12 de dezembro de 2025

#TheScarfProject

Tenho usado um véu ou um lenço na cabeça durante grande parte da minha vida. Na minha congregação, as Missionárias Combonianas, não é obrigatório, mas eu escolhi usá-lo livremente. Na Itália, terra de muitas das nossas irmãs mais velhas, o véu adquiriu para mim um significado profundo: um sinal de continuidade, respeito e pertença.

Nos Estados Unidos — enquanto estudava, vivia no campus, servia as comunidades migrantes na fronteira, trabalhava na pastoral paroquial, fazia animação missionária e coordenava a Associação de Irmãs Latinas — eu usava-o com intenção, consciente do que ele revelava sobre a minha identidade e a minha missão.

Fiz os meus votos perpétuos no Egito, um país de maioria muçulmana, onde o véu se tornou quase parte de mim. Às vezes, trocava-o por um simples lenço para me mover discretamente pelas ruas, mesquitas e mercados. No entanto, cada vez que o voltava a colocar, reencontrava-me: uma serena certeza de lar, proteção e sentido.

No Sudão, ainda jovem e à frente do gabinete de comunicação da Arquidiocese, o véu dava-me identidade e autoridade. Abria portas e gerava respeito em contextos onde uma jovem sem véu não seria levada a sério.

No Sudão do Sul, tornou-se mesmo um escudo. Nos anos turbulentos após o Acordo Global de Paz, com soldados e milícias por toda parte, o véu literalmente salvou a minha vida. Uma tarde, eu conduzia sob um sol escaldante e, para aliviar o calor, tirei-o; um soldado, furioso, parou-me em atitude ameaçadora. Só quando cobri a cabeça é que a sua postura mudou. «Desculpe, irmã!», disse ele enquanto me devolvia os documentos.

Na Guatemala, a experiência foi diferente. Lá, o véu evocava um estatuto e um prestígio que eu não desejava assumir. Optei então por me vestir como as mulheres locais — calças e blusas bordadas com flores e cores vivas — para caminhar ao lado delas como uma mais.

Na Palestina, trabalhando com mulheres beduínas da Cisjordânia, o véu voltou a parecer natural. A graça e a dignidade com que o usam fizeram-me sentir imediatamente em casa. Em Jerusalém e no deserto da Terra Santa, as mulheres — muçulmanas, judias e cristãs — cobrem a cabeça. Entre elas, encontro novamente ressonância. O meu simples véu branco torna-se um sinal de quem sou e do que escolho ser.

Sempre que o coloco, lembro-me da promessa feita no dia dos meus primeiros votos: caminhar entre os povos de Deus com humildade e presença — com ou sem véu — buscando sempre a sintonia com as mulheres, as culturas, as línguas e as vidas que encontro.

E, para além do véu, desejo permanecer unida ao Único que é Compaixão e Misericórdia, o Deus que nos reúne e nos convida a refugiar-nos sob o suave véu da Sua santidade: esse manto divino que protege, consola e envolve com ternura cada coração, guiando-o para o seu verdadeiro lar.

Ir Cecília Sierra

Missionária Comboniana no deserto da Cisjordânia

2 de dezembro de 2025

A FORÇA DA GERAÇÃO Z


Madagáscar tem novo chefe de Estado desde Outubro, depois de o presidente Andry Rajoelina fugir do país após três semanas de manifestações sobretudo de jovens da Geração Z, os nativos digitais nascidos entre 1997 e 2012. O coronel Michael Randrianirina é o novo líder do país-ilha do Índico. Os cortes prolongados de água e de eletricidade foram o rastilho que desencadeou o grande levantamento juvenil que fez pelo menos 22 mortes e mais de uma centena de feridos. Dom Benjamin Ramaroson, arcebispo de Antsiranana, explicou ao portal ACI África que «os jovens, desarmados, queriam reivindicar os seus direitos fundamentais, mas a repressão foi muito dura».

A Geração Z africana representa 40 por cento da população – cerca de 600 milhões de jovens – e vive no espaço digital, usando-o para comunicar e se organizar. Viu-se em Madagáscar como se tinha visto no Quénia e em Marrocos. E depois na Tanzânia.

Em Junho de 2024, o presidente William Ruto do Quénia introduziu no Parlamento um projeto de lei para aumentar o IVA sobre bens essenciais e cortar nos subsídios aos combustíveis. Os jovens foram para a rua lutar contra a proposta. As forças da ordem reprimiram os manifestantes com violência e dezenas foram mortos. No final, o presidente teve de fazer marcha-atrás. Em Julho deste ano, a Geração Z regressou às ruas contra o governo de Ruto no 35.º aniversário da marcha Saba Saba do movimento pró-democracia. Exigiam melhores condições de vida e mais transparência nas contas públicas. A comissão queniana de direitos humanos registou 31 mortes, 107 feridos e mais de 500 detenções.

Em Marrocos, os jovens, organizados sob o coletivo GenZ 212 – o número do indicativo telefónico internacional do país –, protestaram contra os gastos do Governo com as infraestruturas para o mundial de futebol de 2030 (que o país organiza com Portugal e Espanha), e a falta de investimentos na saúde e na educação e queriam a demissão do primeiro-ministro. As manifestações foram brutalmente reprimidas pela polícia.

Na Tanzânia, nas eleições presidenciais de 29 de Outubro, os nativos digitais também estiveram particularmente ativos, sobretudo depois de a comissão eleitoral ter declarado vencedora a incumbente Samia Suluhu Hassan com quase 98 por cento dos votos. A União Africana denunciou o ato eleitoral como não conforme com os padrões democráticos internacionais. As autoridades usaram de força letal contra os manifestantes e ocultaram os mortos. Mais de uma centena foram levados a tribunal acusados de tentar obstruir o ato eleitoral.

A Geração Z africana é uma geração que se faz ouvir, militante, corajosa, ciosa dos seus direitos. Uma força com que os políticos têm de se haver. A rápida expansão e a grande acessibilidade da rede digital facilitam a sua intervenção. Daí que, quando há agitação social, os governos tendam a desligar a internet ou, pelo menos, as redes sociais.