23 de maio de 2021

PENTECOSTES: A SAFRA DA RESSURREIÇÃO


Celebramos a solenidade do Pentecostes, a vinda do Espírito Santo. Pentecostes significa (em grego) quinquagésimo (dia) depois da Páscoa.

Para o povo hebreu o pentecostes — ou a festa das sete semanas — era o festival das colheitas dos cereais (trigo e cevada) com a apresentação dos primeiros frutos no Templo de Jerusalém onde faziam uma grande peregrinação sete semanas depois da Páscoa. 

Nessa celebração também recordavam o dom da Lei (a Torah) feito por Deus a Moisés no Monte Sinai. Mais tarde, transformou-se numa festa caseira com abundância de comida.

Jesus prometeu aos discípulos o Paráclito: antecessor, consolador, advogado, confortador, ajudante. O Espírito Santo é a grande colheita da Ressurreição do Senhor.

Na criação, o Espírito de Deus pairava sobre a superfície das águas. Na re-criação — a Páscoa do Senhor — o Espirito Santo é o sopro de Deus em nós, como o foi na vida e ministério de Jesus, o ungido com o Espírito de Deus, Messias, Cristo. 

O Paráclito guiou a Igreja pelos novos caminhos da missão pascal. Os Atos dos Apóstolos bem podiam ser chamados Atos do Espírito Santo.

O santo Paulo VI escreveu que «o Espírito Santo é o agente principal da evangelização: é ele, efetivamente, que impele para anunciar o Evangelho, como é ele que no mais íntimo das consciências leva a aceitar a Palavra de Deus».

O Espírito enviado do Pai pelo Ressuscitado é o grande tradutor das maravilhas, dos grandes feitos de Deus para todas as línguas. Através da linguagem universal do amor.

Os seus frutos são «amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, auto-domínio» como Paulo explicou aos cristãos da Galácia. Representam o essencial para o bem-estar de todos e de cada pessoa, para o bem-estar do universo inteiro.

É o Espírito Santo que tatua com o seu fogo a Lei de Deus — o chamamento universal ao amor — no coração de cada pessoa.

Com o Papa Francisco rezamos:

Vinde, Espírito Santo!
Mostrai-nos a vossa beleza refletida em todos os povos da terra,
para descobrirmos como todos são importantes,
que todos são necessários,
que são rostos diferentes da mesma humanidade
amada por Deus.
Amen.

3 de maio de 2021

PÊRA DE OURO


O abacate é produto de valor acrescentado para agricultores africanos.

A pêra abacate impôs-se como um superalimento devido aos inúmeros benefícios para a saúde. De valor nutritivo elevado, é baixa em açúcar, rica em fibra, vitaminas, minerais e gorduras saudáveis, importante no combate ao cancro, artrite, pressão arterial, obesidade, inflamações e até depressões. O grande teor alcalino deu-lhe importância no combate à covid-19. Pode ser consumido simples, em saladas ou aperitivos diversos. Eu gosto dele com limão ou vinho fino no espaço do caroço ou misturado com tomate, cebola e malaguetas picados, o famoso guacamole mexicano. Além da alimentação, o fruto é usado na cosmética e na indústria farmacêutica.

O abacate é originário do México e da América Central. O nome deriva de awa’katl, a sua designação em nauatle, a língua dos Astecas. O México produz um terço da colheita mundial. O Quénia e a África do Sul encontram-se entre os seus dez maiores exportadores. O mercado global desta fruta gerou, em 2019, quase 11 mil milhões de euros e prevê-se que em 2025 atinja os 15 mil milhões. Em 2019, os Norte-Americanos consumiram 1,3 milhões de toneladas desta pêra e, em 2020, os Europeus 1,1 milhões.

A produção do abacate é bastante simples e requer pouca mão-de-obra, excepto na apanha. O abacateiro é das árvores que melhor resiste ao calor das mudanças climáticas, produz sombra e contribui para a formação de chuva, funcionando como regulador ambiental.

A variedade Hass, nativa da Califórnia, é a mais apreciada: o fruto é maior com caroço menor, começa a produzir depois de dois a três anos da plantação, enquanto as espécies nativas levam até oito anos para começar a dar fruto, amadurece rapidamente e tem um tempo mais longo de prateleira.

Agricultores africanos estão a aproveitar a oportunidade, seguindo o êxito do Quénia e da África do Sul. Enxertam a variedade Hass nas espécies locais, mais resistentes às pragas. Quénia, África do Sul, Ruanda, República Democrática do Congo e Camarões formam o grupo dos maiores produtores de abacate na África. Uganda, Tanzânia, Zimbabué, Moçambique, Marrocos e Nigéria também estão a aumentar a sua produção. Etiópia, Angola, Maláui e Zâmbia têm grande potencial para entrar na produção do superfruto, que é exportado fresco, seco ou em óleo (um produto caro e de grande procura).

A produção africana é escoada sobretudo para a Europa e Médio Oriente. A China é um mercado promissor, pois consome mais de 32 mil toneladas por ano. Contudo, o Governo de Pequim é bastante exigente em relação às medidas fitossanitárias devido à mosca-da-fruta e outras pragas. A princípio, exigiu aos produtores quenianos – os primeiros a penetrar no mercado chinês – que exportassem as pêras descascadas e congeladas a temperaturas muito baixas, obrigando a um gasto extra com a rede de frio. Essas exigências foram, entretanto, aligeiradas. O uso de pesticidas ilegais no combate às pragas é outro desafio importante ao cultivo do abacate na África.

1 de maio de 2021

DIÁRIO DE UMA PÁSCOA


Etty (Esther) Hillesum era uma judia holandesa que sonhava ser escritora. Começou a escrever um diário em 1941. Tinha vinte e sete anos.

O seu Diário 1941-1943 é a obra intemporal de uma jovem que quer ser feliz respondendo às questões levantadas pela estação de grande sofrimento e extermínio em que vive através de uma visão lúcida e serena da realidade. Uma mulher que busca a felicidade na simplicidade desbravando as grandes planícies de tranquilidade, o seu imperativo moral.

Na primeira entrada, de 9 de março de 1941, expressa o «bloqueio espiritual» em que vive.

Cinco meses mais tarde, a 4 de agosto, deixa um anseio existencial profundo: «Mais tarde hei-de voltar a escrever: “Como a vida é bela e como estou feliz”, agora porém não consigo mesmo nada imaginar como irei sentir-me nesse momento».

De facto, a 16 de setembro de 1942, no meio de todos os excessos que foi o Holocausto, um tempo de grande e indizível sofrimento humano, anota: «Gostava de juntar as mãos e dizer: “Meninos, estou tão feliz e grata e acho a vida muitíssimo bela e cheia de sentido”. Sim, sim, bela e cheia de sentido, enquanto estou aqui à beira da cama do meu amigo morto, que morreu demasiado jovem, e eu posso ser deportada a qualquer instante para um local desconhecido. Meu Deus, estou-te tão grata por tudo».

Acabou por ser deportada com a família de Westerbork, na Holanda, para Auschwitz, na Polónia, a 7 de setembro de 1943. A Cruz Vermelha anunciou a sua morte a 30 de novembro.

Etty experimenta uma revolução copernicana na sua vida, porque o psicoterapeuta Julius Spier que a guiou para assumir e trabalhar todos os estados de alma, também lhe ensinou a dizer Deus.

A 22 de novembro de 1941 descreve-se como «a rapariga que não conseguia ajoelhar-se e que afinal aprendeu a fazê-lo no tapete áspero de fibra de coco de uma casa de banho desarrumada».

Remetendo para a experiência mística de Santo Agostinho — que lia — escreve: «Dentro de mim há um poço muito fundo. E lá dentro está Deus. Às vezes consigo lá chegar. Mas acontece mais frequentemente haver pedras e cascalho no poço, e aí Deus está soterrado. Então é preciso desenterrá-lo».

A 9 de setembro de 1942, grafa: «Continuo a não conseguir encontrar o tom certo para aquele sentimento de firmeza e felicidade que há em mim, onde também se incluem todo o sofrimento e tristeza».

Refletindo sobre o Holocausto, confessa: «Se este sofrimento não levar a um alargamento de horizontes, a uma maior humanidade pela derrocada de todas as mesquinhices e superficialidade desta vida, nesse caso foi em vão».

Na ânsia de viver para os outros, voluntariou-se para o campo de trânsito de Westerbork, na Holanda.

Quer ser o coração pensante de todo o campo de concentração.

«Não existe um poeta dentro de mim, mas sim um pedaço de Deus em mim que poderia desenvolver-se até se tornar poeta. Num campo assim tem que haver contudo um poeta que experiencie a vida lá, lá também, e que como poeta a possa cantar», escreveu no registo de 3 de outubro de 1942.

Li o diário de Etty a primeira vez ao ritmo apressado de comboio rápido entre Lisboa e Castelo Branco numa viagem de ia e volta. A estação da pandemia permitiu-me uma leitura mais lenta e cheia de apeadeiros para mergulhar nas profundezas da sua espiritualidade. 

E de sentir o cheiro do jasmim junto à janela do seu quarto.

26 de abril de 2021

AUTORIDADES REAGEM A ATENTADO CONTRA BISPO-ELEITO DE RUMBEK


Algumas autoridades reagiram ao ataque que desconhecidos perpetraram contra o bispo-eleito da diocese católica de Rumbek, no Sudão do Sul.

O comboniano italiano P. Christian Carlassare foi ferido nas pernas por dois homens armados durante a noite passada no seu quarto em Rumbek.

O Conselho Geral dos Missionários Combonianos condenou o ataque através de um comunicado.

«Juntamo-nos às muitas pessoas de boa vontade que expressam a sua consternação neste enésimo episódio de violência contra pessoas indefesas e inocentes», escreveu.

E continua: «Seguindo o convite de D. Carlassare, rezemos pelas muitas pessoas de boa vontade que, no Sul do Sudão, sofrem com a persistência da insegurança e da violência. Rezemos também pela rápida recuperação de D. Carlassare, de modo a permitir-lhe receber a sua ordenação episcopal no dia 23 de Maio, como previsto».

O arcebispo católico de Juba também expressou a surpresa e tristeza que o ataque lhe provocou.

«Isto surgiu do nada. Nunca pensámos que tal coisa pudesse acontecer entre nós, especialmente depois da alegre recepção do bispo-eleito no aeroporto e como as pessoas estavam tão felizes em Rumbek por causa do bispo-eleito», Dom Stephen Ameyu declarou à Rede de Rádios Católica.

E disse: «Estamos muito tristes com esta notícia de bispo eleito ter sido baleado duas vezes nas suas pernas».

O arcebispo explicou que Deus protegeu o P. Carlassare: «Ambas as pernas foram alvejadas nos membros inferiores e as balas atravessaram, mas nunca afectaram os ossos do bispo-eleito. Penso que isso é um milagre de Deus e sabemos que sem Deus nas nossas vidas, podemos facilmente perder a nossa vida.»

O ministro interino da informação e comunicação do Estado de Lakes também condenou o atentado e apontou o dedo à administração da Igreja Católica ao microfone da Rádio Tamazuj.

«Sabe que cada caso aqui tem uma razão. Há casos relacionados com rapto de raparigas, roubo de gado, e alguns deles estão relacionados com mortes por vingança. Este caso é tão especial e estamos a tratá-lo como política dentro da própria Igreja Católica. Este do bispo parece ser algo dentro da sua administração porque é muito novo no local e não tem problemas com ninguém, mas foi alvejado», William Kocji Kerjok disse.

«Aqueles tipos vieram directamente ao seu quarto, lutaram para abrir o seu quarto até começarem a disparar contra o seu quarto. Quase 13 balas foram disparadas. E mais tarde, quando conseguiram entrar, disseram-lhe para se sentar e dispararam contra as suas pernas. Portanto, não tinham a intenção de o matar, mas penso que tinham a intenção de o assustar. Portanto, estamos a dizer que a liderança da Igreja Católica deveria ser responsável por isto», acrescentou.

O ministro Kocji disse que a polícia já prendeu 24 suspeitos relacionados com o ataque.

O P. Carlassare pediu para rezar por ele e pela diocese em declarações à rádio diocesana no Hospital de Rumbek.

«Rezai por mim, rezai todos por Rumbek, para que Deus tenha misericórdia de nós, e do povo de Rumbek, para que possamos receber misericórdia e Sua Graça».

O missionário expressou o seu perdão aos dois atacantes.

«Perdoamos também àqueles que cometem este tipo de acções. Não carregamos qualquer ressentimento».

O bispo-eleito pediu a Deus que transforme a maldade do ataque em algo de bom.

«Sabemos que Deus é maior do que tudo e Ele pode converter os nossos corações e transformar coisas más em boas. Portanto, unamo-nos em oração e tragamos coisas más para o bem. Sejamos bons cristãos e confiemos no Senhor, para que o Senhor possa fazer algo de bom pela nossa comunidade»

A Cruz Vermelha evacuou o P. Carlassare de Rumbek para Juba. Esta tarde foi levado para Nairobi, no Quénia, em avião-ambulância para receber tratamento adequado aos ferimentos nos gémeos das duas pernas.

SUDÃO DO SUL: BISPO-ELEITO FERIDO A TIRO


O bispo-eleito de Rumbek foi ferido a tiro por desconhecidos esta noite.

O P. Andrea Osman do clero de Rumbek disse à ACI-Africa que dois homens armados atacaram o bispo-eleito por volta das 0:45.

Destruíram a porta do quarto a tiro, feriram o P. Christian Carlassare com três balas nas duas pernas e fugiram. 

Não se conhece o motivo do ataque.

O missionário comboniano foi assistido no hospital de CUAMM, uma ONG católica italiana, em Rumbek onde recebeu uma transfusão de sangue.

O P. Louis Okot, superior provincial dos combonianos no Sudão do Sul, disse que P. Carlassare está fora de perigo e aguarda um avião para ser evacuado para Juba. Depois será transferido para Nairobi, Quénia, para tratamentos complementares.

“Ele disse-me que perdoou aos atacantes”, o P. Okot escreveu em mensagem eletrónica.

O P. Carlassare foi nomeado bispo eleito de Rumbek a oito de março. A sagração episcopal está marcada para 23 de maio, domingo de Pentecostes.

Tem 43 anos e trabalha no Sudão do Sul desde 2005.

O Estado de Lakes State, onde se situa a diocese católica de Rumbek, é das zonas mais violentas do Sudão do Sul.

25 de abril de 2021

ROSTOS DA MISSÃO


Quando, em Novembro de 2020, regressei de Portugal, nunca pensei viver os momentos que tenho experienciado nestes últimos meses.

Vivo em Guilguel Beles, na Região de Benishangul-Gumuz, Oeste da Etiópia e, na missão, trabalhamos essencialmente com o povo Gumuz.

Nós, Leigos Missionários Combonianos, vivemos com os Missionários Combonianos, na mesma missão. 

Não fechamos as portas a ninguém, mas este é um dos povos mais esquecido e abandonado da Etiópia e do mundo.

Várias pessoas de outras etnias, tais como Amara, Agaw, Chinacha, também aqui vivem. O solo é fértil e isso leva a que seja uma zona apetecível. E, por isso, muitas vezes, os Gumuz perderam terrenos que lhes pertenciam.

Mas, mesmo assim, as pessoas viviam em paz, sem grandes problemas. Em 2019, já eu estava na Etiópia, uma aldeia Gumuz foi atacada, pessoas mortas, casas queimadas. A nossa missão foi pioneira em prestar auxílio aos deslocados.

Quando regresso, em Novembro de 2020, rebeldes Gumuz começaram a atacar não Gumuz. Com grande dor soube da morte de muitos inocentes. A vida humana é preciosa.

Porém, assisti também à perseguição de Gumuz. Pessoas fugiram para a floresta, casas queimadas, dezenas de jovens presos sem qualquer justificação.

Recordo-me de ir com o David, meu colega de missão, até Debre Markos, na região Amara, com dois Gumuz, pois tinham receio de ser mortos. Várias vezes fomos prestar auxílio a detidos na esquadra da polícia.

Entretanto, o Governo começou a negociar com os rebeldes Gumuz e, durante quase dois meses conseguimos abrir escolas, clínica, biblioteca.

Porém, as negociações falharam e os rebeldes Gumuz mataram mais pessoas. Nem sempre é fácil concluir negociações quando as propostas exigidas são impossíveis de concretizar.

Como resposta, rebeldes Amara e Agaw, atacaram aldeias, mataram pessoas, queimaram casas. 

Os jovens com quem convivia, as mulheres do grupo que seguia, as crianças da escola e jardim-de-infância tiveram que fugir para a floresta: sem comida, sem roupa, sem nada. 

Pessoas que eu conhecia foram mortas: inocentes!

Na nossa missão muitas têm sido as pessoas que aqui vêm para pedir comida, dinheiro para comprar comida, assistência médica…

No início preparámos comida para todos os necessitados que vinham ao nosso encontro. 

"Dai-lhes vós mesmos de comer" (Mt 14,16), disse Jesus.

Depois, com a ajuda da diocese distribuímos massa e, diariamente, todas as manhãs servimos uma refeição a mais de 200 crianças. Aos domingos oferecemos uma refeição, depois da missa. 

O David todos os dias se responsabiliza pela gestão das refeições e a Irmã Nives (enfermeira comboniana) presta cuidados de saúde a dezenas de pessoas.

Eu alterno entre ajudar no trabalho com as crianças e ir a Mandura, à missão das Irmãs Combonianas que tiveram que deixar, devido a esta situação de guerrilha, vivendo por agora connosco. 

Durante o dia procuram estar em Mandura para acolher as pessoas que aparecerem. 

Eu ajudo com as tarefas doméstica: buscar água para os animais, para a casa (pois as irmãs estão sem água em casa), entre outros.

As irmãs Combonianas Vicenta e Cristiane e eu recebemos as pessoas que aparecem para cumprimentar ou pedir ajuda. 

Muitas delas arriscam vir à missão, depois de três a quatro horas a caminhar, para buscar cereais que guardaram na casa das Irmãs ou pedir ajuda.

Tem sido muito duro escutar tanto sofrimento: pessoas que estão a sofrer, subnutrição, crianças gravemente doentes, pessoas que perderam familiares, que perderam os seus cereais. 

Quantas vezes me é difícil adormecer a pensar nesta realidade.

A missão são rostos e tenho presente tantos rostos sofridos. 

Quando na Igreja rezo e olho para a cruz de Jesus vejo imensos rostos, contemplo esta realidade sofredora e percebo que Jesus está naquela cruz por nós e que continua a sofrer diariamente por nós. Mas, ao mesmo tempo, sinto estas palavras na minha mente: "Não tenhais medo! Eu estou convosco!".

Não é fácil viver estes momentos de sofrimento, mas a vivência da fé em Jesus, que passou a vida fazendo o bem, que sofreu, foi morto mas ressuscitou ajuda-nos a ser testemunhas do Amor de Deus entre as pessoas.

Obrigado a todos e todas que têm contribuído a vários níveis, de oração, amizade, carinho e ajuda para a missão. Sem a vossa partilha não teríamos hipótese de prestar auxílio. Muito obrigado de coração!

As tribulações não faltam, mas estai certos de que a vossa oração nos sustenta. A missão é de Deus e é nEle que devemos colocar a nossa confiança.

Abraço fraterno,

Pedro Nascimento

15 de abril de 2021

TESTEMUNHAS VIVENTES


Há pequenos textos da Bíblia que se colam ao coração como a lapa à rocha, que nos acompanham ao longo dos dias, desassossegam o caminho, desinstalam, abanam as seguranças.

Um desses textos que tem mexido comigo — sobretudo nestes dias de retiro — é o prólogo da Primeira Carta de João (1, 1-4).

Diz: «O que existia desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e as nossas mãos tocaram relativamente ao Verbo da Vida, — de facto, a Vida manifestou-se; nós vimo-la, dela damos testemunho e anunciamo-vos a Vida eterna que estava junto do Pai e que se manifestou a nós — o que nós vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também vós estejais em comunhão connosco. E nós estamos em comunhão com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo. Escrevemo-vos isto para que a nossa alegria seja completa.»

Este texto é fundamental para mim, discípulo missionário, testemunha da Vida.

Testemunhamos e anunciamos o que ouvimos, vimos, contemplamos, tocamos com as nossas mãos. Esta é a gramática do serviço missionário ao mundo, da evangelização. Não anunciamos uma ideia, uma doutrina. Proclamamos uma pessoa, o Vivente, a fonte da vida, a Vida! 

O testemunho — e, depois, o anúncio — sem este processo verbal tem o sabor amargo de fraude.

Mais à frente, João escreve: «a mensagem que ouvistes desde o princípio é esta: que nos amemos uns aos outros» (1 João 3, 11).

Ouvimos o imperativo do amor manifestado pela Palavra encarnada, testemunho do amor do Pai para e por cada um de nós.

Jesus explicou a Nicodemos, o discípulo da noite: «Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna» (João 4, 16).

Vimos a Vida nas irmãs e irmãos que fazem da sua vida um evangelho vivo; que amam em excesso, incondicionalmente. Não importa se são cristãos ou não. São amantes da Vida.

Contemplamos a Vida no grande livro da criação: na beleza de um nascer ou pôr do sol; numa vale tranquilo ou numa montanha agreste; na beleza de uma pessoa; na delicadeza de uma flor selvagem; no canto de louvor de um pássaro; na força telúrica do mar ou de um vulcão; na violência da tempestade e no silêncio da brisa ligeira. No silêncio da noite estrelada; no breu sem luar; na noite escura da fé. No sofrimento e na dor, na morte…

Tocamos a Vida no serviço aos mais pobres, no corpo chagado dos doentes, na escuta sem pressas dos desconsolados…

Testemunhamos e anunciamos a Vida, vivendo totalmente, incondicionalmente, com a alegria de quem vive a Palavra. Ireneu de Lião disse que «a glória de Deus é o homem vivo».

Fazemo-lo para tecer uma rede cósmica de comunhão com o Pai e com o Filho, entre nós e com a criação inteira: uma torrente de Vida que transborda e vive em cada criatura.

Dizer o indizível, amar o invisível, crer o intangível gera uma alegria indescritível.

12 de abril de 2021

OUVIDOR DE QUESTÕES


Há uns anos, fui convidado a animar uma semana de animação missionária na cidade da Horta, na ilha açoreana da Faial.

Do programa que me propuseram constava um encontro com a ouvidoria.

Não fazia ideia do que a ouvidoria fosse. Perguntei. Interessante: era a designação local para arciprestado, vigararia.

O arcipreste chama-se ouvidor — dos colegas padres e diáconos e do bispo.

Por defeito profissional, habituei-me a ser dispensador de respostas: para as perguntas que me fazem, para as perguntas que ficam por fazer. Dispensador de palavras.

Aos 61, sinto a necessidade de mudar: de ser ouvidor das questões. Escutar as perguntas mais do que pensar as respostas.

Entreter as perguntas com carinho, devoção mesmo, mais que resolvê-las ou pô-las de lado, debaixo da carpete das questões impertinentes.

Sinto-me chamado a escutar o silêncio que habita cada pergunta, o silêncio da flor que abre do botão para amadurecer em fruto nutritivo e gostoso. O silêncio que acaricia e envolve cada palavra. A pausa do respiro. O silêncio que aconchega cada nota da partitura de uma canção, de uma sinfonia…

Alguém se queixou: «Agora que tínhamos encontrado todas as respostas, mudaram as perguntas».

A resposta da fé às grandes questões é sobretudo silêncio contemplativo perante o mistério da vida humana, da vida do Universo.

O Papa Francisco escreveu na magistral carta encíclica ecológica Laudato si, nº 49 que temos de ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres.

Perguntar, questionar faz parte da arte de viver. Ouvir é o seu complemento. Perguntar sem ouvir é falar no vácuo.

Durante as três semanas de serviço militar aprendi que as perguntas estúpidas são as perguntas que não fazemos.

O poeta austríaco Rainer Maria Rilke escreve em Cartas a um poeta jovem: «Gostaria de lhe pedir, caro Senhor, que tenha paciência quanto a tudo o que está ainda por resolver no seu coração e que tente amar as próprias perguntas como se fossem salas fechadas ou livros escritos numa língua muito diferente das que conhecemos. Não procure agora respostas que não lhe podem ser dadas porque ainda não as pode viver. E tudo tem de ser vivido. Viva agora as perguntas. Aos poucos, sem o notar, talvez dê por si um dia, num futuro distante, a viver dentro da resposta.»

O ouvidor, o encantador das perguntas é paciente, amante, vivente.

Sebastião da Gama, o poeta enamorado da Serra da Arrábida, escreve que «Pelo sonho é que vamos / Comovidos e mudos. […] Chegamos? Não chegamos? / —Partimos. Vamos. Somos.»

9 de abril de 2021

PÁSCOA DO TEMPO CORRENTE



Gosto muito do relato da terceira manifestação do Ressuscitado segundo o evangelista João (21, 1-14), porque diz que o Senhor Ressuscitado está connosco em todas as circunstâncias da vida.

Acontece não no primeiro dia da semana — como as outras que se deram durante a oração dominical da comunidade no contexto da celebração eucarística — mas nos dias úteis, em ambiente de trabalho, na ordinariedade do humano viver, na labuta suada e às vezes suja e sem grande sucesso do ganha-pão.

Simão Pedro disse: «Vou pescar» e os outros responderam: «Também nós vamos contigo». Foram e naquela noite não pescaram nada. Acontece!

O Ressuscitado aparece-lhes, anónimo, na madrugada de um trabalho mal sucedido.

E ajuda-os: «Lançai a rede para a parte direita do barco». Eles fizeram-no e apanharam 153 peixões.

Perante pescaria tão abundante e fora de horas, o discípulo amado reconhece o Senhor no estranho que lhes dá indicações preciosas.

Pedro faz o contrário do que habitualmente fazemos na praia: veste a túnica (andava nu no barco,  qual padroeiro dos nudistas) para se atirar ao mar e faz uma prova de 100 metros braçadas para alcançar o Vivente.

João conta que quando desceram para a praia viram peixe a grelhar num braseiro com pão por cima.

Jesus prepara o mata-bicho e serve-os. Um gesto de cuidado cheio de ternura. A continuação do lava-pés.

Afinal, também podemos encontrar o Ressuscitado nas ocupações ordinárias e às vezes mal sucedidas do tempo que corre.

A narrativa também tem um significado alegórico: a barca representa a Igreja, a pesca é o serviço missionário — que tem noites de insucesso. Mas seguindo as instruções do Senhor, a pesca torna-se abundante, abarca todos os povos. E a rede não se rasga em a barca vai ao fundo. A Igreja não se auto-destrói com a sua expansão missionária. 

Cada dia é dia de Páscoa, da manifestação do Senhor Ressuscitado, na vida da comunidade em geral e dos crentes individualmente.


 

6 de abril de 2021

UMA PÁSCOA DE DESEJOS E PROMESSAS



Assim diz o Senhor Deus: Eis que eu abro os vossos túmulos,
Eu ergo-vos das vossas sepulturas, meu povo! 
(Ezequiel 37,12) 
Caros amigos,

a Páscoa do Senhor é o momento em que esta extraordinária promessa é cumprida. É um momento para recuperar a esperança perdida. Um novo vento primaveril sacode o ar velho do túmulo em que a pandemia nos manteve presos, para renovar a nossa vontade de viver!

Em tempos particularmente difíceis como o nosso, cheios de incerteza, parece-me importante entrar em contacto com os nossos desejos mais profundos e os nossos medos mais profundos, que acabam por nos levar de volta ao desejo perene de vida e ao medo ameaçador da morte.

Vivemos todos os dias com desejos e esperanças. Desejo pequeno ou grande, transitório ou persistente, pessoal ou altruísta... Creio, no entanto, que nós cristãos somos chamados a viver acima de tudo pelas promessas que Deus nos faz. «Deus não cumpre todos os nossos desejos, mas todas as suas promessas», diz o teólogo Bonhoeffer.

A Páscoa é uma passagem de uma existência vivida sobretudo sob o signo dos desejos para uma existência iluminada pelas promessas de Deus. Na verdade, preferia falar de uma promessa, no singular. Parece-me que todos nós vivemos por uma promessa pessoal que Deus nos fez quando fez um pacto de amor com cada um e cada uma de nós. Esta promessa escondida nos nossos corações corresponde ao «novo nome que ninguém conhece senão aquele que o recebe»» (Apocalipse 2,17) e que Deus diz ter escrito na palma da sua mão (Isaías 49,16).

Infelizmente, esta "promessa pessoal" é muitas vezes desconhecida para nós, ou sem contornos precisos, enredados como estamos nas malhas dos nossos desejos ou devido à falta de atenção às moções do nosso espírito. 

O meu, parece-me, é muito claro. Lembro-me com precisão do momento, do lugar e das circunstâncias. Foi durante o Verão de 1977, em Londres, durante uma experiência de estudo e trabalho. Estava então numa situação de tumulto interior, assolado por dúvidas e medos, se deveria consagrar a minha vida definitivamente a Deus como missionário. 

Dentro de mim ressoava esta promessa do Senhor: «Aconteça o que acontecer, eu estarei contigo para dar sentido à tua vida». Ali, num restaurante perto da ponte Westminster de Londres, onde trabalhei em part-time com outros estudantes, nesse dia, fortalecido por essa promessa, dei alegremente o meu último SIM ao Senhor. Esta "promessa de sentido" dirigiu toda a minha vida, desde os entusiasmos da juventude, até ao tempo da maturidade apostólica e agora da doença da ELA (esclerose lateral amiotrófica).

Este é o meu desejo pascal: que a luz da Páscoa ilumine as profundezas ocultas do nosso espírito, e nesse emaranhado de desejos e medos nos alcance com toda a sua força a promessa pessoal do Ressuscitado: Eis, eu estou e caminho contigo!

Cristo ressuscitou, sim, ele ressuscitou verdadeiramente! Aleluia.
P. Manuel João Pereira Correia, mccj
Castel D'Azzano (Itália), 4 de Abril de 2021

4 de abril de 2021

PASSAGENS DA PÁSCOA


A primeira foi a páscoa dos hebreus: passagem (pesach) da escravidão do Egito à liberdade da terra da promessa através da porta do mar. 

A Páscoa maior foi a de Jesus: a sua passagem da morta para a vida através da porta rolada do sepulcro novo cavado na rocha de um jardim.

A nossa páscoa — a passagem do pecado à graça, do egoísmo ao amor, do eu ao tu, ao nós — e a páscoa da natureza — a passagem da exploração desenfreada ao uso sustentado através da ecologia— derivam da Páscoa de Jesus, atualizam-na.

João escreve: «nós sabemos que passámos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama, permanece na morte» (1 João 3, 14).

O Amor é a porta maior que dá acesso a paisagens de vida sempre novas. O amor redime-nos. Humaniza-nos.

O olhar cínico da vida repete que o amor é para os românticos, os frouxos; o que conta sou eu — em inglês até se escreve com letra maiúscula, a expressão mais exaltada do euismo. O que move o mundo é o meu bem-estar.

A ressurreição de Jesus — que foi morto porque nos amou até ao fim com um amor extremado — rasga passagens novas de vida no horizonte do humano viver: devolve-nos uns aos outros para nos dar a Deus.

Celebrar a Páscoa, sentir a vida a florir dentro de nós, ser parte deste enorme concerto de vida que é a Primavera, é amar. 

O amar é gramática de Páscoa, modo de conjugar a vida.

Na hora da verdade só o amor redime, salva, ressuscita.

O amor não é sentimento etéreo, nebuloso.

O amor é artesanal, feito de pequenos gestos concretos, obras de arte ao outro e à natureza (que é a nossa casa comum, a nossa irmã, a nossa mãe).

Porque amamos, vivemos, viverão!

Porque amamos celebramos a Páscoa!

Porque amamos cantamos aleluia!

2 de abril de 2021

SEXTA-FEIRA SANTA


Cerro o olhar,
aligeiro o respirar,
aquieto o pensar...
Penso na morte do Justo há dois milénios; 
e na dos crucificados de hoje:
vítimas do Covid,
da economia egoísta, 
da violência à solta, 
da cobiça do poder,
dos desastres climáticos, 
de males com remédio...
Penso na morte,
mas é de vida que Deus me fala:
a vida que me rodeia,
que respiro,
que comparto
neste banco de pedra sentado:
no chilreio dos pássaros, 
felizes;
no assobio dos melros, 
despreocupados;
no cacarejar dos galináceos 
a esgravatar;
no zumbido dos insetos, 
atarefados;
no cheiro doce da natureza 
em flor,
na carícia cálida
da brisa que aconchega.
A morte é uma intermitência:
a vida volta sempre,
permanece!
Primavera eterna
que se renova a cada morte
através do amar
revolucionário,
renovador,
redentor,
ressuscitador...

A ESPERANÇA DA PÁSCOA

Mensagem do Conselho Permanente da Conferência Episcopal Portuguesa


1. A celebração anual da Páscoa do Senhor é o dia por excelência da passagem à vida nova, a festa das festas cristãs. Por isso, o grito da Igreja que nasceu da Páscoa está inundado pela admiração, exultação e alegria: «este é o dia que o Senhor fez: exultemos e cantemos de alegria» (Salmo 117).

O encontro com o Ressuscitado transfigura o coração e é a razão para acolher o precioso dom e o compromisso da fraternidade e do cuidado integral. Infelizmente, pelo segundo ano consecutivo, o anúncio pascal chega em tempo de crise pandémica, que desterra a paz e a felicidade. Da Quaresma à Páscoa é uma grande peregrinação de Esperança.

Todavia, como interpela o Papa Francisco: «Há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa. Reconheço, porém, que a alegria não se vive da mesma maneira em todas as etapas e circunstâncias da vida, por vezes muito duras. Adapta-se e transforma-se, mas sempre permanece pelo menos como um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, não obstante o contrário, sermos infinitamente amados. Compreendo as pessoas que se vergam à tristeza por causa das graves dificuldades que têm de suportar, mas aos poucos é preciso permitir que a alegria da fé comece a despertar, como uma secreta, mas firme confiança, mesmo no meio das piores angústias» (Evangelii Gaudium 6).

 

2. Apesar desta situação dolorosa, não deixemos que se extinga a esperança da Páscoa! Sem ela a vida torna-se árida, insuportável, sem sentido. Cristo ressuscitado e glorioso é a fonte profunda da nossa esperança viva. «A sua ressurreição não é algo do passado; contém uma força de vida que penetrou o mundo. Onde parecia que tudo morreu, voltam a aparecer por todo o lado os rebentos da ressurreição. É uma força sem igual. (…) Cada dia, no mundo, renasce a beleza, que ressuscita transformada através dos dramas da história. (…) Esta é a força da ressurreição» (EG 276) que trespassa a nossa vida e a nossa história. Não fiquemos à margem desta esperança viva! Peçamos ao Espírito Santo que «vem em auxílio da nossa fraqueza» (Romanos 8, 26) para fazer brotar em cada um sementes de vida nova.

 

3. Nas casas e nas famílias, a mesa é o lugar da partilha do pão e do dom da comunhão. A mesa continua a ser o lugar do dom da Páscoa: mesa da Palavra, mesa da Eucaristia e mesa da caridade fraterna. Aqui acontece o milagre da fraternidade cristã. A mesa com Cristo leva-nos à missão e à proximidade com quantos são atingidos pela pandemia e sofrem nos lares, nos hospitais e nas instituições, pedindo a bênção de Deus e a recuperação da saúde e da esperança. Continuamos a partilhar, igualmente, a dor das famílias que perderam os seus entes queridos, confiando-os aos braços misericordiosos do Ressuscitado, assim como a angústia dos que perderam ou viram substancialmente reduzidos os seus rendimentos necessários a uma vida condigna.

 

4. Renovamos a nossa gratidão pela heroicidade e dedicação à dignidade da vida humana: aos profissionais de saúde e de segurança, aos voluntários e a todas pessoas que fazem avançar a história da humanidade nos serviços essenciais e quotidianos ao bem comum.

É nos gestos de amor, de partilha, de serviço, de encontro, de fraternidade, que encontramos Jesus Cristo vivo, a transformar e a renovar o mundo.

 

5. O mundo inteiro prepara-se para sair desta pandemia que nunca ninguém pensou que pudesse ter tantas e tão graves consequências para a humanidade. Devemos entender a crise como um desafio à coragem criativa e à confiança crente. Desta crise temos de sair melhores. A todos os irmãos e irmãs, especialmente aos presbíteros, aos diáconos, às pessoas consagradas e às famílias cristãs, encorajamos a renovar as promessas batismais para prosseguirem nos caminhos da reconciliação e da conversão.

 

6. O sepulcro aberto proclama a alegria da presença viva e ressuscitada de Cristo e a Igreja pede-Lhe incessantemente: «Fica connosco, Senhor» (Lucas 24,29), para que seja sempre hoje de renovação pascal. Para todos existe a possibilidade de reencontrar a esperança, porque Cristo é a nossa Páscoa (cf. 1Coríntios 5,7) e a nossa paz. A fé, a esperança e a caridade que nascem e renascem da Páscoa frutificam, quando nos tornam mais irmãos e cidadãos mais ativos para se realizar a justiça e a paz, o perdão e o amor.

Lisboa, 11 de março de 2021

1 de abril de 2021

EM MEMÓRIA DO SENHOR


A Igreja Católica celebra hoje a instituição da Eucaristia através da Missa da Ceia do Senhor, que inclui o gesto profundamente simbólico do lava-pés.

Jesus inicia e explica a sua Páscoa — que inclui a sua paixão, morte e ressurreição — com a última ceia.

O evangelista João — que hoje é lido na liturgia da Palavra — introduz o mistério pascal de Jesus com a afirmação: «Antes da festa da Páscoa, Jesus, sabendo bem que tinha chegado a sua hora da passagem deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo» (João 13,1).

A Páscoa de Jesus é a prova do seu amor levado até ao extremo. Extremado. Total. Integral. Ilimitado.

Jesus, através dos gestos da ceia com os discípulos, explica o que vai fazer com a sua vida nesses dias que transformaram radicalmente o mundo, o Tríduo Pascal.

Paulo é o autor do relato mais antigo da instituição da Eucaristia, escrito por volta do ano 55, uns 20 anos depois da Ceia do Senhor.

Escreve aos cristãos de Corinto: «Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue, tomou o pão e, dando graças, partiu-o e disse: “Isto é o meu Corpo, entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim”. Do mesmo modo, no fim da ceia, tomou o cálice e disse: “Este cálice é a nova aliança no meu Sangue. Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de Mim”. Na verdade, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha» (1 Coríntios 11, 23-26).

Jesus entrega o seu corpo por cada um de nós. O seu sangue sela a aliança nova e eterna. Na Eucaristia comungamos o Senhor presente realmente no pão e no vinho. E comungamo-nos uns aos outros, seu corpo aqui e agora.

E manda: «Fazei-o em memória de mim».

Fazemos memória da Páscoa do Senhor cada vez que celebramos a Eucaristia. Ele dá-nos o seu corpo e o seu sangue, a sua vida inteira e por inteiro, cada vez que nos reunimos à volta das mesas da Palavra e o Pão.

Fazemos memória de duas maneiras: ritualizando a última ceia através da celebração da Eucaristia; sendo eucaristia: pão partido e repartido para a salvação de todos ao jeito de Jesus.

VOZES PROFÉTICAS


Bispos africanos estão a dar voz a posições arrojadas.

O episcopado africano pode ser considerado conservador na teologia, pastoral e liturgia. Contudo, tanto as conferências episcopais como bispos em particular estão a dar voz a posições arrojadas por todo o continente.

A SECAM – o Simpósio das Conferências Episcopais da África e Madagáscar – apresentou no fim de Janeiro o chamado «Documento de Campala», uma exortação pastoral de uma centena de páginas que nasceu das celebrações dos 50 anos da instituição. Pretende resolver as «dicotomias entre fé e política, Reino de Deus e transformação da Terra, salvação das almas e vidas terrenais, contemplação e acção». Alerta ainda para os perigos das espiritualidades de salvação e de prosperidade baseadas no sucesso e em soluções milagrosas.

As eleições são ocasiões em que muitas conferências episcopais fazem sentir as suas vozes e os seus reparos. Os bispos do Uganda, por exemplo, antes das presidenciais de Janeiro passado, recordaram que o «não roubarás» também se aplica aos votos e alertaram para a comercialização do acto eleitoral através de campanhas cada vez mais dispendiosas.

Os bispos da República Centro-Africana, no rescaldo das eleições de Dezembro, que deixaram o país a ferro e fogo, pediram diálogo sincero, franco, fraterno e construtivo para resolver a grave crise de violência que afecta o país. Denunciaram o sistema de uma minoria que beneficia das riquezas do país por causa da filiação partidária e afinidades tribais, e as conspirações externas com cumplicidades locais, que deixam o país à mercê de predadores e mercenários bem armados.

A Conferência Episcopal do Congo-Brazzaville também se pronunciou sobre a eleição presidencial marcada para 21 de Março: «Temos reservas sérias que uma eleição presidencial pacífica, participada, transparente, livre e credível possa acontecer nas condições actuais», escreveram.

Os bispos do Benim pediram diálogo forte e aberto entre os partidos e as instituições envolvidos nas presidenciais de Abril.

A pandemia de covid-19 – que a 15 de Março tinha matado no continente 108 064 pessoas (África CDC) e infectado 4 041 835 – também levou os bispos a tomar posições fortes de liderança. Por exemplo, a Conferência Episcopal da Tanzânia alertou para os perigos da segunda vaga da pandemia, porque «o nosso país não é uma ilha». Pede aos Tanzanianos que voltem a usar máscaras e a lavar as mãos com água e sabão, práticas que haviam abandonado. Os bispos do Senegal também expressaram a sua preocupação com as novas estirpes mais mortíferas da segunda vaga da doença.

Há ainda as vozes proféticas do bispo Dom Luiz Fernando Lisboa, de Pemba (Moçambique), que colocou o drama de Cabo Delgado na agenda internacional e que entretanto tomou conta de uma diocese no Brasil natal, de Dom Agapitus Nfon, de Kumba (Camarões), que tenta mediar a crise anglófona, que já fez três mil mortos desde 2016, ou Dom Stephen Dami Mamza,  bispo de Yola, na Nigéria, que construiu um bairro para alojar 86 famílias deslocadas pela violência do Boko Haram, com escola e mesquita incluídas.

30 de março de 2021

PALAVRAS DE PRIMAVERA





Luz,
calor,
cor,
amor...

Gomos,
folhas,
flores,
vida...

Perfume,
alegria,
alergias,
lágrimas...

Chilreios,
zumbidos,
risos,
brisas...

Silêncio,
calidez,
claridade,
paz...

Teofania!

EU SOU A RESSURREIÇÃO E A VIDA

 


MENSAGEM DE PÁSCOA

As irmãs mandaram então a dizer-lhe “Senhor, aquele a quem amas está doente”. Jesus disse: “Essa doença não é para a morte, mas para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por meio dela”. “Eu sou a ressurreição e a vida, quem acredita em mim, mesmo que morra, viverá…” Acreditas nisto?”. “Sim, Senhor, eu acredito que tu és o Cristo, o Filho do Deus, que vem a este mundo” (Jo 11, 3.4.25-27).

O nosso mundo atravessa um período muito difícil por causa da pandemia do Covid-19, que continua a provocar tanto sofrimento, milhares de doentes e de mortes. Várias populações estão a sofrer, não só pela Covid-19, mas também pela guerra, instabilidade, deslocações, migração arriscada, problemas climáticos, problemas económicos. Pensando na pandemia, recordamos aqui tantos nossos confrades e irmãs que viveram esta experiência de morte e ressurreição e estão agora na glória do Ressuscitado. Nesta situação de dor, de sofrimento e de morte, em que o Cristo da Sexta-feira Santa continua a ser crucificado e morto nas pessoas que sofrem as consequências desta pandemia, não é nada fácil encontrar palavras de encorajamento, de alegria, de vida, enfim, de ressurreição.

Mas, mesmo porque somos cristãos, discípulos missionários do Senhor, nesta Páscoa somos convidados a colocar de novo a nossa confiança e a nossa esperança, nEle, o Senhor da vida, que viveu o sofrimento, a dor e a humilhação até morrer sobre a cruz, para ser ressuscitado pelo Pai. Por isso, as suas palavras a Marta perante a doença do irmão Lázaro, são mais do que nunca oportunas para nós e para a humanidade inteira neste momento: “Eu sou a ressurreição e a vida, quem acredita em mim, mesmo se morre, viverá, quem vive e cré em mim não morrerá jamais”.

A fé na ressurreição e a esperança que Ele nos trouxe são o dom maior e mais belo que nós possamos anunciar e oferecer a toda a pessoa. Por isso, nunca nos cansemos de repetir, a todos e cada um: Cristo ressuscitou! Animados por esta certeza, levamos este anúncio a todas as comunidades, a cada casa, a cada família, a todo o lugar onde as pessoas mais sofrem. Como afirma o Papa Francisco: “Procuremos, na medida do possível, utilizar da melhor maneira este tempo: sejamos generosos; ajudemos quem precisa na nossa vizinhança; procuremos, talvez por telefone ou pelos social, as pessoas mais sós; rezemos ao Senhor por quantos no mundo se encontram na provação. Mesmo se estamos isolados, o nosso pensamento e o nosso espírito podem chegar bem longe com a criatividade do amor. É disto que hoje precisamos: a criatividade do amor” (Vídeo mensagem do Papa Francisco para a Semana Santa 2020).

É a missão da compaixão que, como missionários, somos chamados a anunciar, a proximidade de Deus ao seu povo, a Sua ternura e o Seu amor. Como Jesus, que curou tantas pessoas doentes, nós somos hoje os seus instrumentos para cuidar do sofrimento, curar a indiferença, o egoísmo e o afastamento que esta doença gera. É a missão do encontro que cria espaços de acolhimento, de fraternidade, que gera vida e vida em abundância para todos. Somos assim missionários da esperança e da alegria no contexto atual para recordar profeticamente a todos que “não podemos avançar cada um por sua conta, mas só juntos” (Homilia do Papa Francisco, 27/03/2020). É uma nova maneira de ser e de estar no mundo: não um simples regresso ao passado que conhecemos, mas um pôr-se em jogo com criatividade e sabedoria.

Só confrontando-nos com a cruz, podemos encontrar a esperança e viver como ressuscitados, como nos ensina São Daniel Comboni: Será possível que o coração de um verdadeiro apóstolo possa abater-se e atemorizar-se por todos estes obstáculos e extraordinárias dificuldades? Não, isso não é possível, jamais! Só na cruz está o triunfo (Escritos 5646). É o triunfo do Ressuscitado. Em Jesus ressuscitado, a vida venceu a morte. É a esperança de um tempo melhor. É uma esperança que não falha.

Com estes sentimentos de alegria queremos desejar-vos uma Santa Páscoa de Ressurreição!

Roma, 19 março 2021
O Conselho Geral dos Missionários Combonianos

28 de março de 2021

A MULHER DO PERFUME CARO


A liturgia católica lê a Paixão do Senhor no Domingo de Ramos e na Sexta-feira Santa. O relato é o primeiro esboço do evangelho. Depois foram compilados os ditos de Jesus e, por fim, com esse e outros materiais, os quatro evangelhos oficiais chamados de canónicos, além de muitos outros ditos apócrifos, não autenticados.

Marcos e Mateus iniciam a narrativa da paixão descrevendo dois factos: a decisão dos líderes judaicos de matar Jesus à traição; e a unção do Senhor em casa de Simão, o sofredor de lepra. Lucas coloca a unção — mais desenvolvida e com mudanças de fundo — no capítulo sétimo do seu Evangelho.

O episódio da unção passa-se em Betânia, uma aldeia no cimo da colina em frente a Jerusalém. Ou Lazariya, em árabe, hoje.

Durante a ceia, uma mulher não identificada chega com um frasco de bálsamo de nardo muito caro, invade o repasto, quebra o recipiente feito de alabastro e derrama o perfume sobre a cabeça de Jesus.

Alguns dos comensais ficam indispostos com o gesto da mulher: intromete-se num espaço de homens e apropria-se de um gesto masculino de profetas e sacerdotes a quem cabe ungir a cabeça do rei.

«Podia vender-se este bálsamo por mais de trezentos denários de dar-se aos pobres», disseram, expressando o seu enfado pelo atrevimento da mulher do perfume de nardo.

Trezentos denários, de facto, representam uma fortuna: o salário de trezentos dias de trabalho, o ordenado de quase um ano de dura labuta. 

Jesus respondeu: «Deixai-a! Porque a importunais? Praticou uma boa ação para comigo. […] Ela fez o que podia: antecipou-se a ungir o meu corpo para a sepultura».

Esta mulher sem nome e sem palavras, através do gesto amoroso para com Jesus, confessa que Ele é o Messias e revela-lhe o que o espera: a paixão e morte na Cruz.

Jesus entende a mulher, perfeitamente.

Proclama que as boas ações passam pelo serviço aos pobres — que sempre teremos connosco — e pelo reconhecimento da identidade e dignidade de cada pessoa, através da unção com o perfume valioso da ternura, do carinho. De muito amar — como nota Lucas. 

O cuidado terno e amoroso é o que podemos fazer uns pelos outros. Sempre!

Jesus afirma que o gesto da mulher inominada faz parte do anúncio do Evangelho, memória do seu ato profético.

Hoje, e cada vez que se lê a paixão do Senhor!

24 de março de 2021

DEUS FERIDO


Os filósofos e teólogos definem Deus como omnipotente, omnisciente, omnipresente.

Para falar de Deus, recorrem ao prefixo OMNI que vem do vocábulo latino omne e exprime a ideia de todo, inteiro.

Por outras palavras, Deus é capaz de tudo, sabe tudo, está em todo o lugar; tudo pode, tudo sabe, tudo vê…

Em tempos de dificuldade, estes títulos podem levar-nos a expectativas falsas do poder e agir de Deus.

Se Deus é tudo isso, então tem o direito — e o dever — de intervir nas nossas histórias e acabar com o mal, qualquer mal, num qualquer ato milagroso omni de pura magia.

Porquê é que tal não está a acontecer? Porque há tanto sofrimento e dor no mundo? 

Porque essa é uma ideia de Deus, não é Deus.

São Pedro escreve na primeira carta, citando a profecia de Isaías, que fomos curados nas suas chagas.

O nosso Deus não é omni. É um Deus ferido, crucificado e ressuscitado, que padece connosco e transforma o nosso sofrimento, as nossas misérias em graça, num processo lento, artesanal, como o oleiro trabalha com arte paciente o barro.

Onde, por um lado, atua a compaixão de Deus e, por outro, a nossa colaboração compassiva.

Em estação pandémica, onde todos somos atribulados por um vírus que pode ser eliminado com água e sabão, Deus não é omni. Para nos salvar, Ele precisa da nossa lavagem das mãos, do distanciamento social e do uso de uma máscara protetora.

Li que um dia os prisioneiros do campo de extermínio de Auschvitz desfilavam junto à forca coletiva onde um grupo tinha sido executado. Entre os enforcados encontrava-se uma criança que, por não ser pesada, não morreu logo como os adultos e retorcia-se em agonia atroz. Um dos prisioneiros, chocado pela cena, pergunta: «Onde está Deus?». Outro responde-lhe: «Está naquela criança que se retorce em morte lenta…».

Os  tempos críticos como o nosso ajudam-nos a purificar a nossa ideia de Deus, a passar de uma fé de catecismo, de conceitos abstratos e expectativas sem limites a um encontro pessoal com o Senhor ressuscitado e vivente que caminha connosco todos os caminhos da vida, que passeia livremente connosco através das fornalhas ardentes da nossa vida. 

Também o da dor e da morte. Para transformar em Páscoa.

18 de março de 2021

CAÇADOR DO INSTANTE


O escritor russo Fiodor Dostoiewski escreveu que «a beleza salvará o mundo».

A palavra grega kalós tanto pode ser traduzida em português por bom como por belo.

Bondade e beleza equivalem-se, porque têm em Deus a sua fonte; são manifestação da bondade e beleza do Criador que fez tudo muito bom e muito bem.

A teologia cristã tem explorado o imperativo ético (bondade) e o imperativo estético (beleza) — menos — como caminhos de santificação. 

A bondade e a beleza são dois caminhos complementares que levam a Deus.

A beleza — um rosto, uma paisagem, uma flor, um detalhe, um pôr-do-sol, um luar, o voo de um pássaro ou de uma borboleta, neblina — encanta-me, desarma-me, humaniza-me.

Gosto de a fotografar, de fixar esses instantes da epifania de Deus, da revelação da sua beleza.

Costumava andar com uma pequena câmara no bolso: antes, analógica; depois, digital; agora é com o telemóvel.

Caçar instantâneos de pura beleza faz parte da tentação de capturar o instante, de possuir a beleza, de a caçar e domar, de a cristalizar como uma peça de fruta na doçaria tradicional.

Uma atitude consumista que se remedia com um olhar contemplativo e um coração livre do ter.

Muitas vezes prefiro sentar-me, deixar-me tomar pelo instante místico, centelha da beleza de Deus, em vez de me preocupar com o melhor enquadramento ou a luminosidade correta.

O instante respira-se, vive-se, entranha-se, assimila-se; não se captura nem se deixa caçar.

Uma foto é uma ilusão a cores ou a preto-e-branco.

11 de março de 2021

TESTEMUNHAS DO AMOR DE DEUS


Partilhar o amor de Deus com os demais, receber e dar, determinaram a nossa vocação missionária: Irmã Vicenta Llorca, Missionária Comboniana espanhola há mais de 40 anos na Eritreia e Etiópia, e Pedro Nascimento, Leigo Missionário Comboniano português, há dois anos na Etiópia. 

Tal como fez com Abraão, também a nós, através da oração e discernimento pessoal, Deus disse: «Deixa a tua terra e vai para a terra que eu te indicar» (Génesis 12,1). O nosso destino foi a Etiópia, país cheio de sol e de hospitalidade. 

A Etiópia é um país lindíssimo, com uma grande riqueza histórica e cultural, cheio de tradições e com imensos povos, com grande diversidade linguística.

Benishangul-Gumuz faz parte de uma das regiões da Etiópia e uma das suas tribos aqui presente é a dos Gumuz, gente de carácter forte, disposta a lutar para defender-se em muitos sentidos. O nosso trabalho missionário é especialmente desenvolvido entre os Gumuz.

O nosso primeiro impacto foi muito bom, pois sempre quisemos partilhar a nossa vida com gente simples, como esta. A comunidade das Irmãs Combonianas, situada em Mandura, oferece serviços de educação, saúde e pastoral catequética. A comunidade dos Leigos Missionários Combonianos (LMC), formada pelo David Aguilera, de Espanha, e pelo Pedro Nascimento, vive com os Missionários Combonianos, em Guilguel Beles, a dez quilómetros de Mandura. Os LMC procuram auxiliar ambas as comunidades nas áreas da educação e pastoral catequética, bem como no acompanhamento de alguns doentes.

Nós, Ir. Vicenta e Pedro, trabalhamos na pastoral e no serviço social, pois uma pessoa completa-se desenvolvendo a alma e o corpo. Uma das actividades que realizamos juntos é o acompanhamento da catequese das mulheres no seu desenvolvimento espiritual, humano e material.

A mulher tem um papel importante na transformação da sociedade e aqui elas precisam de descobri-lo. A mulher Gumuz trabalha imenso e é muitas vezes negligenciada nas oportunidades tais como a educação, onde o aproveitamento escolar não é uma prioridade, especialmente, para as mulheres e raparigas. 

Estas têm, especialmente, que trabalhar no campo, apanhar lenha para cozinhar, carregar água do fontanário ou do rio, carregar pesados sacos com cereais (fruto do trabalho do campo), cuidar dos filhos, cozinhar… A vida da mulher Gumuz é difícil e cheia de sacrifícios e de trabalho árduo.

Reunimo-nos todas as semanas com um grupo de mulheres e elas elegeram um nome para o grupo: “Construtoras da Paz”, nome devido à situação de guerra que temos vivido por mais de dois anos, na nossa zona.

Neste grupo, partilhamos a Palavra de Deus, rezamos pela paz e tomamos juntos um café com a colaboração económica de todas, e fazemo-nos próximos nas experiências de dor e sofrimento que vivemos. 

Fortalecemos a amizade, partilhamos sonhos e aspirações para o futuro. Estes encontros dão-nos a possibilidade de nos conhecermos e estar mais perto uns dos outros. É nosso desejo, segundo as nossas possibilidades, desenvolver actividades que possam ajudar as mulheres na parte económica, já que elas têm um papel importante na manutenção da família.

Tudo isto é muito bonito e atractivo, mas a vida humana está composta de tempos felizes e tempos dolorosos, dias de luz e dias de escuridão.

Devido a confrontos étnicos, sobretudo pela posse da terra, a estabilidade social piorou, muitos foram mortos, aldeias foram queimadas, algumas colheitas foram roubadas por oportunistas, muitos inocentes postos na prisão sem saberem os motivos, as escolas e postos médicos fechados devido à insegurança, temendo que os estudantes sejam atacados pelos rebeldes e os professores e enfermeiros atacados e sequestrados, já que a maioria deles pertencem a outro grupo étnico.

Infelizmente esta tem sido a nossa realidade nos últimos dois anos vivendo-se, ora momentos de paz, ora momentos de conflitos e insegurança. Porém, quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor (Romanos 14,8) e Ele connosco sempre está e nos acompanha.

Na missão das Irmãs, algumas mulheres pediram a protecção por umas semanas, ficando lá a dormir. A situação piorou e decidiram escapar para o bosque onde se podiam esconder. Quando a situação se acalmou, pouco a pouco, as famílias foram regressando às suas cabanas.

Como referimos, anteriormente, esta situação tem-se repetido por dois anos e juntos experimentamos a dor, a insegurança mas também a protecção de Deus. As obras de Deus nascem e crescem aos pés da Cruz, dizia São Daniel Comboni.

Nada disto estava contemplado quando cheios de ilusão, chegámos a esta missão, mas decidimos fazer causa comum com este povo, partilhando os momentos bons e os maus, decidimos permanecer aqui e abandonarmo-nos nas mãos de Deus.

Viveram-se tempos muitos difíceis e a nossa presença aqui, no meio das dificuldades, pretende ser testemunho da fidelidade a Deus manifestada na fidelidade ao povo com quem partilhamos a vida. Foi Jesus quem nos disse: “Eis que estou convosco todos os dias, até ao fim dos tempos” (Mateus 28,20).

No meio da dor, de ver sofrer a gente que escapa, dos que sofrem quando choram os seus entes queridos seja porque estão mortos ou porque privados de liberdade, tudo isto se converteu em tempo de graça que nos ajuda a fortalecer a fé e a fidelidade a um povo que vive tempos de sofrimento.

Fazer minha a dor do outro, demonstra-nos o quanto o outro é importante para nós, o quanto lhes queremos bem. Ensinava São Daniel Comboni: faço causa comum convosco e o dia mais feliz da minha vida será aquele em que der a minha vida por vós.

Neste momento fazem-se negociações de paz entre o governo e os grupos rebeldes, as escolas e alguns postos médicos começam a abrir. Em nós, há a esperança de que se possam viver momentos de paz, felicidade e prosperidade.

Rezem por nós e por estes povos da Etiópia, pois a esperança não a podemos perder. Rezem para que consigamos arranjar apoio para desenvolver actividades económicas com as mulheres e ajudar as famílias em necessidade. Rezem pela paz e pela comunhão fraterna.

Vicenta Llorca, Irmã Missionária Comboniana e Pedro Nascimento, Leigo Missionário Comboniano

9 de março de 2021

DEUS DAS SURPRESAS E DAS BÊNÇÃOS

 O bispo-eleito de Rumbek com o bispo de Malakal



MENSAGEM DE ACÇÃO DE GRAÇAS 
AQUANDO DA MINHA NOMEAÇÃO COMO BISPO DE RUMBEK 

Deus é o Deus das surpresas. E as suas surpresas, ainda que desafiantes, trazem sempre uma bênção. Eu não esperava esta nomeação, mas acolho-a com espírito de fé e disponibilidade. Que o plano amoroso de Deus para a Igreja de Rumbek e do Sul do Sudão seja realizado.

Estou grato ao Papa Francisco e à Igreja pelo amor e confiança que demonstraram ao chamar-me para o ministério episcopal e ao nomear-me para ser o bispo de Rumbek.

O meu pensamento vai para todo o povo da diocese e para o seu desejo de encontrar Cristo na Igreja.

A minha obrigação vai para todos os padres que servem na diocese, em particular o P. John Mathiang pelo seu empenho em liderar a diocese nos últimos anos como coordenador diocesano.

Recordo também a pessoa do falecido bispo César Mazzolari que deu a sua vida ao povo de Rumbek com o espírito de um bom pastor.

O meu apreço vai para todos os institutos e comunidades religiosas de homens e mulheres que enriquecem a diocese com os seus carismas, entre os quais manifesto especial gratidão aos meus confrades, os Missionários e Irmãs Combonianos, especialmente aqueles que partilhamos no ministério.

Estou igualmente grato à diocese de Malakal pelo espírito de comunhão, apoio e bondade: que Deus vos recompense.

Também reconheço o empenho de muitos leigos, nativos de Rumbek ou de outros lugares e países, aqueles que trabalham nos departamentos e instituições da diocese, e cristãos empenhados como catequistas, membros de conselhos eclesiásticos, associações, homens e mulheres, jovens e anciãos que formam e constroem esta família de Deus.

Quero expressar a minha disponibilidade para me juntar à diocese de Rumbek, entrando na viagem que tem vindo a fazer até agora e oferecendo a minha humilde pessoa.

Mas, neste momento, o que vos peço mais é a vossa oração, com a confiança de que o nosso Senhor, que iniciou esta boa obra, me ajudará com a sua graça e a levará a bom termo.
P. Christian Carlassare, bispo-eleito de Rumbek (Sudão do Sul)

1 de março de 2021

APAGÃO DIGITAL


Governos africanos tentam «domar» redes sociais.

O Uganda foi a votos a 14 de Janeiro. Yoweri Museveni, na presidência desde 1986, foi reeleito, pela sexta vez, com 58% dos votos, o pior resultado de sempre. Em segundo lugar ficou Robert Kyagulanyi (na foto), um deputado e cantor conhecido como Bobi Wine. Recebeu 34% dos votos. Tinha quatro anos quando Museveni (que já fez 76) tomou o poder.

Na era do digital – e com o presidente em exercício a controlar a televisão, rádio e imprensa oficiais –, a oposição migrou para as redes sociais tomando partido da forte expansão dos telemóveis (mais de metade dos ugandeses têm um e 24% usam a Internet) e da idade dos votantes (78% tem menos de 30 anos e usa à vontade as redes sociais).

Wine capitalizou os sentimentos de frustração e raiva dos jovens, que só conhecem o regime do presidente Museveni e sofrem de desemprego crónico (cerca de 70% não têm trabalho). Twitter, Facebook, WhatsApp e as plataformas de vídeo (com transmissões em directo de cargas da polícia, comícios e espectáculos) serviram para veicular as suas mensagens.

O velho presidente usou mais os meios de comunicação do Estado para chegar ao seu eleitorado numa campanha marcada pela violência das forças da ordem contra a oposição com inúmeras prisões e algumas mortes. O Facebook desactivou contas afectas à campanha do presidente por difusão de notícias falsas. Talvez em retaliação, a Comissão de Comunicações do Uganda decidiu desligar as redes sociais e as plataformas de mensagens dois dias antes do voto e, 24 horas depois, a Internet para «evitar interferências externas» no acto.

O apagão digital – que durou quase cinco dias até 18 de Janeiro – dificultou os planos da candidatura de Wine para conduzir um escrutínio paralelo com os resultados enviados directamente das mesas de voto e documentar fraudes na contagem recorrendo às tecnologias da informação e comunicações.

A decisão de desligar a Internet afectou sobretudo o comércio digital, cada vez mais popular em tempos de pandemia. Calcula-se que as mais de 100 horas sem rede custaram cerca de 7,5 mil milhões de euros às lojas de retalho, serviços de táxi (em Campala há cerca de seis mil mototaxistas inscritos em plataformas digitais), comércio electrónico e pagamentos. O apagão, inclusive, adiou a entrega do segundo avião Airbus 330 Neo à Uganda Airlines.

Não foi a primeira vez que um governo desligou o acesso às redes sociais durante as eleições. Nos últimos cinco anos, Burundi, Camarões, Guiné, Guiné Equatorial, Gabão, Gâmbia, Togo, Tanzânia, Benim, República Democrática do Congo, Maláui, Mali, Mauritânia e Serra Leoa também o fizeram.

Os governos africanos sentem cada vez mais dificuldade em controlar a narrativa da actualidade na era digital e a fronteira entre a liberdade de expressão e a sua manipulação é cada vez mais ténue. Angola, Tanzânia, Uganda, Maláui, Suazilândia e Zimbabué já introduziram legislação para regular o que chamam «abusos das redes sociais» e proteger a segurança nacional de actores externos. Zimbabué e Lesoto estão a caminho.

GUARDADORAS DA ESPERANÇA

— Eu não consigo… não consigo! – repetia sempre Reem, uma jovem beduína palestiniana de 16 anos, sempre que a convidávamos para aprender a u...