à minha Família, àquela que me dá sentido, que me deu genes de missionária!

Agradeço-Te em particular a vida dos meus pais, Edite e Manuel Fiúza, que me educaram da melhor forma que sabiam. Sem eles, a minha vida, valores, dons… tudo o que sou, de forma alguma seria possível. Agradeço-Te as suas vidas e o fruto da sua criação que sou eu hoje, este dom que sou e que quero colocar a render. Agradeço-Te porque lhes dás a capacidade de me amarem e apoiarem incondicionalmente, ainda que, muitas vezes, não compreendam as minhas decisões. Peço-Te que os guardes, que olhes sempre por eles e que sempre lhes dês a força para lutar pela Vida, tal como me ensinaram a fazer.

Agradeço-Te a vida do meu namorado, Hélder Neves, que desde sempre me apoiou e me deu a força nos momentos de maior dúvida. Agradeço-Te o amor que nos une e que só de Ti pode vir. E sei que este Sim não é apenas meu, mas de ambos. Também ele aceita o convite de viver em missão comigo. E esta missão aceitamo-la com muita confiança! Peço-Te que olhes sempre por ele, acolhendo-o nos Teus braços. E que aquilo que Tu uniste, o amor que nos une a nós dois, jamais ousemos separar ou danificar. Dá-nos a confiança e a coragem de nos mantermos sempre unos!

Agradeço-Te a vida de todos os paroquianos da minha “terra, ó que linda de terra”, esta linda Santa Eufémia. Esta terra que me viu crescer e que me acompanhou na vida e fé cristãs. Entre catequistas, grupos de coro, sacerdotes que aqui já conheci (e já são três), e tantas pessoas que hoje olho e das quais trago o melhor… agradeço-Te a vida de cada uma. Um agradecimento especial ao Padre Nuno Gil, cuja jovialidade e força para chegar a todos não me deixam indiferente. Peço-Te que lhe sigas dando ânimo para continuar a conduzir e construir o Teu Reino aqui na Terra.

E, por fim, e sabendo que muitas outras vidas teria a agradecer, agradeço-Te toda a Família Comboniana. Agradeço por serem luz neste caminho em que procuro diariamente descobrir-Te e apaixonar-me mais e mais por Ti. Agradeço-Te pelo exemplo que cada um é para mim de vida inspirada em São Daniel Comboni e por possibilitarem que entenda cada vez mais e melhor a minha vocação missionária. Agradeço-lhes verdadeiramente pois em mim confiam a missão na Etiópia, e peço-Te que consiga sempre ser o melhor de mim como LMC.

Meu Deus, tu sabes o que trago dentro, melhor que ninguém. Tu sabes o quanto dói deixar o amor que tenho aqui. Porém, tu também sabes o quanto estou feliz pois, ali onde vou também me espera o amor. Pois vou ao encontro o amor, seguindo os passos de quem me convida.

Bem sabes, que este nunca será um Adeus, mas sempre um Até breve.

Até breve minha comunidade. Nunca tenham medo de dar o vosso Sim, pois Deus, como Pai misericordioso, nunca vos abandonará. Deixo-vos uma lembrança: uma Cruz tipicamente Etíope (que inclusive vos foi enviada por uma irmã Missionária Comboniana da Etiópia), para que recordem que todos formamos parte de uma mesma cruz, a Cruz de Cristo. Rezem por mim e pelo povo e missão na Etiópia. Confiem que nós também rezaremos por vós.

10 de maio de 2019

O DRAMA DO ÉBOLA


A RD Congo está a braços com o surto mais grave de ébola em quarenta anos.
As províncias de Kivu-Norte e Ituri, no Leste da República Democrática do Congo, vivem sob ameaça mortal do vírus do ébola desde 1 de Agosto de 2018. A epidemia de febre hemorrágica foi declarada no Verão passado e a Organização Mundial da Saúde diz que, até Abril, havia 1168 casos registados (1102 foram confirmados e 66 são suspeitos) e 741 mortes (675 confirmadas e 66 prováveis), incluindo 85 casos e 30 mortes de prestadores de cuidados de saúde. Mais de metade das vítimas são do sexo feminino, e 30 por cento são crianças.

O vírus do ébola foi identificado em 1976 em dois surtos distintos: em Nzara (no então Sul do Sudão) e Yambuku, uma área florestal junto ao rio Ébola, no Zaire, de onde recebeu o nome.

O morcego-da-fruta é o hospedeiro do vírus (de que se conhecem cinco estirpes) e transmite-o aos humanos através do sangue e outros fluidos e secreções de animais selvagens (chimpanzés, gorilas, macacos, antílopes e porcos-espinhos) que comem fruta contaminada com a sua saliva. Os humanos transmitem o vírus uns aos outros através dos fluidos corporais.

A República Democrática do Congo (este surto é o décimo e o mais mortífero desde 1976), o Uganda, a República do Congo e o Gabão são os países mais afectados pelo ébola. Normalmente os surtos surgem nas florestas tropicais. Contudo, o evento mais mortífero que infectou quase 29 mil pessoas e matou mais de 10 mil entre 2013 e 2016 na Serra Leoa, Guiné e Libéria, na África Ocidental, ocorreu em meios urbanos e rurais.

O surto no Kivu-Norte está longe de estar dominado, apesar dos esforços das organizações internacionais de saúde e do Governo – que montaram uma dúzia de centros de tratamento e campanhas de vacinação. Dois elementos dificultam o combate ao vírus e a assistência às vítimas: a desconfiança por parte das populações e os elementos armados – que atacaram vários centros de tratamento.

«É das coisas mais complicadas daqui», afirma o P.
Claudino Ferreira Gomes, um missionário comboniano que vive em Butembo, sobre os ataques. «Não se sabe bem quem ataca. Hoje houve mais um ataque, com incêndio e a morte de um polícia. Um dos assaltantes foi ferido, está no hospital e vai ser interrogado para se saber donde vem, quem são os mandantes, etc. Há vozes que acusam os que vêm tratar o vírus como sendo eles quem o trouxe! Outros não acreditam que essas equipas sanitárias se interessem pelo ébola, mas que andam a fazer tráfico de órgãos.»

Um dos envolvidos na polémica do ébola é o bispo católico de Beni-Butembo. Escreveu uma mensagem a encorajar as populações a colaborar com os técnicos de saúde e a tomar os medicamentos, criticando quem propõe as rezas em vez dos remédios para tratar a doença (até por interesses económicos, porque uma bênção paga-se). Em resposta, grupos armados começaram a assaltar instituições ligadas à Igreja Católica, incluindo um centro de retiros dos Combonianos.

Os ataques aos centros de tratamento põem a região em risco: sem equipas sanitárias, o vírus pode matar mais de 60 por cento dos habitantes de Butembo e levar à quarentena da região. Representa ainda uma ameaça mortal para as áreas fronteiriças do Uganda, Ruanda e Sudão do Sul (sobretudo Yei, onde combates entre forças do Governo e da oposição não permitem a presença de equipas de saúde no terreno).

GUARDADORAS DA ESPERANÇA

— Eu não consigo… não consigo! – repetia sempre Reem, uma jovem beduína palestiniana de 16 anos, sempre que a convidávamos para aprender a u...