13 de novembro de 2014

ABRAÇO DE DEUS

© JVieira

«CHAMADOS A LEVAR A TODOS O ABRAÇO DE DEUS»

Nota Pastoral da CEP sobre o Ano da Vida Consagrada

1. Anúncio feliz do Ano da Vida Consagrada

No final de um encontro com os Superiores Gerais dos Institutos Religiosos no dia 29 de novembro de 2013 em Roma, o Papa Francisco anunciou que o ano de 2015 seria dedicado à Vida Consagrada. Esta proposta para toda a Igreja insere-se também no contexto da celebração dos 50 anos do Concílio Vaticano II, designadamente por ocasião do cinquentenário do Decreto «Perfectae Caritatis» sobre a conveniente renovação da Vida Religiosa.

Dois meses mais tarde, a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica (CIVCSVA), traçou os principais objetivos e algumas iniciativas já previstas para celebrarmos com qualidade o Ano da Vida Consagrada.

«Fazer memória agradecida do passado» é o primeiro objetivo desta celebração. Os 50 anos que separam do Concílio são momento de graça para a Vida Consagrada, que percorreu um caminho de renovação guiada pelo Espírito, vivendo as suas fraquezas e infidelidades como experiência da misericórdia e do amor de Deus.

O segundo objetivo é «abraçar o futuro com esperança». As crises atuais e as incertezas no amanhã devem ser assumidas como desafio e ocasião favorável para os consagrados crescerem em profundidade como homens e mulheres de esperança.

Esta esperança impele-nos a «viver o presente com paixão», terceira finalidade a ter em conta na preparação e celebração deste Ano: uma paixão de enamoramento, de verdadeira amizade, de comunhão; uma paixão por evangelizar a própria vocação e testemunhar a beleza do seguimento de Cristo; uma paixão para despertar o mundo com testemunho profético, em presenças significantes nas periferias geográficas e existenciais da pobreza.

O Ano da Vida Consagrada coincide, em grande parte, com as celebrações do 5.º Centenário do nascimento de Santa Teresa de Jesus, nascida em Ávila a 28 de março de 1515. Figura de grande mulher e de consagrada a Cristo na vida contemplativa, para todos é modelo de progredir na intimidade com Deus pelo exercício perseverante de oração, alcançando assim qualidade apostólica a sua intensa atividade de reformadora da vida carmelita e de toda a Igreja.


2. Vida Consagrada no coração da Igreja

Com esta Nota Pastoral, não pretendemos fazer aqui uma reflexão teológica sobre a Vida Consagrada no mistério e na comunhão da Igreja, mas apenas comungar desta proposta pastoral que o Papa Francisco lançou para toda a Igreja universal e para as Igrejas locais. No mesmo sentido da exortação apostólica Vita Consecrata de João Paulo II, cheios de gratidão damos graças ao Espírito pela abundância de formas de vida consagrada.

A designação «Vida Consagrada» refere-se a um comum horizonte eclesial em que se articulam, de forma complementar, carismas e instituições: ordens e institutos religiosos dedicados à contemplação ou às obras de apostolado; sociedades de vida apostólica; institutos seculares e outros grupos de consagrados; formas novas ou renovadas de vida consagrada; a Ordem das Virgens, as viúvas e os eremitas consagrados; todos aqueles que, no segredo do seu coração, se entregam a Deus com uma especial consagração (cf. Vita Consecreta, 2).

A Vida Consagrada está colocada mesmo no coração da Igreja, como elemento decisivo para a missão, visto que exprime a íntima natureza da vocação cristã. E continua a ser um dom precioso e necessário também no presente e para o futuro do povo de Deus, porque pertence intimamente à sua vida, santidade e missão. Os consagrados são chamados a assumir, na radicalidade do seu ser, a mesma exigência que é feita a todos os discípulos de Cristo, no horizonte das bem-aventuranças: «Sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste» (Mt 5,48).

Muitas iniciativas concretas de carácter universal foram já anunciadas. O Papa Francisco presidirá à abertura das celebrações em 30 novembro deste ano, primeiro domingo do Advento, e haverá uma assembleia plenária da CIVCSVA sobre a novidade na Vida Consagrada a partir do Vaticano II. Estão previstos diversos encontros internacionais em Roma para noviços, jovens religiosos e religiosas, formadores e formadoras, superiores e ecónomos gerais e provinciais. Haverá ainda um congresso internacional de teologia da vida consagrada e uma amostra internacional sobre a vida consagrada como evangelho na história humana. Há várias sugestões para as irmãs contemplativas, entre elas uma «cadeia mundial de oração entre os mosteiros». Alguns documentos sobre diversas áreas específicas estão igualmente em preparação e em reelaboração, como a Instrução «Mutuae relationes», que dá critérios diretivos para as relações mútuas entre os Bispos e os Religiosos na Igreja. E quase a concluir as celebrações do Ano da Vida Consagrada, não faltará uma solene concelebração presidida pelo Papa, em finais de 2015, nos 50 anos do Decreto «Perfetae caritatis».


3. Um ano de bênção e de graça


Na nossa missão de Pastores, queremos cuidar com particular estima daqueles e daquelas que seguem Jesus Cristo nesta forma radical de existência cristã que é a vocação à Vida Consagrada. A partir dos nossos organismos diocesanos mais especificamente ocupados com as formas de Vida Consagrada e em coordenação com a Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal (CIRP) e com a Conferência Nacional dos Institutos Seculares de Portugal (CNISP), desejamos que este Ano seja verdadeiramente um ano de graça, tendo sempre na mente e no coração os três objetivos atrás delineados para toda a Igreja: fazer memória agradecida do passado, abraçar o futuro com esperança, viver o presente com paixão.

Olhando a nossa realidade em Portugal, destacamos algumas ações que já são comuns: a Semana do Consagrado, instituída pela Conferência Episcopal, que principia a 26 de janeiro e encerra com a Festa da Apresentação do Senhor e o Dia do Consagrado a 2 de fevereiro, em que procuramos estar presentes como Pastores das Igrejas locais; o Dia Mundial de Oração pela Vida Consagrada Contemplativa. Procuraremos refletir e atualizar para a Igreja em Portugal as orientações contidas na Instrução «Mutuae relationes». Acompanhamos ainda com atenção as iniciativas conjuntas promovidas pelos organismos coordenadores da Vida Consagrada em Portugal, particularmente a CIRP e a CNISP, como as semanas de estudo sobre a Vida Consagrada, as suas assembleias gerais, as atividades fomentadas pelas suas comissões nacionais e secretariados regionais, as muitas planificações em cada instituto e dalguns em comum.


4. Celebrar a Vida Consagrada na comunhão da Igreja

Neste conjunto de celebrações, queremos avivar o Dia do Consagrado, instituído universalmente em 1997 por São João Paulo II, para “ajudar toda a Igreja a valorizar sempre mais o testemunho das pessoas que escolheram seguir a Cristo mais de perto, mediante a prática dos conselhos evangélicos e, ao mesmo tempo, ser para as pessoas consagradas uma ocasião propícia para renovar os propósitos e reavivar os sentimentos, que devem inspirar a sua doação ao Senhor”. Os três objetivos, então por ele apontados para viver este dia, podem sintonizar com o que se pretende ao longo deste especial ano de graça: responder à íntima necessidade de louvar mais solenemente o Senhor e agradecer-Lhe o grande dom da Vida Consagrada, que enriquece e alegra a comunidade cristã com a multiplicidade dos seus carismas e com os frutos de edificação de tantas existências, totalmente doadas à causa do Reino; promover o conhecimento e a estima pela Vida Consagrada, por parte de todo o povo de Deus, fazendo com que a doutrina sobre ela seja mais largamente e mais profundamente meditada e assimilada por todos os membros do povo de Deus; convidar as pessoas consagradas a celebrar em conjunto e solenemente as maravilhas que o Senhor realizou nelas, para descobrir a beleza e a diversidade dos dons difundidos pelo Espírito no seu género de vida, e tomar consciência mais viva da sua insubstituível missão na Igreja e no mundo.


5. A alegria do Evangelho no coração da Vida Consagrada

Todas as celebrações ao longo deste ano apontarão para a vocação e a missão que a Vida Consagrada, de modo permanente nas suas variadas formas, é chamada a ser e realizar, ao espelhar o modo de vida de Jesus Cristo, hoje, e empenhar-se, já, na construção do Reino dos céus. No dizer do Papa Francisco no referido encontro com os Superiores Gerais, os consagrados e consagradas são desafiados a estar e a marcar presença em variadas situações para despertar o mundo: «A Igreja deve ser atrativa. Despertar o mundo! Sede testemunho de um modo diferente de fazer, de agir, de viver! É possível viver de um modo diferente neste mundo. Estamos a falar de uma visão escatológica, dos valores do Reino encarnados aqui, nesta terra. Trata-se de deixar tudo para seguir o Senhor. Não, não quero dizer radical. A radicalidade evangélica não é somente dos religiosos: pede-se a todos. Mas os religiosos seguem o Senhor de maneira especial, de modo profético. Espero de vós este testemunho. Os religiosos devem ser homens e mulheres capazes de despertar o mundo».

A vida de consagração em castidade, pobreza e obediência, seguindo de perto o estilo de vida de Jesus Cristo, é um tesouro para a vida e missão da Igreja. Fazemos nossas estas palavras do Concílio Vaticano II: «o sagrado Concílio confirma e louva os homens e mulheres, Irmãos e Irmãs que nos mosteiros, escolas, hospitais ou missões, embelezam a Igreja com a sua perseverante e humilde fidelidade na mencionada consagração e prestam generosamente às pessoas os mais variados serviços» (Lumen gentium, n. 46).

Desejamos que todas as iniciativas deste Ano da Vida Consagrada sejam assumidas com interioridade na santidade, com coerência na vida comunitária, com testemunho na missão. O encanto, a alegria e o entusiasmo no seguimento de Cristo, assumidos por todos os consagrados e consagradas na sua existência como discípulos missionários e por todas as formas de vida consagrada, constituirão certamente fermento e atração de novas vocações à Vida Consagrada. Acolhendo os reiterados apelos do Papa Francisco para serem «chamados e levar a todos o abraço de Deus» e «transformados na alegria do Evangelho», os consagrados poderão contribuir de modo especial para despertar o mundo ou os mundos por eles habitados.

Confiamos à Virgem Maria a renovação espiritual e apostólica das pessoas consagradas e dos institutos de Vida Consagrada para testemunharem Jesus Cristo com uma existência transfigurada.

Fátima, 13 de novembro de 2014

Conferência Episcopal Portuguesa

4 de novembro de 2014

CIMETERIUM NOSTRUM


Os Romanos chamavam mare nostrum – o nosso mar – ao Mediterrâneo. A bacia mediterrânica tornou-se o cimeterium nostrum – o nosso cemitério – para milhares de africanos e médio-orientais que morreram na rota do sonho europeu.

A Organização Internacional para as Migrações (OIM) publicou em finais de Setembro o relatório «Viagens fatais – Rastreando vidas perdidas durante as migrações». 

O documento revela que entre Janeiro e Setembro deste ano 3072 pessoas morreram no Mediterrâneo, quase cinco vezes mais que em 2013. Vinham das costas da Líbia, Egipto e Argélia, em embarcações sobrelotadas e inadequadas. Mais de 40 por cento eram africanos subsarianos e do Corno de África (Somália, Etiópia, Jibuti e Eritreia). Outros 30 por cento eram do Médio Oriente, sobretudo da Síria, e do Norte de África.

The Migrantes Files documentou que, nos últimos catorze anos, mais de 22 mil pessoas encontraram a morte ao tentar chegar ilegalmente à Europa através dos desertos e do mar.

Entre Janeiro e Agosto, a Itália contabilizou 112 mil imigrantes que chegaram às suas fronteiras sem papéis, quase três vezes mais do que em 2013. Fogem da pobreza, de guerras, de regimes repressivos, de perseguições políticas e religiosas.

Vêm da República Democrática do Congo, Camarões, Guiné, Serra Leoa, Libéria, Senegal, Mali, Níger, Tunísia, Chade, Sudão, Etiópia, Eritreia, Somália ou Líbia. O coronel Kadhafi acolheu 2,5 milhões de trabalhadores subsarianos para fomentar o seu pan-africanismo. Depois da sua morte, em 2011, viram-se malqueridos pelas milícias que ocuparam o vazio político. Muitos decidiram tentar a sorte no eldorado europeu, outros regressaram às suas terras.

Isaias Afewerki transformou a Eritreia num campo de concentração e dois a cinco mil eritreus saem por mês, a salto, do país. São na maioria jovens desertores para escapar aos trabalhos forçados do serviço militar. Tornam-se presa fácil para bandos armados que os «caçam» no Leste sudanês e no Sinai para exigir resgates na ordem dos 17 mil euros. Entre 2009 e 2013, 25 a 30 mil eritreus foram sequestrados e um terço morreu em cativeiro porque as famílias não tinham meios para pagar a remição. O «negócio macabro», que inclui tráfico de órgãos, gera 460 milhões de euros por ano.

O Papa Francisco, quando visitou Lampedusa, em Julho do ano passado, para «chorar os mortos» do Mediterrâneo, denunciou «a globalização da indiferença» que faz perder o sentido da responsabilidade fraterna. «Estamos habituados ao sofrimento dos outros», disse, enquanto pediu perdão pela indiferença dos corações anestesiados a viver «na bolha de sabão do bem-estar».

Paradoxalmente, somos um continente que ganhou forma através de migrações sucessivas, mas desconsideramos a imigração. Descendemos dos Lusitanos, que vieram do cruzamento de povos locais com iberos do Norte de África e de celtas da Europa Central. Também temos sangue romano, suevo, visigodo, magrebino. Somos um povo e um continente de emigrantes que buscaram – e buscam – uma vida melhor noutras paragens, mas não queremos os de fora.

A IOM diz que as missões de busca e salvamento que as marinhas de guerra levam a cabo no Mediterrâneo para impedir mais tragédias não chegam. É preciso mudar a legislação sobre a imigração legal, criar corredores seguros para refugiados, aumentar quotas de asilo e levar à justiça os traficantes que fazem milhões à custa da esperança de quem sonha com uma vida melhor. E a ajudar a criar condições económicas sustentadas que fixem as pessoas.

«Tende a coragem de acolher aqueles que procuram uma vida melhor», apelou o Papa Francisco para os habitantes de Lampedusa. E também à Europa! Até porque com o índice de natalidade que temos, vão ter de ser os imigrantes a garantir as nossas reformas.

26 de outubro de 2014

AMOR-CHAVE


Os centros de interpretação são uma ferramenta recente para explicar lugares históricos que o evangelho deste domingo me recordou.

Conta Mateus (22: 34-40) que um doutor da lei propôs um debate a Jesus sobre qual era o maior mandamento da lei.

Os dez mandamentos que Deus deu a Moisés em duas pedras no Monte Sinai, no tempo de Jesus tinham sido fragmentados em 613 leis: 365 proibições (tantas como os dia do ano) e 248 obrigações (tantas como os ossos do corpo – pensava-se).

Um judeu piedoso contemporâneo de Jesus vivia num sobressalto constante: com isto estou a cumprir ou a contradizer a lei? Não é fácil recordar de cor 613 prescrições.

Daí a pergunta do legista: Qual das 613 leis é a mais importante?

Jesus responde juntando uma frase do Livro do Deuteronónio (6:5) - «Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente», parte da Shemá, a oração que os hebreus recitam duas vezes por dia, - com outra frase do Levítico (19:18): «Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.»

E diz que os dois mandamentos – que são iguais e parte um do outro – encerram não só a lei mas também os profetas: isto é, todas as Escrituras.

O amor é a palavra-passe que abre o segredo da experiência de Deus e o centro de interpretação da vida cristã: não se pode separar a relação com Deus da relação com as pessoas, porque o amor a uma parte abre-nos forçosamente à outra.

O amor é a chave da vida, é a palavra-passe para abrir a nossa felicidade pessoal e comunitária.

Ama e és feliz!

23 de outubro de 2014

DOXOLOGIA


No verão de 1980 passei um mês no Hospital de São João de Deus em Montemor-o-Novo. A estada no centro ortopédico infantil foi parte do noviciado, o tempo de formação para a vida missionária comboniana.

No hospital havia um capelão, um padre já idoso, que costumava perguntar aos pequenos acamados:

-Meu menino, o que é o Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo?

Os miúdos respondiam com olhares arregalados.

-É uma doxologia, meu menino! – repetia o capelão, sorridente, a esfregar as mãos.

Foi assim que eu aprendi que o Glória ao Pai se chamava doxologia.

Esta palavra vem do grego e quer dizer palavra de louvor, glorificação.

Muitos anos mais tarde, a 6 de Outubro de 2003, o Cardeal Gabriel Zubeir de Cartum presidiu a uma missa de acção de graças na Basílica de São Pedro, no Vaticano.

No dia anterior, Daniel Comboni, o primeiro bispo de Cartum e fundador dos Combonianos, tinha sido canonizado pelo Papa (agora São) João Paulo II.

O Cardeal Zubeir confidenciou durante a homilia que muitas vezes rezava o terço de uma forma muito sua: em vez das 50 ave-marias dizia 50 glórias-ao-pai.

Estas duas estórias vieram-me à memória esta manhã quando orava com o passo-a-rezar de hoje.

A reflexão convidava os orantes a repetir o Glória ao Pai várias vezes durante o dia.

Este tem sido o meu mantra durante os últimos anos: deixar ecoar no pensamento, lenta e repetidamente: Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio, agora e sempre. Ámen!

Dá-me paz, serenidade! E apeteceu-me partilhá-lo contigo. 

17 de outubro de 2014

RIO DE ALEGRIA

Nilo Branco ©JVieira

O Papa escreveu a mensagem para o Dia Mundial das Missões 2014 – que se celebra no domingo, 19 de outubro – sob o signo da alegria. De facto, ele repete a palavra 27 vezes, ecoando a exortação de Paulo: «Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos!» (Filipenses 4:4). O vocábulo amor aparece dez vezes. Alegria e amor são os ingredientes com que se faz a missão.

Francisco define o Dia Mundial das Missões como uma «celebração de graça e alegria» através de «orações e gestos concretos de solidariedade» para com as igrejas jovens.

A evangelização é um rio de alegria em que os baptizados são convidados a navegar e a alimentar através de uma peregrinação interior ao «primeiro amor» para perseverar com o Senhor e fazer a sua vontade, partilhando a fé, a esperança e a caridade evangélica.

Tomando como ícone a narrativa lucana do regresso jovial dos 72 da primeira experiência missionária (Lucas 10:17-23), o Papa recorda que Jesus disse aos discípulos para se alegrarem não pelo que fizeram – a vitória limpa sobre o demónio – mas por terem os seus nomes inscritos nos céus, por experimentarem o amor de Deus e poderem partilhá-lo.

«Os discípulos são aqueles que se deixam conquistar mais e mais pelo amor de Jesus e marcar pelo fogo da paixão pelo Reino de Deus, para serem portadores da alegria do Evangelho. Todos os discípulos do Senhor são chamados a alimentar a alegria da evangelização», nota o Papa argentino.

E ajunta: «A alegria do Evangelho brota do encontro com Cristo e a partilha com os pobres» através de uma «vida fraterna intensa, baseada no amor a Jesus e atenta às necessidades dos mais desfavorecidos.»

O Papa recorda que os bispos são os primeiros responsáveis pelo anúncio, devem favorecer a unidade da diocese e cuidar que o anúncio chegue aos seus lugares mais remotos e às periferias.

E ressalva dois aspectos:

· os LEIGOS «são chamados a assumir um papel cada vez mais relevante na difusão do Evangelho»;

· «a alegre participação na missão ad gentes» através da contribuição económica pessoal «para que a própria oferta material se torne instrumento de evangelização de uma humanidade edificada no amor».

Uma nota final; o Papa Francisco é claro: a missão ad gentes é obra de todos os baptizados e as igrejas locais e os leigos são os principais agentes da evangelização.

Pela primeira vez o Papa não refere explicitamente os missionários nem as Obras Missionárias Pontifícias na mensagem para o Dia Mundial das Missões.

Os institutos missionários – que foram os protagonistas da missão do século XIX e parte do XX – depois do Vaticano II passaram o estandarte do protagonismo às igrejas locais, onde se inserem, de que são parte e que servem.

Não quer dizer que os institutos missionários cumpriram a sua missão e que expirou o seu prazo de validade. Tanto os institutos missionários como as obras pontifícias são elementos acessórios no processo de evangelização, não são atores. Cumpre-se a palavra de João em relação a Jesus: «É necessário que ele cresça e eu diminua» (João 3:30).

Uma nota eclesiológica: o Papa define a IGREJA como uma casa para muitos, mãe para todos os povos, parteira de um mundo novo, como Maria, «modelo de uma evangelização humilde e jubilosa.»

Um Dia Mundial das Missões muito feliz para ti.

10 de outubro de 2014

COMO JESUS, COMO COMBONI


A Igreja «deu» à família comboniana a segunda parte do capítulo décimo do Evangelho segundo São João (versículos 11 a 16) para celebrarmos a solenidade de São Daniel Comboni, oferecendo o bom pastor do coração trespassado como o modelo de serviço missionário.

Jesus apresenta-se nesta porção dos Evangelhos como o pastor belo, o bom pastor que dá a vida (João 10:11), que oferece a vida pelas ovelhas (João 10:15). Antes tinha proclamado o coração do seu ministério: «Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância» (João 10:10).

Jesus cumpre a promessa de Deus ao seu povo através da profecia de Jeremias: «Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração» (Jeremias 3:15). Ele é o bom pastor do coração trespassado que nos envia para sermos sua presença no tempo e no espaço. Jesus é o belo pastor, o bom pastor, o grande pastor (Hebreus 13: 20), o supremo pastor (1 Pedro 5:4).

Antes de mais, Jesus recupera a figura do pastor. No seu tempo, o ofício de guardador de rebanhos tinha perdido a mística dos tempos antigos. Os pastores viviam com os rebanhos – e dos rebanhos – 24 horas por dia e não guardavam a pureza religiosa. Faziam parte dos excomungados, publicanos e pecadores, excluídos do templo.

Também distingue entre pastores e mercenários. São duas maneiras, duas atitudes de servir: o primeiro dá a vida, o segundo foge dos lobos «porque não se preocupa com as ovelhas.»

Por outro lado, Jesus é o pastor que conhece as ovelhas e elas o conhecem como ele e o Pai se conhecem mutuamente: dois planos numa teia tecida de linhas do mesmo conhecimento, que no dizer bíblico não é acumulação de informação, mas relação, intimidade, entranhamento.

A Regra de Vida dos Missionários Combonianos proclama no nº 21 que «o missionário comboniano é chamado a seguir Cristo, isto é, a estar com Ele e a ser mandado por Ele ao mundo, partilhando o seu destino.» E no nº 21.1 especifica que «o encontro pessoal com Cristo é o momento decisivo da vocação do missionário. Só depois de ter descoberto que foi amado por Cristo e conquistado por Ele, pode deixar tudo e ficar com Ele.»

Daí a necessidade de um serviço missionário de proximidade, sem distâncias higiénicas nem trincheiras ou barreiras. Escreve o Papa Francisco: «Com obras e gestos, a comunidade missionária entra na vida diária dos outros, encurta as distâncias, abaixa-se – se for necessário – até à humilhação e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo. Os evangelizadores contraem assim o “cheiro das ovelhas”, e estas escutam a sua voz» (A Alegria do Evangelho 24).

Jesus não mora preso num lugar, numa ideia. É caminho, saída. Tem outros redis a atender, outras ovelhas a reunir para que haja «um só rebanho e um só pastor» (João 10:16). Este é outro requisito do serviço missionário: deixar tudo – zonas de conforto, projetos pessoais, protagonismos pedantes – para se abrir ao projeto de Deus de construir uma família global através da comunhão, da inclusão, à volta do bom pastor do coração aberto que é nascente de vida e gruta de sossego para os cansados e oprimidos.

Estas foram também as atitudes que coseram a vida e a missão de São Daniel Comboni. A homilia que proferiu em Cartum a 11 de Maio de 1873 é um texto fundamental que deixa transparecer os seus valores referenciais. Cito três parágrafos:

«Tende a certeza de que a minha alma vos corresponde com um amor ilimitado para todo o tempo e para todas as pessoas. Eu volto para o meio de vós para nunca mais deixar de ser vosso e totalmente consagrado para sempre ao vosso maior bem. O dia e a noite, o Sol e a chuva encontrar-me-ão igualmente e sempre disposto a atender as vossas necessidades espirituais; o rico e o pobre, o são e o doente, o jovem e o velho, o patrão e o servo terão sempre igual acesso ao meu coração. O vosso bem será o meu e as vossas penas serão também as minhas» (Escritos 3158).

«Quero partilhar a vossa sorte e o dia mais feliz da minha existência será aquele em que eu possa dar a vida por vós. Não ignoro a gravidade do peso que lanço sobre mim, já que, como pastor, mestre e médico das vossas almas, terei de velar por vós, instruir-vos e corrigir-vos; defender os oprimidos sem prejudicar os opressores, reprovar o erro sem censurar o que erra, condenar o escândalo e o pecado sem deixar de ter compaixão pelos pecadores, procurar os transviados sem encorajar o vício: numa palavra, ser ao mesmo tempo pai e juiz. Mas resigno-me a isso, na esperança de que todos vós me ajudareis a levar este peso com júbilo e com alegria em nome de Deus» (Escritos 3159).

«Meus filhos, eu confio-vos neste dia solene à piedade dos Corações de Jesus e de Maria, e, no acto de oferecer por vós o mais aceitável dos sacrifícios ao Altíssimo Deus, rogo humildemente que seja derramado sobre as vossas almas o sangue da redenção, para as regenerar, para as sarar, para as embelezar na medida da vossa necessidade, a fim de que esta santa missão seja fecunda para a vossa salvação e para a glória de Deus» (Escritos 3164).

Leigas e leigos, seculares, irmãs e irmãos, padres: todos exercemos ministérios, somos servidores. O modelo do bom pastor do coração trespassado é o percurso ministerial que somos chamados a trilhar para sermos pastores segundo o coração de Deus.

8 de outubro de 2014

MENTIRA BOA


«A boa mentira» conta a odisseia horrenda de sete irmãos e uma irmã que a guerra civil forçou a abandonar a aldeia natal em Bahr el Ghazal, no Sudão do Sul. 

Depois de mais de mil quilómetros a pé – dois morreram e um foi preso pelos soldados sudaneses – chegaram ao campo de refugiados de Kakuma, no norte do Quénia. O terceiro irmão faleceu de exaustão à chegada. Os quatro sobreviventes, três rapazes e uma rapariga, tiveram a sorte de serem remetidos para os Estados Unidos.

A saga das oito crianças dincas foi repetida até à exaustão por mais de 20 mil rapazes e algumas raparigas com idades entre os sete e o 17 anos, dincas e nueres, no final dos anos 80. Primeiro, caminharam a pé para a Etiópia. Quando regime de Menguistu caiu, em 1991, foram corridos a tiro e dirigiram-se para Kakuma. Foram apodados de lost boys, crianças perdidas, pelos trabalhadores humanitários.

Muitos miúdos fugiram do inferno da segunda guerra civil que consumiu o Sudão do Sul entre 1983 e 2005. Outros foram enviados pelos pais para poderem estudar.

O SPLA, o Exército de Libertação do Povo do Sudão, criou com as crianças nos campos de refugiados o Red Army, Exército Vermelho, um grupo de crianças-soldados.

Conheci o padre Benjamin Madol, da diocese de Rumbek, que acompanhou durante três meses um grupo de crianças a pé até à Etiópia. Depois foi o capelão dos campos de refugiados no sul do país.

Em 2001, os Estados Unidos começaram a transportar jovens sul-sudaneses retidos em Kakuma sem futuro mas o ataque às Torres Gémeas congelou o programa. 

Cerca de 4000 foram realojados nos EUA.

«A boa mentira» filme narra os perigos – fome, sede, doenças, soldados, feras – que os sobreviventes venceram na marcha pungente através de um pacto que todos repetiram: «Eu quero viver, não quero morrer!»

Nos Estados Unidos tiveram que reaprender a viver tentando manter-se fiéis aos valores tradicionais.

À agente de emprego que os recebeu chamaram carinhosamente Ayardit, grande vaca branca.

O filme termina com uma reviravolta que me apanhou de surpresa. E com um provérbio africano: «Se queres ir depressa vai sozinho, se queres ir longe vai junto.»

«A boa mentira» estreia a 9 de Outubro e vale bem a pena ser visto. Estive na ante-estreia no dia 7.

7 de outubro de 2014

INOVAÇÃO PASTORAL


253 pessoas, incluindo cardeais, bispos, religiosos, peritos, casais e representantes de outras igrejas, estão a participar no Sínodo extraordinário sobre «os desafios pastorais da família, no contexto da evangelização.» A assembleia começou a 5 de Outubro e vai até 19.

O instrumento de trabalho para a assembleia explica que o sínodo vai tratar de três âmbitos: o evangelho da família a ser proposto nas circunstâncias actuais; a pastoral familiar a ser aprofundada face aos novos desafios; a relação generativa e educativa dos pais em relação aos filhos (nº 158).

Há muitas expectativas para o sínodo já que a situação dos divorciados, recasados e juntos coloca desafios pastorais a que a Igreja tem sentido alguma dificuldade em responder.

Há um ponto assente: Jesus era contra o divórcio. A evidência bíblica é conclusiva: «Não separe o homem aquilo que Deus uniu» (Marcos 10:9).

No tempo de Jesus, o judaísmo permitia o divórcio: «Moisés permitiu escrever carta de divórcio e despedir a mulher» ( Marcos 10:4), disseram os fariseus a Jesus depois de lhe perguntarem se era permitido a um homem repudiar a sua mulher. No entender de Jesus, a dispensa de Moisés estava relacionada com a dureza de coração dos crentes (Marcos 10: 5).

Mateus, no capítulo 19 do seu evangelho, relata o mesmo episódio, mas ajunta um detalhe: «Se alguém se divorciar da sua mulher - excepto em caso de união ilegal - e casar com outra, comete adultério» (Mateus 19:9). O texto recorda o princípio de que Jesus era contra o divórcio excepto no caso de «porneia» traduzido aqui por união ilegal, mas que também pode ser imoralidade sexual, fornicação, prostituição.

Paulo, diz à comunidade de Corinto que se uma pessoa foi baptizada e o cônjuge não, podem continuar casados excepto se a parte não crente decidir deixar o matrimónio para preservar a paz (1 Coríntios 7, 12-17). Paulo junta contudo que este é o seu pensar, não o de Jesus. Nos versículos 10 e 11 tinha escrito: «Aos que já estão casados, ordeno, não eu, mas o Senhor, que a mulher não se separe do marido; se, porém, está separada, não se case de novo, ou, então, reconcilie-se com o marido; e o marido não repudie a sua mulher.»

Na Primeira Carta a Timóteo, Paulo diz que os candidatos a «episkopon» (bispo) têm que ser maridos de uma só mulher (1 Timóteo 3:2) Para os diáconos essa exigência não é mencionada (1 Timóteo 3:8). Na Carta a Tito, Paulo recorda que os candidatos a «presbyterous» (padre) devem ser também maridos de uma só mulher (Tito 1: 6). Estas exigências dão a entender que na comunidade cristã havia homens polígamos.

Estes três textos exemplificam como as primeiras comunidades cristãs se mantiveram fiéis ao ensinamento do Senhor que proibia o divórcio e encontraram respostas pastorais inovadoras para as situações concretas que viviam.

Jesus, em Mateus 13:52, conclui o discurso das parábolas do reino com este dito: «todo o doutor da Lei instruído acerca do Reino do Céu é semelhante a um pai de família, que tira coisas novas e velhas do seu tesouro.»

Dom Manuel Clemente disse que o sínodo não vai promulgar o «divórcio católico.» Nem pode! Espera-se é que os participantes na assembleia sinodal digam «coisas novas» para responder aos novos desafios que a família cristã vive hoje e não se limitem a repetir «coisas velhas».

2 de outubro de 2014

AFRICANOS MISSIONÁRIOS

Ir. Tiberh Zerezghi, Missionária Comboniana eritreia, com crianças de Bahia, Brasil

A África passou de terra de missão a Igreja missionária aberta a todo o mundo, incluindo Portugal.

No Verão de 1969, Paulo VI esteve em Campala, a capital do Uganda, para participar no encerramento de um simpósio organizado pelos bispos africanos. Na homilia lançou um apelo decisivo ao continente: «Africanos, sede missionários de vós próprios!»

A Igreja africana aceitou o desafio de ser missionária «em casa» e fora dela: africanas e africanos saíram em missão para outros continentes, incluindo para Portugal, onde ministram em comunidades religiosas e paróquias.

Apesar de não haver estatísticas disponíveis para quantificar a missionariedade do Continente Negro, há alguns indicadores que nos permitem entrever essa realidade.

Tomemos, a título de exemplo, a congregação dos Apóstolos de Jesus, a primeira congregação missionária africana. Foi fundada a 22 de Agosto de 1968 em Moroto, no Uganda, pelo bispo Sisto Mazzoldi e o padre João Marengoni. Estes dois missionários combonianos italianos também fundaram as Irmãs Evangelizadoras de Maria em 1975. O bispo Mazzoldi já tinha fundado as Irmãs do Sagrado Coração e os Irmãos de São Martinho de Porres, no Sudão (hoje do Sul). O padre Marengoni começou os Evangelizadores Contemplativos do Coração de Cristo no Quénia em 1986.

Os Apóstolos de Jesus contam com 381 padres e irmãos e estão presentes em mais de 60 comunidades distribuídas por 76 dioceses: 23 dos Estados Unidos da América, 12 do Uganda, 10 da Tanzânia, 8 do Quénia, 7 da África do Sul, 4 do Sudão do Sul, 3 da Inglaterra, 2 da Etiópia e da Itália e 1 da Austrália, Botsuana, Cuba, Alemanha e Sudão, respectivamente.

O mesmo se passa com as Irmãs Evangelizadoras de Maria, que também foram a primeira congregação missionária feminina africana. São cerca de 250 e vivem em 33 comunidades no Uganda, Tanzânia, Quénia, ilha de Zanzibar, Sudão do Sul, África do Sul, Cuba e Estados Unidos. Dedicam-se à evangelização, educação e promoção humana.

Por outro lado, em França, em Outubro de 2011, havia 847 padres africanos a trabalhar em dioceses francesas. Um quarto era da RD Congo.

Esta partilha de recursos humanos entre as igrejas particulares africanas e com a igreja universal foi preconizada por João Paulo II em A Igreja em África (n.º 129), a exortação apostólica que escreveu depois do primeiro sínodo sobre a Igreja no continente em 1994.

Candidatos africanos também representam um novo fôlego para muitos institutos masculinos e femininos, inclusive aqueles que nasceram para evangelizar a África, como os Missionários Combonianos, e já desempenham funções de liderança. Os seis noviciados combonianos na África, Europa e América têm 78 noviços, dos quais 66 são africanos. O panorama repete-se quanto a estudantes de Teologia: dos 128 seminaristas maiores, 110 são africanos.

O padre Don Bosco Ochieng, um espiritano do Quénia, passou quase dez anos incardinado na diocese de Rumbek, no Sudão do Sul. Hoje é o director da Agência Católica de Notícias para a África. Para ele, «África é uma Igreja missionária e vibrante para si mesma e para o mundo. O facto de africanos estarem a cuidar de paróquias na Europa e nas Américas é outra evidência de que os africanos são missionários».

A presença cada vez mais numerosa de africanas e africanos em institutos de origem europeia renova o próprio carisma com novas maneiras de o viver e operar: os africanos têm uma maneira própria de ser que afecta, enriquece e desafia a vida dos seus institutos. A internacionalização não pode ser apenas decorativa ou estatística, mas leva necessariamente à releitura dos carismas através de novas expressões de vida comunitária e de serviço missionário, nem sempre pacificamente aceites pelos membros mais velhos, europeus na maioria...

26 de setembro de 2014

MEDIA NA MISSÃO

Paulo VI define os meios de comunicação social em Evangelii Nuntiandi como uma «versão moderna e eficaz do púlpito» (EN 45).

João Paulo II, em Redemptoris Missio, chamou-lhe «o primeiro areópago dos tempos modernos» (RM 37C), um espaço para a evangelização e a evangelizar.

O Papa Bento XVI, em Africae Munus, encorajou a Igreja Africana a «estar mais presente nos media, para fazer deles não apenas um instrumento de difusão do Evangelho mas também um meio útil de formação dos povos africanos para a reconciliação na verdade, para a promoção da justiça e da paz» (AM 145).

O Papa Francisco escreveu na mensagem para o 48º Dia Mundial das Comunicações Sociais que «os mass media podem ajudar a sentir-nos mais próximo uns dos outros; a fazer-nos perceber um renovado sentido de unidade da família humana, que impele à solidariedade e a um compromisso sério para uma vida mais digna.»



A EXPERIÊNCIA COMBONIANA

O uso dos meios de comunicação social no serviço missionário está no genoma comboniano. Os media representam para o Instituto um instrumento privilegiado de evangelização e animação missionária das Igrejas locais.

Daniel Comboni escrevia extensivamente para falar da Nigrícia ao mundo que descobria a África, e da missão da África Central à Igreja, a benfeitores, amigos e familiares. As suas cartas, artigos e relatórios foram coligados em 1991 num livro intitulado Escritos (E) de mais de 2000 páginas.

Uma carta de Maio de 1881 – cinco meses antes de morrer – dá uma ideia da atividade comunicacional de Comboni: «Se eu pudesse e tivesse tempo, escrever-lhe-ia com mais frequência, até todas as semanas para o seu folheto; mas não posso: além dos graves negócios do Vicariato, tenho que me ocupar de recolher mais de quinhentos francos ao dia para sustentar os meus estabelecimentos, o que me obriga a escrever como correspondente de outras quinze publicações: alemãs, francesas, inglesas, americanas, que me mandam um bom dinheiro. Além disso, estou em contacto com quase todos os jornais católicos da Itália, especialmente com L’Osservatore Romano, L’Unità Cattolica, L’Osservatore Cattolico, etc. (aos quais raramente escrevo), à parte os meu Anais do Bom Pastor, de publicação trimestral (E 6724).

Comboni começou a sonhar a sua pequena revista em Fevereiro de 1868 (E 1559). Os Anais do Bom Pastor saíram do prelo pela primeira vez em Verona, Itália, em Janeiro de 1872 para difundir a obra comboniana e multiplicar vocações. Em Setembro de 1881 já ia no nº 25.

Na relação de 1880 ao Reitor dos Institutos Africanos de Verona, encontramos um parágrafo que podia muito bem servir como Estatuto Editorial dos Anais do Bom Pastor: «Nos nossos Anais procuraremos dar a conhecer aos nossos estimados benfeitores, juntamente com as fadigas, as obras e os êxitos do apostolado dos missionários e Irmãs dos nossos institutos africanos de Verona, também os progressos materiais por eles promovidos, os descobrimentos, os trabalhos científicos e os resultados da verdadeira civilização cristã na África Central. Com isso pretendemos glorificar Cristo, que é o único princípio de redenção e de vida, a verdadeira fonte de civilização e salvação dos povos infiéis, o inamovível fundamento da autêntica grandeza e prosperidade das nações civilizadas do mundo» (E 6215).

Os Anais do Bom Pastor, rebaptizados Nigrizia em 1883, estão na origem das 16 revistas genéricas (mensais, bimensais, trimestrais) publicadas na Europa, Américas, África e Ásia e sete infantis nas Américas e Europa. Dez são em espanhol, seis em inglês, duas em português, duas em Italiano, uma em francês, alemão e polaco, respectivamente. A tiragem conjunta passa os 373 mil exemplares/número.

O âmbito das publicações combonianas pode ser percebido pelo Estatuto Editorial da Além-Mar: «Pretende promover os valores da paz, da justiça, da solidariedade e do respeito pelo ambiente e os direitos humanos. Aos leitores residentes no País quer dar a conhecer os problemas mundiais (sociais, eclesiais, económicos e políticos), especialmente os dos países menos desenvolvidos, informar sobre o trabalho dos missionários portugueses espalhados pelo mundo e alimentar a vocação histórica universalista e solidária.»

A imprensa missionária é também uma fonte alternativa de informação. A angolana Arminda Margarida Camati escreve na tese de mestrado A intervenção da Igreja católica em Angola pelos media que a imprensa missionária estrangeira consegui «furar» o embargo informativo do regime «surtindo algum efeito prático no terreno» (p. 52).



ERA DIGITAL

A internet chegou no início da década de 90, altura em que o mundo se estava a tornar num mercado global. A rádio precisou de 30 anos para chegar a 60 milhões de pessoas, a TV levou metade desse tempo e a internet três anos apenas.

Não consigo imaginar o mundo sem os grandes meios de comunicação que a era do digital democratizou e universalizou. Fizeram-me um jeitão em Juba: telemóvel, computadores, internet que custava os olhos da cara mas me permitia ler revistas, jornais, livros, receber e enviar correio e notícias, «googlar» para encontrar informação instantânea… Tenho amigos no Face e seguidores no Twitter e segui a guerra de Gaza através dos tweets de uma adolescente palestiniana… Tenho um blogue para partilhar o que me vai na mente e no coração. A conta no Skype permitiu-me comunicar de borla ou a muito baixo custo.

Estamos à distância de um clique do resto do mundo. Comunicamos mais? Comunicamos melhor? Comunicamos mais rápido, no instante. A rede mundial de computadores é uma teia que nos torna mais solidários ou mais solitários, próximos dos de longe ou distantes dos de perto. A superabundância de informação não quer dizer melhor informação.

Todas estas ferramentas de comunicação por si só não nos fazem melhores comunicadores. A enxurrada de informação instantânea faz-me lembrar as grandes chuvas africanas, diluvianas e rápidas, que inundam mais do que regam. E a internet com a sua infinita rede de contactos pode tornar-nos mais virtuais e menos humanos.

O Papa João Paulo II disse em 2002 que a internet é «um novo fórum para a proclamação do Evangelho». Em 2013, Bento XVI falou das redes sociais como a «nova praça pública» para partilhar opinião, ideias, informação. O Papa Francisco escreveu este ano que que «as redes sociais são, hoje, um dos lugares onde viver esta vocação de redescobrir a beleza da fé, a beleza do encontro com Cristo.»

A página institucional comboni.org lista mais de 40 sítios combonianos na rede mundial. E não estão todos lá. Faltam também as páginas pessoais nas redes sociais e blogues… para dizer a fé, a missão, a vida, ou dizer presente na feira global das vaidades.



MISSIONÁRIO JORNALISTA

Eu defino-me como missionário por vocação, comboniano por consagração, padre por ordenação e jornalista por profissão.

A redacção da Audácia de 1986 a 1992 foi a minha primeira destinação missionária. Gostei muito de trabalhar para crianças e adolescentes durante 7 anos, abri-los à vida e à mundialidade.

Em 1993, fui destinado à Etiópia e vivi em duas comunidades com o povo Guji do Sul do país até ao fim do ano 2000. Uma experiência única, um nascer de novo, que partilhei no livro Dias Felizes – Memorial da Missão editado pela Além-Mar.

Em 2001, depois de nove meses de formação permanente no México, voltei para a redacção da Audácia e em 2005 fui nomeado director da Além-Mar e da Audácia.



REDE CATÓLICA DE RÁDIOS DO SUDÃO

Em 2006 recebi um convite que me abriu o mundo novo da radiodifusão, integrando a equipa que ia estabelecer no Sudão (agora do Sul) uma rede de rádios em FM para celebrar a canonização de Daniel Comboni em 2003.

Os três colegas, duas irmãs e um irmão, começaram a formar candidatos a radialistas em Maio de 2006: um trabalho exigente, porque o Sudão saía de 22 anos de guerra civil – a paz tinha sido assinada a 9 de Janeiro de 2005 – e a rede escolar estava destruída. Eu cheguei em Dezembro para por de pé o serviço de informação.

Bakhita iniciou as emissões experimentais a 24 de Dezembro de 2006 com a transmissão da Missa do Galo da Catedral de Juba. Foi oficialmente inaugurada a 8 de Fevereiro de 2007 – Festa de Santa Josefina Bakhita – e iniciou uma caminhada crescente até chegar a 16 horas de emissão por dia.

Chegou no momento oportuno. Em Juba havia Miraya, uma estação FM da ONU, duas rádios comerciais e uma emissora em onda média do governo. As comercias passavam só música porque as notícias eram politicamente perigosas. A Miraya, da ONU, tinha limites institucionais. As pessoas, cheias de entretenimento, queriam formação. E foi o que Bakhita lhes trouxe: formação, informação e distracção.

Escolhemos o modelo das rádios comunitárias e abrimos os microfones aos ouvintes através de fóruns ao estilo da TSF. A grelha de programas misturava evangelização, formação cívica, cultura, saúde e educação. Havia programas dirigidos às crianças, aos jovens e às mulheres em inglês, árabe de Juba e algumas línguas locais. Passava música religiosa, africana e pop. Aos domingos transmitia as missas em inglês e árabe da catedral.

A Voz da Igreja, como dizia a assinatura sonora da Bakhita, tornou-se uma referência no espectro radiofónico de Juba. Há dois anos que era a segunda estação mais ouvida – depois da Miraya – batendo-se com um número de rádios comerciais que entretanto arribaram à capital do Sudão do Sul.

A experiência acumulada de três anos em que testamos equipamentos e soluções para o clima extremo da região permitiu abrir mais oito estações, incluindo uma nos Montes Nubas, uma área do Sudão controlada por rebeldes.

Cada estação foi-se desenvolvendo como pôde, com o dinheiro que gerava com a publicidade e tempos de antena e com ajudas do estrangeiro.

Em 2010 iniciei a redacção central da rede: três jornalistas recolhíamos informação em Juba e tratávamos as histórias que as outras estações enviavam. Fazíamos dois noticiários diários nacionais. Ao todo preparávamos uma média de 16 a 20 peças por dia, distribuídas em inglês – sons incluídos – através da internet. As estações traduziam-nas para as línguas locais.

A Rádio Vaticano permitia usar os noticiários do serviço em inglês com uma boa cobertura da cena internacional. As estações produziam boletins locais.

O governo a princípio foi bastante amistoso com a Bakhita. O «caldo entornou-se» com os fóruns. Os ouvintes batiam forte e feio na elite no poder por causa da corrupção, incompetência e tribalismo, a trindade do mal no país mais jovem do mundo.

No dia 16 de Agosto, o editor de notícias da Bakhita fez uma peça sobre um ataque das tropas do Governo às forças rebeldes em Bentiu, a capital do Estado de Unity, uma das zonas produtoras de petróleo.

O presidente e uma facção do partido iniciaram uma guerra pelo poder a 15 de Dezembro que assumiu contornos étnicos. Já matou mais de 20 mil pessoas e deslocou cerca de 1,8 milhões.

A segurança nacional não gostou da história por dar a versão dos rebeldes. Fechou a rádio e prendeu o editor David Ocen durante quatro dias. Acusaram Bakhita de estar politizada e ir para além do mandato de estação religiosa.

Quase quatro semanas mais tarde, a segurança devolveu as chaves da estação à administração da arquidiocese. A estação continua fechada porque a administração quer rever a proibição de cobrir a política e a qualidade dos funcionários.

A Rede de Rádios Católica (CRN na sigla em inglês) tem dado um grande contributo no Sudão do Sul. Oferece informação isenta e equilibrada. Fez três séries de programas para preparar as eleições de 2010 e o referendo e a independência de 2011. Formou muitos apresentadores, jornalistas e técnicos. É bom ver rapazes e raparigas que deram os primeiros passos connosco a brilharem na TV do estado e nas rádios da competição.



DEUS DAS MARAVILHAS

Quanto a mim, sinto-me tão missionário a trabalhar com as comunidades espalhadas pelas colinas verdejantes e florestas da Etiópia do Sul ou nos cerros à volta da Cidade do México, como a cobrir acontecimentos e preparar notícias, a fazer comentário político na Miraya, a celebrar a Eucaristia debaixo de um pé de manga ou a exercer o ministério de superior provincial.

Os meios de comunicação social são um espaço privilegiado que abrem um sem número de modos e meios para dizer «as maravilhas de Deus» em todas as línguas (Act 2:10), incluindo a digital. É essa a nossa missão!

22 de setembro de 2014

PROJETO FAMÍLIA




© JVieira

Mais de 250 jovens e adultos passaram o fim-de-semana a avaliar a «Família – um projecto» nas Jornadas Missionárias 2014 e III Jornadas Nacionais da Pastoral Juvenil, em sintonia com a Igreja que em outubro celebra a III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos sobre os desafios pastorais da família no contexto da evangelização.

Dom António Moiteiro, bispo de Aveiro e membro da Comissão Episcopal Missão e Nova Evangelização, abriu os trabalhos, vincando que a família deve viver o dinamismo de ser discípula missionária numa identificação maior com Cristo ressuscitado.

As jornadas começaram com um painel sobre a família hoje em que intervieram a psicóloga Margarida Cordo e o teólogo Pedro Valinho. O professor catedrático Joaquim Azevedo, coordenador do grupo de trabalho nomeado pelo Governo para aumentar a natalidade em Portugal, enviou uma síntese das suas conclusões.

O Professor Azevedo partilhou alguns dados relevantes:
  • os casais portugueses desejam ter em média 2,31 filhos mas têm só 1,2;
  • há quatro anos havia 100 mil nascimentos/ano; agora são só 80 mil;
  • em 2060 seremos 7 a 8 milhões;
  • nessa altura, o número de ativos por cada 100 idosos vai passar de 340 para 110;
O estudo apresentado salienta que as políticas do governo para aumentar a natalidade estão desconexas e é necessário uma nova política pública para tornar o país viável, removendo os obstáculos à natalidade mais do que dar benefícios.

«Uma das melhores formas de restituirmos a vida que nos foi dada é termos filhos», concluiu.

A Drª Cordo recordou que a família deve estar ao serviço da vida, educar, ser lugar de amor e de alegria, guardiã da dignidade humana e da esperança no amanhã.

«Fortalecer a família é aproximá-la de Deus porque Deus é amor», concluiu.

Na parte de tarde, os participantes escolheram um dos seis workshops temáticos: Pastoral familiar no contexto da evangelização; Como enfrentar situações difíceis: uniões de facto, recasados…; Jovens e namoro – descoberta vocacional; Família e voluntariado missionário; Abertura à vida – natalidade, fecundidade e trabalho; e Desafios sociais e políticas familiares.

O jornalista Joaquim Franco moderou o plenário. «Vivemos um tempo em que o bem comum devia tirar-nos o sono, porque os perigos que o bem comum enfrenta são um pesadelo», afirmou.

O grupo FigoMaduro animou a sessão da noite que incluiu testemunhos de jovens que fizeram experiências missionárias em diversas partes do mundo.

No domingo, Dom António Couto, bispo de Lamego, apresentou uma reflexão muito interessante sobre Evangelho e missão da família. Recordou que «o amor que está em nós ou em que estamos nós não é nosso, é amor dado», «remissivo, que remete para outrem, para Deus.» «Quando nasce um filho é também Deus que bate à nossa porta, que se senta à nossa mesa, que nos visita.»

Dom António recordou que «respondemos ao débito que nos liga à geração anterior com um crédito à geração seguinte», reconhecendo que «o mundo em que estamos tem muita dificuldade em transmitir a vida, a fé e a graça.»

E concluiu: «A vida é uma restituição para a frente. Impõe-nos não a autoconservação mas a missão para restituir a vida a quem no-la deu.»

Na parte de tarde um painel de figuras públicas que incluiu Tozé Martinho e Jorge Gabriel, moderado por Manuel Vilas Boas, debateu o tema Família e comunicação – visão antropológica e filosófica.

19 de setembro de 2014

FREI BENTO DOMINGUES


O teólogo dominicano Frei Bento Domingues foi hoje homenageado pelos 80 anos de vida e mais de 1000 crónicas dominicais que escreveu nos últimos 22 anos no Público.

Mais de 500 pessoas passaram pelo Auditório dois da Gulbenkian durante o dia, incluindo Jorge Sampaio, Maria Barroso, o constitucionalista Jorge Miranda, o historiador José Mattoso, o filósofo Eduardo Lourenço, Dom Januário Torgal, as escritoras Lídia Jorge e Inês Pedrosa, para homenagear o teólogos original e marginal.

A sessão intitulada «Cidadania, Cultura e Teologia na Praça Pública» foi composta por painéis de debates sobre liberdade, paz e utopias, Da crónica de jornal à intervenção na cultura e na sociedade, tentando responder à pergunta se Jesus e a Igreja ainda interessam à sociedade portuguesa.

O P. Anselmo Borges recordou que «a Palavra viva e criadora para lá da vozearia acende-se no silêncio que fala.»

Lídia Jorge exortou a «não deixar de sonhar a humanidade desfigurada.»

Francisco José Viegas recordou que «Deus vive no deserto e falar de Deus é falar com o deserto.»

O Pastor Dimas de Almeida anatou que o primeiro grande cisma da Igreja foi a ruptura com a sinagoga.

Ana Vicente do movimento Nós somos Igreja recordou que a Igreja tem que ser mais inclusiva em relação às mulheres.

Miguel Oliveira da Silva notou que Frei Bento Domingues não interessa à Igreja portuguesa que esteve ausente da homenagem.

Recordou que a Igreja tem uma enorme dificuldade em lidar com a sexualidade e que a total falta de transparência sobre a sexualidade na Igreja incomoda-o.

O sindicalista Manuel Carvalho da Silva fez uma análise sociopolítica dos escritos de Frei Bento classificando-o como «teólogo dos tempos do futuro», «que desconstrói a religião que se apoia na ira dos deuses.»

«A humanização da religião é que a torna divina», sublinhou.

Frei Bento Domingues concluiu as jornadas lendo e reflectindo sobre alguns textos do Novo Testamento.

Sublinhou que o nucleal da mensagem de Jesus é reunir os filhos de Deus dispersos alargando a sua família ao mundo inteiro.

«Viemos a este mundo para ver se fazemos a alegria dos outros!», proclamou.

E acrescentou: «A primeira graça de Deus é a nossa “cachola”, a nossa capacidade de imaginar e trabalhar e questionar.»

Desejou que as suas crónicas sirvam «para picar outras pessoas a fazer melhor porque para pior já basta assim.»

E quer que fique gravado como epitáfio: «Não estou aqui!»

A homenagem serviu para lançar a obra A Insurreição de Jesus, o segundo volume das crónicas de Frei Bento coordenado Maria Julieta Dias e o jornalista António Marujo.

16 de setembro de 2014

COMBONIANA NA EVANGELIZAÇÃO DOS POVOS


A superiora geral das Irmãs Missionárias Combonianas foi nomeada membro da Congregação para a Evangelização dos Povos, anunciou a Sala de Imprensa do Vaticano no sábado.

A Ir Luzia Premoli é a primeira mulher a integrar a congregação romana encarregada da evangelização.

É brasileira, tem 59 anos e trabalhou em Moçambique de 1989 a 1997.

A Ir. Luzia é a primeira geral não italiana das missionárias combonianas.

Começou o seu mandato a 8 de dezembro de 2010.

«Sinto uma gratidão profunda pela confiança que me foi dada. Esta nomeação não é reconhecimento da minha pessoa, mas o que represento neste momento: nomeadamente as Irmãs Missionárias Combonianas», disse ao saber da nomeação.

E acrescentou: «Também acho que a minha nomeação está na linha do desejo do Papa Francisco de ter mais mulheres nos dicastérios vaticanos.»

O Papa Francisco restruturou a Congregação para a Evangelização dos Povos nomeando 20 novos membros: 6 cardeais, 10 bispos, 3 padres e uma freira.

Os novos membros vêm da Ásia (5) das Américas (5), África (2), da Europa (2), dos serviços diplomáticos (2) e da Austrália (1).

Com a Ir. Luzia há mais dois superiores gerais na Propaganda Fide: dos Frades Menores Franciscanos e dos Oblatas de Maria Imaculada.

O Papa nomeou ainda dois consultores: um bispo mexicano e outro espanhol da Opus Dei.

A Congregação supervisiona a propagação da Fé pelo mundo inteiro, com a específica competência de coordenar todas as forças missionárias, de proporcionar directivas para as missões, de promover a formação do clero e das hierarquias locais, de incentivar a fundação de novos Institutos missionários e de prover às ajudas materiais para as actividades missionárias.

15 de setembro de 2014

CARTA PARA OS 150 ANOS DO PLANO


O PLANO NA HISTÓRIA DOS FILHOS E FILHAS DE COMBONI
AO LONGO DESTES 150 ANOS

“Desde 1857, quando me encontra na missão dos Kich no Rio Branco, aqui na África Central, passei por todas as provas deste difícil apostolado. E tendo estado onze vezes a ponto de morrer por causa do clima e das enormes fadigas, vi‐me na necessidade de regressar à Europa, onde, após alguns anos, já restabelecido, pensei no modo de voltar a este campo de batalha para nele sacrificar a vida para a salvação dos negros. Foi a 18 de setembro de 1864 quando, ao sair do Vaticano, onde tinha assistido à beatificação de Margarida Maria Alacoque, me veio à mente apresentar à Santa Sé, a ideia do Plano para retomar o apostolado da África Central. O Sagrado Coração de Jesus fez-me superar todas as enormes dificuldades para realizar o meu Plano para a Regeneração da África, com a própria África” (Escritos 3302).

Aos membros dos Institutos combonianos
A todas as pessoas que se inspiram
no carisma de são Daniel Comboni

1. Cordial saudação
Queridas e queridos,
Com esta mensagem, queremos celebrar os 150 anos do Plano para a Regeneração da África, aquele Plano em relação ao qual Daniel Comboni sentiu a necessidade de fundar, em Verona, o Instituto das Missões para a Nigrizia, com a variedade de seus membros: homens e mulheres, religiosos e leigos.
Nascidos do Plano e para o Plano, não podemos esquecer que este é o legado que nos deixou o Pai Fundador, uma herança preciosa que, ainda hoje, a família comboniana quer acolher e conservar com profunda gratidão, responsabilidade e compromisso.
Nós, os responsáveis dos Institutos que ele fundou – Irmãs Missionárias Combonianas Pie Madri della Nigrizia e Missionários Combonianos do Coração de Jesus – e das outras expressões missionárias que se inspiram em seu carisma – Missionárias Seculares Combonianas e Leigos Missionários Combonianos – cientes também de tantas outras pessoas e grupos de leigos que, cada vez mais numerosos, e de várias maneiras, vivem connosco a paixão missionária comboniana, quisemos escrever esta carta para compartilhar uma pequena reflexão sobre o Plano que continua a acompanhar a nossa vida missionária e nos desafia a tornar‐nos resposta para as várias situações missionárias que vivemos hoje em todos os lugares onde estamos presentes.
Com esta carta, também queremos expressar o nosso desejo de mostrar a relevância e a validade das intuições que São Daniel Comboni foi capaz de reunir nas páginas do Plano, reconhecendo que foi um instrumento verdadeiro e eficaz para o trabalho missionário, realizado por tantos irmãos e irmãs durante estes 150 anos, primeiro na África e, posteriormente, em outras partes do mundo.
Queremos que a nossa reflexão seja, se possível, também uma forma de celebrar este aniversário, deixando‐nos tocar pelas urgências da missão que, apesar dos esforços consideráveis, realizados para levar o Evangelho a todos os que estão distantes, continuam a nos desafiar. Nós gostaríamos de ouvir de novo, por meio dos pensamentos impressos no Plano, o grito de São Daniel Comboni que nos chama para consagrarmos a nossa vida àqueles que são no mundo de hoje os mais pobres e os mais abandonados, que têm direito de receber o anúncio da Palavra.
Achamos que é também uma oportunidade para agradecer ao Senhor pelo dom do Espírito que trabalhou no coração do nosso Fundador e na vida de muitos de nós que foram capazes de realizar o Plano para a Regeneração da África com a alegre doação de suas vidas na missão e para a missão.
Esperamos que estas linhas sejam um convite para continuarmos a viver a nossa consagração com a mesma paixão que moveu são Daniel Comboni desde o momento da primeira redação.

2. O Plano: uma vida, mais que um documento
Uma das primeiras impressões que se tem na leitura do Plano é, sem dúvida, de ser confrontados com um texto onde se respira vida, onde há paixão intensa e um grande desejo de encontrar as formas mais adequadas para responder à necessidade que os homens e as mulheres de todos os tempos têm de se encontrarem com Deus.
O Plano, portanto, não é um documento frio com regras definidas, onde tudo foi planejado e calculado. Em suas páginas respira‐se um ar que expressa o sonho, o desejo, a urgência de transmitir vida e as intuições de quem crê na possibilidade de realizar o que muitos consideram impossível.
Percebe‐se um forte desejo de não abandonar a missão, especialmente no momento em que crescem as dificuldades e o futuro parece incerto. É um texto que exala a fragrância da fé, que encoraja a seguir em frente na certeza de que se trabalha para uma obra querida por Deus. No Plano fala‐se de um projeto que acompanha a vida e leva a concentrar todas as forças em uma única tarefa, de algo que se apropria de todo o coração, e não deixa espaço para outra obra que não seja a da missão. É uma ideia que vive com toda sua força mais no coração do que na cabeça: esta é uma forma concreta de traduzir em obra o amor que é reconhecido no coração.
O plano, na verdade, não nasceu na cabeça de Comboni, não é o resultado de sua especulação; ao contrário, nasceu do desejo de se tornar um instrumento de Deus para manifestar o amor a quem tem direito, todos seus filhos e filhas. Se nos lembramos do que Comboni escreveu em sua carta de 31 de Julho 1873, a Mons. De Girardin, vemos claramente que o Plano foi, antes de tudo, uma experiência e, em seguida, uma proposta por escrito.

3. Uma resposta missionária nascida da realidade
Ouçamos novamente o que nos diz Comboni: passei por todas as provas deste difícil apostolado... pensei no modo de voltar a este campo de batalha para nele sacrificar a vida para a salvação dos negros (Escritos 3302). O Plano não é uma simples estratégia pastoral, mas uma leitura e assimilação da realidade, cujos desafios tornam são Daniel criativo e capaz de realizar um trabalho que tenha chances de sucesso para a missão.
Esse vem, portanto, da capacidade de ler e compreender a realidade em que estamos presentes, e interagir com ela. Uma realidade marcada pela escravidão, pelos critérios de lucro e da exploração, da impossibilidade, para os africanos, de viverem de acordo com a sua dignidade. Uma realidade onde os valores do Reino foram ignorados ou negados. Nesse contexto, o Plano se revela como obra humilde e inteligente ao mesmo tempo. Ao olharmos para as nossas presenças missionárias e para a realidade dos ambientes em que atuamos, quantas vezes somos obrigados a reconhecer que a realidade, ainda hoje, não é muito diferente? Ainda hoje, na verdade, muitas vezes somos testemunhas de violência, violação dos direitos humanos, de exclusão e escravização de muitos dos nossos irmãos e irmãs.

4. Uma grande intuição
Lendo o Plano, é fácil descobrir uma multiplicidade de ideias, projetos, recursos a serem utilizados, que giram em torno de uma única ideia: é uma obra para a qual todos aqueles que se veem desafiados pela missão são chamados a contribuir, tornando a missão uma obra da Igreja.
“A Obra deve ser católica, não espanhola, francesa, alemã ou italiana. Todos os católicos devem ajudar os pobres negros, porque uma nação só, não pode socorrer toda a raça negra. As iniciativas católicas, como a do venerável Olivieri, a do Instituto Mazza, a do Padre Ludovico, a da Sociedade de Lião, etc., fizeram, sem dúvida, muito bem a um número de pessoas negras; porém, até agora, ainda não se começou a implantar o catolicismo na África e a fazê‐lo arraigar aí para sempre. Pelo contrário, como o nosso Plano, nós aspiramos a abrir a via da entrada da fé católica em todas as tribos de todo o território em que vivem os negros. E para obter isto, parece‐me, devem unir-se todas as obras até agora existentes, as quais, tendo desinteressadamente perante os olhos o nobre fim, deverão deixar de lado os seus interesses particulares (Escritos 944).
É uma obra em que não há espaço para os protagonismos ou para as pretensões de querer agir sozinhos. O Plano é um trabalho de colaboração que envolve todos aqueles que respondem com um coração generoso e deixa claro que a missão é um dom recebido e oferecido gratuitamente na alegria.
Comboni pensava em um grande “movimento missionário” para envolver todos e tudo na missão para a África, ele esperava encontrar “aprovação, apoio e ajuda no coração dos católicos de todo o mundo”. Por isso, ele percorreu longas distâncias, também pela Europa, pensando inclusive de chegar à América, para procurar colaboradores, ajudas económicas, apoio espiritual...
A partir deste impulso, surgiram os Institutos Combonianos, e, mais tarde, o Instituto das Missionárias Seculares Combonianas e os Leigos Missionários Combonianos. Mas a obra é ainda mais extensa e continua a inspirar e motivar tanto aqueles que adotaram uma forma de vida consagrada quanto quem, como batizado, sente‐se chamado para a missão. Continua para todos o desafio de como unir forças e vontade, para cooperar e dar um impulso contínuo à missão.

5. Inspirado por um encontro
“Creio que este plano è obra de Deus, porque me veio à mente a 15 de setembro, enquanto fazia o tríduo à Beata Alacoque; e no dia 18, em que essa serva de Deus foi beatificada, o Cardeal Barnabó terminava de ler o meu Plano. Trabalhei nele quase 60 horas seguidas” (Escritos 926).
O Plano, portanto, é o resultado de um longo processo de pesquisa, perguntas, consultas e da própria experiência difícil, mas não é só isso. Há um outro fator que não deve ser esquecido: é o resultado de um encontro com o Senhor, as horas dedicadas à oração, buscando a vontade de Deus em toda aquela aventura. Comboni não teve dúvida ao reconhecer que o Plano foi um dom de Deus, graça mediada por Maria, poder do Espírito que se mostrou generoso com suas inspirações. Neste sentido, o Plano é uma forma concreta de dizer que a obra missionária não é negócio humano. A missão é obra de Deus e, como todas as suas obras, exige muita fé, que só pode vir no silêncio da oração, no encontro que permite ouvir a vontade de Deus.

6. Uma experiência vivida pelas filhas e filhos de Comboni
6.1 Um olhar no passado, para melhor traçar o futuro
Não foram poucos esses filhos e filhas, a começar pelos primeiros 22 que a 29 de novembro de 1867, guiados por Daniel Comboni, partiram de Marselha com destino ao Egito. Eram dezesseis meninas africanas – nove das quais do Instituto Mazza em Verona –, três Irmãs de São José da Aparição e três religiosos Camilianos.
A primeira etapa da viagem era o Cairo, onde começaria a implementação do Plano, dando vida aos primeiros daqueles "Institutos preparatórios" que deveriam "circundar a África".
Dois anos depois, em 1869, também no Cairo, Daniel Comboni confiou a direção de um terceiro instituto, a "Sagrada Família", a quatro educadoras africanas, uma delas era a jovem Dinka Domitilla Bakhita. Era uma escola paroquial feminina e pública, aberta a meninas de todo rito e religião, incluindo o islamismo.
Foi um momento importante: o objetivo principal do Plano – Regenerar a África com a África – começava a se tornar realidade. Uma realidade que Comboni reforçou quatro anos depois, quando incluiu as jovens professoras africanas na expedição que, em 1873, ele mesmo guiou primeiro do Cairo a Cartum e em seguida de Cartum a El‐Obeid, onde confiou a Domitilla, Fortunata Quascè e Faustina Stampais a fundação da “Obra feminina” do Cordofão. Finalmente, em 1881, o Bispo Daniel enviou como pároco à comunidade promissora de Malbes, no Cordofão, Pe. António Dobale, da tribo dos Galla, um dos onze “meninos Negros” que o Instituto Mazza acolhera em 1860 e que em 1878 Propaganda Fide tinha ordenado sacerdote para a África Central.
Nesse ponto, Daniele Comboni se sentia satisfeito com seus missionários: padres, irmãs (Pie Madri della Nigrizia), leigos e leigas. Uma confiança merecida, como demonstrou o trágico acontecimento daquele outono de 1881, a morte inesperada do Fundador.
Naquele momento, manifestou‐se fortemente, para as Pie Madri della Nigrizia, a figura de Madre Bollezzoli que, com a carta de 18 de outubro de 1881, exortava firmemente as irmãs a permanecerem fortes seguindo as pegadas traçadas pelo Fundador: "não volteis atrás, mas caminhai corajosamente nas pegadas do vosso magnânimo Pai". E continuou a seguir a inspiração do Plano, formando, ao longo do tempo, centenas de irmãs que partiam para a missão na África.
A irrupção da Mahdia, quando os missionários e missionárias enfrentaram a prisão, o martírio, e o êxodo forçado, foi uma experiência forte que deixou sua marca e testou a fidelidade ao Plano de Comboni.
Aqueles que conseguiram fugir para o Egito com Mons. Sogaro, tiveram também que lidar com o momento delicado da "passagem", da transformação do Instituto originário a uma congregação religiosa masculina (1885).
E quando os primeiros Filhos do Sagrado Coração chegaram ao Egito, era evidente que algo havia mudado na escala de valores indicada pelo Fundador: agora, antes mesmo das necessidades da missão, era o espírito religioso – muito salientado durante o noviciado, pelos padres Jesuítas – que devia inspirar e orientar a vida da Comunidade.
Criava‐se uma dolorosa e sofrida tensão entre instituição e carisma. Naquele tempo de mudanças, os que mais sofreram e suportaram as consequências foram principalmente os leigos e as meninas africanas que, de alguma forma, viram‐se excluídos da instituição. Nem foi essa a única vez que pareceu diminuir a fidelidade ao carisma: não podemos deixar de registrar o fato doloroso da divisão dos combonianos em duas Congregações separadas.

6.2 Do Plano para a África e o mundo
Continuamos a dirigir o nosso olhar para a história: se a fidelidade ao Plano não se mostrava tão evidente entre os novos grupos de pessoas que continuavam a chegar ao Egito durante o tempo da diáspora, certamente não se podia dizer que tivesse diminuído o amor pela missão ou a paixão pela África.
Na verdade, o fim da Mahdia em 1898 viu todos os Filhos do S. Coração e as Pie Madri della Nigrizia prontos para retornar. Ademais, o Sudão, como território missionário, fora confiado à jovem congregação masculina (1894).
É só folhear as páginas de Nigrizia para ver a doação, por exemplo, dos vigários apostólicos Antônio Maria Roveggio e Francesco Saverio Geyer. O famoso barco da missão, recolocado em atividade, embora com nome diferente, retomou logo, ao longo do Nilo, a exploração do território que a Mahdia tinha forçado a abandonar. Em 1902 foi aberta, não muito longe de Gondokoro, entre os Shilluk, a missão de Lul.
Costanza Caldara (superiora geral das Pie Madri de 1901 a 1931) estava atenta às necessidades das novas missões; em 1900, Francesca Dalmasso e Maria Bonetti foram as primeiras entre as irmãs que estavam prontas, para retornarem ao Sudão e, se necessário, irem além. Nos anos seguintes, novas comunidades foram abertas em outros Países da Europa e Oriente Médio; e a partir dos anos cinquenta do século passado, as combonianas e os combonianos estenderam sua presença nas Américas.
Das meninas africanas que Daniel Comboni tinha acompanhado com cuidado, para que chegassem a “ser apóstolas na sua nação, com base no Plano” (Escritos 2012), infelizmente nada mais se falou. Isto nos leva a compreender como um aspecto da instituição, em um certo tempo, tenha sido deixado de lado. Em parte é ainda assim: também hoje temos dificuldade para sairmos de um determinado protagonismo institucional a fim de valorizarmos a catolicidade do Plano, como Daniel Comboni desejou e previu.
O Plano, no entanto, não foi totalmente esquecido. Em torno de 1938, enquanto nas várias províncias e vicariatos da África Central confiados aos Filhos do S. Coração, multiplicavam‐se os seminários que recebiam jovens africanos, um grupo de moças ugandesas manifestava o desejo de se consagrar a Deus na jovem Igreja particular.
Graças à sensibilidade dos combonianos e combonianas no acompanhamento destes grupos – bem como de outros, que surgiram ao longo dos anos – ficamos felizes ao ver hoje que vários destes grupos tornaram‐se congregações locais autónomas, algumas com um forte espírito missionário expressado com comunidades em outros continentes, concretizando, deste modo, o sonho de Comboni.
Isso significa que, mesmo na ausência de uma declaração expressa das vontades, havia entre os filhos e filhas de São Daniel uma espiritualidade que sustentava a fidelidade ao espírito do Plano. Os Capítulos Gerais Extraordinários dos Institutos e a celebração dos centenários de fundação foram momentos fortes em que se fez uma profunda reflexão sobre a identidade carismática, sobre a espiritualidade e sobre o Plano de Comboni. Estes acontecimentos impulsionaram a pesquisa e o conhecimento direto dos Escritos de Comboni e da história dos Institutos. Em seguida, à luz dos documentos do Concílio Vaticano II e da expansão das congregações fora do continente Africano, iniciou‐se uma reflexão profunda sobre a identidade do carisma na fidelidade ao Plano, que envolveu todos os membros.
Ao longo dos anos, o trabalho – em conjunto – de “homens e mulheres”, como religiosos e religiosas, missionários e missionárias, trouxe alegria, ajuda mútua, crescimento, mas também fadiga, incompreensões e até mesmo divisões e feridas. Com a nova consciência da mulher sobre si mesma e de seu papel na Igreja e na sociedade, também as “Pie Madri della Nigrizia” reavaliaram o perfil que Comboni queria para elas no Plano: “Eu fui o primeiro a fazer com que colabore no apostolado da África Central o omnipotente ministério da mulher do Evangelho e da Irmã da caridade, que é o escudo, a força e a garantia do ministério do missionário” (Escritos 5284).
Ao continuarmos o nosso percurso histórico, vemos que nos anos cinquenta do século passado, por intuição de um Missionário Comboniano, teve início o Instituto das Missionárias Seculares Combonianas, com a finalidade da cooperação missionária, ou seja, suscitar iniciativas e envolver a todos na missão. Esta intuição foi confirmada pelo Concílio Vaticano II, que trouxe uma nova consciência laical, da sua vocação específica na missão e de seu protagonismo total na missão.
Isso é demonstrado pela última expressão na ordem do tempo: o nascimento dos Leigos Missionários Combonianos e pela formação de grupos de leigos e leigas que, inspirados pelo carisma comboniano, se sentem como enriquecimento para toda a Família comboniana e para a Igreja missionária.
O resultado mais evidente que o espírito do Plano continuou a dar é a abundância de vocações religiosas e laicais à missão, provenientes de países que antes eram considerados “terra de missão”. Temos diante de nós um grande dom que devemos olhar, conscientes de que nos desafia a abraçar sem reservas e com entusiasmo a interculturalidade da missão hoje.
Como podemos ver, é um longo, rico e às vezes fadigoso caminho da Família comboniana, um caminho que merece e exige mais atenção hoje. É para aumentar a consciência e a firme determinação de cada um para trabalhar e ser missionários e missionárias na perspectiva do Plano em sua mais íntima energia e originalidade.

6.3 Vitalidade e atualidade do Plano
Estamos todos de acordo em reconhecer que a Igreja vive hoje um momento especial em relação à sua consciência missionária. Papa Francesco, desde o início de seu pontificado, ao dar a seu ministério de Bispo de Roma, um tom peculiar, sublinhou a urgência, a importância e a necessidade, por parte de cada cristão a viver a vocação missionária. Seu convite para sair, para ir às periferias existenciais para encontrar os irmãos e irmãs mais pobres, está despertando em toda a Igreja um novo espírito, que nos torna conscientes do tesouro que temos no Evangelho e da importância de comunicá‐lo, para experimentar a alegria profunda.
Neste contexto de novo envio e de clareza sobre a necessidade de assumir a dimensão missionária do nosso batismo, estamos lidando com uma linguagem e uma proposta que fazem ver a missão como uma obra pertencente a todos, na medida em que nos reconhecemos discípulos de Jesus e associados à sua missão.
Este compromisso – dizem‐nos – não pode ser responsabilidade apenas de um pequeno grupo ou de alguns que se sentem particularmente chamados a dar a vida para a missão; ao contrário, é um compromisso e trabalho de toda a Igreja: aqui certamente aparece a grande atualidade e vitalidade do Plano.

6.4 Partir novamente como Família comboniana e com o espírito do Plano
Desde 1996, e especialmente desde 2003, Comboni Santo se reapresenta a todos nós mais vivo e mais presente do que nunca com seu carisma, fazendo‐nos reencontrar, para juntos festejá‐lo. Eventos como a beatificação e a canonização foram momentos privilegiados para um conhecimento e celebração que também permitiram reconciliação e renovação de forças em torno do pai comum. Com alegria pudemos ver que, para celebrar momentos tão importantes, para não dizer únicos, da história comboniana, estávamos novamente todos: Irmãs Missionárias Combonianas, Missionários Combonianos do Coração de Jesus, Missionárias Seculares Combonianas, Leigos Missionários Combonianos e outros grupos de Leigos e Leigas.
Unidos, também se diferentes, cada um com as próprias Constituições e um projeto específico de trabalho apostólico.
O evento do Aniversário que celebramos este ano, nos impulsiona a fazer memória do que já foi vivido, para um reavivamento que acolha os desafios e as perguntas que a realidade nossa e da vida missionária nos propõem. Comboni deixou‐nos um estilo de ministerialidade fortemente enraizado em sua experiência mística e na paixão para a pessoa e para a missão. Esta sua experiência e paixão são inseparavelmente presentes nos vários aspectos – espiritual, místico, profético e metodológico – do Plano para a Regeneração da África.
As rápidas mudanças no mundo de hoje e os desafios das Igrejas e dos povos com quem vivemos, fazem surgir em nós a urgência de aprofundar, através de uma reflexão sistemática, a nossa ministerialidade comboniana vivida como chamada profundamente enraizada em Deus, participação na maternidade/paternidade de Deus que gera vida em um dom total e gratuito, fraternidade com Jesus, entre nós e as pessoas que servimos na poeira do seu caminho, encarnação da nossa espiritualidade, presença na história junto dos pobres e dos excluídos, caminho com os povos, para que todos tenham vida e vida em abundância, consciência da temporaneidade de nossa presença e serviço, acreditando nas pessoas, nas suas capacidades de regenerar‐se e na metodologia do diminuir, para que os outros cresçam.
Por isso, é importante para nós assumir a justiça, a paz e a integridade da Criação (JPIC) e o diálogo e a reconciliação como valores transversais que permeiam todos os ministérios. É igualmente importante para nós a revisão da nossa metodologia nos ministérios: o fazer causa comum, o ser pedra escondida para que outros cresçam, a inculturação e a inserção, o compromisso de trabalhar em rede/colaboração (com Igrejas locais, com a Família comboniana, com outras congregações, com organizações várias), abertos ao novo que se move na consciência da sociedade e em suas expressões.
Na escolha dos nossos ministérios, é necessário que nos deixemos ser desafiados pelos desafios emergentes, em especial pelo fenómeno do tráfico de pessoas, particularmente de mulheres e meninos/as, pela imigração e refugiados, pela situação dos povos afrodescendentes, indígenas e pastores nómadas, para darmos respostas significativas hoje.
A reflexão sobre a missão em diálogo é de particular importância para cada um/a de nós, porque o mundo está se movendo em direção a um pluralismo religioso e cultural, desafiando as nossas convicções e nossa metodologia.
A herança carismática molda a nossa abordagem pastoral nos vários ministérios e abre as nossas mentes e os nossos corações para a dimensão essencial do diálogo, chamando-nos a "sermos um sinal do amor de Deus no mundo, que é amor sem nenhuma exclusão nem preferência". Somos chamados/as, portanto, a tornar‐nos sinal profético no diálogo e no serviço, ponte entre os povos, através da experiência cotidiana demissão, vivendo lado a lado com os povos de diferentes culturas e fé.
Este diálogo se manifesta nos gestos simples do cotidiano e no encontro com outras Igrejas e Comunidades cristãs, para se tornar um sinal de anúncio de Cristo, fonte de unidade; com as religiões nãocristãs, especialmente com as religiões tradicionais e o Islã, para ser sinal profético na busca comum de Deus; com as culturas, para transformar a humanidade através do compromisso comum de um mundo mais justo.
A espiritualidade herdada do Plano, este "sentir o próprio coração bater em uníssono com o Coração de Cristo", encoraja-nos a levar o "beijo da paz" a qualquer periferia geográfica e existencial, porque a África de Comboni tornou‐se critério para reconhecer no mundo onde estão os "mais pobres e abandonados" e onde estão as "pegadas do nosso magnânimo Pai", e continuarmos a ser fiéis ao seu Plano no hoje da história, após 150 anos.

7. Conclusão
Queridas e queridos,
Portanto, temos muitos motivos para comemorar este evento, tantas razões para sermos orgulhosos disso e desafiados ao mesmo tempo, tantas razões para refletir.
Com São Paulo, o grande apóstolo missionário, dizemos: E o próprio Senhor nosso Jesus Cristo e Deus nosso Pai, que nos amou, e pela sua graça nos deu uma eterna consolação e uma boa esperança, console os vossos corações e os confirme para toda boa obra e palavra” (2 Ts 2, 16‐17).
Muitos de nós somos movidos pelo dom que Jesus deu à sua Igreja e a cada um de nós em São Daniel Comboni e no fruto da sua criatividade obediente, o Plano para a regeneração da África. Trabalharemos com os olhos fixos no mesmo objetivo que Comboni tinha nos olhos e no coração, também se todos não faremos a mesma coisa ou não a faremos do mesmo modo. O reconhecimento mútuo, o respeito e a valorização da diversidade de serviços e de papéis fortalecerão a comunhão e permitirão que sejamos testemunhas no mundo missionário, de uma diversidade finalmente reconhecida e reconciliada.
Queremos, na verdade, que na Família comboniana de hoje haja espaço para a diversidade reconhecida na igualdade do estilo de vida; queremos aprender a reconhecer os talentos de cada grupo para fazê‐los frutificar em função do Reino, trabalhando em rede...
Que todos os nossos irmãos e irmãs santos e mártires, começando com os prisioneiros da Mahdia, nos ajudem. Ajude‐nos sobretudo nosso pai São Daniel que nos queria “santos e capazes”, capazes de relações novas e verdadeiramente evangélicas, capazes de vivermos a igualdade na diversidade, fazendo causa comum com os pobres e os excluídos, sem tirar‐lhes o direito de serem sujeito das próprias escolhas de vida e do próprio caminho de fé.
Só assim poderemos responder de forma eficaz aos grandes desafios emergentes que o mundo nos apresenta.
Roma, 15 de setembro de 2014
150 anos do Plano para a Regeneração da África

Os Missionários Combonianos do Coração de Jesus
As Irmãs Missionárias Combonianas
As Missionárias Seculares Combonianas
Os Leigos Missionários Combonianos

GUARDADORAS DA ESPERANÇA

— Eu não consigo… não consigo! – repetia sempre Reem, uma jovem beduína palestiniana de 16 anos, sempre que a convidávamos para aprender a u...