10 PROBLEMAS DO PAPA


O Papa Francisco causou furor quando há um ano, no discurso de boas-festas aos cardeais e colaboradores da cúria romana para a troca de bons votos de natal, desancou nos burocratas do Vaticano e listou e explicou as quinze doenças que afetam os seus colaboradores mais diretos.

A resposta dos ofendidos demorou, mas chegou pela mão anónima de alguém que escreveu uma carta aberta de advento enumerando os dez problemas do magistério do papa Francisco.

A carta foi publicada a 27 de novembro pela Focus, uma revista alemã. 

O autor parece ser um monsenhor alemão reformado que trabalhou muitos anos na cúria romana já que se assina «Um capelão de vossa santidade.»

O autor diz que se escudou no anonimato por medo das represálias do papa aos seus ex-superiores no Vaticano.

Para ele, os dez «aspetos problemáticos» do governo do papa argentino são: atitude emocional e anti-intelectual que dificulta o tratamento das questões teóricas e doutrinais; autoritarismo; populismo de mudança; conduta pessoal que critica predecessores; pastoralismo; exposição exagerada da simplicidade de vida; particularismo que opõe os objectivos e propostas da Igreja universal aos pontos de vista de parte da Igreja; desejo de espontaneidade constante; falta de claridade sobre as inter-relações de liberdade religiosa, política e económica; e, finalmente, meta-clericalismo.

O autor começa por acusar o papa de não conhecer a Cúria por dentro mas por fora ou por cima. Chama os teólogos escolhidos por Francisco de incompetentes. E sublinha que «fé sem doutrina não existe.»

Acusa o papa de desdenhar ensinamentos teóricos e de ser autoritário, instalando um clima de medo no Vaticano.

Recorda que na Igreja as mudanças são lentas e muitas das declarações papais suscitam expectativas erradas.

Acusa o papa de falta de humildade ao querer reinventar o ministério petrino e recriar a herança da fé.

Diz ao papa que não precisa de mostrar constantemente a simplicidade de vida e aconselha-o a comprar ou pedir que lhe ofereçam um carro ecológico que é muito mais caro.

Classifica de cómica a atitude de subjugar os obejtivos e propostas da Igreja universal aos pontos de vista de uma parte da Igreja.

Critica a espontaneidade constante do papa e classifica a sua linguagem de não-profissional porque é mal entendida e exige clarificações constantes por parte dos colaboradores. Recorda que os papas têm que ser menos espontâneos que os pastores.

Diz que o papa está a favorecer estados fortes nas áreas da economia e do social e que a Igreja deve defender instituições não governamentais e ajudar as pessoas a cuidar da própria vida, porque «o estado social pode tornar-se demasiado poderoso, e com isso, demasiado paternalístico, autoritário e iliberal.»

Finalmente, acusa o papa Francisco de se desinteressar pelo clero e que o clericalismo que critica é mais fantasma que real.

Recorda que o papa «deve servir a continuidade e Tradição da Igreja» e pede-lhe que reduza «as suas inovações e provocações». Aconselha-o a usar o advento para refletir sobre o seu ministério, e que aprenda mais dos colaboradores porque «como ele, muitos têm dificuldade com o modo como às vezes fala e atua.»

A impressão com que eu fico é que esta carta que levou um ano a chocar, no fundo, é a voz descontente dos burocratas mais conservadores da cúria romana que perderam a segurança e o poder a que estavam acostumados. É normal que o efeito-Francisco gere ondas de choque negativas! E que o modo mais espontâneo latino-americano contraste com o rigorismo oficial.

Choca-me sobremaneira a acusação final de que o papa é incapaz de lidar com a crítica e que reage com cólera. Esta não é a imagem que irradia com a sua postura bondosa e acolhedora. Pode ser uma punhalada traiçoeira de um «falcão ferido». Os animais feridos são muito perigosos...

Comentários

Arlindo Pinto disse…
Boa amigo Zé Vieira! Quem vive em Roma, conhece bem os nomes dos opositores e as suas teorias! Também o mesmo papa Francisco conhece muito bem os seus opositores e o que eles pensam, e (alguns até) dizem… Nada de novo, portanto. A tudo isto o Papa já respondeu, recentemente numa entrevista, dizendo que, apesar de tudo, “a reforma da Curia e da Igreja continuam”. Com “a ajuda dos meus cardeais”, disse.

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