29 de agosto de 2014

MILAGRE DO SOL


Quando o Sol se põe em África, mesmo assim continua a iluminar milhões de pessoas que têm na sua energia uma alternativa amiga do ambiente e do desenvolvimento.

À noite, o continente, visto de um satélite, assemelha-se a um enorme buraco negro com alguns pontos de luz no Norte e sobretudo a Sul, pois 600 milhões de africanos ainda não têm electricidade e, os que a têm, pagam-na duas a três vezes mais cara que noutras regiões em desenvolvimento, apesar de viverem rodeados de fontes de energia fósseis e renováveis.

A tecnologia solar veio fazer luz na noite africana. Armazenada em baterias, alimenta hospitais, estações de rádio, escolas, lares, moinhos, bombas de água, frigoríficos, fogões, rádios, telemóveis, lanternas...

Há organizações caritativas empenhadas no fornecimento de lanternas solares e pequenos sistemas de iluminação para casas e estabelecimentos de ensino para acabar com a iluminação a petróleo até 2020. Os benefícios são imensos: os estudantes fazem os deveres de casa com boa luz e sem sofrerem com o fumo das lâmpadas a querosene e as famílias vêem as despesas reduzidas – o petróleo para cozinhar e alumiar queima um quinto do orçamento familiar. A economia local e a segurança também beneficiam: os negócios ficam abertos até tarde sem o barulho, a poluição e as despesas dos geradores e os clientes podem movimentar-se em ruas e mercados iluminados e seguros.

A energia solar é limpa, mas exige grandes investimentos porque ainda é uma tecnologia muito cara. Em termos reais, custa muito menos produzir um quilowatt de electricidade a partir do sol do que usando gasóleo, mas o investimento inicial é muito grande: um sistema doméstico simples com três a seis lâmpadas, mais tomadas para alimentar uma televisão, custa entre 500 a 1000 euros.

A África é extremamente rica em horas de sol e já há países a tirar partido dessa fartura natural. Quase um terço dos países africanos (16 em 54) está já a pôr em prática iniciativas amigas do ambiente, com a África do Sul à frente.

A África do Sul já produz 238 megawatts de origem solar e, em 2030, quer chegar aos 18 gigawatts para reduzir a dependência do carvão. O Projecto Jasper Power, financiado pela Google, vai fornecer energia de origem solar a 30 mil casas por 10 milhões de euros.

Marrocos quer que, em 2020, as energias renováveis forneçam 42 por cento das necessidades do país contra os oito por cento de hoje. O sistema custa 9000 milhões de dólares e vai usar tecnologia fotovoltaica e termal para produzir electricidade em cinco locais.

A Mauritânia quer derivar 10 por cento das suas necessidades de energia fotovoltaica e o Gana conta ter uma produção solar de 155 megawatts no fim do ano que vem.

Grupos de mulheres do Uganda, Ruanda e Sudão do Sul estão a receber formação para poderem gerir sistemas solares domésticos. No Uganda, 90 por cento da população não tem electricidade e no vizinho Sudão do Sul a percentagem é ainda maior.

No Quénia, Richard Turere, um jovem maasai de 13 anos, inventou um pastor solar para manter à noite os leões longe das manadas: um painel solar, uma bateria e uma linha de luzes intermitentes de lanternas chegam para assustar os felinos.

A União Europeia também tem planos para se abastecer de energia solar nos desertos do Norte de África. O projecto já está em andamento em Marrocos, unido a Espanha por uma linha submarina.

A administração Obama lançou a iniciativa Power Africa em 2013 para levar luz a 20 milhões de pessoas na África Subsariana. O Governo norte-americano aplicou sete mil milhões de dólares no projecto e espera que a iniciativa privada contribua com os restantes 14 mil milhões. O Power Africa já está a financiar a produção de electricidade limpa na Etiópia, Gana, Quénia, Libéria, Nigéria e Tanzânia aproveitando o sol e os ventos.

20 de julho de 2014

SILÊNCIO

© JVieira

Somos filhas e filhos de uma cultura palavrosa, barulhenta. Pessoas e ideias tendem a ser avaliadas em escalas de decibéis, a publicidade entra-nos pelos olhos e pelos ouvidos, os políticos são malabaristas de semânticas esvaziadas de referências ideológicas e sem pinta de compromisso social, os fazedores de opinião não dão tréguas à inteligência do cidadão comum, os relações públicas sufocam-nos, os telemóveis mandam na nossa vida, o tiquetaquear inexorável dos segundos afoga. 

Vivemos em plena idade digital com os vícios intactos da oralidade de onde viemos.

Na segunda leitura deste domingo, Paulo escreve aos cristãos de Roma – e aos de qualquer lugar e tempo: «O Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza, porque não sabemos que pedir nas nossas orações; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis» (Rm 8:26).

O Espírito Santo é o porta-voz das nossas orações, porque somos fracos e não sabemos o que pedir.

Reza por nós e connosco através de gemidos inefáveis, indizíveis, de silêncios. Porque é no silêncio da briza da tarde que Deus está presente – com o descobriu Elias, o pai dos profetas, no monte da aliança, o Horeb (1 Reis 19:13).

Estamos habituados à espiral do ruído mas é do silêncio das palavras e gemidos indizíveis que precisamos para escutar a Deus e a nós próprios.

Mwanito, a personagem mais jovem de Jesusalém, um romance de Mia Couto, é um afinador de silêncios, um fazedor de silêncios onde o seu pai, Silvestre Vitalício, vive depois de perder a mulher.

Couto acrescenta: «O silêncio é uma travessia. Há que ter bagagem para ousar essa viagem.»

Bom domingo.

15 de julho de 2014

SINAIS DE DEUS


No dia 29 de Maio de 2014 o campo de desalojados de Bileil foi testemunha de um horrendo e maléfico assalto a algumas das organizações e instituições humanitárias e de solidariedade. O ataque foi perpetrado por uma multidão enraivecida e furiosa que, desde há mais de uma década, tenta sobreviver nesse acampamento do Sul do Darfur.

O ataque ocorreu em pleno dia à vista de muitíssimas pessoas aparentemente indiferentes mas que, na verdade, apoiaram a operação que, astutamente planeada e dirigida, não foi segredo para ninguém, pois todos sabem quem foram os autores e os responsáveis destas e outras operações diabólicas semelhantes. Eles são os notoriamente e demasiado conhecidos janjauides que, por sua vez, integram as milícias do Governo desde o início do conflito armado no Darfur, em 2003. Geralmente, eles atacam o povo e/ou organizações humanitárias indistintamente; desta vez, porém, usaram a multidão contra as instituições humanitárias e de solidariedade numa cilada em que os mesmos cidadãos são, no fim de contas, as vítimas dos seus próprios atos. 

Há quase três anos que não frequento a zona de Bileil, a uns 18 quilómetros do centro da cidade de Nyala por  opção pessoal e por indicação do bispo da diocese de El Obeid. A razão é que, como estrangeiro branco, não é conveniente arriscar nem expor-me sem necessidade às autoridades sudanesas que normalmente procuram um pretexto para interromper a minha permanência na região. Deste modo, levariam a cabo o seu conhecido plano de impedir a continuidade da missão da igreja no país.

Por enquanto, não tem havido problemas de maior, pois o meu colega de missão, o padre etíope Asfaha, tem-me substituído excelentemente nesta tarefa. Ele também não deixa de ser estrangeiro no Sudão. Todavia, é naturalmente protegido graças à sua tez escura que lhe permite confundir-se natural e perfeitamente com a cor da pele da maioria dos nativos sudaneses. Este simples estratagema vai de acordo com as instruções de Jesus quando enviou os Apóstolos em missão: «...sede simples como as pombas e astutos como as serpentes.»

De todos os modos, não é dito que o futuro da evangelização neste país seja sempre claro e nítido. Devemos estar preparados para o menos desejável, mesmo para a interrupção da nossa presença como missionários no Sudão. Mas, no fim de contas, Deus é e será sempre o Senhor da messe e da evangelização. Assim, no caso hipotético da expulsão dos missionários por parte das autoridades do país – não o digo sem tristeza e mágoa – só teríamos que sacudir o pó dos nossos pés e avançar para outro lugar onde as pessoas aceitem a palavra de Jesus, como se lê no evangelho: «ide por todo o mundo e proclamai a Boa Nova...»

Mas voltemos ao incidente de Bileil. Dois dias depois do múltiplo assalto no campo de desalojados aí situado, o P. Asfaha visitou a escola Comboni que a igreja dirige no acampamento. Aí teve a oportunidade de ouvir directamente do director da escola, o Sr. Daúd, a triste e horrenda história a que me referi acima. A multidão de atacantes tinha completamente destruído as três instituições/organizações humanitárias com o conjunto das suas clínicas, armazéns de distribuição de alimentos e educação social a vários níveis. As suas construções foram literalmente arrasadas e os seus locais acabaram por ficar reduzidos a puro chão deserto. Os assaltantes não deixaram restos nem escombros. Até as folhas de zinco dos tetos e os tijolos das paredes levaram.

No meio de tanta malvadez há, no entanto, um lado bom e consolador que nos faz reflectir e dar graças a Deus: o facto de a escola básica Comboni de Bileil ter sido poupada à crueldade e agressão da populaça. A verdade é que, embora a multidão enraivecida se tivesse encaminhado decidida e apressadamente para a escola, as suas intenções diabólicas não foram executadas, porque muitas e muitas pessoas de boa vontade, na quase totalidade os pais dos alunos, acorreram com lanças, varapaus e outros instrumentos, inclusive algumas armas de fogo, para proteger aquela que era a escola dos seus filhos. O resultado positivo desta iniciativa veio à luz mas só depois da violenta confrontação com a grande e enfurecida massa humana com quem tiveram de medir forças à entrada do estabelecimento de ensino. É de louvar, no entanto, o não terem usado as armas de fogo.

A defesa da escola Comboni de Bileil por parte dos pais dos estudantes foi um exemplo que nos tocou a ponto de sentirmos dentro de nós o orgulho «santo» por não termos sido trabalhadores inúteis na vinha do Senhor.

Vale a pena semear. Para nós missionários que trabalhamos para a eternidade sem pretensões nem pressa em colher os frutos – no dizer de S. Daniel Comboni – é consolador recordar este evento. São flores a desabrochar no deserto do Darfur que vamos colhendo como sinais de Deus que se vai manifestando ao longo do caminho da missão.

Feliz da Costa Martins - Missionário Comboniano
Nyala, Darfur
Sudão

13 de julho de 2014

SABER COMER

E se o seu organismo não reconhecer aquilo que você come como um alimento? Defende-se, inflama-se, fica doente. É o que fazem muitos dos produtos que levamos à boca. Cristina Sales, médica e especialista em alimentação, garante que na origem da maioria das doenças que afetam o homem do século XXI está o que comemos e o modo como o fazemos. É que os alimentos são veículos de comunicação: dizem às células como devem comportar-se.

Precisamos de mudar a forma como nos alimentamos?

É obrigatório que o façamos porque a alimentação que a população dos países ocidentais, incluindo Portugal, passou a fazer nos últimos cinquenta anos é o que está na origem da maior parte das doenças endócrinas, metabólicas, autoimunes, degenerativas e alérgicas. As novas epidemias devem-se sobretudo aos estilos de vida e à alimentação que fazemos desde o pós-guerra.

A alimentação é decisiva para a saúde e o bem-estar mas está a provocar doenças e a aumentar a mortalidade precoce?

A geração dos nossos filhos terá uma esperança de vida mais reduzida do que a nossa por causa dos estilos de vida e da alimentação. Primeiro, os produtos altamente processados pela indústria alimentar conduzem a uma desnutrição em nutrientes fundamentais e ingerimos uma grande quantidade de calorias vazias. Segundo, são muito diferentes dos alimentos originais e o organismo não sabe lidar com eles, não os reconhece como alimentos. Depois, há uma sobrecarga tóxica inerente à alimentação que provém dos agroquímicos (da produção), dos conservantes, corantes e adoçantes que são adicionados para preservar os produtos durante mais tempo e para os manter bonitinhos.

São alimentos para ver…

Os produtos que nos chegam ao prato foram feitos para vender e não para comer. Não têm nada que ver com os alimentos que ingerimos e que nos fizeram viver e sobreviver ao longo de milhões de anos. Esta mudança ocorreu tão depressa que o organismo não está adaptado para gerir, digerir e assimilar estes produtos, pelo contrário, vê-os como substâncias estranhas e reage, inflamando-se.

Como é que podemos livrar-nos dessa teia?

As escolhas alimentares são condicionadas pela publicidade, as pessoas não são ensinadas a escolher. Quem é que é ensinado a consumir maçãs ou laranjas? Ninguém. A informação que passa de forma subliminar através dos anúncios da TV e dos jornais é que se deve beber sumo de maçã e de laranja. Mas se alguém ler os rótulos das embalagens verifica que contém imenso açúcar, frutose, acidificantes, etc., e o que falta é a maçã e a laranja. É preciso informar, ensinar e consciencializar a população.

A atitude da indústria alimentar tem de mudar?

No global sim, mas também depende do que a indústria faz. A conservação de alimentos através da congelação, por exemplo, é perfeita. Os legumes congelados são uma ótima opção, por vezes mais económica, e chegam ao consumidor mais frescos e com mais nutrientes do que os que são mantidos durante cinco ou seis dias nas cadeias de distribuição. Já quando falamos de alimentos que têm de levar uma quantidade enorme de aditivos para serem consumidos – é o caso das carnes de muito má qualidade e dos aproveitamentos que se fazem dos restos dos mariscos – é diferente. Sempre que tivermos de dobrar a língua muitas vezes para conseguir ler o que está escrito nos rótulos é porque não é comida. Não compre. Será qualquer coisa que do ponto de vista nutricional, químico e metabólico está muito longe do alimento original.

Está a falar de alimentos que duram ad eternum?

Por exemplo. Como é que duram? Fizeram-se estudos com hambúrgueres e batatas fritas – uns feitos em casa, com carne picada, e batatas que foram descascadas, outros com produtos processados e embalados – e verificou-se que ao fim de trinta ou quarenta dias alguns hambúrgueres se mantinham iguaizinhos. Não se degradaram, ao contrário dos que foram feitos em casa, que estavam estragados três dias depois. Ora alguém acha que uma coisa daquelas pode ser comida?

Quando ingerimos produtos desse tipo como é que o organismo reage?

Defende-se e inflama-se ou agarra naquelas coisas que não considera importantes e arruma-as nos depósitos de lixo, que são as células gordas. Estas, além de serem o nosso reservatório de energia, são também o depósito de substâncias tóxicas que o organismo não metaboliza ou não utiliza para impedir que entrem nos circuitos mais nobres. Esta acumulação de lixo cria bloqueios bioquímicos e alterações metabólicas que impedem as células de trabalhar em condições. Hoje ninguém sabe que consequências é que isto tem para o cérebro e o sistema imunitário e para o bom trabalho hepático e digestivo. Os circuitos da toxicidade são cruzados – se uma pessoa come de vez em quando um gelado, um iogurte, umas bolachas ou um sumo que tem um determinado corante é uma coisa, mas se o faz com regularidade, ao fim de seis meses já ultrapassou as doses suportáveis e entra em sobrecarga tóxica.

E o que é que acontece?

Veja-se o ácido fosfórico, um aditivo que está presente em alimentos de consumo diário, como os cereais de pequeno-almoço e os refrigerantes. Quem ingere estes produtos todos os dias, além de ficar com o sistema acidificado e perder cálcio (uma compensação do organismo que depois predispõe à osteoporose), também fica numa excitação – o ácido fosfórico é um estimulante cerebral e é óbvio que uma criança que de manhã come um prato de cereais chega à escola e não para quieta. O ácido fosfórico altera o comportamento e em determinadas concentrações é neurotóxico.

Como é que os alimentos atuam no organismo?

Os alimentos servem para construir tecido, osso, órgãos, etc., e para nos darem energia, mas o que as ciências da nutrição têm vindo a mostrar é que os alimentos são essencialmente moduladores do comportamento celular – são informadores das células, dizem-lhes como devem funcionar. Imagine que tem um prato com uma determinada quantidade de proteínas (peixe ou carne) e outra de hidratos de carbono. Só a proporção entre a quantidade de carne e batatas ingeridas vai informar o organismo da necessidade de produzir uma hormona ou outra, neste caso insulina (que é a hormona do armazenamento) ou glucagon (a hormona do desarmazenamento).

Explique lá melhor…

Se comer mais proteínas do que hidratos de carbono vai produzir mais glucagon e induzir o metabolismo a ir buscar gordura acumulada para disponibilizar às células, ou seja, vai desarmazenar. Mas se comer mais arroz, massa ou batatas vai dar uma ordem em sentido contrário, vai dizer que é precisa mais insulina e vai acumular gordura.

Mas se as pessoas forem ativas podem queimar essa energia…

Isso é outra coisa, o que importa reter é que na proporção hidratos de carbono/proteínas a quantidade de açúcar que chega aos sensores do tubo digestivo aciona imediatamente uma ordem de libertação de glucagon ou de insulina. Se a indicação é libertar glucagon, o organismo vai usar a gordura acumulada, se a ordem for para libertar insulina, o organismo vai armazenar gordura. Isto é pura informação.

Quem quer perder peso tem de saber isso, certo?

Se a pessoa tiver consciência da informação que dá ao corpo tem muito mais capacidade para o modular. Outro exemplo. A leptina, a hormona que sinaliza o apetite, que depende sobretudo do ritmo solar. Ora, uma pessoa equilibrada, que durma de noite e trabalhe de dia, produz mais leptina de manhã (e tem apetite) e ao fim do dia produz menor quantidade (o apetite diminui). Se uma pessoa comer muito à noite estraga este equilíbrio e a certa altura está sempre com fome porque inutilizou os sensores da leptina. Nós somos mamíferos e de noite, quando dormimos, não precisamos de comer. O nosso corpo tem a sabedoria para sinalizar o apetite em função da hora do dia – comer muito à noite estraga essa sinalização, faz ter apetite a toda a hora.

A alimentação é bioquímica?

Os alimentos são veículos de comunicação. Se fizer uma refeição de gordura saturada – uma sopa com um chouriço e depois um cozido à portuguesa – dá um sinal à cárdia (esfíncter entre o estômago e o esófago) para alargar e é assim que ocorrer o refluxo gastroesofágico e aparece a azia. A gordura saturada é um sinal que se dá à cárdia para se manter aberta. Se no dia seguinte a mesma pessoa só comer azeite ou gorduras de peixe não terá azia. Sabe porquê? É que o azeite ajuda a fechar a cárdia. Este é outro exemplo que ilustra a importância do conhecimento. Pessoas mais esclarecidas fazem escolhas mais acertadas.

A forma como nos alimentamos dita o comportamento das células?

Quando ingeridas, as gorduras saturadas e as gorduras ómega 6 (provenientes essencialmente dos animais e dos cereais, sobretudo da soja) são a estrutura a partir da qual as células fazem substâncias pró-inflamatórias. As gorduras ómega 3 – provenientes das algas e dos peixes – são as que permitem que as células produzam substâncias anti-inflamatórias. Se uma pessoa tem uma doença inflamatória (por exemplo, uma alergia, artrite ou doença autoimune) e come muita gordura saturada, esta vai funcionar como substrato para a fogueira e agravar o processo inflamatório da doença que já tem. Ao contrário, se a pessoa ingerir gorduras ómega 3, vai ser capaz de construir extintores de incêndio para que as suas células produzam anti-inflamatórios.

Há outros exemplos?

Se uma pessoa tem tendência depressiva porque não consegue produzir serotonina em quantidade suficiente, deve comer os alimentos que têm os aminoácidos precursores da serotonina – a carne de peru, por exemplo, é extremamente rica em triptofano, que é um precursor da serotonina. Se a pessoa souber isto, no outono, quando o tempo fica mais escuro, porque é que não há de comer mais carne de peru em vez de carne de vaca?

A alimentação e o processo digestivo podem agravar ou controlar certas doenças?

Sim, se uma pessoa tem uma predisposição genética para a diabetes, Alzheimer, etc., a doença só vai manifestar-se se o gene for ativado. Mas o que as pessoas precisam de saber é que os genes também podem ser desativados – é a modulação genética através da nutrigenética. Como? O que ativa ou suprime a expressão dos genes é a presença de determinados fitoquímicos, substâncias que também se encontram nos alimentos.

Podemos dizer que há alimentos anti-inflamatórios?

Claramente. Os que têm ómega 3 – sardinha, cavala e os peixes das águas frias do Norte. Algumas substâncias vegetais dos legumes (tomate), frutos (quivi) e especiarias (a curcuma, que confere a cor amarela ao caril) também têm efeito modulador de alguns genes pró-inflamatórios. Mas alimentos anti-inflamatórios devem ser consumidos, independentemente de se ter doença ou não. Hoje sabe-se que um cérebro com Alzheimer já está inflamado vinte anos antes da manifestação da doença. Todas as doenças degenerativas começam com processos inflamatórias, as autoimunes também. Não conhecemos é as causas.

Há substâncias que devem mesmo ser eliminadas da alimentação?

Os aditivos químicos. Falo das substâncias químicas que não são alimentos, que são usadas pela indústria alimentar e podem ser geradoras de inflamação em contacto com o organismo. A vida corrente não nos permite evitar todos os aditivos, mas se estivermos despertos para esta realidade teremos mais atenção, faremos escolhas mais saudáveis e ingerimos menores quantidades.

E as gorduras?

As gorduras ómegas 6, que se encontram nas margarinas e nos óleos e que são provenientes da soja, do milho e do amendoim, são claramente pró-inflamatórias. Precisamos de ómega 6 no organismo, mas em quantidades muito reduzidas. O problema é que a cadeia alimentar atual é geradora de uma alimentação extraordinariamente rica em ómega 6 e pobre em ómega 3. Basta pensar que, dantes, as galinhas e as vacas comiam erva, agora comem rações provenientes da soja; os peixes comiam algas, agora comem rações também com soja. Os produtos alimentares que usamos são essencialmente da linha produtora de ómega 6.

Nos supermercados temos centenas de alimentos à escolha. Precisamos de tanta coisa?

Não precisamos de tantos produtos alimentares, necessitamos é de maior diversidade alimentar. Essas centenas ou milhares de produtos que vemos nas prateleiras são provenientes de quatro ou cinco alimentos – cereais, lácteos, açúcares e gorduras – e da indústria de processamento. Se olharmos para a quantidade de legumes, frutos, oleaginosas e peixe que as pessoas comem no dia a dia verificamos que não há variedade alimentar, as pessoas comem quase sempre o mesmo. Já pensou na variedade de saladas que é possível fazer? Mas se perguntar a alguém qual é a que come diz-lhe alface e tomate.

No supermercado fazemos escolhas condicionadas pela publicidade e o marketing. Como podemos fugir a isso?

Só vai mudar com a informação dos cidadãos. Nos países do Norte da Europa, onde a população é muito mais esclarecida, não encontramos nos supermercados esta quantidade enorme de alimentos-lixo – basta verificar que o espaço ocupado por refrigerantes, cereais de pequeno-almoço e óleos alimentares é muito reduzido. Exatamente o oposto do que se passa em Portugal.

A crise económica e as dificuldades das famílias podem piorar ainda mais a alimentação dos portugueses?

Também pode acontecer o contrário. Numa altura em que todos sentimos uma necessidade absoluta de gerir muito bem os orçamentos familiares, devemos fazer listas de compras de forma racional. E antes de comprar certos produtos alimentares, é obrigatório perguntar: «Preciso mesmo disto? Vale a pena? Faz-me ficar mais forte, vital, inteligente? Tem mais nutrientes?» Ocasionalmente, podemos comprar os tais alimentos que não comportam nenhum valor acrescentado mas que agradam ao paladar, mas isso é num dia de festa.

De que produtos podemos e devemos mesmo prescindir quando vamos às compras?

Devemos tirar os refrigerantes, cereais com açúcar, pastelaria, óleos e margarinas – para cozinhar devemos usar o azeite, só azeite. Todos os refrigerantes são um estrago de dinheiro – as pessoas devem beber água. Os cereais com açúcar (os de pequeno-almoço e as bolachas) também são prescindíveis – devemos escolher cereais completos, integrais, que até são mais baratos. Compare-se o preço de uma caixa de cereais de pequeno-almoço com o de um pacote de flocos de aveia, que são altamente nutritivos. A aveia é muito mais barata e muito nutritiva.

Mas comprar carne magra e peixe gordo, frutos e hortaliças é muito mais dispendioso…

Mas há estratégias que podem ser implementadas. Uma é comprar carne de melhor qualidade e comer menos quantidade e menos vezes. É preferível comer carne três vezes por semana em vez de comer carne gorda todos os dias. Além disso, toda a gente ganha se fizer uma alimentação vegetariana dois dias da semana e em vez da carne comer, por exemplo, arroz de feijão ou grão-de-bico com massa. Se se acrescentar hortaliças, ervas aromáticas e azeite, podemos dizer que são refeições perfeitas. Menos carne, mas de melhor qualidade; mais peixe (incluindo cavala e sardinhas, frescas ou em conserva de azeite) e ovos (podem ser consumidos três ou quatro por semana) são opções a privilegiar.

Não retira massa, arroz ou batatas ao seu carrinho de compras?

Não, mas reduzo as quantidades ingeridas. No prato devemos ter pequenas porções de massa, arroz ou batatas e maior quantidade de hortaliças, legumes e leguminosas.

Fala-se muito na responsabilidade social da indústria farmacêutica, que ganha dinheiro à custa do tratamento dos doentes. E quanto à responsabilidade social da indústria alimentar, que ganha dinheiro atirando-nos para a doença?

A indústria alimentar está a fazer maus alimentos, mas a verdade é que as pessoas só compram o que querem. Sei que quanto menor é a informação maior é a permeabilidade ao marketing, mas o caminho também se faz através da informação dos cidadãos e da sua responsabilização. Custa-me imenso ver nas caixas de supermercado que as pessoas aparentemente mais pobres também são as que levam os carrinhos repletos de produtos inúteis e nefastos para a sua saúde. É preciso repensar a política alimentar e inovar.

Cristina Sales

A medicina que Cristina Sales exerce dá pelo nome de medicina funcional integrativa – reúne diferentes disciplinas, profissionais e recursos terapêuticos, é centrada na pessoa e procura entender onde estão os desequilíbrios que desencadeiam a doença. Para uns, trata-se de uma abordagem vanguardista, mais adaptada aos pacientes, ao tratamento e controlo das chamadas doenças da civilização. Para outros, a prática médica de Cristina Sales ainda gera alguma desconfiança. Quem não receia são os doentes que a procuram – sobretudo pessoas que vivem com doenças crónicas (alergias, enxaquecas, fadiga crónica, doenças inflamatórias, endócrinas, metabólicas e autoimunes) e que não encontraram resposta satisfatória para os problemas que as afetam. Uma consulta com a médica do Porto dura uma hora e não se marca de um dia para o outro. Porque os pacientes já são muitos e porque as palestras e conferências em que Cristina Sales é oradora convidada também são frequentes.

11 de julho de 2014

MONTE D0S PARADOXOS

Mesquita da Ascensão ©JVieira

Estive na Terra (cada vez menos) Santa uma semana como guia espiritual de 24 peregrinos – duas vezes o grupo dos 12 apóstolos – de 1 a 8 de Julho.

Entre os locais que tínhamos previsto visitar, um sábado, encontrava-se o Monte das Oliveiras, que domina Jerusalém, o Monte onde Jesus chorou por a cidade não ter reconhecido a paz que ele oferecia, o Monte da agonia; do beijo gelado da traição de Judas.

Já sentados no autocarro, a guia, uma judia com raízes no Uruguai, reuniu-se de emergência com o condutor, um palestiniano, e eu: fora informada pela agência para lhe trabalhava dde que não era seguro visitar a mesquita – sim, a mesquita – da ascensão, no cimo do Monte das Oliveiras, por na sexta-feira a área ter sido sido cenário de confrontos entre palestinianos que protestavam a morte violenta de um jovem queimado vivo em retaliação pelo assassínio de outros três judeus, por membros do Hamas, na Faixa de Gaza.

Durante uns instantes não houve acordo entre o motorista e a guia, aquele a afirmar que a visita era, sim, segura, com base em contactos que entretanto fizera, esta a insistir que não era, pondo objecções e seguindo as indicações da polícia.

Decidimos arriscar!

O cenário que nos esperava era arrasador. O monte chamado das Oliveiras, devia cheirar a azeite novo, à frescura das árvores milenares. Mas encontrámos as ruas juncadas de pequenos montes de areia, pedras de arenito atiradas pela raiva, estilhaçadas em milhares de grãos de areia contra o alcatrão negro e duro na batalha campal com as forças da (des)ordem.

Ao sair do autocarro fomos envolvidos por um cheiro nauseabundo a baganha podre. Alguém comentou: «Estes árabes são muito porcos!» Mas o cheiro não era a alguém privado da pópria água, era o rasto do odor deixado pelas granadas de gases que a polícia usara no dia anterior para dispersar os manifestantes…

Uma brigada de cantoneiros trabalhava afanosamente para limpar as ruas dos detritos da ira.

Visitámos o lugar onde a tradição diz que Jesus subiu ao céu. Era igreja, hoje é mesquita. Não tinha tecto, hoje tem uma cúpula de pedra. Mas os muçulmanos construíram um espaço de oração à direita para permitir aos cristãos celebrar o fim do ciclo de Jesus e o início da Igreja segundo a narrativa de São Lucas.

No domingo fizemos a Via-Sacra através da Via Dolorosa que serpenteia pelo Bairro Árabe de Jerusalém, o percurso que Jesus fez da Torre Antoniana até à pedreira da caveira – o Monte Calvário – onde foi crucificado num cruzamento de estradas como exemplo para os revolucionários que contestavam a dominação romana.

Perto de uma das portas que dá acesso à Esplanada do Templo onde se encontram as mesquita de Al Aqsa e da Rocha, um grupo de mulheres gritava Allah Wakbar! Deus é grande! Um dos peregrinos perguntou-me: «É um funeral não é, senhor padre?». Respondi que sim. Mas sabia que o pregão religioso era o protesto contra os seis palestinianos mortos por raides retaliatórios da aviação israelita contra o Hamas da Faixa de Gaza na noite de sexta-feira.

O pregão celebrava as mortes humanas atrás da grandeza de Deus!... A Terra de Jesus continua a ser um espaço cada vez menos santo. Dói. Dói de a visitar assim.

10 de julho de 2014

CINE ÁFRICA


Uma queniana levou a estatueta de melhor atriz secundária nos Óscares 2014 e voltou as atenções para o cinema africano.

Lupita Nyong’o foi galardoada com o Óscar de melhor atriz secundária pelo seu desempenho na película Doze Anos Escravo, que ainda não vi. A seguir, a revista People nomeou-a a pessoa mais bonita de 2014. As distinções abriram novos horizontes à atriz, esbelta e enxuta, de 31 anos e 1,65 m de altura, que nasceu no México, cresceu no Quénia, fez formação de teatro nos Estados Unidos, e despertaram a atenção sobre o bom cinema que se faz no continente.

A indústria cinematográfica africana começou a raiar na alvorada das independências e a película Borom Sarret (O Carroceiro), que o senegalês Ousmane Sembene rodou em 1963, é considerada o primeiro filme africano. A curta-metragem conta em 20 minutos a história de um condutor de carroças em Dacar, a capital do Senegal, numa parábola sobre os mecanismos da pobreza em África.

Os cineastas africanos empenharam-se em apresentar a cultura, a história e as estórias do continente para ultrapassar os estereótipos do tipo Tarzan produzidos pelos realizadores coloniais. «A primeira tarefa dos cineastas africanos é mostrar que os Africanos são seres humanos e ajudá-los a descobrir os seus valores, que podem ser postos ao serviço dos outros», proclamou o realizador Souleymane Cissé, do Mali.

O cinema africano independente foi crescendo e tornou-se presença constante no Festival de Cannes, na França, desde 1972, e noutros certames mundiais. Guardo a impressão forte que Yeelen (A Luz) de Cissé deixou em mim pela luminosidade e pelos enormes horizontes. O filme de 1987 narra a viagem de um jovem com poderes mágicos em busca de um tio para o ajudar a combater o pai feiticeiro que o queria aniquilar.

Hoje o cinema africano tem dois centros de produção maiores: Nigéria e África do Sul. Em 1972, Ola Balogun começou a adaptar ao cinema peças de teatro da cultura ioruba e deu origem a uma indústria que hoje faz mais de 590 milhões de dólares por ano. Os nigerianos produzem por ano mais de mil títulos em vídeo para o pequeno ecrã e estão quase a par de Bollywood, a indústria de cinema indiana, que lidera a produção mundial. Os filmes misturam amor, ação e feitiço, colando os telespectadores ao pequeno ecrã. O Gana segue o sistema de produção nigeriano, conhecido por Nollywood.

A África do Sul faz um cinema comercial mais do tipo de Hollywood e tira partido da diversidade de paisagens do país e dos custos de produção baixos. Tsotsi, a história de um delinquente juvenil de Joanesburgo, foi distinguido com o Óscar de melhor filme em língua estrangeira em 2006.

O cinema independente africano sofre de moléstias crónicas: dependência de fundos externos, falta de circuitos de distribuição e de salas de cinema. As películas africanas pouco mais conseguem fazer que os circuitos dos festivais do cinema, que têm quatro grandes eventos no próprio continente: o FESPACO, em Burkina Faso, um festival bienal desde 1969, o ZIFF, na ilha de Zanzibar, Tanzânia, o Cape Town World Cinema Festival, na África do Sul, e, desde 2012, o Luxor African Film Festival, no Egipto. Os poucos grandes cinemas africanos que restam vão sendo transformados em igrejas – como em Juba, clubes nocturnos ou armazéns, excepto no Quénia e na África do Sul, onde os cinemas são um dado cultural.

A indústria instituiu em 2005 os African Movie Academy Awards, com sede na Nigéria, para promover filmes, unir produtores, desenvolver novos valores, abrir canais de distribuição e criar cinemas rurais.

As novas gerações de produtores africanos estão a produzir um cinema mais intimista, filosófico e poético, em contraste com a vertente mais política dos pioneiros da Sétima Arte.

Zézé Gamboa, realizador angolano do Grande Kilapy – a história real de um Don Juan angolano antes da independência –, comentou que «muitas pessoas em Angola são analfabetas. Não podem ler livros, mas compreendem tudo sobre filmes, falam a língua, vêem as imagens. É um meio de desenvolvimento poderoso». Essa é a força do cinema africano: fala aos espectadores na linguagem que entendem. Quando o conseguem ver, sobretudo no pequeno ecrã em DVD piratas.

1 de julho de 2014

ASSISTÊNCIA HUMANITÁRIA


Os Missionários Combonianos no Sudão do Sul organizaram um voo humanitário para assistir cerca de 1000 vítimas da violência interétnica que afeta Leer desde Fevereiro.

A decisão foi tomada depois de uma visita à cidade pelo Superior Provincial, P. Daniel Mosquetti e do Irmão Nicola Bortoli a meados de Junho, para avaliar a situação humanitária e inspeccionar a missão católica.

Leer, a cidade natal de Riek Machar Teny, líder da oposição armada ao Presidente Salva Kiir Mayardit, foi tomada pelas forças do Governo, ajudadas por rebeldes do Darfur, em que a reduziram a cinzas a 2 de fevereiro.

Os rebeldes voltaram a ocupar os escombros em Abril.

O P. Moschetti diz num relatório que cerca de 6,000 famílias já regressaram do mato, mas que só as residências dos missionários e das missionárias, o jardim-de-infância, os edifícios da igreja e a escola técnica estão de pé com alguns danos menores.

Os edifícios foram totalmente saqueados.

Os edifícios estão ocupados por membros de organizações não-governamentais, das agências das Nações Unidas e por algumas famílias.

Os Médicos Sem Fronteiras voltaram a Leer em Maio e além de distribuir comida estão a reorganizar o hospital que foi totalmente destruído.

O Ir. Nicola fez parte de um grupo de nove missionários que teve que abandonar Leer na iminência do ataque governamental e andaram perdidos nos matos e pântanos da região até serem encontrados e resgatados a 20 de fevereiro.

Os dirigentes católicos locais pediram aos missionários que os assistissem com sorgo, lentilhas e açúcar.

O Ir. Nicola acompanhou um avião fretado com comida para cerca de 1,000 pessoas para fiscalizar a distribuição e vai permanecer em Leer até meados do mês.

Tanto as missionárias como os missionários estão dispostos a regressar a Leer logo que a segurança melhore.

Representantes do Governo, dos rebeles, da sociedade civil e das igrejas estão a negociar desde maio uma saída para o conflito de poder dentro do partido do Governo que rebentou a 15 de Dezembro em Juba e depressa escalou a três estados viziznho com populações dinca e nuer. Cerca de 20 mil pessoas foram mortas nos confrontos e mais de 1,2 milhões desalojadas.

O IGAD, a Autoridade Inter-regional para o Desenvolvimento, está a facilitar as negociações e deu dois meses aos intervenientes para formarem um governo de unidade nacional.

As cidades de Bor, Bentiu e Malakal, as capitais dos estados de Jonglei, Unidade e Nilo Superior foram completamente destruídas.

A diocese católica de Malakal foi também temporariamente fechada por causa dos violentos combates entre milícias nueres e tropas. Só a missão de Old Fangak, que fica numa zona remota acessível por ar ou por rio, é que continua a funcionar normalmente.

27 de junho de 2014

CORDIALIDADE


Como missionários somos chamados a explorar a cordialidade como atitude evangelizadora que brota da contemplação do Coração escancarado de Cristo e nos leva a ver o mundo e a missão através do olhar misericordioso do coração ao jeito de São Daniel Comboni.

O coração é um símbolo poderoso e constante na linguagem de Daniel Comboni. Nos Escritos, a palavra aparece 1046 vezes no singular e 229 vezes no plural.

No preâmbulo da quarta edição do Plano para a Regeneração da África Central, escreve: «O católico, habituado a julgar as coisas com a luz que lhe vem do alto, olhou a África não através do miserável prisma dos interesses humanos, mas do puro raio da sua fé [… e]sentiu que o seu coração palpitava mais fortemente; e uma força divina pareceu empurrá-lo para aquelas bárbaras terras, para apertar entre os seus braços e dar um ósculo de paz e de amor àqueles infelizes irmãos seus» (Escritos 2741).

Comboni contrasta assim a atitude cordial do «filantropo cristão» que acelera as batidas do coração perante a situação africana com os interesses das potências europeias que queriam civilizar a África e «obrigar a natureza a revelar também naquelas imensas regiões os tesouros virgens das suas enormes produções em benefício da família humana» (Escritos 2740).

E continua: «A desoladora ideia de ver suspensa, talvez por muitos séculos, a obra da Igreja em favor de tantos milhões de almas que gemem ainda nas trevas e na sombra da morte, deve ferir profundamente e magoar o coração de todo o devoto e fiel católico, inflamado do espírito da caridade de Jesus Cristo.» (Escritos 2752).

DO CÉREBRO AO CORAÇÃO

Foi o Papa Francisco que me despertou para a cordialidade como lugar teológico e virtude cristã. Ele emprega a palavra cordial oito vezes na Exortação A alegria do Evangelho (EG).

Como homens, estamos habituados a funcionar a partir da razão: somos mais cerebrais que cordiais, mais efetivos que afetivos. A conversão – metanoia em grego – significa literalmente ver para além (meta) da mente, intelecto razão (noia). Daí o grande convite e desafio de Jesus: «Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve» (Mt 11:28-30).

Somos convidados a caminhar do cérebro para o coração. A cordialidade – a capacidade de viver a partir do coração – leva-nos a aprender do coração manso e humilde de Cristo em contraste com a arrogância agressiva do «euismo» individualista globalizado e dominante que «favorece um estilo de vida que debilita o desenvolvimento e a estabilidade dos vínculos entre as pessoas» (EG 67), que em conjunto com a crise de identidade e o declínio de fervor debilita os evangelizadores (EG 78) e «divide os seres humanos e põe-nos uns contra os outros visando o próprio bem-estar» (EG 99), uma forma de hedonismo pagão (EG 193).

A sociedade contemporânea é altamente competitiva, agressiva, agressora e neurótica. No Sermão da Montanha, a magna carta do cristianismo que tanto tem impressionado não cristãos como Gandhi, Jesus recorda-nos que os mansos são felizes porque possuirão a terra (Mt 5:5).

Jesus também nos convida a viver a partir do coração: «Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício» (Mt 9:13). O que nos leva de novo às bem-aventuranças: «Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia» (Mt 5:7). E a outro dito de Jesus: «Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso» (Lc 6:36).

Misericórdia vem do latim, é composta por miser (mísero, infeliz) + cor (coração) e o sufixo ia e significando a capacidade de sentir a desgraça alheia. Este é o jeito de Deus, viver assim é ser imagem e semelhança de Deus!

A misericórdia é parte integrante da experiência cristã. Zacarias, o pai do Batista, bendiz o mistério da encarnação como visita do coração misericordioso do nosso Deus (Lc 1:78).

Daniel Comboni queria os seus missionários «santos e capazes». E define a capacidade como caridade: «Antes de tudo, devam ser santos, isto é, completamente alheios ao pecado e à ofensa a Deus, e humildes; isso não basta: precisam de ter caridade, que é a que os torna capazes» (Escritos 6655). Aliás, o amor é a via ordinária da experiência de Deus: «Aquele que não ama não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor» (1 Jo 4:8).

Celebrar o Coração de Cristo, é fazer memória da cordialidade misericordiosa de Jesus que veio para chamar não os justos mas os pecadores à «metanoia» (Lc 5:32), a ir para além da mente e viver a partir do coração porque Deus nos quer «discípulos missionários» (EG 89-90) segundo o seu coração (Act 13:22).

20 de junho de 2014

MEMORÁVEL








©JVieira
A Banda Missio apresentou na quinta-feira o seu primeiro CD com um concerto memorável de duas horas que esgotou e levou ao rubro a Sala Dois da Casa da Música do Porto.

O P. Leonel Claro, Missionário Comboniano que fundou a banda em Maio de 2009, disse na apresentação que a Missio era uma banda de evangelização e a apresentação do álbum ConTigo um momento de oração.

A banda tocou os 13 temas do CD, assinados pelo P. Leonel, com letras que falam de abertura, saída, encontro, missão e evangelização e melodias que vão do pop ao rock.

Um número de convidados, incluindo o P. Jorge Castela da Banda Jota, Os Pródigos, o coro Sol Maior, a cantautora Claudine Pinheiro e a violinista Sofia Pinho, juntaram-se à Banda Missio para interpretar algumas das composições.

O público, que esgotou o concerto, aderiu desde o princípio, participando nos refrões que entravam mais facilmente no ouvido e nas dinâmicas que acompanhavam algumas canções.

O P. Jorge Castela, um diocesano da Guarda, fundador da Banda e do Festival Jota, explicou que «os projetos de música de inspiração cristã valem porque proclamam a Palavra do Senhor.»

A Banda Missio tem sete músicos e cantores e já fez mais de 60 atuações em ambientes juvenis de Igreja, incluindo jornadas diocesanas, concertos de oração e de solidariedade para espalhar «uma mensagem evangelizadora e de fraternidade.»

O P. Leonel explicou que fundou a banda «para chegar a ambientes juvenis dentro do quadro da pastoral vocacional juvenil.»

19 de junho de 2014

ConTigo


A Banda Missio apresenta hoje ConTigo, o seu primeiro CD, num concerto na emblemática Casa da Música, no Porto, às 21h30, com lotação esgotada. Claudine  Pinheiro e o P. Jorge Castela da Banda Jota são convidados do espectáculo. 

ConTigo traz 13 temas assinados pelo Padre Leonel Claro e é editado pelas Edições Salesianas.

O CD transporta o ouvinte num cavalo alado por paisagens sonoras e poéticas com o coração vestido de rosas de esperança ao sol, libertado dos medos e da solidão, no mar alto, caminhando pela praia fora, pelos montes, aldeias e cidades, para rasgar horizontes, ultrapassar fronteiras, refazer pontes e cais, gerar comunhão, libertar estrelas com olhares cruzados de sorrisos convidando a partir com alegria sob o olhar meigo de Deus.

O P. Leonel, missionário comboniano de Penude, explicou que fundou a banda em Maio de 2009 «para chegar a ambientes juvenis dentro do quadro da pastoral vocacional juvenil.»

A Missio tem sete músicos já fez mais de 60 actuações em ambientes juvenis de Igreja, incluindo jornadas diocesanas, concertos de oração e de solidariedade.

9 de junho de 2014

COMBONIANOS IBÉRICOS CONVIVEM


Uma dúzia de irmãos e padres combonianos a trabalhar em Portugal e 11 em Espanha passaram um fim-de-semana de conhecimento mútuo em Fátima.

Os 23 participantes vieram das comunidades de Madrid e Granada, em Espanha, e Lisboa, Camarate, Santarém, Maia e Viseu, em Portugal.

Chegaram na sexta à noite e depois do jantar fizeram as apresentações e o programa do encontro de convivência.

No sábado, fizeram a Via Sacra de São Daniel Comboni nos Valinhos e presidiram e participaram na Eucaristia do meio-dia na Capelinha das Aparições. De tarde, visitaram Santarém e o noviciado ibérico, nos arredores da cidade.

No Domingo, depois do pequeno-almoço houve um encontro de partilha de experiências nas áreas da animação missionária e vocacional e deixaram algumas pistas concretas de colaboração entre as províncias combonianas da península ibérica no âmbito da formação de base, formação permanente, justiça e paz e governação.

Seguiu-se a missa do Pentecostes na esplanada do Santuário e o almoço de despedida.

«O encontro – conta o P. Carlos Alberto Nunes, que o organizou – foi vivido na amizade e simplicidade. Podemos conhecer-nos uns aos outros e conhecer melhor as actividades missionárias que desenvolvemos nos dois países. Tivemos tempo para a apresentação pessoal e para a partilha das nossas actividades concretas e tentamos perspectivar algumas acções em conjunto para a missão comum que temos na nossa Europa.»

E concluiu: «O caminho faz-se caminhando... E nós queremos que este primeiro passo tenha seguimento, possibilitando mais abertura e envolvimento de todos para uma maior colaboração, união e comunhão na missão que, hoje, nos reúne na Europa.»

Os participantes gostaram do carácter informal do evento, descrevendo-o como simples e positivo, uma experiência concreta da teologia da relação.

E querem repeti-lo em junho de 2015 em Espanha.

6 de junho de 2014

PAPA PEDE ORAÇÃO PELA PAZ


O Papa pediu aos líderes da Igreja que organizem uma oração especial pela paz ao mesmo tempo que ele reza com os chefes de Israel e da Palestina no domingo no Vaticano.

Francisco convidou os presidentes de Israel e da Autoridade Palestiniana para virem ao Vaticano para uma «oração intensa» pela paz duradoura no Médio Oriente.

O convite foi feito durante a sua visita oficial à região em fins de maio.

O Papa esclareceu os jornalistas durante o voo de regresso que o encontro do Vaticano será um encontro de oração e não de mediação ou para encontrar soluções.

Shimon Perez e Mahmound Abbas aceitaram o convite e vão estar no Vaticano a 8 de Junho, domingo de Pentecostes, juntamente com o Patriarca Bartolomeu de Constantinopla.

O Papa Francisco «quer que em cada circunscrição eclesiástica, os ordinários locais com os agentes de pastoral e religiosas e religiosos organizem com os fiéis e as pessoas de boa vontade uma oração especial para pedir a Deus o dom da Paz duradoura inspirados pelas palavras de Jesus “Digo-vos ainda: Se dois de entre vós se unirem, na Terra, para pedir qualquer coisa, hão-de obtê-la de meu Pai que está no Céu” (Mateus 18:19)», círculos diplomáticos do Vaticano anunciaram.

O Vaticano anunciou que o encontro de domingo será caracterizado por músicas, orações, invocações de paz e pedidos de perdão. Com os protagonistas, estarão presentes rabinos, expoentes muçulmanos e sacerdotes.

5 de junho de 2014

SENHOR COMENDADOR

O Ir. Zé Manel (2º E) com amigos colombianos
O Presidente da República incluiu um missionário comboniano português entre as 30 personalidades distinguidas por ocasião do Dia de Portugal.
Cavaco Silva atribuiu a condecoração da Ordem do Mérito ao irmão José Manuel Salvador Duarte.
A notícia está na página oficial da Presidência da República Portuguesa.
O Ir. José Manuel tem 48 anos e é da Lourinhã.
Encontra-se na Colômbia há 12 anos.
O missionário ficou muito surpreendido quando telefonei para lhe dar os parabéns e lhe comuniquei que era comendador.
«Sou a mesma pessoa!» - disse.
O irmão José Manuel é alma de um grupo de voluntários que acompanha 180 detidos, cerca de 300 sem-abrigo e 3500 famílias deslocadas pelo conflito das FARC em Medellín, a segunda cidade da Colômbia.
Explicou-me que com a ajuda de supermercados conseguem dar uma refeição quente diária aos sem-abrigo.
Também dão assistência espiritual e médica.
O irmão José Manuel é Missionário Comboniano desde 1995.
Fez a sua formação missionária em Bogotá, na Colômbia, entre 1995 e 1998.
Depois de trabalhar cinco anos em Portugal, voltou à Colômbia em 2002.
Passou pelas comunidades de San José, Agua Chica e Bogotá.
Actualmente é o formador de candidatos colombianos à vida missionária comboniana em Medellín.

FÁTIMA (BANGUI) SOB FOGO

O tiroteio atingiu um cálice na sacristia
A 28 de maio, um grupo atacou a paróquia de Nª Srª de Fátima, em Bangui, a capital da República Centro-africana onde estão refugiadas mais de 6000 pessoas desde que as milícias Seleka muçulmanas tentaram tomar o poder pela força em Agosto de 2012. Um missionário comboniano narra quase duas horas de puro terror. 

Habituado ao ritmo da vida provocado pela crise, quarta-feira, 28 de maio, parecia mais um dia normal de crise com disparos aqui e ali. De manhã, ouviu-se tiros esporádicos em PK5 (um bairro predominantemente muçulmano) e todos pensámos que era a música diária a que nos habituámos. Mas não era: foi o pior dia na história da paróquia de Nossa Senhora de Fátima, em Bangui, a capital da República Centro-Africana.

Eu estava a fazer a hora de sesta diária quando tudo começou. O tiroteio intensificou-se mas eu estava convencido que ia terminar mais cedo ou mais tarde. Fui à casa de banho e voltei ao quarto para um duche. Mal acabei as pessoas começaram a correr à procura de abrigo. Vesti-me rapidamente para não ser surpreendido nu no meu quarto (pelo menos para morrer vestido).

Houve um intervalo e pensei que o tiroteio estava a esmorecer. Fui para a minha sala de estar, separada do quarto por um cortinado, e comecei a preparar os comentários para a missa da Ascensão. As armas voltaram a disparar, desta vez mais perto da paróquia. O padre Samuel Langena, comboniano da Etiópia, telefonou do seu quarto, que está a oito metros do meu. Disse a brincar que hoje estavam a jogar a «final» e o vencedor levava a taça. Momentos depois, as coisas ficaram demasiado sérias. As explosões das granadas faziam tremer a terra. Eu sentia as vibrações nos meus pés. Os escuteiros e alguns dos «anti-balakas» (milícias cristãos) obrigaram as pessoas a sair das varandas e procurar refúgio noutro lugar.

Alguns minutos depois os «anti-balakas» ficaram sem munições e tiveram que fugir deixando os portões da paróquia escancarados e sem segurança.

Os atacantes entraram sem resistência e começaram a atirar indiscriminadamente sobre as pessoas. Muitos dos jovens enérgicos conseguiram galgar os muros, embora em algumas esquinas fossem repelidos pelos atacantes que estavam bem posicionados. Em frente da morte, tornamos-nos mais criativos. As pessoas encontraram lugares de refúgio até entre as próprias bagagens. Muitos dos quartos na casa dos padres estavam cheios de pessoas: até o estreito corredor murado para as nossas casas de banho acomodou mais de 70 pessoas. As sete salas para a catequese estavam completamente cheias. Tivemos muita sorte que os atacantes não suspeitaram que as pessoas se esconderam nas salas. Estavam mais interessados em atirar granadas para a igreja, que surpreendentemente estava vazia.

Estava no meu quarto sem saber o que fazer. Tentei contactar algumas pessoas para nos virem salvar. Ouvi a voz do padre Jonas Béka a tentar chamar os «sangaris» (tropas francesas) e a informar o seu tio General Yangongo Xavier Sylvestre, que foi ministro no governo anterior, sobre o ataque. Quando as coisas se tornaram impossíveis telefonei ao superior provincial, o padre Giorgio, para lhe dizer o que estávamos a passar. Por momentos senti-me perdido e incapaz de usar o telemóvel. Ouvi alguém atrás da igreja a pedir a Deus que enviasse o seu poder para nos proteger do poder de Satanás e também a pedir à Senhora de Fátima para não nos abandonar. Subitamente, encontrei-me envolvido numa nuvem de fumo. Corri para me esconder no chuveiro. Houve forte tiroteio no nosso terreiro por uns 25 minutos. Ainda não sei como saí deixando a porta do quarto aberta. Em todo o terreio da paróquia havia pessoas a gritar e a chorar. Havia sete cadáveres à frente da igreja e muitas pessoas carregavam os feridos tentando encontrar maneira de os levar para o hospital.

O padre Samuel Langena, que também estava a fazer a sua sesta, pensou que os tiros iriam durar pouco e estava a usar o telemóvel para gravar o tiroteio como sempre o faz. Mas como os tiros cresceram em intensidade ficou preocupado e telefonou-me para perguntar o que se passava. E perguntou se era a final da taça. Ansioso, ficou sem saber o que fazer. Estava indeciso se ficar no quarto ou abrir a porta e escapar. Ele disse que me telefonou segunda vez para eu rezar pelas pessoas mas eu não me lembro.

Quando as coisas pioraram, ele mudou-se do quarto para a sala enquanto rezava a Deus para não nos abandonar. A certo ponto, os atacantes bateram à sua porta e disseram-lhe em inglês para abrir. Teve a impressão que os outros padres já tinham sido mortos e que ele seria o único sobrevivente. O medo cresceu e sentiu a sua morte eminente.

Por milagre, pegou no seu terço de três metros e começou a rezar. Havia um grande silêncio: só se ouvia tiros e explosões. Não sabe como rastejou no chão. Sentia-se paralisado. Não se escondeu no chuveiro como eu, porque pensou que era uma maneira indigna de morrer. Preferiu ficar no chão da sua sala de estar com o rosário.

Quando as pessoas voltaram a falar, abriu a porta e saiu descalço com o seu comprido terço ao pescoço a ver ser os confrades ainda estavam vivos. Quando se deu conta de que estávamos todos bem ficou aliviado do choque. Recebeu uma chamada do superior provincial a tentar encorajá-lo. Esta foi a experiência mais terrível que teve até hoje. Ficou marcado pelo modo como viu as pessoas a sairem da paróquia a gritar e chorar. O barulho normal de 6000 deslocados tornou-se no silêncio do cemitério. Depois do incidente, ele passou a noite em claro e ainda é atormentado por pesadelos ocasionais.

Caminhando no terreiro no dia seguinte, foi terrível ver os lugares afectados pelos tiros e granadas. Quase todos os vitrais da igreja foram destruídos. Duas granadas foram atiradas contra a porta principal mas não a danificaram. Os atacantes pensaram que as pessoas se esconderam na igreja. Teria sido uma carnificina se tivéssemos deixado as pessoas esconderem-se na igreja. Outras destruições: motorizadas queimadas e paredes e tetos destruídos pelas balas.

A parte pior foi a destruição humana. As pessoas falam de mais de 50 feridos e 15 mortos, incluindo um ex-padre diocesano que estava de passagem. Testemunhas oculares disseram que os atacantes levaram alguns jovens em dois todo-o-terreno brancos. Até agora não se sabe nada sobre eles.

Apesar da gravidade do ataque, as pessoas estavam felizes por nos verem vivos.

Este incidente põe algumas questões sérias: como é possível que depois de seis meses da presença de MISCA (missão internacional) e Sangaris (missão francesa) em Bangui ainda haja tanta insegurança? Também é quase certo que os atacantes passaram pelo mercado principal chamado KM5 e o mercado não é longe da base das tropas internacionais. Como é possível que não os viram? A paróquia fica entre dois postos de controlo das tropas do Burundi e ambos estão a menos de um quilómetro da igreja. Porque não vieram em nossa defesa a tempo tendo em consideração que os atacantes permaneceram quase duas horas à volta da paróquia? Como é possível que Bangui continue tão inseguro depois de seis meses de presença de forças estrangeiras? Não sabemos para onde caminhamos. Estamos em crise a todos os níveis.

Continuamos a rezar por este país.
Padre Moses Otii, Missionário Comboniano ugandês
Fátima – Bangui, 31 de Maio de 2014

4 de junho de 2014

AS NOSSAS MENINAS

O sequestro de mais de 300 alunas de uma escola secundária nigeriana por fundamentalistas islâmicos indignou milhões de pessoas que as adoptaram e exigem a sua libertação.

A 14 de Abril à noite, um camião militar parou junto da escola Secundária Feminina de Chibok, no Estado de Borno, Nordeste da Nigéria. Os supostos militares carregaram no veículo as mais de 300 alunas que estavam a fazer os exames finais. As meninas foram levadas para parte incerta, mas cerca de meia centena conseguiu fugir das garras dos sequestradores.

Abubakar Shekan, o cabecilha do grupo islâmico Boko Haram, reivindicou a autoria da operação. Num vídeo de péssima qualidade, com modos bruscos de actor alucinado, entre berros e gargalhadas, disse que as alunas com idades entre os 16 e os 18 anos eram «escravas» e que as ia vender por menos de dez euros cada porque tinha mercado para elas.

O drama das alunas de Chibok chocou o mundo inteiro e desencadeou uma onda de indignação nas redes sociais, exigindo o seu regresso. Figuras mediáticas e anónimas juntaram o seu clamor contra o acto desumano. Manifestações começaram nas ruas de Abuja, a capital da Nigéria, e alargaram-se à escala planetária. As alunas de Chibok foram adoptadas e tornaram-se as meninas de todos, que as querem de volta sãs e salvas.

Os Estados Unidos ofereceram logo ajuda ao Governo nigeriano para encontrar e libertar as reféns, mas levaram uma nega: o secretário norte-americano John Kerry desabafou que o presidente nigeriano, Goodluck Jonathan, «tinha a sua própria estratégia». Reino Unido, França, China, Gana e Ruanda também ofereceram os seus préstimos e Teerão condenou o acto hediondo. Jonathan acabou por aceitar a colaboração de uma equipa não militar americana.

As 276 estudantes continuavam desaparecidas a meados de Maio. O Boko Haram publicou fotos de algumas vestidas segundo os seus preceitos, que propôs trocar por militantes presos. Testemunhas locais disseram que algumas foram levadas para os vizinhos Chade e Camarões.

O presidente Jonathan anunciou que o rapto que irou o mundo era o princípio do fim do Boko Haram – duas palavras que significam «educação falsa ou ocidental é proibida ou pecado», em língua haúça.

Vozes descontentes com a inacção do exército fizeram notar que o camião com as reféns levou 48 horas de Chibok até à base de Sambira com avarias constantes, mas as forças de segurança não intervieram. A Amnistia Internacional disse que os militares sabiam que o Boko Haram ia atacar Chibok nessa noite, mas tiveram medo de confrontar os combatentes, mais bem armados.

Os militantes islâmicos responderam à indignação universal com outro ataque três semanas depois, tendo levado 11 meninas da aldeia de Warabe, no Estado de Borno, junto aos Camarões.

O exército tem tentado neutralizar o Boko Haram, que em cinco anos já matou mais de 1500 pessoas, mas sem grandes resultados. Os civis são quem normalmente sofrem com as operações militares. Os extremistas islâmicos continuam a receber armas do Sudão, República Centro-Africana, Líbia e República Democrática do Congo que contrabandistas passam através dos Camarões e também têm «casa» no Sul do Chade.

Mohammed Yusuf constituiu o grupo em 2002. Em 2009, começou a luta armada por um Estado baseado na lei islâmica no Norte da Nigéria.

Organizações internacionais pediram ao Governo da Nigéria que reforce a segurança das escolas e repare ou reconstrua imediatamente os edifícios escolares destruídos pelos fundamentalistas muçulmanos. Mas o combate à pobreza é a maneira mais eficaz de anular a base de recrutamento do Boko Haram: a Nigéria produz a fortuna de mais de 2,3 milhões de barris de petróleo por dia, mas quase 112 milhões de pessoas – cerca de 67 por cento da população – vivem abaixo da linha da pobreza.

25 de maio de 2014

CINCO NOVIÇOS DIZEM SIM


Cinco jovens fizeram a sua primeira profissão religiosa depois de dois anos de formação específica para a vida missionária comboniana.

Os noviços Alessio Geraci, Mario Pellegrino e Stefano Trevisan, da Itália, e Gribeti Juliasse Pofo e Mponda João Mponda, de Moçambique, professaram os votos de castidade, pobreza e obediência a 24 de Maio, no noviciado europeu dos Missionários Combonianos em Santarém.

O P. João Munari, Superior Provincial dos Missionários Combonianos em Itália, presidiu à celebração.

O P. Alberto Vieira, Missionário Comboniano da Trofa a trabalhar em Moçambique, recebeu os votos dos candidatos moçambicanos.

O superior da província de língua alemã, P. Karl Peinhopf, encarregado da formação a nível de provinciais europeus, também marcou presença.

Meia dúzia de familiares, incluindo um pároco, deslocaram-se da Itália para tomarem parte na celebração que contou com a presença de muitos membros da família comboniana em Portugal, amigos dos neo-professos e vizinhos.

A Banda Missio, que prepara o lançamento do seu CD ConTigo a 19 de Junho na Casa da Música, no Porto, animou a celebração.

Os cinco novos combonianos escreveram na mensagem de boas vindas: «É com muita alegria que vos recebemos nesta nossa e vossa casa, neste dia tão importante para nós. Hoje alegramo-nos por termos tido a possibilidade de partilhar convosco o nosso percurso formativo em preparação para a missão.»

«Somos conscientes que a nossa consagração não representa o ponto final, mas antes a continuação do nosso compromisso de partilhar a nossa vida na construção do Reino, seguindo Jesus casto, pobre e obediente, nas pegadas de São Daniel Comboni» - prosseguiram.

E concluíram: «Desejamos-vos o melhor de Deus para as vossas vidas e como nos convida o Papa Francisco: “tenham a coragem de serem felizes!”.»

No fim da celebração, o padre mestre José Juan Valero surpreendeu os participantes com uma mensagem do Papa Francisco aos neo-professos.

Depois de um período de férias em família, os cinco neo-professos continuam o curso de teologia: o Mpanda e o Alessio no Peru, o Stefano na Itália, o Mario na África do Sul e o Gribeti no Brasil.

Antes da ordenação sacerdotal vão fazer dois anos de serviço missionário.

Entretanto, os cinco noviços do primeiro ano, três moçambicanos, um italiano e outro polaco, iniciam a fase da experiência pastoral e de vida comunitária.

Em Outubro, três postulantes moçambicanos e um português começam o noviciado.

22 de maio de 2014

A MISSÃO TAMBÉM DÓI


Mongoumba é uma missão no coração da selva da República Centro-Africana que faz fronteira com o Congo-Brazzaville e Congo democrático. Está ladeada por dois grandes rios, Lobaye e Oubangui, que desaguam no Rio Congo e que isolam a missão do resto do país. Mas Mongoumba também é uma fronteira missionária, já que é caracterizada por uma realidade de primeira evangelização, no contacto com o povo pigmeu-Aka.

Numa pastoral de proximidade com o povo pigmeu-Aka a nossa ação desenvolve-se sobretudo nas áreas da saúde e educação. Do meu trabalho no âmbito da sensibilização para a saúde faz parte a visita periódica aos acampamentos o que tento fazer sempre que posso, mas não faço com a frequência que gostaria.

Nos últimos meses visitei alguns doentes que habitam em acampamentos próximos, mas a experiencia deixa as suas marcas devido à nossa impotência/incapacidade perante as condições de vida desta gente tão simples que vive e morre tendo como cama duas folhas de palmeira e um pequeno pano para se cobrir. Foi o caso de Telapé e da sua mãe já idosa, ambos doentes em estado grave, regressados ao acampamento depois de algumas semanas passadas na floresta. Fui chamada para os visitar devido à relação próxima de Telapé, com a missão, desde há alguns anos. Antes de partir tinha passado por nossa casa para vender uns pés de bananeira e pedir um pouco de sal. Tentei dissuadi-lo de ir, mas o apelo da floresta sobrepõe-se a tudo!

Fui encontra-los numa pequena cabana construída pelos vizinhos, deitados por terra em cima de duas folhas de palmeira; desidratados, magros e com feridas, algumas de lesões antigas de lepra. Devido ao estado em que se encontravam foi decidido, de acordo com o chefe do acampamento, não os transportar para o hospital. Lavamos e desinfectámos as feridas… deixei alguns medicamentos, soro para hidratação oral e arroz… regressamos a casa pedindo a Deus que não chovesse.

Como tinha ficado combinado voltei passados dois dias. Mal desci do carro vieram dizer-me que o Telapé tinha morrido, mas não, ainda respirava, mas estava agonizante e morreu pouco depois; ao lado a mãe estava um pouco melhor, mas ainda em estado crítico. A família e vizinhos preparavam o hangar para as cerimónias fúnebres…

Vivemos numa realidade dura que não podemos mudar, mas gosto do país, gosto das pessoas, gosto do que faço.

Há dias bons e outros menos bons, por vezes muitas dúvidas quanto a este projeto, de que sou apenas um instrumento no terreno, sou uma convidada a participar nesta missão do Senhor... por isso e tudo o mais dou graças a Deus!
                  Élia Gomes, Leiga Missionária Comboniana na República Centro-Africana

20 de maio de 2014

D. EURICO DIAS NOGUEIRA


D. Eurico Dias Nogueira, arcebispo emérito de Braga, faleceu na segunda-feira aos 91 anos de idade.

Nasceu em Dornelas do Zêzere, Pampilhosa da Serra, a 6 de Março de 1923 e foi ordenado padre em Roma, Itália, a 22 de Dezembro de 1945.

A 6 Dezembro de 1964 foi sagrado bispo de Vila Cabral, mais tarde Lichinga, no norte de Moçambique e participou no Concílio Vaticano II.

Lichinga é uma área com forte presença muçulmana. D. Eurico manteve com eles um diálogo muito forte. Os muçulmanos diziam que o bispo tinha um coração do tamanho do seu grande corpo.

Em 1972, Paulo VI nomeou-o bispo de Sá da Bandeira, mais tarde Lubango, em Angola.

Resignou em 1977 e veio para Coimbra.

Conheci-o nessa altura quando estudava filosofia e impressionou-me a paz e tranquilidade que transmitia.

A 5 de Novembro desse ano foi nomeado arcebispo-primaz de Braga.

Resignou em 1999 devido à idade.

O Direito Canónico, a legislação da Igreja, exige que um bispo resigne quando atingir os 75 anos.

17 de maio de 2014

SOLIDARIEDADE, PAZ, ESPERANÇA

O P. Raimundo Rocha, comboniano brasileiro,
celebra a 5ª feira Santa no campo de deslocados da ONU em Juba

Representantes dos 29 institutos religiosos presentes no Sudão do Sul publicaram uma mensagem de solidariedade, paz e esperança em tempos de crise e violência, porque «não podemos deixar de afirmar o que vimos e ouvimos» (Actos 4: 20).

As 75 religiosas e religiosos reuniram-se em Juba em assembleia anual de 13 a 15 de Maio para reflectir nas comunidades eclesiais de base como nova maneira de ser Igreja e povo de Deus.

Na mensagem, escrevem que «como vossos irmãos e irmãs, estamos conscientes de cada criança, cada mulher, cada homem, cada ancião que estão a ser afectados pela violência no Sudão do Sul durante os últimos cinco meses.»

«O sangue de milhares de inocentes clama por justiça», proclamam.

O Sudão do Sul está envolto numa luta violenta pelo poder com contornos étnicos dentro do partido do governo que desde 15 de Dezembro já matou mais de 20 mil pessoas e deslocou, 1,2 milhões.

Os signatários oferecem orações pelas vítimas «desta violência sem sentido» e manifestam solidariedade com os desalojados nas florestas, pântanos, bases da ONU e nos países vizinhos.

Também se solidarizaram com os missionários e missionárias que foram afectados pela violência em Malakal, Leer, Ayod e Renk e o pessoal da diocese de Malakal onde só há uma paróquia em funcionamento.

As religiosas e religiosos louvaram o esforço das igrejas e das agência humanitárias para assistirem as vítimas de cinco meses de violência através da comida, abrigo e cuidados de saúde.

«Nós condenamos energicamente todas as espécies de violência e atrocidades cometidas pelas forças do governo e pelos grupos rebeldes», escrevem, «bem como todas as formas de corrupção, nepotismo, ganância e luta pelo poder às custas de milhares de vidas inocentes.»

Pediram às partes beligerantes para honrarem o acordo de cessação de hostilidades assinado a 9 de Maio em Adis-Abeba para resolverem a crise e procurarem uma paz sustentada e reconciliação través do diálogo político.

Exigiram que as forças do governo e dos rebeldes sejam disciplinadas e mantidas sob controlo.

Os signatários recordaram que «Deus criou pessoas de cada clã, tribo e nacionalidade para viverem em paz, harmonia e unidade.»

Terminam com um apelo veemente em favor da paz: «nós dizemos não a todas as formas de violência ou qualquer acção que degrada a vida humana e a sua dignidade. Demasiado sangue foi derramado nesta terra. Demasiadas vidas foram perdidas. Demasiada destruição aconteceu. Nós queremos paz, estabilidade e desenvolvimento para todos os cidadãos da nossa jovem nação.»

16 de maio de 2014

SUDÃO CONDENA GRÁVIDA CRISTÃ


Um tribunal sudanês condenou à morte uma grávida por ter recusado abandonar a fé cristã.

Meriam Yehya Ibrahim tem 27 anos, está grávida de oito meses e encontra-se detida juntamente com um filho de 20 meses.

O tribunal condenou Meriam à morte na quinta-feira por apostasia e ao chicote por adultério, disse a Amnistia Internacional.

Meriam foi condenada à morte por enforcamento depois de recusar abandonar a fé cristã.

Também é acusada de adultério por ter casado com um homem cristão.

Meriam foi educada pela mãe na fé cristã ortodoxa, porque o pai, muçulmano, esteve ausente na sua infância.

Foi presa em Agosto de 2013 depois de um familiar a acusar de adultério por ter casado com um cristão.

O tribunal acusou-a de apostasia em Fevereiro quando ela se declarou cristã e não muçulmana.

Manar Idriss, que investiga o Sudão para a Amnistia Internacional, disse que «o facto de que a mulher foi condenada à morte pela sua escolha de religião e à vergasta por ser casada com um homem de uma alegada religião diferente é aterrador e aberrante. Adultério e apostasia são actos que não deviam ser considerados crimes. É uma violação flagrante da lei internacional dos direitos humanos.»

GUARDADORAS DA ESPERANÇA

— Eu não consigo… não consigo! – repetia sempre Reem, uma jovem beduína palestiniana de 16 anos, sempre que a convidávamos para aprender a u...