30 de setembro de 2024

COMBONIANOS EM BEIRUTE ESTÃO BEM


Os membros da comunidade comboniana em Beirute, a capital do Líbano, encontram-se bem. A notícia foi dada pelo Provincial do Egito-Sudão a que pertence a comunidade libanesa.

A comunidade é composta por um formador e quatro estudantes de teologia que se preparam para o serviço missionário no mundo árabe.

O P. Diego Dalle Carnobare (no centro da foto com o formador e os estudantes) visitou a comunidade na semana passada. 

«Desta vez não estou a enviar um “boletim de guerra” do Sudão (onde a guerra continua apesar de os meios de comunicação a terem esquecido), mas do Líbano onde vim a semana passada para visitar os nossos escolásticos e o seu formador», o provincial escreveu numa mensagem.

«Os ataques estão a ser feitos nos lugares estratégicos de Hesb. O Líbano é um país pequeno, mas está dividido em áreas. Para aqueles que não vivem na área xiita a vida parece decorrer normalmente. Nós estamos no norte de Beirute numa área cristã e estamos distantes das explosões das bombas e das colunas de fumo no sul da cidade», continuou. 

«Hoje, enquanto conduzíamos para casa na estrada principal no litoral, vimos com os nossos próprios olhos que entre quatro e cinco viaturas em direção ao norte uma estava cheia de xiitas a fugir da zona de guerra: carros e camiões sobrelotados com mulheres, crianças, malas e colchões. Para onde exatamente? Cada família segue a própria direção nestas viagens de esperança», o P. Diego explicou.

A força aérea israelita transformou o sul do Líbano e o sul de Beirute no teatro da guerra contra o Hezbollah. 

As Nações Unidas dizem que pelo menos 720 pessoas foram mortas no Líbano e 211 mil deslocadas durante a primeira semana de bombardeamentos aéreos intensos. 

«O Líbano é uma pérola de beleza rara, mas a crueldade dos poderosos desconhece alguma razão», conclui a mensagem o P. Diego enquanto pede orações pela paz.

29 de setembro de 2024

MESKEL: CELEBRAR A CRUZ


Ortodoxos e Católicos na Etiópia celebram a Exaltação da Santa Cruz a 27 de setembro e, para a Igreja Católica, a comemoração litúrgica é solenidade nacional. A celebração chama-se simplemente Meskel (cruz em amárico) ou Fanno (em oromo).

As celebrações começam na tarde da véspera com a preparação de uma meda de lenha arranjada à volta de uma cruz comprida feita com duas varas. Depois de benzida, a lenha é incendiada e enquanto arde as pessoas cantam e dançam à sua volta. Quando a cruz cai, os entendidos observam a sua posição que é prenúncio – bom ou mau – para o ano que começou há apenas 17 dias.

Depois, moços formam pequenos grupos e, de paus na mão, vão para as estradas parar viaturas e cantar na esperança de algum dinheiro em troca. No passado recebiam pão, mas hoje o dinheiro é mais prático para quem dá e para quem recebe. No ano novo a cantoria e o peditório foram feitos por meninas que, em vez de paus, empunham flores.

No dia 27, celebra-se o rito da Exaltação da Santa Cruz. Os ortodoxos fazem-no durante a noite com a Sagrada Liturgia – como chamam à Missa – que começa por volta das duas ou três da manhã e se prolonga até ás sete ou oito. A celebração, muito cantada, é transmitida através de poderosos altifalantes que disturbam o sono dos não ortodoxos.

Os católicos celebramos a Eucaristia a horas mais «católicas» durante a manhã. Eu iniciei a Eucaristia na capela de Gosa, a 35 quilómetros a norte de Qillenso, às sete horas e o meu colega às nove na igreja paroquial.

Depois da liturgia na igreja, que termina com dois ou três hinos cantados por cada faixa etária (adolescentes, jovens, adultos e mulheres), a celebração passa para casa. Da ementa do almoço faz parte o doro wot, frango estufado num molho espeço de piripiri e outras especiarias com alguns ovos, acompanhado por injera, o pão típico da Etiópia, feito com farinha de tief na forma de uma panqueca gigante. Um colega espanhol chama-lhe «manta».

Os gujis, o povo a quem de alguma maneira também pertenço, juntam às celebrações da Cruz uma corrida de cavalos na tarde do dia 27 de setembro.

Pessoas e quadrúpedes juntam-se na colina sobre uma área plana e relvada. As meninas – mais que os rapazes – põem as roupas tradicionais e as tiaras, gargantilhas e brincos de missangas. As montadas são engalanadas com arreios de couro ricamente decorados onde predomina o encarnado. Os ginetes também se vestem de festa. Há grande excitação no ar!

Os anciãos delimitam a pista da corrida no prado verde com ramos de árvores. Os cavaleiros desafiam-se dois a dois para ver quem faz o percurso mais rápido.

Polícias e milicianos mantêm o espaço da corrida desimpedido à força de vergastadas para afastar a pequenada excitada.

Este ano a corrida acabou mal começou. Um cavalo, depois da volta de aquecimento, caiu, esperneou-se e morreu ali à frente de todos. 

A culpa, pelo que escutei, foi do ancião que, de manhã, tinha benzido a pista da corrida. Era voz corrente que ele não tinha balli (poder) para o fazer e, por isso, a montada morreu!

Quando deixei o lugar – porque o horizonte negro prometia borrasca a sério, que veio quando cheguei a casa – os mais velhos continuavam a discutir o insólito facto e a ponderar a causa.

Também falavam em coletar dez birr, o equivalente a menos de dez cêntimos do euro na moeda nacional, a cada participante com dinheiro no bolso para compensar o dono pela perda do equídeo.

17 de setembro de 2024

OS DESAFIOS DA POLIGAMIA

Relatório de Síntese da primeira sessão da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos sobre «Uma Igreja Sinodal em Missão» deixou uma tarefa específica ao Simpósio das Conferências Episcopais de África e Madagáscar (SECAM na sigla em inglês), encorajando-o «a promover um discernimento teológico e pastoral sobre o tema da poligamia e sobre o acompanhamento das pessoas que vivem em uniões poligâmicas, que se aproximam da fé.»

O portal aciafrica.org, da Associação para a Informação Católica em África, que acompanha de perto o dia-a-dia da Igreja Católica no continente, reportou duas respostas à tarefa. Em dezembro, a IMBISA, organização que engloba as conferências episcopais de nove países da África Austral, pediu aos teólogos para iluminarem as práticas da iniciação e da poligamia. A resposta da SECAM veio em abril com o estabelecimento de uma comissão (de teólogos, na maioria) para refletir sobre o a proposta do Sínodo. As deliberações seriam apresentadas na assembleia plenária do organismo continental, agendada para julho no Ruanda. 

São João Paulo II deixou o mesmo convite aos bispos africanos depois do primeiro Sínodo sobre a Igreja em África. Dom Armido Gasparini, o então bispo de Hawassa, no sul da Etiópia, contou-me, frustrado, que tentou introduzir a questão numa reunião da Conferência Episcopal. Contudo, o arcebispo de Adis-Abeba, o cardeal Paulos Tzadua, cortou a discussão pela raiz, afirmando de que na Etiópia não havia poligamia. Que entre os amaras e os tigrinos não haja poligamia é possível; estas etnias foram evangelizadas há séculos. No Sul, entre os povos que foram anexados à Etiópia no fim do século XIX, a situação é bem diferente. A título de exemplo, na missão de Qillenso, onde sirvo, dois católicos têm famílias numerosas: o senhor Borama tem 32 filhos de três esposas enquanto o senhor Elema tem 27 filhos de cinco. No passado, perdemos um número de bons catequistas por terem entrado em uniões matrimoniais adicionais.

 

UMA QUESTÃO COMPLEXA

A questão da poligamia é uma matéria complexa de tratar. Envolve antropologia, sociologia, cultura, tradição e ética, entre outros aspetos. Na internet, há grandes discussões sobre o tema. Se o rei Salomão teve 700 esposas, porque temos de ter só uma? – perguntam alguns internautas.

Entre os gujis, com quem trabalho, nos anos 90 do século passado, era comum um homem por volta dos 30-40 anos tomar uma segunda ou mais esposas, dependendo da capacidade económica. Cada casamento pressupõe sempre o pagamento de um dote à família da noiva. A poligamia não é uma questão de perversão sexual, mas de prestígio pessoal e social. A importância de um homem na cultura guji é medida pelos filhos que tem e pelo gado que possui. Nós, os missionários, não temos filhos, mas temos algumas cabeças de gado.

A poligamia entre os gujis coloca alguns desafios concretos: normalmente o primeiro filho é aquele de quem o pai cuida, porque é o primogénito que lhe dá o nome. Quando nasce o primeiro filho o pai e a mãe deixam de ser chamados pelos nomes próprios para serem tratados por pai ou mãe do nome do filho nascido. Cada esposa tem a própria habitação e os outros rebentos ficam sob o cuidado das mães. O pai vai andando de casa em casa. As novas gerações são sensíveis a esta desigualdade de tratamento e, pelo que observo, a poligamia está em declínio entre os gujis.

 

REVISITAR AS ESCRITURAS

Segundo a prática católica, quando um homem polígamo pede para ser batizado depois da catequese do catecumenado, deve escolher uma esposa e despedir as outras. Para os gujis, a primeira esposa é sempre a mais importante. Mesmo que ela aceite que o marido pretenda uma mulher mais nova, se ela quiser voltar ele é obrigado a recebê-la.

Uma vez, em conversa com uma missionária luterana alemã, abordamos a prática da sua Igreja de batizar o marido polígamo com toda a família. Indaguei das bases para essa opção. Ela respondeu que, na primeira carta que Paulo escreveu ao seu colaborador Timóteo, o apóstolo dos gentios explica que a condição para ser bispo ou diácono é que «seja marido de uma só mulher». Este detalhe revela que, embora a comunidade cristã guardasse os ensinamentos de Jesus em relação ao matrimónio – união indissolúvel entre um homem e uma mulher para a vida –, admitia exceções. De facto, a exigência de ser marido de uma só mulher indicia que havia cristãos em uniões poligâmicas.

O acompanhamento pastoral das pessoas em uniões poligâmicas pede uma revisitação do Novo Testamento. Jesus é claro: «Desde o princípio da criação, Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher, e serão os dois um só. Portanto, já não são dois, mas um só. Pois o que Deus uniu não o separe o homem» (Marcos 10, 6-9). Os discípulos quando registaram tal exigência, reagiram dizendo que se é assim, não convém casar-se. 

Este é o princípio-base do matrimónio cristão: uma união monogâmica heterossexual para a vida. Contudo, a leitura atenta do Testamento cristão, revela que desde o princípio a Igreja admitiu exceções a este princípio radical. 

O evangelista Mateus afirma por duas vezes que o divórcio é possível no caso de porneia, palavra grega de significado amplo, traduzida por união ilegal, fornicação, imoralidade sexual, adultério para os ortodoxos (Mateus 5, 32, repetido em 19, 9). Paulo, escrevendo aos cristãos em Corinto, na Grécia, permite que se uma das partes de um casal gentio receber o batismo e a outra quiser abandonar a união, a parte cristã pode recasar (1 Coríntios 7, 12-15). Esta exceção é chamada de privilégio paulino. Vimos antes que, os candidatos a bispo e diácono deviam ser maridos de uma só mulher (1 Timóteo 3, 2. 12) o que pressupõe haver poligamia entre as comunidades cristãs.

Há que juntar a estas exceções o privilégio petrino, a faculdade do papa de dissolver um matrimónio em benefício da fé de uma das partes. No caso de uma união poligâmica, por exemplo, a Igreja considera válido só o primeiro casamento. Contudo, o privilégio petrino concede ao marido poligâmico escolher a esposa de entre as mulheres que tem.

 

ACOMPANHAMENTO DE UNIÕES POLIGÂMICAS

A poligamia é uma realidade transversal ao continente africano, do Cairo ao Cabo. Qual é o acompanhamento possível das pessoas em uniões poligâmicas que se aproximam da fé? O SECAM prometeu apresentar uma reflexão teológica e pastoral em julho, mas não consegui encontrar nada.

A meu ver, e partindo da experiência de missionário entre uma etnia que pratica a poligamia, esta resposta tem de ser dada a nível teológico e a nível pastoral, com a mesma criatividade, justiça e licença da primeira comunidade cristã. Não pondo em causa os ensinamentos do Senhor sobre o matrimónio, admitiram algumas exceções. O importante é que a salvação de uma pessoa – de um polígamo que pede o batismo – não ponha em causa a salvação de terceiros (as esposas que tem de abandonar para ser batizado). Nalgumas culturas, a prostituição é o caminho possível para as mulheres abandonadas pelo marido.

Uma opção possível, é a prática pastoral que seguimos na missão de Haro Wato há duas ou três décadas: quando um homem polígamo terminava o catecumenado, o período de formação para receber o batismo, recebia um nome cristão e um crucifixo, mas só era batizado no fim da sua vida. Assim, acautelávamos o bem-estar de todas as suas esposas. Reconheço que se trata de uma meia-solução: o candidato polígamo é introduzido aos mistérios da fé, mas fica de fora da comunhão dos batizados. Outra opção pode ser a prática da Igreja Luterana de admitir no seu seio toda a família, administrando o batismo ao marido e a todas as esposas e os filhos que o desejem. Mas o discernimento pedido às conferências episcopais pode encontrar outras soluções que acautelam a dignidade de todas as pessoas envolvidas em uniões poligâmicas.

12 de setembro de 2024

DE VOLTA À PRISÃO




A assistência religiosa no Estabelecimento Correcional de Adola, no sul da Etiópia, faz parte do serviço pastoral da missão comboniana de Qillenso desde 2009. Aliás, a capela prisional foi o terceiro local de culto aberto à volta da cidade-mãe dos gujis.

Os inícios foram humildes. Os católicos começaram por se reunir para a missa dominical na capela luterana. Depois, montaram uma tenda. A capela propriamente dita, feita de madeira, barro e zinco, veio depois.

Hoje, uma equipa de duas Missionárias da Caridade, o professor reformado José Sholango e um dos padres da paróquia de Qillenso, visita a prisão cada terça-feira para rezar o evangelho do domingo anterior com alguns reclusos.

O esquema da celebração é simples: um cântico de entrada, acompanhado pelo tambor e pela kerara, uma espécie de guitarra local, e de uma oração de introdução, feita por um dos presos. Depois, o evangelho é proclamado em guji – a língua local – e em amárico – a língua franca na Etiópia.

A Palavra é explicada pelo padre em guji e por uma irmã em inglês ou amárico. Sholango faz de tradutor e concluiu a reflexão com algumas orientações práticas. Depois de outra canção, a Palavra é feita oração. A celebração conclui com a bênção.

Os participantes variam entre duas e quatro dezenas. Católicos são poucos. Por isso, deixamos de celebrar a Eucaristia e valorizamos a partilha da Palavra. Os católicos na Etiópia não chegam a um milhão, representando menos de um por cento da população.

Entretanto, uma reorganização administrativa do Estado Regional da Oromia trouxe para Adola a capital da zona guji. A prisão também foi requalificada e tem mais de um milhar de detidos. 

Para criar novos espaços, a direção decidiu relocalizar os centros de culto para fora dos muros do presídio. Além de reconstruir as capelas, tivemos de construir uma cerca de zinco com cerca de dois metros de altura e uma porta de metal de acesso à nova Aldeia de Deus na cadeia de Adola: as capelas católica, luterana, ortodoxa e apostólica (uma igreja independente etípe) e a mesquita. Tudo lado a lado.

Os espaços de oração foram demolidos e estão a ser reconstruídos. Por esse motivo, suspendemos as visitas à prisão em fevereiro e retomamo-las a 21 de maio, quando o teto de zinco foi terminado, protegendo os orantes do sol e da chuva. Entretanto, estes compraram do próprio bolso um sistema de som para competir com a concorrência!

A nova capela é um pouco maior que a primeira: mede dez por sete metros e foi financiada através do contributo generoso da província comboniana de Portugal. Os trabalhos são feitos pelos próprios reclusos: os mestres são pagos e os ajudantes alimentados. As paredes de barro, o chão e o revestimento externo de cimento estão terminados. Falta pintar por dentro e por fora.

A presença do Evangelho na prisão é muito importante. O Relatório de Síntese da primeira sessão do Sínodo sobre a Sinodalidade reconhece-a ao agradecer e encorajar «as pessoas comprometidas no serviço de escuta e acompanhamento de todos os que se encontram na prisão e precisam particularmente de experimentar o amor misericordioso do Senhor e de não se sentir isolados da comunidade. Em nome da Igreja eles realizam as palavras do Senhor: “estava na prisão e fostes ter comigo” (Mt 25,36)».

É o que procuramos fazer com estes irmãos. Além da assistência espiritual, prestamos alguma ajuda material sobretudo com sabão, roupa e medicamentos para quem precisa. E, às vezes, material para a escola básica que funciona no presídio.

2 de setembro de 2024

A VIDA DE UM AEROPORTO


Um aeroporto é local aonde chegam e de onde partem os aviões. Ou seja, é um lugar onde as pessoas chegam e partem, usando o avião. Ao aeroporto chega-se para partir. O tempo de espera varia, mas está-se sempre de passagem. Sabe-se de onde vimos e para onde vamos. 

Além disso, cada passageiro tem um bilhete e um cartão de embarque com todas as informações necessárias – identidade, origem e o meu destino do voo. Normalmente espera-se o mínimo possível e é-se feliz quando se pode partir a horas.

 

O aeroporto da vida

A nossa vida podia ser comparada ao que se passa no aeroporto. Há semelhanças, mas muitas e importantes diferenças. Semelhanças – a vida é um lugar de passagem, chega-se para partir. A identidade profunda de tudo o que nasce nesta terra é o prazo de validade. Ninguém vive para sempre. 

Nasce-se para morrer, esta é a infalível lei da vida.

Todos os seres vivos têm um cartão de embarque – “vieste do pó e para o pó voltarás!“ Para os humanos, seres complexos porque feitos “à imagem e semelhança de Deus”, voltam à terra o que é da terra e a Deus o que “a Deus pertence”.

O tempo de espera varia. A grande diferença é que no aeroporto quere-se o mínimo e na vida o máximo. Mas, nos dois casos, dependemos de terceiros – das companhias aéreas ou de Deus. 

A grande diferença é na intenção de viajar ou não. Podemos escolher se viajar de avião ou não. Também se escolhe a hora e o destino. Na vida, tudo é dado como dom e graça de Deus. Ele chama à existência quando quer e decide a hora da partida!

A tragédia da humanidade é esquecer de onde vem e para onde vai. Teimamos em fazer moradas permanentes nos aeroportos e não sabemos ler as indicações precisas do nosso cartão de embarque. 

pessoa humana que foi feita por Deus. Como a água vai para o mar, nós acabamos inexoravelmente na casa de Deus.

Seria fácil imaginar uma sociedade onde cada um lesse frequentemente o seu cartão de embarque. Podemos esquecer a hora “que só a Deus pertence”, mas nunca esquecer o nosso destino. Nós somos o que somos, porque temos um destino divino e eterno.

(Escrito no aeroporto de Bruxelas à espera do voo que me levará ao funeral da minha mãe.)

Abraço amigo,

P. Manuel Fidelino

Missionário Comboniano no Uganda

31 de agosto de 2024

FÉRIAS MISSIONÁRIAS



DEZOITO JOVENS ESPANHÓIS E UMA ITALIANA passaram três semanas na Etiópia, em agosto, a animar campos de férias infantis e cuidar da própria formação espiritual.

Uma dúzia de mulheres e sete homens, incluindo dois padres e um seminarista, com idades entre os 19 e os 35 anos, universitários e profissionais (sobretudo das áreas de saúde e educação) partilharam parte das suas férias com crianças gujis, do sul da Etiópia.

Os visitantes foram assistidos por seis jovens de Adis-Abeba mais um grupo de jovens locais, juntamente com dois postulantes e um escolástico combonianos, que os apoiaram nas traduções e nas dinâmicas.


Os campos de férias para crianças dos cinco aos 14 anos – mas que contou com miúdos mais pequenos e mais velhos – decorreram na Casa de Acolhimento das Missionárias da Caridade – as imãs de Santa Teresa de Calcutá – em Adola e nas paróquias-missões de Qillenso e Soddu Abala.

Mais de 800 crianças juntaram-se diariamente nos três centros para rezar e aprender catequese, brincar, jogar, cantar e praticar desporto. As atividades – que ocupavam toda a manhã – acabavam com um lanchezinho de biscoitos energéticos e refresco.


Era notável a alegria que nem a chuva nem o nevoeiro – que também quiseram marcar presença nas atividades – diluíram nos participantes de todas as idades.

Entretanto, dois espanhóis, assistidos por um postulante comboniano que fazia de tradutor, deram um curso de introdução ao uso de computadores na Biblioteca São Daniel Comboni, em Adola. 


Os participantes, 27 rapazes e 13 meninas, dos 10 aos 21 anos, aprenderam a usar o computador, os programas mais populares e a internet durante três semanas, em turnos diários, de manhã e de tarde. 

Os jovens espanhóis vieram de paróquias das dioceses de Segorbe-Castellón e Valência, muitos com ligação ao Movimento Neocatecumenal.

Além de animarem os campos de férias, fazerem a pequenada feliz e ensinarem computação, também participaram ativamente na vida de oração diária (Missa, vésperas e adoração) das Missionárias da Caridade com quem se hospedaram.


Nas tardes livres, seguiram um programa de formação que incluiu missa, catequeses e outras atividades espirituais, animadas pelos dois padres que os acompanharam. 

Também participaram na Eucaristia dominical na capela do Centro de Acolhimento (no sábado à noite) e na Igreja de São Daniel Comboni em Adola, com algumas canções.

Alguns inclusivamente acompanharam o missionário comboniano na celebração dominical em capelas à volta da cidade.

O campo de férias em Qillenso terminou a 29 de agosto com a celebração da Eucaristia. No final, os mais velhos receberam cadernos e os mais pequenos guloseimas.

No dia seguinte, uma avó perguntou-me onde estavam os «farenji», estrangeiros. Expliquei-lhe que iam a caminha de Adis-Abeba para à noite apanharem o avião para a terra deles. «As crianças estão a chorar!», respondeu.


As três semanas de férias no sul da Etiópia foram imersão numa realidade nova para os visitantes, que os encheu de alegria que é – como o Papa Francisco sublinhou na Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa – missionária. Alguns, inclusive, já tinham passado algum tempo na Índia, em comunidades das Missionárias da Caridade.

Para Veronika, a jovem italiana com raízes polacas, a estada superou todas as expetativas. «Foi uma oportunidade única», confessou.

Mar, a mais jovem do grupo, estudante de medicina, explicou que durante as três semanas criou ligações afetivas sobretudo com as crianças na Casa de Acolhimento de Adola, complicando-lhe o regresso a Espanha.


Infelizmente, uma das jovens partiu um braço na brincadeira com a irmã e foi evacuada para Espanha para ser operada com urgência uma semana antes de o campo terminar.

Os jovens regressaram às suas famílias a 30 de agosto. Partiram de Adola de madrugada para apanharem à noite o avião em Adis-Abeba.


24 de agosto de 2024

OS CUSTOS DA MISSÃO


As duas palavras em oromo e inglês que o superior provincial me deixou no WhatsApp falavam volumes e eram ansiadas há muito: «Kabajamaa... Finally!». «Reverendo... Finalmente!». A legenda ilustrava a foto do meu Bilhete de Identidade (BI) de residente temporário renovado com um crédito de quatro meses extra. Agora expira em janeiro.

O documento tinha caducado a 15 de setembro de 2023. O processo de renovação demorou onze meses menos dois dias. Por não ter o documento em dia, foi muito complicado viajar para os funerais dos meus pais. Tecnicamente, eu era ilegal. Regressei ao país sem problemas com um visto de turista.

Antes, a renovação do BI demorava de duas a quatro semanas. Entretanto, as autoridades etíopes descobriram que muitos processos de licenças de trabalho e residência não seguiram os trâmites legais. Um funcionário do Secretariado Católico – o único organismo da Igreja Católica reconhecido pelo Governo e definido como organização não governamental – montou um cambalacho para embolsar algum do dinheiro pago pelos missionários. Por isso, os processos foram revistos um a um. O funcionário, entretanto, foi demitido.

Os missionários católicos para trabalharem na Etiópia precisam de um contrato profissional com o Secretariado Católico. Há 31 anos, vim como professor de inglês. Desta feita, porque tenho mais de 60 anos – a idade da reforma na Etiópia – fui contratado como formador voluntário.

No meu caso, o processo de verificação da atribuição do permisso de trabalho e residência levou quase um ano. Com a agravante de o Serviço de Imigração e Cidadania cobrar uma penalidade de cinco dólares americanos por cada dia sem visto de residência. 

Apesar de ter submetido o pedido de renovação a tempo e horas, tive de pagar a coima de 1 600.00 dólares. Junte-se-lhe o preço da renovação da residência e tudo junto custou 3 100.00 dólares, pouco mais de 2 800.00 euros. Uma pequena fortuna para ter o privilégio de ser missionário na Etiópia que amo como meu país por mais um ano.

De facto, até julho a renovação de residência temporária custava 150 dólares, um pouco mais de 135 euros, e podia ser paga no correspondente em birr, a moeda local. Entretanto, a nova tabela do Governo elevou o montante para 1 500.00 dólares, pagos na moeda americana. O país passa por uma grave crise económica – recentemente o birr foi desvalorizado em 30 por cento – e o Governo parece querer arrecadar moeda forte através de qualquer meio ao seu dispor.

A província comboniana da Etiópia tem cerca de 20 missionários não etíopes. Sem penalidades, a sua permanência custa perto de 30 000.00 dólares por ano, pouco mais de 27 mil euros, dinheiro que deveria ser usado para servir os mais necessitados.

O cardeal de Adis-Abeba, Arcebispo Berhaneyesus Sourapiel, nomeou recentemente uma comissão para negociar o custo da renovação de residência temporária dos missionários estrangeiros com o Governo para tentar baixar o custo para um preço mais praticável.

Entretanto, a nova moda etíope de amplas avenidas que começou na capital e alastrou a outras cidades, está a colocar alguns problemas acrescidos aos missionários. 

Há duas semanas as autoridades municipais de Dilla, uma cidade no Sul da Etiópia, notificaram as duas comunidades salesianas que tinham dois dias para esvaziar as construções até cinco metros na frente da missão para alargar a rua fronteira. Entre as construções demolidas ao longo dos 170 metros estavam o laboratório, o armazém, a sala de pesagem e observação e outra divisória da clínica das Salesianas. No final, o autarca deu uma semana para esvaziar o espaço, mas nada de compensação pelas demolições e cercas a serem refeitas.

Em Hawassa, a cidade que dá nome à diocese onde trabalho e capital do Estado Regional Sidama, as autoridades municipais estão em conversações com as Missionárias da Caridade, as irmãs de Santa Teresa de Calcutá. Querem transformar a rua que passa à frente da sua casa de acolhimento numa avenida com dois corredores. 

Primeiro, projetaram demolir o muro do centro e recuá-lo para junto dos dois edifícios de dois pisos que servem de internamento para cerca de 300 pacientes: 180 mulheres e crianças e 120 homens. Agora planeiam demolir os dois edifícios, embora não haja espaço para os reconstruir nas atuais instalações. As negociações continuam. A autarquia quer oferecer um novo terreno às missionárias para reconstruir os edifícios de internamento perto do local onde vivem. 

A missão de Daye, também no Estado Regional Sidama, corre igualmente o risco de perder uma faixa larga de terreno à frente do edifício da comunidade comboniana, no adro da igreja e no recreio da escola primária, para alargar e alcatroar a rua que passa à frente. Ficaremos por aqui?

13 de agosto de 2024

«QUANDO É O PASSEIO?»

 

7:45 da noite. Os miúdos descem de um brinquedo para subir a outro, a correr. Querem aproveitam ao máximo esta oportunidade única, a primeira vez que a maioria veio a um parque de diversões com atrações mecânicas e piscinas para terminar o acampamento de verão.

Vieram em três autocarros, de três comunidades beduínas. Crianças e mães estão de visita a uma das cidades mais quentes da Palestina – Jericó, uma das urbes mais antigas do mundo.

– Já tenho 20 shekels! – diziam-nos alguns garotos no início do acampamento. 

A vida é dura para os pais. Por causa da guerra em Gaza, muitos perderam o trabalho.

Com sacrifício, juntaram o dinheiro necessário para a entrada no parque de diversões. Outros não puderam vir. O ingresso custa cerca de dez euros. Podem usar todas as diversões o tempo que quiserem. 

Miúdas que nunca tinham visto as máquinas, sobem sem medo ao martelo, à barca e a outros divertimentos.

As mães, de baixo, assustadas, observam como as filhas se divertem.

Os carros de choque e as cadeirinhas voadoras são os mais simples.

Há também jogos para os mais pequenos. Descalços, a maioria, sentem-se no seu ambiente. Estão aqui desde a manhã, sem ligar ao calor.

Agora ainda há luz e corre uma brisa fresca. Querem ficar até ao fim, até às dez da noite.

As crianças vão cair de sono, vencidas pelo cansaço, ao sentar-se no autocarro. 

Sem dúvida que vão recordar esta experiência à espera que chegue já o próximo ano e nos comecem a perguntar: «Quando é o passeio?»

Ir Cecília Sierra

Missionária Comboniana a trabalhar com beduínos no deserto da Judeia

7 de agosto de 2024

CASA CHEIA


Regra de Vida dos Missionários Combonianos estipula que cada comunidade comboniana tem de ser formada pelo menos por três membros. Contudo, na Etiópia, quatro das oito comunidades seguem a regra de Jesus que enviou os seus discípulos dois a dois. Qillenso é uma delas. Desde novembro de 2021 que a comunidade é formada pelo P. Hippolyte Apedovi e por mim.

O P. Hippolyte nasceu no Togo, África Ocidental, há 33 anos e foi ordenado há quase quatro. Está em Qillenso desde 2019. É o pároco e ecónomo da comunidade. Eu cheguei há três anos. Sou o superior e diretor da escola.

Cada semana, um de nós vai para Adola, o outro centro da missão, na sexta à tarde e volta para o almoço de terça-feira para as várias atividades pastorais: assistência às Missionárias da Caridade e às pessoas que elas servem, eucaristia dominical na igreja dedicada a São Daniel Comboni e noutra capela da zona, oração do terço na casa de umas das famílias católicas e visita semanal à penitenciária de Adola.

O missionário que fica em Qillenso, celebra a missa para os jovens (no sábado), a missa dominical na igreja da missão e numa das capelas. Na segunda-feira celebra na capela de Badeye. O P. Hippolyte no domingo joga futebol com os jovens. Eu prefiro assistir!

Todavia, em julho a situação mudou com a chegada do postulante Ashenafi Adane. Veio estar connosco dois meses para a sua experiência na missão. Em agosto, foi a vez do postulante Petros Demeqe vir por um mês para o mesmo fim. Petros está no segundo ano do postulantado a estudar filosofia e Ashenafi no terceiro.

Os dois postulantes participam nas atividades de pastoral da missão, participam nas diversas atividades da comunidade e ajudam manter o espaço limpo e arrumado. 

Ashenafi durante as duas últimas semanas de agosto vai estar em Adola a assistir a dois ou três voluntários espanhóis que vão introduzir meia centena de jovens à comunicação digital para dar uso aos oito computadores da biblioteca católica. 

Os voluntários fazem parte de uma vintena de jovens, assistidos por dois padres, que vão estar na comunidade das Missionárias da Caridade durante duas semanas para orientar os campos de férias com a criançada das missões de Qillenso e Soddu Ababa.

No princípio de agosto chegou o novo elemento da comunidade. Chama-se Biruk Guirma e tem 29 anos. Terminou a formação teológica em Nápoles, na Itália. Vai estar em Qillenso durante dois anos para uma experiência missionária.

Biruk fala uma das línguas oromo pelo que vai ser fácil entrar no guji, que pertence ao mesmo grupo linguístico.

Em princípio vai ser encarregado da pastoral juvenil da missão e dirigir a escola de Qillenso. A escola no ano passado teve quase 200 alunos da quinta à oitava classe.

Lá diz o povo na sua sabedoria milenar que não há fome que não traga fartura! Até ao princípio de setembro somos cinco. Depois ficamos três, como manda a regra comboniana!

5 de agosto de 2024

OBRA MARAVILHOSA

Estremece cada fímbria do meu ser
arrepia-se cada célula da meu corpo
ao ouvir que sou obra maravilhosa
moldado na bondade de Deus
pelas mãos de um amoreiro
a quem dou glória
vivendo a vida até ao último suspiro
em que devolvo o beijo
que o Papá depositou nos meus lábios
quando nasci!

29 de julho de 2024

FAMÍLIA COMBONIANA CAMINHA COM BARTIMEU







Mais de duas dezenas de membros da Família Comboniana que trabalham na Etiópia passaram uma semana juntos em retiro anual no sul do país.

Treze Irmãs Missionárias Combonianas, incluindo a coordenadora na Eritreia, duas Irmãs Servas da Igreja (do Vicariato de Hawassa) e sete Missionários Combonianos (um irmão e seis sacerdotes) estiveram juntos em repouso, reflexão e oração desde a noite de 21 de julho até à manhã de 29.

A Ir Adele Brambilla veio do Médio Oriente para orientar o retiro. 

Convidou os retirantes a viajar com ela até Jericó e a encontrar Jesus através da experiência de fé do cego Bartimeu.

A Ir Adele foi Madre Geral das Combonianas durante 12 anos, de 1998 a 2010. Depois, regressou à Jordânia para retomar o seu ministério como enfermeira.

Ela disse que não era nem teóloga nem biblista. Queria apenas partilhar a sua experiência e o contacto com a espiritualidade de São Daniel Comboni.

O Centro de Formação Humana de São João em Bishan Gurracha acolheu os participantes, oferecendo um ambiente propício para rezarem.

O Centro, construído na margem norte do lago Hawassa, pertence ao Vicariato de Meki. Foi inaugurado há um ano, mas ainda não está concluído.

É um lugar especial para a oração: silencioso, verde, cheio de árvores, flores e pássaros de todos os tamanhos sobre o lago onde, por vezes, se veem hipopótamos a pastar perto da margem. Muitos pescadores passam o dia nos barcos a apanhar tilápias.

O povo Guji do sul da Etiópia diz, na sua profunda sabedoria, que o silêncio atravessa Deus. Esta foi a experiência de uma semana longe da rotina, em diálogo silencioso com Deus através da sua Palavra e da sua criação.

No final, os participantes foram convidados a regressar à própria Galileia, aos seus ministérios quotidianos, onde o Senhor ressuscitado já está à sua espera.

28 de julho de 2024

EM TI, EM MIM


Procurei-te para além das montanhas, para lá das nuvens, atrás do horizonte. Busquei-te na alvorada e no crepúsculo, no marulhar do riacho e no fragor do mar, na tempestade brava e no sussurro da brisa, na neblina e no nevoeiro cerrado, no labor do dia e no silêncio da noite...

Para descobrir que
afinal
estás em mim
e eu em ti.
Somos um,
comunhão,
amor dado e recebido,
partilhado...
Tu e eu somos um!

15 de julho de 2024

MISSIONÁRIOS DE SUCESSO


No Sudão, anos atrás, quando dois irmãos combonianos se encontravam, perguntavam «Quantos?». Referiam-se ao número de tijolos que cozeram para construir as novas missões. Os números eram em milhões! E as construções, algumas centenárias, continuam de pé, resistindo à erosão do tempo e dos tempos. Como o complexo de Wau.

Hoje, o que é que faz um missionário bem-sucedido no serviço do Evangelho? A pergunta – e a resposta – têm bailado no meu coração desde a festa do Apóstolo Barnabé, celebrada a 11 de junho.

A leitura tirada do livro dos Atos dos Apóstolos apresenta Barnabé como «um homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé». Por isso, «uma grande multidão aderiu ao Senhor».

Barnabé foi um missionário bem-sucedido, porque (1) era bom, (2) estava cheio do Espírito do Ressuscitado e (3) e era um homem de fé.

 

BONDADE. O livro dos Salmos exclama num rebate de otimismo que a bondade do Senhor enche a terra inteira. Primeiro, Deus é a fonte da bondade, ou – no dizer de Jesus – «ninguém é bom senão só Deus». Depois, se a Terra está cheia da bondade do Senhor, eu também sou terra, húmus (a raiz da palavra homem, humanidade, humildade), terra fértil apta a produzir frutos bons.

A pessoa boa vive de Deus, expressa e cumpre a bondade que Deus depositou no seu coração como herança irrevogável. Todos nascemos com um capital de bondade próprio.

 

ESPÍRITO SANTO. São Paulo VI afirmou que «nunca será possível haver evangelização sem a ação do Espírito Santo», porque «o Espírito Santo é o agente principal da evangelização». 

É o que nos conta o livro dos Atos do Apóstolos, que deveria ser chamado de Atos do Espírito Santo, porque depois da ascensão é o Espírito do Ressuscitado que comanda a Igreja: no dia de Pentecostes, foi o Espírito Santo que encheu os discípulos fechados no salão de cima e os abriu ao mundo e à diversidade de línguas; que encheu e falou através de Estêvão; que comandou Filipe para ir para a carroça do etíope; que conduziu Pedro a casa de Cornélio e desceu sobre os gentios que com ele habitavam; que enviou Barnabé e Paulo em missão; que empurrou Paulo e Silas para a missão na Europa quando eles queriam anunciar a Palavra na Ásia. A lista é muito maior. 

No início do livro do Apocalipse de São João o Espírito fala às sete igrejas da Ásia Menor. O discípulo missionário, cheio do Espírito Santo, é enviado pelo Senhor para proclamar o Evangelho e necessita de ler continuamente a realidade à luz desse mesmo Espírito, processo chamado de discernimento. «O Espírito Santo e nós decidimos», como os apóstolos escreveram no Decreto do Concílio de Jerusalém.


. O serviço missionário que a Igreja presta ao mundo é sobretudo a partilha da fé no Senhor Ressuscitado. Não é um trabalho humanitário, sociológico ou cultural de mérito nem um ato de propaganda. É a proclamação de que Jesus que por nós morreu e ressuscitou é o Senhor e Salvador da criação inteira. Esta é a nossa fé! Sem fé não há missão, sem fé não há milagres de Jesus. Quantas vezes no evangelho Jesus diz às pessoas que ajudou «A tua fé te salvou!»? Jesus afirmou que «tudo é possível a quem crê». Por isso, a oração dos discípulos é também a nossa: «Aumenta a nossa fé». Ou a do pai do rapaz que sofria de epilepsia: «Eu creio! Ajuda a minha pouca fé».


Para terminar esta pequena reflexão, recordo o que Paulo escreveu a Timóteo, seu filho espiritual e companheiro de missão: «Deus não nos concedeu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e de bom senso». Outra trilogia interessante que faz discípulos missionários de sucesso garantido! 

11 de julho de 2024

EM LOUVOR DA ETIÓPIA

Deus eterno, o Primeiro e o Último,

que não tens princípio nem fim, 

grande em criatividade,

forte nas tuas obras, sábio nos teus conselhos.

Senhor omnipotente:

chamamos-te Eksiabiyer, Allah, Waaqa, Maggano, Gueta...

Tu és nosso Pai e nossa Mãe,

Tu és nosso Avô e nossa Avó,

Tu és nosso Visavô,

Tu nos deste à luz.

Tu és o nosso antepassado comum

e nós somos a tua família.

Te louvamos pela Etiópia,

terra dos rostos queimados,

berço da humanidade,

terra de Dinknesh,

a nossa antepassada

de há mais de três milhões e meio de anos;

terra fértil e de fomes,

terra de mil torrentes e de secas sem fim,

terra de harmonia e de guerras.

Te bendizemos pelos seus povos,

um mosaico de gentes esbeltas e sofridas

que estendem para Ti as suas mãos.

Te glorificamos pelas suas montanhas verdes

erguendo-se para além das nuvens, 

por Ras Dashan e Bale;

Te glorificamos pelos seus rios, longos e impetuosos,

escavando leitos através de gargantas profundas,

pelo poderoso Abay que dá vida ao deserto

até chegar ao Mediterrâneo

rebatizado de Nilo, 

pelo Awash e pelo Ganale e pelo Wabi Shebele,

que se perdem nos desertos;

Te damos graças pelos seus lagos,

crateras de vulcões esquecidos que o tempo encheu,

pelo Tana, pelo Abaya, pelo Langano e pelo Hawassa;

Te bendizemos pelas suas cataratas majestosas

e retumbantes

a desfazerem-se em vapores e arco-íris;

Te glorificamos pelas suas planícies extensas

onde céu e terra se abraçam,

pelas suas florestas misteriosas e cheias de vida,

destruídas pelo fogo voraz para dar lugar a novos campos

ou abatidas por machados lacerantes

da indústria das madeiras,

pelos seus desertos tórridos e salgados.

Te agradecemos pelos seus pássaros formosos,

pelos seus animais selvagens,

pelo leão e pela raposa de Simien,

pela nyala e pelos símios. 

Te glorificamos pela sua história, 

perdida nas brumas da lenda.

Te bendizemos pela sua Igreja,

noiva devota de Jesus,

mártir e fiel ao seu esposo;

pelos monges ortodoxos,

sentinelas e missionários da fé,

pelos seus santos e pelos seus mosteiros.

Te glorificamos pelos seus crentes,

pelos seus jejuns e festivais,

por Timket e por Meskel, as festas do Batismo e da Cruz.

Te adoramos pela injera e pelo kocho,

o pão nosso de cada dia;

pelo café e pelo zeguini.

Tu, Senhor, és a origem de tudo,

Tu és a fonte da vida,

Tu és o manancial do amor.

Por isso, com os anjos e os arcanjos,

com Kedus Garieli, Kedus Mika’eli e Keduz Rufa’eli,

com os santos e as santas,

com Kedus Guiorguis,

Kedus Yared e Kedus Teklehaymanot,

com Abuna Justino e Abba Gebremicael,

com os mártires franciscanos Liberato WeissSamuel Marzorati e Miguel Fasoli

te adoramos e aclamamos cantando para sempre.

 

GUARDADORAS DA ESPERANÇA

— Eu não consigo… não consigo! – repetia sempre Reem, uma jovem beduína palestiniana de 16 anos, sempre que a convidávamos para aprender a u...