30 de março de 2020

CAIRO NO MESMO BARCO

Hoje, na cidade do Cairo, capital do Egipto, está decretado o recolher obrigatório desde as seis horas da tarde até às sete de amanhã. E isto é só o princípio do que está para vir. As medidas de precaução contra a pandemia coronavírus serão ainda mais fortes num futuro muito próximo. 

Diz-se que é tempo de guerra. O inimigo está aqui, está ali, em qualquer canto, está no meio de nós, sem que ninguém o veja. É um papão que não olha a classes ou categorias de pessoas. Para ele não há ricos ou pobres. Silencioso e matreiro, vai oferecendo com ironia e sarcasmo o seu presente mortífero. Aqui e além, vêem-se fanfarrões a rir e a fingir de valentes, mas, pouco a pouco, também eles se vão rendendo, juntando-se ao comum dos mortais, deixando à vista a marca de terror nos seus rostos.

Quem tem a mínima noção do modo de vida nesta cidade do Cairo sabe que se vive até altas horas da noite sob o ritmo barulhento e buliçoso do trabalho.

A propósito, basta citar o que me aconteceu há dias. Perguntei ao oculista quando é que eu poderia ir buscar os meus óculos que estavam a ser arranjados. Resposta: «Estamos abertos até às 11 horas da noite!».

De repente, tudo mudou. De facto, ainda não são 10 horas da noite e, no entanto, reina uma quietude fora do costume. A cidade silenciou-se e parou. Não se ouvem as vozearias nem as algazarras nem os motores dos carros e as suas estridentes buzinas.

Tinha acabado de rezar o terço enquanto caminhava no adro da igreja quando, antes de entrar em casa, me veio a ideia curiosa de saber o que vai lá fora. Atravessei o umbral da porta e cumprimentei os dois guardas de turno na guarita (a guarda das igrejas no Egipto foi imposta pelo governo). A rua está deserta, rigorosamente vazia. 

O silêncio inspirou a imaginação que me fez atravessar ruas e vielas, praças e rossios até às aforas da cidade onde, finalmente, me convidou a contemplar as majestosas pirâmides faraónicas de Giza.

Um estrondoso roncar de motor fez-me voltar a mim. Era o carro armado da patrulha do exército. Ao mesmo tempo, num triz, sofro o duro embate de um homem que chocando contra mim, me empurra violentamente para dentro, pouco faltando para que nos espraiássemos os dois no chão.

Ainda confuso, pediu-me imensa desculpa pelo seu atrevido e rude comportamento.

«Sei que é proibido andar na rua, mas tive de arriscar, pois o pão vai escasseando em casa», disse. «Já há uns bons anos que vos conheço e sinto-me bem convosco aqui na igreja, graças a Deus», continuou. 

Finalmente, fixando o olhar demorado em mim, disse, surpreendido: «Mas… o senhor mora aqui? É que eu não estou a conhecê-lo.»

Foi a minha vez de lhe dizer: «Sim, sou novo cá na nesta missão, nesta igreja. Cheguei do Sudão para tratamento médico e para lá voltarei dentro em breve, insha Allah, se Deus quiser».

Ponderando a lógica da conversa, acrescentei: «Vejo que é esta a igreja que você frequenta ao domingo». 

Ele, na tentativa de não me desiludir, respondeu com um sorriso de delicadeza: «Não, eu sou muçulmano.»

Recuperado do grande susto pregado pelo carro da patrulha que já tinha desaparecido na comprida rua, o desconhecido amigo estendeu a mão e deu-me o terço que tinha caído no chão e, ao mesmo tempo, disse: «Reze muito».

A seguir, mostrou-me o terço muçulmano que tirou do bolso e continuou: «Eu só sei rezar por este, mas Deus é um só. Rezemos-Lhe para que livre o Egipto e o mundo inteiro da doença do coronavírus.»

Considerando o perigo já passado, despediu-se: «Maa salama, adeus, amigo que vieste do Sudão». 

Mas, ao voltar-se para tomar o caminho, foi surpreendido pelos guardas da igreja que, de arma em punho, lhe barraram a passagem.

«Eu ouvi a vossa conversa; agora falo eu», disse aquele que estava à sua frente, num tom encolerizado.

Temi pela vida do meu amigo até ao momento em que ouvi, do mesmo soldado, palavras de alívio. 

«Isto podia ser o fim da tua vida, mas hoje estás com muita sorte: o carro patrulha do exército passou sem te ver e eu também não te acuso. Já pensaste o que seria de ti e da tua família se tivesses de pagar a colossal multa e a pena de prisão por esta tua desobediência ao estado de emergência?», o militar explicou.

E continuou: «As palavras do presidente da república à nação, ontem, forem bem claras: “Caro cidadão, não descuides as regras, ajuda-nos a salvar a tua vida para, juntos, podermos salvar a de todos os egípcios!”.»

Quando adivinhou o fim das duras palavras, o amigo desconhecido levantou a cabeça, lentamente, para ouvir do guarda a boa notícia que ainda ousava esperar: «Podes agradecer a Deus e ao padre que te acolheu e defendeu aqui na igreja, mesmo sem o saber. Mas também não vais sem o meu pedido que, neste momento, é uma ordem: as regras do jogo contra o coronavírus são para se cumprir. Tolerância zero.»

«Amin, elhamdu lillah, assim seja, graças a Deus!», foi o que os guardas ouviram de nós os dois, em humilde e profundo agradecimento.

Esta foi uma lição majestosa e vital. É que, na verdade, está em jogo a vida. A vida de todos nós. Salvamo-nos todos juntos. Em comunidade. Navegamos na mesma barca.
Feliz da Costa Martins 
Cairo – Egipto 
26 Março 2020 

29 de março de 2020

O ENCANTO (TRABALHOSO) DA AMIZADE


O Evangelho que a liturgia propõe para este domingo (celebrado na Igreja doméstica que é a família) é a narrativa comovente da ressuscitação de Lázaro (João 11, 1-44).

Começa com um recado singelo, mas suplicador: «Senhor, eis que aquele de quem és amigo, está doente». Um grito de socorro das manas de Betânia que põe Jesus a caminho.

João explica: «Jesus amava Marta, a irmã dela e Lázaro».

Os discípulos não ficam contentes com a decisão de Jesus de voltar à Judeia: está a pôr a vida em risco, porque já tinham tentado apedrejá-lo. Mas Lázaro, «o nosso amigo», precisa dele.

Quando Jesus chega a Betânia, no topo da colina em frente a Jerusalém, encontra uma grande comoção e fica perturbado.

«Jesus chorou», diz João sem receio.

Ele vive o sofrimento das manas enlutadas, não tem vergonha de mostrar a própria vulnerabilidade. Os presentes comentam: «Vede como era seu amigo».

Outros mandam bocas: Se restituiu a vista aos cegos porque deixou Lázaro morrer?

Jesus, «profundamente comovido», vai ao sepulcro e ordena que tirem a pedra que cobre a entrada.

Apesar de o corpo cheirar mal porque Lázaro havia morrido há quatro dias – está morto e bem morto – rolam a pedra.

Jesus, depois de agradecer ao Papá porque o ouviu, «clamou em voz forte: “Lázaro, vem para fora”.»

Lázaro está enfaixado com ligaduras e com um sudário a envolver a cabeça. Mas «o morto saiu». 

Jesus ordena: «Desatai-o e deixai-o ir!».

Jesus fornece-nos o GPS para a amizade que todos precisamos e todos temos de dar: é preciso sair da zona de conforto sem medo dos riscos, viver a amizade sem medo das emoções, tirar os amigos dos sepulcros onde estão fechados, desatar os nós que os amarram e deixá-los ir!

Nestes dias de isolamento social, a amizade faz-se sobretudo através do telefone e das redes sociais.

As casas, os apartamentos nestes dias de quarentena são os nossos túmulos. 

O medo, a solidão, a falta de abraços e beijos, a ansiedade são ligaduras que nos atam. 

Dizemos uns aos outros: Vem para fora, sai dos teus medos, mas, por amor de Deus, fica em casa até esta tormenta passar.

Recordemos as Irmãs Combonianas que têm uma comunidade em Betânia – que os palestinianos chamam Al Eizarieh ou Lazariyeh (Lugar de Lázaro em árabe) por razões óbvias – para mostrar às crianças palestinianas e aos beduínos a amizade de Jesus, apesar dum muro alto de betão que separa a comunidade e o jardim de infância do Território Palestiniano.

A ressurreição de Lázaro é o ícone da amizade. 

Cada um de nós é um amigo de Jesus.

«Já não vos chamo servos, mas amigos» – diz o Senhor a cada um de nós.

16 de março de 2020

COVID19: MENSAGEM DE SOLIDARIEDADE À FAMÍLIA COMBONIANA


Dia do nascimento de São Daniel Comboni
Roma, 15 de março de 2020

«...Sinto tal peso no coração, que me vejo obrigado a voar ao Céu com as minhas ideias e a pensar que vós tendes um apoio mais sublime, seguro e infalível que o meu, que estais mais protegidos sob a custódia de Deus do que sob a minha» (Escritos 219) 

S. Daniel Comboni ao pai pela mãe doente

Queridas irmãs e irmãos,

Saudamos-vos com carinho neste momento de emergência que, em nome de nosso Senhor Jesus e juntamente com nosso Pai São Daniel Comboni, nos une ainda mais como família comboniana.

Vivemos uma situação sem precedentes, causada pela pandemia de coronavírus, que já está presente em mais de 100 países dos cinco continentes. Um dos países mais afectados é a Itália, que luta com todos os meios possíveis para interromper o contágio. Os mais vulneráveis aos efeitos deste vírus são os idosos ou pessoas que sofrem de doenças crónicas, categoria na qual se encontram vários dos nossos irmãos e irmãs.

Essa situação inesperada deixou-nos perplexos e baralhou todos os nossos planos. Fomos obrigados a adoptar medidas preventivas muito severas, seguindo as indicações das autoridades competentes. Este ano, vivemos a Quaresma de uma maneira muito especial, mas o Senhor acompanha-nos nesta realidade desconhecida para a qual nenhum de nós estava preparado. No entanto, na fraqueza, confusão, medo, Cristo manifesta-se na cruz, sofre e morre por toda a humanidade: «pelas suas chagas fostes curados» (1 Pedro 2, 24). Mas, além da cruz, cremos que, com a Sua ressurreição, as se abrem as portas da Vida na sua plenitude: «para que tenham vida e a tenham em abundância» (João 10, 10). Além disso, dentro deste limite imposto, somos chamados a viver a nossa missão: antes de tudo, partilhando a vida dos nossos povos em solidariedade com a realidade que vivem como sinal de esperança. Em segundo lugar, mesmo que, em algumas partes do mundo, não possamos fazer celebrações litúrgicas e orar com as pessoas, podemos intensificar a nossa vida de oração pessoal e comunitária, procurando a Deus que nos fala do profundo.

Este vírus abateu as barreiras e fronteiras entre povos e nações. Toda a humanidade se sente unida na mesma luta para o parar. No entanto, é um momento para descobrir a nossa vulnerabilidade. Para lá das nossas culturas e nacionalidades, somos todos irmãos e irmãs de uma única família humana peregrina com um destino comum. É por isso que sentimos que, como uma família comboniana, hoje mais do que nunca, somos chamados a viver mais unidos, rezando uns pelos outros, com um olhar atento sobre o que está a acontecer em todo o mundo, porque isso faz parte do nosso carisma. Diante da impotência de não poder ajudar neste momento os mais necessitados, lembremos as palavras de São Daniel Comboni: «A omnipotência da oração é a nossa força» (Escritos 1969). Que esta crise nos ajude a reconhecer aquilo que é essencial na nossa vida e a colocar-nos nas mãos de Deus.

Seguimos atentamente o evoluir da situação. Imploramos ao Senhor da Vida que proteja todos os seus filhos e filhas neste tempo de incerteza. Agradecemos ao Senhor pela coragem de todos os que cuidam dos doentes e, especialmente, daqueles que vivem nas nossas casas de repouso. Rezamos também por todos os que são mais vulneráveis aos efeitos deste vírus: as pessoas idosas e sós, os migrantes, os sem abrigo e os prisioneiros. Que o Senhor nos dê todas as forças para viver este momento com responsabilidade, na solidariedade e na fé.

Conselho Geral das IMC 
Conselho Geral dos MCCJ 
Conselho Central das MSC 
Comissão Central dos LMC 

NOVENA COMBONIANA

Ó Pai,

que mostras a tua caridade infinita
na obra de quem deu a vida
pelas irmãs e irmãos que sofrem,
pedimos-te, pela intercessão dos nossos Veneráveis
Giuseppe Ambrosoli e Giuseppa Scandola,
que libertes o mundo do flagelo do vírus
que atinge povos e continentes
semeando morte, sofrimento, medo, privações.

Ó Pai,
mostra-nos o teu Rosto de misericórdia
e salve-nos no teu imenso amor por toda a humanidade.
To pedimos pela intercessão de Maria,
Mãe da saúde,
Tu que vives e reinas com o teu Filho Jesus e o Espírito Santo
pelos séculos dos séculos. Amém.
Gloria.

12 de março de 2020

O ROSTO DO MEU PAI

Catedral de El Obeid – Foto M. Santschi

– Eh, passas por nós e nem dizes olá?! Parece que já não conheces os teus amigos do Darfur!

Apesar do sol poente que me cegava, levantei um pouco o boné e os meus olhos toparam com os três amigos. Era o P. Anthony, o novo pároco de Nyala, com a Margaret e o Gassim, representantes do conselho paroquial.

– Esquecer? Creiam-me, já há mais de um ano que deixei o Darfur, mas o pensamento ainda me foge, até demais, para as bandas de lá.

– Demais? Pelo contrário, é bom sinal. As pessoas de Nyala também perguntam muito por ti e estão desejosos de uma visita da tua parte, repostou a Margaret com entusiasmo lisonjeiro.

Os três amigos forasteiros tinham acabado de chegar à cidade de El Obeid para a reunião anual dos agentes pastorais da diocese. A sua presença foi, ao mesmo tempo, uma oportunidade para pormos a conversa em dia. Assim, fiquei contente em saber que o P. Anthony já teve ocasião de visitar as distantes e remotas zonas da paróquia, entre outras, Redom e Buram. Este era um dos objetivos que eu, aquando dos meus doze anos de missionário naquela região do Darfur, me tinha proposto, mas nunca pudera, infelizmente, realizar. E, já agora, confesso uma outra grande pena: a de não ter realizado a tão aspirada visita a Olgossa, a aldeia natal de Santa Bakhita. Uma povoação não muito longe, a somente 30 quilómetros da nossa missão de Nyala. E pensar que não me foi possível chegar até lá… «Não se concedem guias de marcha a estrangeiros porque Darfur é zona de guerra», foi a resposta que eu, sempre e invariavelmente, recebi da autoridade militar em serviço.

Por causa desta dificuldade de segurança e movimentação, os meus superiores acharam bem que mudasse para El Obeid, onde me encontro atualmente. Foi nestes sítios que S. Daniel Comboni concentrou grande parte dos seus esforços e trabalhos. As suas pegadas são rastos que nunca se apagaram no meio desta população. A ele se junta Josefina Bakhita, a santa do Darfur. Estes dois santos são, na verdade, muito queridos e amados por todos os sudaneses, merecendo-lhes o título de padroeiros.

Atualmente, a atividade missionária nesta zona de El Obeid desenvolve-se com muito mais segurança do que na minha missão anterior, em Nyala. Talvez por isso, naquela tarde de novembro, o nosso Bispo Tombe, à entrada da casa episcopal, não deixou de me pôr em estado de alerta, enquanto expressava um desejo com fineza e graça.

– Vê lá bem, não seja isso uma desculpa para te acomodares e te sentares à sombra da bananeira, só porque agora não sentes o aguilhão da guerra e da perseguição como te acontecia no Darfur. E continuou:

– Olha que aqui todos sabemos que és filho do gigante missionário Daniel Comboni. Por conseguinte, não só esperamos mas também exigimos de ti que sejas um missionário à altura desse grande santo que é considerado também o pai na fé para toda a Igreja do Sudão.

As palavras do simpático Bispo tinham sido pronunciadas na presença de um conjunto de pessoas que, espontaneamente nos tínhamos reunido à sua volta. Naturalmente, aquelas foram testemunhas de primeira mão e me estimularam para que eu tomasse as ditas palavras com seriedade e não caíssem em saco roto.

Durante a visita aos doentes – um dos meus trabalhos pastorais de rotina – paro frequentemente em casa da Fauzia, uma senhora idosa que não sai de casa desde há vários anos. Mas, naquele dia, além das pessoas de casa, havia outras que eu não conhecia e que ela me apresentou, acrescentando ainda que haveria uma comunicação a fazer. De facto, no fim do encontro de oração, ao sinal dado pela matriarca, uma sua neta começou a contar o que o Sr. Bispo tinha dito alguns quinze dias atrás. E a jovem Miriam deu, realmente, provas de boa memória, ao narrar o já mencionado acima, acerca do povo sudanês que esperava e exigia do Pe. Feliz que lhes mostrasse o verdadeiro rosto de seu pai Daniel Comboni.

Vimos a senhora Fauzia, num esforço desmedido, a querer levantar-se do cadeirão, mas achou por bem acatar o nosso conselho de ficar sentada. Respirou fundo e falou:

– Depois de termos ouvido da boca da Miriam as palavras do nosso querido Bispo Tombe, quero dizer-te, amigo Pe. Feliz, que estes três meus parentes, pertencentes ao nosso clã de família alargada, vêm dar um matiz especial ao nosso encontro de hoje. Estando de passagem nesta cidade, manifestaram satisfazer uma curiosidade que trazem lá das suas terras, os Montes Nubas (a mais de 200 quilómetros de distância), onde ouviram frequentemente mencionar o nome de S. Daniel Comboni. Fico contente por isso, mas pensei convidá-los hoje aqui a minha casa porque, ninguém melhor do que tu, que és filho de Comboni, poderá ajudá-los no assunto em questão.

Surgiu um intervalo natural e espontâneo, enquanto passava o bule do chá de hortelã pela dezena de pessoas que ocupávamos o pátio da casa. Depois, Fauzia tomou de novo a palavra e disse:

– Enquanto rezávamos, eles permaneceram calados; não é de maravilhar, pois não são cristãos. São muçulmanos, filhos e pais de boa gente, meus familiares. Eles não me falaram em conversão ao cristianismo e nem eu estou aqui a insinuar que o façam. Mas saber quem foi o teu pai e nosso pai na fé é um direito que lhes cabe. E eu não ficaria satisfeita se não anunciasse, a ti e a eles, no máximo respeito e liberdade, este meu convite. O grande missionário Comboni não é pessoa para ficar desconhecida e, muito menos, no nosso país. O nosso Bispo Tombe tinha toda a razão para dizer o que tão bem disse naquele dia… Palavras que a nossa jovem Miriam colheu e admiravelmente nos apresentou aqui nesta nossa reunião de oração.

Agradeci à amiga senhora. Fauzia a confiança depositada em mim para a obra que me pedia. Sim, o nosso Bispo Tombe tinha falado muito bem. As suas palavras tinham sido pertinentes ao máximo. Estou-lhe imensamente reconhecido por ter refrescado em mim a identidade missionária.

Com alegria caminharei junto com os três familiares e membros do clã da senhora Fauzia e com todos aqueles, não importa quem, se vão juntando a nós.

Caminhamos em direção a Deus,
Percorrendo o caminho do amor e da misericórdia que herdámos do próprio Jesus Cristo.
Caminho que Comboni trilhou até ao fim com dedicação e alegria.
Caminho que me permite estar à altura de mostrar o rosto de meu pai,
Em todo o seu brilho e transparência.
Caminho que é uma vida inteira de entrega e serviço a par dos irmãos e irmãs.

Feliz da Costa Martins 
Missionário Comboniano em El Obeid (Sudão)

3 de março de 2020

PRAGA DE GAFANHOTOS


Gafanhoto-do-deserto ataca Corno de África.
Uma nuvem densa e voraz de milhares de milhões de gafanhotos-do-deserto pôs em sobressalto o Corno de África ao destruir culturas e pastos e pondo em risco a segurança alimentar de milhões de pessoas.

Os enxames de gafanhotos desenvolveram-se numa zona remota da península arábica desde Junho de 2018 devido a chuvas abundantes e dois ciclones, resultado das mudanças climáticas.

Quando a vegetação começou a escassear, os gafanhotos, à boleia do vento, atravessaram o mar Vermelho e rumaram em direcção ao Quénia, Etiópia e Somália em números sem precedentes. Há vinte e cinco anos que a Etiópia e a Somália não testemunhavam uma praga destas dimensões e o Quénia há setenta. Nuvens de saltões já estão a chegar ao Egipto, Sudão, Eritreia, Tanzânia e Uganda e podem invadir o Sudão do Sul.

A FAO, a organização das Nações Unidas para a alimentação e agricultura, alerta que, se nada for feito para travar a praga, em Junho os saltaricos vão multiplicar-se por 500 com a chegada das chuvas. Cada fêmea põe dezenas de ovos (por vezes mais de 100) na terra húmida e pode procriar pelo menos três vezes. O período de incubação oscila entre 10 dias e um mês. Um insecto vive de três a cinco meses.

Os enxames, formados por centenas de milhões de gafanhotos, deslocam-se a uma velocidade de 150 quilómetros por dia, destruindo pastagens e culturas pelo caminho. Um gafanhoto-do-deserto pesa dois gramas e consome por dia o seu peso em vegetais. Pode parecer coisa pouca, mas dois gramas multiplicados por centenas de milhões de gafanhotos deixam uma pegada devastadora no meio ambiente.

António Guterres, secretário-geral da ONU, alertou no fim de Janeiro para a origem e perigo da praga. «Os gafanhotos-do-deserto são extremamente perigosos. Provocado pela crise climática, o surto está a piorar a já horrenda situação de segurança alimentar na África Oriental», tuitou.

Os governos locais não têm capacidades técnicas nem financeiras para enfrentar os enxames cada vez maiores e pedem ajuda ao estrangeiro. Para combater a praga, são necessários pulverizadores aéreos e terrestres com insecticidas.

Os chefes de Estado da IGAD, a Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento no Leste de África, pediram a meados de Fevereiro ajuda aos parceiros internacionais e de desenvolvimento «para apoiar os esforços dos Estados-membros da IGAD uma vez que os países da região não têm a capacidade financeira, técnica e logística requerida para enfrentar efectivamente a invasão dos gafanhotos».

A FAO calcula que são precisos mais de 64 milhões de euros para controlar a praga no Corno de África e ajudar os agricultores a enfrentar as perdas nas culturas e colheitas.

O gafanhoto-do-deserto (Schistocerca gregaria) é a mais perigosa das doze espécies de saltaricos. Vive na faixa semidesértica de 20 países da África Ocidental até à Índia numa extensão de cerca de 16 milhões de quilómetros quadrados. Um enxame de gafanhotos-do-deserto pode ter cerca de 80 milhões de insectos por quilómetro quadrado e pode destruir num só dia os alimentos necessários para 35 mil pessoas.

26 de fevereiro de 2020

CARTA DOS GUMUZ


Queridos familiares, amigas e amigos,

Espero que este e-mail vos encontre bem. Espero que toda a família esteja bem.

Graças a Deus estou bem.

Começo a sentir o forte calor, quase sempre de 40 graus que aqui se faz sentir. O calor que não se compara ao mesmo calor que sinto quando visito famílias, brinco com crianças ou trabalho com esta gente maravilhosa. Como dizia São Pedro, “como é bom estar aqui” (Mateus 17,4).

Continuo envolvido na Biblioteca. Graças a Deus e à generosidade de algumas pessoas, foi possível comprar mais alguns livros para a Biblioteca. Os estudantes que aparecem podem ter acesso aos livros escolares básicos. Duas senhoras portuguesas, que aqui vieram trouxeram calculadoras e outro material. Muitas vezes procuro ter cadernos escolares e canetas e oferecer àqueles que não têm possibilidades económicas, mas que revelam grande interesse. Sempre que solicitam algum livro em específico tentamos comprar. O seu tempo não é como o meu e posso ter dias em que me aparecem dois ou três como ter dias em que me aparecem 20. Mas, como os compreendo. Jovens, com trabalho a fazer no campo, a estudar, com família e alguns com dois ou três filhos, já. Como poderão ter tempo para a Biblioteca. A verdade é que arranjam e quando vêm estudam, há silêncio e isso deixa-me bastante alegre.

Continuo a ter um grupo fiel nas aulas de inglês e de informática. Eles gostam, têm desejo de aprender e eu, não sendo um especialista, tenho muito gosto em ensinar-lhes.

Tenho um grupo de estudo da Bíblia, em inglês, com quatro catequistas. Lemos a Bíblia, explico palavras em inglês, meditamos os textos, por vezes vemos filmes religiosos em inglês. Sinto-me muito feliz com eles.

Costumo ir brincar na escola que ainda alberga famílias refugiadas. Comprámos uma bola e isso é suficiente para reunir os jovens e para desfrutarmos de bons momentos.

Duas vezes por semana, no mínimo, acompanhamos os catequistas nas aldeias, visitamos famílias, brincamos com as crianças. São momentos que nos enchem o coração. Estar com as pessoas é fundamental na vocação missionária.

Com os Missionários Combonianos, com quem vivemos, todos os dias temos missa às 6.30 e todos os sábados fazemos uma hora de adoração eucarística. Às quintas-feiras vamos a casa das Irmãs Missionárias Combonianas, também com elas, temos uma hora de adoração eucarística e jantamos juntos. Às quartas-feiras eu e o David temos oração comunitária.

Apesar de todo este trabalho é desejo dos Leigos Missionários Combonianos, eu e o David (meu companheiro de comunidade) incluídos, iniciar uma nova presença missionária entre o povo Gumuz. Não somos os primeiros LMC na Etiópia, mas somos os primeiros a trabalhar e a viver entre os Gumuz.

Assim sendo, estamos a visitar as comunidades, falamos com as pessoas, analisamos a situação concreta de cada vila e das famílias.

Infelizmente o carro que temos não nos permite esse trabalho contínuo. As estradas são péssimas e requerem uma carrinha razoável. Depois de um mês, só agora retomámos a brincar com as crianças das aldeias pois o nosso carro estava no mecânico, o que acontece com muita frequência. Para além de que continuamente estamos a pagar essas despesas. Será necessário comprar um novo carro que nos permita continuar o nosso trabalho.

Para além disso é nossa intenção construir uma casa numa das aldeias, junto das pessoas, e viver com elas. Juntamente com a casa iremos iniciar projetos. Ainda estamos a definir os projetos mas a construção de um jardim de infância para as crianças que passam o dia sozinhas, sem qualquer adulto e de um Lar de estudantes, que permita a alunos irem à escola, quando muitos não podem ir ou fazem 30 quilómetros diários para irem à escola são os projetos que nos parecem mais viáveis, tendo em conta o que já analisámos e ouvimos de jovens e adultos.

Infelizmente para realizar estes projetos será necessário dinheiro. Por isso peço a vossa oração para que possamos realizar a vontade de Deus junto deste povo lindo. Caso saibam de ONGs que financiam este tipo de projetos, informem-nos, por favor. Toda a ajuda, por mínima que seja, é preciosa para Deus. E como sei que não estou sozinho aqui, tenho a certeza que estais comigo!

As adversidades por vezes aparecem, tais como tifo ou tifoide, mas estou alegre por ter sido enviado para este lugar onde Deus já se encontrava no meio destas pessoas.

Estou quase a completar um ano neste país lindo! Não duvido disso! É um país lindo! Estou feliz! Sinto-me feliz! Vivo feliz! Isso não significa que, não haja sofrimento. Significa que, apesar de todas as contrariedades que aparecem, vale a pena estar aqui, significa que Deus nos fortalece e nos dá os instrumentos necessários para realizar a sua vontade!

Continuo a ter-vos presentes na minha oração, continuo a sentir a vossa amizade bem perto de mim, continuo a aprender que a distância não quebra laços antes os fortalece, recordando-me diariamente o quanto a vossa amizade e amor são importantes para mim.

Beijinhos e abraços deste amigo que muito vos quer,
Pedro Nascimento
Gil Gel Belez - Etiópia

5 de fevereiro de 2020

NOVO SUDÃO



A Primavera sudanesa parece consolidar-se.
Os cristãos do Sudão voltaram a celebrar em público o Natal depois de oito anos de pausa. O Governo repôs o feriado natalício que Omar al-Bashir suspendeu em 2011 por causa da independência do Sudão do Sul. O primeiro-ministro, Abdallah Hamdok, tuitou: «Este é o Sudão com que sonhamos. Que respeita a diversidade e permite que todos os cidadãos sudaneses pratiquem a sua fé num ambiente seguro e dignificante.»

A Primavera sudanesa está a consolidar-se depois da ameaça de um Inverno de violência quando os soldados da RSF, a Força de Apoio Rápido, tomaram conta das ruas da capital, apoiados pela Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. As milícias baggara atacaram os civis que bloqueavam as ruas de Cartum em Junho passado e mataram cerca de 130 pessoas.

O Conselho Militar de Transição e o movimento civil Forças para a Liberdade e Mudança fizeram um acordo de partilha do poder apadrinhado pelos países vizinhos a 17 de Agosto de 2019, abrindo caminho para um governo civil de transição de 39 meses chefiado pelo economista Abdallah Hamdok. O Governo, que tomou posse no início de Setembro, está empenhado em criar as bases para um Sudão novo, multiétnico e democrático.

O comboniano espanhol Jorge P. Naranjo vive no Sudão há doze anos e dirige a Faculdade Comboni de Ciência e Tecnologia em Cartum. Diz que o Governo arregaçou as mangas e luta para levantar o país, que parecia cair a pique, sem solução.

«O director-geral do Currículo Educativo anunciou no início de Dezembro as reformas sobre as quais a sua direcção-geral está a trabalhar e que devem estar prontas para o próximo ano lectivo, que começa em Junho de 2020. O Alcorão, que estava presente em múltiplas horas semanais de religião e em todas as outras disciplinas, vê-se limitado a duas horas nas aulas de religião e à disciplina de língua árabe», escreve.

Em Outubro, o Governo retirou 10 mil soldados que combatiam no Iémen na coligação saudita e mantém negociações com os movimentos rebeldes mediadas pelo Sudão do Sul. As agências humanitárias podem finalmente assistir as gentes dos Montes Nubas e o Estado do Nilo Azul, áreas fustigadas pela aviação militar desde meados de 2011. O Darfur, contudo, continua tenso e com mais de dois milhões de deslocados.

O NCP, o partido de Al-Bashir, foi desmantelado e o ex-presidente julgado por ter 90 milhões de dólares em casa. Foi condenado a dez anos de prisão, mas tem mais de 70 anos e vai passar apenas dois numa instituição correccional. Contudo, continua à mercê dos juízes, porque foi acusado de crimes no Darfur juntamente com mais 52 figuras do seu regime. Aliás, um grupo de darfurianos quer que o Governo o entregue ao Tribunal Penal Internacional para ser julgado por genocídio, crimes de guerra e contra a humanidade.

A crise económica que provocou a queda do regime de quase trinta anos de al-Bashir continua por resolver e o Governo promete mudanças no sistema bancário coordenadas pelo Banco Mundial. Mas o comboniano português P.e Feliz Martins, que está no Sudão desde 2006, é optimista: «Isto vai muito, muito devagar. Passamos muitas horas por semana nas filas do pão e do combustível. Mas ouvem-se palavras bonitas e vê-se muito bom esforço nos grandes do Governo. A democracia é uma educação, uma cultura que leva muito tempo e paciência.» Que assim seja!

4 de fevereiro de 2020

VIVE COM ALEGRIA A DOAÇÃO


Ontem as comunidades combonianas da Maia e VN de Famalicão fizeram o retiro mensal. O pregador propôs que rezássemos a chamada à santidade a partir da exortação apostólica Alegrai-vos e exultai do Papa Francisco.

O Papa argentino escreve: «Se és consagrado sê santo, vivendo com alegria a tua doação».

Esta frase singela de 11 palavras acertou-me em cheio e quero fazer dela o horizonte do resto da minha vida.

Viver com alegria a doação!

Viver: sem entrar em pré-reforma, apesar de aos 60 na piscina pagar um bilhete mais barato.

Com alegria: este é o dom maior que o Senhor me fez – a alegria. 

Os anos, as desilusões, os desgostos, as fragilidades e outras coisas podem contaminar a alegria? Não quero.

A doação: amar é dar-se. Começo aos 60 uma nova história de amor: não sei com quem, onde nem como, mas estou pronto. Deus provê!

Em cada célula do meu ser ressoa um grande «bem-haja» pela vida, pela música, pela cor, pela beleza, pela dor, pelo amor.

Obrigado ao Deus unitrino por me amar e me chamar à vida e à sua missão. Obrigado aos meus pais por me terem criado com tanto amor e carinho. Obrigado a todos os que encarnam a ternura de Deus por mim. Sois tantas e tantos. Sou um sortudo!

Obrigado pelas mensagens de parabéns que já recebi e que vou receber. Amo-vos!

31 de janeiro de 2020

«CONSAGRADOS PARA EVANGELIZAR»


SEMANA DO CONSAGRADO – 2020
MENSAGEM

Consagrados para evangelizar, o lema escolhido para a Semana do Consagrado de 2020, aponta para a principal razão de ser de cada Instituto, Congregação ou Sociedade de Vida Apostólica. A Igreja, na sua pluralidade de expressões, existe para evangelizar na fidelidade ao mandato de Jesus Cristo e às inspirações do Espírito Santo.

Na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, o Papa Francisco convida os cristãos para uma nova etapa evangelizadora. Esta prioridade da vida da Igreja, para ser concretizada de modo eficaz, precisa de se revestir de alegria e de novidade. A alegria irradiada por quem se reconhece salvo, amado e escolhido por Deus. A novidade que acontece «sempre que procuramos voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho», condição para que possam despontar «novas estradas, métodos criativos, formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras cheias de significado para o mundo atual» (EG, 11).

As várias formas de Vida Consagrada têm um contributo específico e decisivo a dar neste processo evangelizador. Tal como sucedeu nas grandes vagas da evangelização, em que foi essencial o papel das comunidades monásticas, das ordens e dos institutos missionários, também agora, essas e outras formas de consagração se revestem de grande importância. A especificidade do contributo dos consagrados e consagradas para a evangelização «consiste, primariamente, no testemunho de uma vida totalmente entregue a Deus e aos irmãos (…) Ela mostra eloquentemente que quanto mais se vive de Cristo, tanto mais se pode servi-Lo nos outros, aventurando-se até aos postos da vanguarda da missão e abraçando os maiores riscos» (VC, 76).

A missão evangelizadora de cada consagrado, assumida segundo o projeto da própria congregação ou instituto e em diálogo e comunhão com outras realidades eclesiais, é verdadeiramente profética. Ela assenta no testemunho de uma vida centrada em Deus, confirmada na radicalidade do seguimento de Jesus e no serviço à Igreja. O próprio estilo de vida comunitário e a vivência da pobreza, castidade e obediência são sinais proféticos que interpelam o mundo e disponibilizam para a missão.

A Vida Consagrada é um dos maiores tesouros da vida da Igreja. As suas variadas expressões são prova de que, ao longo dos séculos, homens e mulheres crentes, iluminados pelo Espírito e cheios do fogo do amor Deus, souberam encontrar instrumentos adequados para a evangelização. No nosso tempo é necessário o discernimento para perceber o que Deus pede a cada pessoa e instituição. Um discernimento que inclui a escuta da Palavra de Deus, a docilidade ao Espírito e a capacidade de ler e interpretar os sinais dos tempos. Mesmo que a realidade de hoje se afigure complexa, os desafios imensos e os meios limitados, nenhuma destas circunstâncias dispensa que a motivação evangelizadora seja o grande objetivo de todas as opções.

A Semana do Consagrado é ocasião para conhecer melhor esta realidade tão rica e multiforme da vida da Igreja. É também oportunidade para reconhecer e valorizar o trabalho que os vários institutos e congregações desenvolvem ao serviço da sociedade, nos mais variados domínios. Mas é sobretudo momento para dar graças a Deus pelo testemunho e dedicação dos consagrados e consagradas na ação evangelizadora da Igreja, e para pedir que o Senhor a todos renove no entusiasmo pela missão.

+António Augusto de Oliveira Azevedo
Presidente da Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios

28 de janeiro de 2020

AUSCHWITZ NUNCA MAIS









Visitei o campo da morte
peregrino pesaroso,
penitente contrito
de coração aflito
no lugar da grande desumanização
dos dois lados do arame farpado,
dos dois lados do fuzil apontado.
Como eu, tantos outros,
novos e velhos
caminham cabisbaixos,
rostos crispados pela memória da morte
nas alamedas da sorte
entre blocos de desnorte,
dobrados pelas milhões de vidas ceifadas,
pelas almas penadas.
O trabalho liberta? A morte liberta?
Não! Só a Verdade nos faz livres
nos diz iguais.
Os óculos, os utensílios,
os cabelos expostos
recordam os milhões de irmãos que ali finaram
vítimas da tirania louca da raça pura.
Os fornos esfriaram
mas os espíritos dos corpos
reduzidos a fumo e cinza
pairam vivos na memória,
na consciência coletiva,
na história.
A carruagem dos animais,
queda, parada junto ao cais,
na paragem derradeira,
traiçoeira,
grita Auschwitz nunca mais.
Compungido, dobro a cabeça 
em silencioso respeito
neste campo santo,
lugar de pranto e de espanto,
porque eu sou vítima e algoz,
sou manso e sou feroz,
sou ternura e sou atroz.

23 de janeiro de 2020

ONDAS


As ondas deslizam, enrodilhadas,
sobre o chão líquido
da maré baixa.
Desenrolam-se com estrondo
contra a areia fina
que cicia com a carícia molhada.
Esse vai e vem telúrico
carrega-me a alma,
liga-me ao útero da vida
pelo cordão da brisa salgada.
As ondas devolvem à orla
despojos de náufragos,
conchas partidas que já foram lares,
troncos e ramos de árvores passadas,
restos do lixo
despejado no grande cesto salgado,
detritos de sonhos desfeitos
contra as escarpas da realidade.
Deus fala-me
através da paleta de cores vivas
do sol poente,
rodela de fogo quente
que mergulha, preguiçosa, no mar
sem se molhar
sem se diluir
para voltar a nascer.
Ondas do meu contentamento
levai-me no vento
para lá do horizonte,
até à minha Fonte.

8 de janeiro de 2020

A VIDA É BELA, MAS CURTA


"Estou totalmente imobilizado, mas sinto e vivo uma plenitude de mente e coração e sonho uma realização que antes desconhecia. Esta cadeira de rodas tornou-se para mim o melhor púlpito.”

O ano de 2010 marca uma mudança na vocação e missão do padre Manuel João Pereira Correia, missionário comboniano natural de Penajoia, Lamego. Ordenado sacerdote a 15 de agosto de 1978, ele vive os primeiros anos de sacerdócio na comunidade comboniana de Coimbra, dedicando-se à animação missionário e à pastoral juvenil. Em 1985 é destinado ao Togo, na África ocidental, onde trabalha até 1993, ano em que é chamado a Roma para coordenar a formação no instituto comboniano. Regressa ao Togo no ano de 2002 e é eleito superior provincial dos combonianos no Togo, Gana e Benim.

No fim do ano de 2010 vem a reviravolta inesperada, assim descrita por ele aos amigos: “No próximo dia 28 de dezembro deixarei o Togo e regressarei à Europa, sem saber o que me espera. A doença que me foi diagnosticada (esclerose lateral amiotrófica) segue o seu curso, levando-me com ela (de bom ou de mau grado!), convidando-me a um olhar diferente sobre a vida. Revisitando lugares e pessoas, a mente foge-me, por vezes, para o passado, recordando o que foi a primeira vez da minha chegada à missão como jovem missionário de 34 anos, cheio de sonhos e entusiasmo. Já lá vão quase 25 anos! Tudo então era novo para mim. Lancei-me de corpo, alma e coração, nesta aventura. As dificuldades iniciais de adaptação ao clima, o esforço para aprender a língua e os costumes, o empenho exigido pela nova cultura... não esmoreceram o meu entusiasmo. Hoje muita coisa mudou. Mudou a África, as suas gentes, o rosto da igreja e dos missionários... E mudei eu também, naturalmente!”

A mudança em ato vai afastá-lo para sempre da África. Ele interpreta-a como uma passagem de testemunho: “É grande sem dúvida a satisfação de ver outros recolherem a tocha do ideal missionário que animou a nossa existência, prontos a continuar agora a nossa tarefa. Mas regressar para ficar é sempre um momento doloroso para um missionário cuja pátria e vida é a missão.”

Olha para este regresso forçado à Europa como uma nova oportunidade e um recomeço, assim descrito aos amigos: “Regresso sereno, convencido que o Senhor continuará fiel à promessa que me fez: Eu estarei sempre contigo para dar sentido à tua vida! Regresso convencido que... o melhor está ainda para vir! Como o vinho do milagre de Jesus nas núpcias de Caná! Por isso termino a minha missão em África louvando o Senhor e acolhendo o seu convite a ... repartir de novo! Com o meu passo incerto, da doença, revejo-me criança a aprender a caminhar. Aonde me levará o caminho não sei. Mas sinto que Deus me convida à confiança, a abandonar-me nas Suas mãos.”

O caminho é determinado pela natureza da doença, que avança e lhe retira os movimentos, a começar pelos membros inferiores. O P. Manuel João é destinado a Roma, para fazer parte da equipa que coordena a formação permanente do instituto. Ele resiste ao percurso da doença, movimentando-se com muletas e cadeira de rodas, superando os prognósticos médicos. Mas em 2016 tem que deixar Roma para, como ele diz “ser transferido para uma comunidade onde possa ter uma assistência melhor” já que a sua “inseparável companheira, a ELA (esclerose lateral amiotrófica) não o deixa.” Vai para Verona para, nas suas palavras “responder a mais uma chamada de Deus a deixar as minhas seguranças e partir, mais uma vez, em missão. Trata-se da penúltima missão, já que a última ser-nos-á conferida no Paraíso. Disponho-me a vivê-la com o empenho e a generosidade dos trabalhadores da última hora da parábola evangélica.” Aos amigos, assegura: “Não parto sozinho, levo-vos no coração. Estou-vos agradecido pela amizade e oração, que me obtiveram o milagre da serenidade e da alegria, que me têm acompanhado na doença.”

No ano de 2018 outro momento de viragem marca o seu caminho, assim descrito aos amigos: “Há seis meses, tive uma crise respiratória, fui hospitalizado de urgência, durante quatro longas semanas, e foi-me feita a traqueotomia. Agora respiro ligado a uma máquina e é com dificuldade que consigo fazer-me compreender. De todos os modos, não perdi o bom humor e, apesar dos transtornos próprios da doença, estou bem! Encontro-me sereno, um dom que Deus me concede graças a vós. É verdade que me encontro sempre mais limitado no meu corpo, agora praticamente paralisado, mas não me falta o sorriso e a boa disposição, louvando a Deus cada dia pelo dom da vida. Não podendo usar os dedos para escrever, ou a voz para ditar, tive que aprender a usar o apontador ocular, isto é, estou a escrever-vos... com os olhos! Maravilhas da técnica!”

A esclerose lateral amiotrófica é uma doença neurológica, ao momento, incurável. Paulatinamente retira à pessoa os movimentos musculares, reduzindo o corpo a uma prisão do espírito. Mas o espírito voa e o coração continua a alargar-se á medida dos sonhos, confidencia o P. Manuel João: “Quem não sentiu renascer no seu coração a criança que continua a acreditar nos sonhos? O nosso coração é um poço inesgotável de desejos! Pena é que neles acreditemos apenas por alguns momentos.” É pelos sonhos e desejos que começamos esta nossa conversa, numa tarde de fim de verão, em Verona.


P- Costumas dizer que a vida é bela, mas é curta para realizar os nossos sonhos. Qual é a importância do sonho?

R- “Para mim, o sonho dá uma orientação, o sonho é algo que está diante de nós e nos faz crescer. É uma meta. Naturalmente, do ponto de vista humano, e também do ponto de vista da fé, o sonho é a vontade de crescer, de ir adiante, de não se contentar com a banalidade, de alimentar o desejo de crescer na aventura da vida. O sonho é, assim, um respiro de futuro.

Do ponto de vista humano, o sonho é um projeto, algo que nos colocamos diante como meta. Do ponto de vista da fé, há uma transformação porque o sonho é apelo de Deus, que nos chama a mudar de perspetiva, a passar do nosso projeto à sua promessa... Não sou eu que ponho diante de mim uma meta (com o meu sonho...); mas é Deus que pro-mete, põe diante de mim o seu projeto, o seu sonho. Eu passei a olhar para a minha doença e situação, como um projeto, uma promessa que Deus me pôs diante... A vocação missionária é sempre uma promessa de Deus.”

P- Para muitas pessoas a doença põe em crise a relação com Deus. Como te relacionas com Deus, no processo da tua doença?

R- “Deus concedeu-me a graça de aceitar esta prova, e com a aceitação, a graça da serenidade, que sempre me acompanha e que mantenho ao fim de cada dia. Mas claro, também me perguntava: porque é que isto aconteceu a mim? Mas também sempre me respondia: e porque é que não devia acontecer a ti? Porque é que acontece a outros e a ti não devia acontecer? Nesse sentido, percebi que não sou privilegiado, sou como todos os demais e também a mim aconteceu. Isto faz-me percorrer um caminho de comunhão e solidariedade com todos aqueles que sofrem, de uma maneira especial com os doentes da esclerose lateral amiotrófica.”

P- Tiveste um sonho missionário, na tua adolescência e juventude, um sonho cheio de ação. Como vives a vocação nesta situação de imobilidade?

R- “Às vezes vem-me de pensar no que podia fazer se não tivesse esta doença que me conduziu à imobilidade total. Mas eu penso que esta é a condição, este é o lugar, onde eu vivo a minha vocação missionária e que a minha vida é mais fecunda. Com esta doença estou num pequeno espaço, mas posso semear e viver com fecundidade apostólica. Deus pode fazer, e faz, coisas grandes mesmo neste pequeno espaço em que vivo. Experimento que, pequenas coisas que eu antes pouco valorizava, como a palavra, o sorriso, a serenidade, a capacidade de escuta e empatia... me surpreendem também a mim como meios de graça que Deus usa para tornar a minha vida fecunda. Esta cadeira de rodas tornou-se para mim o melhor púlpito.”

P- O que é que faz um missionário que nada pode fazer, além de pensar?

R- “Graças a Deus, a doença comigo foi muito benévola, porque apesar da minha situação de imobilidade posso continuar a ler e escrever através do computador. Ao início, pensei que a minha vida seria breve, olhando às estatísticas. Mas a verdade é que já superei a média e já vou quase em dez anos.

Foi uma surpresa, e nos primeiros anos pensei que tinha que aproveitar bem a vida, qualificar bem o meu tempo, com o desejo de pensar e aprofundar valores. O tempo permitiu-me revisitar o passado e transformar tudo ... como se fosse uma sementeira em que a semente semeada morre para dar fruto. Então a revisitação da minha vida foi ocasião para eu agradecer a Deus tudo o que eu pude fazer com a Sua ajuda ...”

P- O sonho e a realidade ... como é que se vê o mundo da altura de uma cadeira de rodas, o teu lugar de observação?

R- “Uma coisa que me acompanhou desde o início, certamente como graça, foi descobrir que toda a circunstância na vida pode ser uma oportunidade. Este pensar foi uma graça, a chave que me abriu a porta a uma vida motivada, especialmente nos primeiros anos da doença.

No início, a doença é como um muro que corta completamente todas as perspetivas de vida, os sonhos que se tinham, as realizações que se queriam fazer. A doença, de certo modo, cancela toda a promessa. Pouco a pouco entrou-me a convicção que, em qualquer circunstância, a vida oferece-nos sempre novas oportunidades. Talvez possa parecer que a doença nos rouba as possibilidades que sonhávamos. Mas a vida apresenta-nos outras possibilidades, oportunidades que, no final, se revelam muito mais fecundas.

Para mim, foi como se uma porta se abrisse neste muro negro, impenetrável, que era a doença ... um muro que à direita, à esquerda, por cima ou por baixo, parecia um obstáculo não superável. A descoberta desta porta, na obscuridade do muro, foi uma graça, a descoberta de um mundo de oportunidades que nunca tinha sonhado e que me permitiu olhar a vida de uma outra perspetiva, viver num horizonte cheio de surpresas.”

P- Podes voar com o espírito, mas no corpo estás dependente dos outros em tudo. Como vives esta dependência?

R- “Às vezes cansa-me um pouco esta situação. Mas ajuda-me muito o pensar que Jesus viveu trinta anos de vida escondida e só três de vida ativa. E o momento supremo da sua fecundidade apostólica foram os três dias da sua paixão e morte, quando ele se consignou, se abandonou nas mãos dos outros. Ao culminar a sua vida pública, o momento supremo e definitivo foram dias de passividade... que pode ser fecunda e mais eficaz que a atividade.

A vida do homem está cheia de atividade, orgulhamo-nos do que fazemos. Mas não podemos ignorar que é quando deixamos que Outro faça através de nós, que somos realmente fecundos, de uma fecundidade que nos ultrapassa. Na nossa passividade, ajudamos, também, os outros a crescer na sua capacidade de serviço e de amor.”

P- Felizmente consegues acompanhar a vida da Igreja e do mundo. Como é que vês a vida da igreja do nosso tempo, de modo particular a igreja missionária?

R- “A primeira palavra que me vem à mente é crise. Vivemos um momento de crise, incluso na vida missionária. Mas este momento é também uma nova oportunidade. Os tempos são ainda de obscuridade e de alguma confusão. Mas eu creio que esta crise, que é de purificação, será de regeneração, de primavera para a Igreja.”

P- O teu primeiro trabalho foi com os jovens. Os jovens parecem ter medo da doença, do sofrimento, do empenho de uma vocação para toda a vida, como a missionária... Como os vês?

R- “Nessa altura, a seguir à minha ordenação sacerdotal, eu era também jovem. Foi um tempo (os anos 70 do século passado) de muito entusiasmo. Eu acho que os jovens que encontrei nessa primeira experiência apostólica, se encontravam, de certo modo, numa situação diferente da atual. Jovens com entusiasmo, com garra, que sonhavam a transformação das suas vidas e da sociedade, que sentiam a fascinação da vocação missionária, embora com as debilidades e incertezas de todos os jovens, dúvidas que também eu tinha experimentado na minha vida e na minha história.

A situação atual é diferente: os jovens vivem num contexto social, das redes sociais, mais individualista, amorfo e dispersivo, que não os ajuda a identificar-se com um projeto. A vida e a sociedade de hoje apresentam uma variedade infinita de possibilidades. Não se trata de projetos que se materializem... São possibilidades que permanecem ao nível de ilusões e os jovens não conseguem agarrar-se a um projeto concreto e perseguir um objetivo de vida.

Há uma grande dispersão e isso, junto à falta de uma perspetiva de fé, leva a que a vocação missionária, como qualquer outra vocação que implique um compromisso para toda a vida, se tornem, de certa maneira, projetos inconcebíveis. Eu creio que hoje só se pode colocar a proposta da vocação num contexto de fé, tanto a vocação missionária como a vocação ao matrimónio cristão.

Os jovens hoje têm medo do empenho, como nós também tínhamos... só que nós tínhamos mais pontos de referência, no entusiasmo e nas motivações da sociedade da igreja do nosso tempo. Os jovens que conheci em África vivem em contextos mais difíceis, e nesse sentido têm mais capacidade para abraçar o sofrimento e lutar.”

P- Sentes-te realizado, como pessoa, como sacerdote e missionário?

R- “No Evangelho, Jesus diz-nos que Deus nos visita de três maneiras.

Em primeiro lugar, como noivo / esposo das nossa vidas, aquele que realmente pode colmar a nossa sede de amor e felicidade. O bonito e desafiante da vida é viver na sua expectativa, prontos para O acolher como Amor da nossa vida.

Em segundo lugar, como senhor / patrão, que nos confia os dons da vida para os fazermos crescer e frutificar, para nossa felicidade e para a felicidade dos outros. É generoso connosco, mas vem para nos pedir contas. O desafio, e o bonito da vida, é vivermos com sentido de responsabilidade, com mãos abertas e operosas, para receber e compartir, acolher e fazer crescer os nossos dons.

Em terceiro lugar, o Senhor visita-nos como ladrão que nos pode surpreender e roubar-nos o que temos ou pensamos ter. Esta imagem sugere vigilância e acentua a surpresa da Sua vinda e sempre me provocou medo quando refletia sobre ela.

Com a doença, o Senhor visitou-me revestido de ladrão, que me foi roubando os movimentos, primeiro os membros inferiores, depois os superiores, os movimentos da cabeça... Mas Ele é bom e atua como bom ladrão, que tira uma coisa para deixar outra ainda maior. Desde o começo, tive o dom de aceitar a doença com serenidade e, pouco a pouco, descobrir que, se o Senhor me tirava alguma coisa, deixava-me outra maior; esvaziava-me de algo para me encher D’Ele mesmo, dos Seus dons. Agora estou totalmente imobilizado, mas sinto e vivo uma plenitude de mente e coração, de afeto e espírito, e sonho uma realização que antes desconhecia.”

Entrevista de: Manuel Augusto Lopes Ferreira, missionário comboniano

7 de janeiro de 2020

AREIAS PERIGOSAS


A extracção ilegal de inertes põe em perigo vidas e ecossistemas.

A areia pode ser um dos elementos mais humildes da Natureza, mas é, depois da água e antes dos combustíveis fósseis, o recurso natural com mais procura mundial. É usada da construção civil à alta tecnologia, na produção de ecrãs para telemóveis e chips para computadores. Tornou-se uma das mercadorias mais escassas e cobiçadas, sendo o terceiro negócio ilegal global mais lucrativo depois da indústria da pirataria e falsificação e do tráfico de drogas.

O crescimento das cidades e das infra-estruturas exige cada vez mais areia para a construção civil. A China e a Índia são os mercados mais vorazes.

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) denunciou que a extracção de areia dos leitos dos rios e dos fundos marinhos está a causar problemas ecológicos muito graves e deu origem a uma máfia que controla o comércio da sílica no Camboja, Vietname, Índia, Quénia e Serra Leoa.

«A escala do desafio relacionado com a extracção de areia e cascalho torna-o num dos maiores desafios de sustentabilidade do século XXI», revelou o PNUMA num relatório recente. O organismo calcula que o mercado consome por ano entre 40 e 50 mil milhões de toneladas de inertes com impactos ambientais gigantescos. A areia usada só em 2012 dava para construir um muro de 27 metros de largura por outros tantos de altura ao longo da linha do equador.

Com as minas esgotadas, a indústria tira a areia dos leitos dos rios e dos fundos marinhos. As praias de Marrocos, Quénia, Moçambique e África do Sul estão a ser afectadas pela extracção – muitas vezes ilegal – de areias para a construção local e para exportação.

A Espanha importa areia de Marrocos para refazer as praias das ilhas Canárias e uma empresa chinesa está a explorar areias em Nagonha, na costa moçambicana, exploração que, segundo a Amnistia Internacional, está a pôr em risco a subsistência da comunidade local.

No Quénia, a reconstrução dos mais de 600 quilómetros da ligação ferroviária entre a capital e Mombaça, e a extensão desse porto de mar, usou cinco milhões de toneladas de areias dragadas do fundo do oceano. A extracção põe em perigo as praias de Diani, um dos destinos turísticos mais frequentados no Sul do país, e o recife de coral da área, afectando ainda alguns locais de desova das tartarugas marinhas.

A extracção ilegal de areia nos vales de Durban, na África do Sul, está a pôr em perigo os rios locais, o abastecimento de água e a orla marítima de Golden Mile, uma das atracções turísticas mais famosas da zona. Pelo menos onze crianças morreram afogadas nos charcos deixados pelos escavadores de areia e há crianças a operar máquinas pesadas que, além de esventrarem os rios, deixam uma pegada de poluição forte.

Sem areia, não se pode construir. Infelizmente, a dos desertos é demasiado macia para ser usada no betão. Assim, é necessária uma política que regule a exploração sustentável da sílica com estudos de impacto ambiental e o recurso a fontes alternativas – incluindo a moagem de granito e a reciclagem de entulhos – para proteger ecossistemas, florestas, leitos dos rios e praias, que são o ganha-pão para muitas comunidades. O Uganda, que não tem mar, já tem legislação para preservar os ecossistemas da exploração da areia.

22 de dezembro de 2019

NATAL É FRATERNIDADE


“Porquanto um menino nasceu para nós, e o seu nome é: 
Conselheiro-Admirável, Deus herói, Pai Eterno, Príncipe da paz. 
Todos nele se sentirão abençoados; todos os povos o hão-de bendizer!!
(Is 9,5; Sl 72,17) 

Prezados Confrades, 

Em nome da Direção Geral e do Instituto desejamos-lhes um Santo Natal e um Ano novo repleto de graça missionária. 

Contemplar o mistério da encarnação de Deus na nossa história é fazer memória de um Deus que se manifestou com um rosto humano concreto, nascido num determinado tempo e lugar. A sua encarnação indica-nos que a salvação passa através do amor, do acolhimento, do respeito por cada pessoa na sua diversidade étnica, de língua, cultura, mas todos irmãos e humanos. 

O Ano da Interculturalidade que temos vivido, refletido, rezado e celebrado confirma que as nossas diferenças não são um mal ou um perigo, mas uma riqueza. É como o artista que quer fazer um mosaico: precisa de ter à disposição muitas pedrinhas de muitas cores e não o contrário. Assim somos nós, na nossa individualidade e na nossa diversidade, um cenáculo de apóstolos como dizia São Daniel Comboni: “Este Instituto torna-se, pois, como um pequeno cenáculo de apóstolos para a África, um ponto luminoso que envia até ao centro da Nigrícia tantos raios quantos os solícitos e virtuosos missionários que saem do seu seio” (E 2648). 

A comunidade, o cenáculo, é o projeto, maneira de ser, realização, mas o objetivo é o Reino, entendido como um modo de vida completamente novo, entre as pessoas mais necessitadas. Comboni fala de raios que emanam do centro do cenáculo e brilham, levando o calor onde é necessário. 

Dessa comunidade que vive como cenáculo de apóstolos é que emanam os raios luminosos do testemunho da nossa vida, da nossa fé e que é a luz do Menino Jesus que recebemos como dom, e o levamos a todos os povos através do serviço missionário que realizamos como Instituo, na Igreja. É o ardor do coração do Bom Pastor que atinge a humanidade inteira levando o calor aonde for preciso, aos mais pobres e abandonados. 

É o testemunho da “nova criação, novos céus e nova terra onde habita a justiça, que justificando cada pessoa pela graça, os torna irmãos, abolindo as fronteiras, os muros, o ódio... Em Cristo não existe mais estrangeiros ou hóspedes, mas todos co-herdeiros e co-participantes da mesma graça: o dom do seu Espírito, com o qual Deus cria a humanidade nova, uma humanidade imensa que ninguém podia contar, composta de pessoas de «todas as nações, tribos, povos e línguas», que reconhecem que a salvação pertence a Deus (não a uma instituição) e ao Anjo (Ap 7,9-10). É o fruto maduro do dom do Espírito doado em Pentecostes” (Carta sobre interculturalidade). 

Sem este dom da fraternidade que o Menino Jesus nos trouxe, os nossos esforços por um mundo mais justo têm o pavio curto, e os projetos bem organizados correm o risco de se tornarem estruturas sem alma. Por isso, o nosso desejo de um Feliz Natal é um desejo de fraternidade. Fraternidade entre as pessoas de todas as nações, culturas, línguas, povos. Fraternidade entre nós. Fraternidade entre pessoas capazes de se respeitarem e de escutarem umas às outras. 

Que este Natal nos faça redescobrir os laços de fraternidade que nos unem como seres humanos a todos os povos. Que o Senhor encontre nos nossos corações uma casa acolhedora, a Casa Comum, disposta a deixar que a habite sempre para acolher a todos. Que Ele seja a Luz que guia os nossos passos no nosso caminhar em direção aos irmãos. 

Boa Festa de natal a todos. 

Conselho Geral

8 de dezembro de 2019

OBRIGADO!


Nestes seis anos de serviço missionário como provincial disse e escrevi muitas palavras. Kalamta ketir, dizem os árabes. Mas há uma que tenho que repetir sem parar: OBRIGADO!

Primeiro, obrigado ao Deus unitrino, porque esteve sempre comigo de tantas formas e através de tantas encarnações. De facto, «de tudo sou capaz naquele que me dá força» (Filipenses 4, 13). Esta frase de Paulo condensa a minha experiência de vida desde os votos perpétuos em maio de 1986 e ganhou novos matizes neste sexénio.

Depois, obrigado a cada um dos coirmãos pela confiança depositada em mim através da eleição para um cargo que não queria, pelos conselheiros que me deram, pela cooperação imensa nestes seis anos de liderança. Foi um serviço sinodal: caminhámos juntos à procura de respostas para os apelos do Espírito, o ator da missão, à Província.

Aceitei a vossa escolha com muita trepidação e em obediência. E vivi seis anos muito interessantes, de crescimento, de descoberta, em saída. Finalmente, tive o tempo que tantas vezes ansiei para ler, pensar, aprofundar, rezar, ser, estar…

Houve horas difíceis, mas também senti solidariedade e preocupação pelo bem comum.

Peço desculpa por nem sempre ter estado à altura da responsabilidade que me confiastes. Sei que nem sempre tive a disponibilidade afectiva para ser um irmão maior presente e próximo e por isso peço a tua misericórdia.

No momento em que escreve este bilhete de agradecimento não sei o que o Conselho Geral me tem reservado. Os irmãos maiores sabem que o meu coração quer voltar à Etiópia e que não gostaria de ir para Roma.

Toca-me muito a palavra do Senhor a Abraão: «Deixa a tua terra, […] e vai para a terra que Eu te indicar. […] Abençoar-te-ei, engrandecerei o teu nome e serás uma fonte de bênçãos» (Génesis 13, 1-2).

Vai e serás abençoado, serás bênção!

Foi assim na Etiópia, no Sudão do Sul e em Portugal. E vai ser assim, com certeza, onde a Trindade Santa me enviar a participar da sua única missão. Mesmo em contraciclo: quando queria ir para o Sudão, mandaram-me para a Etiópia; quando pensava regressar à Etiópia, propuseram-me o sul do Sudão. Fui e não me dei mal!

Por isso, vou acolher com alegria a «obediência» que o Senhor da missão me dá através do Conselho Geral. Primeiro, contudo, tenho que «recauchutar» a anca esquerda. Espero que o processo seja rápido!

Aproveito para te desejar Boas Festas de um Santo Natal e de um 2020 abençoado. Sabias que a manjedoura mais apropriada para o Deus-Menino nascer é o teu coração? Escancara-lho!

Dou os parabéns ao P. Fernando Domingues por ter sido escolhido e nomeado superior provincial a partir de 1 de janeiro de 2020 e peço que o Espírito do Senhor o assista neste novo serviço-chave.

Durante estes anos passei muitas vezes um a um os nomes dos membros da Província em frente ao Santíssimo para agradecer e abençoar. É nesse espírito que invoco a bênção de São Daniel Comboni: «Sempre peço ao Senhor por vós, pela vossa felicidade, pela vossa harmonia, por vossas almas, por vossos corpos. É a prece mais espontânea e sincera que me pode sair do coração» (Escritos 675).

Reza também por mim.

E, já agora faz-me um favor: não deixes que te roubem a alegria de seres missionário comboniano! Hoje e sempre. Amen.

6 de dezembro de 2019

ONDE O BACALHAU É REI



O Natal ainda vem longe mas, aqui e além, ouço dizer que já vem perto, que está mesmo a chegar. É uma quadra do ano em que, por vezes não podemos senão dar espaço à mente e à imaginação em busca de beleza, brilho e contemplação. Lá fora, na rua, apesar do frio, gente pára a admirar os enfeites, as luzes coloridas e as vidraças carregadas de montras. E a neve lá está, real ou imaginária, ao alcance do olhar ou mesmo debaixo dos pés. No aconchego e quentinho de casa, a família deseja reúne-se à volta da mesa tradicional onde o bacalhau é rei e superabundam guloseimas e doces. E uma boa pinga também não poderia faltar. Traz-se o pinheirinho e segue-o, de perto, o pai natal de barbas brancas com o baú das prendas. Por fim, vem a figura singular e exótica dos reis magos que, atravessando o deserto, chegarão a Belém, montados em camelos… Bem, mas, para tal, no país onde me encontro como missionário, o Sudão, nem preciso de imaginação: o deserto e os camelos são cá de casa.

«E o Menino? Um Natal cheio de tudo sem, sequer, O mencionar? Que gralha!» Parece que já estou a ouvir o teu murmúrio. Mas, ainda bem, pois, dessa maneira, puseste-o à vista, o qual era, precisamente, o meu desejo. Entraste, em cheio, no tema. Parabéns! Na verdade, o Nascimento de Jesus é a base de tudo o que, porventura, se venha a dizer ou fazer à volta do Natal. As tradições e os costumes que se criaram ou se vão criando, no tempo e no espaço, contribuem para vivermos as festas natalícias com bom espírito. No entanto, ao que vejo e não vejo, cada vez fico mais convencido de que, com o Natal tão secularizado deste nosso tempo de hoje, há o perigo de andar só pela rama, fazendo excelentes celebrações, acabando por chamar Natal àquilo que, realmente, não é. Porque falta o essencial. Falta o festejado. Falta o Menino Jesus.

Sou apologista da alegria completa e bem festejada. Mas que dizer de um presépio que ostenta, porventura, uma gruta admirável se o Menino não passa de uma frágil estatueta que não impressiona nem mexe com a nossa vida? A propósito, permito-me contar o que há uns anos atrás me aconteceu em Nyala, Darfur, com um grupo de jovens amigas e amigos reunidos à volta do presépio. A um dado momento, abaixei-me, peguei no Menino Jesus e, voltando-me para eles, disse: “nasceu para mim e para ti. Mas Ele não quer que fiquemos encantados e distraídos a olhar para a sua figura. Jesus tem o caminho marcado pelo Pai. Caminhemos com o Menino do Natal. Quanto a mim, foi por isso que eu vim para o Darfur e me encontro aqui hoje no meio de vós.”

Uma jovem, de nome Miriam, simpatizante cristã que, num futuro próximo deseja receber o Baptismo reagiu, confusa. A sua voz soou-me quase como uma repreensão: «Abuna, padre, foi realmente por isso que tu saíste da tua terra? Custa-me crer que, lá no teu país, o Natal não seja muito mais divertido do que aqui, no Sudão». E, quase querendo mostrar o que sabia a respeito te tão sagrado tema, continuou: «Pois deixa que te diga, eu tive ocasião de ver festas de Natal num programa de Televisão… lindo de verdade, coisa impossível de realizar aqui no nosso país. Não tenho bem a certeza, mas parece-me que também havia um Menino Jesus lá nesse show televisivo».

A reacção de alguns do grupo foi evidente: a Miriam estava longe de saber o que significa o verdadeiro Natal cristão. Da minha parte, compreendo que ela, não sendo cristã, tenha falado do seu Natal como um show que encontrara num qualquer canal televisivo. Mas ficaria realmente triste e preocupado se aquelas mesmas palavras viessem da boca de um cristão. Naquele mesmo instante, os meus olhos toparam com Henry, um seminarista de teologia, sudanês. Adivinhei no seu rosto um ar de reflexão, quase preocupante. Não me foi difícil ler o seu pensamento imediato. Conhecia-o como um jovem de fé responsável. Que sentimentos despertaria nele esta festividade cristã tão distintiva? Hesitou um momento mas, por fim, revelou o que lhe ia no coração:

«Quando era ainda catraio, gostava de ouvir os meus pais contar-me a história do nascimento de Jesus com todos os seus pormenores. Era um tema que a minha mãe repetia frequentemente, dando a impressão de que isso era tudo e só o que ela sabia e tinha para me ensinar. Mais tarde, no seminário, soube que a celebração da Páscoa é, sem dúvida alguma, superior à festa do Natal. E também fiquei a saber porquê: é que a Ressurreição é o tope e o máximo da fé cristã. Um dia, contei-lhe esta minha majestosa descoberta. E da sua boca saíram palavras de sabedoria que, até hoje, guardei com carinho. Foi então quando me disse que a Páscoa da Ressurreição é, de facto, a base da nossa fé, mas não podemos, tão-pouco, negar a importância do Natal. Jesus não poderia ter ressuscitado, se não tivesse morrido. E não poderia ter morrido, se não tivesse nascido.»

Os jovens manifestavam interesse em escutar o Henry que, entretanto, concluiu, citando palavras de sua mãe: «Meu filho, celebra o nascimento de Jesus, o Natal, com toda a solenidade, pompa e alegria. Mas nunca percas de vista o Menino de Belém que sua mãe Maria pousou no berço-manjedoura. Acompanha-o sempre nas suas palavras e obras… até ao dia em que irá morrer na cruz e nos conduzirá à Páscoa da Ressurreição. Desculpa se te fiz esperar até hoje para ouvires esta suprema verdade. A minha demora, propositada, sobre este assunto, foi para que fixasses bem na tua mente que Jesus, verdadeiramente, nasceu neste nosso mundo e, como ser humano, se encaminhou para a morte e ressurreição. Porque há pessoas, meu filho, que negam a encarnação de Jesus. Negam a sua humanidade. Negam o Natal.»

Não conheci a mãe do Henry mas revejo-me nas suas palavras. Deus encarnou em Jesus. Humano entre os humanos, Ele caminhará até chegar ao grande dia, aquele domingo, em que a manjedoura se transformou em túmulo. Um túmulo vazio. E, naquele mesmo instante, a Páscoa aconteceu.

Nasceu para mim e para ti. Para todos. Ai de nós, se perdermos de vista o Menino da manjedoura. Caminhemos com Ele para a meta do domingo de Páscoa, onde a Salvação nos espera. É por essa razão que os missionários partem. Para convidar os seus semelhantes a caminhar os caminhos da Salvação que o Natal, junto com a Páscoa, nos oferece. Verdadeiramente, na alegria do Natal já entrevemos e avistamos a alegria da Páscoa.
Feliz da Costa Martins 
Padre missionário comboniano 
El Obeid, Sudão

4 de dezembro de 2019

ADEUS MALÁRIA?


A malária pode ser erradicada se houver boa vontade.

Quando pensamos em animais perigosos, evocamos leões, leopardos, búfalos, hipopótamos, rinocerontes e afins. Contudo, o animal mais feroz é o minúsculo mosquito, responsável pela morte de 725 mil pessoas por ano através da transmissão por picada de doenças como a malária e a dengue.

A malária ameaça 3,4 mil milhões de pessoas em 97 países. A fêmea de cerca de 40 espécies do mosquito anófeles é o vector do parasita plasmódio que leva a malária de pessoas para pessoas por meio da sua picada. O parasita mais agressivo é o plasmódio falciparum, responsável pela maioria dos casos fatais da doença.

Em 2017, a Organização Mundial da Saúde reportou 219 milhões de episódios de malária em 87 países. Faleceram com a doença 435 mil pessoas, a maioria crianças com menos de cinco anos. A malária mata uma a cada dois minutos. Noventa por cento dos casos ocorrem em países africanos e quase três quartos dos episódios estão localizados em dez países a sul do deserto do Sara (Burquina Faso, Camarões, Gana, Mali, Moçambique, Níger, Nigéria, República Democrática do Congo, Tanzânia e Uganda) e na Índia.

Portugal teve malária endémica até 1950, sobretudo nas bacias dos rios Mondego, Sado e Águeda. O aquecimento global pode trazê-la de novo. Em português usamos duas palavras para designar a doença: malária (que vem do italiano e refere-se ao mau ar das águas paradas onde os mosquitos se multiplicam) e paludismo (do latim palude, paul ou pântano). Chama-se sezão (ou sezões) à febre provocada pela malária.

A malária atinge grandemente a economia dos países afectados, porque atinge a força de trabalho e gasta a fatia de leão dos orçamentos para a saúde.

Até 2000, o combate à malária esteve estagnado, porque é uma doença dos países pobres sem grandes recursos económicos. Na viragem do século, os casos de malária começaram a baixar significativamente devido ao financiamento de meios profilácticos. A Fundação Gates tem financiado a investigação. Em 2017, foram registados mais três milhões de casos que no ano anterior.

O combate à malária passa sobretudo pela prevenção. Dois meios importantes: a desinfecção de águas estagnadas com insecticidas (o DDT foi muito usado) e o uso das redes mosquiteiras para proteger as pessoas durante o sono (porque o anófeles é activo sobretudo ao anoitecer e de madrugada). Organizações não-governamentais têm distribuído milhões de redes tratadas com insecticida (que às vezes acabam na pesca).

O parasita tende a ganhar resistência às terapias. Por isso, as vacinas são uma linha fundamental no combate à malária. Neste momento, há organismos (incluindo portugueses) com trabalhos de investigação adiantados em relação a uma vintena de vacinas para prevenção da malária. Gana, Quénia e Maláui já estão a usar a RTS,S, a primeira vacina para crianças.

Outras soluções mais tecnológicas – como a da Microsoft – passam pelo uso de drones com armadilhas para apanhar mosquitos que, aliados à biologia molecular, podem detectar surtos de malária e actuar antes que o problema afecte a saúde pública.

Os odores são outra linha de investigação. Os mosquitos são atraídos pelo cheiro das pessoas afectadas pelo parasita, mas parecem detestar o odor das galinhas que podem ser um repelente natural dos mosquitos.

30 de novembro de 2019

NOVO BEATO COMBONIANO


O Papa Francisco autorizou o Prefeito da Congregação da Causa dos Santos a publicar o decreto sobre o milagre atribuído à intercessão missionário comboniano padre José Ambrosoli.

Na mesma audiência o Cardeal Angelo Becciu apresentou os milagres de um beato e de outro servo de Deus e o martírio de 16 católicos durante a guerra civil de Espanha e de um padre polaco nos anos 40 do século passado.

A publicação do decreto sobre o milagre abre as portas à beatificação do médico da caridade.

José Ambrosoli nasceu em Renago, Itália, e entrou para os combonianos em 1951 depois de frequentar um curso de medicina tropical em Londres.

Foi ordenado em Dezembro de 1955.

Partiu para o Uganda em 1956 com 32 anos, mês e meio depois da ordenação.

Começou por trabalhar em Gulu, no norte do Uganda, entre o povo Acholi.

Em 1961 foi transferido para Kalongo, na mesma região.

Ali fundou o hospital que serviu como médico-cirurgião por mais de 30 anos.

«Deus é amor, há um próximo que sofre e eu sou o seu servo», dizia Ambrosoli.

As pessoas chamavam-lhe «doctor ladit», o grande médico.

Faleceu a 27 de março de 1987, em Lira, depois de os soldados o terem forçado a evacuar o hospital devido à guerra civil.

Tinha 65 anos.

O hospital de Kalongo foi reaberto dois anos depois com o nome de Dr. Ambrosoli Memorial Hospital.

Há mais três combonianos na linha da beatificação: o bispo António Roveggio, sucessor de São Daniel Comboni, os padres Bernardo Sartori e Ezequiel Ramin e o Ir. Josué Dei Cas.

SUDÃO DO SUL: UMA VERDADEIRA ESCOLA DE MISSÂO

Conheci o estudante comboniano Komakech James Kenyi em março de 2013 numa peregrinação à área no Sudão do Sul onde Daniel Comboni viveu a su...