15 de outubro de 2024

MISSIONÁRIOS SEGUNDO O CORAÇÃO DE COMBONI


Os membros do XIX Capítulo Geral dos Missionários Combonianos escreveram na introdução à prioridade da Espiritualidade dos Documentos Capitulares 2022 (DC ’22): «Radicados em Cristo, unidos a São Daniel Comboni, vivemos um contacto constante com o Senhor na oração que se torna vida e missão, incentiva todo o nosso trabalho e as nossas prioridades, humaniza as nossas relações, motiva a nossa ação e a torna fecunda» (DC '22, 11).

Vivemos em Cristo, juntamente com São Daniel Comboni, e transformamos a oração na seiva vivificante que nos dá força para viver de modo fecundo a missão que somos e as nossas relações pessoais.

Os capitulares acrescentaram: «Sonhamos com uma espiritualidade que nos permita continuar a crescer como família fraterna de consagrados radicados em Jesus, na sua Palavra e no seu Coração, e contemplá-lo nos rostos dos pobres e na experiência vivida por São Daniel Comboni para ser missão» (DC '22, 12).

Este sonho deixou em mim uma marca indelével desde a primeira vez que li os documentos do capítulo. Nele se explicitam os ingredientes fundamentais que fazem a nossa vida espiritual: Jesus, a quem Charles de Foucault chamava «meu irmão e Senhor», a sua Palavra, o seu Coração, os pobres e a experiência de Comboni.

Na reflexão de hoje aprofundarei «a experiência vivida por São Daniel Comboni para ser missão» à luz da sua inspiradora homilia em Cartum, Sudão, quando regressou àquela Igreja como Provigário Apostólico.

A nossa família missionária é constituída por Missionários Combonianos, Irmãs Missionárias Combonianas, Missionárias Seculares Combonianas e Leigos Missionários Combonianos. Comboni faz parte do nosso nome, porque é o nosso pai e a nossa herança comum. Ele é o GPS do nosso ser missão; caminhamos sobre as suas pegadas.

 

HOMILIA DE CARTUM

O P. Daniel Comboni foi nomeado Provigário Apostólico para a África Central a 26 de maio de 1872. A 11 de junho, a missão da África Central foi confiada ao seu Instituto por decreto de Pio IX.

Antes, a 1 de janeiro do mesmo ano, tinha fundado o Instituto das Pias Madres da Nigrícia – as Irmãs Missionárias Combonianas – em Montorio, Verona, e no mesmo mês tinha dado início aos Annali del Buon Pastore, semente de tantas revistas e publicações combonianas nos quatro continentes que fazem dos meios de comunicação social um campo de evangelização na tradição comboniana.

A 20 de setembro de 1872, Comboni partiu de Trieste na sua sexta viagem a África. Seis dias depois estava no Cairo. A 26 de janeiro de 1873, partiu do Cairo para Cartum. A expedição inclui pela primeira vez algumas irmãs europeias. A 4 de maio, depois de 99 dias de uma longa e cansativa viagem pelo Nilo e pelo deserto, o Provigário é acolhido solenemente em Cartum. Uma semana depois, a 11 de maio, apresenta o seu projeto de missão através de uma homilia.

A prática, proferida em árabe, foi traduzida pelo P. Giovanni Battista Carcereri e publicada nos Annali del Buon Pastore.

Revisitemo-la de novo:

Estou muito contente de finalmente me encontrar de novo entre vós, depois de tantas vicissitudes penosas e de tantos ansiosos suspiros. O primeiro amor da minha juventude foi para a infeliz Nigrícia e, deixando tudo o que me era mais querido no mundo, vim, faz agora dezasseis anos, a estas terras para oferecer o meu trabalho como alívio para as suas seculares desgraças. Depois, a obediência fez-me voltar para a Europa, dada a minha enfraquecida saúde, que os miasmas do Nilo Branco em Santa Cruz e em Gondokoro tinham incapacitado para a ação apostólica. Parti para obedecer; porém, entre vós deixei o meu coração e, tendo-me recomposto como Deus quis, os meus pensamentos e os meus atos foram sempre para convosco.

E hoje, finalmente, recupero o meu coração voltando para junto de vós para o abrir na vossa presença ao sublime e religioso sentimento da paternidade espiritual, da qual quis Deus que fosse investido, faz agora um ano, pelo supremo chefe da Igreja Católica, nosso senhor o Papa Pio IX. Sim, eu sou vosso pai e vós meus filhos e como tais pela primeira vez vos abraço e estreito contra o meu coração. Estou-vos muito reconhecido pelas entusiásticas receções que me tendes dispensado: demonstram o vosso amor de filhos e persuadem-me de que quereis ser sempre a minha alegria e o meu diadema, como sois o meu dote e a minha herança.

Tende a certeza de que a minha alma vos corresponde com um amor ilimitado para todo o tempo e para todas as pessoas. Eu volto para o meio de vós para nunca mais deixar de ser vosso e totalmente consagrado para sempre ao vosso maior bem. O dia e a noite, o Sol e a chuva encontrar-me-ão igualmente e sempre disposto a atender as vossas necessidades espirituais; o rico e o pobre, o são e o doente, o jovem e o velho, o patrão e o servo terão sempre igual acesso ao meu coração. O vosso bem será o meu e as vossas penas serão também as minhas.

Quero partilhar a vossa sorte e o dia mais feliz da minha existência será aquele em que eu possa dar a vida por vós. Não ignoro a gravidade do peso que lanço sobre mim, já que, como pastor, mestre e médico das vossas almas, terei de velar por vós, instruir-vos e corrigir-vos; defender os oprimidos sem prejudicar os opressores, reprovar o erro sem censurar o que erra, condenar o escândalo e o pecado sem deixar de ter compaixão pelos pecadores, procurar os transviados sem encorajar o vício: numa palavra, ser ao mesmo tempo pai e juiz. Mas resigno-me a isso, na esperança de que todos vós me ajudareis a levar este peso com júbilo e com alegria em nome de Deus.

Sim, antes de tudo confio no teu trabalho, reverendo padre e meu caríssimo vigário-geral: em ti, que foste o primeiro que me ajudou nesta obra da missão para a regeneração da Nigrícia e o primeiro que arvoraste o estandarte da santa cruz no Cordofão e ensinaste àqueles povos os primeiros rudimentos da fé e da civilização. E também confio em vós, estimados sacerdotes irmãos meus e filhos neste apostolado, uma vez que sereis os meus braços na ação de dirigir pelos caminhos do Senhor o seu povo e ao mesmo tempo meus anjos conselheiros. E igualmente confio em vós, veneráveis irmãs, que com mil sacrifícios vos associastes a mim para colaborar comigo na educação da juventude feminina. E do mesmo modo confio em todos vós, senhores, porque sempre querereis confortar-me com a vossa obediência e docilidade às afetuosas insinuações que o meu dever e o vosso bem me aconselhem a fazer-vos.

Quanto a si, ilustre representante de S. M. I. R. A. o imperador Francisco José I, nobre protetor desta vasta missão, enquanto com prazer lhe agradeço quanto fez até agora por ela, apresso-me a exprimir-lhe a esperança de que quererá continuar a render gloriosamente a homenagem da espada à cruz, a defender os direitos da nossa religião divina, no caso de serem ignorados e espezinhados.

E agora é a vós a quem me dirijo, ó piedosa Rainha da Nigrícia, e, aclamando-vos como Mãe amorosa deste vicariato apostólico da África Central entregue aos meus cuidados, atrevo-me a suplicar-vos que nos recebais solenemente sob a Vossa proteção a mim e a todos os meus filhos, para que nos guardeis do mal e nos dirijais para o bem.

Ó Maria, Mãe de Deus, o grande povo dos negros dorme ainda na sua maior parte nas trevas e sombras da morte: apressai a hora da sua salvação, aplanai os obstáculos, dispersai os inimigos, preparai os corações e enviai sempre novos apóstolos a estas remotas regiões tão infelizes e necessitadas.

Meus filhos, eu confio-vos neste dia solene à piedade dos Corações de Jesus e de Maria, e, no ato de oferecer por vós o mais aceitável dos sacrifícios ao Altíssimo Deus, rogo humildemente que seja derramado sobre as vossas almas o sangue da redenção, para as regenerar, para as sarar, para as embelezar na medida da vossa necessidade, a fim de que esta santa missão seja fecunda para a vossa salvação e para a glória de Deus. E assim seja (Escritos 3156-3164).

Esta homilia foi proclamada há 151 anos. Tem 867 palavras na tradução portuguesa. É curta, mas muito motivadora. Continua a inspirar as missionárias e os missionários de Comboni. É parte integrante do nosso património missionário. Nele encontramos o código genético da nossa espiritualidade comboniana e do modo de ser missão. 

 

A MISSÃO EM TRÊS TEMAS

A partir da homilia de Comboni, gostaria de refletir convosco sobre três temas:

1.         A missão é aliança;

2.         A missão é permanente;

3.         A missão faz-se em rede.

 

1. A MISSÃO É ALIANÇA

A missão, à luz de Comboni, é uma aliança esponsal e martirial com Deus, com os seus missionários e com as pessoas com quem vive e a quem serve.

Comboni pronuncia na sua homilia afirmações muito fortes e profundas. Sublinho sete: 

-      O primeiro amor da minha juventude foi para a infeliz Nigrícia;

-      Entre vós deixei o meu coração e, tendo-me recomposto como Deus quis, os meus pensamentos e os meus atos foram sempre para convosco;

-      Pela primeira vez vos abraço e estreito contra o meu coração;

-      Quereis ser sempre a minha alegria e o meu diadema, como sois o meu dote e a minha herança;

-      Eu volto para o meio de vós para nunca mais deixar de ser vosso e totalmente consagrado para sempre ao vosso maior bem;

-      O vosso bem será o meu e as vossas penas serão também as minhas;

-      Quero partilhar a vossa sorte e o dia mais feliz da minha existência será aquele em que eu possa dar a vida por vós. 

Estas frases fazem-me lembrar a declaração de pertença de Rute a Noemi, sua sogra: «Onde tu fores, eu irei contigo e onde pernoitares, aí ficarei; o teu povo será o meu povo e o teu Deus será o meu Deus» (Rute 1,16).

Esta é a pertença nupcial, este é o coração da aliança de Comboni com os africanos. Esta deveria ser a nossa própria aliança com as pessoas com quem vivemos e a quem servimos. O Papa Francisco escreveu na sua primeira exortação apostólica, o programa do seu papado, que «a missão é uma paixão por Jesus, e simultaneamente uma paixão pelo seu povo» (Evangelii gaudium, 268). Não podemos separar Jesus do seu povo. Eles são um só.

Esta aliança esponsal brota do coração: Comboni usa a palavra coração(ões) seis vezes na sua homilia. É uma aliança cordial que brota do amor: a palavra aparece três vezes no sermão. Sinto o palpitar do seu coração. Enquanto em Itália os políticos proclamavam «Roma ou morte!» a partir da segurança das suas zonas de conforto, Comboni em África dizia com a sua vida «Nigrícia ou morte!». Desafiava a morte com a sua vida. Morreu em Cartum há 143 anos. Tinha 50 anos. A sua morte é o selo do seu amor pelos africanos.

Paulo diz-nos, naquele belíssimo hino ao amor, que «ainda que eu distribua todos os meus bens e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada me vale» (1 Coríntios 13,3). Uma missão sem amor é inútil!

O Cardeal José Tolentino Mendonça – poeta, místico e mestre de espiritualidade – escreveu que «não há amor se não houver excesso de amor». 

Para entrar nesta relação cordial com os GUJIS, o nosso povo, temos de dizer com a nossa vida: a tua língua é a minha língua, a tua cultura é a minha cultura, a tua noção de tempo é também a minha; os teus sonhos são os meus sonhos, as tuas alegrias são as minhas alegrias, os teus problemas são os meus problemas, as tuas esperanças são as minhas esperanças; e a minha vida é tua.

É assim que exercemos o sentido de pertença às pessoas que servimos. Podem chamar-nos farenji – estrangeiro, mas, na verdade, somos farenji guji! Quando algumas pessoas expressam surpresa por eu, de alguma forma, falar guji, digo-lhes: «Eu sou guji, mas quando nasci, lavaram-me com lixívia e a minha pele estragou-se!» E rimo-nos juntos. 

Por outro lado, cada vocação é um chamamento pessoal e único. No entanto, somos chamados a viver a nossa própria vocação numa comunhão de vocações: os nossos Institutos. Para vivermos a nossa aliança conjugal com os gujis precisamos de temperar a nossa vida com uma boa pitada de ubuntu, a filosofia de vida africana que afirma que «eu sou porque nós somos». Não somos agentes solitários de evangelização. Temos de recuperar «o prazer espiritual de ser povo», como diz o Papa Francisco. O Papa dedica um capítulo inteiro a este tema na Evangelii gaudium.

Comboni proclamou: «o dia mais feliz da minha existência será aquele em que eu possa dar a vida por vós». Esta é a dimensão martirial da missão: dar a vida pelo povo que se serve. Segundo a segundo, dia a dia, ano a ano.

A Igreja reconhece dois tipos de martírio: o vermelho e o branco. Aqueles que são mortos por ódio à fé e aqueles que sofrem uma morte lenta devido à sua constância quotidiana. 

O martírio vermelho é o mais fácil e chama mais a atenção. No entanto, somos convidados a dar a nossa vida, a viver o dia-a-dia com as pessoas que servimos no centro do nosso coração. A permitir que sejam elas a ditar a nossa agenda diária. A enfrentar com um sorriso as dificuldades quotidianas. A permanecer no lugar mesmo quando os outros fogem. Este é o martírio branco. Não é apelativo e pode ser muito doloroso. No entanto, este era o modo de Comboni ser missão na África Central.

 

2. A MISSÃO É PERMANENTE

Comboni proclamou na sua homilia: «O dia e a noite, o Sol e a chuva encontrar-me-ão igualmente e sempre disposto a atender as vossas necessidades espirituais; o rico e o pobre, o são e o doente, o jovem e o velho, o patrão e o servo terão sempre igual acesso ao meu coração».

Estamos sempre em estado de missão. A missão é permanente: «O dia e a noite». Somos missionários para todas as condições meteorológicas: «O Sol e a chuva». Somos missionários cordiais para todos: «terão sempre igual acesso ao meu coração». Os que amamos ou gostamos e aqueles que, de alguma forma, não gostamos.

A missão não é um tempo parcial nem um passatempo. É o nosso respirar, o nosso viver, o nosso morrer. O serviço missionário não é apenas uma entre as muitas coisas que fazemos. Não é mais um parêntesis na nossa agenda pessoal quotidiana. 

É uma disponibilidade constante para amar: «encontrar-me-ão igualmente e sempre disposto a atender» – diz Comboni. «Sempre!», sublinha.

É cordial: brota do coração da Santíssima Trindade e dirige-se ao coração do mundo inteiro através do nosso próprio coração. É missio Dei (como diz o decreto conciliar Ad gentes), não é a minha missão, não é a missão do meu instituto.

O Papa Francisco escreveu na sua primeira exortação apostólica: «Eu sou uma missão nesta terra, e para isso estou neste mundo. É preciso considerarmo-nos como que marcados a fogo por esta missão de iluminar, abençoar, vivificar, levantar, curar, libertar» (Evangelii gaudium 273).

A missão é ontológica: faz parte do meu ser, do meu viver, da minha identidade. Somos missionários porque amamos as pessoas com quem vivemos, sempre. Nós não fazemos missão – diriam alguns confrades: «Fare il missionario!» –, nós somos uma missão. Sempre e em todo o lado!

Somos uma missão para iluminar, abençoar, vivificar, levantar, curar, libertar. Que descrição de trabalho! Estes são os verbos com que conjugamos a missão, a sua gramática.

Francisco introduz a sua declaração com estas palavras: «A missão no coração do povo não é uma parte da minha vida, ou um ornamento que posso pôr de lado; não é um apêndice ou um momento entre tantos outros da minha vida. É algo que não posso arrancar do meu ser».

ad gentes não é territorial: é cordial. O coração é o território da missão. A missão torna-se um encontro de corações: o coração de Deus com o coração do seu povo através do coração missionário. Somos missionários por estarmos permanentemente e totalmente no coração das pessoas, por trazê-las sempre no nosso coração. 

«Nisto uma pessoa se revela enfermeira no espírito, professor no espírito, político no espírito..., ou seja, pessoas que decidiram, no mais íntimo de si mesmas, estar com os outros e ser para os outros. Mas, se uma pessoa coloca a tarefa dum lado e a vida privada do outro, tudo se torna cinzento e viverá continuamente à procura de reconhecimentos ou defendendo as suas próprias exigências. Deixará de ser povo» – conclui o Papa.

Assim, também nós somos desafiados a ser missionários no espírito, «pessoas que decidiram [...] estar com os outros e ser para os outros», sempre, sem zonas cinzentas de privacidade que condicionem a nossa opção de estar para os outros.

 

3. A MISSÃO FAZ-SE EM REDE

Comboni, na sua homilia programática, proclama que conta – ele diz «confio» – com o trabalho do seu Vigário-geral, dos seus sacerdotes e irmãos, das veneráveis Irmãs, dos senhores presentes e do representante do imperador austríaco. 

Por outras palavras, Daniel Comboni sabe que o sucesso da sua missão como Provigário Apostólico para a África Central depende da cooperação dos seus colaboradores eclesiais, da sociedade civil – os senhores – e do poder político – o representante do imperador – que, segundo as suas próprias palavras, «quererá continuar a render gloriosamente a homenagem da espada à cruz, a defender os direitos da nossa religião divina, no caso de serem ignorados e espezinhados».

Não somos missionários no singular, nem podemos ser missionários sozinhos. Jesus enviou os Doze e os Setenta e dois, dois a dois. Precisamos de trabalhar em rede com outras pessoas – igreja local à qual pertencemos, missionários leigos, sociedade civil, agentes humanitários, líderes religiosos e membros de outras igrejas, políticos, etc. – para sermos a missão que Deus quer que sejamos. 

Os DC ‘22, sobre a prioridade Ministerialidade ao serviço da requalificação, exprimem o compromisso de «aviar um diálogo e uma colaboração com as Igrejas locais para desenvolver pastorais específicas e trabalhar em rede com os movimentos populares» (DC '22, 31.4)

Hoje, como outrora, a missão é sinodal: caminhamos juntos, trabalhamos juntos, vivemos juntos, acreditamos juntos.

O plano de Comboni era um sonho de colaboração em rede de todos os institutos missionários trabalhando juntos, uma ampla coligação para preparar os africanos para serem salvadores e regeneradores de si mesmos. Infelizmente, este grande projeto não se materializou.

Comboni queixava-se do «maldito egoísmo religioso e fradesco que impera em quase todas as ordens religiosas: “A ordem e depois Cristo e a Igreja”. [...] Não é grande coisa o bem que se faz, diz o frade, se não provém da ordem» (Escritos 2387). Por isso estamos aqui: porque outros institutos não trabalharam com Comboni, ele fundou os seus dois institutos para levar por diante o projeto. Somos um monumento a esta incapacidade de pensar para além da própria ordem, de trabalhar em rede para a glória de Deus.

Hoje, a realidade é tão complexa que não somos capazes de a enfrentar sozinhos, seja na evangelização, na educação, na saúde, na assistência... Precisamos de juntar as nossas ideias, os nossos recursos e as nossas forças para sermos transformadores efetivos da sociedade. Precisamos da experiência e da força uns dos outros para sermos eficazes na prestação de serviços.

 

APELO À MÃE

Comboni chama à Mãe Maria «precioso alívio do missionário» (Escritos 262). Não podia deixá-la de fora da sua missão, do seu programa pastoral: dirige-se a ela no final da homilia.

Reza: 

E agora é a vós a quem me dirijo, ó piedosa Rainha da Nigrícia, e, aclamando-vos como Mãe amorosa deste vicariato apostólico da África Central entregue aos meus cuidados, atrevo-me a suplicar-vos que nos recebais solenemente sob a Vossa proteção a mim e a todos os meus filhos, para que nos guardeis do mal e nos dirijais para o bem.

Ó Maria, Mãe de Deus, o grande povo dos negros dorme ainda na sua maior parte nas trevas e sombras da morte: apressai a hora da sua salvação, aplanai os obstáculos, dispersai os inimigos, preparai os corações e enviai sempre novos apóstolos a estas remotas regiões tão infelizes e necessitadas.

Esta é também a nossa oração, hoje e sempre. Amém!

 

Qillenso, 10 de outubro de 2024 – 143º aniversário do dies natalis de São Daniel Comboni.

11 de outubro de 2024

VICARIATO DE HAWASSA CELEBRA DOIS MISSIONÁRIOS DISTINTOS




A 10 de outubro de 2024, a Igreja Católica de Hawassa celebrou dois distintos missionários com uma Eucaristia de réquiem na sua catedral.

O Vicariato Apostólico celebrou a memória dos combonianos, a Ir. Maria Sarina Nici e o P. Nicolino Di Iorio. 

Foi um modo diferente de assinalar a solenidade de São Daniel Comboni, fundador dos dois institutos.

Os dois missionários nasceram na Itália e regressaram à Casa do Pai na primeira semana de outubro. 

A Ir. Sarina faleceu em Verona, Itália, a 1 de outubro de 2024, com 92 anos. 

O P. Nicola faleceu em Adis-Abeba a 6 de outubro de 2024. Tinha regressado de umas férias de cinco semanas com os pais em Itália e estava a descansar do voo quando a irmã morte o chamou. Tinha 66 anos.

A Eucaristia foi presidida pelo Bispo capuchinho Dejene Hidoto, Vigário Apostólico de Sodo.

D. Seyoum Franso, Vigário Apostólico de Hosanna, o P. Juan Núñez, Administrador Apostólico de Hawassa, e o P. Asfaha Yohannes, Superior Provincial dos Missionários Combonianos na Etiópia, concelebraram com cerca de 50 sacerdotes, diocesanos e missionários.

O P. Juan, Administrador Apostólico, deu as boas-vindas aos participantes no início da Missa. 

Agradeceu ao P. Nicola pelo seu incansável trabalho em Hawassa. “Agora, ele está a descansar no céu”, disse.

A catedral estava repleta com muitos religiosos e religiosas de diferentes congregações que servem o Vicariato de Hawassa ou vindos de foraa e de outros fiéis. 

A liturgia foi celebrada em amárico e sidamo.

O P. Tsegaye Getahun, secretário-geral do Vicariato de Hawassa, fez a homilia, recordando o ministério do P. Nicola.

No final da celebração, a Ir. Weynshet Tadesse Haile, responsável pelas Irmãs Missionárias Combonianas na Etiópia, e o P. Asfaha apresentaram as histórias de vida dos dois missionários defuntos.

A Ir. Sarina entrou para as Irmãs Missionárias Combonianas na Eritreia. 

Depois da formação, iniciou o seu serviço missionário no Bahrein e no Iémen do Sul durante 16 anos.

Entretanto, foi transferida para a Etiópia e serviu nas missões de Dilla, Dongora, Hawassa, Meki e Addis Abeba durante 28 anos. Foi também formadora nos Seminários Menores de Hawassa e Meki. 

A promoção das mulheres era o seu grande amor. O Comboni College for Women de Hawassa é um monumento ao seu trabalho pioneiro. 

Há quatro anos, foi transferida para a Casa-Mãe das Irmãs Combonianas em Verona, Itália, devido à idade e saúde.

“A Ir. Sarina era uma pessoa verdadeiramente espiritual que valorizava em tudo a sua vocação de irmã religiosa. A sua vida influenciou e continua a influenciar muitas pessoas. A sua generosidade, a sua bondade e o seu cuidado para com os outros foram um exemplo e um testemunho do seu profundo amor a Deus e da sua fé, que brotava de uma humanidade bondosa e gentil”, sublinhou a Ir. Weynshet.

O P. Nicola foi ordenado em 1986 e trabalhou em Itália até vir para o Vicariato de Hawassa em 1995. 

Permaneceu na Terra das Origens até à sua morte prematura, exceto por um período de quatro anos em Itália, entre 2012 e 2016. 

Serviu as missões de Tullo, Fullasa, Teticha e Daye entre o povo Sidama. 

Foi também reitor do Seminário Maior de Hawassa em Adi- Abeba e ecónomo provincial dos Combonianos na Etiópia.

Nos últimos quatro anos foi vice-Administrador Apostólico de Hawassa, ajudando o P. Núñez, Administrador Apostólico. 

O P. Nicola estava também empenhado na formação permanente das religiosas, sobretudo através de um retiro mensal, e na Missa dominical em inglês para a comunidade internacional em Hawassa.

Foi celebrado como um administrador e missionário generoso, afável, dedicado e excecional.

“Imagino o P. Nicola a repetir as palavras de São Daniel Comboni: 'Eu morrerei, mas a minha obra não morrerá'”, afirmou o P. Asfaha.

O P. Tesfaye Tadesse, Superior Geral dos Missionários Combonianos e membro radical da província etíope, enviou a sua mensagem de condolências à província e ao vicariato de Hawassa.

“Todos nós agradecemos a Deus pelo dom de Abba Nicola, um grande Comboniano capaz, espiritualmente rico e humanamente generoso”, escreveu o P. Tesfaye.

O P. Tesfaye agradeceu ao P. Nicola pelas suas qualidades humanas e espirituais, pela sua partilha de fé, pela sua simplicidade, pelo seu dom de criar amizade, pelos seus gestos de caridade.

Alguns representantes de grupos eclesiais, incluindo um catequista de Daye, celebraram também os dois missionários e a sua herança.

A Eucaristia memorial terminou com um almoço fraterno. 

As comunidades combonianas femininas e masculinas de Hawassa, juntamente com alguns missionários e  missionárias de Adis-Abeba, Haro Wato, Daye e Qillenso, concluíram o dia de São Daniel Comboni com uma hora de adoração à volta de uma das suas últimas cartas desde Cartum.

7 de outubro de 2024

DESCANSA EM PAZ, ABBA NICOLA


Esta manhã tinha missa na capela de Badeye. Parei junto à torre da Ethiocom. A net estava muito fraca e tinha curiosidade de saber como ficou o Porto-Braga. 2-1! Boa.

Ia continuar a viagem, mas notei que o ícone do WhatsApp marcava muitas mensagens não lidas. A primeira que abri era do Grupo dos Religiosos do Vicariato. O P. Juan Núñez, comboniano espanhol que é administrador apostólico de Hawassa, tinha escrito: «Queridos padres, irmãos, irmãs, fiéis cristãos: tenho esta manhã uma notícia muito triste a comunicar: o P. Nicola veio da Itália no sábado à noite. Foi descansar. Como ontem ele não saiu do quarto, foram ver e encontraram-no morto. É cedo para dar mais informações. Fá-lo-emos ao longo do dia. O que podemos fazer agora é rezar».

Fiquei incrédulo, com o coração partido! Deve ser engano. Voltei a ler a mensagem. Depois fui ao Grupo dos Combonianos na Etiópia. O provincial tinha postado a mesma notícia com o detalhe de que os pais pedem que seja sepultado na Itália.

Fui para Badeye a chorar. Dei a notícia à dúzia de pessoas que enfrentaram a chuva para celebrar a missa. O catequista conhecia o Abba Nicola – como o chamávamos. Rezamos pelo seu eterno descanso e pelos seus velhos pais.

O Abba Nicola (Nicolino) Di Iorio tinha 66 anos, 27 dos quais vividos na Etiópia sobretudo entre o povo Sidama no Vicariato de Hawassa.

Conhecemo-nos em Elstree, Inglaterra, em 1982, estudantes de teologia. Tínhamos feito os votos no mesmo dia, a 6 de junho de 1981. Ele em Venegono, eu em Santarém. Esteve um ano em Chicago, nos Estados Unidos da América. Em 1982 foi transferido para Elstree. 

Era muito tranquilo e organizado. O seu quarto era modelo de arrumação. Um dia com o António Bonato decidimos pôr tudo fora do sítio e fomos para o quarto do lado para ver como reagia à nossa partida. Entrou, re-arrumou tudo e voltou a sair sem dizer palavra!

Voltamos a encontrar-nos na Etiópia em 1993: ele foi trabalhar com os Sidama e eu com os vizinhos Gujis. Por algum tempo foi superior do Seminário Maior de Hawassa em Adis-Abeba e ecónomo provincial na Etiópia.

Reencontramo-nos em novembro de 2021. Desta feita era Administrador Apostólico adjunto, assistindo o Abba Juan Núñez. Disseram-me que fazia parte da terna de padres propostos para bispo de Hawassa. Os outros dois eram etíopes: um comboniano e um jesuíta. Esperava que fosse o meu bispo. A diocese ficava em boas mãos. Era um pastor dedicado e comprometido.

O Abba Nicola vivia a cem por cento o seu trabalho de administração. Reuniões mais reuniões. Visitas às diversas missões. Também organizava retiros mensais para as religiosas de Hawassa e presidia à missa dominical em inglês para a comunidade internacional em Hawassa, feita sobretudo de estudantes do Sudão do Sul. 

Em Hawassa, recebia-me com um abraço e, da última vez com um chocolate, no seu escritório. Achei-o muito cansado. Havia desmaiado duas vezes. Mais de uma vez lhe disse para vir passar uns dias comigo a Qillenso. 

«Lá a rede telefónica é muito fraca e podes descansar sem ninguém te chatear» – expliquei. Foi adiando...

Em agosto encontrámo-nos em Hawassa pela última vez. Disse-me que ia passar cinco semanas com os pais no sul da Itália em setembro e outubro. Aconselhei-o a tirar pelo menos dois meses de férias. Disse que não podia.

Agora descansa no abraço terno e eterno de Deus.

O Abba Nicola foi missionário na Etiópia entre 1993 e 2012. Nesse ano foi destinado à Itália, mas regressou à Terra das origens em 2017. 

O Dr. Pedro Nascimento é um Leigo Missionário Comboniano que trabalhou dois anos na Etiópia, entre o povo Gumuz. Quando soube do falecimento do Abba Nicola mandou-me esta mensagem: «Recebi a triste notícia do falecimento do padre Nicola... Com a sua personalidade forte, fez imenso! Foi ele, juntamente com o padre Sisto, que me foi buscar ao aeroporto, foi ele que fez tudo para irmos visitar as missões combonianas [no Vicariato de Hawassa]; foi ele que nos primeiros tempos cuidou de nós. Um verdadeiro homem de Deus, a quem chamei de amigo! Um testemunho para mim!»

A comboniana Ir Graça Almeida também trabalhou na Etiópia entre os Sidama. «Nicola era uma boa pessoa com todos. Uma bondade e uma gentileza que o distinguia. Que Nicola descanse agora nos braços de Deus» – escreveu-me.

O P. Endrias Shamena Keriba, comboniano etíope na África do Sul, postou no Grupo dos Combonianos: «Querido Abba Nicola... serás recordado para sempre pelo povo da Etiópia pela tua dedicação e amor que tinhas no teu coração. Nós continuamos a amar-te na tua eternidade com o Senhor. Ora por nós».

A Deus, meu irmão, amigo, companheiro. Descansa no Paraíso. Mereces depois de tanto labutar em Hawassa. E intercede junto de Deus pela paz na Etiópia.

4 de outubro de 2024

INGLÊS NO DESERTO

 

Mais de trinta senhoras beduínas participaram na primeira reunião. Perguntamos-lhes se queriam aprender a bordar ou inglês.

«As duas coisas!» – responderam.

«Uma coisa de cada vez.» – propusemos.

No fim, escolheram inglês.

A maioria das alunas que vieram para a primeira aula de inglês não esteve na reunião preparatória. São quase todas caras novas. Jovens. 

As aulas são dadas debaixo de um alpendre de zinco. O chão é de relva sintética.

São cerca de trinta as jovens que frequentam as aulas de inglês nesta aldeia beduína. Estão ansiosas por aprender. Foram divididas em três grupos de acordo com o nível de cada uma.

Estão tão sedentas de aprender que chegam meia hora antes das aulas. As irmãs Lulu, Júlia e eu estamos encantadas.

Hoje, a aula é sobre o uso dos verbos ser, estar, haver, ter, poder no presente, passado e futuro. 

Eu começo.

«Nasci em Tangamandapio.» – digo, marcando um pontinho no mapa do continente americano. 

Digo-lhes que sou missionária comboniana, que somos muitas em todo o mundo e que é um privilégio servir na Terra Santa.

«Eu trabalho desde os três anos!» – conta outra. 

«O meu pai tem duas esposas. A minha mãe está na Jordânia e a mãe dela,» – diz, apontando para a sua irmã – «está na Palestina. Chegamos no dia em que começaram as aulas de inglês. Eu não queria vir para a Palestina, mas, agora que frequento as aulas, estou contente por ter vindo!» – disse, com um sorriso rasgado.

«Eu estou noiva!» –  disse outra aluna. «Vou casar no ano que vem.»

Estamos convidadas para o casamento.

«Se eu pudesse frequentava o magistério!» – explicou outra.

Com o vocabulário aprendido continuamos a alinhavar diálogos. E a entreter vidas e sonhos.

Ir Cecília Sierra

Missionária Comboniana a trabalhar com beduínos no Deserto da Judeia

30 de setembro de 2024

COMBONIANOS EM BEIRUTE ESTÃO BEM


Os membros da comunidade comboniana em Beirute, a capital do Líbano, encontram-se bem. A notícia foi dada pelo Provincial do Egito-Sudão a que pertence a comunidade libanesa.

A comunidade é composta por um formador e quatro estudantes de teologia que se preparam para o serviço missionário no mundo árabe.

O P. Diego Dalle Carnobare (no centro da foto com o formador e os estudantes) visitou a comunidade na semana passada. 

«Desta vez não estou a enviar um “boletim de guerra” do Sudão (onde a guerra continua apesar de os meios de comunicação a terem esquecido), mas do Líbano onde vim a semana passada para visitar os nossos escolásticos e o seu formador», o provincial escreveu numa mensagem.

«Os ataques estão a ser feitos nos lugares estratégicos de Hesb. O Líbano é um país pequeno, mas está dividido em áreas. Para aqueles que não vivem na área xiita a vida parece decorrer normalmente. Nós estamos no norte de Beirute numa área cristã e estamos distantes das explosões das bombas e das colunas de fumo no sul da cidade», continuou. 

«Hoje, enquanto conduzíamos para casa na estrada principal no litoral, vimos com os nossos próprios olhos que entre quatro e cinco viaturas em direção ao norte uma estava cheia de xiitas a fugir da zona de guerra: carros e camiões sobrelotados com mulheres, crianças, malas e colchões. Para onde exatamente? Cada família segue a própria direção nestas viagens de esperança», o P. Diego explicou.

A força aérea israelita transformou o sul do Líbano e o sul de Beirute no teatro da guerra contra o Hezbollah. 

As Nações Unidas dizem que pelo menos 720 pessoas foram mortas no Líbano e 211 mil deslocadas durante a primeira semana de bombardeamentos aéreos intensos. 

«O Líbano é uma pérola de beleza rara, mas a crueldade dos poderosos desconhece alguma razão», conclui a mensagem o P. Diego enquanto pede orações pela paz.

29 de setembro de 2024

MESKEL: CELEBRAR A CRUZ


Ortodoxos e Católicos na Etiópia celebram a Exaltação da Santa Cruz a 27 de setembro e, para a Igreja Católica, a comemoração litúrgica é solenidade nacional. A celebração chama-se simplemente Meskel (cruz em amárico) ou Fanno (em oromo).

As celebrações começam na tarde da véspera com a preparação de uma meda de lenha arranjada à volta de uma cruz comprida feita com duas varas. Depois de benzida, a lenha é incendiada e enquanto arde as pessoas cantam e dançam à sua volta. Quando a cruz cai, os entendidos observam a sua posição que é prenúncio – bom ou mau – para o ano que começou há apenas 17 dias.

Depois, moços formam pequenos grupos e, de paus na mão, vão para as estradas parar viaturas e cantar na esperança de algum dinheiro em troca. No passado recebiam pão, mas hoje o dinheiro é mais prático para quem dá e para quem recebe. No ano novo a cantoria e o peditório foram feitos por meninas que, em vez de paus, empunham flores.

No dia 27, celebra-se o rito da Exaltação da Santa Cruz. Os ortodoxos fazem-no durante a noite com a Sagrada Liturgia – como chamam à Missa – que começa por volta das duas ou três da manhã e se prolonga até ás sete ou oito. A celebração, muito cantada, é transmitida através de poderosos altifalantes que disturbam o sono dos não ortodoxos.

Os católicos celebramos a Eucaristia a horas mais «católicas» durante a manhã. Eu iniciei a Eucaristia na capela de Gosa, a 35 quilómetros a norte de Qillenso, às sete horas e o meu colega às nove na igreja paroquial.

Depois da liturgia na igreja, que termina com dois ou três hinos cantados por cada faixa etária (adolescentes, jovens, adultos e mulheres), a celebração passa para casa. Da ementa do almoço faz parte o doro wot, frango estufado num molho espeço de piripiri e outras especiarias com alguns ovos, acompanhado por injera, o pão típico da Etiópia, feito com farinha de tief na forma de uma panqueca gigante. Um colega espanhol chama-lhe «manta».

Os gujis, o povo a quem de alguma maneira também pertenço, juntam às celebrações da Cruz uma corrida de cavalos na tarde do dia 27 de setembro.

Pessoas e quadrúpedes juntam-se na colina sobre uma área plana e relvada. As meninas – mais que os rapazes – põem as roupas tradicionais e as tiaras, gargantilhas e brincos de missangas. As montadas são engalanadas com arreios de couro ricamente decorados onde predomina o encarnado. Os ginetes também se vestem de festa. Há grande excitação no ar!

Os anciãos delimitam a pista da corrida no prado verde com ramos de árvores. Os cavaleiros desafiam-se dois a dois para ver quem faz o percurso mais rápido.

Polícias e milicianos mantêm o espaço da corrida desimpedido à força de vergastadas para afastar a pequenada excitada.

Este ano a corrida acabou mal começou. Um cavalo, depois da volta de aquecimento, caiu, esperneou-se e morreu ali à frente de todos. 

A culpa, pelo que escutei, foi do ancião que, de manhã, tinha benzido a pista da corrida. Era voz corrente que ele não tinha balli (poder) para o fazer e, por isso, a montada morreu!

Quando deixei o lugar – porque o horizonte negro prometia borrasca a sério, que veio quando cheguei a casa – os mais velhos continuavam a discutir o insólito facto e a ponderar a causa.

Também falavam em coletar dez birr, o equivalente a menos de dez cêntimos do euro na moeda nacional, a cada participante com dinheiro no bolso para compensar o dono pela perda do equídeo.

17 de setembro de 2024

OS DESAFIOS DA POLIGAMIA

Relatório de Síntese da primeira sessão da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos sobre «Uma Igreja Sinodal em Missão» deixou uma tarefa específica ao Simpósio das Conferências Episcopais de África e Madagáscar (SECAM na sigla em inglês), encorajando-o «a promover um discernimento teológico e pastoral sobre o tema da poligamia e sobre o acompanhamento das pessoas que vivem em uniões poligâmicas, que se aproximam da fé.»

O portal aciafrica.org, da Associação para a Informação Católica em África, que acompanha de perto o dia-a-dia da Igreja Católica no continente, reportou duas respostas à tarefa. Em dezembro, a IMBISA, organização que engloba as conferências episcopais de nove países da África Austral, pediu aos teólogos para iluminarem as práticas da iniciação e da poligamia. A resposta da SECAM veio em abril com o estabelecimento de uma comissão (de teólogos, na maioria) para refletir sobre o a proposta do Sínodo. As deliberações seriam apresentadas na assembleia plenária do organismo continental, agendada para julho no Ruanda. 

São João Paulo II deixou o mesmo convite aos bispos africanos depois do primeiro Sínodo sobre a Igreja em África. Dom Armido Gasparini, o então bispo de Hawassa, no sul da Etiópia, contou-me, frustrado, que tentou introduzir a questão numa reunião da Conferência Episcopal. Contudo, o arcebispo de Adis-Abeba, o cardeal Paulos Tzadua, cortou a discussão pela raiz, afirmando de que na Etiópia não havia poligamia. Que entre os amaras e os tigrinos não haja poligamia é possível; estas etnias foram evangelizadas há séculos. No Sul, entre os povos que foram anexados à Etiópia no fim do século XIX, a situação é bem diferente. A título de exemplo, na missão de Qillenso, onde sirvo, dois católicos têm famílias numerosas: o senhor Borama tem 32 filhos de três esposas enquanto o senhor Elema tem 27 filhos de cinco. No passado, perdemos um número de bons catequistas por terem entrado em uniões matrimoniais adicionais.

 

UMA QUESTÃO COMPLEXA

A questão da poligamia é uma matéria complexa de tratar. Envolve antropologia, sociologia, cultura, tradição e ética, entre outros aspetos. Na internet, há grandes discussões sobre o tema. Se o rei Salomão teve 700 esposas, porque temos de ter só uma? – perguntam alguns internautas.

Entre os gujis, com quem trabalho, nos anos 90 do século passado, era comum um homem por volta dos 30-40 anos tomar uma segunda ou mais esposas, dependendo da capacidade económica. Cada casamento pressupõe sempre o pagamento de um dote à família da noiva. A poligamia não é uma questão de perversão sexual, mas de prestígio pessoal e social. A importância de um homem na cultura guji é medida pelos filhos que tem e pelo gado que possui. Nós, os missionários, não temos filhos, mas temos algumas cabeças de gado.

A poligamia entre os gujis coloca alguns desafios concretos: normalmente o primeiro filho é aquele de quem o pai cuida, porque é o primogénito que lhe dá o nome. Quando nasce o primeiro filho o pai e a mãe deixam de ser chamados pelos nomes próprios para serem tratados por pai ou mãe do nome do filho nascido. Cada esposa tem a própria habitação e os outros rebentos ficam sob o cuidado das mães. O pai vai andando de casa em casa. As novas gerações são sensíveis a esta desigualdade de tratamento e, pelo que observo, a poligamia está em declínio entre os gujis.

 

REVISITAR AS ESCRITURAS

Segundo a prática católica, quando um homem polígamo pede para ser batizado depois da catequese do catecumenado, deve escolher uma esposa e despedir as outras. Para os gujis, a primeira esposa é sempre a mais importante. Mesmo que ela aceite que o marido pretenda uma mulher mais nova, se ela quiser voltar ele é obrigado a recebê-la.

Uma vez, em conversa com uma missionária luterana alemã, abordamos a prática da sua Igreja de batizar o marido polígamo com toda a família. Indaguei das bases para essa opção. Ela respondeu que, na primeira carta que Paulo escreveu ao seu colaborador Timóteo, o apóstolo dos gentios explica que a condição para ser bispo ou diácono é que «seja marido de uma só mulher». Este detalhe revela que, embora a comunidade cristã guardasse os ensinamentos de Jesus em relação ao matrimónio – união indissolúvel entre um homem e uma mulher para a vida –, admitia exceções. De facto, a exigência de ser marido de uma só mulher indicia que havia cristãos em uniões poligâmicas.

O acompanhamento pastoral das pessoas em uniões poligâmicas pede uma revisitação do Novo Testamento. Jesus é claro: «Desde o princípio da criação, Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher, e serão os dois um só. Portanto, já não são dois, mas um só. Pois o que Deus uniu não o separe o homem» (Marcos 10, 6-9). Os discípulos quando registaram tal exigência, reagiram dizendo que se é assim, não convém casar-se. 

Este é o princípio-base do matrimónio cristão: uma união monogâmica heterossexual para a vida. Contudo, a leitura atenta do Testamento cristão, revela que desde o princípio a Igreja admitiu exceções a este princípio radical. 

O evangelista Mateus afirma por duas vezes que o divórcio é possível no caso de porneia, palavra grega de significado amplo, traduzida por união ilegal, fornicação, imoralidade sexual, adultério para os ortodoxos (Mateus 5, 32, repetido em 19, 9). Paulo, escrevendo aos cristãos em Corinto, na Grécia, permite que se uma das partes de um casal gentio receber o batismo e a outra quiser abandonar a união, a parte cristã pode recasar (1 Coríntios 7, 12-15). Esta exceção é chamada de privilégio paulino. Vimos antes que, os candidatos a bispo e diácono deviam ser maridos de uma só mulher (1 Timóteo 3, 2. 12) o que pressupõe haver poligamia entre as comunidades cristãs.

Há que juntar a estas exceções o privilégio petrino, a faculdade do papa de dissolver um matrimónio em benefício da fé de uma das partes. No caso de uma união poligâmica, por exemplo, a Igreja considera válido só o primeiro casamento. Contudo, o privilégio petrino concede ao marido poligâmico escolher a esposa de entre as mulheres que tem.

 

ACOMPANHAMENTO DE UNIÕES POLIGÂMICAS

A poligamia é uma realidade transversal ao continente africano, do Cairo ao Cabo. Qual é o acompanhamento possível das pessoas em uniões poligâmicas que se aproximam da fé? O SECAM prometeu apresentar uma reflexão teológica e pastoral em julho, mas não consegui encontrar nada.

A meu ver, e partindo da experiência de missionário entre uma etnia que pratica a poligamia, esta resposta tem de ser dada a nível teológico e a nível pastoral, com a mesma criatividade, justiça e licença da primeira comunidade cristã. Não pondo em causa os ensinamentos do Senhor sobre o matrimónio, admitiram algumas exceções. O importante é que a salvação de uma pessoa – de um polígamo que pede o batismo – não ponha em causa a salvação de terceiros (as esposas que tem de abandonar para ser batizado). Nalgumas culturas, a prostituição é o caminho possível para as mulheres abandonadas pelo marido.

Uma opção possível, é a prática pastoral que seguimos na missão de Haro Wato há duas ou três décadas: quando um homem polígamo terminava o catecumenado, o período de formação para receber o batismo, recebia um nome cristão e um crucifixo, mas só era batizado no fim da sua vida. Assim, acautelávamos o bem-estar de todas as suas esposas. Reconheço que se trata de uma meia-solução: o candidato polígamo é introduzido aos mistérios da fé, mas fica de fora da comunhão dos batizados. Outra opção pode ser a prática da Igreja Luterana de admitir no seu seio toda a família, administrando o batismo ao marido e a todas as esposas e os filhos que o desejem. Mas o discernimento pedido às conferências episcopais pode encontrar outras soluções que acautelam a dignidade de todas as pessoas envolvidas em uniões poligâmicas.

12 de setembro de 2024

DE VOLTA À PRISÃO




A assistência religiosa no Estabelecimento Correcional de Adola, no sul da Etiópia, faz parte do serviço pastoral da missão comboniana de Qillenso desde 2009. Aliás, a capela prisional foi o terceiro local de culto aberto à volta da cidade-mãe dos gujis.

Os inícios foram humildes. Os católicos começaram por se reunir para a missa dominical na capela luterana. Depois, montaram uma tenda. A capela propriamente dita, feita de madeira, barro e zinco, veio depois.

Hoje, uma equipa de duas Missionárias da Caridade, o professor reformado José Sholango e um dos padres da paróquia de Qillenso, visita a prisão cada terça-feira para rezar o evangelho do domingo anterior com alguns reclusos.

O esquema da celebração é simples: um cântico de entrada, acompanhado pelo tambor e pela kerara, uma espécie de guitarra local, e de uma oração de introdução, feita por um dos presos. Depois, o evangelho é proclamado em guji – a língua local – e em amárico – a língua franca na Etiópia.

A Palavra é explicada pelo padre em guji e por uma irmã em inglês ou amárico. Sholango faz de tradutor e concluiu a reflexão com algumas orientações práticas. Depois de outra canção, a Palavra é feita oração. A celebração conclui com a bênção.

Os participantes variam entre duas e quatro dezenas. Católicos são poucos. Por isso, deixamos de celebrar a Eucaristia e valorizamos a partilha da Palavra. Os católicos na Etiópia não chegam a um milhão, representando menos de um por cento da população.

Entretanto, uma reorganização administrativa do Estado Regional da Oromia trouxe para Adola a capital da zona guji. A prisão também foi requalificada e tem mais de um milhar de detidos. 

Para criar novos espaços, a direção decidiu relocalizar os centros de culto para fora dos muros do presídio. Além de reconstruir as capelas, tivemos de construir uma cerca de zinco com cerca de dois metros de altura e uma porta de metal de acesso à nova Aldeia de Deus na cadeia de Adola: as capelas católica, luterana, ortodoxa e apostólica (uma igreja independente etípe) e a mesquita. Tudo lado a lado.

Os espaços de oração foram demolidos e estão a ser reconstruídos. Por esse motivo, suspendemos as visitas à prisão em fevereiro e retomamo-las a 21 de maio, quando o teto de zinco foi terminado, protegendo os orantes do sol e da chuva. Entretanto, estes compraram do próprio bolso um sistema de som para competir com a concorrência!

A nova capela é um pouco maior que a primeira: mede dez por sete metros e foi financiada através do contributo generoso da província comboniana de Portugal. Os trabalhos são feitos pelos próprios reclusos: os mestres são pagos e os ajudantes alimentados. As paredes de barro, o chão e o revestimento externo de cimento estão terminados. Falta pintar por dentro e por fora.

A presença do Evangelho na prisão é muito importante. O Relatório de Síntese da primeira sessão do Sínodo sobre a Sinodalidade reconhece-a ao agradecer e encorajar «as pessoas comprometidas no serviço de escuta e acompanhamento de todos os que se encontram na prisão e precisam particularmente de experimentar o amor misericordioso do Senhor e de não se sentir isolados da comunidade. Em nome da Igreja eles realizam as palavras do Senhor: “estava na prisão e fostes ter comigo” (Mt 25,36)».

É o que procuramos fazer com estes irmãos. Além da assistência espiritual, prestamos alguma ajuda material sobretudo com sabão, roupa e medicamentos para quem precisa. E, às vezes, material para a escola básica que funciona no presídio.

2 de setembro de 2024

A VIDA DE UM AEROPORTO


Um aeroporto é local aonde chegam e de onde partem os aviões. Ou seja, é um lugar onde as pessoas chegam e partem, usando o avião. Ao aeroporto chega-se para partir. O tempo de espera varia, mas está-se sempre de passagem. Sabe-se de onde vimos e para onde vamos. 

Além disso, cada passageiro tem um bilhete e um cartão de embarque com todas as informações necessárias – identidade, origem e o meu destino do voo. Normalmente espera-se o mínimo possível e é-se feliz quando se pode partir a horas.

 

O aeroporto da vida

A nossa vida podia ser comparada ao que se passa no aeroporto. Há semelhanças, mas muitas e importantes diferenças. Semelhanças – a vida é um lugar de passagem, chega-se para partir. A identidade profunda de tudo o que nasce nesta terra é o prazo de validade. Ninguém vive para sempre. 

Nasce-se para morrer, esta é a infalível lei da vida.

Todos os seres vivos têm um cartão de embarque – “vieste do pó e para o pó voltarás!“ Para os humanos, seres complexos porque feitos “à imagem e semelhança de Deus”, voltam à terra o que é da terra e a Deus o que “a Deus pertence”.

O tempo de espera varia. A grande diferença é que no aeroporto quere-se o mínimo e na vida o máximo. Mas, nos dois casos, dependemos de terceiros – das companhias aéreas ou de Deus. 

A grande diferença é na intenção de viajar ou não. Podemos escolher se viajar de avião ou não. Também se escolhe a hora e o destino. Na vida, tudo é dado como dom e graça de Deus. Ele chama à existência quando quer e decide a hora da partida!

A tragédia da humanidade é esquecer de onde vem e para onde vai. Teimamos em fazer moradas permanentes nos aeroportos e não sabemos ler as indicações precisas do nosso cartão de embarque. 

pessoa humana que foi feita por Deus. Como a água vai para o mar, nós acabamos inexoravelmente na casa de Deus.

Seria fácil imaginar uma sociedade onde cada um lesse frequentemente o seu cartão de embarque. Podemos esquecer a hora “que só a Deus pertence”, mas nunca esquecer o nosso destino. Nós somos o que somos, porque temos um destino divino e eterno.

(Escrito no aeroporto de Bruxelas à espera do voo que me levará ao funeral da minha mãe.)

Abraço amigo,

P. Manuel Fidelino

Missionário Comboniano no Uganda

31 de agosto de 2024

FÉRIAS MISSIONÁRIAS



DEZOITO JOVENS ESPANHÓIS E UMA ITALIANA passaram três semanas na Etiópia, em agosto, a animar campos de férias infantis e cuidar da própria formação espiritual.

Uma dúzia de mulheres e sete homens, incluindo dois padres e um seminarista, com idades entre os 19 e os 35 anos, universitários e profissionais (sobretudo das áreas de saúde e educação) partilharam parte das suas férias com crianças gujis, do sul da Etiópia.

Os visitantes foram assistidos por seis jovens de Adis-Abeba mais um grupo de jovens locais, juntamente com dois postulantes e um escolástico combonianos, que os apoiaram nas traduções e nas dinâmicas.


Os campos de férias para crianças dos cinco aos 14 anos – mas que contou com miúdos mais pequenos e mais velhos – decorreram na Casa de Acolhimento das Missionárias da Caridade – as imãs de Santa Teresa de Calcutá – em Adola e nas paróquias-missões de Qillenso e Soddu Abala.

Mais de 800 crianças juntaram-se diariamente nos três centros para rezar e aprender catequese, brincar, jogar, cantar e praticar desporto. As atividades – que ocupavam toda a manhã – acabavam com um lanchezinho de biscoitos energéticos e refresco.


Era notável a alegria que nem a chuva nem o nevoeiro – que também quiseram marcar presença nas atividades – diluíram nos participantes de todas as idades.

Entretanto, dois espanhóis, assistidos por um postulante comboniano que fazia de tradutor, deram um curso de introdução ao uso de computadores na Biblioteca São Daniel Comboni, em Adola. 


Os participantes, 27 rapazes e 13 meninas, dos 10 aos 21 anos, aprenderam a usar o computador, os programas mais populares e a internet durante três semanas, em turnos diários, de manhã e de tarde. 

Os jovens espanhóis vieram de paróquias das dioceses de Segorbe-Castellón e Valência, muitos com ligação ao Movimento Neocatecumenal.

Além de animarem os campos de férias, fazerem a pequenada feliz e ensinarem computação, também participaram ativamente na vida de oração diária (Missa, vésperas e adoração) das Missionárias da Caridade com quem se hospedaram.


Nas tardes livres, seguiram um programa de formação que incluiu missa, catequeses e outras atividades espirituais, animadas pelos dois padres que os acompanharam. 

Também participaram na Eucaristia dominical na capela do Centro de Acolhimento (no sábado à noite) e na Igreja de São Daniel Comboni em Adola, com algumas canções.

Alguns inclusivamente acompanharam o missionário comboniano na celebração dominical em capelas à volta da cidade.

O campo de férias em Qillenso terminou a 29 de agosto com a celebração da Eucaristia. No final, os mais velhos receberam cadernos e os mais pequenos guloseimas.

No dia seguinte, uma avó perguntou-me onde estavam os «farenji», estrangeiros. Expliquei-lhe que iam a caminha de Adis-Abeba para à noite apanharem o avião para a terra deles. «As crianças estão a chorar!», respondeu.


As três semanas de férias no sul da Etiópia foram imersão numa realidade nova para os visitantes, que os encheu de alegria que é – como o Papa Francisco sublinhou na Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa – missionária. Alguns, inclusive, já tinham passado algum tempo na Índia, em comunidades das Missionárias da Caridade.

Para Veronika, a jovem italiana com raízes polacas, a estada superou todas as expetativas. «Foi uma oportunidade única», confessou.

Mar, a mais jovem do grupo, estudante de medicina, explicou que durante as três semanas criou ligações afetivas sobretudo com as crianças na Casa de Acolhimento de Adola, complicando-lhe o regresso a Espanha.


Infelizmente, uma das jovens partiu um braço na brincadeira com a irmã e foi evacuada para Espanha para ser operada com urgência uma semana antes de o campo terminar.

Os jovens regressaram às suas famílias a 30 de agosto. Partiram de Adola de madrugada para apanharem à noite o avião em Adis-Abeba.


24 de agosto de 2024

OS CUSTOS DA MISSÃO


As duas palavras em oromo e inglês que o superior provincial me deixou no WhatsApp falavam volumes e eram ansiadas há muito: «Kabajamaa... Finally!». «Reverendo... Finalmente!». A legenda ilustrava a foto do meu Bilhete de Identidade (BI) de residente temporário renovado com um crédito de quatro meses extra. Agora expira em janeiro.

O documento tinha caducado a 15 de setembro de 2023. O processo de renovação demorou onze meses menos dois dias. Por não ter o documento em dia, foi muito complicado viajar para os funerais dos meus pais. Tecnicamente, eu era ilegal. Regressei ao país sem problemas com um visto de turista.

Antes, a renovação do BI demorava de duas a quatro semanas. Entretanto, as autoridades etíopes descobriram que muitos processos de licenças de trabalho e residência não seguiram os trâmites legais. Um funcionário do Secretariado Católico – o único organismo da Igreja Católica reconhecido pelo Governo e definido como organização não governamental – montou um cambalacho para embolsar algum do dinheiro pago pelos missionários. Por isso, os processos foram revistos um a um. O funcionário, entretanto, foi demitido.

Os missionários católicos para trabalharem na Etiópia precisam de um contrato profissional com o Secretariado Católico. Há 31 anos, vim como professor de inglês. Desta feita, porque tenho mais de 60 anos – a idade da reforma na Etiópia – fui contratado como formador voluntário.

No meu caso, o processo de verificação da atribuição do permisso de trabalho e residência levou quase um ano. Com a agravante de o Serviço de Imigração e Cidadania cobrar uma penalidade de cinco dólares americanos por cada dia sem visto de residência. 

Apesar de ter submetido o pedido de renovação a tempo e horas, tive de pagar a coima de 1 600.00 dólares. Junte-se-lhe o preço da renovação da residência e tudo junto custou 3 100.00 dólares, pouco mais de 2 800.00 euros. Uma pequena fortuna para ter o privilégio de ser missionário na Etiópia que amo como meu país por mais um ano.

De facto, até julho a renovação de residência temporária custava 150 dólares, um pouco mais de 135 euros, e podia ser paga no correspondente em birr, a moeda local. Entretanto, a nova tabela do Governo elevou o montante para 1 500.00 dólares, pagos na moeda americana. O país passa por uma grave crise económica – recentemente o birr foi desvalorizado em 30 por cento – e o Governo parece querer arrecadar moeda forte através de qualquer meio ao seu dispor.

A província comboniana da Etiópia tem cerca de 20 missionários não etíopes. Sem penalidades, a sua permanência custa perto de 30 000.00 dólares por ano, pouco mais de 27 mil euros, dinheiro que deveria ser usado para servir os mais necessitados.

O cardeal de Adis-Abeba, Arcebispo Berhaneyesus Sourapiel, nomeou recentemente uma comissão para negociar o custo da renovação de residência temporária dos missionários estrangeiros com o Governo para tentar baixar o custo para um preço mais praticável.

Entretanto, a nova moda etíope de amplas avenidas que começou na capital e alastrou a outras cidades, está a colocar alguns problemas acrescidos aos missionários. 

Há duas semanas as autoridades municipais de Dilla, uma cidade no Sul da Etiópia, notificaram as duas comunidades salesianas que tinham dois dias para esvaziar as construções até cinco metros na frente da missão para alargar a rua fronteira. Entre as construções demolidas ao longo dos 170 metros estavam o laboratório, o armazém, a sala de pesagem e observação e outra divisória da clínica das Salesianas. No final, o autarca deu uma semana para esvaziar o espaço, mas nada de compensação pelas demolições e cercas a serem refeitas.

Em Hawassa, a cidade que dá nome à diocese onde trabalho e capital do Estado Regional Sidama, as autoridades municipais estão em conversações com as Missionárias da Caridade, as irmãs de Santa Teresa de Calcutá. Querem transformar a rua que passa à frente da sua casa de acolhimento numa avenida com dois corredores. 

Primeiro, projetaram demolir o muro do centro e recuá-lo para junto dos dois edifícios de dois pisos que servem de internamento para cerca de 300 pacientes: 180 mulheres e crianças e 120 homens. Agora planeiam demolir os dois edifícios, embora não haja espaço para os reconstruir nas atuais instalações. As negociações continuam. A autarquia quer oferecer um novo terreno às missionárias para reconstruir os edifícios de internamento perto do local onde vivem. 

A missão de Daye, também no Estado Regional Sidama, corre igualmente o risco de perder uma faixa larga de terreno à frente do edifício da comunidade comboniana, no adro da igreja e no recreio da escola primária, para alargar e alcatroar a rua que passa à frente. Ficaremos por aqui?

13 de agosto de 2024

«QUANDO É O PASSEIO?»

 

7:45 da noite. Os miúdos descem de um brinquedo para subir a outro, a correr. Querem aproveitam ao máximo esta oportunidade única, a primeira vez que a maioria veio a um parque de diversões com atrações mecânicas e piscinas para terminar o acampamento de verão.

Vieram em três autocarros, de três comunidades beduínas. Crianças e mães estão de visita a uma das cidades mais quentes da Palestina – Jericó, uma das urbes mais antigas do mundo.

– Já tenho 20 shekels! – diziam-nos alguns garotos no início do acampamento. 

A vida é dura para os pais. Por causa da guerra em Gaza, muitos perderam o trabalho.

Com sacrifício, juntaram o dinheiro necessário para a entrada no parque de diversões. Outros não puderam vir. O ingresso custa cerca de dez euros. Podem usar todas as diversões o tempo que quiserem. 

Miúdas que nunca tinham visto as máquinas, sobem sem medo ao martelo, à barca e a outros divertimentos.

As mães, de baixo, assustadas, observam como as filhas se divertem.

Os carros de choque e as cadeirinhas voadoras são os mais simples.

Há também jogos para os mais pequenos. Descalços, a maioria, sentem-se no seu ambiente. Estão aqui desde a manhã, sem ligar ao calor.

Agora ainda há luz e corre uma brisa fresca. Querem ficar até ao fim, até às dez da noite.

As crianças vão cair de sono, vencidas pelo cansaço, ao sentar-se no autocarro. 

Sem dúvida que vão recordar esta experiência à espera que chegue já o próximo ano e nos comecem a perguntar: «Quando é o passeio?»

Ir Cecília Sierra

Missionária Comboniana a trabalhar com beduínos no deserto da Judeia

7 de agosto de 2024

CASA CHEIA


Regra de Vida dos Missionários Combonianos estipula que cada comunidade comboniana tem de ser formada pelo menos por três membros. Contudo, na Etiópia, quatro das oito comunidades seguem a regra de Jesus que enviou os seus discípulos dois a dois. Qillenso é uma delas. Desde novembro de 2021 que a comunidade é formada pelo P. Hippolyte Apedovi e por mim.

O P. Hippolyte nasceu no Togo, África Ocidental, há 33 anos e foi ordenado há quase quatro. Está em Qillenso desde 2019. É o pároco e ecónomo da comunidade. Eu cheguei há três anos. Sou o superior e diretor da escola.

Cada semana, um de nós vai para Adola, o outro centro da missão, na sexta à tarde e volta para o almoço de terça-feira para as várias atividades pastorais: assistência às Missionárias da Caridade e às pessoas que elas servem, eucaristia dominical na igreja dedicada a São Daniel Comboni e noutra capela da zona, oração do terço na casa de umas das famílias católicas e visita semanal à penitenciária de Adola.

O missionário que fica em Qillenso, celebra a missa para os jovens (no sábado), a missa dominical na igreja da missão e numa das capelas. Na segunda-feira celebra na capela de Badeye. O P. Hippolyte no domingo joga futebol com os jovens. Eu prefiro assistir!

Todavia, em julho a situação mudou com a chegada do postulante Ashenafi Adane. Veio estar connosco dois meses para a sua experiência na missão. Em agosto, foi a vez do postulante Petros Demeqe vir por um mês para o mesmo fim. Petros está no segundo ano do postulantado a estudar filosofia e Ashenafi no terceiro.

Os dois postulantes participam nas atividades de pastoral da missão, participam nas diversas atividades da comunidade e ajudam manter o espaço limpo e arrumado. 

Ashenafi durante as duas últimas semanas de agosto vai estar em Adola a assistir a dois ou três voluntários espanhóis que vão introduzir meia centena de jovens à comunicação digital para dar uso aos oito computadores da biblioteca católica. 

Os voluntários fazem parte de uma vintena de jovens, assistidos por dois padres, que vão estar na comunidade das Missionárias da Caridade durante duas semanas para orientar os campos de férias com a criançada das missões de Qillenso e Soddu Ababa.

No princípio de agosto chegou o novo elemento da comunidade. Chama-se Biruk Guirma e tem 29 anos. Terminou a formação teológica em Nápoles, na Itália. Vai estar em Qillenso durante dois anos para uma experiência missionária.

Biruk fala uma das línguas oromo pelo que vai ser fácil entrar no guji, que pertence ao mesmo grupo linguístico.

Em princípio vai ser encarregado da pastoral juvenil da missão e dirigir a escola de Qillenso. A escola no ano passado teve quase 200 alunos da quinta à oitava classe.

Lá diz o povo na sua sabedoria milenar que não há fome que não traga fartura! Até ao princípio de setembro somos cinco. Depois ficamos três, como manda a regra comboniana!

5 de agosto de 2024

OBRA MARAVILHOSA

Estremece cada fímbria do meu ser
arrepia-se cada célula da meu corpo
ao ouvir que sou obra maravilhosa
moldado na bondade de Deus
pelas mãos de um amoreiro
a quem dou glória
vivendo a vida até ao último suspiro
em que devolvo o beijo
que o Papá depositou nos meus lábios
quando nasci!

GUARDADORAS DA ESPERANÇA

— Eu não consigo… não consigo! – repetia sempre Reem, uma jovem beduína palestiniana de 16 anos, sempre que a convidávamos para aprender a u...