4 de março de 2024

GUJIS: PASSAGEM DO PODER



 





O povo guji – mais de dois milhões de pessoas que vivem no sul da Etiópia e pertencem à grande etnia oromo – tem um sistema de governo muito democrático a que chama de Gada

A sociedade masculina está estratificada numa dúzia de graus correspondentes a faixas etárias de oito anos cada, agrupadas em quatro classes, representando as quatro fases da Lua. 

Cada homem guji nasce num determinado grau gada e a sua atribuição tem também a ver com a idade do pai: o filho tem de estar sempre quatro graus atrás do progenitor.

Cada oito anos os homens nascidos num determinado grau passam para o grau seguinte. Os gujis chamam marsá balli (transmissão ou passagem do poder) a este evento. 

Para a passagem do poder, o povo guji reúne-se numa grande assembleia chamada Gumi em Arda Jila – uma colina sagrada junto à cidade de Me’e Bokko, a meia dúzia de quilómetros da missão de Qillenso. 

Celebraram a sua cultura e elegem os abba Gada – literalmente os pais da ordem: os líderes dos três subgrupos gujis: Uraga (com quem vivi seis anos), Matti (onde me encontro) e Hokku (os gujis das terras baixas).

Este ano foi o ano da passagem do poder. Milhares de Gujis, homens e mulheres, reuniram-se em Arda Jila para proclamar os seus credos e a sua cultura, ratificar e atualizar as leis costumárias que regem a tribo (desde a fixação de dotes até às compensações por ferimentos ou morte) e para eleger os três Abba Gada e as respetivas equipas de assessores.

A grande assembleia começou a 14 de fevereiro e terminou uma semana depois. A pacata colina de Arda Jila – normalmente pasto de gado e refúgio de babuínos – e arredores, transformaram-se no epicentro do território guji.

Nos dias anteriores, palhotas provisórias foram erguidas para acolher os dignitários da tribo e para realizar algumas das cerimónias referentes à eleição. O espaço à volta de uma me’e, árvore sagrada para os gujis, foi limpo para acolher outros ritos.

Alguns comerciantes construíram barraquinhas para vender comida e bebidas à multidão que veio das três partidas gujis para celebrar a festa Gada, testemunhar a passagem de poder e mostrar que apesar dos ventos da modernidade, devido à escolarização e às redes sociais, a cultura guji continua viva e recomenda-se.

O ambiente durante a semana foi de festa. O branco era a cor dominante das vestes – decorado na maioria com barras azuis para eles e negras para elas. As mulheres traziam as suas cabaças de leite cobertas de missangas e decorações vistosas. Enquanto uma parte da multidão seguia os diversos ritos, sentada na erva seca da colina, outros passeavam a beleza e as vestes pela estrada de alcatrão que ladeia a colina sagrada.

Fui lá nos últimos dois dias para viver o clima de romaria que havia tomado conta da pacata colina e tirar algumas fotos. Vi a alegria e a vaidade de ser guji. E como era dos poucos estrangeiros presentes na assembleia, tive de aceitar fazer dezenas de selfies com quem me pedia, um verdadeiro momento Marcelo Rebelo de Sousa!

A escolha do Abba Gada dos Matti foi controversa. A eleição recaiu sobre um jovem que teve de ser casado à pressa na tarde anterior para poder receber o título e as insígnias de Abba Gada

As pessoas referiam-se-lhe como muchá, o moço. O dono do cavalo em que os Abba Gada eleitos se passeiam por entre a multidão, não lho queria emprestar. Houve alguma confusão, as tropas do estado regional da Oromia repuseram a calma, e o Abba Gada Matti pôde receber a sua (pequena) aclamação.

Abba Gada é o líder supremo de cada um dos três ramos gujis e leva como distintivo um falo de metal (kalacha) amarrado à testa – símbolo de fertilidade – e uma pena de avestruz. Tem poder para abençoar e amaldiçoar e para governar o seu subgrupo. A primazia entre os três Abba Gada cabe ao líder dos Uragas. 

Abba Gada não está sozinho no governo; é assistido por cinco conselheiros também eleitos e por um número de anciãos que já passaram pelo grau gada e são os depositários da memória guji.

Uma vez eleitos e aclamados, os três novos Abba Gada abençoaram a multidão e iniciaram uma peregrinação pelos locais sagrados das respetivas regiões. 

Daí a oito anos vão passar o poder ao escalão que os precede. 

Este ano realizou-se oficialmente a septuagésima quinta transição de poder. Assim sendo, o sistema gada dos gujis tem pelo menos 600 anos. Contudo, durante a conquista e integração do território guji na Etiópia, no século XIX, o imperador suspendeu por alguns anos a Jila Gada, a festa gada, e a passagem do poder.

22 de fevereiro de 2024

PROVOCAÇÕES DO PAPA À MISSÃO NA ETIÓPIA


O Papa Francisco publicou a Exortação Apostólica Laudate Deum (LD) sobre a crise climática, dirigida a todas as pessoas de boa vontade, na festa de São Francisco de Assis, oito anos depois da inovadora Carta Encíclica Laudato si' (LS) sobre o cuidado da nossa casa comum.  

O ecoPapa regressa ao tema, porque o nosso «maltratado planeta» está a entrar em colapso e as alterações climáticas estão a causar estragos por todo o lado. O Papa explica:

«Já passaram oito anos desde a publicação da carta encíclica Laudato si’, quando quis partilhar com todos vós, irmãs e irmãos do nosso maltratado planeta, a minha profunda preocupação pelo cuidado da nossa casa comum. Mas, com o  passar do tempo, dou-me conta de que não estamos a reagir de modo satisfatório, pois este mundo que nos acolhe, está-se esboroando e talvez aproximando dum ponto de rutura. Independentemente desta possibilidade, não há dúvida que o impacto da mudança climática prejudicará cada vez mais a vida de muitas pessoas e famílias. Sentiremos os seus efeitos em termos de saúde, emprego, acesso aos recursos, habitação, migrações forçadas e noutros âmbitos» (LD 2).

Que desafios a Laudate Deum coloca à missão comboniana na Etiópia? Retiro cinco provocações concretas da Exortação Apostólica.


1. Pequeno é importante: «Pequenas mudanças podem provocar alterações importantes» (LD 17).

Os católicos na Etiópia são, de facto, uma Igreja muito pequena, com menos de um milhão de fiéis (cerca de 0,8 por cento da população). A província dos Combonianos também é pequena: 24 missionários em oito comunidades e mais dois a caminho. A pequenez pode criar um complexo de inferioridade, levando-nos a escondermo-nos na nossa zona de conforto — as nossas missões — à margem da sociedade. 

No entanto, Jesus apresenta o Reino de Deus em termos de pequenez: um grão de mostarda, um pouco de fermento. Ele chama o seu pequeno rebanho para ser a luz, o sal e o fermento do mundo — três coisas que, em grandes quantidades, representam desastre seguro.

O Papa apela à Igreja Católica e aos Combonianos na Etiópia para que vivam a sua cidadania plena sem medo. A Igreja dá um grande contributo para a educação e a saúde. Deveria também ser uma voz profética líder para os que não têm voz em tempos de agitação ao longo de linhas de fratura étnicas a nível regional e nacional, especialmente em questões de Justiça, Paz e Integridade da Criação.


2. Humildade: «Repensamos a nós próprios para nos compreendermos de maneira mais humilde e mais rica» (LD 68).

Como Combonianos, passámos por uma grande mudança histórica, especialmente no Vicariato Apostólico de Hawassa: de fundadores com uma história missionária de grande sucesso, passámos a ser um grupo pequeno entre os seus muitos agentes pastorais. 

Comboni queria os seus missionários santos e capazes... e humildes (Escritos 6655). Para Comboni, a humildade é uma virtude fundamental para o serviço da missão, «fundamento de todas as virtudes» (Escritos 2814). 

Este processo de desempoderamento torna-nos participantes da própria kenosis de Jesus. A missão não é nossa. É missio Dei, missão de Deus. Somos humildes trabalhadores na vinha de Deus. Este processo de auto-esvaziamento deve também afetar a nossa relação com as pessoas que servimos e as suas culturas, tirando as sandálias do nosso etnocentrismo para decolonizar o serviço missionário.


3. Multilateralismo: «A globalização propicia intercâmbios culturais espontâneos, maior conhecimento mútuo e modalidades de integração dos povos que levarão a um multilateralismo “a partir de baixo” e não meramente decidido pelas elites do poder» (LD 38).

O multilateralismo é para a sociedade civil o que a ministerialidade é para a Igreja: um forte remédio para o elitismo e o clericalismo — onde os clérigos sabem tudo, fazem tudo e mandam em todos. Deve vir «a partir de baixo»: ao promover uma Igreja ministerial, temos de ouvir a comunidade cristã, dando-lhe poder e permitindo-lhe definir o próprio roteiro.


4. Transição energética: «Quanto à necessária transição para energias limpas, como a eólica, a solar e outras, abandonando os combustíveis fósseis, não se avança de forma suficientemente rápida» (LD 55).

O carbono é o principal agente da crise climática mundial. A transição energética para fontes renováveis é a única forma de a travar e inverter. Temos de reduzir a nossa pegada de carbono de duas formas: (1) preferindo a energia solar ao gasóleo para iluminar as nossas casas; (2) mantendo os nossos carros em bom estado de conservação, uma vez que não temos dinheiro para comprar veículos eléctricos ou novos. Outras medidas: programar viagens, partilhar carros e, sempre que possível, utilizar meios de transporte locais.


5. Percurso de reconciliação: «Convido cada um a acompanhar este percurso de reconciliação com o mundo que nos alberga e a enriquecê-lo com o próprio contributo, pois o nosso empenho tem a ver com a dignidade pessoal e com os grandes valores» (LD 69).

São muitas as escolhas que assinalam a nossa participação nesta reconciliação global. Entre elas distingo

  • optar por um estilo de vida simples, ecológica e economicamente sustentável para reduzir a pegada de carbono e contrariar o consumismo;
  • comer menos carne e mais proteínas de origem vegetal, porque as vacas contribuem para o aquecimento global através do metano que libertam;
  • comprar a granel ou em embalagens maiores e escolher embalagens de vidro, papel ou metal para reduzir a poluição causada pelo plástico;
  • reduzir os desperdícios e reciclar; 
  • comprar roupas em segunda mão nos mercados locais para contrariar a moda, que é responsável por dez por cento das emissões de carbono;
  • utilizar computadores, telemóveis e outros aparelhos até ao fim da sua vida útil, resistindo à tentação de mostrar o último modelo; 
  • manter as nossas casas reparadas, sem perdas de energia e de água
  • reflorestar os nossos terrenos com espécies autóctones, evitando o eucalipto. 

«Tudo concorre para o conjunto» (LD 70), afirma Francisco. Juntemos a nossa pequena parte para salvar o planeta e a nós próprios da catástrofe eminente que paira sobre a nossa casa comum.

12 de fevereiro de 2024

DEUS MENOR


No sorriso desdentado das crianças enxergo o rosto resplandecente de Deus.

Nos olhos traquinas e curiosos da pequenada  vejo o olhar translúcido de Deus.

No brincar despreocupado dos miúdos contemplo a força criativa de Deus.

No dormir tranquilo do bebé
adoro o descanso de Deus,
a sua eternidade.

Nos soluços esfomeados, doridos dos mais pequenos
sinto o Deus que sofre connosco.

Deus-connosco,
Emanuel.

10 de fevereiro de 2024

NA VIDA, NA MORTE, NO AMOR UNIDOS



Faz dois meses que os pais partiram: o Ti Amadeu depois do meio-dia de domingo, 10 de dezembro, a Ti Livina depois das 04h00 de segunda, 11.

Tinha falado com eles por vídeo-chamada na sexta-feira anterior e estavam tão bem. O pai recuperava de uma infecção no hospital de Penafiel e falou da alta iminente. Entretanto, A mãe foi levada para o São João, no Porto, no dia 9, para exames depois de uma queda em casa.

O coração do pai, depois de 89 anos de trabalhos e canseiras, entrou em falência. Conforme ele piorava em Penafiel a mãe — que não acusou nenhuma lesão da queda — começou a piorar de uma pneumonia que contraiu durante o breve internamento hospitalar. Parecia que, apesar da distância entre Penafiel e o Porto, os dois comunicavam entre si. Depois de 66 anos de casados nem a morte os separou. A mãe acabou transferida para Penafiel pouco antes de falecer.

Durante o velório e nos dias que se seguiram, muitas pessoas falaram da beleza deste amor, do lado romântico do seu finamento. Os meus amigos gujis, com quem partilho o diário viver no sul da Etiópia, também disseram o mesmo: casal enterrados juntos na mesma sepultura é sinal de um amor enorme.

A missa de corpo presente, presidida pelo senhor bispo de Lamego, o meu amigo D. António Couto, e animada pelo coro de cerca de três dezenas de padres do clero de Lamego e Guarda e do Instituto Comboniano a que pertenço, foi uma sentida homenagem aos pais por uma igreja a abarrotar de familiares e amigos.

Todavia, ficar órfão de pai e mãe em menos de 24 horas é uma experiência avassaladora. Quando soube que o pai faleceu através da chamada dominical costumeira fui chorar para trás da igreja da missão.

Soube da morte da mãe por volta das 16h00 quando cheguei a Adis-Abeba, a Nova-Flor que é a capital etíope.

A notícia tinha chegado muito antes, mas tinha os óculos de ler no saco de viagem e só abri o telemóvel depois de oito horas para cobrir os cerca de 450 quilómetros que separam Qillenso — onde vivo — da capital. Os meus olhos transformaram-se na nascente de um rio de dor.

Veio ainda a incerteza de que talvez não conseguisse participar nos funerais devido a problemas burocráticos com a renovação do meu cartão de estrangeiro residente na Etiópia.

Porém, graças ao empenho do meu provincial e de outras pessoas para conseguir autorização para deixar o país e ao adiamento dos funerais por um dia, consegui estar presente no último adeus aos pais e receber os pêsames de tanta gente — conhecidos e desconhecidos, dois ingredientes fundamentais para iniciar o meu luto com a minha família.

As semanas seguintes foram dedicadas à burocracia para deixar tudo em ordem antes do regresso à Etiópia. A Drª Liliana Ferreira, a quem reconhecidamente agradeço, foi fundamental neste processo.

Como família dorida, respeitamos a memória dos nossos pais, avós e bisavós celebrando o Natal juntos na casa deles e dando as prendas que tinham combinado com a minha irmã Armanda.

Regressei à Etiópia menos de um mês depois como turista e… com mais meia dúzia de quilos. A mana e os vizinhos trataram-me bem de mais! A anca, essa queixa-se.

De volta a Qillenso, foi a vez de ritualizar o luto à moda dos gujis. No primeiro domingo, à tarde, fi-lo com os católicos de Qillenso. Reunimo-nos em grande número no salão paroquial. 

Abraçaram-me e disseram-me palavras de alento. Depois pediram que lhes contasse a morte dos pais e os funerais. No fim, partilhamos um pão de trigo redondo com cerca de um metro de diâmetro com refrigerantes, café e leite.

Nas semanas seguintes vieram delegações das capela de Hindhale, Urdata e Badeye. O ritual e as narrativas repetiram-se.

As sobras do pão, dos refrigerantes e do leite ficavam connosco.

A vida continua!

Gosto muito de ler, mas durante o primeiro mês não tinha disposição para virar uma página que fosse nem de escrever nada. Dois meses depois, começo a normalizar a minha rotina.

Agora não falo nem brinco com os pais através da vídeo-chamada dominical, mas nas asas da oração de intercessão pela família alargada, pela paz na Etiópia e no Sudão do Sul. Creio na comunhão dos santos.

Além da foto deles que sempre me acompanha nas andanças de andarilho do Evangelho, uso uma volta de ouro que a mãe fez com o seu cordão de solteira, dividido em três para a Celeste, para a Armanda e para mim; e a aliança das bodas de ouro do pai. 

Trago-os sobretudo no meu código genético e na memória. Sei que estão em paz, que estão bem, que estão com Deus!

A morte súbita dos pais, poupou-os a outros sofrimentos. Agradeço a Deus por isso. E pelo testemunho de que nem a morte separou quem Deus uniu — como escrevemos na lápide da campa.

Deixo também uma palavra de agradecimento sentido a todas as pessoas que suavizaram a nossa dor com gestos tão carinhosos e próximos nos funerais e no tempo que passei em Portugal.

Agradeço ao senhor Dom António Couto, que presidiu às exéquias; ao pároco de Cinfães, P. Francisco Marques, que foi incansável no acompanhamento dos pais em vida e nos preparativos para os funerais; ao provincial dos Combonianos, P. Fernando Domingues, que me foi buscar ao aeroporto e também esteve presente na missa de sétimo dia; aos membros da família comboniana (seculares, leigos, irmãs, irmãos e padres); às generosas gentes de Cinfães tão próximas e solidárias também nas ofertas que me entregaram para a missão; aos familiares do lado do pai e da mãe; aos amigos de perto e de longe; a todos os que estiveram connosco em tão dorido momento e nos fortaleceram…

Os gujis dizem Bayee galaatooma! Muito obrigado!

5 de dezembro de 2023

TODOS OS NOMES



Não, esta crónica não é sobre o romance de José Saramago que mais me custou a ler. É sobre os muitos nomes que ganhei com a minha estada na Etiópia.

Abba Yooseefi. Abba significa pai e por extensão padre, embora na nova tradução do Pai-nosso em vez de Abba rezemos Abbo. Yooseefi é a forma guji de José. O nome vem do hebraico Yowceph (com a tradução grega de Iosef) e significa «Ele [Deus] acrescenta» ou «Deus multiplica». E Deus não pára de acrescentar na minha vida a sua ternura, misericórdia e graça. Herdei o nome do meu padrinho José, o marido da falecida tia Arnalda, a irmã mais nova do meu pai e minha madrinha. Era assim naquele tempo. Os gujis nomeiam os filhos de acordo com as circunstâncias da sua gestação e nascimento. A nossa cozinheira chama-se Guyyate porque nasceu à uma da tarde quando a manhã (bari) passa a ser dia (guyya). A irmã mais pequena chama-se Bontu, porque nasceu gordinha.

Abba Joe. Este é o nome porque sou conhecido em inglês. Joe é a forma abreviada de Joseph, o nosso Zé.

Farenji/Farenjicha. Farenji significa estrangeiro em amárico. Farenjicha é a versão guji. Uma das suas raízes possíveis é French (francês). Os galeses construíram a via férrea que liga Adis-Abeba ao Jibuti através de Dire Dawa há mais de cem anos. Farenji é o antónimo de habesha, o termo pelo que os etíopes se designam a si próprios e marca de uma boa cerveja. Tecnicamente, habesha é o nome dos povos etíopes de origem semita, que vêm do cruzar de povos locais com migrantes da Península Arábica: amaras, tigrinos e guragues… Abissínia, a terra dos habesha era o nome da Etiópia até ao século XIX antes de o país conquistar os povos do sul. A palavra também entrou na língua portuguesa: abexim é sinónimo de etíope. Já etíope vem do grego e significa rosto(s) queimado(s), palavra que designa na Bíblia os habitantes a sul do Egito (Sudão, Etiópia). A famosa rainha de Sabá tanto poderia ser etíope como sudanesa, do reino de Meroé onde as rainhas eram chamadas Kandake.

China. Esta é a nova maneira de os miúdos — e os graúdos em menor escala — chamarem os estrangeiros brancos. Ouvi-a pela primeira vez em Adis-Abeba na tarde em que cheguei ao país há dois anos. Quando me chamam «China» eu respondo «China, não. Portugal!» (ou Burtukan que é a forma etíope de dizer Portugal e significa laranja). Os chineses têm uma presença muito notada no país através da construção de infra-estruturas (auto-estradas, estradas, vias férreas — renovaram e electrificaram a linha do Jibuti e montaram um metro de superfície na capital, fábricas, linhas de alta tensão, etc.). Uma presença em quase toda a África. Os chineses são os novos senhores do continente negro mais interessados nas matérias primas (petróleo e outros minerais, madeira, etc.) em troca de empréstimos ou de construção de infra-estruturas. Quando os estados não pagam as dívidas tomam conta e gerem em proveito próprio as infra-estruturas locais (portos, aeroportos, auto-estradas, etc.) dadas como garantia para os empréstimos.

Petros. Este é o nome que me chamam na zona de Anfarara, uma aldeia que está a uns 25 quilómetros de Qillenso a caminho de Adola. O comboniano mexicano P. Pedro Pablo Hernández — conhecido em guji como Abba Petrosi — abriu em Anfarara um catecumenato durante algum tempo. Ser branco é ser Petros!

Lio. Na picada através da floresta para a missão de Soddu Abala — filha da missão de Qillenso onde vivo — a pequenada grita «Lio, Lio» quando vê o veículo passar. O P. Leonardo d’Alessandro, um sacerdote da diocese de Bari que trabalha como missionário na Etiópia há trinta anos, foi pároco de Soddu Abala durante muito tempo. É conhecido como Abba Leo.

Beka. Junto do bairro onde as Missionárias da Caridade vivem e têm e o centro de acolhimento para doentes terminais e bebés rejeitados, nos arredores de Adola, a pequenada quando vê o todo-o-terreno que conduzo desata a gritar «Beka, Beka». É o nome do condutor das missionárias que têm um veículo igual.

You you. Tu, tu em inglês. Há 30 anos, quando cheguei à Etiópia pela primeira vez, ao verem um estrangeiro os miúdos entoavam a lengalenga: «You, you, you! Money, money, money!», «Tu, tu, tu! Dinheiro, dinheiro, dinheiro!». Agora ficam-se pelo «You, you!» quando querem chamar a minha atenção.

Oito nomes para a mesma pessoa! Sou rico de nada!

24 de novembro de 2023

NOVO DIÁCONO COMBONIANO ETÍOPE









Melaku Wolde Tekle fez a profissão perpétua no Instituto dos Missionários Combonianos e foi ordenado diácono em vista ao presbiterado missionário.

Melaku — Anjo, em amárico, uma das muitas dezenas de línguas faladas na Etiópia — nasceu há 30 anos em Tanaka, eparquia de Emdibir.

Depois de concluir o postulantado em Adis-Abeba em 2015, foi para o noviciado em Lusaka, Zâmbia. Fez a primeira profissão como missionário comboniano em 2017 e completou o curso de teologia em Casavatore, Itália, em 2022.

Em 2023 regressou à Etiópia para o serviço missionário, um período de pastoral de dois anos antes da ordenação, integrando a comunidade comboniana de Gublak, entre o povo Gumuz.

A consagração perpétua para a missão no Instituto Comboniano teve lugar na tarde de 16 de novembro de 2023 no Postulantado de São Daniel Comboni em Asko, um bairro de Adis-Abeba, a capital etíope.

O comboniano ganês P. Joseph Anane, superior do postulantado, nas boas-vindas apresentou a celebração como um acontecimento grandioso que motiva os sete postulantes no processo pessoal de discernimento vocacional.

A celebração solene, presidida pelo superior provincial P. Asfaha Yohannes, contou com a presença de familiares e amigos do professante, uma dúzia de padres (dez combonianos e dois de Emdibir) e algumas Missionárias Combonianas.

Durante a homilia, o P. Asfaha recordou que Melaku iniciou a sua formação de base naquela comunidade há uma dezena de anos e agora encerra-a no mesmo local através da profissão de perpétua castidade, pobreza e obediência no Instituto Comboniano.

O Superior Provincial convidou Melaku a seguir as pegadas de São Daniel Comboni, abandonando-se à Providência Divina.

Depois das fotos da praxe, a celebração concluiu com o jantar festivo para todos os participantes.

Três dias depois, Melaku foi ordenado diácono em Bahirdar, a sede da eparquia onde serve como missionário e capital do estado regional amara.

A ordenação diaconal teve lugar no domingo, 19 de novembro, na igreja paroquial de Genete-Selam Kidanemihret.

Dom Lesanuchristos Metheos, eparca de Bahirdar-Dessie, presidiu à eucaristia da ordenação, que foi celebrada no Rito Católico Etíope.

Eparquia é o nome dado a uma diocese do Rito Católico Oriental e o seu bispo é eparca.

A Igreja Católica Etíope tem quatro eparquias (do rito oriental etíope) e oito vicariatos apostólicos e uma prefeitura apostólica (do rito latino).

Uma assembleia diversificada, formada por paroquianos, freiras, padres do clero local, jesuítas, vicentinos e combonianos, participou na eucaristia da ordenação.

Durante a homilia, Dom Lesanuchristos disse que a estimada posição de serviço do diácono traz uma responsabilidade imensa, pedindo-lhe para ser um farol do amor de Cristo, de compaixão e serviço aos irmãos e irmãs da comunidade cristã.

O novo diácono continua o seu estágio em Gublak, uma das duas missões confiadas aos combonianos na Eparquia de Bahirdar-Dessie.

A ordenação estava agendada para o fim de outubro na missão de Gublak, durante a festa dos seus padroeiros, os Beatos Mártires de Paimol (Uganda), Daudi Okelo e Gildo Irwa. Contudo, a insegurança causada pelos combates desde abril passado entre a milícia amara e o exército levou ao seu adiamento para Bahirdar.

9 de novembro de 2023

FINALMENTE, A CAPELA VERDE







A comunidade católica de Hirbora fica nos arredores da cidadezinha de Zambaba, a quase três dezenas de quilómetros de Adola, o segundo centro da missão comboniana de Qillenso, na estrada que dá para a Somália.

Os rebeldes do Exército de Libertação da Oromia (OLA na sigla em inglês) — a quem o Governo apoda pejorativamente de Chané — estão particularmente ativos na área. Devido à insegurança, nos últimos dois anos visitamos a capela apenas quatro vezes.

Conheci Hirbora no primeiro domingo de novembro, depois de dois anos em Qillenso. Tínhamos agendado os batismos para o domingo de Pascoela, mas um ataque do OLA a Zambaba — com o saque do posto de saúde local — levou ao adiamento para 5 de novembro.

Saí de Adola com o todo-o-terreno lotado: duas Missionárias da Caridade (as Irmãs de Santa Teresa de Calcutá), o senhor Sholango (o professor reformado sempre pronto a acompanhar os missionários nas visitas às comunidades), Gammachu (um adolescente que está a ser tratado da tuberculose no hospício das irmãs e que também nos acompanha nas idas às capelas) e um grupo de jovens que queriam conhecer Hirbora ou simplesmente dar um passeio.

A cerca de oito quilómetros de Adola fomos parados no controlo militar junto à capela de Hurre Heto. Todos saímos da viatura para sermos identificados e o veículo revistado.

A partir daí, a estrada era uma incógnita para mim! Por isso, tinha alguma preocupação com o que poderia encontrar adiante. As estórias de assaltos, destruição de veículos, sequestros e mortes às mãos dos rebeldes do OLA são comuns.

A estrada enrola-se, qual jibóia gigante de asfalto, pelas colinas verdejantes de campos de tefi (o cereal miúdo nativo da Etiópia) ou pastos e através de uma floresta frondosa de árvores autóctones a competirem com pinheiros e eucaliptos por um lugar ao sol.

Uma paisagem linda, mas perigosa: os rebeldes usam a densa floresta para organizarem emboscadas na estrada com o fito de extorquir dinheiro e bens aos passantes. Também fazem sequestros para extorquirem avultados resgates.

Hirbora, a capela com a frente de verde pintada, ali está: altaneira, com vistas deslumbrantes para as colinas à sua volta com uma alta coluna, obra das térmitas, de sentinela à sua frente.

A pequena capela — luminosa das seis janelas e do reflexo do seu teto de tecido branco — estava cheia. Mais de quatro dezenas de católicos esperavam a cantar pela minha chegada para celebrarmos a eucaristia e os batismos.

Na assembleia estava Haro Waqo. É um dos dois catequistas de Massina — a capela azul — que fica a uns cinquenta quilómetros de Hirbora. Veio por iniciativa pessoal passar algum com os católicos das comunidades à volta de Zambaba para os animar na fé.

Perguntei-lhe se queria aproveitar a boleia até Adola. «Fico por aqui mais uns dias» — respondeu, com o seu sorriso habitual. Um lindo exemplo de dedicação missionária.

Fiquei muito edificado com o modo como as pessoas participaram na missa através das respostas seguras e dos cânticos cheios de energia e alegria. Apesar de, em dois ano, ser aquela a quarta vez que celebravam a Eucaristia dominical, mostravam pelo seu estar que se reunem amiúde para celebrar a Palavra, presididos pelo catequista.

(Abro um parêntesis: reconhecendo a dedicação e empenho de alguns catequistas na liderança das comunidades e com a preparação catequética que têm, pergunto-me porquê, mesmo casados, não podem ser ordenados presbíteros para que as comunidades católicas sejam verdadeiramente eucarísticas, que se reunam à volta da Eucaristia pelo menos semanalmente?)

Antes da Eucaristia, atendi de confissão quem quis, como é prática pastoral no Vicariato Apostólico de Hawassa. A assembleia, entretanto, rezou as orações da manhã e algumas dezenas do terço.

No início da celebração expressei a grande alegria por finalmente conhecer os católicos de Hirbora depois de dois anos da chegada a Qillenso! Zambaba era uma palavra mágica que me enchia de expectativas e — confesso — de medos.

A Eucaristia foi celebrada com a calma e alegria que caraterizam as liturgias por estas latitudes. O tempo não é um bem essencial que não se pode esbanjar. É um estar juntos que se faz e celebra.

Durante a celebração, administrei o batismo a três adolescentes e cinco bebés. A comunidade continua paulatinamente a crescer.

No final da missa, pediram-me para abençoar os rebuçados a ser distribuídos pela petizada.

A minha primeira visita a Hirbora concluiu com uma refeição: injera (o pão local feito com farinha de tefi) e um refugado de lentilhas, regados com um refresco.

Depois fizemos uma visita guiada pelo terreno da comunidade.

Quando o comboniano mexicano padre Pedro Pablo Hernández pediu às autoridades locais um pedaço de terra para começar o catecumenato, ofereceram-lhe aquele espaço avantajado no alto da colina com vistas sobre Zambaba.

A primeira construção foi de paus e capim. Depois construíram a capela atual: de madeira e barro, coberta a zinco, com dois pequenos cómodos atras do altar.

A viagem de regresso a Adola foi já bem mais descontraída.

Como a segurança à volta de Zambaba a melhorar, decidimos começar a celebrar a eucaristia dominical todos os meses em Hirbora, mantendo a situação sob o radar.

A comunidade fiel católica merece essa atenção. E esse risco.

3 de novembro de 2023

PARTIU UM HOMEM DE DEUS


Dom Paride Taban, bispo emérito de Torit, no Sudão do Sul, regressou à Casa do Pai no dia 1 de novembro de 2023 de um hospital de Nairobi, Quénia, onde havia sido internado. Um santo que vive a comunhão plena com Deus e com os irmãos e irmãs no Dia de Todos os Santos. Contava 87 anos.

«Paride Taban era um humilde guerreiro para a paz», declarou Dom Eduardo Hiiboro Kussala, bispo sul-sudanês de Tombura-Yambio, ao programa Newsday da Rádio BBC.

Paride nasceu em 1936 em Opari, na Província de Equatória de Leste, no sudeste do Sudão. Foi ordenado padre em 1964 e bispo auxiliar de Juba, a capital do país, em 1980. Em 1983 tomou posse da nova diocese de Torit que governou até 2004, altura em que resignou.

Dom Paride fez parte da geração de jovens padres sul-sudaneses que, sem preparação alguma, tiveram de tomar em mãos a Igreja local quando, em 1964, o regime islamista de Cartum decretou a expulsão de todos os missionários — católicos e protestantes — do sul do país. Fizeram-no com muita dedicação e sucesso, enfrentando inúmeras dificuldades.

Defensor intrépido do seu rebanho, foi perseguido tanto pelo Governo de Cartum como pelos rebeldes do SPLA, o Exército de Libertação dos Povos do Sudão, que o mantiveram preso em condições humilhante durante algum tempo.

Dom Paride era, acima de tudo, um místico e um paladino da paz.

Em 1994, foi enviado ao Ruanda para mediar os esforços de reconciliação depois do terrível genocídio que afetou aquele país da África Oriental. Em 2013, tornou-se um denunciante acérrimo da guerra civil que estalou no Sudão do Sul entre as forças do Presidente Salva Kiir e do Vice-Presidente Riek Machar. Antes, havia mediado entre Kiir e o líder rebelde David You You.

Em 2000, inspirado pela visita que fez a uma comunidade na Terra Santa onde israelitas e palestinianos viviam juntos em paz, estabeleceu a Aldeia da Paz da Santíssima Trindade em Kuron para fomentar a concórdia entre as tribos beligerantes da sua diocese.

Em Kuron, vacas e armas, que alimentam as lutas intertribais na Equatória Oriental e noutras partes do país, estão banidas. Os residentes trocam a pastorícia pela agricultura e os jovens medem forças não através das razias, mas no campo de futebol. Defensores da paz observam e reportam movimentos suspeitos de jovens e homens armados na região e comunicam-nos através da rede móvel.

Em 2013, Ban Ki-Moon, Secretário Geral das Nações Unidas, galardoou Dom Paride com o Prémio da Paz Sérgio Vieira de Mello pelo trabalho em Kuron.

Dom Paride foi co-fundador do Conselho das Igrejas do Novo Sudão de quem foi o primeiro presidente. Por isso, o Arcebispo de Cantuária, Justin Welby, distinguiu-o com o Prémio Hubert Walter para a Reconciliação e Cooperação Interfé em 2017. Normalmente a Igreja Católica mantém o estatuto de observador neste tipo de organismos.

O bispo emérito de Torit era também desde 2016 co-presidente do Comité de Diálogo Nacional, organismo que devia promover a reconciliação e a paz no país mais jovem do mundo.

Em 2018, recebeu o Prémio Four Freedoms da Fundação Roosevelt pela «sua dedicação incondicional e abnegada para trazer a liberdade e paz ao povo do Sudão do Sul».

Encontrei-me inúmeras vezes com Dom Paride durante a minha estada de sete anos no Sudão do Sul ao serviço da Rede de Rádios Católica da qual era diretor de informação. 

Entrevistei-o algumas vezes quando se deslocava de Kuron a Juba para participar nas reuniões da Conferência Episcopal e noutros eventos. Era uma voz sábia capaz de ler os sinais dos tempos.

Entrevistá-lo foi sempre uma experiência única e impar pela transparência, humildade, bondade, alegria e sabedoria que irradiava.

Contou-me muitas histórias da sua vida. Durante o cativeiro às mãos do SPLA, os rebeldes fizeram a sua retrete no alto de uma colina sem nenhuma privacidade para todos o poderem ver a fazer as suas necessidades.

Homem de hábitos espartanos, confidenciou-me que isso o ajudou a passar esse tempo difícil de cativeiro. Alguns prisioneiros dos rebeldes sofreram muito, porque estavam habituados ao chá ou às papas para pequeno-almoço. Ele contentava-se com o que lhe serviam.

Um dos momentos a que se referia com grande humor foi quando, aos 68 anos, decidiu pedir a resignação de primeiro bispo de Torit para se dedicar à aldeia de Kuron.

«No Vaticano pensavam que eu estava maluco e exigiram que fosse visto por uma junta de psicólogos e psiquiatras», disse-me com o seu sorriso travesso.

Dom Paride é uma figura maior, impar e incontrolável da Igreja e da independência do Sudão do Sul. Nunca deixou de promover a paz e os direitos do seu povo. Agora fá-lo desde a Casa do Pai.

Descansa em paz!, servo bom, humilde e fiel.

30 de outubro de 2023

ETIÓPIA: PROVÍNCIA COMBONIANA TEM NOVO PADRE





A província comboniana da Etiópia tem um novo presbítero: Abba Tamirat Tagegn, ordenado no sábado, 28 de outubro de 2023.

A paróquia católica de São Miguel de Hembecho, dirigida pelos Frades Capuchinhos no Vicariato Apostólico de Sodo, Sul da Etiópia, vestiu-se de festa para acolher a ordenação sacerdotal de um dos seus filhos.

A chuva matinal não impediu que os fiéis, vestidos com os trajes festivos e tradicionais, se pusessem a caminho e enchessem o grande templo quadrado construído à volta de um enorme altar sustentado por doze colunas.

Mais tarde, o sol agraciou o evento com a sua luz radiante.

Dois coros emprestaram  cor, alegria e energia à celebração solene.

Dom Tsegaye Keneni, Vigário Apostólico de Sodo, presidiu à Eucaristia e conferiu a ordenação.

Cerca de quarenta sacerdotes — padres locais dos Vicariatos Apostólicos de Sodo e Hawassa e missionários de vários Institutos, algumas religiosas e dois diáconos — também testemunharam a ordenação de Abba Tamirat.

A liturgia, conduzida em amárico e wolaytta, prolongou-se por mais de três horas.

O novo sacerdote escolheu Lucas 10,1-11 como Evangelho para a sua ordenação.

Dom Tsegaye, na homilia, sublinhou que Deus chama as pessoas do seio da família; que Abba Tamirat é ordenado para estar ao serviço da Eucaristia, que está no centro da vida cristã; que o seu ministério representa a presença da Igreja local de Sodo na missão da Igreja universal de Cristo; que os fiéis devem apoiar o novo presbítero com as suas orações.

Depois da homilia, os pais de Tamirat apresentaram o filho para a ordenação.

Abba Asfaha Yohannis, superior provincial dos combonianos na Etiópia, revestiu o recém-ordenado com os seus paramentos litúrgicos.

Durante a ação de graças, o Abba Asfaha expressou a sua gratidão a Deus, ao Bispo e a Abba Tamirat, aos seus pais, à paróquia e a todos os presentes. Aproveitou a ocasião para evocar a vida e o carisma de São Daniel Comboni.

O neo-sacerdote teve também palavras de agradecimento em inglês, amárico e wolaytta.

No final da celebração eucarística, muitos participantes vieram saudar o novo sacerdote comboniano e abençoá-lo com muitos presentes, algum dinheiro e um touro.

A cerimónia de ordenação concluiu com um almoço fraterno onde foram servidos aos participantes muitos pratos tradicionais saborosos.

Abba Tamirat regressa ao Peru no início de novembro. Concluiu a sua formação teológica em Lima no início deste ano e foi destinado pelo Conselho Geral para inaugurar o seu ministério sacerdotal missionário na Província do Peru.

18 de outubro de 2023

A BENÇÃO DA MISSÃO


Lucas conta no Evangelho que os setenta e dois regressaram da sua jornada missionária com incontida alegria. «Senhor, até os demónios se nos submetem em teu nome» — reportaram, jubilosos, a Jesus (Lucas 10, 17).

O Mestre acolheu o seu entusiasmo com alguns ditos. A minha atenção fixou-se na sua última afirmação. Jesus congratula os discípulos com uma bênção: «Felizes os olhos que veem o que estais a ver. Porque — digo-vos — muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes e não o viram, ouvir o que ouvis e não ouviram» (Lucas 10, 23-24).

A missão é, de facto, uma bênção, uma felicidade. Ao aceitar sair para as periferias do mundo, o missionário entra numa jornada inédita de redescoberta de Deus e do humano viver.

Quando vim pela primeira vez viver com o povo guji do Sul da Etiópia — já lá vão trinta anos — aprendi a entender Deus de uma maneira diferente.

Os gujis começam a oração tradicional invocando Deus como Pai e Mãe, Avô e Avó, Bisavô, que nos deu à luz. Esta invocação ilumina o conceito de Deus como o antepassado comum do qual todos provimos e para o qual todos voltamos. O Alfa e o Omega do nosso viver. A Fonte e o Destino do nosso ser.

Já no Sudão do Sul, impactou-me a afirmação «Deus é generoso», «Allah Karim». Ouvi esta frase árabe imensas vezes durante os sete anos que permaneci no país mais jovem do mundo. Deus é generoso e nós somos produto e destino dessa generosidade sem limites.

Estes novos modos de dizer Deus, aprendidos dos povos a quem vim missionar, são parte da novidade do seguir Jesus pelos caminhos do Evangelho.

Depois, há a outra vertente: a experiência de ser humano em expressões totalmente novas e tão legítimas como a nossa experiência própria.

Começa com a aprendizagem da língua local e da sua cultura para ter acesso ao coração das pessoas. Ainda hoje quem não me conhece fica surpreendido por me ouvir a falar — mais ou menos bem — guji. A polícia em Adis-Abeba perdoou-me duas multas, agradecendo-me por falar a língua deles.

A língua, além de ser o instrumento de trabalho mais importante do missionário, dá-lhe acesso às pessoas numa plataforma de igual para igual. Na Etiópia, os combonianos têm a tradição de não usar intérpretes. Quando chegam têm o tempo necessário para entrar nos meandros da gramática local para depois poderem trabalhar sem a barreira da tradução.

Há ainda outro aspecto a reter: a emersão numa cultura nova escancara as portas a uma experiência nova de humanidade, experimentando o humano viver em dimensões e expressões novas e desafiantes e reconhecendo a legitimidade e a validade das culturas hospedeiras.

Esta experiência passa pela comida e pela bebida (às vezes à custa de algumas diarreias), pelas danças e cantares, pela forma de vestir, pela singularidade dos conceitos de tempo e espaço, pelas prioridades, pelos salamaleques…

A experiência humana mais profunda que fiz foi passar da vida tranquila dos gujis do Uraga para a Cidade do México depois de uma breve semana em Portugal para levantar o visto de estudante na embaixada mexicana em Monsanto.

Não pode haver contraste maior do que a vida dos gujis do Uraga e a vida dos mexicanos na megalópole que lhes serve de capital. Das colinas verdejantes e cheias de vida à confusão poluída da grande urbe onde — descobri — é quase impossível estar sozinho. Duas maneiras de viver tão díspares e tão legítimas.

Jesus felicita os discípulos pelo que veem e ouvem. O que é? A erupção silenciosa do tempo de Deus no tempo humano, o irromper humilde do Reino de Deus na cidade humana através de pequenos e singulares gestos de partilha, respeito, hospitalidade, acolhimento, salvação.

A missão, essa estranha forma de vida que faz do missionário um andarilho do Evangelho, é uma felicidade, uma bênção, uma jornada pessoal de redescoberta e crescimento na vivência do mistério de Deus e do humano.

11 de outubro de 2023

OS DESAFIOS DA EDUCAÇÃO



O novo ano escolar de 2016 (segundo o calendário local) está a dar os primeiros passos. Na escola da missão de Qillenso, 180 alunos já se matricularam da quinta à oitava classe: 72 raparigas e 108 rapazes. A turma maior é a do oitavo ano: 68 estudantes (40 rapazes e 28 raparigas).

Para os ensinar o Governo destacou sete professores: duas mulheres e cinco homens. A missão contratou mais dois em regime parcial: um bibliotecário que também dá aulas de recuperação algumas tardes por semana e um professor de moral e estudos de paz.

A escola, neste ano letivo, tem de comprar três computadores para os alunos praticarem o que aprendem nas aulas de informática.

A escola de Gosa — uma antiga missão que agora é capela da missão de Qillenso — tem quase 1300 alunos matriculados do infantário até à oitava classe. O vicariato de Hawassa, a nossa diocese, controla a escola. O infantário de Adola, das Missionárias da Caridade, tem 200 inscritos: lotação máxima.

No total, a missão de Qillenso serve quase 1700 alunos nas suas três escolas.

Este ano escolar será mais tranquilo que os últimos dois? É a minha esperança e o meu voto!

O sistema educativo etíope está a a ser reformado. As mudanças colocam alguns desafios tanto a alunos como a professores.

O Ministério da Educação do Estado Regional de Oromia — de que Qillenso faz parte — decidiu rever o currículo no ano passado, mas não imprimiu os livros a tempo. Os professores davam as aulas usando os PDF dos novos manuais nos seus telemóveis.

Para mitigar esta dificuldade, fizemos fotocópias dos manuais para os professores. Mas o serviço ficou muito caro.

Os alunos pagam 100 birr (pouco mais de um euro) de propinas por ano mais 100 birr para os exames (para pagarem as fotocópias dos testes). O Governo dá-nos um subsídio anual de 10 mil birr e o vicariato também contribui com cerca de 90 mil birr. Contudo, as entradas são manifestamente insuficientes para cobrir as despesas da escola. Valem-nos as ajudas dos benfeitores.

O Mistério Federal da Educação, por seu turno, decidiu reformar os exames nacionais no ano passado. Os resultados foram catastróficos.

Dos alunos que fizeram o exame de admissão à universidade no ano passado só 3,3 por cento passaram. Os resultados deste ano são idênticos. Os exames, que duram três dias, foram feitos nalgumas universidades regionais com polícias federais na vigilância. Os candidatos podem tentar três vezes o exame ou frequentar uma universidade privada.

Os maus resultados espelham as dificuldades que o ensino público enfrenta, sobretudo o conhecimento do inglês, a língua de instrução a partir do nono ano. Na Escola Secundária Comboni, que as Missionárias Combonianas dirigem em Hawassa, dos 187 alunos que fizeram as provas de acesso ao superior 176 passaram.

Os resultados do exame de admissão ao ensino secundário este ano foram um desastre. Dos 54 alunos de Qillenso que o fizeram só um passou (o filho de um professor). No nosso distrito dez escolas registaram zero passagens.

Tentei perceber o que aconteceu. Por um lado, os testes seguiram um modelo novo. Por outro, os alunos fizeram os exames não nas próprias escolas, mas nas escolas da cidade.

No passado, com os exames locais, havia fuga de testes e as respostas eram publicadas na rede social Telegram. Este ano, não houve copianço, porque os testes foram guardados a sete chaves.

Entretanto, o Ministério nacional introduziu o novo exame de fim de curso da universidade. Sessenta por cento dos universitários reprovaram.

O ministro da educação — que é o líder de um partido da oposição — quer reformar e melhorar o sistema educativo etíope.

Para tal, suspendeu a construção de algumas universidades nos estados regionais — com o argumento de que não há professores para tantas instituições públicas de ensino terciário — e investiu nos infantários para criar hábitos escolares na pequenada.

Os alunos em geral têm algumas atitudes negativas em relação à assiduidade e ao estudo.

Se têm duas semanas de férias — no Natal e na Páscoa — aparecem depois de três semanas. Quando lhes é dada uma semana para ajudarem os pais na colheita do milho e do café aparecem 15 dias depois.

Por outro lado, não há o hábito de estudar depois das aulas. Os rapazes sentam-se a conversar na estrada e as raparigas têm as tarefas domésticas à sua espera. Aliás, quando passam de ano, celebram queimando os cadernos diários e ficando sem apontamentos para se prepararem para os exames.

26 de setembro de 2023

SÃO DANIEL COMBONI: APÓSTOLO DE ÁFRICA E DA MISSÃO


No caminho de catequeses sobre a paixão evangelizadora, ou seja, o zelo apostólico, meditemos hoje sobre o testemunho de São Daniel Comboni. Ele foi um apóstolo cheio de zelo pela África. Sobre aqueles povos, escreveu: «Apoderaram-se do meu coração, que só vive para eles» (Escritos, 941), «morrerei com a África nos meus lábios» (Escritos, 1441). É bonito... E a eles dirigia-se assim: «O mais feliz dos meus dias será quando eu puder dar a vida por vós» (Escritos, 3159). Trata-se da expressão de uma pessoa apaixonada por Deus e pelos irmãos que servia em missão, a propósito dos quais não se cansava de recordar que «Jesus Cristo sofreu e morreu também por eles» (Escritos, 2499; 4801).

Afirmava-o num contexto caraterizado pelo horror da escravatura, de que foi testemunha. A escravatura “coisifica” o homem, cujo valor se reduz a ser útil a alguém ou a algo. Mas Jesus, Deus que se fez homem, elevou a dignidade de cada ser humano, desmascarando a falsidade de qualquer escravatura. À luz de Cristo, Comboni adquiriu consciência do mal da escravatura; além disso, compreendeu que a escravatura social se arraiga numa escravatura mais profunda, a do coração, do pecado, da qual o Senhor nos liberta. Portanto, como cristãos, somos chamados a lutar contra todas as formas de escravatura. Mas infelizmente a escravatura, assim como o colonialismo, não é uma recordação do passado, infelizmente! Na África tão amada por Comboni, hoje dilacerada por numerosos conflitos, «depois daquele político, desencadeou-se (...) um “colonialismo económico”, igualmente escravizante (...). É um drama perante o qual o mundo economicamente mais avançado muitas vezes fecha os olhos, os ouvidos e a boca». Por isso, renovo o meu apelo: «Deixai de sufocar a África: ela não é uma mina a explorar, nem um solo a saquear» (Encontro com as Autoridades, Kinshasa, 31 de janeiro de 2023).

Voltemos à vicissitude de São Daniel. Depois de ter passado um primeiro período na África, teve que abandonar a missão por motivos de saúde. Demasiados missionários tinham morrido por ter contraído doenças, devido ao escasso conhecimento da realidade local. Mas se outros abandonavam a África, Comboni não. Após um período de discernimento, sentiu que o Senhor lhe inspirava um novo caminho de evangelização, que ele resumiu com as seguintes palavras: «Salvar a África com a África» (Escritos, 2741 s.). Trata-se de uma intuição poderosa, não há colonialismo algum nisto: é uma intuição poderosa que contribuiu para renovar o compromisso missionário: as pessoas evangelizadas não eram apenas “objetos”, mas “sujeitos” da missão. E São Daniel Comboni desejava tornar todos os cristãos protagonistas da ação evangelizadora. E com este espírito, pensou e agiu de modo integral, envolvendo o clero local e promovendo o serviço laical dos catequistas. Os catequistas são um tesouro da Igreja: os catequistas são aqueles que vão em frente na evangelização. Assim concebia também o desenvolvimento humano, interessando-se pelas artes e profissões, favorecendo o papel da família e da mulher na transformação da cultura e da sociedade. E como é importante, ainda hoje, fazer progredir a fé e o desenvolvimento humano a partir do interior dos contextos de missão, em vez de neles transplantar modelos externos, ou limitar-se a um assistencialismo estéril! Nem modelos externos, nem assistencialismo. Haurir da cultura dos povos o caminho para fazer a evangelização. Evangelizar a cultura e inculturar o Evangelho: caminham juntos!

No entanto, a grande paixão missionária de Comboni não foi principalmente fruto do esforço humano: ele não era impelido pela sua coragem, nem motivado apenas por valores importantes, como a liberdade, a justiça e a paz; o seu zelo nascia da alegria do Evangelho, alimentava-se do amor de Cristo e levava ao amor a Cristo! São Daniel escreveu: «Uma missão tão árdua e laboriosa como a nossa não pode viver de aparências, de sujeitos de pescoço torto, cheios de egoísmo e de si próprios, que não se preocupam, como deviam, com a saúde e a conversão das almas». Este é o drama do clericalismo, que leva os cristãos, até os leigos, a clericalizar-se e a transformá-los - como se diz aqui - em sujeitos de pescoço torto, cheios de egoísmo. Esta é a chaga do clericalismo. E acrescentava: «É preciso fazê-los arder de caridade, com a sua fonte em Deus e no amor de Cristo; e quando se ama verdadeiramente a Cristo, então as privações, os padecimentos e o martírio são docilidades» (Escritos, 6656). O seu desejo era ver missionários fervorosos, alegres, comprometidos: missionários - escrevia - «santos e capazes. [...] Primeiro: santos, isto é, alheios ao pecado e humildes. Mas não basta: é necessária a caridade para tornar os sujeitos capazes» (Escritos, 6655). Portanto, para Comboni a fonte da capacidade missionária é a caridade, em particular o zelo de fazer seus os sofrimentos dos outros.

De resto, a sua paixão evangelizadora nunca o levou a agir como solista, mas sempre em comunhão, na Igreja. «Só tenho a vida para consagrar à saúde daquelas almas», escreveu, «gostaria de ter mil para as consumir com este objetivo» (Escritos, 2271).

Irmãos e irmãs, São Daniel dá testemunho do amor do bom Pastor, que vai em busca de quem se perdeu e dá a vida pelo rebanho. O seu zelo foi enérgico e profético, opondo-se à indiferença e à exclusão. Nas cartas recordava com entusiasmo a sua amada Igreja, que durante demasiado tempo tinha esquecido a África. O sonho de Comboni é uma Igreja que faça causa comum com os crucificados da história, para experimentar com eles a ressurreição. Neste momento, dou-vos uma sugestão. Pensai nos crucificados da história de hoje: homens, mulheres, crianças, idosos que são crucificados por histórias de injustiça e de domínio. Pensemos neles e oremos! O seu testemunho parece reiterar a todos nós, homens e mulheres de Igreja: “Não esqueçais os pobres, amai-os, pois neles está presente Jesus crucificado, à espera de ressuscitar”. Não vos esqueçais dos pobres: antes de vir aqui, tive um encontro com legisladores brasileiros que trabalham a favor dos pobres, que procuram promover os pobres com a assistência e a justiça social. E eles não se esquecem dos pobres: trabalham pelos pobres. Digo-vos: não vos esqueçais dos pobres, pois são eles que vos abrirão a porta do Céu.

Papa Francisco

GUARDADORAS DA ESPERANÇA

— Eu não consigo… não consigo! – repetia sempre Reem, uma jovem beduína palestiniana de 16 anos, sempre que a convidávamos para aprender a u...