6 de abril de 2021

UMA PÁSCOA DE DESEJOS E PROMESSAS



Assim diz o Senhor Deus: Eis que eu abro os vossos túmulos,
Eu ergo-vos das vossas sepulturas, meu povo! 
(Ezequiel 37,12) 
Caros amigos,

a Páscoa do Senhor é o momento em que esta extraordinária promessa é cumprida. É um momento para recuperar a esperança perdida. Um novo vento primaveril sacode o ar velho do túmulo em que a pandemia nos manteve presos, para renovar a nossa vontade de viver!

Em tempos particularmente difíceis como o nosso, cheios de incerteza, parece-me importante entrar em contacto com os nossos desejos mais profundos e os nossos medos mais profundos, que acabam por nos levar de volta ao desejo perene de vida e ao medo ameaçador da morte.

Vivemos todos os dias com desejos e esperanças. Desejo pequeno ou grande, transitório ou persistente, pessoal ou altruísta... Creio, no entanto, que nós cristãos somos chamados a viver acima de tudo pelas promessas que Deus nos faz. «Deus não cumpre todos os nossos desejos, mas todas as suas promessas», diz o teólogo Bonhoeffer.

A Páscoa é uma passagem de uma existência vivida sobretudo sob o signo dos desejos para uma existência iluminada pelas promessas de Deus. Na verdade, preferia falar de uma promessa, no singular. Parece-me que todos nós vivemos por uma promessa pessoal que Deus nos fez quando fez um pacto de amor com cada um e cada uma de nós. Esta promessa escondida nos nossos corações corresponde ao «novo nome que ninguém conhece senão aquele que o recebe»» (Apocalipse 2,17) e que Deus diz ter escrito na palma da sua mão (Isaías 49,16).

Infelizmente, esta "promessa pessoal" é muitas vezes desconhecida para nós, ou sem contornos precisos, enredados como estamos nas malhas dos nossos desejos ou devido à falta de atenção às moções do nosso espírito. 

O meu, parece-me, é muito claro. Lembro-me com precisão do momento, do lugar e das circunstâncias. Foi durante o Verão de 1977, em Londres, durante uma experiência de estudo e trabalho. Estava então numa situação de tumulto interior, assolado por dúvidas e medos, se deveria consagrar a minha vida definitivamente a Deus como missionário. 

Dentro de mim ressoava esta promessa do Senhor: «Aconteça o que acontecer, eu estarei contigo para dar sentido à tua vida». Ali, num restaurante perto da ponte Westminster de Londres, onde trabalhei em part-time com outros estudantes, nesse dia, fortalecido por essa promessa, dei alegremente o meu último SIM ao Senhor. Esta "promessa de sentido" dirigiu toda a minha vida, desde os entusiasmos da juventude, até ao tempo da maturidade apostólica e agora da doença da ELA (esclerose lateral amiotrófica).

Este é o meu desejo pascal: que a luz da Páscoa ilumine as profundezas ocultas do nosso espírito, e nesse emaranhado de desejos e medos nos alcance com toda a sua força a promessa pessoal do Ressuscitado: Eis, eu estou e caminho contigo!

Cristo ressuscitou, sim, ele ressuscitou verdadeiramente! Aleluia.
P. Manuel João Pereira Correia, mccj
Castel D'Azzano (Itália), 4 de Abril de 2021

4 de abril de 2021

PASSAGENS DA PÁSCOA


A primeira foi a páscoa dos hebreus: passagem (pesach) da escravidão do Egito à liberdade da terra da promessa através da porta do mar. 

A Páscoa maior foi a de Jesus: a sua passagem da morta para a vida através da porta rolada do sepulcro novo cavado na rocha de um jardim.

A nossa páscoa — a passagem do pecado à graça, do egoísmo ao amor, do eu ao tu, ao nós — e a páscoa da natureza — a passagem da exploração desenfreada ao uso sustentado através da ecologia— derivam da Páscoa de Jesus, atualizam-na.

João escreve: «nós sabemos que passámos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama, permanece na morte» (1 João 3, 14).

O Amor é a porta maior que dá acesso a paisagens de vida sempre novas. O amor redime-nos. Humaniza-nos.

O olhar cínico da vida repete que o amor é para os românticos, os frouxos; o que conta sou eu — em inglês até se escreve com letra maiúscula, a expressão mais exaltada do euismo. O que move o mundo é o meu bem-estar.

A ressurreição de Jesus — que foi morto porque nos amou até ao fim com um amor extremado — rasga passagens novas de vida no horizonte do humano viver: devolve-nos uns aos outros para nos dar a Deus.

Celebrar a Páscoa, sentir a vida a florir dentro de nós, ser parte deste enorme concerto de vida que é a Primavera, é amar. 

O amar é gramática de Páscoa, modo de conjugar a vida.

Na hora da verdade só o amor redime, salva, ressuscita.

O amor não é sentimento etéreo, nebuloso.

O amor é artesanal, feito de pequenos gestos concretos, obras de arte ao outro e à natureza (que é a nossa casa comum, a nossa irmã, a nossa mãe).

Porque amamos, vivemos, viverão!

Porque amamos celebramos a Páscoa!

Porque amamos cantamos aleluia!

2 de abril de 2021

SEXTA-FEIRA SANTA


Cerro o olhar,
aligeiro o respirar,
aquieto o pensar...
Penso na morte do Justo há dois milénios; 
e na dos crucificados de hoje:
vítimas do Covid,
da economia egoísta, 
da violência à solta, 
da cobiça do poder,
dos desastres climáticos, 
de males com remédio...
Penso na morte,
mas é de vida que Deus me fala:
a vida que me rodeia,
que respiro,
que comparto
neste banco de pedra sentado:
no chilreio dos pássaros, 
felizes;
no assobio dos melros, 
despreocupados;
no cacarejar dos galináceos 
a esgravatar;
no zumbido dos insetos, 
atarefados;
no cheiro doce da natureza 
em flor,
na carícia cálida
da brisa que aconchega.
A morte é uma intermitência:
a vida volta sempre,
permanece!
Primavera eterna
que se renova a cada morte
através do amar
revolucionário,
renovador,
redentor,
ressuscitador...

A ESPERANÇA DA PÁSCOA

Mensagem do Conselho Permanente da Conferência Episcopal Portuguesa


1. A celebração anual da Páscoa do Senhor é o dia por excelência da passagem à vida nova, a festa das festas cristãs. Por isso, o grito da Igreja que nasceu da Páscoa está inundado pela admiração, exultação e alegria: «este é o dia que o Senhor fez: exultemos e cantemos de alegria» (Salmo 117).

O encontro com o Ressuscitado transfigura o coração e é a razão para acolher o precioso dom e o compromisso da fraternidade e do cuidado integral. Infelizmente, pelo segundo ano consecutivo, o anúncio pascal chega em tempo de crise pandémica, que desterra a paz e a felicidade. Da Quaresma à Páscoa é uma grande peregrinação de Esperança.

Todavia, como interpela o Papa Francisco: «Há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa. Reconheço, porém, que a alegria não se vive da mesma maneira em todas as etapas e circunstâncias da vida, por vezes muito duras. Adapta-se e transforma-se, mas sempre permanece pelo menos como um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, não obstante o contrário, sermos infinitamente amados. Compreendo as pessoas que se vergam à tristeza por causa das graves dificuldades que têm de suportar, mas aos poucos é preciso permitir que a alegria da fé comece a despertar, como uma secreta, mas firme confiança, mesmo no meio das piores angústias» (Evangelii Gaudium 6).

 

2. Apesar desta situação dolorosa, não deixemos que se extinga a esperança da Páscoa! Sem ela a vida torna-se árida, insuportável, sem sentido. Cristo ressuscitado e glorioso é a fonte profunda da nossa esperança viva. «A sua ressurreição não é algo do passado; contém uma força de vida que penetrou o mundo. Onde parecia que tudo morreu, voltam a aparecer por todo o lado os rebentos da ressurreição. É uma força sem igual. (…) Cada dia, no mundo, renasce a beleza, que ressuscita transformada através dos dramas da história. (…) Esta é a força da ressurreição» (EG 276) que trespassa a nossa vida e a nossa história. Não fiquemos à margem desta esperança viva! Peçamos ao Espírito Santo que «vem em auxílio da nossa fraqueza» (Romanos 8, 26) para fazer brotar em cada um sementes de vida nova.

 

3. Nas casas e nas famílias, a mesa é o lugar da partilha do pão e do dom da comunhão. A mesa continua a ser o lugar do dom da Páscoa: mesa da Palavra, mesa da Eucaristia e mesa da caridade fraterna. Aqui acontece o milagre da fraternidade cristã. A mesa com Cristo leva-nos à missão e à proximidade com quantos são atingidos pela pandemia e sofrem nos lares, nos hospitais e nas instituições, pedindo a bênção de Deus e a recuperação da saúde e da esperança. Continuamos a partilhar, igualmente, a dor das famílias que perderam os seus entes queridos, confiando-os aos braços misericordiosos do Ressuscitado, assim como a angústia dos que perderam ou viram substancialmente reduzidos os seus rendimentos necessários a uma vida condigna.

 

4. Renovamos a nossa gratidão pela heroicidade e dedicação à dignidade da vida humana: aos profissionais de saúde e de segurança, aos voluntários e a todas pessoas que fazem avançar a história da humanidade nos serviços essenciais e quotidianos ao bem comum.

É nos gestos de amor, de partilha, de serviço, de encontro, de fraternidade, que encontramos Jesus Cristo vivo, a transformar e a renovar o mundo.

 

5. O mundo inteiro prepara-se para sair desta pandemia que nunca ninguém pensou que pudesse ter tantas e tão graves consequências para a humanidade. Devemos entender a crise como um desafio à coragem criativa e à confiança crente. Desta crise temos de sair melhores. A todos os irmãos e irmãs, especialmente aos presbíteros, aos diáconos, às pessoas consagradas e às famílias cristãs, encorajamos a renovar as promessas batismais para prosseguirem nos caminhos da reconciliação e da conversão.

 

6. O sepulcro aberto proclama a alegria da presença viva e ressuscitada de Cristo e a Igreja pede-Lhe incessantemente: «Fica connosco, Senhor» (Lucas 24,29), para que seja sempre hoje de renovação pascal. Para todos existe a possibilidade de reencontrar a esperança, porque Cristo é a nossa Páscoa (cf. 1Coríntios 5,7) e a nossa paz. A fé, a esperança e a caridade que nascem e renascem da Páscoa frutificam, quando nos tornam mais irmãos e cidadãos mais ativos para se realizar a justiça e a paz, o perdão e o amor.

Lisboa, 11 de março de 2021

1 de abril de 2021

EM MEMÓRIA DO SENHOR


A Igreja Católica celebra hoje a instituição da Eucaristia através da Missa da Ceia do Senhor, que inclui o gesto profundamente simbólico do lava-pés.

Jesus inicia e explica a sua Páscoa — que inclui a sua paixão, morte e ressurreição — com a última ceia.

O evangelista João — que hoje é lido na liturgia da Palavra — introduz o mistério pascal de Jesus com a afirmação: «Antes da festa da Páscoa, Jesus, sabendo bem que tinha chegado a sua hora da passagem deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo» (João 13,1).

A Páscoa de Jesus é a prova do seu amor levado até ao extremo. Extremado. Total. Integral. Ilimitado.

Jesus, através dos gestos da ceia com os discípulos, explica o que vai fazer com a sua vida nesses dias que transformaram radicalmente o mundo, o Tríduo Pascal.

Paulo é o autor do relato mais antigo da instituição da Eucaristia, escrito por volta do ano 55, uns 20 anos depois da Ceia do Senhor.

Escreve aos cristãos de Corinto: «Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue, tomou o pão e, dando graças, partiu-o e disse: “Isto é o meu Corpo, entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim”. Do mesmo modo, no fim da ceia, tomou o cálice e disse: “Este cálice é a nova aliança no meu Sangue. Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de Mim”. Na verdade, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha» (1 Coríntios 11, 23-26).

Jesus entrega o seu corpo por cada um de nós. O seu sangue sela a aliança nova e eterna. Na Eucaristia comungamos o Senhor presente realmente no pão e no vinho. E comungamo-nos uns aos outros, seu corpo aqui e agora.

E manda: «Fazei-o em memória de mim».

Fazemos memória da Páscoa do Senhor cada vez que celebramos a Eucaristia. Ele dá-nos o seu corpo e o seu sangue, a sua vida inteira e por inteiro, cada vez que nos reunimos à volta das mesas da Palavra e o Pão.

Fazemos memória de duas maneiras: ritualizando a última ceia através da celebração da Eucaristia; sendo eucaristia: pão partido e repartido para a salvação de todos ao jeito de Jesus.

VOZES PROFÉTICAS


Bispos africanos estão a dar voz a posições arrojadas.

O episcopado africano pode ser considerado conservador na teologia, pastoral e liturgia. Contudo, tanto as conferências episcopais como bispos em particular estão a dar voz a posições arrojadas por todo o continente.

A SECAM – o Simpósio das Conferências Episcopais da África e Madagáscar – apresentou no fim de Janeiro o chamado «Documento de Campala», uma exortação pastoral de uma centena de páginas que nasceu das celebrações dos 50 anos da instituição. Pretende resolver as «dicotomias entre fé e política, Reino de Deus e transformação da Terra, salvação das almas e vidas terrenais, contemplação e acção». Alerta ainda para os perigos das espiritualidades de salvação e de prosperidade baseadas no sucesso e em soluções milagrosas.

As eleições são ocasiões em que muitas conferências episcopais fazem sentir as suas vozes e os seus reparos. Os bispos do Uganda, por exemplo, antes das presidenciais de Janeiro passado, recordaram que o «não roubarás» também se aplica aos votos e alertaram para a comercialização do acto eleitoral através de campanhas cada vez mais dispendiosas.

Os bispos da República Centro-Africana, no rescaldo das eleições de Dezembro, que deixaram o país a ferro e fogo, pediram diálogo sincero, franco, fraterno e construtivo para resolver a grave crise de violência que afecta o país. Denunciaram o sistema de uma minoria que beneficia das riquezas do país por causa da filiação partidária e afinidades tribais, e as conspirações externas com cumplicidades locais, que deixam o país à mercê de predadores e mercenários bem armados.

A Conferência Episcopal do Congo-Brazzaville também se pronunciou sobre a eleição presidencial marcada para 21 de Março: «Temos reservas sérias que uma eleição presidencial pacífica, participada, transparente, livre e credível possa acontecer nas condições actuais», escreveram.

Os bispos do Benim pediram diálogo forte e aberto entre os partidos e as instituições envolvidos nas presidenciais de Abril.

A pandemia de covid-19 – que a 15 de Março tinha matado no continente 108 064 pessoas (África CDC) e infectado 4 041 835 – também levou os bispos a tomar posições fortes de liderança. Por exemplo, a Conferência Episcopal da Tanzânia alertou para os perigos da segunda vaga da pandemia, porque «o nosso país não é uma ilha». Pede aos Tanzanianos que voltem a usar máscaras e a lavar as mãos com água e sabão, práticas que haviam abandonado. Os bispos do Senegal também expressaram a sua preocupação com as novas estirpes mais mortíferas da segunda vaga da doença.

Há ainda as vozes proféticas do bispo Dom Luiz Fernando Lisboa, de Pemba (Moçambique), que colocou o drama de Cabo Delgado na agenda internacional e que entretanto tomou conta de uma diocese no Brasil natal, de Dom Agapitus Nfon, de Kumba (Camarões), que tenta mediar a crise anglófona, que já fez três mil mortos desde 2016, ou Dom Stephen Dami Mamza,  bispo de Yola, na Nigéria, que construiu um bairro para alojar 86 famílias deslocadas pela violência do Boko Haram, com escola e mesquita incluídas.

30 de março de 2021

PALAVRAS DE PRIMAVERA





Luz,
calor,
cor,
amor...

Gomos,
folhas,
flores,
vida...

Perfume,
alegria,
alergias,
lágrimas...

Chilreios,
zumbidos,
risos,
brisas...

Silêncio,
calidez,
claridade,
paz...

Teofania!

EU SOU A RESSURREIÇÃO E A VIDA

 


MENSAGEM DE PÁSCOA

As irmãs mandaram então a dizer-lhe “Senhor, aquele a quem amas está doente”. Jesus disse: “Essa doença não é para a morte, mas para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por meio dela”. “Eu sou a ressurreição e a vida, quem acredita em mim, mesmo que morra, viverá…” Acreditas nisto?”. “Sim, Senhor, eu acredito que tu és o Cristo, o Filho do Deus, que vem a este mundo” (Jo 11, 3.4.25-27).

O nosso mundo atravessa um período muito difícil por causa da pandemia do Covid-19, que continua a provocar tanto sofrimento, milhares de doentes e de mortes. Várias populações estão a sofrer, não só pela Covid-19, mas também pela guerra, instabilidade, deslocações, migração arriscada, problemas climáticos, problemas económicos. Pensando na pandemia, recordamos aqui tantos nossos confrades e irmãs que viveram esta experiência de morte e ressurreição e estão agora na glória do Ressuscitado. Nesta situação de dor, de sofrimento e de morte, em que o Cristo da Sexta-feira Santa continua a ser crucificado e morto nas pessoas que sofrem as consequências desta pandemia, não é nada fácil encontrar palavras de encorajamento, de alegria, de vida, enfim, de ressurreição.

Mas, mesmo porque somos cristãos, discípulos missionários do Senhor, nesta Páscoa somos convidados a colocar de novo a nossa confiança e a nossa esperança, nEle, o Senhor da vida, que viveu o sofrimento, a dor e a humilhação até morrer sobre a cruz, para ser ressuscitado pelo Pai. Por isso, as suas palavras a Marta perante a doença do irmão Lázaro, são mais do que nunca oportunas para nós e para a humanidade inteira neste momento: “Eu sou a ressurreição e a vida, quem acredita em mim, mesmo se morre, viverá, quem vive e cré em mim não morrerá jamais”.

A fé na ressurreição e a esperança que Ele nos trouxe são o dom maior e mais belo que nós possamos anunciar e oferecer a toda a pessoa. Por isso, nunca nos cansemos de repetir, a todos e cada um: Cristo ressuscitou! Animados por esta certeza, levamos este anúncio a todas as comunidades, a cada casa, a cada família, a todo o lugar onde as pessoas mais sofrem. Como afirma o Papa Francisco: “Procuremos, na medida do possível, utilizar da melhor maneira este tempo: sejamos generosos; ajudemos quem precisa na nossa vizinhança; procuremos, talvez por telefone ou pelos social, as pessoas mais sós; rezemos ao Senhor por quantos no mundo se encontram na provação. Mesmo se estamos isolados, o nosso pensamento e o nosso espírito podem chegar bem longe com a criatividade do amor. É disto que hoje precisamos: a criatividade do amor” (Vídeo mensagem do Papa Francisco para a Semana Santa 2020).

É a missão da compaixão que, como missionários, somos chamados a anunciar, a proximidade de Deus ao seu povo, a Sua ternura e o Seu amor. Como Jesus, que curou tantas pessoas doentes, nós somos hoje os seus instrumentos para cuidar do sofrimento, curar a indiferença, o egoísmo e o afastamento que esta doença gera. É a missão do encontro que cria espaços de acolhimento, de fraternidade, que gera vida e vida em abundância para todos. Somos assim missionários da esperança e da alegria no contexto atual para recordar profeticamente a todos que “não podemos avançar cada um por sua conta, mas só juntos” (Homilia do Papa Francisco, 27/03/2020). É uma nova maneira de ser e de estar no mundo: não um simples regresso ao passado que conhecemos, mas um pôr-se em jogo com criatividade e sabedoria.

Só confrontando-nos com a cruz, podemos encontrar a esperança e viver como ressuscitados, como nos ensina São Daniel Comboni: Será possível que o coração de um verdadeiro apóstolo possa abater-se e atemorizar-se por todos estes obstáculos e extraordinárias dificuldades? Não, isso não é possível, jamais! Só na cruz está o triunfo (Escritos 5646). É o triunfo do Ressuscitado. Em Jesus ressuscitado, a vida venceu a morte. É a esperança de um tempo melhor. É uma esperança que não falha.

Com estes sentimentos de alegria queremos desejar-vos uma Santa Páscoa de Ressurreição!

Roma, 19 março 2021
O Conselho Geral dos Missionários Combonianos

28 de março de 2021

A MULHER DO PERFUME CARO


A liturgia católica lê a Paixão do Senhor no Domingo de Ramos e na Sexta-feira Santa. O relato é o primeiro esboço do evangelho. Depois foram compilados os ditos de Jesus e, por fim, com esse e outros materiais, os quatro evangelhos oficiais chamados de canónicos, além de muitos outros ditos apócrifos, não autenticados.

Marcos e Mateus iniciam a narrativa da paixão descrevendo dois factos: a decisão dos líderes judaicos de matar Jesus à traição; e a unção do Senhor em casa de Simão, o sofredor de lepra. Lucas coloca a unção — mais desenvolvida e com mudanças de fundo — no capítulo sétimo do seu Evangelho.

O episódio da unção passa-se em Betânia, uma aldeia no cimo da colina em frente a Jerusalém. Ou Lazariya, em árabe, hoje.

Durante a ceia, uma mulher não identificada chega com um frasco de bálsamo de nardo muito caro, invade o repasto, quebra o recipiente feito de alabastro e derrama o perfume sobre a cabeça de Jesus.

Alguns dos comensais ficam indispostos com o gesto da mulher: intromete-se num espaço de homens e apropria-se de um gesto masculino de profetas e sacerdotes a quem cabe ungir a cabeça do rei.

«Podia vender-se este bálsamo por mais de trezentos denários de dar-se aos pobres», disseram, expressando o seu enfado pelo atrevimento da mulher do perfume de nardo.

Trezentos denários, de facto, representam uma fortuna: o salário de trezentos dias de trabalho, o ordenado de quase um ano de dura labuta. 

Jesus respondeu: «Deixai-a! Porque a importunais? Praticou uma boa ação para comigo. […] Ela fez o que podia: antecipou-se a ungir o meu corpo para a sepultura».

Esta mulher sem nome e sem palavras, através do gesto amoroso para com Jesus, confessa que Ele é o Messias e revela-lhe o que o espera: a paixão e morte na Cruz.

Jesus entende a mulher, perfeitamente.

Proclama que as boas ações passam pelo serviço aos pobres — que sempre teremos connosco — e pelo reconhecimento da identidade e dignidade de cada pessoa, através da unção com o perfume valioso da ternura, do carinho. De muito amar — como nota Lucas. 

O cuidado terno e amoroso é o que podemos fazer uns pelos outros. Sempre!

Jesus afirma que o gesto da mulher inominada faz parte do anúncio do Evangelho, memória do seu ato profético.

Hoje, e cada vez que se lê a paixão do Senhor!

24 de março de 2021

DEUS FERIDO


Os filósofos e teólogos definem Deus como omnipotente, omnisciente, omnipresente.

Para falar de Deus, recorrem ao prefixo OMNI que vem do vocábulo latino omne e exprime a ideia de todo, inteiro.

Por outras palavras, Deus é capaz de tudo, sabe tudo, está em todo o lugar; tudo pode, tudo sabe, tudo vê…

Em tempos de dificuldade, estes títulos podem levar-nos a expectativas falsas do poder e agir de Deus.

Se Deus é tudo isso, então tem o direito — e o dever — de intervir nas nossas histórias e acabar com o mal, qualquer mal, num qualquer ato milagroso omni de pura magia.

Porquê é que tal não está a acontecer? Porque há tanto sofrimento e dor no mundo? 

Porque essa é uma ideia de Deus, não é Deus.

São Pedro escreve na primeira carta, citando a profecia de Isaías, que fomos curados nas suas chagas.

O nosso Deus não é omni. É um Deus ferido, crucificado e ressuscitado, que padece connosco e transforma o nosso sofrimento, as nossas misérias em graça, num processo lento, artesanal, como o oleiro trabalha com arte paciente o barro.

Onde, por um lado, atua a compaixão de Deus e, por outro, a nossa colaboração compassiva.

Em estação pandémica, onde todos somos atribulados por um vírus que pode ser eliminado com água e sabão, Deus não é omni. Para nos salvar, Ele precisa da nossa lavagem das mãos, do distanciamento social e do uso de uma máscara protetora.

Li que um dia os prisioneiros do campo de extermínio de Auschvitz desfilavam junto à forca coletiva onde um grupo tinha sido executado. Entre os enforcados encontrava-se uma criança que, por não ser pesada, não morreu logo como os adultos e retorcia-se em agonia atroz. Um dos prisioneiros, chocado pela cena, pergunta: «Onde está Deus?». Outro responde-lhe: «Está naquela criança que se retorce em morte lenta…».

Os  tempos críticos como o nosso ajudam-nos a purificar a nossa ideia de Deus, a passar de uma fé de catecismo, de conceitos abstratos e expectativas sem limites a um encontro pessoal com o Senhor ressuscitado e vivente que caminha connosco todos os caminhos da vida, que passeia livremente connosco através das fornalhas ardentes da nossa vida. 

Também o da dor e da morte. Para transformar em Páscoa.

18 de março de 2021

CAÇADOR DO INSTANTE


O escritor russo Fiodor Dostoiewski escreveu que «a beleza salvará o mundo».

A palavra grega kalós tanto pode ser traduzida em português por bom como por belo.

Bondade e beleza equivalem-se, porque têm em Deus a sua fonte; são manifestação da bondade e beleza do Criador que fez tudo muito bom e muito bem.

A teologia cristã tem explorado o imperativo ético (bondade) e o imperativo estético (beleza) — menos — como caminhos de santificação. 

A bondade e a beleza são dois caminhos complementares que levam a Deus.

A beleza — um rosto, uma paisagem, uma flor, um detalhe, um pôr-do-sol, um luar, o voo de um pássaro ou de uma borboleta, neblina — encanta-me, desarma-me, humaniza-me.

Gosto de a fotografar, de fixar esses instantes da epifania de Deus, da revelação da sua beleza.

Costumava andar com uma pequena câmara no bolso: antes, analógica; depois, digital; agora é com o telemóvel.

Caçar instantâneos de pura beleza faz parte da tentação de capturar o instante, de possuir a beleza, de a caçar e domar, de a cristalizar como uma peça de fruta na doçaria tradicional.

Uma atitude consumista que se remedia com um olhar contemplativo e um coração livre do ter.

Muitas vezes prefiro sentar-me, deixar-me tomar pelo instante místico, centelha da beleza de Deus, em vez de me preocupar com o melhor enquadramento ou a luminosidade correta.

O instante respira-se, vive-se, entranha-se, assimila-se; não se captura nem se deixa caçar.

Uma foto é uma ilusão a cores ou a preto-e-branco.

11 de março de 2021

TESTEMUNHAS DO AMOR DE DEUS


Partilhar o amor de Deus com os demais, receber e dar, determinaram a nossa vocação missionária: Irmã Vicenta Llorca, Missionária Comboniana espanhola há mais de 40 anos na Eritreia e Etiópia, e Pedro Nascimento, Leigo Missionário Comboniano português, há dois anos na Etiópia. 

Tal como fez com Abraão, também a nós, através da oração e discernimento pessoal, Deus disse: «Deixa a tua terra e vai para a terra que eu te indicar» (Génesis 12,1). O nosso destino foi a Etiópia, país cheio de sol e de hospitalidade. 

A Etiópia é um país lindíssimo, com uma grande riqueza histórica e cultural, cheio de tradições e com imensos povos, com grande diversidade linguística.

Benishangul-Gumuz faz parte de uma das regiões da Etiópia e uma das suas tribos aqui presente é a dos Gumuz, gente de carácter forte, disposta a lutar para defender-se em muitos sentidos. O nosso trabalho missionário é especialmente desenvolvido entre os Gumuz.

O nosso primeiro impacto foi muito bom, pois sempre quisemos partilhar a nossa vida com gente simples, como esta. A comunidade das Irmãs Combonianas, situada em Mandura, oferece serviços de educação, saúde e pastoral catequética. A comunidade dos Leigos Missionários Combonianos (LMC), formada pelo David Aguilera, de Espanha, e pelo Pedro Nascimento, vive com os Missionários Combonianos, em Guilguel Beles, a dez quilómetros de Mandura. Os LMC procuram auxiliar ambas as comunidades nas áreas da educação e pastoral catequética, bem como no acompanhamento de alguns doentes.

Nós, Ir. Vicenta e Pedro, trabalhamos na pastoral e no serviço social, pois uma pessoa completa-se desenvolvendo a alma e o corpo. Uma das actividades que realizamos juntos é o acompanhamento da catequese das mulheres no seu desenvolvimento espiritual, humano e material.

A mulher tem um papel importante na transformação da sociedade e aqui elas precisam de descobri-lo. A mulher Gumuz trabalha imenso e é muitas vezes negligenciada nas oportunidades tais como a educação, onde o aproveitamento escolar não é uma prioridade, especialmente, para as mulheres e raparigas. 

Estas têm, especialmente, que trabalhar no campo, apanhar lenha para cozinhar, carregar água do fontanário ou do rio, carregar pesados sacos com cereais (fruto do trabalho do campo), cuidar dos filhos, cozinhar… A vida da mulher Gumuz é difícil e cheia de sacrifícios e de trabalho árduo.

Reunimo-nos todas as semanas com um grupo de mulheres e elas elegeram um nome para o grupo: “Construtoras da Paz”, nome devido à situação de guerra que temos vivido por mais de dois anos, na nossa zona.

Neste grupo, partilhamos a Palavra de Deus, rezamos pela paz e tomamos juntos um café com a colaboração económica de todas, e fazemo-nos próximos nas experiências de dor e sofrimento que vivemos. 

Fortalecemos a amizade, partilhamos sonhos e aspirações para o futuro. Estes encontros dão-nos a possibilidade de nos conhecermos e estar mais perto uns dos outros. É nosso desejo, segundo as nossas possibilidades, desenvolver actividades que possam ajudar as mulheres na parte económica, já que elas têm um papel importante na manutenção da família.

Tudo isto é muito bonito e atractivo, mas a vida humana está composta de tempos felizes e tempos dolorosos, dias de luz e dias de escuridão.

Devido a confrontos étnicos, sobretudo pela posse da terra, a estabilidade social piorou, muitos foram mortos, aldeias foram queimadas, algumas colheitas foram roubadas por oportunistas, muitos inocentes postos na prisão sem saberem os motivos, as escolas e postos médicos fechados devido à insegurança, temendo que os estudantes sejam atacados pelos rebeldes e os professores e enfermeiros atacados e sequestrados, já que a maioria deles pertencem a outro grupo étnico.

Infelizmente esta tem sido a nossa realidade nos últimos dois anos vivendo-se, ora momentos de paz, ora momentos de conflitos e insegurança. Porém, quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor (Romanos 14,8) e Ele connosco sempre está e nos acompanha.

Na missão das Irmãs, algumas mulheres pediram a protecção por umas semanas, ficando lá a dormir. A situação piorou e decidiram escapar para o bosque onde se podiam esconder. Quando a situação se acalmou, pouco a pouco, as famílias foram regressando às suas cabanas.

Como referimos, anteriormente, esta situação tem-se repetido por dois anos e juntos experimentamos a dor, a insegurança mas também a protecção de Deus. As obras de Deus nascem e crescem aos pés da Cruz, dizia São Daniel Comboni.

Nada disto estava contemplado quando cheios de ilusão, chegámos a esta missão, mas decidimos fazer causa comum com este povo, partilhando os momentos bons e os maus, decidimos permanecer aqui e abandonarmo-nos nas mãos de Deus.

Viveram-se tempos muitos difíceis e a nossa presença aqui, no meio das dificuldades, pretende ser testemunho da fidelidade a Deus manifestada na fidelidade ao povo com quem partilhamos a vida. Foi Jesus quem nos disse: “Eis que estou convosco todos os dias, até ao fim dos tempos” (Mateus 28,20).

No meio da dor, de ver sofrer a gente que escapa, dos que sofrem quando choram os seus entes queridos seja porque estão mortos ou porque privados de liberdade, tudo isto se converteu em tempo de graça que nos ajuda a fortalecer a fé e a fidelidade a um povo que vive tempos de sofrimento.

Fazer minha a dor do outro, demonstra-nos o quanto o outro é importante para nós, o quanto lhes queremos bem. Ensinava São Daniel Comboni: faço causa comum convosco e o dia mais feliz da minha vida será aquele em que der a minha vida por vós.

Neste momento fazem-se negociações de paz entre o governo e os grupos rebeldes, as escolas e alguns postos médicos começam a abrir. Em nós, há a esperança de que se possam viver momentos de paz, felicidade e prosperidade.

Rezem por nós e por estes povos da Etiópia, pois a esperança não a podemos perder. Rezem para que consigamos arranjar apoio para desenvolver actividades económicas com as mulheres e ajudar as famílias em necessidade. Rezem pela paz e pela comunhão fraterna.

Vicenta Llorca, Irmã Missionária Comboniana e Pedro Nascimento, Leigo Missionário Comboniano

9 de março de 2021

DEUS DAS SURPRESAS E DAS BÊNÇÃOS

 O bispo-eleito de Rumbek com o bispo de Malakal



MENSAGEM DE ACÇÃO DE GRAÇAS 
AQUANDO DA MINHA NOMEAÇÃO COMO BISPO DE RUMBEK 

Deus é o Deus das surpresas. E as suas surpresas, ainda que desafiantes, trazem sempre uma bênção. Eu não esperava esta nomeação, mas acolho-a com espírito de fé e disponibilidade. Que o plano amoroso de Deus para a Igreja de Rumbek e do Sul do Sudão seja realizado.

Estou grato ao Papa Francisco e à Igreja pelo amor e confiança que demonstraram ao chamar-me para o ministério episcopal e ao nomear-me para ser o bispo de Rumbek.

O meu pensamento vai para todo o povo da diocese e para o seu desejo de encontrar Cristo na Igreja.

A minha obrigação vai para todos os padres que servem na diocese, em particular o P. John Mathiang pelo seu empenho em liderar a diocese nos últimos anos como coordenador diocesano.

Recordo também a pessoa do falecido bispo César Mazzolari que deu a sua vida ao povo de Rumbek com o espírito de um bom pastor.

O meu apreço vai para todos os institutos e comunidades religiosas de homens e mulheres que enriquecem a diocese com os seus carismas, entre os quais manifesto especial gratidão aos meus confrades, os Missionários e Irmãs Combonianos, especialmente aqueles que partilhamos no ministério.

Estou igualmente grato à diocese de Malakal pelo espírito de comunhão, apoio e bondade: que Deus vos recompense.

Também reconheço o empenho de muitos leigos, nativos de Rumbek ou de outros lugares e países, aqueles que trabalham nos departamentos e instituições da diocese, e cristãos empenhados como catequistas, membros de conselhos eclesiásticos, associações, homens e mulheres, jovens e anciãos que formam e constroem esta família de Deus.

Quero expressar a minha disponibilidade para me juntar à diocese de Rumbek, entrando na viagem que tem vindo a fazer até agora e oferecendo a minha humilde pessoa.

Mas, neste momento, o que vos peço mais é a vossa oração, com a confiança de que o nosso Senhor, que iniciou esta boa obra, me ajudará com a sua graça e a levará a bom termo.
P. Christian Carlassare, bispo-eleito de Rumbek (Sudão do Sul)

1 de março de 2021

APAGÃO DIGITAL


Governos africanos tentam «domar» redes sociais.

O Uganda foi a votos a 14 de Janeiro. Yoweri Museveni, na presidência desde 1986, foi reeleito, pela sexta vez, com 58% dos votos, o pior resultado de sempre. Em segundo lugar ficou Robert Kyagulanyi (na foto), um deputado e cantor conhecido como Bobi Wine. Recebeu 34% dos votos. Tinha quatro anos quando Museveni (que já fez 76) tomou o poder.

Na era do digital – e com o presidente em exercício a controlar a televisão, rádio e imprensa oficiais –, a oposição migrou para as redes sociais tomando partido da forte expansão dos telemóveis (mais de metade dos ugandeses têm um e 24% usam a Internet) e da idade dos votantes (78% tem menos de 30 anos e usa à vontade as redes sociais).

Wine capitalizou os sentimentos de frustração e raiva dos jovens, que só conhecem o regime do presidente Museveni e sofrem de desemprego crónico (cerca de 70% não têm trabalho). Twitter, Facebook, WhatsApp e as plataformas de vídeo (com transmissões em directo de cargas da polícia, comícios e espectáculos) serviram para veicular as suas mensagens.

O velho presidente usou mais os meios de comunicação do Estado para chegar ao seu eleitorado numa campanha marcada pela violência das forças da ordem contra a oposição com inúmeras prisões e algumas mortes. O Facebook desactivou contas afectas à campanha do presidente por difusão de notícias falsas. Talvez em retaliação, a Comissão de Comunicações do Uganda decidiu desligar as redes sociais e as plataformas de mensagens dois dias antes do voto e, 24 horas depois, a Internet para «evitar interferências externas» no acto.

O apagão digital – que durou quase cinco dias até 18 de Janeiro – dificultou os planos da candidatura de Wine para conduzir um escrutínio paralelo com os resultados enviados directamente das mesas de voto e documentar fraudes na contagem recorrendo às tecnologias da informação e comunicações.

A decisão de desligar a Internet afectou sobretudo o comércio digital, cada vez mais popular em tempos de pandemia. Calcula-se que as mais de 100 horas sem rede custaram cerca de 7,5 mil milhões de euros às lojas de retalho, serviços de táxi (em Campala há cerca de seis mil mototaxistas inscritos em plataformas digitais), comércio electrónico e pagamentos. O apagão, inclusive, adiou a entrega do segundo avião Airbus 330 Neo à Uganda Airlines.

Não foi a primeira vez que um governo desligou o acesso às redes sociais durante as eleições. Nos últimos cinco anos, Burundi, Camarões, Guiné, Guiné Equatorial, Gabão, Gâmbia, Togo, Tanzânia, Benim, República Democrática do Congo, Maláui, Mali, Mauritânia e Serra Leoa também o fizeram.

Os governos africanos sentem cada vez mais dificuldade em controlar a narrativa da actualidade na era digital e a fronteira entre a liberdade de expressão e a sua manipulação é cada vez mais ténue. Angola, Tanzânia, Uganda, Maláui, Suazilândia e Zimbabué já introduziram legislação para regular o que chamam «abusos das redes sociais» e proteger a segurança nacional de actores externos. Zimbabué e Lesoto estão a caminho.

27 de fevereiro de 2021

TENTAÇÕES


O evangelista Marcos despacha o relato das tentações de Jesus em 30 palavras no texto grego. Mateus e Lucas fazem uma narração mais detalhada em uma dúzia de versículos.

Marcos, contudo, retém o essencial: o deserto é o local das tentações. Mas também é o lugar onde Deus fala ao coração do seu povo.

No deserto Jesus ouve duas vozes, dois projetos de vida antagónicos: do Espírito e de Satanás. A tentação maior voltou já na cruz: “Salva-te a ti mesmo”. 

Jesus foi tentado a usar os recursos com que o Pai o habilitou para a sua missão em proveito próprio. Esta é a maior tentação: sermos o centro da nossa própria vida.

Os 40 dias das tentações recordam os 40 dias do dilúvio antes de a arca de Noé poisar terra firme; os 40 dias de Moisés em retiro no Monte Sinai para receber a Lei da Aliança; os 40 anos do povo a caminhar pelo deserto antes de entrar na Terra Prometida; os 40 dias em que Jesus, depois da ressurreição, num curso intensivo aos discípulos antes de regressar definitivamente para o Pai. 

Na matemática da Bíblia, 40 significa tempo de preparação.

A narração de Marcos termina com uma nota: “Estava com os animais selvagens e os anjos serviam-no”.

Jesus, ao dizer não às propostas individualistas de Satanás e sim ao plano de Deus, transformou o deserto no paraíso, restaurando a harmonia dos inícios com os anjos e com a criação inteira, incluindo a vida selvagem. 

Quando vivia na Etiópia e me cruzava com uma serpente, perguntava-me: "Como posso ser boa-nova para este animal?". E deixava-a ir à sua vida.

A quaresma é o tempo santo para integrar todos os aspetos da vida: conviver tranquilamente com os animais selvagens que povoam o coração e aceitar o serviço dos anjos. Transformar as espadas em foices, a agressividade em ternura, o egoísmo em amor. Não pôr nada de lado. Fazer o deserto florir...

21 de fevereiro de 2021

CINTO DE DEUS


O Livro do Génesis, que abre a Bíblia, conta que, depois do grande trauma que foi o dilúvio universal, Deus fez uma aliança de vida com Noé e os seus filhos. E através deles com a criação inteira.

O texto bíblico reporta o querer de Deus: «Vou estabelecer a minha aliança convosco, com a vossa descendência futura e com os demais seres vivos que vos rodeiam: as aves, os animais domésticos, todos os animais selvagens que estão convosco, todos aqueles que saíram da arca. Estabeleço convosco esta aliança: não mais criatura alguma será exterminada pelas águas do dilúvio e não haverá jamais outro dilúvio para destruir a Terra.»

Uma nota importante: estamos habitados a pensar a salvação de Deus em termos antropocêntricos como a salvação do género humano. Mas a oferta ide felicidade de Deus é mais abrangente: nela cabem todos os seres vivos. É uma salvação cósmica. Não é só da minha alma…

Deus faz uma aliança cósmica de vida.

Depois da grande destruição que foi o dilúvio, a cheia mítica que cobriu a face da terra durante 40 dias e 40 noites só se salvando quem estava na barca de Noé, Deus diz: «Não mais alguma criatura será exterminada»! Da parte dele. Porque da nossa parte há uma extinção silenciosa e paulatina de dez mil espécies por ano devido ao estilo consumista de vida que exige cada vez mais recursos.

Deus também escolheu um símbolo para sinalizar a aliança de vida com a criação inteira: o arco-íris.

Voltemos à narrativa do Génesis: «E Deus acrescentou: “Este é o sinal da aliança que faço convosco, com todos os seres vivos que vos rodeiam e com as demais gerações futuras: coloquei o meu arco nas nuvens, para que seja o sinal da aliança entre mim e a Terra”.»

O povo Guji — com quem trabalhei no sul da Etiópia — chama labaassaa Waaqa (cinto de Deus) ao arco-íris. Uma definição linda: o arco-íris recorda o abraço terno, protetor e abençoado de Deus a todo o universo.

Também em tempo de pandemia.

Uma das mensagens de encorajamento global em estação de pandemia é um arco-íris com a legenda «Vai ficar tudo bem». Começou na Itália durante a primeira vaga do novo coronavírus SARS-Cov-2 e tornou-se viral.

Sim! Deus abraça-nos e protege-nos! Está connosco e connosco vive o drama do Covid 19. 

Está connosco através dos operadores de saúde na entrega generosa e sem limites às vítimas do Covid. 

Está connosco através de tantos gestos de solidariedade e de cuidado entre vizinhos, entre mais novos e mais velhos nestes dias de confinamento (fazendo as compras, vendo se estão bem…).

Quando vires um arco-íris lembra-te que Deus te está a abraçar, sempre!

20 de fevereiro de 2021

TENHO UMBIGO!


Os dois irmãos têm uma diferença de idades de cerca de dez anos. São excelentes amigos. O mais velho, provocador, diz ao mais novo:

— Tu foste adotado! Não és meu irmão.

O petiz, de resposta sempre pronta na ponta da língua, retorque:

— Não fui adotado, não! Tenho umbigo.

Pois é: o umbigo é a cicatriz que testemunha a nossa interdependência: não somos independentes, que precisamos uns dos outros, que pertencemos uns aos outros. A cicatriz da nossa fragilidade. Que algumas pessoas gostam de adornar com piercings.

Descrates, o filósofo francês, dobrou-nos sobre o nosso umbigo com o seu aforismo «penso, logo existo». 

Uma filosofia de vida muito diferente da filosofia africana do ubuntu: «eu sou porque nós somos».   

Tudo na primeira pessoa do singular: eu penso; eu existo. Eu vivo por mim próprio e para mim próprio. A base do «euismo», da ditadura do eu, do individualismo narcisista globalizado. 

Mas a cicatriz umbilical permanece no abdómen como uma tatuagem indelével.

A pandemia do novo coronavírus SARS-CoV-2 é prova provada de como estamos interdependentes para o bem e para o mal.

Os primeiros casos registaram-se num mercado de Wuhan, na China, há pouco mais de um ano. De lá viajou para a Europa e espalhou-se por todo o mundo com excessão de algumas ilhas. Já contagiou quase 111 milhões de pessoas, matou 2,5 milhões e provocou uma crise social e económica de dimensões globais.

Desde o Iluminismo que iniciamos a longa caminhada de emancipação do nós para o eu. Mas não somos ilhas e por isso não somos felizes. O umbigo lembra-nos isso.

A pandemia está a devolver-nos uns aos outros através de gestos de cuidado e de solidariedade. Porque precisamos uns dos outros. Porque somos uns nos outros. Porque temos umbigo.

17 de fevereiro de 2021

🄐 🄠🄤🄐🄡🄔🄝🄣🄔🄝🄐 🄓🄐 🄠🄤🄐🄡🄔🄢🄜🄐


Começa hoje a quaresma. A palavra tem a raíz no vocábulo latino quadragesima, que significa quadragésimo (dia antes do tríduo pascal).

Na Bíblia,  40 – além de quantidade matemática – significa tempo de preparação: o dilúvio demorou 40 dias; Moisés esteve 40 dias em jejum e isolamento no Monte Sinai para receber a Lei; o povo de Israel vagueou 40 anos pelo deserto para entrar na Terra Prometida; Jesus foi tentado durante 40 dias no deserto para iniciar o ministério do anúncio do Reinado de Deus; o Senhor ressuscitado ensinou os discípulos durante 40 dias antes de regressar ao Pai, a ascensão.

A quaresma é um período de 40 dias, de quarentena. Não em confinamento, mas em escancaramento de coração a Deus, aos outros e ao universo.

A liturgia propõe, através do evangelho para a Quarta-feira de Cinzas, três modos de fazer quaresma: oração, jejum e esmola. Três vacinas para imunizar contra a pandemia do individualismo narcisista globalizado.

A oração põe-nos em modo de repouso no coração de Deus para aprender a viver o sonho do Criador de bem-estar para toda a criação. Jesus exorta: «aprendei de mim que sou manso e humilde de coração».

O jejum, a renúncia voluntária e consciente a algo de que gostamos e/ou precisamos, remete-nos ao essencial da vida. Na cultura do consumismo desenfreado, que está a destruir o planeta, propomo-nos um estilo de vida sóbrio, sustentável. Para além da ritualização do jejum na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa e da abstinência de carne nas sextas-feiras.

A esmola, a partilha do supérfluo e das renúncias, escancara o coração às necessidades dos outros, sobretudo as pessoas mais afetadas pela pandemia do Covid 19. Jejum só para perder peso ou poupar não é jejum!

O Papa Francisco escreve na sua mensagem para a quaresma que «o jejum, a oração e a esmola – tal como são apresentados por Jesus na sua pregação (cf. Mt 6, 1-18) – são as condições para a nossa conversão e sua expressão. O caminho da pobreza e da privação (o jejum), a atenção e os gestos de amor pelo homem ferido (a esmola) e o diálogo filial com o Pai (a oração) permitem-nos encarnar uma fé sincera, uma esperança viva e uma caridade operosa.»

Jesus propõe que quarentena da quaresma seja vivida em segredo, no oculto para que a recompensa venha do Pai que vê o invisível.

A quaresma, os quarenta dias de preparação para a páscoa do Senhor, é — como diz a segunda leitura da liturgia das cinzas — «o tempo favorável», «o dia da salvação» vivido — na proposta da profecia de Joel — no coração: «Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes, convertei-vos ao SENHOR, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e rico em misericórdia.»

Na quarentena da quaresma, mais que ventilar os pulmões, é preciso converter os corações.

A quarentena da quaresma é um caminho de regresso à ternura de Deus, à casa do Pai.

15 de fevereiro de 2021

A ALEGRIA DA MISSÃO


A alegria da missão concretiza-se na fidelidade da resposta dada ao chamamento de Deus. E essa tem que ser uma resposta diária.

A alegria da missão vive-se, também, de momentos duros, dolorosos, mas riquíssimos.

No momento em que vos escrevo, vivem-se momentos de paz na zona Metekel, no oeste da Etiópia. A paz de que vos falo é a paz da ausência de mortos e feridos. Mas, no meu íntimo, desejo uma paz mais difícil: paz no coração de tanta gente que sofreu e sofre! Aqui existem tantos corações feridos…

Nestes dias, eu e o David temos ido com regularidade à esquadra da polícia, onde se encontram vários detidos, a maioria deles sem justificação e alguns deles feridos. Visitamos os detidos, oferecemos água, algum dinheiro para que possam comprar comida e, conjuntamente com a Ir. Nives Bataglia, Irmã Missionária Comboniana e enfermeira, prestamos cuidados médicos aos feridos. Hoje, quando fomos visitar os detidos, recebemos a notícia de que todos os que estavam feridos tinham sido colocados em liberdade. Melhor assim, que possam estar em liberdade junto da sua família.

Como sinal de alguma estabilidade, as escolas começam a reabrir na cidade (por certo que nas aldeias ainda não haverá escola). Este é o terceiro ano consecutivo que os alunos não têm escola durante todo o ano lectivo e a causa não é a pandemia Covid-19, senão os conflitos étnicos. Alguns jovens pedem-nos pequenos trabalhos para que possam comprar cadernos escolares. O trabalho dignifica e conseguir os seus próprios cadernos com o fruto do seu trabalho é muito melhor. O nosso trabalho deverá privilegiar sempre a promoção da dignidade humana.

Sempre que medito sobre como é difícil a muitos jovens aqui, especialmente os Gumuz, obter uma educação digna, sofro, porque lhes quero muito. Estes jovens são o futuro da Etiópia e da sua região. Se não tiverem acesso a uma educação digna, que futuro podemos esperar da Etiópia? Eu que venho de uma região do interior de Portugal, que tinha que levantar-me todos os dias às 6:00 da manhã para poder apanhar o autocarro e chegava quase todos os dias às 19:00, fazendo diariamente mais de 60 quilómetros para poder ter aulas, no ensino secundário, percebo que fui um sortudo comparado com estes jovens sem condições para poder ter um bom aproveitamento escolar e futuro profissional. A vida é dura… Mas é bela.

Obrigado queridos amigos e amigas pela vossa oração e carinho. Obrigado pela vossa partilha material que nos permite partilhar com os detidos, os doentes, os jovens, comprar livros para a biblioteca, etc.

A missão pertence a Deus e nós somos meros instrumentos do Seu Amor. Sem a vossa generosidade, oração e amizade, a minha missão, para a qual fui chamado, não seria completa. É sincero quando vos digo que sois preciosos nesta missão.

Estou longe de vós, mas acompanho a situação do meu país! Rezo por vós, rezo por Portugal e pelo mundo.

Unidos na oração e no Amor de Deus,
Pedro Nascimento 
Leigo Missionário Comboniano 
Etiópia

14 de fevereiro de 2021

🅔🅝🅒🅞🅝🅣🅡🅞 🅓🅔 🅣🅡🅐🅝🅢🅖🅡🅔🅢🅢🅞🅡🅔🅢


Marcos, no início Evangelho (1, 40-4), conta que um leproso veio ter com Jesus e, ajoelhando-se, pediu: «Se quiseres, podes purificar-me». Jesus, profundamente compadecido, tocou-o com a mão, dizendo: «Quero: fica purificado!». E imediatamente a lepra deixou o homem.

Os judeus — como muitos outros povos — tinham um pavor medonho da lepra. O Livro do Levítico dedica os capítulos 13 e 14 ao modo como lidar com a doença e com as suas vítimas.

No fim do capítulo 13 prescreve: «o leproso atingido por tal afecção deve rasgar as roupas, desalinhar o cabelo, tapar-se até à boca e gritar: 'Impuro!... Impuro!' Enquanto conservar a chaga, será impuro, viverá isolado, e a sua residência será fora do acampamento.»

O sofredor de lepra transgride a lei ao chegar até Jesus, em vez de permanecer à distância para não o contaminar. Acredita que Jesus pode purificá-lo.

A resposta de Jesus representa outra transgressão: comovido até às entranhas, toca-o e cura-o!

Quem toca um doente de lepra fica ritualmente impuro. Mas Jesus não tem nojo nem medo: quer que o homem fique purificado.

O papa Francisco nota na primeira exortação apostólica que escreveu: «Às vezes sentimos a tentação de ser cristãos, mantendo uma prudente distância das chagas do Senhor. Mas Jesus quer que toquemos a miséria humana, que toquemos a carne sofredora dos outros».

E continua: «[Jesus] espera que renunciemos a procurar aqueles abrigos pessoais ou comunitários que permitem manter-nos à distância do nó do drama humano, a fim de aceitarmos verdadeiramente entrar em contacto com a vida concreta dos outros e conhecermos a força da ternura. Quando o fazemos, a vida complica-se sempre maravilhosamente e vivemos a intensa experiência de ser povo, a experiência de pertencer a um povo» (Evangelii gaudium, 270).

Depois, Jesus envia o homem ao sacerdote para este lhe passar um atestado de cura e o readmitir à vida comum.

Ele, em vez disso, começou a proclamar incessantemente o milagre que limpou o seu corpo e o restituiu à comunhão — enquanto teve lepra era um excomungado, excluído da vida social e religiosa.

Jesus, por sua vez, teve que deixar a cidade e ir viver para lugares desertos onde as pessoas o encontravam.

Os papeis inverteram-se: homem, curado, volta para a cidade; Jesus, o curador, já não pode entrar abertamente em nenhuma cidade devido à divulgação do acontecido. Jesus nasceu, viveu e morreu fora da cidade, marginalizado.

Finalmente, Jesus toca-nos e cura-nos não para proveito pessoal, mas para a missão: para proclamarmos as maravilhas que ele faz devolvendo-nos uns aos outros.

Jesus  toca e carrega as nossas doenças como proclama a profecia de Isaías: «Na verdade, ele tomou sobre si as nossas doenças, carregou as nossas dores. Nós o reputávamos como um leproso, ferido por Deus e humilhado. Mas foi ferido por causa dos nossos crimes, esmagado por causa das nossas iniquidades. O castigo que nos salva caiu sobre ele, fomos curados pelas suas chagas» (53, 4-5).

11 de fevereiro de 2021

CENTÚRIA

 


Cem apontamentos, cem olhares para a África.

Eis o centésimo texto que escrevo para esta rubrica que nasceu do convite do então diretor de Além-Mar, Manuel Augusto Ferreira, para incluir uma análise mensal da atualidade africana em três mil caracteres, espaços incluídos. Estávamos em finais de 2011 e eu encontrava-me no Sudão do Sul. Era diretor de informação da Cadeia Católica de Rádios (com oito estações nas sete dioceses do país mais uma nos Montes Nuba, no Sudão, em território controlado pelos rebeldes do Exército de Libertação do Povo do Sudão-Norte).

Aceitei o desafio e batizei a rubrica de «África minha». Talvez influenciado pela tradução portuguesa do filme «Out of Africa», inspirado na autobiografia da baronesa dinamarquesa Karen Blixen que viveu no Quénia. Sobretudo, por beber na espiritualidade de São Daniel Comboni, que escreveu que «o primeiro amor da minha juventude foi para a infeliz Nigrícia» (um dos nomes da África no século XIX) e fundou o Instituto das Missões Africanas, hoje Missionários Combonianos. Cada comboniana, cada comboniano é um africanófilo por vocação. E, no meu, sentido de pertença ao berço da humanidade.

Foi em Ceuta que respirei pela primeira vez o ar africano. Acompanhei duas pessoas amigas numa viagem de compras ao enclave espanhol sem impostos no norte de África. Mais tarde, passei três semanas no norte de Moçambique, em plena guerra civil, e na África do Sul, para visitar refugiados moçambicanos que enfrentavam as feras do Parque de Kruger para fugirem à guerra e à fome no seu pais. Na Etiópia, partilhei oito lindos anos com o povo Guji. No Sudão do Sul vivi mais sete. E visitei os países vizinhos: Egito, Sudão, Quénia e Uganda. Também estive em trabalho na Guiné-Bissau.

Sinto-me em casa na África, no meio das suas gentes e dos seus lugares: adoro «perder-me» nos seus mercados tão coloridos e de cheiros fortes, fotografar as pessoas e paisagens, aprender mais e mais sobre a sua realidade passada e presente. Tenho saudades dos seus rituais da vida. Das liturgias festivas. Dos horizontes vastos e luminosos. Das florestas cheias de mistério. Dos pores-do-sol dramáticos. Dos mergulhos nas águas cálidas do Nilo Branco ou no lençol acastanhado do Lago Langano (no sul da Etiópia). Das noites mágicas de lua cheia com as suas batucadas e cantares.

O primeiro texto apareceu precisamente há nove anos no número de Fevereiro de 2012 da Além-Mar. Chamei-lhe «Pulmão da humanidade», inspirado na reflexão que o Papa Bento XVI fez na Exortação Africae munus (O serviço da África), o documento pontifício que saiu do segundo sínodo sobre a Igreja em África. O Papa afirma que o continente representa um imenso «pulmão» espiritual para toda uma humanidade que atravessa actualmente uma crise de fé e de esperança.

A partir daí — e sempre com a preocupação de combater o tom miserabilista com que muitos órgãos informação e analistas teimam em apresentar um continente cheio de vida, de boas notícias e de inúmeras riquezas naturais e culturais com os seus mais de 1,3 milhões de habitantes à cabeça — tenho abordado a África a partir da atualidade, dos seus avanços e dos demónios a exorcizar.

Obriguei-me a ir além da África de leste e austral e ter todo o continente debaixo do meu radar. A partir do observatório privilegiado do Sudão do Sul era mais fácil.

Houve textos que saíram num jorro de palavras e emoções do meu coração africano. A maioria, contudo, exigiu investigação e reflexão para apresentar o tema escolhido para o mês com profundidade contida.

Cada apontamento é o meu jeito de dizer «Amo-te, África minha!»

10 de fevereiro de 2021

ENCONTRAR JESUS PELAS VIELAS DA FAVELA



Cuidado para não abandonar o mandamento de Deus para seguir as tradições dos homens (Mc 7,7)

Em todas as dioceses por onde passo, sempre sugiro aos bispos e aos/às provinciais que insiram no percurso formativo para a vida sacerdotal e religiosa experiências em Pastorais de fronteira como a Pastoral Carcerária, da Criança, do Menor, de Rua e da Sobriedade. Falo por experiência pessoal. Estes serviços foram fundamentais na minha experiência de fé e no meu caminho vocacional.

Quando saí da Itália em 1985 depois da primeira profissão religiosa e ainda estudante de teologia e vim para o Brasil, não imaginava que ia encontrar Jesus pelas vielas da favela, nos porões das delegacias, em masmorras abarrotadas de presos em condições desumanas e nas ruas da amargura. Foi nessa Galileia que Jesus marcou o encontro comigo.

Não dá para esquecer o primeiro contato com o Carandiru, considerado na época um dos maiores presídios do mundo com mais de 6.500 apenados. Era um domingo de dezembro. Faltavam poucos dias para o Natal. Decidi visitar alguns jovens da favela do Parque santa Madalena onde prestava serviço pastoral como seminarista. Fui com Valdênia, uma jovem da nossa paróquia que coordenava a Pastoral do Menor e já vinha atuando naquela comunidade. Seu testemunho foi decisivo em minha vida. Ao chegar ao presídio, tive que alugar um paletó. Essa peça de roupa era obrigatória para os visitantes. A entrada não foi fácil. Depois da identificação no guiché que tinha a primeira letra do meu nome, tive que passar por vários controles de segurança. O pior de todos foi quando, junto com mais 9 homens, fui obrigado a entrar no quartinho da revista íntima, encostar na parede, tirar toda a roupa, levantar os genitais e fazer 10 flexões. Tentei evitar isso me identificando como religioso, mas o guarda me mandou calar a boca com uma frase lapidária: “Aqui não tem nada disso. A religião é a gente que faz. É tudo mundo igual!”

Demorei dias para digerir tamanha humilhação. Por um instante senti na pele o tratamento vexatório imposto aos familiares dos apenados.

Mas aos poucos fui lembrando da Carta aos Filipenses, onde Paulo diz que Jesus se espoliou para se fazer servo. Depois recordei que Ele fez questão de entrar na fila, no último lugar, para receber o batismo de João, logo Ele que era como nós exceto no pecado, enquanto eu era como todas aquelas pessoas incluindo o pecado. Enfim pensei na cena da Sua Paixão quando foi espoliado para ser torturado e pregado na Cruz. Então entendi que aquela espoliação fora minha verdadeira vestição. Aquele ato de tirar a roupa à força e de perder os privilégios que achava de ter alcançado por ser “religioso”, longe das luzes, dos enfeites, dos cantos e da solenidade da celebração dos primeiros votos na Itália, tornara-se o rito culminante da celebração da profissão religiosa.

Aquele foi o dia em que Deus me consagrou e iniciou comigo a dura — pelas minhas fragilidades, mas rica pela sua Graça —, jornada de discipulado e apostolado com Jesus de Nazaré. Fui procurar o saudoso padre Chico Reardon, coordenador da Pastoral Carcerária, que me acolheu de braços abertos e, primeiramente, me confiou o pavilhão 8 do Carandiru, mas depois me pediu de servir as delegacias da Zona Leste abarrotadas de presos. Com padre Júlio Lancellotti e com a Valdênia começamos também a marcar presença na Febem, sobretudo no quadrilátero do Belém, um verdadeiro parque dos horrores.

Foi como colocar o pé na areia movediça. A cada dia fui descendo naquele mundo com mais profundidade. A partir daquele momento, assumi a Pastoral do Menor, a Pastoral Carcerária e as periferias geográficas e existenciais como prioridades na minha vida. Estou nelas até agora e não me arrependo.

Por incrível que pareça, é neste mundo desumanizado e desumanizante que, a cada dia que passa, a cada encontro realizado e a cada experiência vivenciada me torno mais gente e mais cristão. Quem não passa por isso não sabe o que perde. Como gostaria que outras pessoas tivessem a oportunidade de experimentar essa Graça.

O primeiro motivo de edificação é o testemunho dos/as agentes de Pastoral. Quantos leigos e leigas, quase sempre sem nenhum apoio, criminalizados por vastos setores da sociedade e “marginalizados/as” dentro de comunidades muito preocupadas com as “tradições”, toda semana visitam os sistemas penitenciário e socioeducativo para partilhar com amor o Evangelho de Jesus. O que me impressiona é ver que muitos/as voluntários/as são pessoas de idade que representam a “velha guarda” de uma Igreja que fica fiel à Tradição de Jesus de Nazaré, o Cristo vivo que entrega a vida para todos, sobretudo para os mais pobres e abandonados.

Também a convivência com os/as apenados/as é constante motivo de enriquecimento e crescimento humano e cristão. O contato com eles e elas desencadeia um longo processo de conversão do coração à luz da misericórdia que, antes de qualquer coisa, ilumina os olhos para que aprendam a enxergar além das aparências. Só assim é possível descobrir que há luz até nos porões do fundo do poço.

Existem tesouros escondidos atrás de espessas camadas de feridas humanas, como também muita miséria humana feita de preconceitos e perversidades atrás de um aparente estado de saúde social, legal, moral e religiosa. Quem desce nos porões das cadeias chega à conclusão de que estamos todos/as precisando de conversão.

A complexidade da realidade desmistifica a autossuficiência. As decepções e frustrações fortalecem a resiliência. As perseguições são um antídoto contra o narcisismo. A pobreza de meios vai esvaziando a mania de grandeza. A incompreensão e o isolamento enrobustecem a solidez das motivações. A desconfiança aprimora o testemunho. A escuta da história de vida das pessoas, a análise de sua proveniência, a sua condição económica, a cor de sua pele e a idade nos colocam diante da iniquidade do sistema que rege a sociedade.

O contato direto com torturas e violações aos direitos humanos questiona as consciências, intensifica a indignação e alimenta o compromisso por justiça. A sobriedade do altar e a essencialidade das vestes litúrgicas aproxima ainda mais à cena onde se consome a paixão de Cristo cujo Mistério é celebrado. A dura realidade carcerária desmonta privilégios, doutrinas e tradições, sobretudo aquelas que vêm carregadas de ódio e preconceito. O que sobra e prevalece é o Mandamento de Deus. É só por Amor que é possível prestar esse serviço a vida toda como fazem muitas pessoas empenhadas nesta frente.

Passar por toda essa “espoliação” torna-se decisivo no itinerário de formação para a vida religiosa e sacerdotal. Com certeza teríamos mais gente adotando o avental do serviço com hábito religioso e a vivência do Mandamento do Amor como a única Tradição que merece ser defendida e vivenciada a qualquer custo. 

P. Xavier Paolillo, missionário comboniano

GUARDADORAS DA ESPERANÇA

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