2 de julho de 2020

ASSALTO FALIDO


«Ainda lá está, encostada ao alto, no mesmo lugar onde tu a deixaste. Desde aquele dia, ainda não foi usada». Estas palavras faziam parte da saudação que o P. Benito, aquela tarde, me dirigiu ao entrar na casa provincial dos missionários combonianos, em Cartum. Estávamos a chegar de missões/paróquias muito distantes uma da outra na vasta geografia do Sudão: ele de Kosti e eu de El Facher. Havia passado três anos que não nos tínhamos visto. 

Não pronunciou o nome nem disse a que se referiam as palavras que me dizia. Mas, para bom entendedor, meia palavra basta. De facto, enquanto ele me falava, a imaginação já me tinha transportado até à missão de Kosti. Foi lá que aconteceu. É lá que está a lança. Ainda hoje. Encostada ao alto. No mesmo lugar onde a tinha deixada.

No Verão do ano seguinte, em 2002, encontrava-me de férias em Portugal. Um dia, passando perto da casa da minha irmã Dorinda, em Bassar, na freguesia de Campo de Madalena, resolvi fazer-lhe uma visita inesperada. Fui dar com ela sozinha na recolha do feno num campo que possuía pertinho de casa. Foi com todo o gosto que me pus a trabalhar com ela. O calor tórrido e sufocante fez-me tirar a camisa. Sem a menor dúvida que, em tronco nu, o ancinho manejava-se melhor. Não tardou muito que tenha ouvido, atrás de mim, a minha irmã, assustada: «Ai Jesus, o que é que te aconteceu? Tens uma cicatriz tão grande nas costas! Foste operado a quê?»

«Não, não foi uma operação. De qualquer modo, já não penso mais nisso. Mas, se quiseres, depois, conto-te a história com todos os pormenores», disse, tranquilizando-a.

Já em casa, sentámo-nos à mesa da cozinha. Uma merenda à moda do lavrador. «O prometido é devido», lembrou a Dorinda, enquanto cortava o delicioso presunto. «Exactamente! Aqui vai, então, a história que querias ouvir», retorqui.



A silhueta

Ano de 1988. Em Kosti. A minha primeira missão/paróquia no Sudão. Pelas duas e meia da manhã acordei, assustado. A sensação de um barulho como que um raspar de ferros velhos e arames. Ouvira-o como se fosse ali perto, a poucos metros de distância. Pensei em ratos ou outros pequenos animais divertindo-se no tecto de zinco. Ou talvez fosse o cão no pátio a esgravatar na rede enferrujada do portão, ali junto ao meu quarto. 

Enquanto adormecia de novo, o meu pensamento ocupou-se em rever a agenda do dia. Safari missionário ao centro católico/capela de Sinja. Serão várias e longas horas de caminho por trilhos em muito mau estado. Sairemos pela madrugada. Está tudo programado com os responsáveis das várias comunidades. Vai ser um dia de pica-boi. No caso de algum contratempo, as dificuldades de comunicação não nos permitem alterar o programa em cima da hora. Mas tudo há-de correr bem, insha Allah, se Deus quiser.

Porém, o sono de poucos minutos foi interrompido pelo mesmo tipo de barulho. Rrrrrrrrrrr!

«Esta agora… É no que dá quando uma pessoa tem o sono leve». E este tipo de rumor voltou mais três vezes, com intervalos de quatro ou cinco minutos. Decidi, pois, levantar-me e ver o que era. Descalço, em bicos de pés, sem bater a porta nem acender a luz, no máximo silêncio, preocupando-me em não disturbar os colegas que dormiam nos quartos ali ao lado. Fui dar uma volta pelo pátio, em jeito de observação. O cão, sossegado, não dava indícios de nada estranho. Enfim, tudo era calmo.

Finalmente, tenciono voltar para a cama. Apenas entro na varanda e, de novo, ouço o invariável som. No extremo oposto da varanda, aí a uns quinze metros. Parei, imóvel, perscrutando a escuridão com a ajuda de uma pontinha de luar que espreitava do lado da rua. Passaram apenas mais alguns segundos e... Rrrrrrrrrr. Ah, não há mais dúvidas. Só podia ser ali.

Continuava muito atento, fixando o olhar sempre no mesmo ponto, quando... eis que entrevejo qualquer coisa que se move. Uma silhueta. Continua a mexer-se. Muito lentamente. Do quintal para o interior da varanda. Estaria a sonhar? Como seria possível alguém entrar por aí? Eu conheço a minha casa e sei que nesse lugar não há porta alguma.


A parede transparente

Fiquei petrificado. Queria gritar «Haramia, ladrões! Acudam!». Mas a minha língua tinha-se-me paralisado. Da garganta só me saiu um grito estridente e agudo. Como um animal que não sabe dizer palavras, só grunhidos e guinchos. Ao som tão estranho e inesperado da minha voz, aquela aparição monstruosa levantou o braço bem alto na minha direcção, agitando um punhal que reluzia à claridade, muito ténue, do luar.

Que fazer? Em certos momentos da vida há perguntas que são inúteis. Tive uma reacção instintiva e involuntária. A obediência ao inconsciente incontrolável levou-me, num arranco feroz e selvagem, a lançar-me de cabeça contra aquele fantasma. Como um touro bravo contra a capa vermelha do toureiro. E depois? Não sei, nunca soube. Barrou-se-me a mente, não fui dono de mim mesmo. Os colegas – padres Benito e Menegazzo – encontraram-me prostrado no chão. O local estava iluminado. A sua presença à minha beira foi de enorme consolação.

Tentavam levantar-me do chão. Ouvia-os fazer perguntas um ao outro e também a mim, na tentativa de decifrar o sinistro acontecimento. Eu queria ajudar mas sentia a língua presa. Estava atordoado. Por enquanto, não sentia dores. Via sangue no chão e em vários pontos da parede. Cadeiras tombadas pelo chão fora, tintadas de vermelho. Seria sangue meu? Ou do fantasma que, entretanto, já tinha fugido? Naquele momento, distingui as irmãs combonianas que se aproximavam. Ofegantes e aflitas. A casa delas é pegada à nossa.

«Ao ouvir aquele grito medonho e horrível pusemo-nos a correr», contaram elas, dois dias mais tarde.

Entretanto, vi que podia mover o braço e indiquei o lado por onde tinha visto entrar o assaltante. Era ali que havia a grande parede transparente que fazia a vedação entre o quintal e a varanda. Era assim conhecida – parede transparente – por ser feita de rede coelho. Foi então que reparámos no enorme rasgão de alto abaixo.

O P. Benito mostrou-se particularmente mais agitado e começou a inspeccionar, com toda a precaução, os cantos duvidosos da casa. Só parou quando eu lhe assegurei que ele já tinha fugido. «Por aquele mesmo buraco», apontei com a mão estendida.


Faca esmurrada

Os meus olhos fixaram, mais uma vez, a parede transparente com a rede rasgada que bamboleava. Em breves segundos, a minha imaginação ofereceu-me a reconstrução, em retrospectiva, do acontecimento em pormenor.

Um ladrão astuto e ardiloso, sem dúvida, mas desafortunado no sucesso que desejava. O assaltante teria feito o primeiro golpe de rasgar ou cortar a rede e escondeu-se, agachado por trás da mini-parede de tijolo com cerca de um metro de altura, que servia de base à grande parede transparente. Esperou alguns minutos, certificando-se que não tinha havido reacção de alguém que estivesse acordado. Mas, comigo, enganou-se.

A história do falido ladrão poderia ter acabado aqui. Bastaria, para isso, que eu, ao sair do quarto, tivesse acendido a luz. Mas tal não aconteceu. Resultado: não nos vimos nem nos ouvimos um ao outro. Presença recíproca ignorada. E, desta maneira, a história pôde continuar.

Porém, os minutos estavam bem contados. De facto, o alarme soou com o meu quase animalesco e medonho grito. Surpresa colossal que ele não esperava. O susto do pobre homem deve ter sido fatal. Por isso levantou o grande facalhão bem alto no ar. Para atacar? Ou para se defender? É uma pergunta que, se um dia o encontrasse, lhe gostaria de fazer. No entanto, a verdade é que fui eu quem ficou ferido.

A dor nas costas ia-se tornando mais aguda. Teria, provavelmente, desmaiado, por uns instantes… Dei comigo sentado numa cadeira e a irmã Giselda, a anciã da comunidade, segurando uma tacinha de aguardente sob o meu nariz, dizia-me: «Inspira mais uma vez; isto faz perder o desmaio».

O P. Antonio sorria com uma pitada de sarcasmo piedoso. Mas a boa irmã antecipou-se a qualquer comentário: «Para usos farmacêuticos, Deus e a sharia, a lei islâmica, estão do meu lado. Até o meu amigo inspector na alfândega do aeroporto de Cartum ficou convencido desta verdade e, por isso, deixou passar a garrafinha que eu trazia da Itália».

Às 7 da manhã, quando terminou o recolher obrigatório em vigor naqueles dias na cidade de Kosti, o P. Benito levou-me ao hospital.

«O ferimento não é profundo; a faca, decerto, devia estar esmurrada», gracejou o médico simpático. E sentenciou: «Cinco pontos de alfaiate e estás de volta para casa». «El hamdu lillah, Graças a Deus!», ouviram-se algumas vozes aí à volta.


Uma lança e um desejo

À tarde, alguns jovens amigos apareceram na igreja da missão. Uma visita que muito apreciei. No fim, um deles disse: «Abuna, padre, quisemos estar estes minutos contigo, mas não queremos ir embora sem deixar-te uma recordação».

Desembrulhou um rústico pacote de onde vi tirar uma lança. Era nova em folha. Num instante, encaixou-lhe o cabo. Ergueu-a, estendida horizontalmente à altura da cabeça e, recuando um passo, retorceu ligeiramente o corpo. Depois, num último e nobre gesto, imitou o guerreiro em posição de arremessar a lança.

Houve risos e aplausos. E também um comentário: «Não podes mentir: és dinka, da tribo de guerreiros que representaste muito bem».

Agradeceu o elogio e a seguir, voltou-se para mim: «Abuna Feliz: esta harba, lança, é nossa oferta».

E, com um certo ar de cerimónia, encostou-a ao alto, no ângulo junto à porta. Todavia, o jovem dinka tinha ainda uma última palavra guardada no coração: «O nosso maior desejo, porém, é que nunca tenhas necessidade de a usar».

No conjunto de vozes condizentes daqueles jovens ouvia-se: «Não volte a acontecer, inshá Allah! Se Deus quiser!».

E eu, da minha parte, acrescentei uma nota de apreço e estima que veio completar o refrão: «Shukran jazilan! Muito obrigado!».

Feliz da Costa Martins 
Cairo, 1 Julho 2020 

30 de junho de 2020

PRESENTES NA NOVA NORMALIDADE



XXX ASSEMBLEIA GERAL DA CIRP 
Comunicado final 

1. A XXX Assembleia Geral da CIRP decorreu no Centro Paulo VI, em Fátima, no dia 29 de junho de 2020. Devido à situação de pandemia do coronavírus Covid-19, a Assembleia reduziu o tempo dos trabalhos a um dia e foi exclusivamente para superioras e superiores maiores ou equiparados, consistindo o seu programa fundamentalmente na eleição da nova direção.

2. Na sua palavra de abertura, o presidente da CIRP, Padre José da Silva Vieira, começou por saudar os presentes, referindo-se à dura experiência de confinamento e distanciamento social como, igualmente, um tempo de graça, um tempo kairológico, onde se terá distendido a atenção a Deus e aos outros; vivência em sobriedade feliz. A Internet, por seu lado, revelou-se nas suas características de meio de relação e evangelização. Cortámos no espaço e ganhámos no tempo, sentindo a presença do Ressuscitado numa Páscoa em confinamento.

Expressou solidariedade com os mais de 10 milhões de infetados e apelou ao silêncio orante pelas vítimas. Congratulou-se com os gestos de entrega e comunhão por parte de muitos voluntários.

Agradeceu a colaboração ao longo do triénio e invocou a bênção de S. Pedro e S. Paulo sobre cada uma e cada um, especialmente sobre aqueles que irão constituir a direção ao longo dos tempos difíceis de pós-pandemia.

3. Foram dadas algumas indicações específicas com vista ao discernimento para eleição da direção e seguiu-se o trabalho de grupos, cujas linhas de ação foram sintetizadas do seguinte modo:
  • Dar atenção aos sinais destes tempos imprevisíveis, conjugando maleabilidade e firmeza;
  • Revalorizar a ecologia integral, na linha da Laudato Si’;
  • Testemunhar a Vida Consagrada para o despertar de Deus na juventude, tendo em vista as Jornadas Mundiais da Juventude, em 2023;
  • Reforçar os meios de comunicação social e as plataformas digitais;
  • Valorizar a internacionalidade e a intercongregacionalidade;
  • Que as consagradas e os consagrados se coloquem na linha da frente diante da nova normalidade. 

4. A tarde iniciou com a sessão eletiva. A nova direção da CIRP ficou assim constituída:
Presidente: Irmã Maria da Graça Alves Guedes (Religiosas do Amor de Deus);
Vice-Presidente: Padre Pedro Alexandre Simões Gouveia Fernandes (Missionários Espiritanos);
Vogais: Irmã Natália Maria Areias da Rocha (Aliança de Santa Maria), Padre Adelino Ascenso (Sociedade Missionária da Boa Nova) e Irmã Alzira Rodrigues Ferreira (Dominicanas de Santa Catarina de Sena). Agradecemos à equipa cessante o empenho demonstrado ao longo destes últimos anos e expressamos igualmente a nossa gratidão pela disponibilidade daqueles que agora iniciam, desejando bom trabalho na orientação desta barca de consagradas e consagrados de Portugal.

Procedeu-se à nomeação do Conselho Fiscal, que ficou assim constituído:
Presidente: Irmã Maria da Conceição Oliveira Fernandes (Irmãs de São João Baptista e de Maria Rainha);
Secretário: Padre Tiago Martinho Alberto (Agostinhos)
Vogal: Irmã Maria de Fátima Machado (Irmãs de São José de Cluny).

5. Foram elencados alguns assuntos e informações da vida da CIRP: Colaboração da CIRP para a JMJ, Lisboa, 2023; Assembleia Geral da UCESM; ponto da situação sobre História Global da Missionação.

6. A Assembleia Geral da CIRP saúda o novo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. José Ornelas Carvalho, bispo de Setúbal, e o Padre Manuel Joaquim Gomes Barbosa, reconduzido no cargo de secretário da mesma CEP.

7. Uma palavra de agradecimento aos profissionais de saúde e de segurança pelo seu esforço relativo ao controlo da Covid-19 e à proteção dos infetados.

8. Reforçamos a nossa solidariedade para com aquelas e aqueles que sentiram a solidão originada pela impossibilidade de visita dos entes queridos hospitalizados, assim como destes de a não poderem receber, forçando à dolorosa situação de lágrimas adiadas. Que estes tempos difíceis nos ajudem a valorizar os pequenos gestos e a encontrar neles serenidade esperançosa.
Fátima, 29 de junho de 2020

29 de junho de 2020

TEMPO DE PANDEMIA, ESTAÇÃO DE GRAÇA


Estamos a viver uma estação extraordinária, sem precedentes, uma conjuntura imprevista de pandemia global provocada pelo novo coronavírus, o SARS-COV-2.

Cronologicamente, foram seis semanas de confinamento e três meses de distanciamento social, máscaras e álcool-gel com avanços felizes e recuos arreliadores no combate ao Covid 19.

Para muitos dos superiores maiores este tem sido um tempo de preocupações e cuidados acrescidos devido a surtos do vírus em comunidades e/ou lares da terceira idade e afins.

Todavia, a estação que estamos a viver é sobretudo um kairós, tempo de graça.

«O Senhor é bom para com todos», reza o Salmo 145, 9. Em todas as circunstâncias. Também em tempo de pandemia global.

Durante o confinamento forçado fomos devolvidos ao aconchego da Trindade e da comunidade, o espaço vital essencial da nossa consagração.

Para muitos de nós tem sido um mininoviciado com mais tempo para Deus, para os outros e para nós próprios, ajudados pelas tecnologias da comunicação.

Durante o confinamento vivemos com o essencial numa sobriedade feliz. Desaceleramos. Fizemos tempo em vez de andar a correr contra o tempo. A natureza agradeceu a redução da poluição.

Exploramos a internet como campo e meio para louvar o Senhor, celebrar e evangelizar. Consagradas e consagrados deram um grande contributo para a Igreja no digital durante o tempo de confinamento. Uma experiência que importa continuar, melhorar e aprofundar. Os nativos do digital agradecem!

Descobrimos as reuniões telemáticas, novos programas, funcionalidades, novas palavras. Cortamos na quilometragem e ganhamos no tempo. Reduzimos a pegada do carbono.

Nesta estação de pandemia, de medo, de doença e de morte Deus caminha e sofre connosco através do Espírito do Ressuscitado que este ano celebrou a Páscoa em confinamento. Connosco e como nós. Ele é Emanuel das horas boas e das horas más. O Emanuel, sempre!

Estamos solidários com os mais de dez milhões de infetados pelo SARS-COV-2 e com as vítimas colaterais da pandemia, sobretudo quem perdeu entes queridos sem os poder chorar devidamente, e o ganha-pão quotidiano. Para eles pedimos com Jesus o afeto e o pão nosso de cada dia.

Queremos lembrar num momento de silêncio as consagradas e consagrados que faleceram vítimas do Covid-19, parte dos cerca de 500 mil mortos nos cinco continentes.

Bendizemos o bom Deus pelo serviço generoso e dedicado do pessoal de saúde entre os quais se encontram coirmãs e coirmãos nossos. Pelos gestos de solidariedade de tantos voluntários, anónimos na maioria. Pelos novos caminhos de comunhão que exploramos: nos momentos de prova, aparece o melhor da humana condição.

28 de junho de 2020

A ARTE DO ACOLHER

Jesus, na parte final do seu Discurso Missionário (Mateus 10, 37-42) usa seis vezes o verbo acolher.

É um convite claro a aprender a conjugar o verbo acolher:
  • Acolhê-lo como o primeiro e maior amor da nossa vida, a nascente do amor aos outros e de outros amores;
  • Acolhê-lo na cruz de cada dia, na oferta da vida aos outros como caminho de salvação;
  • Acolhê-lo naqueles com que Ele se identifica: os seus missionários, os profetas e os justos, os discípulos mais pequeninos.
A Bíblia registas muitas experiências da bênção da hospitalidade: Sara e Abraão tiveram Isaac, porque acolheram os três peregrinos; o casal de Sunam tive um filho, porque acolheu o profeta Eliseu.

Deus também toma a forma de hóspede, encarna nos forasteiros, nos migrantes, nos pobres.

No caldo cultural do individualismo narcisista globalizado em que vivemos urge recuperar a arte do acolher. Porque precisamos uns dos outros, pertencemo-nos uns aos outros.

A pandemia global prova como estamos tão interdependentes: um novo coronavírus que surgiu num remoto mercado chinês de animais selvagens vivos alastrou-se ao mundo inteiro e já contaminou dez milhões de pessoas e matou quinhentas mil.

Precisamos uns dos outros para nos protegermos e para nos cuidarmos: máscaras, álcool gel e distância social são parte da arte de acolher.

Finalmente, temos que reaprender a acolher Deus.

O Salmo 89 convida-nos a caminhar à luz do rosto do Senhor. Usa três substantivos para definir a Deus: misericórdia, fidelidade, bondade.

Temos muitas ideias feitas de Deus. São produto da educação e das experiências de vida – que temos de revisitar e converter para acolher o Deus da Vida.

Deus é bom e só nos abençoa com a sua bondade. O que acontece de maldade na nossa vida não vem de Deus, mas das circunstâncias do nosso quotidiano e do fundo do nosso coração.

O Senhor encheu-nos da sua bondade, porque «a terra está cheia da sua bondade» (Salmo 33, 5).

Aprender a conjugar o verbo acolher é também apropriar-se a bondade que está no nosso coração, reconhecê-la e cumpri-la através do serviço amoroso a quem precisa. Assim somos abençoados.

19 de junho de 2020

FORMAR-SE É CONFIGURAR-SE COM O CORAÇÃO DE JESUS BOM PASTOR


Mensagem por ocasião da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus 

«Qual é o teu nome? Vai para casa, para junto dos teus, e anuncia-lhes o que o Senhor, na sua misericórdia, fez por ti.» (Marcos 6,9ss)

«No mistério do Coração de Cristo o comboniano contempla, na sua expressão mais plena, as atitudes interiores de Cristo e assume-as: a sua doação incondicional ao Pai, a universalidade do seu amor pelo mundo e o seu comprometimento com a dor e com a pobreza dos homens.» (RV 3.2)

«A formação deve operar prioritariamente sobre as motivações interiores e deve educar para enfrentar com criatividade, competência e flexibilidade os desafios que emergem das novas situações.» (Ratio Fundamentalis 113)

Caríssimos confrades,

Em comunhão com toda a Humanidade, celebramos este ano a solenidade do Sagrado Coração de Jesus num contexto particular, marcado pela pandemia covid-19, que continua a causar tanta tragédia e tanta dor no mundo. Com confiança em Deus, dirigimos a todo o Instituto o convite a contemplar o Coração de Jesus, abrindo os nossos corações ao mistério do seu amor, para que este amor possa tocar-nos profundamente, libertar-nos de todas as forças que nos mantêm fechados ou isolados e ajudar-nos a sermos fiéis à nossa consagração e missão.

Como discípulos missionários entramos na escola do Coração de Jesus que, na sua humanidade, nos revela o coração de Deus – o Coração do Bom Pastor que sai, se aproxima dos pobres, dos sofredores e dos marginalizados, convidando-os a sair do seu isolamento, da sua incomunicabilidade, habilitando-os para uma nova comunicação e para um encontro de qualidade com Deus, com os outros e com a criação. Trata-se de participar no amor que sempre se comunica, sempre comunica e que, se recebido pelo amado, sempre dá vida, faz crescer e educa no sentido do latim educere, que significa fazer emergir o melhor que há no ser humano.

É importante notar que este encontro com Cristo põe em movimento um processo de conversão, de formação e transformação ou, ainda melhor, de “Cristificação”, que dura toda a vida e que deve tocar o coração. O conteúdo da nossa formação inicial e permanente é a santidade e a transformação da pessoa em Jesus Cristo pela dupla orientação complementar da sequela e da imitatio Christi. Assim, converter-se em Cristo é para nós um privilégio da misericórdia e graça de Deus e, ao mesmo tempo, uma responsabilidade que compromete na coerência de vida com a pergunta insistente e incessante: «Que teriam feito Cristo e Comboni nesta minha situação histórica?».

É Cristo, com o seu coração misericordioso, que toma a iniciativa e vem ao nosso encontro perguntando a cada um de nós «Qual é o teu nome?», como fez com o endemoniado na passagem evangélica acima citada. Conhecer o nome de alguém, segundo a mentalidade hebraica, significa entrar no mais profundo da sua realidade pessoal. Esta pergunta mostra o seu interesse por nós como pessoas amadas por Deus, e ajuda-nos, por um lado, a fazer uma releitura do que temos em nós mesmos e à nossa volta, para descobrir o que levamos no coração, quem realmente somos, e, por outro lado, manifesta-nos o Coração de Cristo cheio de amor, compaixão, acolhimento e ternura.

Para os Missionários Combonianos do Coração de Jesus – seja no caminho de formação inicial ou de formação permanente – cultivar, aprofundar, contextualizar a nossa espiritualidade do Coração de Jesus, permanece um empenho pessoal e do Instituto, para que toda a nossa vida possa aderir ao “programa” contido no nosso nome.

É Cristo que, com o seu coração acolhedor, mostra plena confiança no outro, seja qual for a situação em que se encontre, o valoriza e o restitui à comunidade, à sua casa, símbolo do lugar da esperança, da cordialidade e do calor humano. A vida é feita de comunicação e relações de qualidade. São Daniel Comboni fala do Instituto «como Cenáculo de Apóstolos, um ponto luminoso que manda outros tantos raios que resplandecem, aquecem, e juntos revelam a natureza do Centro do qual provêm» (cf. Escritos 2648). Fazemos votos que o Coração de Jesus seja, verdadeiramente, o centro de comunicação entre todos os confrades e que possamos fazer da comunicação fraterna um instrumento para construir pontes, para unir e partilhar a beleza de sermos irmãos em missão neste tempo marcado por contrastes, divisão e indiferença.

Por fim, reflectindo este ano sobre o tema da ministerialidade no Instituto, rezemos para que a contemplação do Coração de Jesus possa ajudar-nos a viver a missão, não superficialmente, como um papel a desempenhar, mas como serviço ao Reino de Deus e como expressão de um processo de kénosis e descentramento.

Boa Solenidade do Sagrado Coração de Jesus a todos vós!

O Secretário Geral da Formação e o Conselho Geral

MISSÃO DO CORAÇÃO





O profeta Jeremias, no desassossego das suas buscas incessantes, faz uma observação franca: «Nada mais enganador que o coração tantas vezes perverso». E coloca uma questão inquietante: «Quem o pode conhecer?». Também giza uma resposta: «Eu, o Senhor, penetro os corações e sondo as entranhas» (Jeremias 17, 9-10).

É nesse espaço afetivo do coração e no recôndito mais obscuro das entranhas que muito da nossa vida se decide e joga: no entender da Bíblia, pensamos com o coração e amamos com as entranhas.

Nas buscas essenciais e existenciais de sentido e de significado temos de voltar ao Senhor da Vida para as respostas que não nos satisfazem ou escapam.

Entendemos o que se passa no segredo do nosso coração ao contemplar o Coração do Bom Pastor, um coração trespassado pela lança, aberto, nascente de graça e oásis de descanso.

Foi assim que São Daniel Comboni viveu a espiritualidade do Coração de Jesus. «Sim, poderá cair o mundo; mas eu, enquanto o Coração de Jesus me assistir com a sua graça, permanecerei firme e inamovível no meu posto e morrerei no campo de batalha» (Escritos 5282), escreve.

O Coração trespassado do Bom Pastor é a fonte da força e criatividade para realizarmos o serviço missionário, mais que técnicas e tecnologias.

Esse Coração amoroso é também o conforto e o descanso, o colinho e o respiro, o consolo de que precisamos.

A uma pessoa amiga Comboni recomenda: «Diga a Augusto e a Maria que se lancem aos pés de Jesus Cristo; que se escondam dentro do Coração de Jesus Cristo e aí, nessa fonte inesgotável de conforto, poderão encontrar consolo» (Escritos 2833).

Estas duas frases alavancam a espiritualidade comboniana: beber do Coração Trespassado do Bom Pastor a graça e a inspiração para continuar o serviço missionário ao qual o Senhor nos chamou e encontrar n’Ele o respiro que precisamos para reabraçar o ministério de cada dia.

A contemplação do coração de Cristo é também o método mais eficaz para o processo de cristificação que iniciamos com o nosso batismo e concluiremos com a páscoa da vida eterna.

Jesus desafia-nos: «Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas vidas» (Mateus 11, 29.

Contemplar o Coração de Jesus que palpita de amor por cada pessoa, propondo a mansidão e a humildade como os carris sobre os quais assenta a viagem da nossa vida é parte da formação contínua para o serviço missionário em qualquer estação de vida ou de geografia.

O amor é essencial nesse serviço. Comboni quer-nos santos e capazes. E é o amor que nos capacita; não é o paradigma tecnológico (Escritos 6655).

Paulo recorda no imenso e intenso cântico do amor no capítulo 13 da Primeira Carta aos Coríntios que «ainda que eu distribua todos os meus bens e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada me vale» (versículo 3). Sem coração não há santidade, sem amor não há missão.

É nesta linha que os bispos portugueses descrevem a missão como um ato cordial. Escreveram na Nota pastoral para o Ano Missionário que «do encontro com a Pessoa de Jesus Cristo nasce a Missão que não se baseia em ideias nem em territórios, mas “parte do coração” e dirige-se ao coração, uma vez que são “os corações os verdadeiros destinatários da atividade missionária do Povo de Deus”».

Na espiritualidade comboniana, esse amor fontal, total, final, brutal aprende-se da cruz: «Com a cruz, que é uma sublime efusão da caridade do Coração de Jesus, tornamo-nos poderosos» (Escritos 1735) – escreve o Fundador.

Ele grafou palavras que são profecia para os dias de hoje. Afirma: «firme na convicção de que de toda esta tormenta o Sacratíssimo Coração de Jesus saberá tirar grande bem em favor da santa obra para a redenção da Nigrícia e de que o meu querido Vicariato, depois de tão duríssimas provas, que quase me custaram a vida, ganhará novo vigor e adquirirá mais estável fundamento, à imagem da Igreja, que da perseguição ressurge mais forte e mais fecunda em conversões e em virtudes heroicas» (Escritos 4290).

Na memória ressoam as palavras de Paulo aos cristãos de Roma: «sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados de acordo com o seu desígnio» (Romanos 8, 28). Na economia da graça não há desperdícios, tudo é reciclado, transformado em bondade. Até o pecado! E muitas vezes não sabemos que fazer com o nosso próprio pecado. Basta entregá-lo ao Grande Reciclador.

Ao celebrar o Coração de Jesus, somos chamados a fixar o olhar e a afeição n’Aquele que é o nosso Mestre: «O Sagrado Coração de Jesus palpitou também pelos povos negros da África Central e Jesus Cristo morreu igualmente pelos Africanos. Jesus Cristo, o Bom Pastor, acolherá também a África Central dentro do seu redil. E o missionário apostólico não pode percorrer senão o caminho da cruz do divino Mestre, semeada de espinhos e fadigas de todo o género» (Escritos 5647).

O Coração Trespassado do Bom Pastor é o marca-passo que precisamos para as nossas arritmias. Comboni escreve na introdução da quarta edição do Plano para a Regeneração da África: o católico «levado pelo ímpeto daquela caridade que se acendeu com divina chama aos pés do Gólgota e, saída do lado do Crucificado, para abraçar toda a família humana, sentiu que o seu coração palpitava mais fortemente; e uma força divina pareceu empurrá-lo para aquelas bárbaras terras, para apertar entre os seus braços e dar um ósculo de paz e de amor àqueles infelizes irmãos seus» (Escritos 2742).

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus surge como resposta ao otimismo excessivo do Iluminismo que proclama que o Homem se basta a si mesmo e o pessimismo obsessivo do Jansenismo que quer proteger Deus do nosso pecado colocando-o atrás das grades, nas igrejas.

O racionalismo iluminista consagra o aforismo cartesiano «penso, logo existo» fechando a pessoa no individualismo racional. É o domínio da razão sobre o coração, do eu sobre o nós. A espiritualidade do Coração de Cristo devolve o coração à humanidade no processo de conversão – metanoia – que nos convida a ir além da razão.

Aliás, o coração é o lugar da conversão como reza o Salmo 85. É também o lugar de «uma fonte de água viva que jorra para a vida eterna» (João 4, 14) – como Jesus explicou à Samaritana. A conversão pode ser descrita como um exercício artesanal, paciente do jardineiro que cuida da surgente da água.

Etty Hillesum, a mística judia holandesa que foi executada em Auschwitz, explica-o no seu diário: «Dentro de mim há um poço muito fundo. E lá dentro está Deus. Às vezes consigo lá chegar. Mas acontece mais frequentemente haver pedras e cascalho no poço, e aí Deus está soterrado. Então é preciso desenterrá-lo».

Finalmente, a devoção ao Coração Trespassado do Bom Pastor devolve-nos uns aos outros, porque, como Comboni intuiu, é no Coração de Jesus que nos comunicamos e comungamos uns aos outros: «O Coração de Jesus seja o nosso centro de comunicação» (Escritos 4764).

O Coração de Cristo é o ambiente alternativo à internet sem factos alternativos, notícias falsas nem campanhas de desinformação. É a central onde uma comunicação cordial e profunda é possível através da partilha da vida e da consagração, a comunicação que ansiamos, a partilha que nem sempre logramos para sermos verdadeiro cenáculo de apóstolos.

14 de junho de 2020

EM MISSÃO, SEMPRE


De volta aos domingos do tempo comum, depois de celebrar o tempo central da nossa fé – o mistério pascal de Jesus – a liturgia devolve-nos à missão com a leitura de Mateus 9,36 – 10,8. A missão é a essência da vida cristã.

Mateus conta que o envio dos Doze em missão tem origem no amor entranhado de Jesus que sente compaixão do povo que o segue como ovelhas sem pastor.

Hoje, os meios de comunicação social transformam o sofrimento em espetáculo, inundam-nos com imagens e histórias de sofrimento e afetam a nossa capacidade de empatia com os que sofrem.

Somos cristãos para partilhar a compaixão de Jesus, para sentir empatia com as alegrias e tristezas, as esperanças e o desespero das pessoas de hoje. Vamos reclamar a capacidade da compaixão.

A primeira expressão da compaixão: pedir ao Senhor da seara que envie operários para a sua seara, porque «a seara é grande, mas os trabalhadores são poucos».

Temos de pedir ao Senhor que continue a chamar jovens, raparigas e rapazes, dispostos a fazer a experiência da compaixão do Senhor por eles e pelo mundo para partirem e a partilharem com os deserdados de hoje.

Dois terços da humanidade não conhecem Deus como Papá amoroso e Jesus, o Vivente, como irmão maior que deu a vida por todos para que tenhamos uma vida cheia.

Entre os Doze havia de tudo: Pedro, o fanfarrão que tanto promete ir com o Senhor até à morte como o nega; Tiago e João, dois irmãos a quem Jesus chama filhos do trovão, porque têm o fusível curto: quem mandar fogo do céu sobre a aldeia samaritana que recusou acolhê-los porque iam para Jerusalém.

Há ainda Filipe, um homem com nome grego, quiçá um judeu da diáspora; Mateus, cobrador de impostos; Simão, um revolucionário violento; Iscariotes, de Keriot, ou mentiroso, ou sicário.

E estamos cada um de nós: com nome próprio, histórias únicas… A todos Jesus envia a partilhar o Evangelho. Somos missionários pelo batismo, participamos da missão de Deus; não somos um clube fechado de gente preocupada como a própria salvação. Somos luz, sal e fermento do mundo: temos que nos misturar e diluir no mundo.

Jesus ensina-nos uma série de imperativos, os verbos com os quais conjugamos a gramática da missão: ide, proclamai, curai, ressuscitai, sarai, expulsai.

Primeiro é preciso sair da zona de conforto: ide!

Depois vem a proclamação do Reinado de Deus, que está dentro de nós, acompanhada por uma série de atos libertadores que testemunham a força de Deus a trabalhar entre nós na luta contra o mal, contra a morte. É pelo dedo de Deus que libertamos as pessoas.

A missão faz-se através do anúncio e através de gestos de solidariedade e promoção humana.

Finalmente, a gratuidade: «recebestes de graça, dai de graça» ou «Recebestes como dom, dai como dom!». O Evangelho, a fé são dons de Deus, dons de graça a partilhar.

A missão de Jesus começa por ser local: «ide às ovelhas perdidas da casa de Israel». Depois da sua ressurreição, o Senhor tem autoridade no céu e na terra, a missão é global: ide a todos os povos, a todas as nações.

Esta é a nossa missão, hoje.

Rezemos pelas missionárias e missionários em situações complicadas; rezemos pelos jovens para que tenham a coragem de dizer sim ao envio do Senhor: o serviço missionário é uma forma de vida que nos faz felizes.

11 de junho de 2020

PÃO PARA O CAMINHO


Celebramos a solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo há 756 anos (com nomes diferentes) para sublinhar o lugar único da Eucaristia na vida do povo cristão. A celebração foi criada pelo Papa Urbano IV em tempos de crise sobre a presença real de Jesus no Sacramento do Altar. 

O Papa Francisco sublinha na exortação apostólica Querida Amazónia duas afirmações fundamentais sobre a Eucaristia: ela é fonte e cume de toda a vida cristã (nº 88, recordando o Concílio Ecuménico Vaticano II que afirma que «a Eucaristia aparece como fonte e coroa de toda a evangelização») e que é a Eucaristia que faz a Igreja (nº 89).

Estas duas afirmações atestam sobre a primazia essencial da Eucaristia na vida cristã: vivemos da Eucaristia e vivemos para a Eucaristia. Infelizmente, devido a uma certa esquizofrenia doutrinal há muita gente barrada desta fonte e desta meta, porque não há ministros ordenados solteiros suficientes ou porque vivem muitas pessoas em situações irregulares.

Há ainda aqueles que decidem autoexcluir-se do banquete que o Senhor prepara com o seu próprio corpo e sangue para o seu povo.

A participação na Eucaristia não é uma devoção opcional. Sentar-se à mesa da Palavra e do Pão é um ato essencial para a vida da comunidade que se reúne cada domingo para fazer memória da Páscoa do Senhor e para se tornar cada vez mais seu corpo aqui e agora.

«A Igreja vive da Eucaristia», escreveu São João Paulo II.

Moisés, num dos três grandes discursos de despedida do outro lado do Rio Jordão, diz ao povo para recordar o êxodo de 40 anos através do deserto.

Deus queria conhecer o íntimo do seu coração e alimentou-os com o maná desconhecido «para te fazer compreender que o homem não vive só de pão, mas de toda a palavra que sai da boca do Senhor».

No Evangelho, Jesus autoapresenta-se como o pão vivo descido do céu. Jesus tinha saciado uma multidão de vários milhares de pessoas com cinco pães de cevada – o pão dos pobres – e dois pequenos peixes que foram partilhados por um rapazito.

Pão e circo são votos garantidos. As pessoas, saciadas, queriam fazer Jesus rei. Ele retirou-se sozinho para um monte e depois regressou com os discípulos de barco a Cafarnaum.

As pessoas foram à procura de Jesus. Ele faz então o grande discurso sobre o pão da vida.

Jesus diz: «O pão que Eu hei de dar é a minha carne, que Eu darei para a vida do mundo».

Jesus explica assim o seu mistério pascal que recordamos e atualizamos em cada Eucaristia que celebramos: Ele oferece-se por cada um de nós.

As pessoas puseram-se a discutir as palavras de Jesus: «Como pode Ele dar-nos a sua carne a comer?». Não somos canibais…

A resposta de Jesus não deixa espaço para dúvidas: para termos a vida eterna em nós, para sermos ressuscitados temos de comer a carne do Filho do Homem e beber o seu sangue.

Através desse alimento verdadeiro permanecemos no Senhor, Ele em nós e viveremos por Ele; a carne e sangue do Senhor são o verdadeiro pão do Céu para vivermos para sempre, para vivermos do e com o Vivente.

A vida eterna que o corpo e sangue de Jesus alimentam não é um tempo futuro: já está em construção aqui e agora. Precisamos de comungar Jesus para sermos como Ele, para podermos viver o seu Evangelho no dia-a-dia.

O alimento que ingerimos é assimilado pelo nosso organismo para se transformar em energia. Quando comungamos o corpo e sangue do Senhor, assimilamo-lo em nós – a sua vida e o seu evangelho, os seus gestos – e temos a energia para viver o amor e a bondade ao seu jeito.

O Papa Francisco escreveu na exortação A alegria do Evangelho que «a Eucaristia, embora constitua a plenitude da vida sacramental, não é um prémio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos» (nº 47). Repetiu-o diversas vezes.

Construímos uma teologia da Eucaristia que afasta mais do que aproxima as pessoas da mesa eucarística. Jesus fala que os convidados para o banquete messiânico, as suas núpcias, não são os perfeitos, mas as pessoas com defeito – os pobres, aleijados, cegos e coxos – que estavam banidos da liturgia do templo.

Só têm de vestir a roupa de casamento, o traje nupcial, aceitar a viver uma relação amorosa com Jesus-esposo de cada um de nós.

É importante reconhecer que não nos bastamos a nós próprios: precisamos de Jesus, da sua força, da sua vida em nós para vivermos dele e com Ele.

Quando era adolescente li uma frase que ficou sempre comigo este tempo todo. O autor refletia sobre o que se passa na consagração: o pão e o vinho transformam-se no corpo e sangue do Senhor. Essa transformação é chamada de transubstanciação, mas tradições teológicas diferentes chamam-lhe nomes diferentes.

Esse autor escreveu que para ele não era importante o nome técnico do que se passa na consagração. O que importa é que o Espírito Santo que transforma o pão e o vinho no corpo e sangue do Senhor também é capaz de me transformar n’Ele.

Celebrar a Eucaristia em memória do Senhor – como ele nos mandou – é repetir os gestos da sua última ceia (que explicam o que se passou horas depois no monte Calvário).

É também estar disposto a oferecer a nossa vida pelos outros, aceitarmos ser pão repartido para a salvação do mundo de braços e coração escancarados.

A segunda leitura termina com uma expressão interessante: «Visto que há um só pão, nós, embora sejamos muitos, formamos um só corpo, porque participamos do mesmo pão».

Este pensamento de Paulo ensina duas coisas: que a eucaristia é o sacramento da nossa unidade; e que quando comungamos Jesus na Eucaristia nos comungamos uns aos outros, porque formamos o mesmo e único corpo de Cristo.

Comungar o outro é amá-lo como ele é, relacionar-se.

A Eucaristia tem também uma dimensão cósmica.

São Daniel Comboni conta numa carta ao pai que uma noite o barco da missão ficou preso num banco de areia no Nilo Branco pondo os missionários e a tripulação em grande perigo e à mercê de homens armados. De manhazinha cedo os missionários celebraram a Eucaristia a bordo.

«Pela manhã celebrou-se missa. Oh, que doce foi naquela difícil circunstância ter entre as mãos o Senhor de todos os rios e de todas as tribos da terra e pedir-lhe por nós e por nossas necessidades, pelos que estavam em perigo junto a nós, por vós, pelos que não o conhecem, por todo o mundo!» (E 256) – escreveu.

Jesus-Eucaristia é socorro para as horas difíceis, alimento para o nosso caminho, energia para o processo de cristificação que cada um de nós é chamado a fazer como cristão.

O cardeal José Tolentino Mendonça diz que «nós comemos Cristo para que seja Ele a base da nossa vitalidade. Para que a nossa vida, nas suas múltiplas expressões e sintomas, se torne reflexo da vida de Cristo em nós».

Que assim seja.

8 de junho de 2020

MACÁRIO, FELIZ!



Jesus, no Sermão do Monte (Mateus 5, 1-12), dá-nos um nome novo. Chama-nos Makarioi, Macários, Felizes (em grego) nove vezes.

O Papa Francisco recorda na exortação Alegrai-vos e exultai que as bem-aventuranças são o bilhete de identidade do cristão e o GPS para a santidade.

«A palavra “feliz” ou “bem-aventurado” torna-se sinónimo de “santo”, porque expressa que a pessoa fiel a Deus e que vive a sua Palavra alcança, na doação de si mesma, a verdadeira felicidade», escreve no nº 64.

Hoje, no Twitter explica que as bem-aventuranças são os caminhos improváveis que Deus escolhe para se dar a nós.

O Papa argentino sumariza esses caminhos: ser feliz é ser pobre no coração; reagir com humildade e mansidão; saber chorar com os outros; buscar a justiça com fome e sede; olhar e agir com misericórdia; manter o coração limpo de tudo o que mancha o amor, semear a paz ao nosso redor; e, abraçar diariamente o caminho do Evangelho mesmo que nos acarrete problemas.

E desafia-nos: «Permitamos-Lhe que os fustigue com as suas palavras».

São Daniel Comboni era um missionário assumidamente feliz. Não é nada recomendável afivelar uma máscara circunspecta, grave para dar ar de cristão.

Na sua correspondência encontramos frases que o expressam: «Sou o mais feliz dos homens»; «Estou imensamente feliz porque Ele me honrou com tantas cruzes»; «sentir-me-ei feliz por fazer a vontade de Deus»; «somos felizes no meio da cruz que o Senhor nos manda.

Uma semana antes de morrer, ao contemplar o seu sonho missionário a desmoronar-se com os missionários a falecer um depois do outro, exclama: «Eu sou feliz na Cruz, que levada de boa vontade por amor de Deus, gera o triunfo e a vida eterna».

Daniel Comboni, consola o pai que tinha enviuvado recentemente, com uma citação do Sermão do Monte: «Deixo-te ainda uma lembrança e é uma famosa e verdadeira sentença de Cristo. Medita-a sempre e trá-la sempre na mente, que bem merece a nossa veneração. E é esta: BEATI QUI LUGENT: felizes os que choram» (Escritos 421).

Das oito felicitações qual é a que te toca mais?

DEUS ESTÁ

No fogo novo do alvor,
No calor e frio, tempero dos dias,
No êxtase do sol posto,
No silêncio enternecedor das estrelas,
No feitiço da lua cheia,
No abraço multicolor do arco-íris,
Na chuva que tempera dores,
Na brisa que afaga a pele,
Na polifonia do Universo,
No vai-vem do mar,
Na oração murmurada do riacho,
Na beleza singela da flor,
Na graça irrequieta do guarda-rios,
No beijo alado do colibri,
Nas travessuras do golfinho,
No horizonte sem fim do topo do monte,
Lá onde o céu e a terra se fundem,
Na amizade que tempera a vida,
No amor que acalenta e vivifica,
Na crosta protetora da ferida,
Na cicatriz da chaga curada,
No sorriso desarmado da criança,
Na pérola de orvalho presa na teia,
Na fundura de mim mesmo
Lá está o Deus
da Vida,
da Ternura,
da Dor!
O Deus unitrino,
família de Amor
que mora no coração que O quer,
que caminha connosco,
peregrino e senhor da História,
fonte da Paz,
jorro da Alegria,
olho da Bênção.

4 de junho de 2020

CABO SOFRIDO



O bispo de Cabo Delgado pede fim da guerra odiosa.

Dom Luiz Fernando Lisboa, bispo de Pemba, lançou um dilacerante grito de socorro perante a situação de terror que a província moçambicana de Cabo Delgado vive desde 4 de Outubro de 2017, quando rebeldes muçulmanos fizeram o primeiro ataque na área.

O bispo faz com «profunda indignação» o historial da violência dos insurgentes, que começaram por alvejar as forças de segurança, mas agora atacam «as populações indefesas com requintes de crueldade» sobretudo desde o final do ano passado. Em Março, mataram 52 pessoas em Xitaxi, jovens na maioria, que recusaram integrar as suas fileiras. As forças de segurança não são eficazes, denuncia.

Os ataques, que passaram das aldeias remotas às cidades litorais «em grande estilo, por terra e por mar», já fizeram, nas contas do prelado brasileiro, mais de duzentos mil deslocados e entre quinhentos e mil mortos. As populações e as autoridades fogem para as cidades. Com a agricultura parada há dois anos, «a fome é outra realidade gritante». As crianças e os jovens não vão à escola.

Cabo Delgado, que é o epicentro da covid-19, está mergulhado na pobreza, no desemprego e no analfabetismo desde a era colonial, apesar da riqueza imensa do território, incluindo enormes jazidas de gás natural, petróleo, rubis e outras pedras preciosas. A província funciona também como entreposto no tráfico de heroína.

Os primeiros ataques foram obra de um grupo de jovens muçulmanos doutrinados por clérigos quenianos que pregam o salafismo, a versão radical do Islão patrocinada pela Arábia Saudita. Eram financiados por comerciantes tanzanianos. Autodenominavam-se Al Shabab («Jovens», em árabe), mas não tinham ligações com os congéneres somalis. Financiavam-se com o contrabando de madeira e usavam armas tiradas aos soldados.

A situação mudou em meados de 2019, quando aparentemente o autoproclamado Estado Islâmico da Província da África Central mudou a base da República Democrática do Congo para o Norte de Moçambique. Os combatentes usam a bandeira negra do Estado Islâmico e os seus ataques aumentaram em número e violência. Em 2020, fizeram mais de cem incursões.

O Governo do Maputo levou algum tempo a reagir à violência na província. Usou sobretudo a polícia de choque e mercenários russos, que, apesar de bem apetrechados, sofreram algumas baixas e regressaram à base em Nacala.

No final de Abril, Maputo anunciou ter matado 129 rebeldes e recuperado o domínio de algumas localidades. Contribuíram para o êxito helicópteros do Zimbabué e da África do Sul, mercenários sul-africanos e drones, aeronaves controladas à distância, que seguem dos céus os movimentos dos insurgentes.

A guerra em Cabo Delgado, contudo, não tem solução militar. O Governo precisa de promover o desenvolvimento local, investindo parte da riqueza gerada pelas indústrias extractivas na província onde nasceu o presidente Filipe Nyusi. A produção de gás, prevista para 2022, precisa de segurança.

Dom Luiz, por seu turno, propõe a formação de uma comissão suprapartidária «com membros da Assembleia da República, do Judiciário, da sociedade civil para ajudar o Governo no enfrentamento desta odiosa guerra» e pede ajuda concreta das Nações Unidas, União Africana e União Europeia.

3 de junho de 2020

MULHER: FORÇA E TERNURA


Lucas nota nos Atos dos Apóstolos que, depois da Ascensão do Senhor «todos estes [apóstolos] perseveravam, unidos em oração, em companhia de algumas mulheres, entre as quais Maria, Mãe de Jesus» (Act 1, 14).

Li esta passagem muitas vezes! Entendia que os apóstolos e as mulheres, com a Mãe de Jesus, formavam uma comunidade orante que possibilitava a perseverança dos primeiros.

Desta vez dei-me conta das vírgulas e intuí um novo sentido para o texto.

Os apóstolos perseveravam 
  • unidos na oração,
  • em companhia de algumas mulheres.
O que o texto parece sublinhar é que a perseverança dos apóstolos dependeu da oração e da companhia solidária de algumas mulheres que, com eles, acompanharam Jesus desde a Galileia, e se mantiveram firmes no monte Calvário e junto ao túmulo do Senhor.

Esta leitura do texto obriga os líderes eclesiais a entenderem a presença da mulher na Igreja para além da utilidade nos serviços que presta. É uma companhia fundamental para a perseverança dos ministros ordenados.

O Papa Francisco escreve na Exortação Apostólica Querida Amazónia que «as mulheres prestam à Igreja a sua contribuição segundo o modo que lhes é próprio e prolongando a força e a ternura de Maria, a Mãe. […] Sem as mulheres ela se desmorona» (nº 101).

São Daniel Comboni também intuiu o papel fundamental da mulher no serviço missionário na África Central. Por isso, fundou as Missionárias Combonianas com o nome lindo de Pias Mães da Nigrícia.

Escreveu: «Eu fui o primeiro a fazer com que colabore no apostolado da África Central o omnipotente ministério da mulher do Evangelho e da irmã da caridade, que é o escudo, a força e a garantia do ministério do missionário» (Escritos 5284).

Para Comboni, as irmãs e outras agentes de pastoral são o escudo, a força e a garantia do serviço dos missionários.

No passado construíram-se espiritualidades sacerdotais baseadas no medo das mulheres. 

Hoje, para resgatar a experiência da primeira comunidade cristã de Jerusalém, é preciso viver uma mística que favoreça o encontro com a força e a ternura da mulher em Maria e nas Marias como meio de perseverança vocacional.

1 de junho de 2020

RE-PARTIMOS DAS NOSSAS FRAGILIDADES



«Todos têm os olhos postos em Vós e a seu tempo lhes dais o alimento. Abris as vossas mãos e todos saciais generosamente.» (Salmo 145, 15-16) 

«Concluí que o P.e Marani tinha razão, e que o único arrimo, refúgio e fortaleza é pôr a confiança em Deus, que nunca falta – o único que nunca falha – que tem cabeça, coração e consciência e que pode fazer com que nós façamos milagres.» (Escritos 6881) 

Caríssimos confrades,

Saudações e orações de Roma por cada um de vós e pelos povos que acompanhais neste tempo tão difícil para todos e em circunstâncias absolutamente particulares e inesperadas.

Estamos a viver um tempo que está como que suspenso e carregado de surpreendentes revelações, um tempo que nos obriga a rever critérios e prioridades, que desafia o nosso sentido de liberdade chamando-nos à responsabilidade, que questiona as nossas seguranças e põe a nu as nossas fraquezas. Vivemos entre um passado que a memória tem dificuldade em conservar e um futuro que o pensamento não consegue entrever e, na oração, confiamos tudo a Deus.

Como em todo o aniversário, a memória do 153º aniversário da fundação do nosso Instituto, torna-se ocasião para uma celebração que reportando-se ao passado, reforça a esperança no nosso futuro. Mas mais ainda, torna-se para nós um dom e um convite do Senhor a deter-nos uns momentos para avaliar a nossa vida e a nossa missão. De modo que, olhando-nos nos olhos, à escuta do Senhor, encontremos a força de re-partir como discípulos missionários em direção aos nossos irmãos e irmãs que aguardam confiantes a Palavra de Deus. Re-partimos da descoberta que todos fizemos nestes meses de confinamento, a nossa comum fraqueza e fragilidade.

Olhando à vida do nosso Pai e Fundador, São Daniel Comboni, nos anos de 1859 a 1864, achamos que, depois do desaire e do insucesso da sua primeira viagem a África, ele ficou, como contemplativo em ação, «a observar os movimentos do Espírito», aberto à realidade eclesial e social que o circundava e disponível ao Espírito que, do Alto, por fim o ilumina sobre o re-partir: «… esperar novos movimentos do espírito de Deus, sempre dispostos a sacrificar e vencer tudo para seguir e realizar a vontade do Senhor» (Escritos, 464).

Um olhar à nossa história testemunha a promessa de fecundidade, escondida neste repartir das nossas fraquezas, em total abertura a Deus: a preservação da herança comboniana, depois da morte do fundador, e a configuração do Instituto em congregação religiosa (1881-1885); o retorno à missão, depois da Mahdia (1900); o re-partir, depois da dobragem da herança comboniana com a criação das duas congregações FSCJ e MFSC (1922-1923); o abraço à África e as novas aberturas depois da dolorosa expulsão em massa do Sudão do Sul (1964); a sofrida procura de renovamento conciliar e a reencontrada unidade das duas congregações combonianas nos históricos capítulos de 1969-1979, de que recordámos o ano passado o 50º e o 40º aniversários, respetivamente, e que efetuaram a reconfiguração apostólica do Instituto como o conhecemos hoje.

Um olhar atento ao nosso presente convida-nos a ter a coragem de recomeçar a partir das nossas fraquezas, mais uma vez, deixando a Deus a iniciativa e o primado. São Daniel Comboni impele-nos neste sentido e direção, convidando-nos a «ter coragem para o presente e sobretudo para o futuro». O próximo XIX capítulo geral de 2021 será certamente um momento providencial e qualificado para este re-partir.

Como nos convidou também o Papa Francisco no momento extraordinário de oração no Sagrado da Basílica de São Pedro em Roma dia 27 de março passado, vivemos «este tempo de prova como tempo de escolha para organizar a rota da vida em direção ao Senhor, e em direção aos outros», em direção a quantos esperam o Evangelho. Da nossa parte, estamos certos de que o Senhor está à nossa porta e bate (Ap 3, 20) para renovar a nossa vida e a nossa missão com a promessa de uma renovada fecundidade apostólica.

Boa Festa do aniversário da Fundação do nosso Instituto e bom início do mês de junho, mês dedicado à contemplação do Sagrado Coração de Jesus.
Studium Combonianum e Conselho Geral 
Roma, 1 de junho de 2020 
153º aniversário da fundação do Instituto

29 de maio de 2020

AMAS-ME? SOU TEU AMIGO


O evangelho de João termina com uma desconversa intrigante entre Jesus e Pedro (que alguns tradutores passam por cima).

Na última aparição junto ao lago de Tiberíades, depois do pequeno almoço de pão e peixe grelhado que Jesus lhes preparou – que amigo cuidador, este perguntou a Pedro:

«Simão, filho de João, tu amas-me mais do que estes?» Pedro respondeu: «Sim, Senhor, Tu sabes que sou teu amigo» (João 21, 15).

Primeiro, Jesus, trata Pedro pelo seu nome civil, o nome antes da missão: Simão, filho de João. A ressurreição de Jesus marca também um novo começo, um novo chamamento para os discípulos.

Depois, Jesus pergunta se ele o ama e Pedro responde que é seu amigo. São duas coisas diferentes: amar e ser amigo.

Jesus fez esta pergunta a segunda vez e obteve a mesma resposta. Da terceira vez Jesus reajustou a pergunta:

«Simão, filho de João, tu és meu amigo?» (João 21, 17).

Dom António Couto, bispo de Lamego, tem uma explicação para este trocadilho entre amar e ser amigo no texto Entre a amizade e o amor:

Mas há mais ainda, sobre aquela praia do Mar da Galileia,
Um último confronto entre Jesus e Pedro,
Entre o amor novo de Jesus que abraça a todos,
E a amizade de Pedro circunscrita ao seu grupo de amigos.
Aí, Jesus interrogará Pedro sobre o amor novo,
E Pedro responderá que sim,
Que é amigo de Jesus.
Na verdade, Pedro continua a ler a sua vida
E o seu relacionamento com Jesus,
Dentro das fronteiras da amizade que une um grupo de amigos.
Falta ainda a Pedro entender a lição do amor novo de Jesus,
Que ama a todos,
Que é para todos,
E rebenta assim as fronteiras fechadas
De qualquer grupo de amigos.

Daniel Comboni escreve que é preciso conjugar o verbo amar no serviço missionário: «Deus está connosco, porque nós desejamos unicamente a sua glória. É hora de mover todos os corações do universo para amar a Deus, a Igreja, o seu chefe, as missões e sobretudo os mais abandonados» (Escritos 1655).

O evangelho termina com o dito de Jesus sobre a ancianidade: «quando envelheceres, estenderás as tuas mãos e outro te vestirá e levará para onde não queres». É a experiência de tantos idosos que não querem ir para os lares para não perderem a autonomia, o seu «cantinho».

Mas também indica que ao seguir Jesus, pomo-nos nas mãos uns dos outros, somos chamados a viver sobre o olhar misericordioso de Deus e dos irmãos. É impossível seguir Jesus por conta própria, fora da comunidade dos crentes.

24 de maio de 2020

IMPERATIVO MISSIONÁRIO


A ressurreição e a ascensão de Jesus ao céu são duas faces, duas fases do único processo da glorificação de Jesus como o Senhor do universo.

Mateus conta que os onze discípulos voltaram à Galileia para o monte que Jesus lhes indicou. Depois da ressurreição, os discípulos são chamados a voltar ao princípio, à Galileia onde começaram a seguir Jesus.

Voltam à Galileia não para reviverem a história do discipulado numa espécie de círculo fechado em retorno eterno, mas para serem enviados ao mundo inteiro para fazerem discípulos entre todas as nações.

Quando os discípulos viram Jesus, ajoelhara-se, adoraram-no. Ele é o Senhor glorioso, sentado ao lado do Pai. Contudo, alguns duvidaram. Este é um detalhe interessante: todos adoram o Senhor, mesmo que alguns continuem com dúvidas a resolver.

Tenho medo das pessoas que nunca duvidam, que não se interrogam, que têm tudo resolvido no seu coração…

No monte da Ascensão Jesus apresenta-se como Senhor glorificado com poder cósmico: «Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra».

A missão do Jesus histórico devido aos condicionalismos do tempo e do espaço foi sobretudo uma missão «às ovelhas pedidas da casa de Israel» como explica Mateus (15, 24).

Agora, glorificado, de volta ao Pai, manda os seus discípulos a todas as nações: «Ide, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar tudo quanto vos ordenei».

Alguns especialistas dizem que Mateus escreveu o seu evangelho para explicar o Grande Mandato de Jesus aos discípulos; outros, que estes dois versículos são a síntese em filigrana do Evangelho de Mateus.

O imperativo missionário de Jesus aos discípulos de ontem e de hoje conjuga-se através de dois verbos: ide e fazei. Dois verbos em voz ativa, que são a nascente do Instituto comboniano.

«O objetivo deste Instituto é o cumprimento do mandato dirigido por Cristo aos discípulos de pregar o Evangelho a todas as gentes; é a continuação do ministério apostólico, pelo qual todo o mundo participou dos inefáveis benefícios do Cristianismo» (Escritos 2647), escreve Comboni no Capítulo I das Regras de 1871 do Instituto das Missões para a Nigrícia.

IDE. O «ide» começa com um «vinde atrás de mim» (Mateus 4, 19), um tempo de discipulado, uma iniciação na qual Jesus partilha a sua experiência se Deus como Abba, Papá, e anuncia o seu reinado.

O «ide» é, primeiro, um sair de nós próprios, da autorreferencialidade, do individualismo narcisista globalizado, um autodescentrar-se para fazer de Jesus e dos outros o centro da vida. É sair da área de conforto.

O «ide» é afetivo para ser efetivo, mas também geográfico. Daí a insistência do Papa Francisco numa Igreja em saída para ir às periferias humanas.

FAZEI discípulos de todos os povos. O Senhor do universo envia os seus discípulos a facilitar a experiência de discipulado entre todas as nações. O tempo de Jesus dá lugar ao tempo dos discípulos, animados pelo Espírito Santo, que é o protagonista da missão.

Jesus fez o caminho da Galileia até Jerusalém com os seus discípulos como preparação para a missão global da Galileia a todas as nações através do batismo em nome da Trindade Santíssima e «ensinando-os a observar tudo quanto vos ordenei».

O método de Jesus não é um ensino teórico, uma doutrinação. Jesus partilha com os discípulos a sua experiência de Deus. A sua autoridade e a sua novidade vêm daí.

É esse o caminho do discípulo missionário: «O que existia desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e as nossas mãos tocaram relativamente ao Verbo da Vida, – de facto, a Vida manifestou-se; nós vimo-la, dela damos testemunho e anunciamo-vos a Vida eterna que estava junto do Pai e que se manifestou a nós – o que nós vimos e ouvimos, isso vos anunciamos», escreveu João no prólogo da primeira carta.

Jesus termina o mandato missionário com uma promessa: «E eis que Eu estarei convosco todos os dias, até à consumação dos tempos».

Jesus, Palavra encarnada, é o Emanuel, Deus connosco (Mateus 1, 23) como o anjo explicou na anunciação a José. 

O Senhor glorioso continua a ser o Emanuel com a Igreja em missão até ao fim dos tempos. Ele é o Senhor da Missão: ele chama, envia e vai com os seus discípulos missionários até ao fim do mundo, até ao fim dos tempos em modo de teletrabalho a partir do Pai.

Por isso, Comboni nunca abandonou a missão africana. Numa hora de aperto, escreveu ao reitor do Instituto em Verona: «agora cabe-me sofrer, mas Deus conceder-me-á a calma. Coragem, reciprocamente! O saber que não estou só na luta é um grande conforto. Além disso, Deus está connosco e abençoará a seu tempo os que nos perseguem» (Escritos 1086).

Termino esta reflexão com três notas.

1. Lucas escreve nos Atos dos Apóstolos que, depois da Ressurreição, Jesus apareceu durante 40 dias aos apóstolos falando-lhes do Reinado de Deus. Antes de subir aos céus, perguntaram-lhe se era agora que ia restaurar o reino de Israel. Jesus não se zangou com aquela gente dura de entendimento. Antes, enviou-lhes o Espírito Santo para serem suas testemunhas da Samaria até aos confins da terra.

O discipulado, o seguimento de Jesus, é um processo em curso, um trabalho em progresso, com construções e desconstruções, que dura a vida toda e toda a vida.

2. Lucas, no relato da ascensão, diz que Jesus se elevou à vista dos discípulos e uma nuvem escondeu-O dos seus olhos. Mas eles continuaram especados a olhar o céu. Apareceram dois anjos que lhes perguntaram: Galileus, porque olhais para o Céu? E explicaram: «Esse Jesus, que do meio de vós foi elevado para o Céu, virá do mesmo modo que o vistes ir para o céu».

Na transição do tempo de Jesus, a Palavra Encarnada, para o tempo do Espírito Santo e da Igreja, em tempo de mudança de era, somos tentados a ficar a contemplar o que passou com medo de encararmos olhos nos olhos, de frente o presente, a realidade nova que se nos oferece.

Os anjos desafiam os discípulos a deixar de olhar o céu para voltarem os olhos para a terra, para testemunhar a presença do Senhor ressuscitado através de vidas ressuscitadas pelo poder do Espírito Santo.

Paulo, na Carta aos cristãos de Éfeso, recorda que o espírito de sabedoria e de revelação que vem de Deus, ilumina sobretudo os olhos do nosso coração para entendermos a esperança a que fomos chamados. É esse olhar cordial que peço ao Senhor para todos.

3. A solenidade da Ascensão do Senhor é, há 54 anos, o Dia Mundial das Comunicações Sociais.

O Papa Francisco escolheu o tema «Para que possas contar e fixar na memória – a vida faz-se história» como resposta às narrativas alternativas que distorcem a realidade sobretudo nas redes sociais.

Partilho dois parágrafos:

«Na confusão das vozes e mensagens que nos rodeiam, temos necessidade duma narração humana, que nos fale de nós mesmos e da beleza que nos habita; uma narração que saiba olhar o mundo e os acontecimentos com ternura, conte a nossa participação num tecido vivo, revele o entrançado dos fios pelos quais estamos ligados uns aos outros».

«Frequentemente, nos «teares» da comunicação, em vez de narrações construtivas, que solidificam os laços sociais e o tecido cultural, produzem-se histórias devastadoras e provocatórias, que corroem e rompem os fios frágeis da convivência. Quando se misturam informações não verificadas, repetem discursos banais e falsamente persuasivos, se repercutem proclamações de ódio, está-se, não a tecer a história humana, mas a despojar o homem da sua dignidade».

O Papa pede de nós uma narrativa que faça memória «daquilo que somos aos olhos de Deus, testemunhar aquilo que o Espírito escreve nos corações, revelar a cada um que a sua história contém maravilhas estupendas».

É essa a nossa missão, hoje, com a ajuda do Espírito Santo: fazer memória das maravilhas que somos (Salmo 139), porque o Senhor fez maravilhas em nós, por nós e através de nós – como o fez com a nossa Mãe, a Virgem de Nazaré, e ajudar as irmãs e irmãos a fazerem o mesmo.

Amen!

19 de maio de 2020

BEIJO DE PAZ


Jesus ligou para sempre o serviço missionário com a empresa da paz.

Quando enviou os 72 dois a dois a preparar a sua visita a algumas localidades da Galileia, fez de cada discípulo um irenóforo, portador de paz.

«Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: 'A paz esteja nesta casa!' E, se lá houver um homem de paz, sobre ele repousará a vossa paz; se não, voltará para vós» (Lucas 10, 5-6), manda.

Antes, no Sermão do Monte, tinha abençoado os homens e mulheres fazedores da paz: «Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus» (Mateus 5, 9).

Daí que tenha deixado a sua paz como presente maior aos seus discípulos: «Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou. Não se perturbe o vosso coração nem se acobarde» (João 14, 27).

E é de paz que fala a primeira saudação do Ressuscitado: «A paz esteja convosco» (João 20, 19).

Daniel Comboni viveu a missão como um serviço de paz e foi nestes termos que a explicou:
«Nós viemos aqui com o ósculo da paz, a fim de lhes trazer o maior bem que existe» (Escritos 297).

A paz é o método missionário que usa: «com o crucifixo ao peito e com a palavra de paz, amansam-se as bestas mais ferozes» (Escritos 297), sossega os pais da missão de Santa Cruz, no Sudão de então, um mês depois de lá ter chagado com três companheiros.

A paz vem da Cruz (Escritos 424) e é atributo de Deus, juntamente com a misericórdia (Escritos 694).

Além das palavras também também tem o olhar de paz (Escritos 896) para proclamar o Evangelho da paz e de todo o bem (Escritos 2540).

Comboni descreve o arco-íris como «sinal da paz e reconciliação entre a terra e o céu» (Escritos 4002).

Vai ficar tudo bem, porque o Senhor nos dá a sua paz e oferece a reconciliação com Ele, entre nós e com a com a criação inteira.

Um coração de paz para ti.

16 de maio de 2020

NO MESMO BARCO


«A PESTE», a ficção que Albert Camus escreveu sobre uma suposta epidemia que fechou a cidade portuária de Orão, na Argélia, impôs-se como leitura obrigatória em tempos de pandemia global.

«Estamos todos no mesmo barco» é o mantra do romance. Aparece por três vezes.

Mais do que no mesmo barco estamos todos na mesma tempestade. Alguns estão em iates enquanto outros bailam em «cascas de noz» ao sabor das correntes.

O romance descreve o confinamento imposto pela peste bubónica e depois pela pneumónica como exílio, solidão, saudade.

Há muitas cenas que nos são familiares: momentos especiais de oração - «a religião em tempo de peste não podia ser a religião quotidiana» –, praias fechadas, doentes sem visitas, valas comuns, hotéis vazios… «A peste mata prazeres», diz-se.

Interessante é o trabalho da sociedade civil que se organiza para ultrapassar a inércia das autoridades, «porque a compaixão é caminho da paz» e «um mundo sem amor é um mundo morto».

Há quem espere que o frio do inverno mate o bacilo e quem faça rios de dinheiro com a miséria alheia no contrabando de bens e pessoas.

O Dr. Bernard Rieux, o médico que dirigiu o combate à peste, escreveu a crónica da cerca sanitária «para não ser um daqueles que mantêm a sua paz, mas devia testemunhar em abono daquele povo atacado pela peste; para que alguma memória da injustiça e ultraje que receberam possa permanecer; e para afirmar simplesmente o que aprendemos em tempo de pestilência: que há mais coisas para admirar nos homens que para desprezar».

Camus tem uma escrita enxuta, cirúrgica, atraente. O filósofo existencialista franco-argelino escreveu a obra em 1947 como uma metáfora dos horrores da Segunda Guerra Mundial.

Recebeu o nobel da literatura em 1957.

14 de maio de 2020

AUTO DA FARSA NÃO PAGO, MAS JÁ PAGOU

Cena 1
Os mandões do burgo mais a oeste prantado incluem na folha de paga uma injeção de 850 milhões na veia do Mealheiro Novo feito de dívidas revelhas. Quando o tempo amadurece o CR7 das Massas transfere o guito.

Cena 2
A Reguila da Canhestra pergunta no Parlatório ao Primeiro Otimista se vai esgravatar as contas do Novo Mealheiro antes de entregar o carcanhol. Este, num encolhe de ombros a dizer «Já me lixaste», jura que sim.

Cena 3
O Primeiro em privado pede desculpa à Reguila porque afinal o bago já está no Mealheiro. Desculpe qualquer coisinha, mas não sabia o que o Massas fez. Este explica que o Governo paga e não bufa até o ábaco chegar aos 3,89 mil milhões, porque é o que está no papiro rabiscado com o pele vermelha Estrela Solitária.

Cena 4
O Primeiro e o Louro-Mor juntam-se na Fábrica dos Calhambeques, afagam-se mutuamente. O Mor manda bitaites ao Massas. Na Parlatório, há quem lhe queira a cabeça na caixa-forte.

Cena 5
O Primeiro e o Massas reúnem-se no breu do Jardim de São Bentinho, trocam ósculos de paz e juram amor para sempre.

FIM?
Até ver! Ter um «mão-de-vaca» em tempo de recuperação económica a mandar nas massas não dá jeitinho nenhum!

GUARDADORAS DA ESPERANÇA

— Eu não consigo… não consigo! – repetia sempre Reem, uma jovem beduína palestiniana de 16 anos, sempre que a convidávamos para aprender a u...